As TRANSMISSÕES na GRANDE GUERRA – Relatório de Soares Branco (6)

Post do Cor Aniceto Afonso, recebido por msg:

  1. A ENTRADA EM LINHA DAS UNIDADES PORTUGUESAS

Introdução

Ainda no capítulo II do seu relatório, o capitão Soares Branco aborda a questão da entrada em linha das primeiras unidades portuguesas e dos problemas com que se defrontou para que a operação corresse o melhor possível. É desse assunto que trataremos neste texto.

Depois do período de instrução nas respetivas Escolas, as unidades portuguesas foram-se preparando para substituir unidades inglesas nas linhas da frente. O primeiro setor a ser ocupado foi o de Ferme du Bois, com uma frente de cerca de 4 km, dividido em dois subsetores de Batalhão em 1ª linha. Os Batalhões da 1ª Brigada foram os primeiros a avançar para as respetivas linhas, começando por um período de estágio junto das unidades inglesas, desde as Companhias até à Brigada. Ainda em março já se iniciava esta sobreposição. Pelos fins de abril tudo estava pronto para que as unidades portuguesas assumissem as suas responsabilidades operacionais.

THE PORTUGUESE EXPEDITIONARY CORPS ON THE WESTERN FRONT, 1917-1918 Portuguese troops entraining for the front line in France, 1917. Copyright: © IWM

Mas Soares Branco não podia deixar de avisar o estado-maior do CEP, em nota de 30 de abril:

Aproxima-se o momento em que tropas nossas deverão marchar para a 1ª linha com a responsabilidades dos seus sectores e este Serviço, bem a pesar seu, tem a declarar antecipadamente que não pode garantir nem sequer estabelecer em más condições qualquer sistema de ligações interiores entre unidades portuguesas e muito menos entre unidades portuguesas e inglesas.

Com inteira verdade tenho sempre informado as estações superiores acerca do grau de instrução do pessoal e dos recursos do serviço, e não posso pois ser inculpado no dia em que este problema for de capital importância de não ter formulado a questão nos seus devidos termos.

Mais valia a presença de (13 x 24) 312 praças de telegrafistas de praça há algum tempo em França para tornar profícua e possível a nossa participação com o Exército inglês, que a vinda de um Batalhão de Infantaria.

Algumas dessas praças são da classe de 1908 e como tal, necessitam algum tempo de instrução.

Só podem chegar nos fins de maio. Quando pois, poderá haver ligações entre as unidades?

E se assim está o problema para as Divisões, para o Corpo e para a Arti­lharia as coisas passam-se de modo análogo.

Para o Corpo é indispensável a vinda imediata da 3ª Secção de T.P.F. sem preocupações de quaisquer pequenas faltas de material técnico que aqui facil­mente possa suprir.

Para a Artilharia de Campanha, os seis oficiais adjuntos propostos antes de fevereiro, quando chegarem, pelo menos a três deles, os da 1ª Divisão, destino di­ferente terei que propor, pois não é justo nem prático que aos três subalternos de artilharia que até hoje têm tido a seu cargo a instrução das secções de sinaleiros dos Grupos, lhes seja retirado esse serviço de ligações para o en­tregar a outros que não acompanharam a instrução e tão tardiamente chegaram.

Para a Artilharia Pesada propus e V. Ex. aprovou, que fosse pedido para Lisboa a vinda de cinco secções de Marconi a dorso já existentes em Portugal. Sem elas nada se poderá fazer; qualquer instrução que aqui não seja dada só servirá para protelar a questão e desviar elementos que aqui, e só aqui, podem prestar o seu concurso”.

E para que não restassem dúvidas sobre o essencial das necessidades do Serviço Telegráfico para responder às tarefas que lhe estavam cometidas, resumia Soares Branco a situação, ainda na mesma nota:

“Para resumir o que acabo de expor formulo as seguintes questões:

1. Para que as Divisões possam ter serviço de ligações é indispensável:

a) a vinda imediata de 13×24=312 praças da Companhia de Telegrafistas de Praça para os Batalhões de Infantaria, e de um Sargento e 10 Soldados para cada Divisão.

b) a vinda dos seis subalternos pedidos para a Artilharia e provenientes dos Telegrafistas de Campanha ou de Praça.

2. Para que a Artilharia Pesada possa ter ligações é indispensável a vinda de um tenente, cinco subalternos de Telegrafistas, pessoal e material de TSF sistema Marconi 1/2 Kw.

3. Para que o Corpo possa ter a rede de comunicações que lhe compete é in­dispensável a vinda da Secção de T.P.F. Nº 3.

4. Para que o Serviço Telegráfico possa ser razoavelmente estabelecido pare­ce pouco um adjunto, que pelos Quadros lhe compete, mas de que também não pôde até hoje dispor”.

Portanto, nem tudo estava bem do ponto de vista do Serviço Telegráfico. Como Soares Branco explicará, a capacidade de adaptação e a experiência no terreno acabaram por solucionar muitos dos problemas que parecia não terem solução.

Entrada em linha

A 1ª Divisão assumiu a responsabilidade operacional do seu setor no dia 16 de junho de 1917. Antes disso, as suas Brigadas e todos os Batalhões tinham já assumido essa responsabilidade sob o comando das unidades inglesas instaladas no terreno. Os primeiros Batalhões portugueses a avançar para a 1ª linha foram o Batalhão de Infantaria 22 e o Batalhão de Infantaria 34 (em 10 e 16 de maio respetivamente), que guarneceram os subsetores I e II do Setor de Ferme du Bois.

Em apoio avançou o Batalhão de Infantaria 28 e em reserva o Batalhão de Infantaria 21, ficando este na 2ª linha ou linha das aldeias, onde veio a instalar-se o Comando da 1ª Brigada, em Chateau du Raux.

Château du Raux, hoje

As unidades de Artilharia começaram a avançar também em meados de maio, em apoio das respetivas unidades da frente.

No início de junho estava também na frente a 2ª Brigada, que ocupou um dos subsetores de Neuve Chapelle, estendendo a frente defendida por unidades portuguesas para 6 km. Ficaram em 1ª linha os Batalhões 35 e 23, em apoio o Batalhão de Infantaria 24 e em reserva o Batalhão de Infantaria 7. O QG da 2ª Brigada instalou-se em Les Huit Maisons.

Finalmente instalou-se no Chateau de la Giclais o QG da 1ª Divisão, comandada por Gomes da Costa, ocupando a 2ª Brigada todo o setor de Neuve Chapelle e ficando a frente portuguesa da 1ª Divisão com 8 km. A 3ª Brigada ficou em reserva.

Gen Manuel Gomes da Costa, the Commander of the 1st Division CEP, outside his HQs in Lestrem, 24 June 1917. Copyright: © IWM.

Neste primeiro contacto com as linhas da frente, especialmente durante a sobreposição com as tropas inglesas, todos aprendiam o dia-a-dia das trincheiras que constava de uma série de tarefas cuja descrição podemos encontrar num outro relatório elaborado pelo major António José Teixeira, comandante do Batalhão de Infantaria 10. Diz ele que as praças aprendiam:

“a reparar um troço de trincheira, a conhecer o ‘a postos’ da manhã e da tarde, que era quando todos ocupavam o seu lugar para combate, a vigilância das sentinelas, o perigo das patrulhas pela esburacada terra de ninguém, a eficácia dos tiros dos atiradores experimentados, os snipers, o cuidado da observação nos postos de periscópio, o atavio diário da máscara, capacete e espingarda, como inseparáveis companheiros, e a irrepreensível limpeza das trincheiras, etc.”.

Lestrem – hora do Rancho

Por seu lado, os oficiais também tiveram a sua aprendizagem e, diz-nos o mesmo autor, focaram-se essencialmente em conhecer:

“os pontos vulneráveis, os melhores para atacar e contra-atacar, os caminhos de emergência e a sua utilidade, o sistema de drenagens e de abastecimentos, os serviços de saúde, os sinais de alarme de gás, os postos e instrumentos destinados a esses sinais e ainda a forma de pedir o SOS, os dispositivos durante o dia e os da noite, a forma de elaborar os relatórios diários e os de informações e ainda outros respeitantes aos nossos trabalhos e aos do inimigo, à direção do vento, à maneira de fazer requisições de material e víveres, de assinalar o número de granadas enviadas pelo inimigo e os pontos exatos de queda, espécie de fogo, movimento de aeroplanos, etc., etc.”.

Entrada em linha dos sinaleiros

O capitão Soares Branco estava sem dúvida preocupado com o bom desempenho dos seus telegrafistas e telefonistas, que ele sabia estarem minimamente preparados e poderem, com a prática, equivaler-se aos seus camaradas ingleses, mas o que essencialmente o trazia apreensivo era a capacidade dos sinaleiros para cumprirem as suas missões, pois, como diz, “evidentemente que é ocioso acentuar a sua falta de preparação”.

Os primeiros sinaleiros, depois da frequência da escola de formação, partiram para a frente no dia 19 de abril, a fim de se juntarem aos Batalhões 34 e 22. Ao mesmo tempo avançaram também os sinaleiros das primeiras baterias de Artilharia.

Soares Branco não perdeu tempo e fez uma primeira visita a estas unidades ainda na primeira quinzena de maio, lamentando-se:

“fui encontrar o pessoal sinaleiro dos Grupos sem indicadores nas estações telefónicas…”.

Sendo assim, deviam os responsáveis portugueses e ingleses ser postos perante o problema, por forma a não se repetirem estas situações:

“O Exército Inglês que por um lado ativava a entrada em linha das nossas primeiras forças, não me fizera enviar a tempo o material telefónico que lhes competiria e que em 30 de março fora requisitado pela terceira vez.

Em nota Nº 86 relatei o resultado da minha visita às baterias já na linha, e propus que não fosse ordenado a nenhuma secção de sinaleiros a sua marcha para a frente, antes de lhe ser distribuído na zona da retaguarda todo o material que lhe fosse necessário.

Assim, foi comunicado ao 1º Exército e algum tempo depois começava chegando o material técnico necessário de forma a poder regularizar-se um pouco a sua distribuição”.

Resolvido o problema do material, restava a preocupante situação do pessoal das secções de sinaleiros e do apoio que deviam dar a todas as unidades da frente. A eficiência de um sistema de ligações, com o envio e a receção de mensagens dentro dos prazos estipulados era, como sempre é, a base de uma boa ação de comando, que deve ter acesso rápido a todas as informações que chegam das unidades que ocupam o terreno, assim como estar certo de que as suas ordens e orientações chegam em tempo aos seus comandos subordinados. Essa é a base de um dos elementos essenciais do combate e também um princípio da guerra – o Comando/Ligação. E se na situação de uma frente estática o problema era por vezes resolvido por outra forma, especialmente através de estafetas, a verdade é que em muitas situações tal não se revestia da eficiência indispensável.

Era com base nesse conhecimento, que Soares Branco se empenhava na preparação dos sinaleiros, que ele bem sabia constituírem um dos elos fundamentais da cadeia de comando. Daí a expressão das suas preocupações:

Mas a falta de suficiente instrução do pessoal sinaleiro, pela sua pouca permanência na Escola de Sinaleiros (cerca de 4 semanas), o diminuto número de praças que soubessem ler e escrever corretamente, a não existência de pessoal de Telegrafistas de Praça que enquadrassem essas primeiras seções de sina­leiros, a dificuldade enorme que sempre existe em treinar o ouvido à perceção rápida de sinais só transmitidos pelo vibrador acústico, a proibição por causa das interceções de mensagens por parte do inimigo dos despachos tele­fónicos, constituíram outras tantas causas de dificuldades para a montagem do serviço que só uma excecional boa vontade por parte dos oficiais sinalei­ros e das praças, procurando por todas as formas aperfeiçoar os conhecimentos e treino já adquiridos, pode explicar o haver-se conseguido o regular funcionamento das ligações que se foi obrigado a estabelecer algum tempo depois na nossa lª Divisão especialmente nessa 1ª Brigada que entrou na linha (Batalhão de Infantaria 34, 22, 21 e 28)”.

Como relata Soares Branco, um oficial inglês que visitou com ele a Escola de Sinaleiros, ao ver a dificuldade que os homens tinham em escrever, comentou:

“vós não podeis fazer destes homens sinaleiros de infantaria. No vosso caso dava ordens para que os despachos fossem transmitidos pelo telefone”.

E Soares Branco não deixa de lamentar a situação:

“Era triste de facto ver por esta forma exteriorizada a nossa inferioridade e patenteado bem a lume a praga do analfabetismo, quando tudo poderia ser remediado com uma mais rápida solução das propostas para a Metrópole enviadas”.

Plano de ligações a estabelecer

De qualquer maneira, a entrada em linha das unidades portuguesas era irreversível e quando as primeiras Brigadas já se aprontavam para seguir para a linha da frente, o Quartel-General Britânico, através da Missão Britânica, assim como o 1º Exército solicitaram ao Serviço Telegráfico do CEP,

“o plano geral das ligações a estabelecer para o caso da entrada em linha de uma ou duas das nossas Divisões juntamente com as tropas britânicas”.

Nestas circunstâncias, Soares Branco propôs em 14 de maio, e depois o Quartel-General Britânico estabeleceu, as seguintes regras para as ligações e as comunicações entre as unidades e os comandos das duas forças:

“1. Que junto dos QG do Corpo, das Divisões e Brigadas laterais funcionassem estações de junção portuguesas e inglesas, onde o serviço fosse executado, para as ligações interiores por pessoal português e para as ligações exteriores por pessoal inglês.

2. Que junto dessas estações houvesse algumas praças intérpretes, que fa­cultassem as constantes relações que a permuta de despachos certamente acarre­tava.

Desta forma, sem que uns embaraçassem os outros, eu conseguia resolver o gravíssimo problema da diferença de velocidade de transmissão pelo acústico entre os nossos telegrafistas e os telegrafistas ingleses, e o não menos importante facto das comunicações telefónicas em dois idiomas diferentes que dificultariam e impossibilitariam as comunicações.

Um telegrama do Exército para uma unidade do Corpo seria recebida no telégrafo inglês, entregue ao telegrafista português do Q. General do Corpo e por este enviado pelo telégrafo ao destinatário.

Uma comunicação telefónica de uma Repartição do Quartel-General Português era pedida pela Repartição ao indicador telefónico português, e por este pedida ao indicador inglês em ligação direta com o 1º Exército que a realizava”.

Ficava assim estabelecido o sistema de ligações entre o CEP e o comando e as unidades britânicas. Mas Soares Branco não duvidava do muito que ainda faltava fazer para garantir a eficiência do sistema acabado de estabelecer. Por isso a Escola de Sinaleiros continuou a ministrar a instrução necessária, em circunstâncias difíceis, pois as unidades estavam já nesta altura desfalcadas de muitos dos seus quadros e praças e os reforços solicitados ou não chegavam, ou chegavam muito lentamente, tornando muito difícil o cumprimento eficaz das missões do Serviço Telegráfico.

Conclusão

A entrada em linha das primeiras unidades portuguesas processou-se, apesar de tudo, com normalidade. Todas tiveram oportunidade de efetuar um estágio com as tropas britânicas, já muito experientes, pois estavam nesta situação desde 1914. Pelos relatos que nos chegaram, todos foram bem recebidos pelos militares ingleses e todos iniciaram a sua presença na frente com boa vontade, empenhamento e desembaraço. À medida que o tempo foi passando e que as circunstâncias se foram agravando, em termos de rendição de tropas, de rotação nas linhas e do completamento de efetivos, a situação tendeu a complicar-se, ao ponto de se tornar insuportável do ponto de vista militar.

Tanto os soldados de infantaria, como os telegrafistas, guarda-fios e sinaleiros, ninguém poderia ficar imune ao lento descalabro das unidades portuguesas, que foram ficando cada vez mais reduzidas e mais fracas, tanto do ponto de vista operacional, como do ponto de vista moral.

Pelo que Soares Branco nos diz, os seus militares cumpriram sempre com grande empenho e muito sentido do dever as missões que lhes estavam atribuídas, apesar das circunstâncias adversas. Mas isso exigiu de todos um esforço suplementar, que Soares Branco procura realçar no seu relatório.

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Grande Guerra – CEP – Companhia de Telegrafistas do Corpo

 

 

CEP – Carta de comando do Comandante da Companhia de Telegrafistas do Corpo

O capitão de Engenharia Soares Branco foi o responsável pelo Serviço Telegráfico nas manobras de Tancos da Divisão de Instrução. Quando se constituiu o Corpo Expedicionário Português (CEP), ele foi naturalmente nomeado comandante do Serviço Telegráfico do Corpo e enviado para França. Seguiu por caminho de ferro, atravessando Espanha como muitos outros oficiais portugueses e chegou à zona de guerra em finais de Janeiro de 1917, apresentando-se no QG do 1º Exército Britânico.

 
A partir daí, Soares Branco dedicou-se à criação de condições para que as unidades e os efetivos relacionados com os serviços telegráficos pudessem bem cumprir as suas missões. Estagiou em unidades inglesas, elaborou relatórios, requisitou materiais, reconheceu as áreas de provável ocupação pelas unidades portuguesas, elaborou normas e regulamentos, previu a constituição de uma escola de sinaleiros, fez propostas para a organização, instrução e atribuição das unidades e dos meios de transmissões e definiu finalmente a estrutura do seu serviço e as missões e tarefas inerentes ao apoio telegráfico e de comunicações.

 
Todos os procedimentos foram sendo aperfeiçoados até às vésperas da entrada em setor do Comando do Corpo, ocorrida em 5 de Novembro de 1917. Dias antes, com data de 31 de Outubro, Soares Branco enviou as últimas propostas ao QG do Corpo, fixando a organização do Serviço Telegráfico (nota nº 924).

 
Para apoio do Comando do Corpo existia a Companhia de Telegrafistas do Corpo, constituída por uma Secção de Telegrafistas de Campanha e por uma Secção de Telegrafistas de Praça, às quais se juntava agora uma nova Secção Automóvel Por Fio (SAPF), que também era designada por Secção Automóvel de Ligação por Fio (SALF), que Soares Branco entendia necessário constituir, e a quem competia assegurar todas as ligações do QG do Corpo aos QG das Divisões e à Artilharia Pesada, conseguindo-se “desta forma economia de oficiais encarregados de funções administrativas e maior unidade de comando” (Relatório do Serviço Telegráfico, de Soares Branco, AHM/01/35/148).

 
Foi nomeado comandante da Companhia de Telegrafistas do Corpo o tenente de Engenharia João Alegria dos Santos, deixando a Escola de Sinaleiros, da qual era diretor. Logo em 13 de Novembro, o capitão Soares Branco dirige-lhe uma nota (nº 1028), indicando-lhe os métodos de trabalho técnico que julga preferíveis para as situações de “guerra de trincheiras”, “guerra de movimento” e “instrução”, constituindo este documento um esboço de carta de comando, que viria depois a ser aperfeiçoada de acordo com a experiência recolhida após a entrada em linha.

 
É o seguinte o texto da nota em questão:

“Ao Sr. Comandante da C. T. C.

Pela primeira vez que me dirijo a V. Ex. oficialmente, começo por lhe assegurar a certeza em que estou de que V. Ex. no exercício do comando que lhe foi agora confiado continuará demonstrando o muito zelo e inexcedível dedicação com que dirigiu a Escola de Sinaleiros.

Seguidamente passarei a indicar-lhe, duma maneira geral, qual o método de trabalho técnico que julgo preferível V. Ex. fazer executar, não me referindo a algumas questões de ordem administrativa que, fazendo-se sentir devido às distâncias que separam os comandos e as tropas, desaparecerão com o novo estado de coisas.

Guerra de trincheiras.

I. De entre os oficiais que compõem a Companhia, 1 deles, o comandante da S. de T. de Campanha Sr. Ten. eng. João Pedro Saldanha, ficará tendo a seu cargo as linhas desde a estação do Corpo às Divisões, e quaisquer outras que venham a ser entregues ao Corpo.
Elaborará juntamente com o oficial adjunto deste serviço os esquemas e plantas de traçado das linhas que for necessário enviar ao 1º Exército, e preparará a entrega das comunicações do Corpo a outra qualquer grande unidade. O serviço será montado com os elementos da S.T.P. Fios, e com as rondas dos guarda-fios que forem julgadas convenientes. Nesse serviço poderão ser coadjuvados pelo pessoal de T. P. (telegrafistas de praça) se assim for tido por necessário.
Haverá um graduado especializado por cada traçado principal de linhas o qual será nomeado chefe de guarda-fios do traçado. Um Sargento devidamente habilitado desempenhará o serviço de Chefe de guarda-fios.
Dever-se-á propor talvez de postos permanentes de guarda-fios para a ronda diária que as linhas devem sempre sofrer.
Cada manhã, depois do ensaio prévio das linhas da estação central será participado telefonicamente à S.T.C. quais as linhas que devem ser especialmente ensaiadas e vistoriadas.
Independentemente desse aviso, e segundo um horário a fixar, praças percorrerão os traçados para vigiar o inspecionar as linhas.
Os ensaios, porém, só serão feitos depois do aviso da central, sendo fixados os limites onde em cada traçado começam as praças o serviço e onde o acabam.
Se houver grandes reparações a efetuar ou construção de novas linhas, será solicitado o auxílio da Secção S.A.L.F. que se encarregará então do serviço que o Comando lhe prescrever segundo as instruções de este S.T.
O pessoal telegrafista e telefonista da S.T.C. coadjuva o da 1ª Secção da Companhia, sempre que tal foi pedido.

II. Competirá a um oficial da Companhia, o Sr. alf. eng. Marcial Freitas e Costa, a fiscalização e responsabilidade de tudo o quo disser respeito ao serviço na estação Central do Corpo – telefone, telégrafo e correspondência.
Para coadjuvar o serviço haverá diariamente o 1º sargento Vigoco na correspondência com 2 praças, um sargento de dia à estação – telegrafo e telefone – com 3 telegrafistas, 2 telefonistas, 2 guarda-fios, 1 motociclista, e 3 ordenanças sendo destas 2 ciclistas.
O Snr. alf. eng. Casquilho da S.T.C. será também, conveniente que tome conhecimento deste serviço, pois torna-se indispensável que haja sempre dois oficiais especializados em cada uma das secções da Companhia.
Às 3 horas o sargento de dia verificará todas as linhas que deem entrada na estação. Regista as indicações do ensaio, tendo para esse fim um livro riscado segundo o impresso regulamentar.
Seguidamente, às 11 horas, e na presença do oficial, serão experimentados todos os telefones, será distribuído o serviço aos guarda-fios da estação, pedido serviço aos guarda-fios da S.T.C., solicitados os trabalhos da S.A.L.F. ou ao Comandante da Companhia se se julga necessário.
É da estação central do Corpo que por intermédio da estação de Roquetoire se farão as explorações em toda a área do C.E.P., e para a frente para as estações centrais de cada uma das Divisões.

III. Competirá ao Oficial comandante da 2ª Secção – S.A.L.F.- o Sr. alf. eng. João D´Korth, não só a elaboração de acordo com o Comandante da S.T.C. de todo os projetos de traçados novos a construir, mas também a efetivação de grandes reparações que não possam ser realizadas pelo pessoal da S.T.C. Como comandante da 4ª Secção – S. E. Motociclistas – compete-lhe o serviço de correspondência segundo o horário pelo S.T. formulado, e fazer apresentar para serviço as praças que pela estação telegráfica, mediante autorização superior, sejam pedidas para serviço extraordinário.
No serviço de construção das linhas e instrução do pessoal deve também ser especializado o Snr. alf. Medeiros Tanger da S.T.C.

Guerra de movimento.

Competirá à S.T.C. a construção de todas as linhas de cabo desde o Q.G. das Divisões aos centros de comunicação fim das linhas de fio, para o que utilizará as 3 esquadras de cabo da Companhia.
Competirá à S.A.L.F. a construção de todas as linhas de fio desses centros de comunicação até ao Q.G. do Corpo, ligações laterais e ligações às linhas do Exército, para o que se servirá não só do material da sua Secção, como do material das esquadras de fio de campanha que lhe forem afetas.
Competirá ao C. da 1ª Secção da Companhia a responsabilidades do serviço na estação do Corpo.
Aos 2 subalternos da 3ª Secção e ao oficial de engenharia subalterno da Escola de Sinaleiros competirá o comando de cada uma das 3 esquadras de cabo e esquadra de fio para as quais existe o pessoal da mobilização na 3ª Secção.
Competirá ao oficial Comandante da 3ª Secção a responsabilidade das comunicações desde o Q.G. Avançado até às Divisões.
Competirá ao Comandante da C.T.C. e à S.A.L.F. e esquadra de fio de campanha adstrita a montagem e construção de todas as linhas desde a Estação central do Corpo à estação avançada e sua reparação.
Ao Chefe do Serviço Telegráfico competirá a direção imediata de todas as comunicações estabelecidas.

Instrução.

Conhecido o número de praças de serviço diário, proporá V. Ex. o horário etc. da instrução a dar às praças que estiverem de descanso.

                                                                                                                                                C. Soares Branco
Capt.                                                                                                                                                                           C. S. T. do C. E. P.”

(Ver o original em AHM/01/35/550/5)

Grande Guerra – As Comunicações de um batalhão na linha da frente


Em 10 de Setembro de 1917, o alferes José Augusto do Carmo, chefe da Secção de Sinaleiros do Batalhão de Infantaria 1 pertencente à 6ª Brigada, apresentou um relatório sobre o funcionamento das comunicações ao nível de batalhão nas primeiras linhas. Nesta data, o Comando do CEP ainda não exercia a responsabilidade do Sector Português, estando as unidades portuguesas sob o comando operacional do XI Corpo de Exército britânico comandado pelo general Hacking. A 1ª Divisão exercia essa responsabilidade desde o dia 10 de Julho e o Corpo Português assumirá esse comando no dia 5 de Novembro de 1917, ficando subordinado ao I Exército Britânico, sob o comando do general Horne.
As brigadas pertencentes à 2ª Divisão foram assumindo a responsabilidade das suas zonas de ação, até se concluir o período de sobreposição necessário ao avanço do comando, o que veio a acontecer no dia 26 de Novembro.
Cada divisão ficou constituída por três brigadas, cada brigada por quatro batalhões e cada batalhão por quatro companhias.
Em relação às comunicações, e segundo as informações do alferes Carmo, existiam, na área do batalhão, duas redes de comunicações por fio. Havia a rede de alarme SOS ou “omnibus” só para pedidos SOS, que ligava entre si todas as estações e os postos SOS do batalhão (postos mais avançados de observação, responsáveis por emitir alarmes),os quais se serviam do telefone. Os telefones funcionavam em paralelo e eram operados por sinaleiros.
A rede normal ligava o batalhão às suas companhias, aos postos avançados, às estações dos batalhões adjacentes, às unidades de artilharia de apoio e ao comando da sua brigada. O equipamento desta rede era constituído por dois indicadores 413 e fullerfones. Os fullerfones estavam ligados às centrais 413 e eram operados pelas praças da Companhia de Transmissões de Praça.
O pessoal que operava as comunicações no batalhão era constituído por soldados da Companhia de Telegrafistas de Praça, guarda-fios e sinaleiros. Cada batalhão tinha cinco soldados da Companhia de Telegrafistas, estando um no Batalhão e um em cada companhia; os guarda-fios eram três e estavam todos no Batalhão. Os sinaleiros eram dois por companhia (oito no total), estando um destacado no posto SOS da companhia quando esta estava na frente. De uma forma geral, o dispositivo do Batalhão na frente contava com duas companhia em primeira linha, uma em apoio e outra em reserva, embora os trabalhos fossem ininterruptos. As rotações faziam-se quase sempre com intervalos de seis dias.

O relatório atrás referido do alferes Carmo está estruturado da seguinte forma:
– Comunicações telefónicas estabelecidas
– Aparelhos empregados nas estações e postos
– Forma como o pessoal foi distribuído
– Como desempenharam a sua missão
– Como é pedido o auxílio da artilharia pela infantaria
– Como está montado o serviço de correspondência
– Informações diversas
O relatório, muito sintético e objetivo, dá uma ideia muito aproximada do funcionamento das comunicações ao nível do batalhão, apresentando as principais tarefas e dificuldades enfrentadas pela Secção de Sinaleiros. Publica-se integralmente.

CEP, 2ª Divisão, 6ª Brigada, 1º Batalhão
Secção de Sinaleiros de Infantaria nº 1
Relatório

Comunicações telefónicas estabelecidas.
Existiam no Batalhão em que fiz serviço duas redes de comunicações, uma, a omnibus ou de SOS, que ligava entre si todas as estações e postos os quais se serviam do telefone; outra, a normal, que permitia comunicações pelo fullerfone entre as estações do Batalhão e as que se lhe ligavam da retaguarda.
Junto a este relatório vão os respetivos esquemas.
Pelo primeiro destes sistemas, só é permitido falar-se quando em caso de SOS e mesmo assim limita-se o despacho a SOS e indicação do setor que o pediu. Pelo outro são enviados os outros despachos, mesmo de carácter D.D.
Aparelhos empregados nas estações e postos.
Na central do Batalhão bem como nas estações das Companhias existiam fullerfones. Em virtude do número de ligações no Batalhão existiam 2 indicadores 413, 2 fullerfones e 2 telefones, um para o SOS e outro para a verificação das linhas.
Cada estação está munida de um telefone ligado à linha do SOS e existem no sector de cada Companhia da frente e na 1ª linha um posto munido de um telefone e que é chamado posto de SOS, visto que é dali que parte em caso de perigo essa indicação, que é ouvida no Batalhão e em todas as companhias.
Os fullerfones que vi empregar eram os I e os telefones, franceses.
Forma como o pessoal foi distribuído.
Coloquei em cada Companhia um soldado da CTP e 2 sinaleiros. No Batalhão, um soldado da CTP e 3 praças como guarda-fios.
O sargento fazia serviço na central do Batalhão, e todos os sinaleiros passaram por todas as situações: companhias da frente, apoio, reserva, postos de SOS e central do Batalhão.
Como guarda-fios guardei os inaptos para sinaleiros. Esses acompanharam sempre o serviço que hão de desempenhar.
Como desempenharam a sua missão.
Se atender ao pouco tempo de instrução que tiveram na Escola (1), ao facto de nem todos terem sido sinaleiros, e ao conhecimento de que não tenham responsabilidade no desempenho do serviço, portaram-se a contento.
No entretanto, é preciso substituir alguns homens, para o que já estou dando instrução a igual número.
Como é pedido o auxílio da artilharia pela infantaria.
Quando é necessário bater um ponto inimigo pela artilharia, o fogo é pedido pelo Batalhão às baterias que o apoiam.
Em caso de SOS, para maior rapidez, e segundo as instruções, é comunicado ao Batalhão telefonicamente o sector que periga e este, por sua vez, comunica às baterias.
Se falta o telefone usam-se os outros meios de comunicação e em último caso foguetões, que bastam só por si para que a artilharia faça fogo sobre a frente inimiga indicada pela direção em que os foguetões foram lançados.
Como está montado o serviço de correspondência.
A central do Batalhão é ao mesmo tempo posto de correspondência. Esta é agrupada ali conforme a proximidade dos seus destinos e enviada pelos ciclistas e estafetas apeados. A correspondência urgente é enviada imediatamente, e é considerada urgente a que se refere a munições, para o que lhe basta a indicação no envelope “Munições”.
Este serviço é fiscalizado nos recibos que o destinatário assina e que registam as horas da entrega e do recebimento, nº da correspondência e destino.
Informações diversas.
Não se utilizam nas trincheiras, nem bandeiras, nem discos.
Não vi tão pouco utilizar as lanternas de sinais. Julgo possível e conveniente o seu emprego em comunicações da frente para a retaguarda para postos que não dariam conferências nem entendidos.
Cada linha tem a sua linha de reserva, que passa por itinerário diferente.
As linhas passam em diversos sítios por caixas de experiências, para mais facilmente se conhecerem as avarias e as reparar.
Em Campanha, 14 de Setembro de 1917
José Augusto do Carmo
Alf. Infª. 1”.

(1) Refere-se à Escola de Sinaleiros, em França, que dava instrução aos sinaleiros, de telefonia acústica (buzzer), telefonia por voz e telegrafia ótica com bandeiras, com quadro venezianos e lâmpadas (lanternas).

 

Rede SOS

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Rede Normal

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Grande Guerra -IV- Divisão de Instrução, manobras de 1916 – 5ª parte

As comunicações na Divisão de Instrução, nas manobras de 1916 

Aniceto Afonso
Jorge Costa Dias

 

5. 2 As comunicações na Divisão de Instrução – Instrução

Foi a instrução nº12 da 1ª Repartição do Quartel General que estabeleceu a instrução a ministrar às secções de Telegrafistas de T.S.F. e de Campanha T.P.F. durante as manobras.

– Secção TSF
A Secção de TSF, durante todo o período dos exercícios, dedicou-se à tarefa de instalar a estação de TSF Marconi (MM1), assim como à prática de recepção pelo ouvido, à prática dos motores TSF e ao estabelecimento de comunicações com Lisboa (MM2) e com o Alfeite (Marinha).

– Secção TPF
A instrução em Tancos para os telegrafistas de campanha abrangeu as comunicações telegráficas e telefônicas, assim como os heliógrafos e as bandeiras.
Vejamos alguns dos materiais que foram usados:

Telefones
Foram usados telefones e a central telefônica Ericson e também os telefones de Cavalaria.

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Heliógrafos
Foi usado na instrução o heliógrafos de Mance.

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Heliógrafos e lanterna de Mangin

E também o heliógrafo e lanterna de Mangin.

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Bandeiras
Também foi ministrada instrução de bandeiras, que podiam utilizar o código Morse ou o alfabeto homográfico.

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Bandeiras e códigos
No código Morse, com apenas uma bandeira, havia três posições – posição normal, posição de ponto e posição de traço.

 

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– Esquadras de construção
A partir de 5 de Junho iniciou-se a instrução programada para as diversas especialidades da Secção de TPF e assim, no período de 5 de Junho a 15 de Julho, as esquadras de construção praticaram:
Construção de linhas permanentes
Construção de linhas de cabo
Construção de linhas de fio

 

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– Serviço Ótico
As esquadras de serviço ótico praticaram a utilização de:
Heliógrafo de Mance na ligação do Alto de D. Luís com o Alto da Conceição e de Mangin na ligação do Alto de D. Luís com o Alto da Barquinha, assim como o uso de bandeiras na ligação Casal do Rei com Cascalheira do Freixo.

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11 ligação por bandeiras

– Tarefas dos telegrafistas
Durante todo o período de manobras, as tarefas dos telegrafistas consistiam em treinar os procedimentos telegráficos, assegurando o funcionamento das estações, garantirem o apoio e as ligações entre as unidades e assegurarem as ligações durante as marchas.

 

 

Imagem37

 

– Mapa
No conjunto de exercícios do período de instrução pode destacar-se o exercício de grandes destacamentos mistos realizado em 24 e 25 de Julho no planalto da Barquinha no qual se confrontavam a 1ª BI (P.V.), na defensiva, e a 2ª BI (P.A.) no ataque. Reparar que o terreno foi organizado para a defensiva, reconhecendo-se as trincheiras.

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– Instalação de tropas e ligações
Neste exercício, a Secção de TPF instalou e explorou a partir do QG as linhas de cabo para a estação telegráfica da Barquinha, para a Reserva Geral e para o Alto das Éguas e uma ligação ótica também para o Alto das Éguas. Os telefonistas de infantaria instalaram a rede telefónica de serviço ao exercício, assim como uma ligação ótica.
Na imagem apresentam-se as ligações na zona da ação da 1ª BI, que estava na defensiva.

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– Esquema do exercício
No seu conjunto, o exercício pode ser representado como se vê na imagem.

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– Ação sobre Atalaia
Por sua vez, o exercício de Divisão (o maior exercício efetuado durante o período de manobras) foi realizado de 29 a 1 de agosto, concretizando-se através de uma ação sobra a Atalaia. Neste exercício, a Secção TPF teve como missão garantir as ligações durante as marchas, utilizando as estações civis e montando as linhas necessárias para acompanhar as movimentações.

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Os trabalhos efetuados nas manobras de Tancos pelas tropas de transmissões situaram-se em bom nível e apoiaram com bastante eficácia as unidades operacionais, acompanhando as suas movimentações. Testaram os seus conhecimentos e os materiais utilizados. Para aqueles que vieram a integrar o C.E.P., como por exemplo o seu responsável máximo, capitão Soares Branco, foi uma experiência muito útil.

 

6. Balanço dos exercícios militares

Conclusões
Como balanço deste nosso estudo, como dissemos ainda incompleto, escolhemos alguns trechos de relatórios de unidades participantes:
“A intensidade da instrução em Tancos levou-nos a marchas longas bastante penosas, debaixo dum calor ardentíssimo e perfeitamente cercados de nuvens de pó, pois nem assim os nossos soldados deixaram de cumprir com o seu dever” (Coronel Barreira, 2º Regimento da 1ª BI);
“Nas localidades, nenhumas notas discordantes se deram, havendo localidades em que todos, à porfia, primavam em atenções para oficiais e praças que, pela sua conduta irrepreensível, souberam corresponder ao acolhimento amigável que lhes era feito” (Coronel Fragoso, 1ª Brigada).
“Como consequência da falta de educação militar, deriva-se naturalmente a ausência de um espírito disciplinado, sofredor e obediente (…) Tive ocasião de notar que nos diferentes exercícios executados, não havia aquele empenho e aquela coesão e decisão indispensáveis para justificar a transição para as diversas fases dos combates” (Tenente-coronel Veiga, 1º Grupo de Metralhadoras).
“Praticaram-se todos os sistemas de ligações – cadeias de homens, ordenanças, sinais óticos, telefone e telégrafo, sendo digno de registo o desembaraço das tropas de engenharia na montagem e desmontagem dos dois últimos sistemas e na receção e transmissão dos despachos.
Os diversos meios de ligação, mais na ofensiva do que na defensiva, em que aquelas se tornam mais fáceis e práticos, nem sempre foram utilizados conforme as reservas disponíveis, situação tática, natureza do terreno e rede de comunicações, e daí as ordens, informações e notícias chegarem muitas vezes tardiamente, perdendo todo o valor” (Coronel Almeida Fragoso, comandante da 2ª BI).

Em suma, podemos concluir que as manobras de 1916 em Tancos, com a concentração de uma Divisão a duas Brigadas, foi uma decisão politicamente necessária, mas militarmente questionável. Os temas estavam desadequados em relação ao que se praticava quase desde o início da Guerra, na Frente Ocidental. As manobras testaram as capacidades militares do Exército, mas não serviram de grande lição.

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Grande Guerra -IV- Divisão de Instrução, manobras de 1916 – 3ª parte

As comunicações na Divisão de Instrução, nas manobras de 1916 

Aniceto Afonso
Jorge Costa Dias

 

4. Breve História das Transmissões no Exército Português até 1916

A primeira unidade militar de Transmissões em Portugal foi o Corpo Telegráfico, criado em 1810, pioneiro das telecomunicações militares e civis em Portugal.

regulamento de 1810 corpo telegráfico 80X80

Introduziu no país dois sistemas que revolucionaram as telecomunicações da época no país.Em primeiro lugar, a telegrafia ótica, a qual funcionou com base no telégrafo de ponteiro

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e no telégrafo de postigos

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inventados por Francisco Ciera, que estiveram presentes na defesa das Linhas de Torres, e cuja utilização se prolongou até 1855 na rede nacional, altura em que foi substituída pela telegrafia elétrica.

Em segundo lugar, a telegrafia elétrica, que foi operada pelo Corpo Telegráfico de 1855 a 1864, e posta ao serviço do público nacional e internacional. Começou por utilizar telégrafos Breguet

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Breguet-Telegraph-Transmitt

que foram depois substituídos por mesas de telégrafo Morse.

33-Telég Morse campanha
Em 1864 o Corpo Telegráfico foi extinto. O seu pessoal foi integrado numa organização civil do Ministério das Obras Públicas, a Direção Geral dos Telégrafos e Faróis.
A estratégia para a reintrodução das Transmissões no Exército deveu-se a Fontes Pereira de Melo e traduziu-se na inauguração, em 17 de setembro de 1873, da 1ª rede telegráfica militar com 13 estações, e em 1884, com a criação da Companhia de Telegrafistas do Regimento de Engenharia.

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Em 1901, por decreto de 7 de Dezembro, foi criada a Companhia de Telegrafistas de Praça.
Só com a reorganização do Exército de 1911 é que veio a ser criado, em 1913, o Batalhão de Telegrafistas de Campanha com uma Companhia de Telegrafistas por Fio (TPF) e uma Companhia de Telegrafistas sem Fio (TSF).
Voltando ao século XIX, devemos acrescentar que se assistiu à expansão da rede telefónica, que no início usou o telefone de mesa de Bramão concebido em 1879 por Cristiano Augusto Bramão (oficial do Corpo Telegráfico)

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e que é considerado uma referência a nível internacional, porquanto é o primeiro aparelho do mundo que apresenta, reunidos numa única peça, o auscultador e o microfone.
As redes de comunicações conheceram uma crescente expansão entre os finais do século XIX e início do século XX, como mostram os mapas das redes existentes nesta época:
Rede de pombais, que se manteve até à década de 30 do século XX;

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Rede de heliógrafos, que ainda fazia serviço em 1933.

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A rede telegráfica, que conheceu uma enorme expansão em todo o território nacional, era o principal meio de comunicação quando a Divisão de Instrução se concentrou em Tancos.

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Em relação à telegrafia sem fios (TSF), o Exército realizou em 1901 as primeiras experiências de rádio com material encomendado ao fabricante francês Ducretet, que era constituído por um emissor e por um recetor Ducretet.

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Em 1909 foram adquiridas 4 estações de telegrafia elétrica Telefunken, sendo duas fixas e duas de campanha hipomóveis (MT1 e MT2).

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De 1915 a 1917 foram adquiridas 11 estações Marconi – 5 a dorso, 3 hipomóveis e 3 automóveis.

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Em Abril de 1916 havia no Batalhão de Telegrafistas de Campanha quatro estações de TSF, pois algumas das adquiridas tinham sido mobilizadas com as expedições para Angola e Moçambique.
Eram elas:
Em serviço combinado com a Divisão Naval havia uma estação Telefunken (MT1) em S. Julião da Barra e outra (MT2) em Cascais.
Para mobilizar com a Divisão a constituir, existiam duas estações Marconi (uma MM1 e uma outra MM2), ambas no Batalhão de Telegrafistas de Campanha.

Grande Guerra -IV- Divisão de Instrução, manobras de 1916 – 2ª parte

As comunicações na Divisão de Instrução, nas manobras de 1916 

Aniceto Afonso
Jorge Costa Dias

3. Os exercícios da Divisão de Instrução

Passemos então aos exercícios da Divisão de Instrução.
Quando se tornou evidente que Portugal iria enviar uma força para o teatro europeu, o governo decidiu mobilizar e instruir uma Divisão, como forma de preparação para esse fim.
A opção por Tancos foi assumida em Fevereiro de 1916, e os planos de mobilização iniciaram-se desde logo.

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Objetivo das manobras
Numas manobras militares deste tipo, com permanência de quase quatro meses no campo, procurava-se testar e treinar algumas capacidades do exército e das suas unidades e serviços, nos seguintes aspetos:
– Capacidade de mobilização, concentração e instalação de comandos e unidades;
– Elaboração de planos de ação pelos estados-maiores dos diferentes níveis;
– Capacidade de execução de exercícios táticos, desde simples manobras de pequenas unidades (Companhia) até operações mais complexas de grandes agrupamentos mistos e da própria Divisão de Instrução;
– Capacidade de instalação e de atuação de infraestruturas logísticas e técnicas de apoio às manobras, como transportes, reabastecimentos, comunicações, organização do terreno, alimentação, saúde, etc.
– Treino de conduta de operações, tanto através de exercícios planeados como em situações inopinadas;
– Verificação das capacidades de resistência do pessoal, bem assim como do seu conhecimento, da disciplina e do moral;
– Verificação da adequação dos materiais e equipamentos, tanto individuais como coletivos.
Temos hoje uma visão geral dos resultados, através dos relatórios elaborados pelas unidades e órgãos participantes. E se em alguns aspetos, as manobras são apreciadas positivamente, existe alguma unanimidade em relação à necessidade de melhorar procedimentos, substituir materiais e munições, continuar a instrução militar e fortalecer a educação cívica.

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Cronologia dos exercícios
Vejamos a cronologia dos exercícios e a forma como eles foram implementados.
A incorporação do contingente começou em Janeiro, com o início da recruta de 1916 nas unidades de instrução, onde fizeram, até Abril, a recruta e o treino tático ao nível Secção e Pelotão.
As unidades para manobras foram constituídas nas unidades das divisões territoriais de Viseu, Coimbra, Vila Real e Tomar. A concentração e instalação fez-se entre Abril e Maio e as manobras ocorreram entre Maio e os primeiros dias de Agosto.
Os exercícios iniciaram-se com manobras de Companhia e foram-se tornando mais abrangentes e complexos, até ao exercício final de toda a Divisão.
É preciso notar que nestas manobras só tomaram parte quatro Regimentos de Infantaria dos seis que constituíam a Divisão de Instrução, pelo que no período de 4 de outubro a 24 de novembro de 1916, também em Tancos, foi ministrada a instrução aos dois Regimentos restantes integrados numa brigada (a 3ª BI). Nesta apresentação não serão abrangidas estas manobras complementares.
Foram levados a efeito, então, os seguintes exercícios:
 Exercícios de Companhia -Entre 26 de Maio e 10 de Junho

Diapositivo3

Estes execícios constaram de:

-Proteção em estação
-Combate de postos avançados
-Manobra de retirada
-Marcha para o inimigo
-Combate defensivo
-Marcha de aproximação
-Combate ofensivo
-Trabalhos de fortificação
-Fogos de guerra

14 programa de instrução de companhia

 

 Exercícios de Batalhão – De 11 a 25 de Junho

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Estes execícios constaram de:

-Proteção em marcha para o inimigo
-Proteção em marcha de flanco
-Proteção em marcha de retirada
-Preliminares do combate
-Ocupação de posição
-Rotura de combate
-Aproximação em combate ofensivo
-Marcha para concentração

15 programa de instrução de batalhão
Exercícios de Regimento – De 26 a 30 de Junho

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Estes execícios constaram de:

-Combate ofensivo Barquinha e Rodeio
-Combate defensivo Laranjeiras e Grou
-Ação dupla Ofensiva Barquinha
-Ação dupla defensiva Barquinha

16 programa de instrução de regimenti
Exercícios de Agrupamentos Encorporados –De 3 e 11 de Julho

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Estes execícios constaram de:

-Forças P.A. e P.V. (Partido Azul E Partido Vermelho)
-Ofensiva e defensiva – Barquinha
-Ofensiva e defensiva – Grou
-Fogos de Guerra
-Organização defensiva

17 programa de instrução de agrupamentos incorporados

Exercícios de Pequenos Destacamentos Mixtos – de 13 e 14 de Julho

Estes execícios constaram de ações entre as forças P.A. e P.V. (Partido Azul e Partido Vermelho)

-Exercício Nº 1 – Ação Simples Defensiva– Figueiras-Laranjeiras
-Exercício Nº 2 – Ação dupla ofensiva e defensiva – Margem direita do Zêzere e Constância
-Exercício Nº 3 – Ação simples ofensiva – Montalvo

19 programa de instrução de destacamentos mixtos
Exercícios de Grandes destacamentos Mistos –De  17 a  20 e de 24 e 25 de Julho

1º  Destacamento

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Exercícios realizados pelas unidades da  1ª BI em formações de apoio.

TEMA: Estacionamento em SANTA CITA, ataque à posição do Grou, defesa da Barquinha

2º Destacamento

Exercícios realizados pelas unidades da  2ª BI e do Grupo de Artilharia em formações de apoio.

TEMA: Ocupação da Barquinha, defesa da posição do Grou, ataque à posição da Barquinha

Parada de Montalvo -Em 22 de Julho

 Exercícios da Divisão de Instrução – De 26 de Julho a 1 de Agosto

1º Brigada (Azul) – Marcha: Abrantes-Casa Branca-Tolosa
2ª Brigada (Vermelha) – Marcha: Montalvo-Pego-Casa Branca-Gavião
Reconhecimentos
Combate entre a quinta da Marguila e Vale Grande

20 exercicio de divisão Tema

 Desconcentração e regresso das unidades aos seus quartéis -Entre 2 e 6 de Agosto

Mapa da força

Vejamos finalmente o mapa da força que esteve presente nos exercícios, com um total de quase 20.000 homens, mais de 5.000 solípedes e mais de 1.200 viaturas.

3-Mapa da Força da Div Inst. em Tancos 001
Podemos destacar o peso das unidades de apoio e dos serviços, com cerca de 1/4 dos efetivos, assim como a participação de um significativo número de viaturas automóveis (incluindo camiões) e as poucas bicicletas e motocicletas ainda disponíveis.
Deixamos para o final a apresentação de umas breves conclusões.

 

Grande Guerra – Organização das Comunicações do CEP – I – A Divisão Auxiliar

Na sequência de conversações entre os governos de Portugal e da Grã-Bretanha, foi elaborado, no Estado-Maior do Exército, em novembro de 1914, um estudo sobre a constituição de uma força expedicionária de nível divisionário (Divisão Auxiliar Portuguesa), que incluiu a criação de um Quadro Orgânico. Pelas circunstâncias que vieram depois a ocorrer, tanto internamente como na disposição inglesa, a Divisão nunca chegou a ser mobilizada.
Nos respetivos planos refere-se a sua constituição geral e especifica-se a composição das suas unidades e órgãos, assim como a distribuição do seu pessoal, entre o qual o afeto às comunicações. Assim:
1Quartel-General da Divisão.
1.1 – Pertencia ao QG da Divisão a Chefia do Serviço Telegráfico, constituída por um capitão de Engenharia e uma praça amanuense.
2Tropas Divisionárias.
2.1 – Uma Companhia de Sapadores Mineiros;
2.2 – Uma Secção de Telegrafistas de Campanha, com dois oficiais e 107 praças (ver quadro);         divisão auxiliar Secção de telegrfistas de campanha 001
2.3 – Uma Secção de Projetores;
2.4 – Uma Secção de Telegrafistas sem Fios, com 2 oficiais e 30 praças (ver quadro):divisão auxiliar secção de telegrafistas sem fios m.t 001
2.5- Uma Secção Automóvel;
3Quatro Grupos de três Baterias de Artilharia 7,5 TR.
4Um Regimento de Cavalaria.
No estado-maior e menor do Regimento havia o comando de um Pelotão de Telegrafistas, constituído por um oficial subalterno e uma praça.
4.1 – O Regimento era constituído por dois Grupos de Esquadrões a dois Esquadrões cada um.
No estado-maior de cada Grupo de Esquadrões havia um 2º sargento telegrafista e em cada Esquadrão um 1º cabo telegrafista.
5Quatro Grupos de Baterias de Metralhadoras, sendo dois Grupos a três baterias e dois Grupos a duas baterias.
6Duas Brigadas de Infantaria, com três Regimentos cada uma;
6.1 – Regimento de Infantaria
Cada Regimento tinha três Batalhões.
No estado-maior e menor do Regimento havia o comando de um Pelotão de Telegrafistas, constituído por um oficial subalterno, um 2º sargento telegrafista e duas praças.
6.1.1 – Batalhão de Infantaria
Cada Batalhão tinha quatro companhias.
No estado-maior de cada Batalhão havia dois 1ºs cabos telegrafistas.
6.1.1.1 – Companhia de Infantaria
Em cada Companhia havia dois 2ºs cabos ou soldados telegrafistas e nove soldados agentes de ligação.
7Coluna de Munições.
8 Formações Sanitárias.
9– Coluna de Víveres.

A Divisão Auxiliar morreu à nascença, tanto pela mudança de posição inglesa em relação à participação de forças portuguesas na frente europeia, como pelas alterações políticas internas, especialmente a partir de janeiro de 1915, quando foi nomeado o governo Pimenta de Castro, que anulou a mobilização.

AHM/DIV1/1290/2