Grande Guerra -III- A Divisão de Instrução (mobilizada)

A Divisão de Instrução mobilizada para os exercícios em Tancos

ORGANIZAÇÃO
Em fevereiro de 1916, a fim de instruir as tropas que poderiam ser deslocadas para o teatro de guerra europeu, foi mobilizada a Divisão de Instrução para efetuar exercícios em Tancos.
A 3 de maio, o Quartel-General da Divisão instalou-se nos edifícios que lhe foram destinados e a 1 de Agosto foi dada por concluída a instrução. Os exercícios terminaram com uma grande parada na charneca de Montalvo, à qual assistiram o Presidente da República, o Governo, membros do corpo diplomático e adidos militares.
Apresenta-se a seguir a constituição da Divisão de Instrução mobilizada, cujas diferenças fundamentais em relação à Divisão de Instrução planeada nos finais de 1915 eram as seguintes:
– Na Divisão só foi mobilizada uma secção de TSF em vez das duas secções previstas no plano, uma de TSF M.T. e outra de TSF M.M.
– As Brigadas de Infantaria tinham dois regimentos em vez de três como previsto no plano;
– Uma “Coluna de Material Divisionário” a um escalão substituiu a “Coluna de Munições” a dois escalões;
– A “Coluna de Víveres” tinha apenas um escalão, em vez dos dois previstos anteriormente;
– Em cada companhia de infantaria o número de sinaleiros passou de 11 para 9;
– A designação de “velocipedistas” foi substituída por “ciclistas”;
– Não foram mobilizadas a “Secção de Subsistemas de Etares”, nem o “Parque de Rezes”;
– Finalmente, o número de elementos responsáveis pelas comunicações – telegrafistas, telefonistas, ciclistas, motociclistas e elementos de ligação (sinaleiros) – na Divisão mobilizada foi bastante inferior ao previsto anteriormente, que era de 1275.

1 – Quartel-General da Divisão
O QG da Divisão era constituído por um Comando e Estado-Maior e por vários serviços que funcionavam a nível divisionário. Em relação às comunicações, que agora nos interessa realçar, o Comando e Estado-Maior tinha quatro ciclistas e seis motociclistas.
Eram os seguintes os órgãos agregados ao QG:
– Escolta
– Serviço Telegráfico (o seu chefe era um capitão de Engenharia e tinha uma praça ciclista que era também amanuense)
– Serviço de Engenharia
– Serviço de Artilharia
– Serviço de Saúde
– Serviço Veterinário
– Serviço Administrativo
– Pagadoria
– Serviço Postal (com dois ciclistas)
– Serviço de Justiça
– Serviço de Polícia

2 – Tropas Divisionárias
Nas Tropas Divisionárias existiam as seguintes unidades, no âmbito do apoio de engenharia e comunicações:
– Companhia de Sapadores Mineiros;
– Secção de Projetores de Campanha;
– Secção Divisionária de Pontes.
– Secção de Telegrafistas de Campanha (com dois oficiais, 12 sargentos e 92 praças das quais 9 eram 1º cabo telegrafistas, 10 –2º cabos e soldados telegrafistas, 3 – 1º cabos sinaleiros e 8-2º cabos e soldados sinaleiros( ver quadro);

Secção de telegrafistas por fio- divisão de instrução (mobilizada)

– Secção de Telegrafistas Sem Fios (com 2 oficiais, 3 sargentos e 26 praças, das quais 2 eram 1º cabo telegrafista e 2 – soldado telegrafista – ver quadro);

secção telegr TSF digitalizado 001(mobilizada)
3 – Grupos de Baterias de Artilharia Montada de 7,5 TR (3)

Cada grupo era constituído por três baterias (total de nove baterias), tendo o seu estado-maior e menor, no âmbito das comunicações, um chefe telefonista (2º sargento) e cinco telefonistas, sendo um deles cabo.
Cada bataria tinha um 1º cabo telefonista e quatro soldados telefonistas.

4 – Regimento de Cavalaria
O Regimento de Cavalaria era constituído por dois Grupos de Esquadrões a dois Esquadrões cada um. O seu estado-maior e menor tinha, no âmbito das comunicações, um Pelotão de Telegrafistas, constituído por um oficial subalterno (comandante do pelotão), quatro ciclistas e dois motociclistas.
Cada Grupo de Esquadrões tinha, no seu estado-maior e menor um 2º sargento telegrafista e um 1º cabo telegrafista. Cada esquadrão tinha, por sua vez, um cabo telegrafista e quatro soldados telegrafistas.

5 – Brigadas de Infantaria (2)
Cada Brigada era constituída por dois Regimentos e cada Regimento por três Batalhões. O Comando e Estado-Maior de cada Brigada tinha dois ciclistas e o Estado-maior e menor de cada Regimento tinha um oficial, comandante do Pelotão de Telefonistas, um 2º sargento telegrafista, quatro telefonistas e três ciclistas.
Cada Batalhão de Infantaria tinha quatro Companhias, sendo que no estado-maior de cada Batalhão os agentes de ligação eram dois telefonistas e dois ciclistas. Por sua vez, cada companhia de Infantaria tinha dois telefonistas e nove sinaleiros.

6 – Grupos de Baterias de Metralhadoras (3)
Havia três Grupos, sendo um a três Baterias de Metralhadoras e dois a duas Baterias. No estado-maior e menor dos Grupos havia quatro ciclistas e três ciclistas, respetivamente.

7 – Coluna de Material Divisionário
O estado-maior da Coluna tinha quatro ciclistas e quatro motociclistas.
8 – Ambulâncias (4)
As Ambulâncias eram quatro e cada uma tinha um ciclista.
9 – A Divisão tinha ainda duas Coluna para Transporte de Feridos, duas Colunas de Hospitalização, uma Secção de Higiene e Bacteriologia, uma Secção Automóvel Sanitário, um Trem de Engenharia Divisionária, uma Coluna de Víveres (com três ciclistas), um Comboio Automóvel com 12 secções, sendo três de reserva, havendo dois ciclistas e dois motociclistas na direção do Comboio e dois motociclistas em cada uma das suas secções.
MAPA DA FORÇA
Apresenta-se o quadro do mapa da força da Divisão de Instrução, verificando-se que o total de mobilizados foi de perto de 20 000 homens.

1-Mapa da Força da Div Inst. em Tancos 001

MAPA DO PESSOAL DE COMUNICAÇÕES
Da análise do mapa salienta-se que do total de 824 elementos ligados às comunicações, as duas Brigadas de Infantaria tinham 432 sinaleiros, 112 telefonistas e 40 ciclistas.

Quadro responsáveis pelas comunicações DI mobilizada 001

UNIDADES E FORMAÇÕES DA DIVISÃO DE INSTRUÇÃO
O quadro que se apresenta faz uma síntese das unidades e órgãos da Divisão de Instrução, assim como da proveniência das tropas e dos seus centros de reunião e mobilização:

 

div unidades e mobilização 1 001 Adiv unidades e mobilização 2 001 Adiv unidades e mobilização 3 001 A

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A TSF do CEP

Post do MGen Edorindo Ferreira, recebido por msg:

Com a entrada de Portugal na Grande Guerra foi necessário constituir unidades de Transmissões para instalar, explorar e manter o sistema de comunicações do Corpo Expedicionário Português (CEP). No que se refere à Telegrafia Sem Fios (TSF) foi criado o Serviço de TSF do Corpo, responsável pelo sistema de comunicações pela TSF propriamente dita e também pelas ligações pelo solo (TPS).

A utilização maioritária de equipamentos fornecidos pelo Reino Unido, bem como a reduzida experiência de emprego de uma grande Unidade deste tipo, levou a que os estudos da doutrina e da tática de emprego desses equipamentos tivessem como base o normativo inglês.

A TSF no TO do CEP (Clicar na imagem para aumentar, depois, mais abaixo, na definição, e de novo na imagem)

A TSF no TO do CEP
(Clicar na imagem para aumentar, depois, mais abaixo, na definição, e de novo na imagem)

Assim, conforme se mostra no esquema acima, datado de 10 de Julho de 1917, a distribuição dos equipamentos no teatro de operações do Corpo de Exército deveria ser a seguinte (da frente para a retaguarda):

  1. Dois postos de escuta das comunicações do inimigo, também utilizados para “disciplinar” as comunicações das tropas do CEP, tentando minimizar as fugas de informações;
  2. Vários postos transmissores de TPS, essencialmente destinados a assegurar as ligações à retaguarda na ausência de outros meios. Em média cada Batalhão disporia de um posto TPS, instalado ao nível das companhias de suporte (em segunda linha);
  3. Postos de amplificador, para receberem os sinais provenientes da frente, bem como para detetarem perdas de terra das linhas telefónicas das companhias e batalhões. Em média haveria um amplificador por cada conjunto de 3 postos TPS, instalado junto aos Postos de Comando (PC) dos Batalhões de suporte (em segunda linha).
  4. Mais à retaguarda, ao nível das Brigadas em 1º escalão, existiriam 3 postos de TSF de 50 W, estabelecendo as ligações dos flancos das duas Divisões e com os quartéis-generais respetivos (QG1 e QG2). Junto destes, bem como junto do QG do CEP (QGCA) existiam postos de TSF de 130 W e de 500 W, respetivamente.
  5. Para além destes postos de TSF previam-se postos “de ondas contínuas” junto aos Grupos de Artilharia, para ligação entre eles e com o serviço de Aviação, bem como com o Comando da Artilharia.

Em resumo, e tendo em consideração também os equipamentos destinados às 2 Brigadas em reserva (em descanso), o CEP deveria ser dotado dos seguintes equipamentos.

         2 postos de escuta;

18 postos de TPS;

6 postos de amplificador;

6 postos de TSF (3 de 50 W, 2 de 130 W e 1 de 500 W);

3 postos de “ondas contínuas”.

No entanto, a realidade sobrepôs-se ao estudo, já que aquando do início das operações do CEP, em 5 de Novembro de 1917, apenas existiam 2 postos de TSF de 50 W, 1 amplificador e 2 TPS. A escassez de equipamentos, que foi uma constante, bem como de operadores qualificados, terá levado a que a distribuição real no terreno tivesse sido substancialmente diferente do planeado. De facto, em 8 de Fevereiro de 1918, o Exército inglês questionou o Comando do CEP quanto aos motivos que determinaram a escolha dos locais para as estações TSF.

Da resposta do General Comandante do CEP, desse mesmo dia, releva-se a prioridade das ligações das Brigadas com a Divisão respetiva e a instalação de rádios e amplificadores na mesma trincheira.

Equipamentos de Transmissões da 1ª Guerra Mundial – Introdução

No âmbito do centenário da 1ª Guerra Mundial (1ªGM), o Grupo de História das Transmissões decidiu estudar a organização e o emprego das transmissões no Corpo Expedicionário Português (CEP) que combateu em França, integrado no Exército Inglês. Fiquei responsável pela área da logística e material. É neste âmbito que me proponho dar a conhecer os principais equipamentos de transmissões utilizados pelo CEP, dentro das limitações das fontes disponíveis para consulta.

Quase todo o material de transmissões, assim como a generalidade do material de guerra, foi fornecido pelo Exército Inglês, sendo, portanto, igual ao utilizado por este e não diferindo muito do material usado pelos restantes exércitos, incluindo o alemão.

A missão das transmissões foi sempre a mesma, ao longo da história: transportar a informação. A forma como essa missão é cumprida é que, naturalmente, se foi modificando conforme a evolução da técnica. Na época da 1ª GM, as tecnologias disponíveis e utilizadas foram:

– Telegrafia por fios (telégrafo) ou telegrafia eléctrica

Tinha sido o principal meio de telecomunicações durante a 2ª metade do sec XIX, baseado, essencialmente, no código e no telégrafo inventados por Samuel Morse, mas continuava a ter um papel importante, nessa época.

– Telefonia por fios (telefone)

Por altura da 1ª GM era rei o telefone, inventado por Bell. Não admira, por isso, que viesse a ser este o principal meio de comunicações utilizado em campanha. O próprio tipo de guerra de trincheiras favorecia a utilização de linhas telefónicas, o que seria mais difícil numa guerra de movimento.

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Reparando as linhas telefónicas nas trincheiras

 

– Telegrafia sem fios, (TSF), (telégrafo por rádio)

Estava a dar os primeiros passos, impulsionada sobretudo pelos trabalhos de Marconi. Os primeiros equipamentos eram ainda de faísca, vindo a aparecer, já no fim da guerra, os primeiros equipamentos de onda contínua. A flexibilidade e a mobilidade que este tipo de comunicações permite é uma mais valia para a guerra de movimento, mas traz consigo uma grande vulnerabilidade: a fácil escuta das comunicações pelo inimigo

– Telegrafia óptica

Teve o seu apogeu na primeira metade do sec XIX, com a invenção dos telégrafos ópticos de Chappe (França), Murray (Inglaterra), Ciera (Portugal), entre outros, baseados em códigos próprios. Foi maioritariamente substituída pela telegrafia eléctrica mas, com o aparecimento do código Morse foi de alguma forma reanimada com novos equipamentos: heliógrafos e lanternas de sinais, que transmitiam o código Morse. Na 1ª GM, funcionou como um importante meio de comunicações de reserva, sobretudo quando as linhas telefónicas e telegráficas eram cortadas pelos bombardeamentos .

-Telegrafia pelo solo (TPS)

Apareceu, em termos práticos, durante a 1ª GM e pode-se dizer que desapareceu com ela. Foi rapidamente ultrapassada e substituída pela TSF, que teve uma evolução fulgurante. Além dos curtos alcances, tinha ainda o problema da escuta inimiga. Foi experimentada pelo Exército Inglês a partir de 1915 mas a sua utilização prática dá-se um pouco mais tarde (início de 1917) com a introdução do equipamento de recepção a válvulas, inventado pelos engenheiros do Exército Francês[1].

– Pombos Correio

A utilização de pombos correio como meio de transporte de informação, na guerra, remonta à antiguidade e estendeu-se até aos nossos dias. Neste Blog há vários posts relacionados com tal utilização. Destaco a série de 3 posts intitulados O Pombo Correio (1), (2) e (3).

Os pombos correio foram introduzidos no Exército Inglês em 11 de Setembro de 1914 quando 15 pombos foram oferecidos , pelo Exército Francês, para servirem de meio de comunicação ao Serviço de Informações. Rapidamente os ingleses se aperceberam da sua utilidade,de tal forma que em 1918 o número de pombos ascendia já a 20.000, ocupando um total de 380 especialistas e dando assim origem a um novo ramo do “Signal Service”[2].

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Soldados ingleses treinando pombos correio (Fonte: http://www.thesun.co.uk)

 

-Estafetas

A utilização de estafetas para transportar mensagens, como correio, vem dos primórdios das campanhas militares. É um meio lento mas relativamente seguro, utilizado para informação pouco urgente ou quando todos os outros falham.

– Outros

Bandeiras de sinais, pistolas de sinais e telas de sinalização.

    Baseado, essencialmente, nas relações apresentadas pelo então Ten Cor Soares Branco no artigo da Revista de Artilharia “A Batalha de La Lys e as transmissões”, passo a listar os principais equipamentos de transmissões utilizados pelo CEP:

– Telegrafia por fios:

– Fulerfones de 6 tipos diferentes,

– Telégrafos de corrente simples,

– Telégrafos de corrente dupla.

– Telefonia por fios:

– Indicadores (centrais telefónicas) de vários tipos e com capacidade variando entre as 4 e as 30 linhas,

– Telefones de campanha, de mesa e de parede, magnéticos e acústicos,

– Telefones de guarda-fios,

– Equipamento para construção de linhas.

-Telegrafia óptica:

– Lanternas para sinais,

– Lanternas Lucas,

– Heliógrafos.

– Telegrafia sem fios (TSF):

O ten Cor Soares Branco não refere nenhum equipamento de TSF. Os que eventualmente foram utilizados deviam estar sob o controlo directo do Exército Inglês. Esta suspeita baseia-se numa nota do Chefe do Serviço Telegráfico do CEP, de 11/7/1917 a queixar-se ao oficial inglês responsável pelas comunicações do XI Corpo pelo facto de terem sido retirados da área da 1ª Div os meios de TSF, ao que este responde que, devido a uma reorganização dos meios de TSF, estes tiveram de ser retirados da área da 1ª div (Port) para a área da 49ª Div.

– Telegrafia pelo solo:

O equipamento utilizado foi o “Power Buzzer” de que não há nenhuma indicação nas listagens do Ten Cor Soares Branco. Admito que a sua gestão tenha sido semelhante à do equipamento de TSF

– Pombos Correio:

Na área do CEP, em 1917/18, havia um pombal fixo, em Lacouture, e um pombal móvel (O Nº48), guarnecidos por pessoal inglês, coadjuvado por pessoal português.

-Estafetas:

No CEP foram utilizados, essencialmente, estafetas em bicicleta ou em motocicleta. Como havia um Grupo de Companhias de Ciclistas, destinado ao combate, os estafetas utilizados era pessoal dessa unidade que estava adida ao serviço telegráfico do corpo.

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Militares do Grupo de Companhias de Ciclistas

 

[1] The Signal Service in the European War of 1914 to 1918 (France) – R.E. Priestley , MC, BA – W&J MACKAY & CO LIMITED – 1921

[2] IDEM

Os primeiros detectores de TSF

 

Nos primórdios da TSF foi a recepção, mais especificamente a detecção, a área que mais ocupou os cientistas responsáveis pela evolução da rádio, como vimos nos “posts” publicados sob o título “Pioneiros da TSF”.

A tecnologia da emissão não sofreu grandes alterações desde Hertz a Marconi; utilizou sempre o emissor de faísca baseado na bobina de indução, apenas com uma melhoria significativa, introduzida por Braun e Marconi: a sintonia da frequência emitida.

    A espira de Hertz

O primeiro receptor rudimentar foi utilizado por Hertz na descoberta das ondas electromagnéticas. Era constituído apenas por uma antena de forma circular, interrompida em determinado ponto por um intervalo de ar. Na presença de radiação electromagnética dava-se uma descarga visível, do tipo faísca,  no intervalo de ar. Não tinha qualquer utilidade prática para além da demonstração da existência dessas ondas. Era muito pouco sensível, só funcionando na proximidade do emissor, e era de difícil utilização pois, no caso de sinais mais fracos, o intervalo de ar não podia ter mais que alguns microns, obrigando à visualização da descarga  com auxílio de um microscópio.

Antena de recepção usada por Hertz. (Equipamento da frente. Atrás está a antena de emissão)

Antena de recepção usada por Hertz  (Equipamento da frente. Atrás está a antena de emissão)

   O coesor de Branly

O primeiro detector usado em transmissões TSF foi o coesor, desenvolvido por Branly. Consistia num tubo de vidro cheio de limalha de metal com dois contactos nas extremidades. Se a limalha estivesse solta apresentava uma grande resistência eléctrica entre os contactos. Quando passava uma corrente de radiofrequência de determinada intensidade pelo coesor, a limalha ligava-se (tornava-se coesa) formando um circuito de baixa resistência. Este comportamento tornou possível a detecção das ondas electromagnéticas mas era ainda inútil para a transmissão de informação pelas mesmas pois o seu estado mantinha-se inalterado quando terminava o sinal.

Esquema de coesor (esquerda) e figura de coesor real (direita)

Esquema de coesor (esquerda) e figura de coesor real (direita

É necessário referir que só é possível transmitir informação se o sinal for sujeito a um qualquer tipo de modulação. Na época, o que se pretendia era transmitir o alfabeto Morse constituído por traços e pontos, o que era possível com a modulação básica ON/OFF (presença/ausência de sinal) com o estado ON com 2 valores: um intervalo maior para os traços e um intervalo menor para os pontos.

Foi o inglês Lodge que.introduziu um dispositivo tipo martelo que, dando uma pancada seca no coesor, fazia este regressar ao estado inicial com a limalha desligada. Só assim foi possível conseguir que o coesor reflectisse a presença/ausência de sinal, permitindo receber os traços e pontos do código Morse.

O martelo batia no coesor a intervalos menores que a duração da transmissão do ponto do código Morse. Assim os traços e pontos correspondiam a várias ligações da limalha, ao ritmo do bater do martelo, enquanto a ausência de sinal correspondia a uma desligação contínua.

O receptor era essencialmente constituído por uma antena receptora, o coesor e um equipamento de sinalização, onde os sinais do alfabeto Morse eram traduzidos em sinais perceptíveis pelos sentidos humanos da audição ou da visão.

O equipamento de sinalização era, no caso dos sinais sonoros, uma campainha ou um receptor telefónico (à época já inventado) e, no caso dos sinais visuais, um receptor de Morse igual ao utilizado no telégrafo por fios. Este equipamento era actuado pela corrente de uma bateria local modulada pelo estado do coesor o que significa uma corrente sob a forma de impulsos ao ritmo do bater do martelo quando havia sinal de radiofrequência ou ausência total de corrente quando não havia sinal. Esta forma peculiar da corrente facilitava a actuação de uma campainha, era traduzida no receptor telefónico por um som com a frequência dos impulsos e era traduzida no receptor de Morse por linhas impressas a tracejado.

Receptor de Popov com coesor. Notar o aproveitamento do martelo para , em simultâneo, fazer a descoesão e fazer soar uma campaínha.

Esquema do receptor de Popov com coesor.

Esquema de um receptor de coesor com telefone. Aqui a descoesão é feita "chocalhando" o coesor através do relé e da mola mostrados.

Esquema de um receptor de coesor com telefone. Aqui a descoesão é feita “chocalhando” o coesor através do relé e da mola mostrados.

Receptor de coesor com telégrafo de Morse impressor.

Esquema de receptor de coesor com telégrafo de Morse impressor.

As figuras apresentam os receptores com os vários tipos de equipamento de sinalização. De notar o esquema engenhoso, inventado por Popov, que utilizava um único martelo para desligar a limalha e para tocar uma campainha.

Apesar de mais sensível que a espira de Hertz o coesor exigia ainda muita energia para actuar pelo que só foi utilizado para ligações a curta e média distância. Foi o detector usado por Marconi nas suas primeiras experiências mas as ligações através do Canal da Mancha e a primeira ligação transatlântica já foram conseguidas com outro tipo de detector.

Manipulador do Emissor Ducretet

Em 1901 o Exército Português realizou as primeiras experiências de rádio (TSF) com material encomendado ao conhecido e especializado fabricante francês E. Ducretet.
O material em questão referia-se a:

-um EMISSOR DUCRETET constituído por um manipulador, um oscilador, uma antena e uma ligação à terra. Este emissor era idêntico aos empregues por Hertz nas suas célebres experiências.

-um RECEPTOR pelo som, que era um aparelho portátil designado por RECEPTOR RÁDIO TELEFÓNICO POPOV-DUCRETET, onde em lugar do tubo de Branly era empregue um revelador de agulhas.

Em relação ao receptor, do qual existem dois exemplares, um na Colecção/Visitável (C/V) do RTm e outro no Museu Militar de Elvas, existem vários textos sobre ele neste site.

Do emissor tudo nos leva a crer que o único vestígio é uma peça que existe na C/V e que identificámos como sendo o manipulador.

manipulador morse
O contacto eléctrico era obtido pressionando o manípulo

DSC06784

que provocava no contacto saliente do copo de protecção, o encosto da agulha.

DSC06787copo de faísca
Para justificar esta identificação junta-se gravura do emissor Ducrete de 1901 em que se pode ver no lado esquerdo da imagem, o manipulador assinalado com a letra M.

Diapositivo1Junta-se o esquema do emissor em que também está representado o manipulador.

Diapositivo2

As figuras do emissor Ducrete constam do livro

Diapositivo3

Receptor Ducretet e existentes na CV do RTm

Receptor Ducretet e manipulador existentes na CV do RTm

Os Pioneiros da TSF – Alexander Stepanovich Popov

imagemPopovNasceu a 16 (4 no calendário da época) de Março de 1859 em Turinskiye Rudniki, actual Krasnoturyinsk, Junto aos Urais, e faleceu a 13 de Janeiro de 1906 ( 31 de Dezembro de 1905 no calendário da época), em S. Petersburgo.
Era filho de um sacerdote ortodoxo de aldeia que o encorajou a seguir também o sacerdócio. Ainda chegou a frequentar o seminário de Ekctarinburg, mas, quando descobriu o interesse pela ciência e pela matemática, abandonou-o e foi estudar física para a Universidade de S. Petersburgo. Durante o curso trabalhou, para conseguir sustentar os estudos, na “Electrotekinik Artel”, que operava as primeiras centrais de geração eléctrica da Russia. Graduou-se em 1882, tendo sido convidado para assistente de laboratório na sua faculdade.
Em 1883 passou a trabalhar para a marinha russa, em Kronstadt, como professor e investigador da escola de torpedos.
Em 1894 construiu o primeiro receptor de rádio e, a 7 de Maio de 1895, apresentou-o à Sociedade Russa de Física e Química.
Em 1896 efectuou uma transmissão rádio entre dois edifícios do campus universitário (diz-se que conseguiu transmitir o nome ”Heinrich Hertz”) e, em 1898, transmitiu sinais entre terra e um navio a 5 Km da costa .
Ao serviço da Marinha Russa coordenou a intalação de uma estação rádio na ilha de Gogland, no Golfo da Finlândia, e outra em Kotka, na costa finlandesa. Estas estações deram uma ajuda preciosa no desencalhamento do navio Apraksin no inverno de 1899/1900. Note-se que o equipamento de recepção dessas estações era igual ao exemplar existente no Regimento de Transmissões.
Em 1901 foi nomeado professor e, em 1905, director do Instituto Electrotécnico de S. Petersburgo, que actualmente tem o seu nome.
Em 1945, o governo soviético elevou Popov a herói nacional e declarou o dia 7 de Maio como “dia da rádio” com a categoria de feriado nacional, que ainda hoje se mantém.

Da descoberta ao fabrico do receptor de TSF
Foi, enquanto professor da Escola de Torpedos da Marinha Russa, em Kronstadt, que mais envolvido esteve na invenção de um aparelho receptor das ondas descobertas pelo seu contemporâneo Hertz. Esse equipamento, que começou a construir em 1894, era extremamente simples e rudimentar quando comparado com os receptores de hoje, mas foi, de facto, o primeiro equipamento receptor de rádio. Era constituído por um detector (o coesor), uma antena linear e uma campainha (figuras abaixo). Popov utilizou-o essencialmente como detector de relâmpagos, mas sempre afirmou que poderia servir como receptor de sinais transmitidos pelas ondas hertzianas.

Esquema do receptor de Popov com o coesor melhorado

A base do receptor era o coesor de limalha que tinha sido inventado por Branly em 1890, constituído por um tubo de vidro contendo limalha metálica solta, que oferecia grande resistência à passagem da corrente eléctrica, mas que, quando sob a acção de energia electro-magnética, se ligava (coeria) baixando a sua resistência eléctrica. Assim se conseguia detectar a presença das radiações. O problema era que, após o desaparecimento das radiações, a limalha continuava coesa, não permitindo detectar novo sinal. Lodge resolveu este problema adicionando ao tubo de vidro um martelo comandado por um relé, que, com uma frequência fixa, batia no tubo, provocando o desligamento da limalha. Com esta melhoria tornou-se possível receber sinais de morse. Popov melhorou este sistema fazendo com que o martelo actuasse não a um ritmo determinado, mas apenas no final de um impulso de energia electro-magnética, preparando assim o coesor para receber o próximo impulso. Posteriormente Popov melhorou o seu receptor utilizando um coesor auto- recuperável e auscultadores como se refere adiante.

Receptor de Popov

Receptor de Popov

Os equipamentos idealizados por Popov foram construídos e comercializados por Ducretet, que era um engenheiro francês construtor de equipamento científico, com a designação Ducretet-Popoff.
No Regimento de Transmissões existe um exemplar bem conservado de um receptor Ducretet-Popov, que provavelmente foi utilizado nas primeiras experiência s de TSF realizadas em Portugal e referidas no Post “Introdução da TSF” de 19de Outubro de 2012, da autoria do Mgen Pedroso de Lima, publicado neste Blog, do qual se mostra uma fotografia em baixo. De notar que o coesor utilizado neste receptor é diferente do utilizado no receptor original de Popov . Trata-se de um coesor constituído por agulhas de aço assentes em suportes de carvão. Faz parte da segunda geração de coesores, também denominados coesores auto-recuperáveis porque não precisavam de qualquer acção exterior para fazer a “descoesão” (voltar ao estado original). Na verdade, embora por uma questão de tradição se continuassem a chamar coesores, o seu princípio de funcionamento já não se baseava em qualquer coesão, antes eram já rectificadores rudimentares com um princípio de funcionamento semelhante aos díodos actuais.

Receptor Ducretet-Popoff existente no Regimento de Transmissões

Receptor Ducretet-Popoff existente no Regimento de Transmissões

Pormenor do coesor vendo-se as agulhas de aço. A saliência existente do lado direito continha um dissecador à base de carboneto de cálcio com a finalidade de eliminar qualquer humidade no coesor.

Pormenor do coesor vendo-se as agulhas de aço. A saliência existente do lado direito continha um dessecador à base de carboneto de cálcio com a finalidade de eliminar qualquer humidade no coesor.

Em artigo a que tive acesso na internet (jcverdier.museum.online.fr/nouvellepage25.html) diz-se que há , recenseados, apenas 5 destes aparelhos: Musée de Radio-France, 2 nos museus da Rússia e 2 em colecções particulares. O RTm pode orgulhar-se de ter um exemplar muito bem conservado de tão raro equipamento.

Pioneirismo dos Açores nas redes fixas de TSF em Portugal

Post do MGen Pedroso Lima, recebido por msg:

Depois das primeiras experiências de utilização da TSF em Portugal, em 1901,  protagonizadas  pelo capitão Severo da Cunha, do Regimento de Engenharia, relatadas por Afonso do Paço (1) e referidas neste Blogue (2)(3) e das experiências levadas a efeito, no ano seguinte, pela Direção Geral dos Correios e Telégrafos, com a cooperação da Marinha, seria de prever que o passo seguinte na utilização da TSF em Portugal, ou seja o estabelecimento de redes fixas em território nacional, fosse impulsionado pelos militares.

No entanto não foi isso que aconteceu, visto que no Exército  a aquisição dos postos de rádio (Telefunken) só se verificou em  1910,  e deu lugar à instalação destes postos em barracões de madeira na Trafaria e Paço de Arcos.

Antes porém instalou-se a rede fixa de TSF nos Açores por intermédio da Companhia de cabo submarino Eastern Telegraph Company como relata o semanário “TSF em Portugal” de 01 de Março de 1925.

TSF em PtMaria Fernanda Rollo (4) descreve assim a evolução da TSF em Portugal nos primeiros anos do século XX:

“Fascinados com a dispersão geográfica e a ampla faixa costeira do território português, várias empresas internacionais pressionaram o Governo, procurando obter o exclusivo da instalação da TSF em Portugal. Na Câmara dos Deputados, as propostas avolumavam-se mas a débil situação do Tesouro obrigaria os governantes a adiar a instalação de um serviço público de radiotelegrafia. A era comercial da TSF só chegou a Portugal com a assinatura, em 15 de fevereiro de 1905, do contrato entre a Eastern Telegraph Company e o Governo.

Circunscrito ao arquipélago dos Açores, o acordo previa o estabelecimento de estações radiotelegráficas (equipadas com o sistema de transmissão De Forest e de receção da Amalgamated Rádio Telegraph Company) em S. Miguel, Santa Maria, Faial; Flores e Corvo…

No ano de 1910 se se excluir o serviço de comunicações com os navios em trânsito (assegurado pelos portos de Leixões e da Ilha Terceira) o isolamento radiotelegráfico do território português era quase total… Só em 1919 serão retomadas as negociações com a Marconi´s Wireless, que três anos mais tarde apresentará um projeto de uma autêntica rede imperial…”

(1)   PAÇO, Afonso do, Comunicações Militares de Relação – subsídios para a sua história, Lisboa, 1938, pág.

(2)   Ver post, neste Blogue, do coronel Canavilhas (de 12 jan 2012).

(3)   No artigo “A TSF como nasceu em Portugal” do coronel de Engenharia João de Oliveira, publicado na Revista Militar nº 11 de Novembro de 1946 esclarece que os rádios utilizados pelo capitão Severo da Cunha foram oferecidos ao Ministro da Guerra, general Pimentel Pinto que ordenou as experiências ao Comandante do Regimento de Engenharia.

(4)   ROLLO, Maria Fernanda (coord.), História das Telecomunicações em Portugal,  Lisboa, FPC, 2009, pág.105

Os Pioneiros da TSF – Padre Roberto Landell de Moura

Nasceu a 21 de Janeiro de 1861 em Porto Alegre (Brasil), onde viria  a falecer em 30 de Junho de 1928.

Estudou teologia em Roma, tendo-se ordenado sacerdote em 1886. A par da sua preparação eclesiástica, estudou também física e electricidade.

Foi o primeiro a transmitir a voz humana utilizando as ondas hertzianas.

Durante toda a sua vida parece ter conseguido harmonizar a dupla condição de padre e cientista. Prova disso é o episódio em que, por deferência, fez uma demonstração das suas invenções ao seu bispo. Quando este ouviu a voz que saía do receptor disse que era a voz do diabo, sugerindo que a invenção tinha uma base de bruxaria. Esta ideia levou a que alguns grupos menos esclarecidos o atacassem, chegando mesmo a destruir o seu laboratório.

Devia ser um homem de personalidade forte pois nem os ataques o amedrontaram, prosseguindo as suas actividades científicas, nem estas o impediram de continuar a dedicar-se á sua tarefa pastoral, tendo servido em várias paróquias.

Em 1893, antes da primeira experiência de Marconi, o padre Landell de Moura fez uma demonstração de telefonia e telegrafia sem fios, com aparelhos de sua invenção, entre o alto da Av Paulista e o alto de Sant’Ana, em S. Paulo, numa distância aproximada de 8 quilómetros. Repetiu a experiência no dia 3 de Junho de 1900, presenciada pelo Consul Britânico em S. Paulo, Sr C. P. Lupton, pelas  autoridades brasileiras, por jornalistas e pelo povo.

Em 1901 conseguiu obter a patente brasileira nº 3279 para o seu aparelho. De seguida, convencido do valor das suas invenções, partiu para os Estados Unidos onde conseguiu as patentes que se indicam no quadro que a seguir se apresenta:

Nome Número da Patente Data do Pedido Data da Patente
Wireless Telephone 775.337 04 Outubro 1901 22 Novembro 1904
Wireless Telegraph 775.846 16 Janeiro 1902 22 Novembro 1904
Wave Transmitter 771.017 9 Fevereiro 1903 11 Outubro 1904

Não é por acaso que o “Wave Transmitter”, sendo o último a ser submetido foi o primeiro a ser patenteado. Trata-se de um sistema de rádio que não levantou grandes problemas aos avaliadores do “Patent Office”porque estava baseado em tecnologias já conhecidas: a bobine de Ruhmkorff, como base do emissor, e o telefone, como base do receptor.

A grande  invenção e novidade é um microfone a que Landell de Moura chama “interruptor fonético”, baseado numa membrana que vibra ao ritmo do som e que, nessas oscilações, faz e desfaz um contacto com uma haste metálica, gerando assim impulsos com uma frequência igual à do som que actua sobre a membrana. Como estes impulsos comandavam o funcionamento da bobina, as ondas hertzianas geradas incorporavam a (eram moduladas pela) frequência do som. Este foi, de facto, o primeiro sistema de transmissão de voz e outros sons utilizando as ondas descobertas por Hertz.

Imagem do “interruptor fonético” incluída na patente do “wave transmitter”

Bell tinha inventado o “fotofone”, em 1880, conseguindo transmitir voz, através da luz, a 213 metros de distância. Mas, apesar desta invenção, a utilização prática da luz para a transmissão de fonia só veio a ser possível com a descoberta do laser e dos sistemas de modulação digital na 2ª metade do Sec XX. Por isso pode considerar-se que o sistema de Landell de Moura foi o verdadeiro pioneiro da telefonia sem fios.

Já o “wireless telephone” e o “wireless telegraph” eram equipamentos complexos que incluíam, no mesmo equipamento, a transmissão por ondas hertzianas, pela luz e por ondas sonoras. O próprio inventor, talvez para ultrapassar as dúvidas dos oficiais do “Patent Office”, escreve na sua patente: “O aparelho assim pode não ser de grande valor comercial”. Ele tinha consciência das limitações de alcance das transmissões sonora e luminosa, além da complexidade técnica desta última, para a época.

Imagem do “wireless telephone” incluída na patente. De notar a existência de uma ventoínha para aumentar o alcance das ondas sonoras.

Concebeu ainda o que denominou “telefotorama” ou “Visão à distância” que era um sistema precursor da televisão.

Aqui fica uma justa homenagem a este ilustre brasileiro que, tal como muitos outros, com o seu esforço e engenho, muito contribuiu para o desenvolvimento da rádio sem disso ter tirado qualquer proveito pessoal.

Introdução da TSF

Post do MGen Pedroso Lima, recebido por msg:

Ao consultar um conjunto de documentos do espólio do coronel Mário Leitão que aguardam classificação na sala da CHT, encontrei uma fotocópia de um artigo do coronel de Engª João de Oliveira publicado na Revista Militar.[1]

O artigo apresenta, para mim, algumas novidades sobre as primeiras experiências de T.S.F. realizadas em Portugal, que considero com interesse e que passo a referir:[2]

  • As experiências foram realizadas em cumprimento de ordens do Ministério da Guerra.
  • A casa Ducretet, fabricante dos equipamentos rádio, oferecera um emissor e um recetor ao Ministro da Guerra, general Pimentel Pinto, que ordenou que as experiências fossem entregues ao Regimento de Engenharia, que dispunha de uma Companhia de Telegrafistas.
  • O Comando do Regimento atribuiu as experiências ao comandante dessa companhia, o capitão de Eng Severo da Cunha, que nelas foi coadjuvado pelos seus subalternos, tenentes de Eng Pedro Álvares e Salvador Correia de Sá (mais tarde visconde de Asseca).
  • “As experiências deste meio de comunicação começaram por se realizar na parada do quartel dos Quatro Caminhos, não mais de 100 metros separando os postos emissor e recetor. Os aparelhos vieram acompanhados, apenas, de um catálogo e, sem outra indicação, os primeiros ensaios não foram animadores; dentro em pouco, tiveram êxito e a distância entre os postos foi crescendo, firmando-se um no quartel e deslocando-se o outro para pontos que dele se avistavam, para norte, até se atingir o Alto de S. João.

Para consentir-lhe maior amplitude, mas ainda só tateando o terreno, em sucessivas etapas, transferiu-se o posto emissor para o Alto do Duque e o recetor para a margem esquerda, de começo na zona a ele fronteira.

Ao conseguir-se vencer a distância entre o Alto do Duque a Raposeira[3], o acontecimento foi considerado digno de um convite ao Ministro da Guerra e oficialidade de Lisboa, para assistir a uma experiência de comunicação entre esses pontos.[4]

A pessoa de El-Rei não era de uso convidar para facto de tão pequena monta.[5]

  • Nas experiências, realizadas em abril de 1901, e que foram noticiadas nos jornais da capital, assistiu a Comissão Superior dos Telégrafos que era presidida pelo general Bon de Sousa.
  • As experiências prosseguiram, passando a realizar-se entre a Raposeira (posto emissor) e um navio de guerra (posto recetor), no qual embarcou o tenente Pedro Álvares, tendo-se conseguido fazer comunicação à distância de 18 km.
  • Depois destas experiências o tenente de Eng Sá Carneiro “foi então o comissionado para ir ao estrangeiro adquirir o primeiro de T.S. F. de que foram dotadas as nossas tropas, pouco a pouco acrescido e melhorado, à proporção que o nosso sistema de comunicações se foi desenvolvendo até ao que hoje possui”.[6]
  • Entretanto o Ministério das Obras Públicas pediu informação sobre a conveniência de num diploma, a sair sobre comunicações por T.S.F., incluir as restrições a estabelecer por exigências de defesa nacional, ao Ministério da Guerra. Este  pediu um parecer à Comissão Superior dos Telégrafos.
  • O Ministétrio da Guerra pediu um parecer à Comissão Superior dos Telégrafos. O cor João de Oliveira foi o relator desse parecer, de que destaco a conclusão de que “O Estado deve reservar-se o monopólio do sistema de T.S.F.”
  • “Ao pretender a Comissão Militar dos Telégrafos avançar na matéria, o Engenheiro Benjamim Cabral, exercendo com a maior aptidão e competência o cargo de Administrador Geral dos Correios e Telégrafos, pronunciou-se perante a Comisão nos seguintes termos “Em minha opinião é prematuro qualquer projeto de rede de T.S.F” por ainda serem pouco precisos e até contraditórios os resultados obtidos no estrangeiro. Os relatórios militares pareciam-lhe pouco seguros para formular conclusões e a administração a seu cargo encontrara os maiores embaraços comerciais na aquisição de aparelhos que os permitissem com a devida clareza. Entendia, pois, dever aguardar-se a possível compra desses aparelhos e suas experiências”.

Talvez este último parágrafo contribua para poder explicar porque é que o Exército depois de ter sido o pioneiro em Portugal das experiências de T.S.F. acabou por demorar vários anos antes de a desenvolver e aplicar.


[1] O artigo intitula-se “A T.S.F, Como nasceu em Portugal” e está publicado na Revista Militar nº 11 de Novembro de 1946. pág, 562 a 565.

[2] Verifiquei que também acrescentam alguma coisa aos dois posts que existem neste Blogue sobre o mesmo assunto: o de 27 Dez 2011 do Cor Costa Dias e o de 12 de Janeiro de 2012 do Cor José Canavilhas.

[3] 4,3 km, segundo o post do Cor José Canavilhas.

[4] Assinala-se a preocupação de informar a oficialidade da capital da potencialidade do novo meio.

[5][5] Se D.Carlos e o Ministro adivinhassem o futuro, com certeza que o Rei iria com todo o gosto..

[6] De notar que esta versão em que o tenente Sá Carneiro parte em 1901, depois das experiências,  para comprar equipamentos não condiz com a versão de Bastos Moreira (vol2 das Notas, pág. 21) e do post do Cor Costa Dias, que afirmam que esta viagem de Sá Carneiro foi anterior às experiências.

De qualquer maneira desconheço quantos equipamentos adquiriu o tenente Sá Carneiro.

Ainda a 1ª experiência de TSF em Portugal

Ligação pioneira da TSF em Portugal (depois das experiências iniciais realizadas no quartel dos 4 caminhos e zona envolvente), com o capitão eng.º Severo da Cunha de novo como responsável, entre o Forte do Alto do Duque (Lisboa, margem norte do Tejo, onde estava instalado o emissor Ducretet, estação que era comandada pelo tenente Salvador Correia de Sá, tendo como operador o sargento Silva) e a Bateria da Raposeira (Trafaria, margem sul, onde estava o receptor, chefiada pelo tenente Pedro Álvares, tendo como operador o sargento Bagina), numa distância de 4.300 metros:

Forte do Alto do Duque:

Bateria da Raposeira:

As comunicações norte/sul, sobretudo na zona de Lisboa, sempre foram um problema, devido à largura do estuário do Tejo. Não admira pois que esta primeira tentativa de comunicar sem fios tenha sido feita entre as duas margens do Tejo e tenha ocorrido exactamente nesta zona, à entrada do chamado ‘gargalo’ do estuário. Convém lembrar que a primeira das duas pontes de Lisboa (Salazar, rebaptizada 25 de Abril em 1974) só foi inaugurada em 06AGO1966 e que, antes delas, a ponte Marechal Carmona, em Vila Franca de Xira, a 30 Km de distância, só o foi em 30DEZ1951, ou seja, muito tempo depois desta primeira experiência de TSF (17 de Abril de 1901). Antes disso apenas existia a ponte D. Luis, em Santarém, a mais de 70 Km de Lisboa (inaugurada em 17SET1881). Para ver o post inicial sobre a 1ª experiência de TSF em Portugal (na parada do actual RTm), clicar aqui

(Imagens do Google Earth)

Início da TSF em Portugal

Em 1899 é nomeado o engenheiro Sá Carneiro, então tenente da companhia de telegrafistas,para tratar e propor a aquisição do material necessário ao estudo experimental de comunicações TSF. O primeiro material foi encomendado ao conhecido e especializado fabricante francês E. Ducretet. O material entregue foi:

O EMISSOR constítuido por um manipulador, um oscilador, uma antena e uma ligação à terra. Este emissor era idêntico aos empregues por Hertz nas suas célebres experiências,

O RECEPTOR pelo som era um aparelho portátil designado por RECEPTOR RÁDIO TELEFÓNICO POPOV-DUCRETET, onde em lugar do tubo de Branly era empregue um revelador de agulhas

Foram realizadas as primeiras experiências T.S.F no início de 1901 na parada do Quartel dos Quatro Caminhos (hoje Regimento de Transmissões) com aparelhos emissores e receptores Ducretet-Popov, a 17 de Abril do mesmo ano realizaram-se novas experiências entre a Raposeira e o Forte do Alto do Duque, noticiadas no jornal Diário de Noticias de 18 de Abril.