As TRANSMISSÕES na GRANDE GUERRA – Relatório de Soares Branco (5)

Post do Cor Aniceto Afonso, recebido por msg:

  1. AS ESCOLAS DE FORMAÇÃO

Introdução

O capítulo II do relatório do capitão Soares Branco, que ocupa cinco páginas, refere-se, em primeiro lugar, à organização e preparação das unidades de telegrafistas e das secções de sinaleiros da 1ª Divisão. Como veremos, a sua principal preocupação é a montagem das escolas de telegrafistas, mas especialmente das escolas de sinaleiros, que ele sabia carecerem de muita instrução para bem desempenharem as tarefas que os aguardavam. É também neste capítulo que Soares Branco aborda a questão da organização inicial da força portuguesa, já que para o responsável do Serviço Telegráfico era essencial saber como se iriam articular as unidades, a fim de planear a forma como lhes seria fornecido o apoio em comunicações.

A alteração orgânica do CEP de uma Divisão reforçada para um Corpo de Exército a duas Divisões, proposta pelo Comando do CEP ao governo português logo em fevereiro de 1917, sob sugestão do chefe da missão britânica junto da força portuguesa, que decerto teve a cobertura dos altos comandos ingleses, desencadeou uma série de ações no sentido de completar os quadros orgânicos em pessoal e material por parte de todos os responsáveis pelos vários serviços de apoio.

Embora as preocupações do capitão Soares Branco estivessem concentradas na instrução dos seus efetivos, tanto telegrafistas e telefonistas, como sinaleiros e outras especialidades do seu âmbito, tomou como prioritária a necessidade de propor o recompletamento dos seus efetivos, na perspetiva de ser constituído um Corpo de Exército a duas Divisões, assim como um Corpo de Artilharia Pesada, como já vimos.

Ainda em fevereiro de 1917, pouco depois da sua chegada a França, Soares Branco propôs algumas alterações nos quadros de pessoal, como recorda no seu relatório:

Nesta incerteza de efetivos futuros em que ainda continuava, e do número e natureza dos Quartéis-Generais a constituir, propus, e imediatamente foi aprovada e enviada a proposta para a Metrópole, a vinda de 13 praças de te­legrafistas de praça por cada Batalhão de infantaria que marchasse para França, e a vinda de seis oficiais de Engenharia para as ligações da Artilharia. (Nota e proposta de 19-02-17)”.

E, logo que teve a certeza da futura constituição do Corpo de Exército, fez ainda outras propostas:

“Na primeira quinzena de março, tendo tido conhecimento de que o CEP passava a constituir um Corpo de Exército a duas Divisões a três Bridadas, e um Corpo de Artilharia Pesada, submeti à apreciação do Chefe do Estado-Maior em 19-03-17 as seguintes propostas relativamente a pessoal:

  1. Necessidade de se instar pela vinda de 312 telegrafistas de Praça, correspondendo a 13 praças por cada Batalhão de infantaria;
  2. Necessidade da vinda imediata de seis subalternos de Engenharia a mais do que os Quadros Orgânicos determinavam;
  3. Criação da Escola de Sinaleiros;
  4. Necessidade da vinda de uma 3ª Secção de Telegrafistas para o Corpo, além da Secção de Telegrafistas de Praça já existente, ficando cada Divisão com uma Secção de Telegrafistas de Campanha;
  5. Urgência da chegada a França do material do Trem de Engenharia Automóvel e do pessoal e material da Oficina do Depósito Avançado;
  6. Criação de Secções de sinaleiros nos Batalhões de Infantaria e nos Grupos de Artilharia”.

Mas, para além do recompletamento de efetivos, tornava-se necessário adequar também o material orgânico:

“E na parte referente a material, submeti a aprovação de Sua Exª o General, o quadro completo das dotações de todas as Unidades do CEP, organizado de acordo com o estabelecido como indispensável na presente Guerra, e que foi aprovado em 30-03-17.

Nesse quadro fiz incluir, por prever a sua futura aplicação, uma Secção Automóvel construtora de Linhas de Fio, completa”.

As escolas de formação

O que verdadeiramente preocupava, não apenas o capitão Soares Branco, mas todos os responsáveis pelos vários serviços e pelas unidades de linha, era a consciência que tinham da impreparação das tropas portuguesas para a guerra de trincheiras.

Logo em Dezembro de 1916 avançou para França, através de Espanha, um largo conjunto de oficiais e sargentos, num total de cerca de 100 elementos, para organizarem um período de formação das tropas portuguesas. Deviam eles próprios frequentar as escolas inglesas e organizar depois as escolas portuguesas que tinham por missão preparar os militares portugueses para a realidade da guerra, tanto em termos do uso de novas armas e materiais, como no conhecimento de novas táticas e formas de combate.

Depois de um período de frequência das escolas britânicas, situadas na região de Étaples, os primeiros instrutores portugueses deram corpo a um plano geral de instrução para as tropas do CEP aprovado em março de 1917. O plano contemplava três períodos – ginástica e palestras; uso da baioneta, de granadas e serviço de patrulhamento nas trincheiras; e instrução especial de acordo com as especialidades ou aptidões de cada um.

As principais escolas portuguesas criadas na zona de concentração do CEP foram as seguintes: a Escola de Emprego de Baioneta, em Mametz; a Escola de Granadeiros, em Marthes; a Escola de Metralhadoras Ligeiras, também em Marthes; a Escola de Metralhadoras Pesadas; a Escola de Tiro, Observação e Patrulhas, em Pacaut; a Escola de Morteiros de Trincheira; a Escola de Gás, em Mametz, entre outras. Passaram por estas escolas milhares de militares que assim se foram familiarizando com os novos armamentos e materiais e também com as novas técnicas e táticas. Também ao nível divisionário foram criadas escolas, em especial de baioneta, metralhadoras, gás e granadas.

Depois deste período de instrução, e antes de assumirem responsabilidades na frente, as unidades tipo companhia faziam estágios na frente, junto de unidades inglesas.

A Escola de Sinaleiros

Apesar das preocupações que naturalmente lhe mereciam os telegrafistas e os telefonistas, a verdade é que Soares Branco sabia que o esforço de formação devia ser canalizado para os sinaleiros. É por isso que desde logo planeia a montagem de uma Escola de Sinaleiros, que vem a ser em Quiestede, e apresenta o respetivo programa de instrução:

Limitei-me pois a informar o Comando da necessidade de fazer montar uma Escola de Sinaleiros onde fosse completada a instrução das nossas tropas, fosse qual fosse o seu efetivo, e juntamente submetia a aprovação o programa da mesma instrução:

As matérias a versar na Escola constavam de cinco Secções:

a) lª Secção:

telegrafia acústica simples

telegrafia acústica de corrente dupla.

b) 2ª Secção:

telefonia acústica (buzzer)

telefonia falante

c) 3ª Secção:

telegrafia ótica com bandeiras, quadros venezianos

d) 4ª Secção:

escola de guarda-fios

e) 5ª Secção:

Regras de transmissão, receção, classificação de despachos e sua escrituração.

f) 6ª Secção:

Breves noções sobre o funcionamento do serviço e dos aparelhos em uso nas estações.

 

A 6ª Secção seria diretamente dirigida pelo oficial Comandante da Secção de Telegrafistas de Praça.

Para as praças das unidades de telegrafistas era obrigatória a instrução das cinco Secções (1. 2. 3. 4. 5.)

Às praças de Infantaria era ministrado o ensino das 2ª e 3ª Secções.

Às praças de Artilharia que viessem a frequentar a Escola ser-lhes-ia ministrada a instrução da 2ª, 3ª e 4ª Secções.

Sumariamente, tanto as praças de Infantaria como as da Artilharia era-lhes dado na parte que lhes dizia respeito, noções da 5ª Secção.

O 1º Exército fornecia-me, por empréstimo, o material necessário e com ele dava começo aos primeiros trabalhos, elaborando uns primeiros esquemas e diagramas para a compreensão dos fullerfones, telefones e telégrafos acústicos que de futuro seriam fornecidos às unidades.

Os novos modelos de aparelhos, como o fullerfone, cuja existência era absolutamente desconhecida em Portugal, e a obrigatoriedade da adoção do telégrafo acústico em vez do telégrafo com fita, complicavam extraordinariamente o serviço, e exigiam dos nossos homens uma prática e qualidades que muitos não possuíam.

E se o problema era difícil para as tropas telegrafistas, para a Infantaria parecia quase insolúvel de momento”.

Entretanto, a situação não se apresentou fácil de resolver, pelas dificuldades de os Batalhões dispensarem o seu pessoal para instrução, uma vez que estavam ainda demasiado desfalcados nos seus efetivos. É para isso que Soares Branco chama a atenção:

“As primeiras tropas embarcadas para França, e que em troços haviam começado a chegar à zona de guerra na primeira quinzena de fevereiro, constituídas numa Brigada, só no fim de março puderam enviar os quadros para a Escola de Sinaleiros de Quiestede.

Estavam já em 2 de abril em França quase todos os Batalhões de Infantaria, mas a falta de quadros era enorme.

A custo e por turnos, podiam as unidades dispensar os oficiais e sargentos.

A Artilharia que devia criar e instruir as suas Secções de Sinaleiros de grande efetivo, cerca de 60 praças, precisava também de pessoal idóneo para ser instrutor e instruído”.

A necessidade de instruir todo o pessoal, em especial os telegrafistas e os sinaleiros era tão urgente, que Soares Branco, não tendo completa resposta aos seus pedidos, se viu obrigado, como refere, a converter um dos oficiais da 1ª Secção de TPF, o tenente Mascarenhas de Menezes, em instrutor de praças sinaleiros de Infantaria. E foi ainda obrigado, apesar de tudo tentar para evitar a situação, a aceitar o oferecimento feito pela Missão Inglesa do tenente Colston para auxiliar e dirigir a instrução dos sinaleiros de Artilharia.

Soares Branco refere com clareza esta situação no seu relatório, já que o recurso a este oficial inglês

“contrariava o natural desejo de só com pessoal português instruir as nossas tropas, não menos verdade era que este Serviço Telegráfico havia feito a tempo a proposta que tal evitaria, e não menos verdade era também que o Chefe do Estado-Maior por repetidos telegramas fizera ver à Secretaria da Guerra a urgência na vinda dos seis subalternos requisitados desde os primeiros dias de fevereiro e que só em maio deviam começar a apresentar-se”.

Mas tudo se processou com toda a normalidade, e o capitão Soares Branco vem a reconhecer que

os serviços prestados pelo tenente R.P.A. Colston foram excelentes, e ainda hoje em igualdade de circunstâncias eu procederia como naquela data. Nunca me receei nem receio de aceitar e agradecer a cooperação de oficiais do Exército Inglês, até onde ela pode e deve ser proveitosa e útil”.

Conclusão

Ultrapassadas as dificuldades deste período inicial, as primeiras unidades portuguesas, ao nível Companhia e depois Batalhão, vão-se aprontando para entrar em linha, substituindo unidades inglesas, evidentemente sob o comando dos seus Batalhões ou Brigadas, como veremos no próximo texto.

Neste período, que se estende aproximadamente de fevereiro a princípios de maio, seguindo-se depois a entrada em linha das Brigadas e finalmente a 1ª Divisão em 10 de julho, o Serviço Telegráfico procurou resolver todos os problemas que resultavam da mudança de missão das unidades portuguesas, mas empenhou-se particularmente na melhoria da formação das suas tropas e dos sinaleiros de Infantaria e de Artilharia, da ação dos quais dependia o bom serviço das ligações em campanha, essenciais para o desempenho do comando de qualquer unidade. Pelos resultados que se foram constatando, o Serviço Telegráfico do Corpo foi eficiente e reconhecidamente eficaz na sua missão.

As TRANSMISSÕES na GRANDE GUERRA – Relatório de Soares Branco (4)

Post dos Coronéis Aniceto Afonso e Costa Dias, recebido por msg:

  1. SITUAÇÃO INICIAL DO SERVIÇO TELEGRÁFICO

Introdução

No final de agosto de 1916, pouco depois do fim da primeira fase das manobras de Tancos, chegou a Lisboa uma missão militar anglo-francesa para discutir com Portugal a forma de participação de tropas portuguesas na frente ocidental.

A missão esteve em Portugal até novembro, tendo sido produzido o Memorando das condições de emprego das forças Portuguesas na zona de operações britânica em França, depois aprovado pelo Governo Britânico a 16 de dezembro. O memorando previa que as unidades portuguesas avançariam para França, mas passariam por uma fase de instrução a cargo do comando britânico, antes de entrarem em linha. A força seria constituída por uma Divisão reforçada, com um total de três Brigadas a dois Regimentos e estes a três Batalhões, totalizando 18 Batalhões. Esta composição foi estabelecida numa 2ª Convenção luso-britânica assinada a 3 de janeiro de 1917, pouco antes do embarque das primeiras tropas. Relativamente à artilharia deviam constituir-se quatro Grupos de peças 75 mm e três Grupos de obuses, estes com duas baterias cada. Estava prevista a mobilização de cerca de 40.000 militares.

Partida de Lisboa

Desembarque em Brest

Quando os primeiros contingentes já se encontravam em França, decorrendo o período de aquartelamento e instrução previsto, verificou-se ser necessário fazer uma adaptação de estrutura orgânica, visto que as unidades britânicas não tinham o escalão Regimento, dependendo os Batalhões diretamente das Brigadas. E uma vez que sobravam comandos, foi sugerido pelo chefe da missão militar britânica junto do CEP, que Portugal poderia constituir um Corpo de Exército a duas Divisões, cada uma com três Brigadas e estas com quatro Batalhões, num total de 24 Batalhões, mais seis do que os mobilizados por Portugal. Foi ainda levantada a hipótese de se constituir um Corpo de Artilharia Pesada, na dependência do CEP.

O primeiro contingente em França do mais velho aliado da Inglaterra

Posto o problema ao Governo português ainda em fevereiro, este acedeu de imediato, até porque isso conferia à presença portuguesa um significado de maior relevo. Tornava-se contudo necessário mobilizar mais cerca de 15.000 militares, pois também a estrutura de apoio seria necessariamente aumentada. Isso exigia também a extensão da capacidade de transporte através dos meios navais disponibilizados pela Grã-Bretanha. Ora, essa capacidade estava já comprometida com o transporte de tropas americanas para a Europa, pelo que se tornou muito difícil à Inglaterra aceitar esse compromisso. Apesar de todas as negociações acessórias que se tornaram necessárias e que levaram o ministro da Guerra, Norton de Matos, a permanecer cerca de um mês em Londres, entre meados de maio e meados de junho, o contingente português só no mês de Setembro terminou a primeira fase de transporte para França. Foi nesta altura que, dando corpo a uma intenção que sempre esteve na mente do governo inglês, este propunha que as unidades portuguesas ficassem na dependência de unidades inglesas e integrassem oficiais ingleses, proposta que evidentemente, o governo português rejeitou liminarmente.

Apesar de todas estas hesitações e dificuldades a nível político, no terreno acabou por se trabalhar sempre com a hipótese da constituição do Corpo de Exército, embora as notícias nem sempre fossem tranquilizadoras e fossem causa de algumas dúvidas.

No que respeita ao Serviço Telegráfico, Soares Branco considerou sempre, a partir de março de 1917, a hipótese que depois se viria a concretizar – a entrada em linha do Corpo de Exército português, embora tal só tenha acontecido a partir de 5 de novembro.

Ponto de situação

Voltando à análise do relatório do capitão Soares Branco, constatamos que, quando ele se apresentou ao responsável pelo Serviço Telegráfico do 1º Exército Britânico, coronel de Engenharia H. Moore, no dia 27 de janeiro de 1917, ficou assente que enviaria a este um relatório sucinto sobre a situação do mesmo serviço no CEP.

Coronel Herbert Tregosse Gwennap Moore, Royal Engineers, DSO, CB, CMG, Avis

Para além de uma informação sobre o pessoal e o material do Serviço, Soares Branco deveria também referir as capacidades disponíveis, o grau de instrução do pessoal, as faltas a preencher tanto em pessoal como em material, assim como as alterações necessárias para a sua adaptação à organização inglesa. Soares Branco enviou o relatório ainda durante o mês de março, com data de 23, incluindo-o depois no seu relatório final como apêndice nº. 4. É este apêndice que vamos analisar neste texto.

No corpo principal do seu relatório final, Soares Branco, a propósito do compromisso que tomara de enviar o ponto de situação ao 1º Exército, tece algumas considerações sobre as dúvidas que teve e a forma como procurou resolvê-las, não dando a entender ao seu destinatário as hesitações que ainda subsistiam no CEP quanto à organização das suas tropas. É por isso que ele dá a primeira explicação sobre o envio do relatório ao 1º Exército: “Uma vez estudada a organização e funcionamento do serviço de comunicações no 1º Exército Inglês, no qual deveria o CEP ficar incorporado, julguei da máxima importância informar o Serviço Telegráfico do 1º Exército da organização e estado da instrução à data do embarque para a França das tropas telegrafistas portuguesas”. E também acentua os princípios por que se guiou para cumprir a sua missão, não apenas neste relatório parcial, mas sempre que tivesse de assumir responsabilidades: “Diante de mim tive o problema do futuro, e alheio ao que à Missão Inglesa em Lisboa havia sido comunicado sobre o Serviço Telegráfico, não tendo nem direta nem indiretamente recebido da mesma Missão quaisquer esclarecimentos que pudessem ainda orientar na Metrópole o plano orgânico das unidades telegrafistas e de sinaleiros, dois princípios tive que respeitar:

O primeiro, falar claro e com verdade ao 1º Exército Britânico.

O segundo, em harmonia com o que observara e estudara, propor ao meu Estado-Maior tudo quanto de indispensável havia julgado”.

Tanto para cumprimento dum princípio, como para o outro, seria indispensável que Soares Branco soubesse como iria o CEP organizar-se, o que não foi questão simples neste início de missão. Esta deveria ter sido a principal interrogação que Soares Branco colocou aos responsáveis portugueses já presentes em França, já que era necessário, como diz, “que eu tivesse exato conhecimento de quais as forças que deveriam compor o CEP – Uma Divisão, um Corpo, uma Divisão reforçada com Artilharia Pesada?”. É que, embora compreendendo “quantos melindres e naturais incertezas não encobre uma resposta clara ao que me era indispensável tomar para base de qualquer trabalho, mas sem ela nada de seguro podia propor”.

Mas quando finalmente tem as condições mínimas para prosseguir o seu ponto de situação, já inclui informações sobre a organização dos vários escalões do CEP no que respeita às unidades de comunicações e respetivo pessoal, assumindo em definitivo que a força portuguesa será composta por um Corpo de Exército a duas Divisões. Temos assim, ao nível do Corpo:

“a) 1 chefe do Serviço Telegráfico e 2 adjuntos
b) 1 Secção de Telegrafistas de Campanha
c) 1 Secção de Telegrafistas de Praça
d) 1 Secção de Telegrafia Sem Fios”.

Cada uma destas unidades tinha o seguinte pessoal:

“1. A Secção de Telegrafistas de Campanha tem a composição análoga à indicada para as Divisões podendo contudo receber destas uma ou duas esquadras de fio, no caso de o serviço assim o indicar.
2. A Secção de Telegrafistas de Praça compõe-se de 1 oficial, 3 sargen­tos, 6 cabos e 30 soldados.
3. A Secção de Telegrafia Sem Fios é de 2 oficiais, 3 sargentos, 12 motoristas e telegrafistas, 13 soldados não especializados”.

Mais adiante, Soares Branco refere a composição do Serviço Telegráfico ao nível das Divisões, havendo, em cada uma, uma Secção de Telegrafistas de Campanha e um Destacamento de Telegrafistas de Praça.

Quanto ao “material de que a Secção de Telegrafistas de Campanha dispõe pode ser diminuído duma esquadra de fio que fique pertencente ao Corpo”, e em relação ao pessoal de “Telegrafistas de Praça ficará encarregado das linhas do Corpo na Divisão e transportará no carro de parque o material telefónico e telegráfico que complementarmente for distribuído à Secção de Telegrafistas de Campanha pelo acréscimo do número de ligações pedidas”.

Em cada Divisão, “o chefe do Serviço será o Comandante da Secção de Telegrafistas de Campanha que disporá de 3 oficiais de Engenharia”, a “Secção de Telegrafistas de Campanha tem uma composição idêntica, referida nos quadros”.

Já o Destacamento de Telegrafistas de Praça merece maior atenção e mais extensa referência, com a indicação de que se compõe de “120 praças afetas aos Batalhões de Infantaria, mas sob a direção do Serviço Telegráfico”. Existe também pessoal afeto ao serviço telegráfico e telefónico dos Quartéis-generais, constituído por um segundo-sargento, um cabo e 46 praças, sendo que estas “são treinadas em serviço de estação, construção e reparação de linhas permanentes”.

O relatório que Soares Branco envia ao 1º Exército aborda a questão do material de transmissões existente no CEP, de forma a salientar aquilo que satisfaz as exigências do serviço e o que tem necessariamente de ser substituído ou complementado. Mas as informações acabam por ser genéricas, já que não havia ainda uma clara definição de qual viria a ser a organização das forças portuguesas. Por isso, Soares Branco refere em primeiro lugar o material usado pela Secção de Telegrafistas de Campanha do Corpo, “análogo ao das Secções afetas às Divisões”, que se divide em quatro esquadras, sendo “2 esquadras de cabo, 1 esquadra de fio e 1 esquadra de serviço ótico”.

Esta Secção “pode montar 5 estações telegráficas Morse, 5 estações telefónicas conjugadas servidas pelas mesmas linhas e 5 estações telefónicas falantes”. Com base nos recursos materiais existentes, a Secção podia montar “22 km de linha de cabo simples” e “10 km de linha de fio”.

Por seu lado, a “esquadra de serviço ótico permite estabelecer 8 postos quer de dia quer de noite”, sendo que “todo o material da Secção, a não ser as lanternas para serviço ótico e o cabo simples, é de muito boa qualidade e satisfaz plenamente as condições exigidas do serviço de campanha”.

Seguem-se então informações técnicas sobre o material, algumas bastantes pormenorizadas, incluindo os diâmetros e o revestimento dos vários cabos disponíveis.

Assim, “os telégrafos Morse são de duas direções para sistema escrevente” e os “telefones de 1 e 2 direções têm chamada magnética e chamada acústica para buzzer”. Mas havia apenas “um único comutador suíço para 4 linhas”. E quanto ao cabo, “composto de 5 fios de cobre” e com uma “armadura de 12 fios de aço”, “tem apenas o defeito de estar velho”.

Já o “cabo subaquático é análogo ao cabo armado usado no Exército Inglês”, mas “há apenas 1000 metros”. E embora este cabo fosse “muito pesado, 202 kg. por cada km” estava “enrolado em carretéis apropriados montados nas viatu­ras de carros de cabo, permitindo o seu desenrolamento com a viatura a trote”.

Também o “fio para a linha aérea, composto de 4 fios enrolados em hélice” estava “em boas condições de uso e serviço”.

Por seu lado, “os postes para a linha aérea são de madeira” podendo “atingir uma altura máxima de 16 pés”.

Quanto às pilhas, elas “eram dum sistema Leclanche de rolha e tampa, mas o facto de não se poderem adquirir em Lisboa aglomerados bons para os elementos, torna-lhe o funcionamento defeituoso utilizando-se apenas elementos secos”.

Por fim, o “material para o serviço ótico compõe-se de bandeiras”, “lanternas de óleo de colza ou petróleo”, “heliógrafos de Mance, muito bons para países onde há sol, como em Portugal”, e “aparelhos Mangins (heliógrafo e lanterna) bons mas de complicado funcionamento”, tudo em número de quatro.

Aparelho óptico Mangin, aqui em exercícios em Tancos

Funcionamento do Serviço

Quanto ao funcionamento do Serviço, Soares Branco aborda a questão por sectores, dando informações de cada uma das suas pequenas unidades, secções e esquadras.

Assim, “cada esquadra de cabo (…) faz o serviço indo todas as praças a pé divididas em distribuidores, marcadores, desenroladores e assentadores e verificadores, cujo serviço se faz simultaneamente atingindo-se uma velocidade de 3 a 4 km a hora”. Já as esquadras de fio trabalhavam “com o fio enrolado em carretéis no carro de fio”, não se atingindo mais que “uma velocidade de 2 ou 1 km por hora, conforme os diferentes traçados”.

Em relação ao “serviço ótico, destinado às ligações menos importantes ou a duplicar as principais, tem uma grande mobilidade para as marchas graças ao transporte do pessoal nos carros de parque e ao uso de bicicletas”, podendo “montar sempre 4 postos duplos quer de dia quer de noite”, empregando, conforme as condições, os heliógrafos Mangin ou Mance. De qualquer forma, e durante as marchas, a “Secção divide-se em dois escalões”.

No que respeita à Secção de Telegrafistas de Praça, ela “é a formação cujo pessoal é mais treinado pela sua ocupação civil e militar no guarnecimento das estacões e na construção e reparação de linhas permanentes”. Contudo, os seus “recursos, como facilmente se nota, não chegam atualmente para a multiplicidade de ligações exigidas”.

O serviço desta Secção, segundo Soares Branco, poderia aproveitar-se tanto na “guerra de movimento, na construção de transversais nas redes civis ou militares da retaguarda, reparações e serviço de estações”, como na guerra de posição”, neste caso para a “construção e conservação das linhas enterradas chamadas gerais, e no guarnecimento de estações”.

Relativamente à Secção de Telegrafia Sem Fios, Soares Branco informa que “o material desta Secção é do sistema Marconi – antena em L, com 1,5 kw de potência, 250 km em terreno plano como do Brabante belga, e os mastros em madeira da altura de cerca de 25 metros”, sendo o material “análogo ao do sis­tema inglês”. Nesta Secção “o pessoal está regularmente treinado, mas ainda não pode na sua generalidade considerar-se telegrafista de 2ª classe, embora haja algumas praças de 1ª classe”.

Marconi 1,5 KW Spark Field Set em montagem veicular

Marconi 1,5 KW Spark Field Set

Grau de instrução

Relativamente ao “grau de instrução do pessoal”, Soares Branco separa os telegrafistas de campanha dos telegrafistas de praça, informando que no primeiro caso o pessoal “está razoavelmente treinado no serviço de guarnecimento de estações, bem treinado na monta­gem de linhas de campanha de cabo e de fio”, mas que “precisa todo ele de receber instrução sobre o material inglês diferente do português e com que terá também que trabalhar”. Mas não serão necessárias mais que quatro a seis semanas para essa instrução.

Quanto às Secções de Telegrafistas de Praça, Soares Branco afirma que o seu pessoal “está treinado no serviço de estações, precisa conhecer o material inglês com que virá a trabalhar mas facilmente poderá tomar conta do serviço das estações”. Contudo, “desconhece as regras da montagem e levantamento das linhas de campanha, mas é perito no estabelecimento, reparação e conservação de linhas gerais permanentes”, pelo que a sua instrução não exigiria mais de quatro semanas.

Ainda no que respeita ao grau de instrução, seguem-se os sinaleiros de artilharia e os sinaleiros de infantaria, havendo alguma semelhança, mas também pequenas diferenças.

No que respeita aos sinaleiros de artilharia, “o seu número foi consideravelmente elevado de 5 a 15 por bataria”, sendo que o “sistema homográfico foi substituído pelo alfabeto Morse”. Por seu lado, o material telefónico foi “substituído por material inglês por o antigo não servir, era americano, e os telefones para linha simples eram só de 4 direções”.

Mas como a “maioria dos sinaleiros são quase analfabetos”, a sua instrução “deve ser demorada, pois é toda feita de novo”, tornando-se “também necessário o ensino da profissão de guarda-fio de que nada ainda até hoje lhes foi ensinado”.

Quanto aos sinaleiros de infantaria e “devido à grande maioria de praças analfabetas nesta arma, teve que lançar-se mão de soldados telegrafistas de Praça, de engenharia, para pelo menos ter 2 soldados por companhia e batalhão capazes de fazer uso do Fullerfone”. Por esta razão “a instrução destas praças deverá ser rápida e fácil”, mas “a dos restantes sinaleiros da infantaria será morosa e difícil, não sendo talvez suficiente 6 semanas”.

Conclusões e propostas

Para terminar o seu relatório ao coronel H. Moore, responsável pelo Signal Corps do 1º Exército Britânico, Soares Branco apresenta as suas conclusões e propostas:

“1. Aumentar a dotação de material das Secções de Telegrafistas de Campanha e de Praça até que os seus números igualem os da Companhia de Sinais duma Divisão Inglesa para o que se fez a devida requisição.

2. Dotar as unidades de infantaria e artilharia de material idêntico ao do Exército Inglês para o que se fez a respetiva requisição.

3. Estabelecer uma Escola de Sinaleiros em Quiestede para a Engenharia e Infantaria e uma outra Escola para a Artilharia em Therouanne, para o que já se recebeu algum material, mas para o que ainda restaria pedir às unidades logo que estas o recebam”.

Instrução na Escola de Marthes/Mametz/Thérouanne 23JUN17

Em conclusão

Analisando de forma sucinta o relatório de Soares Branco, feito pouco mais de um mês depois da sua chegada a França e após a sua rápida visita a várias unidades inglesas da frente, pode concluir-se que ele tinha a perfeita noção das suas responsabilidades e conhecia as condicionantes das tarefas que lhe competiam, para bem cumprir a missão das transmissões na frente que seria entregue ao Corpo Português.

Já sabia que o CEP se iria organizar num Corpo de Exército a duas Divisões, que as suas unidades seriam organizadas à semelhança das unidades inglesas e que também o dispositivo das forças e a sua estrutura interna não poderia ser muito diferente da das unidades que visitara no terreno. Era de facto, uma conclusão lógica.

Mas Soares Branco tinha também o conhecimento suficiente sobre o pessoal e o material de que dispunha para organizar o seu Serviço, pelo que tomara já algumas iniciativas, como a requisição dos materiais em falta e a proposta da constituição de duas escolas de formação, onde o elo mais fraco da sua cadeia de tarefas – os sinaleiros – pudesse receber a instrução necessária à sua completa formação.

A análise do seu relatório final, onde se inclui este apêndice, e que iremos continuar, dar-nos-á uma ideia mais precisa da forma como o capitão de Engenharia Soares Branco, como responsável máximo do Serviço Telegráfico do CEP, desempenhou a sua missão.

 

As TRANSMISSÕES na GRANDE GUERRA – Relatório de Soares Branco (3)

Post do Cor Aniceto Afonso, recebido por msg:

  1. AS COMUNICAÇÕES DA ARTILHARIA

O papel da Artilharia

Na frente ocidental, a guerra de movimento foi posta em causa logo nos primeiros confrontos, em especial pela eficácia da metralhadora e da artilharia. As tentativas de ultrapassar o impasse ligado à supremacia do fogo que levou à construção de um intrincado sistema de trincheiras, não conduziram a resultados concludentes. De facto, nem os gases, nem a concentração de forças no ataque em frentes estreitas, nem as primeiras experiências com viaturas blindadas, resolveram o problema da guerra estática. Mas acabaram por ficar na memória da guerra, as longas preparações e contra-preparações, barragens e flagelações, em que eram consumidos milhões de granadas de todos os calibres pelos mais variados modelos de bocas-de-fogo da artilharia.

Embora a artilharia fosse usada desde há longo tempo, a verdade é que as condições proporcionadas pela forma como se desenrolaram as operações na frente ocidental favoreceu o seu papel, podendo dizer-se que se constituiu numa guerra feita à sua medida. A modificação mais marcante foi a ênfase dado aos obuses, de tiro mais curvo, em detrimento das peças, de tiro mais tenso, já que estas não permitiam bater eficazmente as trincheiras.

Houve inovações não só nas armas propriamente ditas, nas munições e nas cargas propulsoras, mas também na condução do tiro, no sentido da sua eficácia progressiva. Outras inovações vieram também contribuir para o emprego da artilharia, como o telefone, a TSF, o balão cativo e o avião, permitindo a observação e aperfeiçoamento do tiro, assim como a transmissão das respetivas informações entre a observação da frente de combate e as posições dos meios de lançamento.

Balão de observação

A impressionante quantidade de munições, assim como a sua variedade, criou muitos problemas logísticos de fabrico, reabastecimento e transporte, que todos os contendores foram solucionando, com recurso a todos os meios disponíveis. Exemplo desta situação foi a chamada das mulheres às fábricas de munições de artilharia, produzidas aos milhões por qualquer dos lados.

Relativamente à artilharia do CEP, toda a organização foi modificada em França, acabando constituída por seis Grupos de Baterias de Artilharia (GBA) tendo cada um três Baterias de peças 75 mm e uma Bateria de Obuses de 114 mm. Foram também constituídos seis baterias de morteiros médios de 152 mm e duas baterias de morteiros pesados de 236 mm. Quando se constituiu o Corpo de Exército, em Novembro de 1917, os 1º, 4º e 5º GBA foram integrados na 1ª Divisão e os 2º, 3º e 6º na 2ª Divisão.

Desembarque de artilharia portuguesa em Brest (Biblioteca Nacional de França)

No início de 1918 foi ainda constituído um Corpo de Artilharia Pesada (CAP), com dois Grupos de três baterias cada, o 1º em janeiro e o 2º em março de 1918.

Posição de Artilharia (Liga Combatentes)

Finalmente, Portugal constituiu também um Corpo de Artilharia Pesada Independente (CAPI), com três Baterias, que ainda atuou em França e que era constituído por um efetivo de 1328 homens, 70 dos quais oficiais.

As ligações da Artilharia

Soares Branco, quando fez a primeira visita às unidades britânicas no terreno, tinha a ideia da organização da artilharia utilizada nas manobras de Tancos. Constatou que tudo era diferente e que a artilharia portuguesa seria organizada de outra maneira para se integrar no comando inglês. Esteve por isso atento à forma como as unidades de artilharia se articulavam com as unidades apoiadas e qual era o papel das comunicações e quais as suas necessidades.

Verificou assim que ao nível da artilharia do Corpo de Exército, todas as ligações eram feitas por um telégrafo acústico para o QG do Corpo e por “dois indicadores telefónicos magnéticos de dez direções para comunicar com os Comandos do Corpo de Exército, com os Comandos de Artilharia das Divisões, com os Comandos Divisionários laterais da Artilharia, chefe do Estado-Maior do Corpo, Depósito de Munições, elementos de observação, etc.”. Havia também um quadro de entrada de linhas e um quadro de ensaio de linhas.

Soares Branco constatou também que junto da artilharia do Corpo deveria sempre “haver guarda-fios e material para reparação das linhas, sendo estas de ordinário sempre aéreas”. Para além disso, o pessoal deveria “ser fornecido pelas unidades telegrafistas do Corpo, sob a direção de um oficial telegrafista”.

Por seu lado, tanto na Divisão, como na Artilharia pesada, as ligações eram muito semelhantes às do Corpo, sendo dispensável o telégrafo acústico.

Grupo de Sinaleiros do CAP

Já no comando de um Grupo de Artilharia, o material existente constava de um “indicador telefónico magnético de dez linhas para as comunicações com o Comando da Divisão, os Grupos laterais, a Brigada e o Comando da Artilharia Divisionária”. Havia também “vários telefones para um ou dois indicadores telefónicos acústicos, que faziam a ligação com as baterias do Grupo, e os postos centrais dos postos de observação ou mesmo diretamente com aqueles postos de observação”. Na artilharia, “não se empregava nunca o fullerfone”.

Obus 114mm

Ao nível do Grupo havia ainda “estações recetoras de TSF a cargo da Royal Corps Flying para as ligações com os aeroplanos, tendo três telegrafistas de serviço aos aparelhos”.

Dada a relativa complexidade destas comunicações, constatava Soares Branco que, ao nível do Grupo se tornava necessário um oficial telegrafista.

Quanto ao posto de uma Bateria, existia um comutador de sete direções telefónico acústico e vários telefones. Embora as comunicações das baterias “com os batalhões ou unidades a que estão adstritas” se fizessem por intermédio da estação do Grupo”, isso “não era para recomendar”.

Abrigo de uma peça 75mm (coleção Garcês, AHM)

Soares Branco constatou ainda que “normalmente à frente das Baterias e à retaguarda dos postos de observação havia um Posto Central de Postos de Observação, aonde iam ter todas as linhas destes, e por onde passavam as linhas das baterias e dos Grupos”. E que “como nova precaução contra o frequente corte das comunicações, e em regiões onde o bombardeamento era usual, um novo posto como o acima indicado, mas mais avançado, era estabelecido junto dalgum dos postos de observação das baterias”.

Em suma, Soares Branco, visitando as unidades de artilharia da frente inglesa, acabou por reunir um conjunto precioso de informações que em muito vieram a contribuir para o desempenho da sua missão de responsável pelo Serviço Telegráfico do CEP. Contribuíram também para a sua compreensão da dependência que a artilharia ia criando em relações às comunicações, tanto para as unidades apoiadas como para a observação e condução do tiro.

Depois desta apreciação de Soares Branco sobre a Artilharia, o seu relatório contém um primeiro apêndice, que respeita ao memorando que ficou de apresentar ao responsável do Signal Corps do 1º Exército inglês, e que abordaremos no próximo texto.

A voz e os ouvidos do MFA

Na próxima terça-feira, dia 25 de Abril, pelas 21:00, a RTP irá apresentar um filme-documentário realizado por António Pedro de Vasconcelos sobre a participação das Tm no 25A, em particular o lançamento de um cabo, de forma clandestina, que permitiu ligações telefónicas com o comando do MFA no Regimento de Engenharia da Pontinha e que se constituiu como a primeira operação militar do 25A, já descrita e referida neste blogue (ver aqui).

Trailer:

Em tempo:
Se não teve oportunidade de assistir ao programa, pode vê-lo clicando aqui.

As TRANSMISSÕES na GRANDE GUERRA – Relatório de Soares Branco (2)

Post do Cor Aniceto Afonso, recebido por msg:

  1. A PRIMEIRA VISITA DE SOARES BRANCO ÀS UNIDADES INGLESAS

Como já sabemos, o relatório do capitão de Engenharia Soares Branco, chefe do Serviço Telegráfico do Corpo, é um documento fundamental para se compreender como funcionou este Serviço na frente de batalha, durante o período em que o CEP se manteve em França.

Já falámos das visitas que Soares Branco efetuou às unidades inglesas de diferentes escalões, logo após a sua chegada a França, a partir do final do mês de janeiro de 1917. No primeiro texto demos uma ideia geral destas visitas, nas suas grandes linhas. Mas o relatório é minucioso em relação aos aspetos mais interessantes relacionados com o funcionamento do serviço telegráfico nas unidades inglesas.

Vejamos então algumas das observações que Soares Branco considerou relevantes e que incluiu no seu relatório.

Durante a visita que efetuou ao QG do XI Corpo da Força Expedicionária Britânica, iniciada em 2 de fevereiro de 1917, são de destacar os apontamentos sobre pessoal e material e também sobre o funcionamento do Serviço Telegráfico (Signal Service). Na estação telegráfica do Corpo estavam presentes cerca de 30 elementos, com as suas especialidades e funções, que guarneciam oito aparelhos telegráficos e também o sistema telefónico, com dois indicadores, um de 40 e outro de dez direções. Na estação entravam cerca de 200 linhas, entre telegráficas e telefónicas, que eram quase todas aéreas até aos quartéis-generais das Divisões e das Brigadas.

Montagem de linhas aéreas com postes duplos

Soares Branco constatou que, para além da estação telegráfica, havia junto do Corpo, para se efetuar o serviço de comunicações, secções de cabo correspondentes às respetivas Divisões, no caso três secções. Cada uma tinha 36 elementos e fazia uso de oito carros de lançamento de cabo. Não deixa de ser interessante que Soares Branco refira a existência de 40 milhas de cabo, mas que este material “aguardava a guerra de movimento sendo expressamente proibido fazer uso dele”.

Carro de cabo português

Seguidamente, como sabemos, o capitão Soares Branco dirigiu-se para o QG da V Divisão, reconhecendo aí o respetivo Serviço Telegráfico e a Estação Central da Divisão. As comunicações telegráficas dispunham de quatro aparelhos em funcionamento e as comunicações telefónicas eram asseguradas por dois indicadores de 10 linhas, ligando às repartições do QG, ao Corpo, às Brigadas, às Divisões laterais, Comando de Engenharia, Serviço de Saúde, etc.

10 Line Field UC/MK 236 Switchboard

Um sargento, dois cabos e 13 soldados asseguravam o serviço da Estação.

No seu conjunto, o pessoal telegrafista da Divisão dividia-se em estado-maior e quatro secções. O estado-maior era constituído por um oficial, cinco sargentos, um artífice e 45 soldados, estando equipado com um automóvel, 16 motocicletas e 15 bicicletas. Por sua vez, cada secção era constituída por quatro oficiais, dois sargentos, dois artífices e 66 soldados. Cada secção tinha à sua disposição quatro carros de cabo e quatro carros ligeiros, podendo estender 52 milhas de cabo.

Estafetas motociclistas

O quadro abaixo procura dar uma ideia da distribuição do pessoal e do material das comunicações ao nível do Corpo e da Divisão:

Quadro 1, elaborado por Jorge Costa Dias

Soares Branco realça também a importância das informações que recolheu nas visitas a uma Brigada de Infantaria, a um Batalhão, e também à Artilharia, incluindo no seu relatório os números principais e a forma de funcionamento do sistema de comunicações em cada um deles.

Em relação à Brigada, menciona em primeiro lugar a Estação e depois o “Posto de Combate”. Na Estação encontrou em funcionamento um telégrafo acústico para a Divisão, dois indicadores acústicos de sete direções para os Batalhões, assim como um fullerfone com a mesma finalidade. Existia também um indicador telefónico acústico de dez linhas para as ligações internas e para os Grupos de Artilharia.

Quanto ao pessoal, serviam na Estação dois sargentos e nove praças, com as suas especialidades. O total do pessoal da Brigada ligado às transmissões era de 1 oficial, 2 sargentos e 24 soldados, que tinham para o seu serviço 18 bicicletas e quatro cavalos.

Relativamente ao “Posto de Combate” da Brigada, o melhor seria fazê-lo coincidir com a central telefónica do Grupo de Artilharia adstrito à Brigada, embora nem sempre isso fosse possível. De qualquer modo, deveriam funcionar aqui três indicadores telefónicos acústicos de sete direções para a Artilharia e um ou dois para os Batalhões, complementados com um fullerfone para os Batalhões.

Fullerphone Trench S: Usado nas trincheiras nas ligações para as Companhias e os Batalhões. © IWM (COM 176)

Soares Branco tira algumas conclusões, assim sistematizando os conhecimentos proporcionados pela sua visita. Em primeiro lugar, no caso de o posto da Brigada coincidir com o posto do Grupo, o comando daquela podia corresponder-se com os seus Batalhões, as Brigadas laterais e a Divisão; e o comandante do Grupo podia comunicar com qualquer Bateria, Batalhão ou posto de observação. Se fosse necessário instalar dois postos distintos, deveriam prever-se ligações entre os dois postos, não esquecendo que “o telefone da artilharia deve sempre permitir a transmissão de voz”. Também seria de prever um sistema de sinais óticos para comunicar com os batalhões, embora sem a comunicação recíproca.

Por sua vez, o posto telefónico de um Batalhão devia ter dois indicadores acústicos de sete direções, um fullerfone e um telefone, sendo este utilizado para as baterias e o fullerfone para as companhias.

Telephone Set D Mark III

Em qualquer caso, a duração dos serviços era sempre de 24 horas.

As ligações da Artilharia merecem um capítulo separado no relatório de Soares Branco, pelo que as abordaremos em outro texto.

O quadro seguinte é um resumo das observações feitas por Soares Branco, em relação à Brigada, ao Batalhão e também à Artilharia.

Quadro 2, elaborado por Jorge Costa Dias

As TRANSMISSÕES na GRANDE GUERRA – Relatório de Soares Branco (1)

Post do Cor Aniceto Afonso, recebido por msg:

  1. O SERVIÇO TELEGRÁFICO E O INÍCIO DA SUA ATIVIDADE EM FRANÇA

O capitão de Engenharia Carlos Soares Branco foi indicado, em novembro de 1915, para o cargo de chefe do Serviço Telegráfico da Divisão de Instrução que iria preparar-se em Tancos com vista à sua ida para França. Essa escolha foi feita pelo coronel Roberto da Cunha Baptista, chefe do Estado-Maior da Divisão.

O seu desempenho nas manobras revelou um oficial de grande qualidade, com o desejo de afirmar um serviço que procurava um papel de relevo na manobra militar, proporcional ao enorme desenvolvimento técnico que as comunicações vinham conhecendo.

De facto, o apoio das comunicações à manobra militar, nas circunstâncias das frentes de combate da guerra europeia, vinha-se tornando cada vez mais importante.

Foi portanto natural a nomeação do capitão Soares Branco para responsável máximo do Serviço Telegráfico do Corpo Expedicionário Português (CEP), ainda a convite do coronel Roberto da Cunha Baptista, também nomeado chefe do Estado-Maior da 1ª Divisão.

Logo que se programaram os transportes marítimos da força expedicionária portuguesa para França, iniciados em finais de Janeiro de 1917, Soares Branco e uma pequena equipa do seu serviço avançou por terra, atravessando Espanha de comboio, como se tornou habitual, e já estava em França quando os embarques se iniciaram em Lisboa.

Responsável pelo Serviço Telegráfico desde a sua organização com a entrada em linha das primeiras unidades portuguesas até ao completo desempenho do cargo entre 5 de novembro de 1917 e 6 de abril de 1918, tempo em que o Corpo de Exército Português ocupou a linha da frente como grande unidade, Soares Branco redigiu entre junho e julho de 1918 um excelente relatório sobre o Serviço Telegráfico, notável documento que muito esclarece sobre as comunicações no CEP, mas também sobre outras diversas circunstâncias da participação do CEP na frente.

As suas primeiras palavras situam-nos no dia em que Soares Branco iniciou os contactos com os responsáveis e as unidades britânicas presentes na zona de provável ação da força portuguesa, no vale do Lys, na Flandres francesa.

Começa assim o autor do relatório: “Presente na zona de guerra a 27 de janeiro de 1917, foi-me apresentado o oficial de engenharia do Exército Britânico Lte. Brander, o qual havia sido nomeado pelo 1º Exército como oficial de ligação e intérprete junto do Serviço Telegráfico do CEP e como tal havia sido agregado à Missão Britânica”. Completam-se portanto cem anos desde que Soares Branco iniciou os seus contactos com as unidades britânicas e os respetivos serviços telegráficos!

Àrea de responsabilidade do 1º Exército Britânico (AHM)

Area de responsabilidade do 1º Exército Britânico (AHM)

A partir daqui o chefe do Serviço Telegráfico do CEP vai contactar várias unidades britânicas de diferentes níveis, desde o QG do 1º Exército até um Batalhão de Infantaria e as baterias de artilharia, procurando inteirar-se da forma como o serviço telegráfico estava organizado, quais as suas funções, os materiais usados, a distribuição do pessoal, as formas de transmissão, os circuitos da correspondência, as ligações estabelecidas, o funcionamento das centrais, a utilização dos vários especialistas, desde os telegrafistas aos sinaleiros, etc.

Nesses dias de contacto com a realidade das unidades inglesas, Soares Branco tomou boa nota de tudo quanto lhe foi dado observar, desde as grandes linhas organizativas até aos muitos pormenores que poderiam fazer com que o serviço desse resposta pronta às solicitações das unidades que servia.

Foi o seguinte o seu percurso, devidamente referido no seu relatório e que merece mais aprofundada análise:

– QG do 1º Exército Britânico. Apresentou-se aqui ao chefe do Serviço Telegráfico, coronel de engenharia H. Moore, tendo-se comprometido a apresentar um relatório sobre “o que de mais urgente se me afigurasse propor e solicitar” e visitando a sua estação central instalada em Lillers.

Estação "telegráfica" de um QG de Exército (The signal service in european war of 1914 to 1918)

Estação “telegráfica” de um QG de Exército (The signal service in european war of 1914 to 1918)

– QG do XI Corpo, “estabelecido nas proximidades de Hingues”. Aqui reconheceu a estação telegráfica, o pessoal presente, os aparelhos telegráficos e telefónicos instalados, assim como as suas características. Anotou também como se processava o serviço de mensagens e como estava montada a assistência à estação. Resume assim as suas impressões: “Entravam na estação cerca de 200 linhas telegráficas e telefónicas, quase todas aéreas, pelo menos até aos Quartéis-Generais das Divisões e das Brigadas”.

Mensageiro motociclista

Mensageiro motociclista (dia de Natal 1917)

– QG da V Divisão Britânica, constando de um Serviço Telegráfico e de uma Estação Central da Divisão. No seu relatório, Soares Branco anota com todo o pormenor, a rede de comunicações, os aparelhos em uso, as ligações estabelecidas, o pessoal de serviço, o material de transporte em apoio do serviço de mensagens, a orgânica do Serviço Telegráfico ao nível da Divisão.

Distribuição de pombos-correio

Distribuição de pombos-correio

– Brigada de Infantaria, com o seu serviço telegráfico e o seu “Posto de Combate”. Também a este nível Soares Branco fez as mesmas anotações, constatando que “umas vezes o Posto de Comando coincide com a central telefónica do Comando dum Grupo de Artilharia adstrito à Brigada, outras vezes, porém, tal não é possível”, o que implicava alterações significativas na organização das comunicações.

– Posto telefónico dum Batalhão de Infantaria, assim como o seu posto de combate, situado geralmente junto do comando de uma companhia, onde merecem especial atenção as ligações à unidade de artilharia.

Aliás, as ligações da artilharia merecem um capítulo especial nesta primeira ronda pelas unidades inglesas feita por Soares Branco, que desde logo se apercebeu da importância que lhes devia ser atribuída.

Neste domínio, o relatório refere as ligações da artilharia no Corpo de Exército, na Divisão e na Artilharia Pesada, no Comando do Grupo de Artilharia e ao nível da bateria.

A situação, ao nível das baterias, resume-a Soares Branco de seguinte forma: “As comunicações com os batalhões ou unidades a que estão adstritas faziam-se por intermédio da estação do Grupo, o que não era para recomendar.

“Normalmente à frente das Baterias e à retaguarda dos postos de observação havia um Posto Central de Postos de Observação, aonde iam ter todas as linhas destes, e por onde passavam as linhas das baterias e dos Grupos.

Sinais visuais

Sinais visuais com a lanterna Lucas

“Ainda como nova precaução contra o frequente corte das comunicações, e em regiões onde o bombardeamento era usual, um novo posto como o acima indicado, mas mais avançado, era estabelecido junto dalgum dos postos de observação das baterias”.

Sinaleiros em ação

Sinaleiros em ação com quadro de persianas

Finalmente, sob o título de “notas várias”, Soares Branco elenca um conjunto de observações importantes para a organização do serviço telegráfico de que seria responsável no terreno, em breve.

Estas “notas várias” traduzem o sentido prático deste autêntico estágio que Soares Branco efetuou nas unidades inglesas a partir de finais de janeiro de 1917, na sua zona de ação futura. Merecem ser transcritas na totalidade:

“Entre os Quartéis-Generais das Brigadas e os dos Batalhões, e em geral perto do local onde as linhas passavam de aéreas a ser subterrâneas, havia, por vezes, estações de verificação das linhas com pessoal guarda-fios, que desta forma, em abrigos, aguarda ser empregado.

Verificação da linhas

Verificação e teste das linhas

“De centenas em centenas de metros, 500 a 800, existiam caixas de ligação em abrigos com sacos de terra que permitiam a verificação dos troços onde o bombardeamento fazia interrupções.

“As linhas aéreas com cabo isolado estavam suspensas de postes duplos de cerca de seis metros de altura com travessas.

Transporte de postes

Transporte de postes

“Por vezes havia também, e em locais muito expostos ao bombardeamento, linhas enterradas em geral em trincheiras próprias a 1,8 m da superfície com cabo de isolamento apropriado.

“As linhas dos batalhões e das companhias para os postos de combate seguiam os ramais de comunicação, sobre o revestimento lateral, ao qual eram fixados por grampos próprios, ou de corda alcatroada.

“As linhas que não seguiam pelos ramais eram seguras às árvores, a casas arruinadas, etc., para o que se fez largo emprego de grampos”.

Lançamento de linhas

Lançamento de linhas

Com estas notas termina o capítulo I do relatório. O capítulo II será dedicado não apenas ao memorando que Soares Branco ficara de apresentar ao 1º Exército Inglês, mas também à Escola de Sinaleiros, aos materiais novos de transmissão, desconhecidos em Portugal e usados nas trincheiras, e às alterações orgânicas necessárias no Serviço para bem responder às crescentes necessidades das unidades combatentes e de apoio logístico, cujas comunicações estariam a cargo do Serviço Telegráfico do Corpo e suas unidades.

São assuntos para abordar noutros textos.

 

Grande Guerra – CEP – Companhia de Telegrafistas do Corpo

 

 

CEP – Carta de comando do Comandante da Companhia de Telegrafistas do Corpo

O capitão de Engenharia Soares Branco foi o responsável pelo Serviço Telegráfico nas manobras de Tancos da Divisão de Instrução. Quando se constituiu o Corpo Expedicionário Português (CEP), ele foi naturalmente nomeado comandante do Serviço Telegráfico do Corpo e enviado para França. Seguiu por caminho de ferro, atravessando Espanha como muitos outros oficiais portugueses e chegou à zona de guerra em finais de Janeiro de 1917, apresentando-se no QG do 1º Exército Britânico.

 
A partir daí, Soares Branco dedicou-se à criação de condições para que as unidades e os efetivos relacionados com os serviços telegráficos pudessem bem cumprir as suas missões. Estagiou em unidades inglesas, elaborou relatórios, requisitou materiais, reconheceu as áreas de provável ocupação pelas unidades portuguesas, elaborou normas e regulamentos, previu a constituição de uma escola de sinaleiros, fez propostas para a organização, instrução e atribuição das unidades e dos meios de transmissões e definiu finalmente a estrutura do seu serviço e as missões e tarefas inerentes ao apoio telegráfico e de comunicações.

 
Todos os procedimentos foram sendo aperfeiçoados até às vésperas da entrada em setor do Comando do Corpo, ocorrida em 5 de Novembro de 1917. Dias antes, com data de 31 de Outubro, Soares Branco enviou as últimas propostas ao QG do Corpo, fixando a organização do Serviço Telegráfico (nota nº 924).

 
Para apoio do Comando do Corpo existia a Companhia de Telegrafistas do Corpo, constituída por uma Secção de Telegrafistas de Campanha e por uma Secção de Telegrafistas de Praça, às quais se juntava agora uma nova Secção Automóvel Por Fio (SAPF), que também era designada por Secção Automóvel de Ligação por Fio (SALF), que Soares Branco entendia necessário constituir, e a quem competia assegurar todas as ligações do QG do Corpo aos QG das Divisões e à Artilharia Pesada, conseguindo-se “desta forma economia de oficiais encarregados de funções administrativas e maior unidade de comando” (Relatório do Serviço Telegráfico, de Soares Branco, AHM/01/35/148).

 
Foi nomeado comandante da Companhia de Telegrafistas do Corpo o tenente de Engenharia João Alegria dos Santos, deixando a Escola de Sinaleiros, da qual era diretor. Logo em 13 de Novembro, o capitão Soares Branco dirige-lhe uma nota (nº 1028), indicando-lhe os métodos de trabalho técnico que julga preferíveis para as situações de “guerra de trincheiras”, “guerra de movimento” e “instrução”, constituindo este documento um esboço de carta de comando, que viria depois a ser aperfeiçoada de acordo com a experiência recolhida após a entrada em linha.

 
É o seguinte o texto da nota em questão:

“Ao Sr. Comandante da C. T. C.

Pela primeira vez que me dirijo a V. Ex. oficialmente, começo por lhe assegurar a certeza em que estou de que V. Ex. no exercício do comando que lhe foi agora confiado continuará demonstrando o muito zelo e inexcedível dedicação com que dirigiu a Escola de Sinaleiros.

Seguidamente passarei a indicar-lhe, duma maneira geral, qual o método de trabalho técnico que julgo preferível V. Ex. fazer executar, não me referindo a algumas questões de ordem administrativa que, fazendo-se sentir devido às distâncias que separam os comandos e as tropas, desaparecerão com o novo estado de coisas.

Guerra de trincheiras.

I. De entre os oficiais que compõem a Companhia, 1 deles, o comandante da S. de T. de Campanha Sr. Ten. eng. João Pedro Saldanha, ficará tendo a seu cargo as linhas desde a estação do Corpo às Divisões, e quaisquer outras que venham a ser entregues ao Corpo.
Elaborará juntamente com o oficial adjunto deste serviço os esquemas e plantas de traçado das linhas que for necessário enviar ao 1º Exército, e preparará a entrega das comunicações do Corpo a outra qualquer grande unidade. O serviço será montado com os elementos da S.T.P. Fios, e com as rondas dos guarda-fios que forem julgadas convenientes. Nesse serviço poderão ser coadjuvados pelo pessoal de T. P. (telegrafistas de praça) se assim for tido por necessário.
Haverá um graduado especializado por cada traçado principal de linhas o qual será nomeado chefe de guarda-fios do traçado. Um Sargento devidamente habilitado desempenhará o serviço de Chefe de guarda-fios.
Dever-se-á propor talvez de postos permanentes de guarda-fios para a ronda diária que as linhas devem sempre sofrer.
Cada manhã, depois do ensaio prévio das linhas da estação central será participado telefonicamente à S.T.C. quais as linhas que devem ser especialmente ensaiadas e vistoriadas.
Independentemente desse aviso, e segundo um horário a fixar, praças percorrerão os traçados para vigiar o inspecionar as linhas.
Os ensaios, porém, só serão feitos depois do aviso da central, sendo fixados os limites onde em cada traçado começam as praças o serviço e onde o acabam.
Se houver grandes reparações a efetuar ou construção de novas linhas, será solicitado o auxílio da Secção S.A.L.F. que se encarregará então do serviço que o Comando lhe prescrever segundo as instruções de este S.T.
O pessoal telegrafista e telefonista da S.T.C. coadjuva o da 1ª Secção da Companhia, sempre que tal foi pedido.

II. Competirá a um oficial da Companhia, o Sr. alf. eng. Marcial Freitas e Costa, a fiscalização e responsabilidade de tudo o quo disser respeito ao serviço na estação Central do Corpo – telefone, telégrafo e correspondência.
Para coadjuvar o serviço haverá diariamente o 1º sargento Vigoco na correspondência com 2 praças, um sargento de dia à estação – telegrafo e telefone – com 3 telegrafistas, 2 telefonistas, 2 guarda-fios, 1 motociclista, e 3 ordenanças sendo destas 2 ciclistas.
O Snr. alf. eng. Casquilho da S.T.C. será também, conveniente que tome conhecimento deste serviço, pois torna-se indispensável que haja sempre dois oficiais especializados em cada uma das secções da Companhia.
Às 3 horas o sargento de dia verificará todas as linhas que deem entrada na estação. Regista as indicações do ensaio, tendo para esse fim um livro riscado segundo o impresso regulamentar.
Seguidamente, às 11 horas, e na presença do oficial, serão experimentados todos os telefones, será distribuído o serviço aos guarda-fios da estação, pedido serviço aos guarda-fios da S.T.C., solicitados os trabalhos da S.A.L.F. ou ao Comandante da Companhia se se julga necessário.
É da estação central do Corpo que por intermédio da estação de Roquetoire se farão as explorações em toda a área do C.E.P., e para a frente para as estações centrais de cada uma das Divisões.

III. Competirá ao Oficial comandante da 2ª Secção – S.A.L.F.- o Sr. alf. eng. João D´Korth, não só a elaboração de acordo com o Comandante da S.T.C. de todo os projetos de traçados novos a construir, mas também a efetivação de grandes reparações que não possam ser realizadas pelo pessoal da S.T.C. Como comandante da 4ª Secção – S. E. Motociclistas – compete-lhe o serviço de correspondência segundo o horário pelo S.T. formulado, e fazer apresentar para serviço as praças que pela estação telegráfica, mediante autorização superior, sejam pedidas para serviço extraordinário.
No serviço de construção das linhas e instrução do pessoal deve também ser especializado o Snr. alf. Medeiros Tanger da S.T.C.

Guerra de movimento.

Competirá à S.T.C. a construção de todas as linhas de cabo desde o Q.G. das Divisões aos centros de comunicação fim das linhas de fio, para o que utilizará as 3 esquadras de cabo da Companhia.
Competirá à S.A.L.F. a construção de todas as linhas de fio desses centros de comunicação até ao Q.G. do Corpo, ligações laterais e ligações às linhas do Exército, para o que se servirá não só do material da sua Secção, como do material das esquadras de fio de campanha que lhe forem afetas.
Competirá ao C. da 1ª Secção da Companhia a responsabilidades do serviço na estação do Corpo.
Aos 2 subalternos da 3ª Secção e ao oficial de engenharia subalterno da Escola de Sinaleiros competirá o comando de cada uma das 3 esquadras de cabo e esquadra de fio para as quais existe o pessoal da mobilização na 3ª Secção.
Competirá ao oficial Comandante da 3ª Secção a responsabilidade das comunicações desde o Q.G. Avançado até às Divisões.
Competirá ao Comandante da C.T.C. e à S.A.L.F. e esquadra de fio de campanha adstrita a montagem e construção de todas as linhas desde a Estação central do Corpo à estação avançada e sua reparação.
Ao Chefe do Serviço Telegráfico competirá a direção imediata de todas as comunicações estabelecidas.

Instrução.

Conhecido o número de praças de serviço diário, proporá V. Ex. o horário etc. da instrução a dar às praças que estiverem de descanso.

                                                                                                                                                C. Soares Branco
Capt.                                                                                                                                                                           C. S. T. do C. E. P.”

(Ver o original em AHM/01/35/550/5)

Grande Guerra – As Comunicações de um batalhão na linha da frente


Em 10 de Setembro de 1917, o alferes José Augusto do Carmo, chefe da Secção de Sinaleiros do Batalhão de Infantaria 1 pertencente à 6ª Brigada, apresentou um relatório sobre o funcionamento das comunicações ao nível de batalhão nas primeiras linhas. Nesta data, o Comando do CEP ainda não exercia a responsabilidade do Sector Português, estando as unidades portuguesas sob o comando operacional do XI Corpo de Exército britânico comandado pelo general Hacking. A 1ª Divisão exercia essa responsabilidade desde o dia 10 de Julho e o Corpo Português assumirá esse comando no dia 5 de Novembro de 1917, ficando subordinado ao I Exército Britânico, sob o comando do general Horne.
As brigadas pertencentes à 2ª Divisão foram assumindo a responsabilidade das suas zonas de ação, até se concluir o período de sobreposição necessário ao avanço do comando, o que veio a acontecer no dia 26 de Novembro.
Cada divisão ficou constituída por três brigadas, cada brigada por quatro batalhões e cada batalhão por quatro companhias.
Em relação às comunicações, e segundo as informações do alferes Carmo, existiam, na área do batalhão, duas redes de comunicações por fio. Havia a rede de alarme SOS ou “omnibus” só para pedidos SOS, que ligava entre si todas as estações e os postos SOS do batalhão (postos mais avançados de observação, responsáveis por emitir alarmes),os quais se serviam do telefone. Os telefones funcionavam em paralelo e eram operados por sinaleiros.
A rede normal ligava o batalhão às suas companhias, aos postos avançados, às estações dos batalhões adjacentes, às unidades de artilharia de apoio e ao comando da sua brigada. O equipamento desta rede era constituído por dois indicadores 413 e fullerfones. Os fullerfones estavam ligados às centrais 413 e eram operados pelas praças da Companhia de Transmissões de Praça.
O pessoal que operava as comunicações no batalhão era constituído por soldados da Companhia de Telegrafistas de Praça, guarda-fios e sinaleiros. Cada batalhão tinha cinco soldados da Companhia de Telegrafistas, estando um no Batalhão e um em cada companhia; os guarda-fios eram três e estavam todos no Batalhão. Os sinaleiros eram dois por companhia (oito no total), estando um destacado no posto SOS da companhia quando esta estava na frente. De uma forma geral, o dispositivo do Batalhão na frente contava com duas companhia em primeira linha, uma em apoio e outra em reserva, embora os trabalhos fossem ininterruptos. As rotações faziam-se quase sempre com intervalos de seis dias.

O relatório atrás referido do alferes Carmo está estruturado da seguinte forma:
– Comunicações telefónicas estabelecidas
– Aparelhos empregados nas estações e postos
– Forma como o pessoal foi distribuído
– Como desempenharam a sua missão
– Como é pedido o auxílio da artilharia pela infantaria
– Como está montado o serviço de correspondência
– Informações diversas
O relatório, muito sintético e objetivo, dá uma ideia muito aproximada do funcionamento das comunicações ao nível do batalhão, apresentando as principais tarefas e dificuldades enfrentadas pela Secção de Sinaleiros. Publica-se integralmente.

CEP, 2ª Divisão, 6ª Brigada, 1º Batalhão
Secção de Sinaleiros de Infantaria nº 1
Relatório

Comunicações telefónicas estabelecidas.
Existiam no Batalhão em que fiz serviço duas redes de comunicações, uma, a omnibus ou de SOS, que ligava entre si todas as estações e postos os quais se serviam do telefone; outra, a normal, que permitia comunicações pelo fullerfone entre as estações do Batalhão e as que se lhe ligavam da retaguarda.
Junto a este relatório vão os respetivos esquemas.
Pelo primeiro destes sistemas, só é permitido falar-se quando em caso de SOS e mesmo assim limita-se o despacho a SOS e indicação do setor que o pediu. Pelo outro são enviados os outros despachos, mesmo de carácter D.D.
Aparelhos empregados nas estações e postos.
Na central do Batalhão bem como nas estações das Companhias existiam fullerfones. Em virtude do número de ligações no Batalhão existiam 2 indicadores 413, 2 fullerfones e 2 telefones, um para o SOS e outro para a verificação das linhas.
Cada estação está munida de um telefone ligado à linha do SOS e existem no sector de cada Companhia da frente e na 1ª linha um posto munido de um telefone e que é chamado posto de SOS, visto que é dali que parte em caso de perigo essa indicação, que é ouvida no Batalhão e em todas as companhias.
Os fullerfones que vi empregar eram os I e os telefones, franceses.
Forma como o pessoal foi distribuído.
Coloquei em cada Companhia um soldado da CTP e 2 sinaleiros. No Batalhão, um soldado da CTP e 3 praças como guarda-fios.
O sargento fazia serviço na central do Batalhão, e todos os sinaleiros passaram por todas as situações: companhias da frente, apoio, reserva, postos de SOS e central do Batalhão.
Como guarda-fios guardei os inaptos para sinaleiros. Esses acompanharam sempre o serviço que hão de desempenhar.
Como desempenharam a sua missão.
Se atender ao pouco tempo de instrução que tiveram na Escola (1), ao facto de nem todos terem sido sinaleiros, e ao conhecimento de que não tenham responsabilidade no desempenho do serviço, portaram-se a contento.
No entretanto, é preciso substituir alguns homens, para o que já estou dando instrução a igual número.
Como é pedido o auxílio da artilharia pela infantaria.
Quando é necessário bater um ponto inimigo pela artilharia, o fogo é pedido pelo Batalhão às baterias que o apoiam.
Em caso de SOS, para maior rapidez, e segundo as instruções, é comunicado ao Batalhão telefonicamente o sector que periga e este, por sua vez, comunica às baterias.
Se falta o telefone usam-se os outros meios de comunicação e em último caso foguetões, que bastam só por si para que a artilharia faça fogo sobre a frente inimiga indicada pela direção em que os foguetões foram lançados.
Como está montado o serviço de correspondência.
A central do Batalhão é ao mesmo tempo posto de correspondência. Esta é agrupada ali conforme a proximidade dos seus destinos e enviada pelos ciclistas e estafetas apeados. A correspondência urgente é enviada imediatamente, e é considerada urgente a que se refere a munições, para o que lhe basta a indicação no envelope “Munições”.
Este serviço é fiscalizado nos recibos que o destinatário assina e que registam as horas da entrega e do recebimento, nº da correspondência e destino.
Informações diversas.
Não se utilizam nas trincheiras, nem bandeiras, nem discos.
Não vi tão pouco utilizar as lanternas de sinais. Julgo possível e conveniente o seu emprego em comunicações da frente para a retaguarda para postos que não dariam conferências nem entendidos.
Cada linha tem a sua linha de reserva, que passa por itinerário diferente.
As linhas passam em diversos sítios por caixas de experiências, para mais facilmente se conhecerem as avarias e as reparar.
Em Campanha, 14 de Setembro de 1917
José Augusto do Carmo
Alf. Infª. 1”.

(1) Refere-se à Escola de Sinaleiros, em França, que dava instrução aos sinaleiros, de telefonia acústica (buzzer), telefonia por voz e telegrafia ótica com bandeiras, com quadro venezianos e lâmpadas (lanternas).

 

Rede SOS

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Rede Normal

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Grande Guerra -IV- Divisão de Instrução, manobras de 1916 – 5ª parte

As comunicações na Divisão de Instrução, nas manobras de 1916 

Aniceto Afonso
Jorge Costa Dias

 

5. 2 As comunicações na Divisão de Instrução – Instrução

Foi a instrução nº12 da 1ª Repartição do Quartel General que estabeleceu a instrução a ministrar às secções de Telegrafistas de T.S.F. e de Campanha T.P.F. durante as manobras.

– Secção TSF
A Secção de TSF, durante todo o período dos exercícios, dedicou-se à tarefa de instalar a estação de TSF Marconi (MM1), assim como à prática de recepção pelo ouvido, à prática dos motores TSF e ao estabelecimento de comunicações com Lisboa (MM2) e com o Alfeite (Marinha).

– Secção TPF
A instrução em Tancos para os telegrafistas de campanha abrangeu as comunicações telegráficas e telefônicas, assim como os heliógrafos e as bandeiras.
Vejamos alguns dos materiais que foram usados:

Telefones
Foram usados telefones e a central telefônica Ericson e também os telefones de Cavalaria.

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Heliógrafos
Foi usado na instrução o heliógrafos de Mance.

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Heliógrafos e lanterna de Mangin

E também o heliógrafo e lanterna de Mangin.

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Bandeiras
Também foi ministrada instrução de bandeiras, que podiam utilizar o código Morse ou o alfabeto homográfico.

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Bandeiras e códigos
No código Morse, com apenas uma bandeira, havia três posições – posição normal, posição de ponto e posição de traço.

 

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– Esquadras de construção
A partir de 5 de Junho iniciou-se a instrução programada para as diversas especialidades da Secção de TPF e assim, no período de 5 de Junho a 15 de Julho, as esquadras de construção praticaram:
Construção de linhas permanentes
Construção de linhas de cabo
Construção de linhas de fio

 

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– Serviço Ótico
As esquadras de serviço ótico praticaram a utilização de:
Heliógrafo de Mance na ligação do Alto de D. Luís com o Alto da Conceição e de Mangin na ligação do Alto de D. Luís com o Alto da Barquinha, assim como o uso de bandeiras na ligação Casal do Rei com Cascalheira do Freixo.

Fundo 3-5-4-22-211_m0015

11 ligação por bandeiras

– Tarefas dos telegrafistas
Durante todo o período de manobras, as tarefas dos telegrafistas consistiam em treinar os procedimentos telegráficos, assegurando o funcionamento das estações, garantirem o apoio e as ligações entre as unidades e assegurarem as ligações durante as marchas.

 

 

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– Mapa
No conjunto de exercícios do período de instrução pode destacar-se o exercício de grandes destacamentos mistos realizado em 24 e 25 de Julho no planalto da Barquinha no qual se confrontavam a 1ª BI (P.V.), na defensiva, e a 2ª BI (P.A.) no ataque. Reparar que o terreno foi organizado para a defensiva, reconhecendo-se as trincheiras.

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– Instalação de tropas e ligações
Neste exercício, a Secção de TPF instalou e explorou a partir do QG as linhas de cabo para a estação telegráfica da Barquinha, para a Reserva Geral e para o Alto das Éguas e uma ligação ótica também para o Alto das Éguas. Os telefonistas de infantaria instalaram a rede telefónica de serviço ao exercício, assim como uma ligação ótica.
Na imagem apresentam-se as ligações na zona da ação da 1ª BI, que estava na defensiva.

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– Esquema do exercício
No seu conjunto, o exercício pode ser representado como se vê na imagem.

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– Ação sobre Atalaia
Por sua vez, o exercício de Divisão (o maior exercício efetuado durante o período de manobras) foi realizado de 29 a 1 de agosto, concretizando-se através de uma ação sobra a Atalaia. Neste exercício, a Secção TPF teve como missão garantir as ligações durante as marchas, utilizando as estações civis e montando as linhas necessárias para acompanhar as movimentações.

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Os trabalhos efetuados nas manobras de Tancos pelas tropas de transmissões situaram-se em bom nível e apoiaram com bastante eficácia as unidades operacionais, acompanhando as suas movimentações. Testaram os seus conhecimentos e os materiais utilizados. Para aqueles que vieram a integrar o C.E.P., como por exemplo o seu responsável máximo, capitão Soares Branco, foi uma experiência muito útil.

 

6. Balanço dos exercícios militares

Conclusões
Como balanço deste nosso estudo, como dissemos ainda incompleto, escolhemos alguns trechos de relatórios de unidades participantes:
“A intensidade da instrução em Tancos levou-nos a marchas longas bastante penosas, debaixo dum calor ardentíssimo e perfeitamente cercados de nuvens de pó, pois nem assim os nossos soldados deixaram de cumprir com o seu dever” (Coronel Barreira, 2º Regimento da 1ª BI);
“Nas localidades, nenhumas notas discordantes se deram, havendo localidades em que todos, à porfia, primavam em atenções para oficiais e praças que, pela sua conduta irrepreensível, souberam corresponder ao acolhimento amigável que lhes era feito” (Coronel Fragoso, 1ª Brigada).
“Como consequência da falta de educação militar, deriva-se naturalmente a ausência de um espírito disciplinado, sofredor e obediente (…) Tive ocasião de notar que nos diferentes exercícios executados, não havia aquele empenho e aquela coesão e decisão indispensáveis para justificar a transição para as diversas fases dos combates” (Tenente-coronel Veiga, 1º Grupo de Metralhadoras).
“Praticaram-se todos os sistemas de ligações – cadeias de homens, ordenanças, sinais óticos, telefone e telégrafo, sendo digno de registo o desembaraço das tropas de engenharia na montagem e desmontagem dos dois últimos sistemas e na receção e transmissão dos despachos.
Os diversos meios de ligação, mais na ofensiva do que na defensiva, em que aquelas se tornam mais fáceis e práticos, nem sempre foram utilizados conforme as reservas disponíveis, situação tática, natureza do terreno e rede de comunicações, e daí as ordens, informações e notícias chegarem muitas vezes tardiamente, perdendo todo o valor” (Coronel Almeida Fragoso, comandante da 2ª BI).

Em suma, podemos concluir que as manobras de 1916 em Tancos, com a concentração de uma Divisão a duas Brigadas, foi uma decisão politicamente necessária, mas militarmente questionável. Os temas estavam desadequados em relação ao que se praticava quase desde o início da Guerra, na Frente Ocidental. As manobras testaram as capacidades militares do Exército, mas não serviram de grande lição.

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42 anos de Escola Prática – Honra e valor – Um livro notável

Post do MGen Pedroso Lima, recebido por msg:
Como não tive possibilidade de estar presente nas comemorações do dia da Arma deste ano, em que foi apresentado o livro “42 anos e Escola Prática de Transmissões Honra e Valor”, só tive oportunidade de ler o livro a partir do final semana passada, graças à gentil oferta do Coronel Ribeiro, atual Comandante do Regimento de Transmissões no Porto, que muito agradeço.
Trata-se de uma obra notável, que considero de referência na área da historiografia das Transmissões militares e que jugo da maior importância para a Arma de Transmissões pela potencialidades que revela e perspetivas que suscita.
EPT livroEm primeiro lugar a obra tem uma conceção profundamente original e de grande oportunidade, dado que, em 2013, as Escolas Práticas das Armas foram abolidas e concentradas em Mafra na Escola das Armas.
Para quem esperava uma História da EPT (Porto) o título “42 anos de Escola Prática” é enigmático, pois a EPT (Porto) começou em 1977 e acabou em 1913, apenas teve 36 anos de vida. O livro porém inclui no conceito de Escola Prática de Transmissões as duas unidades que tiveram esse nome, primeiro em Lisboa de 1971 a 1977 e depois no Porto de 1977 a 2013. Ou seja a Escola Prática começou em Lisboa e acabou no Porto.
Contudo, vai mais longe, incluindo os antecedentes da Escola Prática, quando as suas funções eram desempenhadas pela Engenharia em Tancos, na EPE; e uma cuidada referência aos antecedentes históricos da valências de Instrução, Transmissões Permanentes, Transmissões de Campanha e Investigação e Desenvolvimento que a acompanharam a Escola Prática durante as quatro décadas de existência
Uma obra monumental e de grande qualidade. Não é, nem pretende ser, uma história completa da Arma, pois não refere nem a componente Logística (hoje retirada da Arma), nem a parte respeitante à Direção da Arma, que nunca estiveram presentes na Escola Prática.
Estão assim de parabéns os grandes responsáveis por esta iniciativa: o MGen Arnaut Moreira, que teve a ideia de se publicar uma obra condigna da Escola Prática que desafiou a pessoa certa para a concretizar: o Coronel Rodrigues que se empenhou decididamente nesta gigantesca tarefa e conseguiu congregar os esforços de uma vasta equipa de militares da própria unidade e obter a contribuição de antigos comandantes e outras figuras altamente prestigiadas da Arma e do Exército como o General Garcia dos Santos e o Ten Gen Xavier Matias.
É um livro imperdível (com uma Bibliografia impressionante) que é indispensável ler.
As maiores virtudes que lhe encontro são:

• Constituir uma contribuição relevante para a historiografia das Transmissões Militares e da preservação da memória sobretudo da Escola Prática de Transmissões (Porto) que há muito o merecia, pelo importante papel que desempenhou.

• A qualidade do livro, feito basicamente por uma vasta equipe de pessoal militar em serviço ativo, vem demonstrar que a historiografia das Transmissões também é uma atividade que pode ser feita por jovens ao serviço e não está necessariamente condenada a ser reservada a pessoal na reserva ou na reforma.

Julgo que este notável esforço constitui um forte exemplo de coesão e capacidade da Arma que terá continuidade no futuro. Entre outros, a leitura do depoimento do MGen Dario Carreira, como antigo Comandante, a obra já realizada pelo cor Ribeiro na historiografia das Transmissões (os “30 anos do RTm” os“42 anos de Escola Prática” e a “CTm 5” que espero venha a ser finalmente publicada) dão fortes garantias de que a ideia de que vale a pena recordar e tentar perceber o passado, não ficará por aqui.

As Eleições para a Assembleia Constituinte (1975) – Parte 2

Post do MGen Edorindo Ferreira, recebido por msg:

NÚMEROS E CURIOSIDADES

1. As eleições para “Deputados à Assembleia Constituinte” deveriam realizar-se até 31 de Março de 1975 (nº 4 do Artº 4º da Lei nº 3/74, de 14 de Maio). No entanto, a instabilidade no País, motivada por complexas lutas políticas em que alguns advogavam a primazia de eleições para a Presidência da República, determinou que, em Novembro, tivessem sido marcadas apenas para 12 de Abril. Mas, na sequência dos acontecimentos de 11 de Março de 75, estiveram em risco por poderem vir a constituir um travão para “o processo revolucionário em curso”. Acabariam por ser re-marcadas para o dia 25 de Abril.

2. A fase de preparação do sistema de transmissão foi algo atribulada pois muitas juntas de freguesias não dispunham de telefone, que era indispensável para comunicar os resultados finais ao Governo Civil e, também, para possibilitar os contactos com o STAP, a Comissão Nacional de Eleições e o Centro de Escrutínio. Nas primeiras reuniões preparatórias os CTT/TLP informaram que não seria possível instalar telefones em várias freguesias, especialmente no interior do País, visto não haver vagas nas centrais telefónicas da zona respectiva. O STAP não aceitou a “desculpa” dos CTT/TLP, tendo-lhes sido dito que teriam que encontrar uma maneira de resolver o problema. Na reunião seguinte surgiu a solução: uns dias antes do acto eleitoral os telefones de alguns assinantes ficariam temporariamente “avariados” e as linhas respectivas seriam encaminhadas para as juntas de freguesia. E assim foi!

3. O papel utilizado no processo eleitoral foi oferecido pelo Governo da Suécia (sendo primeiro-ministro Olof Palme) e transportado num navio da Alemanha, de Gotemburgo para Lisboa (cais de Xabregas). Chegaram 166 paletes, contendo cerca de 90 000 Kg de papel, dos quais 40 000 Kg foram utilizados no fabrico de mais de 8 650 000 boletins de voto e as restantes 50 toneladas em cartazes, folhetos, “posters”, cadernos e impressos vários, etc. Esta enorme quantidade de papel foi devidamente armazenada nas instalações da Manutenção Militar, de onde foi saindo à medida das necessidades das tipografias.

4. Só com muita dificuldade é que o MAI conseguiu que as Direcções Gerais de Impostos e das Alfândegas isentassem o pagamento dos impostos de transações e alfandegários sobre o papel… oferecido!

5. O computador utilizado para o escrutínio dos votos (GE MARK I) estava instalado algures em Lisboa e era constituído por dois processadores interligados por dois controladores. Um dos processadores era um CPU de 16 K com ciclo de memória de 6 microssegundos; o outro executava a transmissão de dados e controlava os terminais remotos (até 40); no Centro de Escrutínio (na Fundação Gulbenkian) foram instalados apenas 30. Utilizava as linguagens de programação BASIC, FORTRAN e ALGOL e a unidade de disco tinha 18 MB de capacidade.

tsharing6. O custo total do processo foi de 23 300 contos, que hoje equivalem a 3,2 milhões de euros a preços correntes. A maior parte deste custo (cerca de 20 mil contos) diz respeito às operações logísticas (recenseamento, documentação, urnas, câmaras de voto, computador, CTT/TLP, tipografias, material de escritório, transportes, etc). Os custos com o pessoal do STAP foram apenas de 1 500 contos. Para comparação refere-se que os partidos gastaram 31 mil contos na propaganda eleitoral!

7.  Discriminação dos custos das principais operações logísticas:

– 13 800 urnas, com o peso total de 55 toneladas: 2 260 contos;

– 13 136 câmaras de voto, 394 toneladas: 1 200 contos;

– 8 657 700 boletins de voto, 35 toneladas: 415 contos;

– Recenseamento e elaboração da documentação respectiva: 9 700 contos;

– Time-Sharing (escrutínio): 1 300 contos;

– CTT/TLP: 1 400 contos.

8. Grande parte das despesas de todo o processo eleitoral foi paga com dinheiro encontrado no cofre do gabinete do ex-director da PIDE/DGS.

9. Apesar de várias vezes instruídos sobre o modo de enviar os resultados apurados em cada freguesia, nem todos os Presidentes de Junta agiram como determinado. O ineditismo do acto, a festa que se lhe seguiu e até razões pessoais (por exemplo o facto de o seu partido não ter obtido um bom resultado) muito contribuíram para os atrasos verificados. Houve quem fosse aos Municípios para entregar os resultados e outros… esqueceram-se! De tal modo que a meio da tarde do dia 26 ainda faltava receber os resultados de 154 freguesias, sendo 2/3 dos distritos de Braga e Vila Real.

ResultadosResultados globais às 16:25 de 26 de Abril

10. Um dos casos caricatos passou-se com uma freguesia não muito longe de Lisboa, que era a única que faltava, no dia 26,  para concluir o escrutínio do Distrito em questão. O respectivo Presidente de Junta nunca respondeu aos sucessivos telefonemas, mas a meio da tarde acabou por aparecer no Governo Civil para entregar pessoalmente o impresso com o resultado já apurado na noite anterior. Desculpou-se dizendo que tinha ido celebrar e depois… adormeceu!  E quando acordou dirigiu-se a galope à capital do Distrito, montado num cavalo!

11. O principal responsável pela “máquina logística” foi o Comandante Camões Godinho, o qual, na madrugada do dia 26, orgulhosamente declarava que o STAP estava pronto para organizar eleições em qualquer parte do mundo, até na China!

12. Todos os principais responsáveis pelas tarefas eleitorais eram Oficiais das Forças Armadas:

Ministro da Administração Interna: Tenente-coronel Costa Braz

Director do STAP: Comandante Vasco Almeida e Costa

Responsável pela Logística: Comandante Camões Godinho

Delegado do Exército: Major Engº de Transmissões José Maria Marques

Adjuntos do Exército: Tenentes Engº de Transmissões Edorindo Ferreira, Paulo Melo e Azevedo, João Oliveira Ferreira e António Sousa Maia.

Entre outros, eram técnicos do STAP o Dr Jorge Miguéis (mais tarde responsável por diversos processos eleitorais) e o futuro Dr e Ministro Jorge Coelho.

13. Nos primeiros dias de Maio “a vitória do STAP”, e de todos os que contribuiram para o sucesso do primeiro processo eleitoral em liberdade, foi devidamente celebrada num almoço no Guincho. Cerca de uma semana depois, outras actividades mais prosaicas esperavam o autor deste escrito e os seus camaradas Tenentes no Regimento de Transmissões, no Porto.

Grande Guerra -IV- Divisão de Instrução, manobras de 1916 – 2ª parte

As comunicações na Divisão de Instrução, nas manobras de 1916 

Aniceto Afonso
Jorge Costa Dias

3. Os exercícios da Divisão de Instrução

Passemos então aos exercícios da Divisão de Instrução.
Quando se tornou evidente que Portugal iria enviar uma força para o teatro europeu, o governo decidiu mobilizar e instruir uma Divisão, como forma de preparação para esse fim.
A opção por Tancos foi assumida em Fevereiro de 1916, e os planos de mobilização iniciaram-se desde logo.

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Objetivo das manobras
Numas manobras militares deste tipo, com permanência de quase quatro meses no campo, procurava-se testar e treinar algumas capacidades do exército e das suas unidades e serviços, nos seguintes aspetos:
– Capacidade de mobilização, concentração e instalação de comandos e unidades;
– Elaboração de planos de ação pelos estados-maiores dos diferentes níveis;
– Capacidade de execução de exercícios táticos, desde simples manobras de pequenas unidades (Companhia) até operações mais complexas de grandes agrupamentos mistos e da própria Divisão de Instrução;
– Capacidade de instalação e de atuação de infraestruturas logísticas e técnicas de apoio às manobras, como transportes, reabastecimentos, comunicações, organização do terreno, alimentação, saúde, etc.
– Treino de conduta de operações, tanto através de exercícios planeados como em situações inopinadas;
– Verificação das capacidades de resistência do pessoal, bem assim como do seu conhecimento, da disciplina e do moral;
– Verificação da adequação dos materiais e equipamentos, tanto individuais como coletivos.
Temos hoje uma visão geral dos resultados, através dos relatórios elaborados pelas unidades e órgãos participantes. E se em alguns aspetos, as manobras são apreciadas positivamente, existe alguma unanimidade em relação à necessidade de melhorar procedimentos, substituir materiais e munições, continuar a instrução militar e fortalecer a educação cívica.

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Cronologia dos exercícios
Vejamos a cronologia dos exercícios e a forma como eles foram implementados.
A incorporação do contingente começou em Janeiro, com o início da recruta de 1916 nas unidades de instrução, onde fizeram, até Abril, a recruta e o treino tático ao nível Secção e Pelotão.
As unidades para manobras foram constituídas nas unidades das divisões territoriais de Viseu, Coimbra, Vila Real e Tomar. A concentração e instalação fez-se entre Abril e Maio e as manobras ocorreram entre Maio e os primeiros dias de Agosto.
Os exercícios iniciaram-se com manobras de Companhia e foram-se tornando mais abrangentes e complexos, até ao exercício final de toda a Divisão.
É preciso notar que nestas manobras só tomaram parte quatro Regimentos de Infantaria dos seis que constituíam a Divisão de Instrução, pelo que no período de 4 de outubro a 24 de novembro de 1916, também em Tancos, foi ministrada a instrução aos dois Regimentos restantes integrados numa brigada (a 3ª BI). Nesta apresentação não serão abrangidas estas manobras complementares.
Foram levados a efeito, então, os seguintes exercícios:
 Exercícios de Companhia -Entre 26 de Maio e 10 de Junho

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Estes execícios constaram de:

-Proteção em estação
-Combate de postos avançados
-Manobra de retirada
-Marcha para o inimigo
-Combate defensivo
-Marcha de aproximação
-Combate ofensivo
-Trabalhos de fortificação
-Fogos de guerra

14 programa de instrução de companhia

 

 Exercícios de Batalhão – De 11 a 25 de Junho

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Estes execícios constaram de:

-Proteção em marcha para o inimigo
-Proteção em marcha de flanco
-Proteção em marcha de retirada
-Preliminares do combate
-Ocupação de posição
-Rotura de combate
-Aproximação em combate ofensivo
-Marcha para concentração

15 programa de instrução de batalhão
Exercícios de Regimento – De 26 a 30 de Junho

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Estes execícios constaram de:

-Combate ofensivo Barquinha e Rodeio
-Combate defensivo Laranjeiras e Grou
-Ação dupla Ofensiva Barquinha
-Ação dupla defensiva Barquinha

16 programa de instrução de regimenti
Exercícios de Agrupamentos Encorporados –De 3 e 11 de Julho

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Estes execícios constaram de:

-Forças P.A. e P.V. (Partido Azul E Partido Vermelho)
-Ofensiva e defensiva – Barquinha
-Ofensiva e defensiva – Grou
-Fogos de Guerra
-Organização defensiva

17 programa de instrução de agrupamentos incorporados

Exercícios de Pequenos Destacamentos Mixtos – de 13 e 14 de Julho

Estes execícios constaram de ações entre as forças P.A. e P.V. (Partido Azul e Partido Vermelho)

-Exercício Nº 1 – Ação Simples Defensiva– Figueiras-Laranjeiras
-Exercício Nº 2 – Ação dupla ofensiva e defensiva – Margem direita do Zêzere e Constância
-Exercício Nº 3 – Ação simples ofensiva – Montalvo

19 programa de instrução de destacamentos mixtos
Exercícios de Grandes destacamentos Mistos –De  17 a  20 e de 24 e 25 de Julho

1º  Destacamento

Diapositivo8

Exercícios realizados pelas unidades da  1ª BI em formações de apoio.

TEMA: Estacionamento em SANTA CITA, ataque à posição do Grou, defesa da Barquinha

2º Destacamento

Exercícios realizados pelas unidades da  2ª BI e do Grupo de Artilharia em formações de apoio.

TEMA: Ocupação da Barquinha, defesa da posição do Grou, ataque à posição da Barquinha

Parada de Montalvo -Em 22 de Julho

 Exercícios da Divisão de Instrução – De 26 de Julho a 1 de Agosto

1º Brigada (Azul) – Marcha: Abrantes-Casa Branca-Tolosa
2ª Brigada (Vermelha) – Marcha: Montalvo-Pego-Casa Branca-Gavião
Reconhecimentos
Combate entre a quinta da Marguila e Vale Grande

20 exercicio de divisão Tema

 Desconcentração e regresso das unidades aos seus quartéis -Entre 2 e 6 de Agosto

Mapa da força

Vejamos finalmente o mapa da força que esteve presente nos exercícios, com um total de quase 20.000 homens, mais de 5.000 solípedes e mais de 1.200 viaturas.

3-Mapa da Força da Div Inst. em Tancos 001
Podemos destacar o peso das unidades de apoio e dos serviços, com cerca de 1/4 dos efetivos, assim como a participação de um significativo número de viaturas automóveis (incluindo camiões) e as poucas bicicletas e motocicletas ainda disponíveis.
Deixamos para o final a apresentação de umas breves conclusões.

 

As Eleições para a Assembleia Constituinte (1975) – Parte 1

Post do MGen Edorindo Ferreira, recebido por msg:

1. INTRODUÇÃO

No dia 25 de Abril de 1975 realizaram-se em Portugal as primeiras eleições livres por sufrágio directo e universal, dando cumprimento ao compromisso expresso no Programa do Movimento das Forças Armadas. Foram eleitos os 250 deputados da Assembleia Constituinte, com a “incumbência exclusiva de elaborar e aprovar a nova Constituição Política”.

Com este texto pretende-se descrever de forma sucinta o que foi feito pelas diversas entidades envolvidas na preparação e execução do processo eleitoral, tão fielmente quanto possibilitam a memória pessoal e a reduzida documentação escrita e fotográfica sobre o assunto.

2. O STAP

O processo iniciou-se com a feitura da lei eleitoral e, pouco depois, com o recenseamento dos eleitores, para o que o Ministro da Administração Interna (Tenente-coronel Costa Braz) constituiu o Departamento Eleitoral. Em finais de 1974, este organismo deu origem ao Secretariado Técnico para os Assuntos Políticos (STAP), na dependência directa do Ministro, que foi incumbido de todas as questões preparatórias e executórias eleitorais. Foi instalado num edifício da Rua do Ouro e era constituído apenas por dezena e meia de pessoas, entre militares, técnicos (em especial juristas) e pessoal auxiliar, sob a direção de um oficial da Armada (Comandante Almeida e Costa).

Nos termos do Decreto-Lei 746/74, de 27 de Dezembro, ao STAP competiam, entre outras, as seguintes missões:

– Recenseamento, sufrágio e apuramento eleitoral;

– Estatística e publicação dos resultados.

Nesta conformidade, ao longo de pouco mais de três meses, foram levadas a cabo todas as acções tendentes à concretização das eleições, tendo o esforço sido dirigido prioritariamente para as seguintes áreas:

– Logística do processo eleitoral;

– Apuramento local e transmissão dos resultados para Lisboa;

– Escrutínio provisório.

No início de 1975 o Ministro da Administração Interna solicitou ao Exército a nomeação de especialistas na área das telecomunicações para apoiar o STAP no planeamento e execução do sistema de transmissão e de escrutínio dos resultados provisórios. Satisfazendo o pedido, para o efeito foi de imediato nomeado o Major Eng.º de Transmissões José Maria Fernandes Marques, que contou com a colaboração de quatro Tenentes Tirocinantes de Transmissões.

3. A LOGÍSTICA

Além de colaborar na elaboração da legislação eleitoral e de concluir o recenseamento, o STAP teve que planear e pôr em prática, começando do nada, todas as actividades logísticas que vieram a permitir a concretização do acto eleitoral. Para além de documentação variada e de material de escritório de apoio às assembleias eleitorais, houve que imprimir os boletins de voto, fabricar as urnas e as câmaras de voto, etc., e proceder à distribuição atempada destes materiais quer no País quer no estrangeiro.

A documentação foi quase toda feita na Imprensa Nacional-Casa da Moeda (IN/CM). Os boletins de voto foram impressos nesta empresa pública e em 3 tipografias privadas. As urnas e as câmaras de voto foram fabricadas por empresas privadas, precedidas de concursos limitados.

Todo este material foi entregue no seu destino (assembleias de voto) até ao dia 22 de Abril, no continente e na Madeira, e até ao dia seguinte nos Açores. Esta distribuição foi objecto de um planeamento rigoroso e de um controlo contínuo com recurso a inúmeras ligações telefónicas e telex com fornecedores, transportadores, Governos Civis, Câmaras Municipais e Juntas de Freguesia.

A distribuição contou com a colaboração das Forças Armadas, da GNR e da PSP, tendo sido utilizadas viaturas diversas, aviões, helicópteros e navios.

And last but not the least, teve que ser montado o Centro de Escrutínio com o mobiliário e os equipamentos requeridos (telex, telefones, terminais informáticos, fotocopiadoras, máquinas de escrever, etc.,) e programado o trabalho de mais de uma centena de pessoas (militares, técnicos e operadores das empresas, agentes da PSP, motoristas, catering, etc) durante os treinos e nos dias 25 e 26, para além do apoio às muitas centenas de jornalistas, cujo controlo e gestão nem sempre foi fácil. E também prever e prover alimentação para toda esta gente!

4. A TRANSMISSÃO

Do estudo dos processos de fazer chegar os resultados a Lisboa, com a maior brevidade, desde cedo ficou definido que em cada freguesia (4027 no total), o Presidente da Junta preenchia um impresso, criado para o efeito, com os resultados da soma de todas as assembleias de voto, discriminados por votantes em cada partido e também com o número de eleitores inscritos, votantes e votos em branco e nulos. Seguidamente, os resultados eram transmitidos por telefone ao Governo Civil (GC) respectivo (havia números de telefone dedicados), ou esse impresso era entregue em mão, em caso de proximidade. A transmissão de cada GC para Lisboa foi efectuada dos seguintes modos:

a. O método civil

Nos Governos Civis (GC), era preenchido um outro impresso por cada freguesia (também preparado e distribuído pelo STAP). Depois era entregue aos operadores dos aparelhos telex dos CTT e dos TLP (geralmente montados para o efeito no edifício do GC) que enviavam os telegramas para o Centro de Escrutínio provisório, instalado na Fundação Calouste Gulbenkian (FCG).

Apresenta-se de seguida um dos 4027 telegramas recebidos no Centro de Escrutínio durante a noite de 25 e no dia 26 de Abril.

Resultados da freguesia de Pombal

constituinte - pombal
b. O método militar

Em alternativa ao método principal anteriormente descrito, o MAI solicitou ao Exército a montagem de um sistema de transmissão dos resultados através da sua rede de telecomunicações privativa, operada pela Arma de Transmissões.  O processo funcionou do seguinte modo:

Em cada Governo Civil estava presente um Oficial das Forças Armadas, para colaborar na organização do processo de apuramento dos votos, a quem eram entregues cópias dos impressos com os resultados enviados por cada freguesia; depois preenchia uma mensagem militar (para cada freguesia) que era entregue na Unidade militar local; através da rede do Serviço de Telecomunicações Militares, quer por via telegráfica (telex), quer radiotelegráfica (morse), essa mensagem era transmitida para a Escola Prática de Transmissões, localizada na Rua de Sapadores, em Lisboa; as mensagens eram registadas e disponibilizadas ao MAI para serem utilizadas se necessário.

5. O CENTRO DE ESCRUTÍNIO

Foi instalado na FCG, como já referido, sob a coordenação do STAP, com a colaboração dos Oficiais do Exército atrás mencionados.

Para a recepção dos resultados enviados por cada Distrito, os CTT/TLP instalaram cerca de duas dezenas de teleimpressores numa sala da FCG, os quais foram ligados ponto a ponto com os dos Governos Civis.

De cada um dos 4027 telegramas recebidos eram impressos dois exemplares, sendo um entregue na sala de escrutínio e o outro no Gabinete de Ligação com a Comunicação Social.

Na sala de escrutínio estavam instalados 30 terminais informáticos ligados por linha telefónica ao computador da empresa Sociedade Portuguesa de Computadores em Tempo Dividido (Time-Sharing) SARL, contratada para efectuar o apuramento provisório.

Sala da Time-Sharing
MC-1139(Foto MC-1139, Miranda Castela, Arquivo Fotográfico da Assembleia da República)

Os funcionários da Time-Sharing introduziam os dados nesses terminais (freguesia a freguesia) e o computador (instalado algures em Lisboa) fazia as contas por distrito, para cada partido, e elaborava regularmente mapas com o ponto de situação por distrito e a nível nacional.

Exemplo de Mapa com resultados por distrito

constituinte mapaCópias dos telegramas de cada freguesia, e dos resultados parciais e mapas elaborados regularmente pelo computador eram entregues à Comunicação Social pelo Gabinete de Ligação instalado ao lado da sala de escrutínio, constituído apenas por militares do Exército.

Gabinete de Ligação com a Comunicação Social
MC-1133(Foto MC-1133, Miranda Castela, Arquivo Fotográfico da Assembleia da República)

O escrutínio foi seguido por cerca de 1300 jornalistas, metade dos quais estrangeiros, tendo os TLP instalado no Centro de Imprensa, constituído para o efeito na FCG, um conjunto de meios de apoio, de que se destacam 86 telex e 36 telefones com acesso nacional e internacional.

Centro de Imprensa
MC-1134(Foto MC-1134, Miranda Castela, Arquivo Fotográfico da Assembleia da República)

6. CONCLUSÕES

Planear e montar todo este sistema não foi tarefa fácil, não só pelo prazo a cumprir, mas também pelo reduzido número de pessoas de que o STAP dispunha para pôr a andar uma máquina complexa envolvendo muitos milhares de pessoas e instituições diversas. Mas, nestas primeiras eleições verdadeiramente livres, todos sentiram que estavam a contribuir para uma nova página da história, pelo que se empenharam de corpo e alma, sem fins de semana e com poucas horas de descanso, e muitos a título gracioso. Ao início da noite do dia 25 havia alguma apreensão até começarem a chegar os primeiros telegramas. Mas tudo correu como previsto (salvo raras excepções) e a noite transformou-se numa festa para todos os envolvidos na “maratona” eleitoral, até ao alvor do dia seguinte.

Na manhã do dia 26 ainda faltavam os resultados de algumas dezenas de freguesias, mas as eleições estavam praticamente decididas. Foi feita uma pausa e os trabalhos recomeçaram depois do almoço. Ao fim do dia estava terminado. Bem!

Grande Guerra -IV- Divisão de Instrução, manobras de 1916 – Iª parte


As comunicações na Divisão de Instrução, nas manobras de 1916 

Aniceto Afonso
Jorge Costa Dias

 

I- As comunicações no exército britânico na Frente Ocidental, onde as tropas portuguesas seriam integradas
1. Introdução
A nossa comunicação vai abordar os seguintes aspetos:
– As comunicações no exército britânico na Frente Ocidental, onde as tropas portuguesas seriam integradas.
– Ideia geral dos exercícios efetuados pela Divisão de Instrução
– Breve história das transmissões no Exército Português
– As comunicações na Divisão de Instrução
– Balanço dos exercícios militares efetuados pela Divisão de Instrução, há cem anos.
Em primeiro lugar gostávamos de vos dizer que vamos apresentar um estudo incompleto, pois estamos a meio de uma investigação sobre “As Transmissões na Grande Guerra”. Selecionámos para este encontro, como nos foi pedido, a apresentação de um ponto de situação sobre a Divisão de Instrução e as suas unidades de telegrafistas, que aqui estiveram em 1916, em manobras.
Hoje passam 98 anos sobre a Batalha de La Lys, travada no dia 9 de Abril de 1918. Associamo-nos à homenagem que aqui está a ser prestada a todos os portugueses, nossos avós, que nela participaram.
Também passam 100 anos sobre a mobilização, concentração e instrução de uma Divisão militar (chamada Divisão de Instrução, com cerca de 20.000 homens) que aqui, bem próximo, se empenhou em exercícios militares, com vista à sua preparação para participar na guerra europeia, ao lado das tropas da Grã-Bretanha.
As razões que levaram Portugal a entrar na guerra têm sido muito discutidas, mas o que nos interessa hoje é dar-vos uma ideia sobre a forma como se comunicava no campo de batalha de então, tanto do ponto de vista territorial (comunicações para fora da zona de operações), como do ponto de vista tático, ou seja, no interior dessa zona.
De qualquer forma interessa acentuar que se tratava de preparar os militares para irem integrar unidades inglesas na frente europeia. Por isso, julgamos que, em primeiro lugar, vale a pena lançar um olhar sobre as comunicações que no início de 1916 eram usadas em França pelas forças britânicas aí presentes, e nas quais as unidades portuguesas se iriam integrar.
2. As comunicações no exército britânico
Quando a guerra começou, no início de Agosto de 1914, todos esperavam que ela fosse de curta duração. Houve mesmo os que pensaram ser possível passar o Natal em casa!
Mas essas esperanças foram destruídas logo nas primeiras batalhas, tanto pelo poder de fogo da artilharia e das metralhadoras, como pelos imensos efetivos mobilizados e participantes dessas primeiras batalhas. A resposta ao poder de fogo foi materializada pela construção da imensa linha de trincheiras da frente ocidental, o que acabou por paralisar as movimentações táticas nas frentes de combate. As tropas entrincheiradas, contrariando o pensamento militar prévio sobre o valor da ofensiva, acabaram por privilegiar as suas posições defensivas, o que levou a quatro anos de guerra sem grandes alterações estratégicas de posicionamento no terreno.
Foram estas condições que impulsionaram os esforços de desenvolvimento de novas técnicas, com o fim último de quebrar o impasse no terreno, onde se contam evidentemente o desenvolvimento de novas armas, como os gases, a aviação e o carro de combate, ou de novas táticas, como o ataque concentrado.
Linha de trincheiras 

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Aspetos de trincheiras

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Resolução do impasse

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Sem tanta evidência e muito menos conhecidos são os esforços para a implementação de comunicações capazes de responderem às exigências da nova forma de fazer a guerra. Mas esse desenvolvimento foi um facto, e nada ficou igual neste domínio, quando a guerra finalmente terminou em 1918.

 

Comunicação no Exército Britânico – Situação inicial

 

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Em 1914, os principais meios de comunicação nas unidades britânicas, eram, por um lado, os sinaleiros (nos batalhões de infantaria e nas baterias de artilharia) que se deslocavam a pé, a cavalo, em bicicletas ou motocicletas, e por outro, os telégrafos e telefones por fio, que só funcionavam depois da instalação e lançamento das redes.
Estava em uso também a sinalização visual, como bandeiras, sinais e heliógrafos, que prestavam serviço especialmente durante o dia.
Quanto aos equipamentos sem fios, com o uso do código Morse, eles estavam disponíveis, mas eram ainda muito pesados. As suas redes foram especialmente dirigidas ao suporte de ligações especiais, como as redes de informações, o uso da artilharia de ação conjunta, a defesa e a observação aérea, e sobretudo as relações de comando e controle nas grandes unidades.

Nesta altura, o sistema de segurança britânico nas ligações telefónicas e telegráficas era muito fraco. Por exemplo, muitos planos táticos eram lidos em claro através do telefone e escutados pelos alemães.
As mudanças na forma de atuar dos sistemas de transmissões britânicos foram inevitáveis, à medida que a estrutura de trincheiras se foi estabilizando até ao fim de 1914.

 

Comunicações no Exército Britânico – Novos meios

Diapositivo2

Ao longo dos anos da guerra, apareceram no campo de batalha novos e muito mais desenvolvidos meios de comunicação, por fio e sem fio, por terra ou pelo ar, complementando e sendo complementados pelos métodos clássicos da transmissão visual, por estafeta ou pombos-correio. Mas, no final, podemos dizer que os métodos prevalecentes e amplamente usados foram o telefone e o telégrafo, a que se juntou crescentemente e em especial no final da guerra, a telegrafia sem fios.
Entretanto, como continuassem a crescer as preocupações com a capacidade de os alemães intercetarem as comunicações telegráficas e telefónicas perto da linha da frente, surgiram alguns dispositivos que, apesar de tudo, não estavam à prova de interceção, incluindo transmissores que utilizavam a terra como condutor, sem necessidade de fios ou cabos (buzzer – telegrafia pelo solo).
Quando se iniciou o ano de 1916, os serviços de telegrafia esforçaram-se por aumentar a duração das linhas do telégrafo e do telefone, assim como os níveis de segurança.
Foi por esta altura que, fruto das experiências levadas a cabo na própria frente, surgiu um novo equipamento de telegrafia – o fullerphone (projetado pelo Capitão A. C. Fuller), com muito bons resultados. Quase todas as unidades britânicas na frente ocidental passaram a usar estes equipamentos. Embora outros sistemas ainda tivessem sido experimentados, o fullerphone acabou por sobrepor-se a todos os outros. Este sistema usava a transmissão de impulsos de corrente contínua, que não eram detetados.
Era esta a situação das comunicações na frente ocidental, no seio das forças britânicas, quando se iniciaram, em Portugal, os exercícios de uma Divisão de Instrução destinada a ocupar um lugar na frente de combate, juntamente com estas forças.
É evidente que nem tudo poderia ser do conhecimento dos estados-maiores portugueses, mas grande parte dos exercícios efetuados em Tancos não refletia ainda os ensinamentos que depois vieram a ser adotados, não apenas pelas comunicações no C.E.P., mas também na restante atividade das unidades mobilizadas e integradas nas forças britânicas.

 

 

Galeria

Visita da CHT à exposição Comunicações Militares em Loures

Esta galeria contém 18 imagens.

Vários membros da Comissão da História das Transmissões visitaram a exposição que está patente em Loures, no edifício 4 de Outubro (antigos Paços do Concelho, onde, nesse dia do ano de 1910, cerca das 15h, foi hasteada uma bandeira com as cores republicanas e … Continuar a ler