As TRANSMISSÕES na GRANDE GUERRA – Relatório de Soares Branco (8)

Post do Cor Aniceto Afonso, recebido por msg:

 

  1. RELAÇÕES COM O XI CORPO INGLÊS

Introdução

O XI Corpo inglês foi constituído em agosto de 1915, sendo comandado logo desde o início pelo general Richard Haking. A sua primeira ação de maior vulto foi a participação na Batalha de Fromelles (19 de julho de 1916, como ação de diversão em relação à batalha do Somme), em que duas Divisões (uma delas australiana) foram lançadas num ataque frontal mal planeado que causou milhares de baixas e grande ressentimento na Austrália. Este episódio marcou depois toda a carreira do general Haking, mas não o impediu de continuar a comandar o XI Corpo até ao final da guerra. Manteve-se sempre na Flandres, com uma breve passagem pela frente italiana entre novembro de 1917 e final de março de 1918, exatamente o período em que o Corpo de Exército Português esteve na frente. Embora Gomes da Costa no seu livro “O Corpo de Exército Português na Grande Guerra: A Batalha do Lys” o tenha recordado como “extremamente inteligente” e leal amigo, a verdade é que as relações dos vários serviços portugueses com o seu estado-maior e com ele próprio nunca foram de grande cordialidade. Como veremos, também o capitão Soares Branco, como responsável do Serviço Telegráfico do CEP, sentiu especiais dificuldades nessas relações.

Os generais Tamagnini, Hacking e Gomes da Costa

No Serviço Telegráfico da Força Expedicionária Britânica Sir John Fowler foi sempre o seu Diretor (Director of Army Signals).

John Sharman Fowler (1864-1939)

Como seus assessores e subordinados imediatos tinha os Deputy Directors of Army Signals (DD Signals) responsáveis pelo Serviço Telegráfico ao nível Exército. No nível seguinte situavam-se os Assistent Directors of Army Signals (AD Signals), um por cada Corpo de Exército. Alguns destes responsáveis e muitos outros oficiais tinham relações próximas com o Serviço “General Post Office” (GPO) da Grã-Bretanha, tendo sido mobilizados exatamente por essa condição. No seu relatório, Soares Branco referirá em várias ocasiões a diferença entre o sistema britânico de mobilizar não apenas os responsáveis, mas também os especialistas, em especial telegrafistas e telefonistas, através do Serviço Postal da Grã-Bretanha, o que não aconteceu em relação a Portugal. Relações com o XI Corpo

Antes da entrada em linha da 1ª Divisão, Soares Branco devia definir as relações do Serviço Telegráfico do CEP com o XI Corpo e também com a 1ª Divisão. Fê-lo após várias reuniões e em nota de 13 de junho:

“No Serviço Telegráfico do XI Corpo, ontem, depois de prévia consul­ta com o Estado-Maior chegou-se à conclusão de que as ordens serão direta­mente dadas à 1ª Divisão e apenas para conhecimento elas serão também envia­das ao CEP.

Não me alongo a expor as razões de uma tal medida de ordem geral nem mesmo lhe desejo medir as causas e consequências. É um facto que tenho que aceitar.

Procurei pois, na esfera da minha ação, definir precisamente quais as atribuições que o Serviço Telegráfico do XI Corpo julga desta forma caber-lhe para com as tropas telegrafistas da 1ª Divisão, para a V. Ex.ª expor a questão e receber as instruções que por ventura julgue convenientes. 

I. Competirá ao chefe do Serviço Telegráfico do XI Corpo:
a) A interferência direta em todo o serviço técnico relativo ao estabe­lecimento, reparação e conservação das linhas e comunicações dentro da área da Divisão, para o que o chefe do Serviço telegráfico da 1ª Divisão ficará em ligação direta com o AD Signals do XI Corpo por intermédio de um oficial intérprete e de ligação.
b) Receber do Serviço Telegráfico do Corpo Português propostas para o estabelecimento de quaisquer ligações pedidas pelo Estado-Maior do Corpo Português.
c) Receber do chefe do Serviço Telegráfico da 1ª Divisão qualquer proposta para novas ligações a estabelecer dentro da área da 1ª Divisão e pedidas pelo Estado-Maior da 1ª Divisão.

II. Competirá ao chefe do Serviço Telegráfico do CEP:
a) Regular os recursos em pessoal e material que tenha por conveniente para a 1ª Divisão em virtude das ligações mandadas executar, sendo apenas obrigatória a consulta para a mudança do chefe do Serviço telegráfico da Divisão.
b) Receber do XI Corpo, sem prejuízo da transmissão direta igual à 1ª Divisão de todas as ordens e instruções que a esta unidade sejam enviadas, de forma a poder habilitar-se a, em qualquer data, substituir o AD Signals do XI Corpo.

Nada tendo recebido em contrário do Estado-Maior assim considerei basea­das as minhas relações com o XI Corpo as fiz notificar à Divisão em no­ta Nº 140 de 14-06-17, isto é, dois dias antes do começo do serviço com respon­sabilidade na Divisão.

Mas os problemas não estavam todos resolvidos. Até ao final do mês de junho, Soares Branco teve que resolver algumas questões delicadas da nova relação entre comandos que resultavam da atribuição da 1ª Divisão ao XI Corpo, e de regras aparentemente distintas das até então utilizadas pelas tropas portuguesas no âmbito do 1º Exército inglês.

De facto, escreve Soares Branco: “Não contava, porém, com um período um pouco agitado que se devia simultaneamente abrir devido às exigências absolutamente exageradas de AD Signals de XI Corpo”.

Ora essas exigências pareciam não ter sentido, por diversos motivos explicados de seguida. Em primeiro lugar, havia normas do anterior que estavam aprovadas pelo 1º Exército:

No Exército Inglês usam-se três modelos de impressos conforme o despacho é de transmissão, receção ou trânsito, e um novo impresso como envelope e recibo.

As regras de transmissão e receção diferiam algum tanto das portuguesas. Por demais eu de tal estava informado, mas como propusera ao DD Signals do 1º Exército e ao GHQ, o sistema de ligações laterais e externas ao CEP era de tal forma organizado que nunca telegrafistas portugueses transmitiriam senão com telegrafistas portugueses, e além disso como era conhe­cedor da enorme diferença de trabalho que existia entre o fazer aprender regras e sinais que uma vez se tinham já sabido, e outros processos que eram desconhecidos, havia determinado que se seguissem na Escola de Sinaleiros as regras de transmissão e se adotassem os impressos etc. em uso no Serviço Telegráfico Militar em Portugal.

Havia um mês que o serviço assim estava estabelecido e quando ele pare­cia regularizado, recebi as notas de 25-7 e de 29 do mesmo mês nas quais se exigia por fim à adoção na 1ª Divisão e nas tropas de Telegrafia Sem Fios não só dos impressos como das próprias regras usadas no Exército Inglês.

Nestas circunstâncias, Soares Branco não podia aceitar os novos procedimentos, sem expor o seu entendimento da situação:

Recusei-me dar ordens à 1ª Divisão que implicitamente teriam que ser exten­sivas a todo o Corpo e participei-lhe que a questão colocada nesses termos ia ser por mim levada ao DD Signals do 1º Exército e ao Estado-Maior Por­tuguês.

De facto, em nota de 28 de julho, o chefe do Serviço Telegráfico do CEP fazia notar que a adoção dos procedimentos em uso no serviço da Telegrafia sem fio (TSF) do Exército Britânico produziria certa confusão na instrução dos operadores portugueses, assim como no próprio Serviço, já que não poderia separar-se a operação do serviço de Telegrafia sem fios da telegrafia comum (TPF). Por outro lado, qualquer alteração que fosse imposta à 1ª Divisão levaria à alteração dos procedimentos em todo o Corpo Português, pelo que a questão teria de ser esclarecida com o 1º Exército Inglês e com o estado-maior Português.

Foi assim que, depois da consulta aos respetivos comandos inglês e português sobre a “questão que o AD Signals do XI Corpo havia ordenado duma maneira súbita e violenta”, recebeu Soares Branco a nota 9036 de 4 de agosto do DD Signals do 1º Exército, com as instruções convenientes.

Dizia, em resumo, o seguinte:

Os formulários de mensagens modificados de acordo com as vossas sugestões parecem atender aos requisitos da situação, mas a questão foi encaminhada ao QG do Exército para decisão. (…)

Concorda-se que o mesmo formulário de mensagem deve ser usado para telegramas, seja transmitido por fio ou sem fio, e que também é desejável evitar quaisquer alterações desnecessárias ao formulário de mensagem ao qual os operadores portugueses estão acostumados, usando aquele para o qual foram treinados.

Estou certo que, se o formulário modificado sugerido for aprovado pelo QG do Exército, o vosso serviço não experimentará grandes inconvenientes na sua adoção geral.

Nestas circunstâncias não podia deixar Soares Branco de transmitir a sua satisfação, de acordo com a forma como foram atendidas as suas preocupações e as suas propostas:

Em face da forma atenciosa e amigável da nota do DD Signals do 1º Exército imediatamente resolvi a dificuldade da transmissão das Estações de Sem Fios mandando adotar as regras de transmissão e receção de despachos comuns a todas as estações e postos do Exército Britânico, conservando os nossos antigos impressos embora com algumas modificações de ordem de transmissão no “preâmbulo” que tudo remediava, modificações que haviam já sido propostas pelo coman­dante da Secção de Telegrafia Sem Fios, tenente Ivo de Carvalho.

Determinei que pelo diretor da Escola de Sinaleiros fosse estudada a maneira de uniformização das regras de transmissão e receção dos despachos, e dos impressos de telegramas tanto para a TPF como para a TSF.

Alguns dias depois o problema estava completamente resolvido com os nossos antigos impressos apenas alterados em alguns dizeres do “preâmbulo” e eu recomendava às Divisões e à Escola de Sinaleiros que, tanto quanto o serviço o permitisse, fossem adestrando o pessoal segundo os regulamentos que fizera, ao tempo, imprimir e distribuir.

Estávamos em princípios de agosto e só em outubro elas puderam ter começo e execução.

Para concluir, o responsável do Serviço Telegráfico do CEP e entidade definidora das regras de transmissão no seu âmbito de ação, resume a questão que esteve na base deste primeiro incidente nas relações com o XI Corpo, que depois se repetiriam:

Desta forma julgou este Serviço ter bem patenteado ao XI Corpo:

1) – que o Corpo Português dele não recebia ordens e tinha a dependência direta da 1ª Divisão apenas como transitória;

2) – que nessas condições, qualquer ordem técnica do mesmo Corpo e que interessasse no futuro não só àquela Divisão como a todo o Corpo Português não podia arbitrariamente ser-lhe imposta como a uma estação simplesmente de trân­sito;

3) – que só o 1º Exército era competente para avaliar das dificuldades de execução de qualquer medida a executar e só a ele e ao meu Estado-Maior exporia o que julgasse conveniente;

4) – que entre o Estado-Maior Português e o Serviço Telegráfico havia, como necessariamente tem sempre que haver, a mais completa uniformidade de processos e da maneira de resolver as questões.

Conclusão

Durante todo o período de permanência na frente, entre 16 de junho e 5 de novembro, a 1ª Divisão esteve subordinada ao XI Corpo Inglês comandado pelo general Haking. Foi um período de relações difíceis entre os vários comandos e serviços, a que o Serviço Telegráfico, através da experiência do seu responsável, capitão Soares Branco, procurou responder de forma empenhada, tentando ultrapassar não apenas as dificuldades resultantes da própria situação de guerra como os obstáculos gerados pela ação de comando do XI Corpo. Foi neste período de cinco meses, entre junho e novembro, que o CEP viveu uma intensa experiência de guerra, com as tropas ainda relativamente frescas e empenhadas. Os meses seguintes, incluindo o “9 de Abril”, fariam esquecer esta experiência inicial, mas não há dúvida que ela foi importante para grande parte dos participantes. Aconteceu um pouco de tudo, como a captura dos primeiros prisioneiros alemães por forças portuguesas, como por exemplo em 14 de setembro, o fuzilamento do soldado Ferreira de Almeida em 17 de setembro, único levado a efeito no CEP, por decisão de um tribunal militar português, e também a visita do Presidente Bernardino Machado que esteve quatro dias junto dos militares portugueses deslocando-se um pouco por todo o lado, incluindo uma visita a um Batalhão em 2ª linha, o que muito preocupou o general Tamagnini.

Em relação ao relatório de Soares Branco, são várias as referências a um certo mal-estar resultante das relações estabelecidas entre o seu Serviço e os correspondentes serviços ingleses deste nível, que se prolongariam até à entrada em linha do Corpo de Exército Português. Foi nesta altura, logo em Novembro de 1917, que o XI Corpo foi transferido para a frente italiana, para só regressar em finais de março de 1918, vindo então a comandar a 2ª Divisão Portuguesa a partir de 6 de abril, nas vésperas da Batalha de La Lys.

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As TRANSMISSÕES na GRANDE GUERRA – Relatório de Soares Branco (7)

Post do Cor Aniceto Afonso, recebido por msg:

  1. ENTRADA EM LINHA DA 1ª DIVISÃO

Introdução

O III capítulo do Relatório do capitão de Engenharia Soares Branco, chefe do Serviço Telegráfico do CEP, é dedicado ao tempo em que esteve na frente a 1ª Divisão Portuguesa, entre 16 de junho e 5 de novembro de 1917. No entender de Soares Branco, que interpreta a realidade vivida no terreno, estes dois dias foram marcos da presença portuguesa na frente. Primeiro porque a entrada em linha da 1ª Divisão modificava muitas das orientações que vinham do anterior, até porque introduziam na cadeia de comando um Corpo inglês, o XI Corpo, que até então não tinha tido comando sobre as tropas portuguesas. E também porque em 5 de novembro, quando avança o Corpo de Exército Português com as suas duas Divisões na frente, Soares Branco entende que a situação se altera de novo de forma completa, pois essa situação criou responsabilidades muito especiais, a que dificilmente as estruturas portuguesas podiam dar respostas, sofrendo o Serviço Telegráfico das mesmas carências que outros setores de apoio das tropas portuguesas.

Este período de quase cinco meses não foi, ainda assim, muito difícil para as tropas portuguesas, em especial se o compararmos, como faremos, com os meses seguintes.

As dificuldades do Serviço Telegráfico

A 1ª Divisão ia substituir a 49ª Divisão inglesa, como Soares Branco tem o cuidado de informar:

Nos primeiros dias da 2ª quinzena de junho devia a 1ª Divisão com o respetivo Quartel-General entrar na linha em substituição da 49ª Divisão Britânica e sob as ordens do XI Corpo.

Até então nenhumas relações havia mantido este Serviço Telegráfico com o XI Corpo, pois sempre se considerara diretamente dependente do 1º Exército Britânico.

A incorporação da nossa 1ª Divisão no Corpo Inglês, e nas precárias condições de material e pessoal já referidas, obrigou-me a solicitar autorização su­perior e fazer-me deslocar para junto da sede da 49ª Divisão para seguir de perto a rendição do pessoal inglês pelo português, e assentar com o XI Corpo quais as atribuições com que o Corpo Inglês e Português deviam ficar sobre o pessoal telegrafista da 1ª Divisão.

As alterações orgânicas que conduziram à constituição de um Corpo de Exército português a duas Divisões acabaram por se refletir em quase todos os serviços de apoio, que não estavam preparados para a extensão das suas responsabilidades. Já em França, foi necessário adaptar o contingente de cada serviço, solicitando para Portugal os reforços que as novas missões impunham. Mas a resposta foi muito lenta, e tudo ficou dependente da capacidade de adaptação das tropas que já estavam presentes.

O Serviço Telegráfico sofreu de todas estas dificuldades, e teve que se ir socorrendo do pessoal que pertencia a unidades ainda em instrução ou que de alguma forma não estava empenhado na frente. É o que Soares Branco explica no seu relatório:

Junto das Brigadas já em 1ª linha havia destacamentos da 1ª Secção de Telegrafistas Por Fios, e os oficiais desta unidade haviam montado o serviço das secções de sinaleiros das Brigadas de forma a facilitar ao oficial de infantaria comandante da Secção a árdua tarefa que lhe competiria.

Mas, desfalcada a Secção com essas praças nas secções de sinaleiros das Brigadas e ainda em alguns batalhões, o pessoal para o serviço da Estação do Quartel-General e das rondas de linhas era absolutamente insignificante.

Mais uma vez se fazia sentir e duma forma inquietante a falta das 156 pra­ças da Secção de Telegrafistas de Praça que tanto se instara para a Secretaria da Guerra para que viessem mas que não chegavam, embora nomeadas e adidas a Infantaria 5 des­de o começo de março.

Nestas circunstâncias fiz marchar para a lª Divisão em diligência um desta­camento de dois sargentos e 16 praças da 2ª Secção de Telegrafia Por Fios.

E alguns dias depois recebi a notícia de que haviam desembarcado cerca de 100 praças de telegrafistas de praça.

Uma doença contagiosa havida a bordo de um dos transportes, porém, protelara ainda por mais que uma semana a sua apresentação na Escola de Sinaleiros.

Contudo, Soares Branco não foi surpreendido com a pouca qualidade das tropas mobilizadas para o Serviço. As praças mobilizadas pertenciam às incorporações entre 1908 e 1914, estando portanto há vários anos afastadas de qualquer serviço de comunicações. Como ele próprio previra numa nota do princípio de maio enviada ao Comando, referia desta forma o pessoal da Companhia de Telegrafistas de Praça:

… mas chegado que seja esse pessoal já tenho conhecimento que é da classe 1908 (e algum assim veio); aplicou-se talvez o disposto no Regulamento de Mobilização que dispensa a apresentação imediata do pessoal dos Correios e Telégrafos em caso de mobilização do Exército.

Soares Branco compara então, em nota dirigida ao Comando do CEP, a capacidade profissional do pessoal telegrafista inglês com aqueles que vinham de Portugal para trabalharem em conjunto com o Serviço britânico:

“Por demais, V. Ex.ª concordará comigo julgando que a disposição da Lei é consequência das necessidades do serviço das estações e postos telegráficos civis no interior durante o estado de um país em guerra, mas que com uma guer­ra como aquela em que temos que nos debater tal disposição só servirá para afastar das fileiras o pessoal telegrafista de profissão – único que no Exército Inglês é chamado para o serviço das estações…

 E o autor comenta no seu relatório:

Enviaram-me pessoal de todas as classes e proveniências, algumas praças já afastadas das fileiras e da prática do serviço há muito tempo.

Era o recrutamento por algumas regiões que assim o exigia? Era a dispensa de muitos em partir?

O que existia certamente era uma falsa ideia das necessidades deste Serviço.

Quando uma guerra é um facto e uma Divisão é mandada entrar na linha, quando os Serviços expõem a tempo o que lhes é absolutamente indispensável, quan­do os Comandos perfilham e apoiam essas requisições, é triste ver-se obriga­do na rendição de uma Divisão Inglesa por outra Portuguesa a patentear a estrangeiros ou o pouco crédito que perante os superiores merecem as nossas afirmações, ou as deficiências inacreditáveis da nossa preparação para a Guerra.

Secções de Estafetas

Apesar de todas as dificuldades apontadas por Soares Branco, a verdade é que ele próprio admite que é necessário pôr mãos à obra e ultrapassar esta situação, ou seja, “a ocasião era mais de obras do que para lamentações ou críticas”.

Em sucessivas conferências com os responsáveis do XI Corpo e da 49ª Divisão, acabou por se reconhecer:

que era absolutamente indispensável fazer chamar para o Servi­ço Telegráfico toda e qualquer espécie de comunicações incluindo os feitos por motociclistas, ciclistas e estafetas a pé ou a cavalo.

Esta constatação é importante, pois a alteração dos serviços de comunicações no CEP irá trazer ao Serviço Telegráfico um substancial acréscimo de responsabilidades, acabando por propiciar o acerto com a prática das forças britânicas, nas quais era este Serviço que assumia a responsabilidade por todos os sistemas de comunicações e distribuição de correspondência.

Tiradas as respetivas conclusões e apoiado nas recomendações dos serviços britânicos, Soares Branco expõe, no dia 1 de junho, ao chefe do Estado Maior do CEP a nova situação. E no mesmo dia, como o próprio explica no seu relatório, o Serviço ganhou novas responsabilidades:

Por proposta minha foram criadas as Secções de Estafetas Motociclistas e Ciclistas junto dos Serviços Telegráficos do Cor­po e das Divisões.

E na manhã do dia 16 de Junho, quando a 1ª Divisão entrava com responsabilidade na linha, haviam já sido presentes e entregues ao Serviço Telegráfico 18 motociclistas, 32 ciclistas e 22 motocicletas, tornando-se viável cons­tituir carreiras regulares e mediante horários fixados entre as Divisões e as Brigadas, entre o Corpo e as Divisões, passando toda a correspondência oficial a dar entrada nas estações telegráficas e telefónicas para registo e para ser feita seguir aos destinatários, segundo instruções emanadas do Corpo Português.

Reforço da formação

Para além de manter muito ativa a Escola de Sinaleiros de Quiestede, onde o seu diretor, tenente de engenharia Santos Calado, se portava a contento, com “notável zelo e competência”, Soares Branco fez também instruir mais telegrafistas:

Aproveitando o oferecimento do XI Corpo fiz simultaneamente instruir na Escola de Guarda-fios de Merville 24 Guarda-fios, e desta arte, em 2 de julho, em nota Nº 186, eu podia informar o chefe do Serviço de Telegrafistas da 1ª Divisão que lhe mandaria apresentar naquela data 128 telegrafistas de praça.

Para fazer face às circunstâncias pedira, e obtivera autorização sobre nota de 21 de Junho de 1917, para distribuir conforme as exigências do serviço o aconselhassem e de acordo com as respetivas aptidões, as praças, pelo Quartel-General da Divisão, Brigadas e Batalhões.

Era impossível manter as nomeações feitas em Lisboa.

Nas praças nomeadas para o Quartel-General da Divisão havia apenas um cabo que podia ser considerado telegrafista, não podendo as restantes ser utilizadas como tal. Em compensação havia nos Batalhões algumas praças cujas aptidões eram superiores.

A instrução complementar recebida em Franca, em virtude da urgência que havia em fazer marchar para a linha as praças telegrafistas, não podia ser completa e era mister estimulá-la.

Em Portugal havia gratificações especiais para determinados serviços, como guarda-fios etc., gratificações que em França não eram permitidas.

Em virtude do exposto propus, e o Comando aprovou sobre a minha nota Nº 156, que pudesse haver um número ilimitado de promoções a 1º cabo e a 2º sargen­to nas tropas telegrafistas e nas Secções de Sinaleiros, uma vez que às pra­ças, depois de submetidas a um exame, se reconhecesse que recebiam pelo acús­tico, quer no telégrafo quer no fullerfone, um determinado número de palavras, que se fixariam num regulamento a elaborar.

O resultado cedo se fez sentir com uma notável melhoria do serviço.

Tendo tido conhecimento de que havia depósitos de telegrafistas já chega­dos à Base e que faziam parte da Companhia Mista de Engenharia, solicitei a sua vinda para instrução para a Escola de Sinaleiros pois não me convinha ter pessoal sem a instrução, que seria destinado de um instante para o outro a cobrir as baixas havidas nas unidades.

Alargava-se a responsabilidade do Serviço Telegráfico, o que exigiu a utilização de efetivos que se destinavam à 2ª Divisão, para completar e reforçar as unidades da 1ª Divisão e das estações telegráficas dos restantes comandos do CEP. Soares Branco ia dando solução aos problemas que a evolução da situação lhe exigia, mas adiava as consequências para a altura em que o Corpo de Exército, com as duas Divisões, se tornasse operacional.

Em relação à instrução dos sinaleiros vale a pena socorrermo-nos de um relatório elaborado pelo alferes Alípio Augusto sobre a instrução de observadores ministrada a duas secções de sinaleiros de Infantaria 1 e 10, junto de unidades em 1ª linha nos dias 11 a 13 e 22 a 25 de julho de 1917.

Por exemplo, em relação à instrução de avaliação de distâncias diz o relatório:

A instrução de avaliação de distâncias limitou-se quase exclusivamente a exercícios de avaliação de distâncias ao passo e à vista, por ser impossível, em vista das condições literárias das praças ministrar-lhes outros processos de avaliação de distâncias, visto que muitos são analfabetos e outros não sabem o suficiente para poderem fazer uma pequena conta de multiplicar. (…) Se bem que todos os homens houvessem revelado boas qualidades para observadores, é certo que se não pode contar com os analfabetos para o desempenho de um bom serviço, porque não podem fazer o seu boletim de observação à medida que vão descobrindo os seus objetivos, tendo necessidade de reter na memória, por vezes, mais que uma observação, até que chegue pessoa a quem possam fazer o relato verbal do que se passou, podendo muitas vezes confundir o local onde descobriram esses objetivos, o que pode ser prejudicial ao serviço.

Por isso parecia-me conveniente que os observadores analfabetos fossem substituídos por outros que soubessem ler e escrever, com o que muito teria a lucrar o importante e difícil serviço de observação.

 A TSF

No seu relatório, o capitão Soares Branco aborda todas as situações e a forma como foi avaliando e dando solução aos problemas que surgiam. Com uma Divisão a ocupar um setor da linha da frente seria natural que todos as áreas viessem a ser questionadas, sempre e quando o comando inglês o julgasse pertinente, agora que esse comando era exercido pelo XI Corpo.

Embora até então o serviço de telegrafia sem fios não tivesse merecido uma grande atenção por parte do comando português, a verdade é que a nova situação devia ser considerada antes de questionada pelo comando inglês. Foi uma preocupação de Soares Branco logo que estabilizou os serviços mais urgentes.

Ao mesmo tempo, devido ao desenvolvimento enorme que o serviço de Telegra­fia Sem Fios estava tendo no Exército Inglês, criando-se subsecções de TSF por Divisão, julguei de elementar prudência antecipar-me, dispondo as coisas de forma que, quando pelo XI Corpo fosse solicitado ao Corpo Português pessoal de telegrafia sem fios para substituir o pessoal inglês, a nossa respos­ta fosse afirmativa.

Tendo o comandante da Secção de Telegrafia Sem Fios submetido à minha apreciação um projeto de organização do Serviço, tomando-o como base, dirigi ao chefe do Estado-Maior a nota Nº 155 de 21 de junho sobre o assun­to, e na Ordem do Corpo de 22-07-17, como apenso, eram publicadas as instruções e autorizações convenientes para a organização do Serviço de TSF no CEP, prevendo-se desde logo a criação dos postos de trincheira, am­plificadores e power-buzzers indispensáveis para a 1ª Divisão.

Efetivamente ainda nessa mesma quinzena partiam para Hinges guarnições de TSF, a fim de praticarem nas regras e funcionamento de serviço de sem fios.

 Conclusão

A entrada em linha da 1ª Divisão em 16 de junho de 1917 alterou substancialmente a relação com o comando inglês, até então exercido diretamente pelo QG do 1º Exército. A partir daqui, a 1ª Divisão ficou sob o comando do XI Corpo inglês, com o qual até então não tinha havido contactos operacionais ao nível do Comando do CEP e dos serviços do Corpo. Isto foi particularmente sentido pelo Serviço Telegráfico que desde o início mantinha relações muito próximas com os responsáveis do Signal Service do 1º Exército.

A mudança, dirigida pelo capitão Soares Branco, levou à alteração de muitas das relações anteriores, mas fez-se dentro da cooperação já estabelecida com os serviços e as tropas inglesas, embora nem sempre com a compreensão esperada.

A situação das tropas portuguesas continuava muito precária e a alteração da base da participação portuguesa de uma Divisão para um Corpo de Exército a duas Divisões deixou à vista um conjunto de insuficiências e dificuldades, acentuadas por essa circunstância.

Não foi fácil para um Serviço que exigia uma formação de base de maior nível e uma capacidade técnica apreciável dos seus elementos, adaptar-se e superar as insuficiências dos contingentes mobilizados, tanto dos telegrafistas como dos sinaleiros.

Acresce ainda que foi neste período que o Serviço Telegráfico assumiu a responsabilidade, para além da transmissão da correspondência, também da sua distribuição.

As TRANSMISSÕES na GRANDE GUERRA – Relatório de Soares Branco (6)

Post do Cor Aniceto Afonso, recebido por msg:

  1. A ENTRADA EM LINHA DAS UNIDADES PORTUGUESAS

Introdução

Ainda no capítulo II do seu relatório, o capitão Soares Branco aborda a questão da entrada em linha das primeiras unidades portuguesas e dos problemas com que se defrontou para que a operação corresse o melhor possível. É desse assunto que trataremos neste texto.

Depois do período de instrução nas respetivas Escolas, as unidades portuguesas foram-se preparando para substituir unidades inglesas nas linhas da frente. O primeiro setor a ser ocupado foi o de Ferme du Bois, com uma frente de cerca de 4 km, dividido em dois subsetores de Batalhão em 1ª linha. Os Batalhões da 1ª Brigada foram os primeiros a avançar para as respetivas linhas, começando por um período de estágio junto das unidades inglesas, desde as Companhias até à Brigada. Ainda em março já se iniciava esta sobreposição. Pelos fins de abril tudo estava pronto para que as unidades portuguesas assumissem as suas responsabilidades operacionais.

THE PORTUGUESE EXPEDITIONARY CORPS ON THE WESTERN FRONT, 1917-1918 Portuguese troops entraining for the front line in France, 1917. Copyright: © IWM

Mas Soares Branco não podia deixar de avisar o estado-maior do CEP, em nota de 30 de abril:

Aproxima-se o momento em que tropas nossas deverão marchar para a 1ª linha com a responsabilidades dos seus sectores e este Serviço, bem a pesar seu, tem a declarar antecipadamente que não pode garantir nem sequer estabelecer em más condições qualquer sistema de ligações interiores entre unidades portuguesas e muito menos entre unidades portuguesas e inglesas.

Com inteira verdade tenho sempre informado as estações superiores acerca do grau de instrução do pessoal e dos recursos do serviço, e não posso pois ser inculpado no dia em que este problema for de capital importância de não ter formulado a questão nos seus devidos termos.

Mais valia a presença de (13 x 24) 312 praças de telegrafistas de praça há algum tempo em França para tornar profícua e possível a nossa participação com o Exército inglês, que a vinda de um Batalhão de Infantaria.

Algumas dessas praças são da classe de 1908 e como tal, necessitam algum tempo de instrução.

Só podem chegar nos fins de maio. Quando pois, poderá haver ligações entre as unidades?

E se assim está o problema para as Divisões, para o Corpo e para a Arti­lharia as coisas passam-se de modo análogo.

Para o Corpo é indispensável a vinda imediata da 3ª Secção de T.P.F. sem preocupações de quaisquer pequenas faltas de material técnico que aqui facil­mente possa suprir.

Para a Artilharia de Campanha, os seis oficiais adjuntos propostos antes de fevereiro, quando chegarem, pelo menos a três deles, os da 1ª Divisão, destino di­ferente terei que propor, pois não é justo nem prático que aos três subalternos de artilharia que até hoje têm tido a seu cargo a instrução das secções de sinaleiros dos Grupos, lhes seja retirado esse serviço de ligações para o en­tregar a outros que não acompanharam a instrução e tão tardiamente chegaram.

Para a Artilharia Pesada propus e V. Ex. aprovou, que fosse pedido para Lisboa a vinda de cinco secções de Marconi a dorso já existentes em Portugal. Sem elas nada se poderá fazer; qualquer instrução que aqui não seja dada só servirá para protelar a questão e desviar elementos que aqui, e só aqui, podem prestar o seu concurso”.

E para que não restassem dúvidas sobre o essencial das necessidades do Serviço Telegráfico para responder às tarefas que lhe estavam cometidas, resumia Soares Branco a situação, ainda na mesma nota:

“Para resumir o que acabo de expor formulo as seguintes questões:

1. Para que as Divisões possam ter serviço de ligações é indispensável:

a) a vinda imediata de 13×24=312 praças da Companhia de Telegrafistas de Praça para os Batalhões de Infantaria, e de um Sargento e 10 Soldados para cada Divisão.

b) a vinda dos seis subalternos pedidos para a Artilharia e provenientes dos Telegrafistas de Campanha ou de Praça.

2. Para que a Artilharia Pesada possa ter ligações é indispensável a vinda de um tenente, cinco subalternos de Telegrafistas, pessoal e material de TSF sistema Marconi 1/2 Kw.

3. Para que o Corpo possa ter a rede de comunicações que lhe compete é in­dispensável a vinda da Secção de T.P.F. Nº 3.

4. Para que o Serviço Telegráfico possa ser razoavelmente estabelecido pare­ce pouco um adjunto, que pelos Quadros lhe compete, mas de que também não pôde até hoje dispor”.

Portanto, nem tudo estava bem do ponto de vista do Serviço Telegráfico. Como Soares Branco explicará, a capacidade de adaptação e a experiência no terreno acabaram por solucionar muitos dos problemas que parecia não terem solução.

Entrada em linha

A 1ª Divisão assumiu a responsabilidade operacional do seu setor no dia 16 de junho de 1917. Antes disso, as suas Brigadas e todos os Batalhões tinham já assumido essa responsabilidade sob o comando das unidades inglesas instaladas no terreno. Os primeiros Batalhões portugueses a avançar para a 1ª linha foram o Batalhão de Infantaria 22 e o Batalhão de Infantaria 34 (em 10 e 16 de maio respetivamente), que guarneceram os subsetores I e II do Setor de Ferme du Bois.

Em apoio avançou o Batalhão de Infantaria 28 e em reserva o Batalhão de Infantaria 21, ficando este na 2ª linha ou linha das aldeias, onde veio a instalar-se o Comando da 1ª Brigada, em Chateau du Raux.

Château du Raux, hoje

As unidades de Artilharia começaram a avançar também em meados de maio, em apoio das respetivas unidades da frente.

No início de junho estava também na frente a 2ª Brigada, que ocupou um dos subsetores de Neuve Chapelle, estendendo a frente defendida por unidades portuguesas para 6 km. Ficaram em 1ª linha os Batalhões 35 e 23, em apoio o Batalhão de Infantaria 24 e em reserva o Batalhão de Infantaria 7. O QG da 2ª Brigada instalou-se em Les Huit Maisons.

Finalmente instalou-se no Chateau de la Giclais o QG da 1ª Divisão, comandada por Gomes da Costa, ocupando a 2ª Brigada todo o setor de Neuve Chapelle e ficando a frente portuguesa da 1ª Divisão com 8 km. A 3ª Brigada ficou em reserva.

Gen Manuel Gomes da Costa, the Commander of the 1st Division CEP, outside his HQs in Lestrem, 24 June 1917. Copyright: © IWM.

Neste primeiro contacto com as linhas da frente, especialmente durante a sobreposição com as tropas inglesas, todos aprendiam o dia-a-dia das trincheiras que constava de uma série de tarefas cuja descrição podemos encontrar num outro relatório elaborado pelo major António José Teixeira, comandante do Batalhão de Infantaria 10. Diz ele que as praças aprendiam:

“a reparar um troço de trincheira, a conhecer o ‘a postos’ da manhã e da tarde, que era quando todos ocupavam o seu lugar para combate, a vigilância das sentinelas, o perigo das patrulhas pela esburacada terra de ninguém, a eficácia dos tiros dos atiradores experimentados, os snipers, o cuidado da observação nos postos de periscópio, o atavio diário da máscara, capacete e espingarda, como inseparáveis companheiros, e a irrepreensível limpeza das trincheiras, etc.”.

Lestrem – hora do Rancho

Por seu lado, os oficiais também tiveram a sua aprendizagem e, diz-nos o mesmo autor, focaram-se essencialmente em conhecer:

“os pontos vulneráveis, os melhores para atacar e contra-atacar, os caminhos de emergência e a sua utilidade, o sistema de drenagens e de abastecimentos, os serviços de saúde, os sinais de alarme de gás, os postos e instrumentos destinados a esses sinais e ainda a forma de pedir o SOS, os dispositivos durante o dia e os da noite, a forma de elaborar os relatórios diários e os de informações e ainda outros respeitantes aos nossos trabalhos e aos do inimigo, à direção do vento, à maneira de fazer requisições de material e víveres, de assinalar o número de granadas enviadas pelo inimigo e os pontos exatos de queda, espécie de fogo, movimento de aeroplanos, etc., etc.”.

Entrada em linha dos sinaleiros

O capitão Soares Branco estava sem dúvida preocupado com o bom desempenho dos seus telegrafistas e telefonistas, que ele sabia estarem minimamente preparados e poderem, com a prática, equivaler-se aos seus camaradas ingleses, mas o que essencialmente o trazia apreensivo era a capacidade dos sinaleiros para cumprirem as suas missões, pois, como diz, “evidentemente que é ocioso acentuar a sua falta de preparação”.

Os primeiros sinaleiros, depois da frequência da escola de formação, partiram para a frente no dia 19 de abril, a fim de se juntarem aos Batalhões 34 e 22. Ao mesmo tempo avançaram também os sinaleiros das primeiras baterias de Artilharia.

Soares Branco não perdeu tempo e fez uma primeira visita a estas unidades ainda na primeira quinzena de maio, lamentando-se:

“fui encontrar o pessoal sinaleiro dos Grupos sem indicadores nas estações telefónicas…”.

Sendo assim, deviam os responsáveis portugueses e ingleses ser postos perante o problema, por forma a não se repetirem estas situações:

“O Exército Inglês que por um lado ativava a entrada em linha das nossas primeiras forças, não me fizera enviar a tempo o material telefónico que lhes competiria e que em 30 de março fora requisitado pela terceira vez.

Em nota Nº 86 relatei o resultado da minha visita às baterias já na linha, e propus que não fosse ordenado a nenhuma secção de sinaleiros a sua marcha para a frente, antes de lhe ser distribuído na zona da retaguarda todo o material que lhe fosse necessário.

Assim, foi comunicado ao 1º Exército e algum tempo depois começava chegando o material técnico necessário de forma a poder regularizar-se um pouco a sua distribuição”.

Resolvido o problema do material, restava a preocupante situação do pessoal das secções de sinaleiros e do apoio que deviam dar a todas as unidades da frente. A eficiência de um sistema de ligações, com o envio e a receção de mensagens dentro dos prazos estipulados era, como sempre é, a base de uma boa ação de comando, que deve ter acesso rápido a todas as informações que chegam das unidades que ocupam o terreno, assim como estar certo de que as suas ordens e orientações chegam em tempo aos seus comandos subordinados. Essa é a base de um dos elementos essenciais do combate e também um princípio da guerra – o Comando/Ligação. E se na situação de uma frente estática o problema era por vezes resolvido por outra forma, especialmente através de estafetas, a verdade é que em muitas situações tal não se revestia da eficiência indispensável.

Era com base nesse conhecimento, que Soares Branco se empenhava na preparação dos sinaleiros, que ele bem sabia constituírem um dos elos fundamentais da cadeia de comando. Daí a expressão das suas preocupações:

Mas a falta de suficiente instrução do pessoal sinaleiro, pela sua pouca permanência na Escola de Sinaleiros (cerca de 4 semanas), o diminuto número de praças que soubessem ler e escrever corretamente, a não existência de pessoal de Telegrafistas de Praça que enquadrassem essas primeiras seções de sina­leiros, a dificuldade enorme que sempre existe em treinar o ouvido à perceção rápida de sinais só transmitidos pelo vibrador acústico, a proibição por causa das interceções de mensagens por parte do inimigo dos despachos tele­fónicos, constituíram outras tantas causas de dificuldades para a montagem do serviço que só uma excecional boa vontade por parte dos oficiais sinalei­ros e das praças, procurando por todas as formas aperfeiçoar os conhecimentos e treino já adquiridos, pode explicar o haver-se conseguido o regular funcionamento das ligações que se foi obrigado a estabelecer algum tempo depois na nossa lª Divisão especialmente nessa 1ª Brigada que entrou na linha (Batalhão de Infantaria 34, 22, 21 e 28)”.

Como relata Soares Branco, um oficial inglês que visitou com ele a Escola de Sinaleiros, ao ver a dificuldade que os homens tinham em escrever, comentou:

“vós não podeis fazer destes homens sinaleiros de infantaria. No vosso caso dava ordens para que os despachos fossem transmitidos pelo telefone”.

E Soares Branco não deixa de lamentar a situação:

“Era triste de facto ver por esta forma exteriorizada a nossa inferioridade e patenteado bem a lume a praga do analfabetismo, quando tudo poderia ser remediado com uma mais rápida solução das propostas para a Metrópole enviadas”.

Plano de ligações a estabelecer

De qualquer maneira, a entrada em linha das unidades portuguesas era irreversível e quando as primeiras Brigadas já se aprontavam para seguir para a linha da frente, o Quartel-General Britânico, através da Missão Britânica, assim como o 1º Exército solicitaram ao Serviço Telegráfico do CEP,

“o plano geral das ligações a estabelecer para o caso da entrada em linha de uma ou duas das nossas Divisões juntamente com as tropas britânicas”.

Nestas circunstâncias, Soares Branco propôs em 14 de maio, e depois o Quartel-General Britânico estabeleceu, as seguintes regras para as ligações e as comunicações entre as unidades e os comandos das duas forças:

“1. Que junto dos QG do Corpo, das Divisões e Brigadas laterais funcionassem estações de junção portuguesas e inglesas, onde o serviço fosse executado, para as ligações interiores por pessoal português e para as ligações exteriores por pessoal inglês.

2. Que junto dessas estações houvesse algumas praças intérpretes, que fa­cultassem as constantes relações que a permuta de despachos certamente acarre­tava.

Desta forma, sem que uns embaraçassem os outros, eu conseguia resolver o gravíssimo problema da diferença de velocidade de transmissão pelo acústico entre os nossos telegrafistas e os telegrafistas ingleses, e o não menos importante facto das comunicações telefónicas em dois idiomas diferentes que dificultariam e impossibilitariam as comunicações.

Um telegrama do Exército para uma unidade do Corpo seria recebida no telégrafo inglês, entregue ao telegrafista português do Q. General do Corpo e por este enviado pelo telégrafo ao destinatário.

Uma comunicação telefónica de uma Repartição do Quartel-General Português era pedida pela Repartição ao indicador telefónico português, e por este pedida ao indicador inglês em ligação direta com o 1º Exército que a realizava”.

Ficava assim estabelecido o sistema de ligações entre o CEP e o comando e as unidades britânicas. Mas Soares Branco não duvidava do muito que ainda faltava fazer para garantir a eficiência do sistema acabado de estabelecer. Por isso a Escola de Sinaleiros continuou a ministrar a instrução necessária, em circunstâncias difíceis, pois as unidades estavam já nesta altura desfalcadas de muitos dos seus quadros e praças e os reforços solicitados ou não chegavam, ou chegavam muito lentamente, tornando muito difícil o cumprimento eficaz das missões do Serviço Telegráfico.

Conclusão

A entrada em linha das primeiras unidades portuguesas processou-se, apesar de tudo, com normalidade. Todas tiveram oportunidade de efetuar um estágio com as tropas britânicas, já muito experientes, pois estavam nesta situação desde 1914. Pelos relatos que nos chegaram, todos foram bem recebidos pelos militares ingleses e todos iniciaram a sua presença na frente com boa vontade, empenhamento e desembaraço. À medida que o tempo foi passando e que as circunstâncias se foram agravando, em termos de rendição de tropas, de rotação nas linhas e do completamento de efetivos, a situação tendeu a complicar-se, ao ponto de se tornar insuportável do ponto de vista militar.

Tanto os soldados de infantaria, como os telegrafistas, guarda-fios e sinaleiros, ninguém poderia ficar imune ao lento descalabro das unidades portuguesas, que foram ficando cada vez mais reduzidas e mais fracas, tanto do ponto de vista operacional, como do ponto de vista moral.

Pelo que Soares Branco nos diz, os seus militares cumpriram sempre com grande empenho e muito sentido do dever as missões que lhes estavam atribuídas, apesar das circunstâncias adversas. Mas isso exigiu de todos um esforço suplementar, que Soares Branco procura realçar no seu relatório.

As TRANSMISSÕES na GRANDE GUERRA – Relatório de Soares Branco (5)

Post do Cor Aniceto Afonso, recebido por msg:

  1. AS ESCOLAS DE FORMAÇÃO

Introdução

O capítulo II do relatório do capitão Soares Branco, que ocupa cinco páginas, refere-se, em primeiro lugar, à organização e preparação das unidades de telegrafistas e das secções de sinaleiros da 1ª Divisão. Como veremos, a sua principal preocupação é a montagem das escolas de telegrafistas, mas especialmente das escolas de sinaleiros, que ele sabia carecerem de muita instrução para bem desempenharem as tarefas que os aguardavam. É também neste capítulo que Soares Branco aborda a questão da organização inicial da força portuguesa, já que para o responsável do Serviço Telegráfico era essencial saber como se iriam articular as unidades, a fim de planear a forma como lhes seria fornecido o apoio em comunicações.

A alteração orgânica do CEP de uma Divisão reforçada para um Corpo de Exército a duas Divisões, proposta pelo Comando do CEP ao governo português logo em fevereiro de 1917, sob sugestão do chefe da missão britânica junto da força portuguesa, que decerto teve a cobertura dos altos comandos ingleses, desencadeou uma série de ações no sentido de completar os quadros orgânicos em pessoal e material por parte de todos os responsáveis pelos vários serviços de apoio.

Embora as preocupações do capitão Soares Branco estivessem concentradas na instrução dos seus efetivos, tanto telegrafistas e telefonistas, como sinaleiros e outras especialidades do seu âmbito, tomou como prioritária a necessidade de propor o recompletamento dos seus efetivos, na perspetiva de ser constituído um Corpo de Exército a duas Divisões, assim como um Corpo de Artilharia Pesada, como já vimos.

Ainda em fevereiro de 1917, pouco depois da sua chegada a França, Soares Branco propôs algumas alterações nos quadros de pessoal, como recorda no seu relatório:

Nesta incerteza de efetivos futuros em que ainda continuava, e do número e natureza dos Quartéis-Generais a constituir, propus, e imediatamente foi aprovada e enviada a proposta para a Metrópole, a vinda de 13 praças de te­legrafistas de praça por cada Batalhão de infantaria que marchasse para França, e a vinda de seis oficiais de Engenharia para as ligações da Artilharia. (Nota e proposta de 19-02-17)”.

E, logo que teve a certeza da futura constituição do Corpo de Exército, fez ainda outras propostas:

“Na primeira quinzena de março, tendo tido conhecimento de que o CEP passava a constituir um Corpo de Exército a duas Divisões a três Bridadas, e um Corpo de Artilharia Pesada, submeti à apreciação do Chefe do Estado-Maior em 19-03-17 as seguintes propostas relativamente a pessoal:

  1. Necessidade de se instar pela vinda de 312 telegrafistas de Praça, correspondendo a 13 praças por cada Batalhão de infantaria;
  2. Necessidade da vinda imediata de seis subalternos de Engenharia a mais do que os Quadros Orgânicos determinavam;
  3. Criação da Escola de Sinaleiros;
  4. Necessidade da vinda de uma 3ª Secção de Telegrafistas para o Corpo, além da Secção de Telegrafistas de Praça já existente, ficando cada Divisão com uma Secção de Telegrafistas de Campanha;
  5. Urgência da chegada a França do material do Trem de Engenharia Automóvel e do pessoal e material da Oficina do Depósito Avançado;
  6. Criação de Secções de sinaleiros nos Batalhões de Infantaria e nos Grupos de Artilharia”.

Mas, para além do recompletamento de efetivos, tornava-se necessário adequar também o material orgânico:

“E na parte referente a material, submeti a aprovação de Sua Exª o General, o quadro completo das dotações de todas as Unidades do CEP, organizado de acordo com o estabelecido como indispensável na presente Guerra, e que foi aprovado em 30-03-17.

Nesse quadro fiz incluir, por prever a sua futura aplicação, uma Secção Automóvel construtora de Linhas de Fio, completa”.

As escolas de formação

O que verdadeiramente preocupava, não apenas o capitão Soares Branco, mas todos os responsáveis pelos vários serviços e pelas unidades de linha, era a consciência que tinham da impreparação das tropas portuguesas para a guerra de trincheiras.

Logo em Dezembro de 1916 avançou para França, através de Espanha, um largo conjunto de oficiais e sargentos, num total de cerca de 100 elementos, para organizarem um período de formação das tropas portuguesas. Deviam eles próprios frequentar as escolas inglesas e organizar depois as escolas portuguesas que tinham por missão preparar os militares portugueses para a realidade da guerra, tanto em termos do uso de novas armas e materiais, como no conhecimento de novas táticas e formas de combate.

Depois de um período de frequência das escolas britânicas, situadas na região de Étaples, os primeiros instrutores portugueses deram corpo a um plano geral de instrução para as tropas do CEP aprovado em março de 1917. O plano contemplava três períodos – ginástica e palestras; uso da baioneta, de granadas e serviço de patrulhamento nas trincheiras; e instrução especial de acordo com as especialidades ou aptidões de cada um.

As principais escolas portuguesas criadas na zona de concentração do CEP foram as seguintes: a Escola de Emprego de Baioneta, em Mametz; a Escola de Granadeiros, em Marthes; a Escola de Metralhadoras Ligeiras, também em Marthes; a Escola de Metralhadoras Pesadas; a Escola de Tiro, Observação e Patrulhas, em Pacaut; a Escola de Morteiros de Trincheira; a Escola de Gás, em Mametz, entre outras. Passaram por estas escolas milhares de militares que assim se foram familiarizando com os novos armamentos e materiais e também com as novas técnicas e táticas. Também ao nível divisionário foram criadas escolas, em especial de baioneta, metralhadoras, gás e granadas.

Depois deste período de instrução, e antes de assumirem responsabilidades na frente, as unidades tipo companhia faziam estágios na frente, junto de unidades inglesas.

A Escola de Sinaleiros

Apesar das preocupações que naturalmente lhe mereciam os telegrafistas e os telefonistas, a verdade é que Soares Branco sabia que o esforço de formação devia ser canalizado para os sinaleiros. É por isso que desde logo planeia a montagem de uma Escola de Sinaleiros, que vem a ser em Quiestede, e apresenta o respetivo programa de instrução:

Limitei-me pois a informar o Comando da necessidade de fazer montar uma Escola de Sinaleiros onde fosse completada a instrução das nossas tropas, fosse qual fosse o seu efetivo, e juntamente submetia a aprovação o programa da mesma instrução:

As matérias a versar na Escola constavam de cinco Secções:

a) lª Secção:

telegrafia acústica simples

telegrafia acústica de corrente dupla.

b) 2ª Secção:

telefonia acústica (buzzer)

telefonia falante

c) 3ª Secção:

telegrafia ótica com bandeiras, quadros venezianos

d) 4ª Secção:

escola de guarda-fios

e) 5ª Secção:

Regras de transmissão, receção, classificação de despachos e sua escrituração.

f) 6ª Secção:

Breves noções sobre o funcionamento do serviço e dos aparelhos em uso nas estações.

 

A 6ª Secção seria diretamente dirigida pelo oficial Comandante da Secção de Telegrafistas de Praça.

Para as praças das unidades de telegrafistas era obrigatória a instrução das cinco Secções (1. 2. 3. 4. 5.)

Às praças de Infantaria era ministrado o ensino das 2ª e 3ª Secções.

Às praças de Artilharia que viessem a frequentar a Escola ser-lhes-ia ministrada a instrução da 2ª, 3ª e 4ª Secções.

Sumariamente, tanto as praças de Infantaria como as da Artilharia era-lhes dado na parte que lhes dizia respeito, noções da 5ª Secção.

O 1º Exército fornecia-me, por empréstimo, o material necessário e com ele dava começo aos primeiros trabalhos, elaborando uns primeiros esquemas e diagramas para a compreensão dos fullerfones, telefones e telégrafos acústicos que de futuro seriam fornecidos às unidades.

Os novos modelos de aparelhos, como o fullerfone, cuja existência era absolutamente desconhecida em Portugal, e a obrigatoriedade da adoção do telégrafo acústico em vez do telégrafo com fita, complicavam extraordinariamente o serviço, e exigiam dos nossos homens uma prática e qualidades que muitos não possuíam.

E se o problema era difícil para as tropas telegrafistas, para a Infantaria parecia quase insolúvel de momento”.

Entretanto, a situação não se apresentou fácil de resolver, pelas dificuldades de os Batalhões dispensarem o seu pessoal para instrução, uma vez que estavam ainda demasiado desfalcados nos seus efetivos. É para isso que Soares Branco chama a atenção:

“As primeiras tropas embarcadas para França, e que em troços haviam começado a chegar à zona de guerra na primeira quinzena de fevereiro, constituídas numa Brigada, só no fim de março puderam enviar os quadros para a Escola de Sinaleiros de Quiestede.

Estavam já em 2 de abril em França quase todos os Batalhões de Infantaria, mas a falta de quadros era enorme.

A custo e por turnos, podiam as unidades dispensar os oficiais e sargentos.

A Artilharia que devia criar e instruir as suas Secções de Sinaleiros de grande efetivo, cerca de 60 praças, precisava também de pessoal idóneo para ser instrutor e instruído”.

A necessidade de instruir todo o pessoal, em especial os telegrafistas e os sinaleiros era tão urgente, que Soares Branco, não tendo completa resposta aos seus pedidos, se viu obrigado, como refere, a converter um dos oficiais da 1ª Secção de TPF, o tenente Mascarenhas de Menezes, em instrutor de praças sinaleiros de Infantaria. E foi ainda obrigado, apesar de tudo tentar para evitar a situação, a aceitar o oferecimento feito pela Missão Inglesa do tenente Colston para auxiliar e dirigir a instrução dos sinaleiros de Artilharia.

Soares Branco refere com clareza esta situação no seu relatório, já que o recurso a este oficial inglês

“contrariava o natural desejo de só com pessoal português instruir as nossas tropas, não menos verdade era que este Serviço Telegráfico havia feito a tempo a proposta que tal evitaria, e não menos verdade era também que o Chefe do Estado-Maior por repetidos telegramas fizera ver à Secretaria da Guerra a urgência na vinda dos seis subalternos requisitados desde os primeiros dias de fevereiro e que só em maio deviam começar a apresentar-se”.

Mas tudo se processou com toda a normalidade, e o capitão Soares Branco vem a reconhecer que

os serviços prestados pelo tenente R.P.A. Colston foram excelentes, e ainda hoje em igualdade de circunstâncias eu procederia como naquela data. Nunca me receei nem receio de aceitar e agradecer a cooperação de oficiais do Exército Inglês, até onde ela pode e deve ser proveitosa e útil”.

Conclusão

Ultrapassadas as dificuldades deste período inicial, as primeiras unidades portuguesas, ao nível Companhia e depois Batalhão, vão-se aprontando para entrar em linha, substituindo unidades inglesas, evidentemente sob o comando dos seus Batalhões ou Brigadas, como veremos no próximo texto.

Neste período, que se estende aproximadamente de fevereiro a princípios de maio, seguindo-se depois a entrada em linha das Brigadas e finalmente a 1ª Divisão em 10 de julho, o Serviço Telegráfico procurou resolver todos os problemas que resultavam da mudança de missão das unidades portuguesas, mas empenhou-se particularmente na melhoria da formação das suas tropas e dos sinaleiros de Infantaria e de Artilharia, da ação dos quais dependia o bom serviço das ligações em campanha, essenciais para o desempenho do comando de qualquer unidade. Pelos resultados que se foram constatando, o Serviço Telegráfico do Corpo foi eficiente e reconhecidamente eficaz na sua missão.

As TRANSMISSÕES na GRANDE GUERRA – Relatório de Soares Branco (4)

Post dos Coronéis Aniceto Afonso e Costa Dias, recebido por msg:

  1. SITUAÇÃO INICIAL DO SERVIÇO TELEGRÁFICO

Introdução

No final de agosto de 1916, pouco depois do fim da primeira fase das manobras de Tancos, chegou a Lisboa uma missão militar anglo-francesa para discutir com Portugal a forma de participação de tropas portuguesas na frente ocidental.

A missão esteve em Portugal até novembro, tendo sido produzido o Memorando das condições de emprego das forças Portuguesas na zona de operações britânica em França, depois aprovado pelo Governo Britânico a 16 de dezembro. O memorando previa que as unidades portuguesas avançariam para França, mas passariam por uma fase de instrução a cargo do comando britânico, antes de entrarem em linha. A força seria constituída por uma Divisão reforçada, com um total de três Brigadas a dois Regimentos e estes a três Batalhões, totalizando 18 Batalhões. Esta composição foi estabelecida numa 2ª Convenção luso-britânica assinada a 3 de janeiro de 1917, pouco antes do embarque das primeiras tropas. Relativamente à artilharia deviam constituir-se quatro Grupos de peças 75 mm e três Grupos de obuses, estes com duas baterias cada. Estava prevista a mobilização de cerca de 40.000 militares.

Partida de Lisboa

Desembarque em Brest

Quando os primeiros contingentes já se encontravam em França, decorrendo o período de aquartelamento e instrução previsto, verificou-se ser necessário fazer uma adaptação de estrutura orgânica, visto que as unidades britânicas não tinham o escalão Regimento, dependendo os Batalhões diretamente das Brigadas. E uma vez que sobravam comandos, foi sugerido pelo chefe da missão militar britânica junto do CEP, que Portugal poderia constituir um Corpo de Exército a duas Divisões, cada uma com três Brigadas e estas com quatro Batalhões, num total de 24 Batalhões, mais seis do que os mobilizados por Portugal. Foi ainda levantada a hipótese de se constituir um Corpo de Artilharia Pesada, na dependência do CEP.

O primeiro contingente em França do mais velho aliado da Inglaterra

Posto o problema ao Governo português ainda em fevereiro, este acedeu de imediato, até porque isso conferia à presença portuguesa um significado de maior relevo. Tornava-se contudo necessário mobilizar mais cerca de 15.000 militares, pois também a estrutura de apoio seria necessariamente aumentada. Isso exigia também a extensão da capacidade de transporte através dos meios navais disponibilizados pela Grã-Bretanha. Ora, essa capacidade estava já comprometida com o transporte de tropas americanas para a Europa, pelo que se tornou muito difícil à Inglaterra aceitar esse compromisso. Apesar de todas as negociações acessórias que se tornaram necessárias e que levaram o ministro da Guerra, Norton de Matos, a permanecer cerca de um mês em Londres, entre meados de maio e meados de junho, o contingente português só no mês de Setembro terminou a primeira fase de transporte para França. Foi nesta altura que, dando corpo a uma intenção que sempre esteve na mente do governo inglês, este propunha que as unidades portuguesas ficassem na dependência de unidades inglesas e integrassem oficiais ingleses, proposta que evidentemente, o governo português rejeitou liminarmente.

Apesar de todas estas hesitações e dificuldades a nível político, no terreno acabou por se trabalhar sempre com a hipótese da constituição do Corpo de Exército, embora as notícias nem sempre fossem tranquilizadoras e fossem causa de algumas dúvidas.

No que respeita ao Serviço Telegráfico, Soares Branco considerou sempre, a partir de março de 1917, a hipótese que depois se viria a concretizar – a entrada em linha do Corpo de Exército português, embora tal só tenha acontecido a partir de 5 de novembro.

Ponto de situação

Voltando à análise do relatório do capitão Soares Branco, constatamos que, quando ele se apresentou ao responsável pelo Serviço Telegráfico do 1º Exército Britânico, coronel de Engenharia H. Moore, no dia 27 de janeiro de 1917, ficou assente que enviaria a este um relatório sucinto sobre a situação do mesmo serviço no CEP.

Coronel Herbert Tregosse Gwennap Moore, Royal Engineers, DSO, CB, CMG, Avis

Para além de uma informação sobre o pessoal e o material do Serviço, Soares Branco deveria também referir as capacidades disponíveis, o grau de instrução do pessoal, as faltas a preencher tanto em pessoal como em material, assim como as alterações necessárias para a sua adaptação à organização inglesa. Soares Branco enviou o relatório ainda durante o mês de março, com data de 23, incluindo-o depois no seu relatório final como apêndice nº. 4. É este apêndice que vamos analisar neste texto.

No corpo principal do seu relatório final, Soares Branco, a propósito do compromisso que tomara de enviar o ponto de situação ao 1º Exército, tece algumas considerações sobre as dúvidas que teve e a forma como procurou resolvê-las, não dando a entender ao seu destinatário as hesitações que ainda subsistiam no CEP quanto à organização das suas tropas. É por isso que ele dá a primeira explicação sobre o envio do relatório ao 1º Exército: “Uma vez estudada a organização e funcionamento do serviço de comunicações no 1º Exército Inglês, no qual deveria o CEP ficar incorporado, julguei da máxima importância informar o Serviço Telegráfico do 1º Exército da organização e estado da instrução à data do embarque para a França das tropas telegrafistas portuguesas”. E também acentua os princípios por que se guiou para cumprir a sua missão, não apenas neste relatório parcial, mas sempre que tivesse de assumir responsabilidades: “Diante de mim tive o problema do futuro, e alheio ao que à Missão Inglesa em Lisboa havia sido comunicado sobre o Serviço Telegráfico, não tendo nem direta nem indiretamente recebido da mesma Missão quaisquer esclarecimentos que pudessem ainda orientar na Metrópole o plano orgânico das unidades telegrafistas e de sinaleiros, dois princípios tive que respeitar:

O primeiro, falar claro e com verdade ao 1º Exército Britânico.

O segundo, em harmonia com o que observara e estudara, propor ao meu Estado-Maior tudo quanto de indispensável havia julgado”.

Tanto para cumprimento dum princípio, como para o outro, seria indispensável que Soares Branco soubesse como iria o CEP organizar-se, o que não foi questão simples neste início de missão. Esta deveria ter sido a principal interrogação que Soares Branco colocou aos responsáveis portugueses já presentes em França, já que era necessário, como diz, “que eu tivesse exato conhecimento de quais as forças que deveriam compor o CEP – Uma Divisão, um Corpo, uma Divisão reforçada com Artilharia Pesada?”. É que, embora compreendendo “quantos melindres e naturais incertezas não encobre uma resposta clara ao que me era indispensável tomar para base de qualquer trabalho, mas sem ela nada de seguro podia propor”.

Mas quando finalmente tem as condições mínimas para prosseguir o seu ponto de situação, já inclui informações sobre a organização dos vários escalões do CEP no que respeita às unidades de comunicações e respetivo pessoal, assumindo em definitivo que a força portuguesa será composta por um Corpo de Exército a duas Divisões. Temos assim, ao nível do Corpo:

“a) 1 chefe do Serviço Telegráfico e 2 adjuntos
b) 1 Secção de Telegrafistas de Campanha
c) 1 Secção de Telegrafistas de Praça
d) 1 Secção de Telegrafia Sem Fios”.

Cada uma destas unidades tinha o seguinte pessoal:

“1. A Secção de Telegrafistas de Campanha tem a composição análoga à indicada para as Divisões podendo contudo receber destas uma ou duas esquadras de fio, no caso de o serviço assim o indicar.
2. A Secção de Telegrafistas de Praça compõe-se de 1 oficial, 3 sargen­tos, 6 cabos e 30 soldados.
3. A Secção de Telegrafia Sem Fios é de 2 oficiais, 3 sargentos, 12 motoristas e telegrafistas, 13 soldados não especializados”.

Mais adiante, Soares Branco refere a composição do Serviço Telegráfico ao nível das Divisões, havendo, em cada uma, uma Secção de Telegrafistas de Campanha e um Destacamento de Telegrafistas de Praça.

Quanto ao “material de que a Secção de Telegrafistas de Campanha dispõe pode ser diminuído duma esquadra de fio que fique pertencente ao Corpo”, e em relação ao pessoal de “Telegrafistas de Praça ficará encarregado das linhas do Corpo na Divisão e transportará no carro de parque o material telefónico e telegráfico que complementarmente for distribuído à Secção de Telegrafistas de Campanha pelo acréscimo do número de ligações pedidas”.

Em cada Divisão, “o chefe do Serviço será o Comandante da Secção de Telegrafistas de Campanha que disporá de 3 oficiais de Engenharia”, a “Secção de Telegrafistas de Campanha tem uma composição idêntica, referida nos quadros”.

Já o Destacamento de Telegrafistas de Praça merece maior atenção e mais extensa referência, com a indicação de que se compõe de “120 praças afetas aos Batalhões de Infantaria, mas sob a direção do Serviço Telegráfico”. Existe também pessoal afeto ao serviço telegráfico e telefónico dos Quartéis-generais, constituído por um segundo-sargento, um cabo e 46 praças, sendo que estas “são treinadas em serviço de estação, construção e reparação de linhas permanentes”.

O relatório que Soares Branco envia ao 1º Exército aborda a questão do material de transmissões existente no CEP, de forma a salientar aquilo que satisfaz as exigências do serviço e o que tem necessariamente de ser substituído ou complementado. Mas as informações acabam por ser genéricas, já que não havia ainda uma clara definição de qual viria a ser a organização das forças portuguesas. Por isso, Soares Branco refere em primeiro lugar o material usado pela Secção de Telegrafistas de Campanha do Corpo, “análogo ao das Secções afetas às Divisões”, que se divide em quatro esquadras, sendo “2 esquadras de cabo, 1 esquadra de fio e 1 esquadra de serviço ótico”.

Esta Secção “pode montar 5 estações telegráficas Morse, 5 estações telefónicas conjugadas servidas pelas mesmas linhas e 5 estações telefónicas falantes”. Com base nos recursos materiais existentes, a Secção podia montar “22 km de linha de cabo simples” e “10 km de linha de fio”.

Por seu lado, a “esquadra de serviço ótico permite estabelecer 8 postos quer de dia quer de noite”, sendo que “todo o material da Secção, a não ser as lanternas para serviço ótico e o cabo simples, é de muito boa qualidade e satisfaz plenamente as condições exigidas do serviço de campanha”.

Seguem-se então informações técnicas sobre o material, algumas bastantes pormenorizadas, incluindo os diâmetros e o revestimento dos vários cabos disponíveis.

Assim, “os telégrafos Morse são de duas direções para sistema escrevente” e os “telefones de 1 e 2 direções têm chamada magnética e chamada acústica para buzzer”. Mas havia apenas “um único comutador suíço para 4 linhas”. E quanto ao cabo, “composto de 5 fios de cobre” e com uma “armadura de 12 fios de aço”, “tem apenas o defeito de estar velho”.

Já o “cabo subaquático é análogo ao cabo armado usado no Exército Inglês”, mas “há apenas 1000 metros”. E embora este cabo fosse “muito pesado, 202 kg. por cada km” estava “enrolado em carretéis apropriados montados nas viatu­ras de carros de cabo, permitindo o seu desenrolamento com a viatura a trote”.

Também o “fio para a linha aérea, composto de 4 fios enrolados em hélice” estava “em boas condições de uso e serviço”.

Por seu lado, “os postes para a linha aérea são de madeira” podendo “atingir uma altura máxima de 16 pés”.

Quanto às pilhas, elas “eram dum sistema Leclanche de rolha e tampa, mas o facto de não se poderem adquirir em Lisboa aglomerados bons para os elementos, torna-lhe o funcionamento defeituoso utilizando-se apenas elementos secos”.

Por fim, o “material para o serviço ótico compõe-se de bandeiras”, “lanternas de óleo de colza ou petróleo”, “heliógrafos de Mance, muito bons para países onde há sol, como em Portugal”, e “aparelhos Mangins (heliógrafo e lanterna) bons mas de complicado funcionamento”, tudo em número de quatro.

Aparelho óptico Mangin, aqui em exercícios em Tancos

Funcionamento do Serviço

Quanto ao funcionamento do Serviço, Soares Branco aborda a questão por sectores, dando informações de cada uma das suas pequenas unidades, secções e esquadras.

Assim, “cada esquadra de cabo (…) faz o serviço indo todas as praças a pé divididas em distribuidores, marcadores, desenroladores e assentadores e verificadores, cujo serviço se faz simultaneamente atingindo-se uma velocidade de 3 a 4 km a hora”. Já as esquadras de fio trabalhavam “com o fio enrolado em carretéis no carro de fio”, não se atingindo mais que “uma velocidade de 2 ou 1 km por hora, conforme os diferentes traçados”.

Em relação ao “serviço ótico, destinado às ligações menos importantes ou a duplicar as principais, tem uma grande mobilidade para as marchas graças ao transporte do pessoal nos carros de parque e ao uso de bicicletas”, podendo “montar sempre 4 postos duplos quer de dia quer de noite”, empregando, conforme as condições, os heliógrafos Mangin ou Mance. De qualquer forma, e durante as marchas, a “Secção divide-se em dois escalões”.

No que respeita à Secção de Telegrafistas de Praça, ela “é a formação cujo pessoal é mais treinado pela sua ocupação civil e militar no guarnecimento das estacões e na construção e reparação de linhas permanentes”. Contudo, os seus “recursos, como facilmente se nota, não chegam atualmente para a multiplicidade de ligações exigidas”.

O serviço desta Secção, segundo Soares Branco, poderia aproveitar-se tanto na “guerra de movimento, na construção de transversais nas redes civis ou militares da retaguarda, reparações e serviço de estações”, como na guerra de posição”, neste caso para a “construção e conservação das linhas enterradas chamadas gerais, e no guarnecimento de estações”.

Relativamente à Secção de Telegrafia Sem Fios, Soares Branco informa que “o material desta Secção é do sistema Marconi – antena em L, com 1,5 kw de potência, 250 km em terreno plano como do Brabante belga, e os mastros em madeira da altura de cerca de 25 metros”, sendo o material “análogo ao do sis­tema inglês”. Nesta Secção “o pessoal está regularmente treinado, mas ainda não pode na sua generalidade considerar-se telegrafista de 2ª classe, embora haja algumas praças de 1ª classe”.

Marconi 1,5 KW Spark Field Set em montagem veicular

Marconi 1,5 KW Spark Field Set

Grau de instrução

Relativamente ao “grau de instrução do pessoal”, Soares Branco separa os telegrafistas de campanha dos telegrafistas de praça, informando que no primeiro caso o pessoal “está razoavelmente treinado no serviço de guarnecimento de estações, bem treinado na monta­gem de linhas de campanha de cabo e de fio”, mas que “precisa todo ele de receber instrução sobre o material inglês diferente do português e com que terá também que trabalhar”. Mas não serão necessárias mais que quatro a seis semanas para essa instrução.

Quanto às Secções de Telegrafistas de Praça, Soares Branco afirma que o seu pessoal “está treinado no serviço de estações, precisa conhecer o material inglês com que virá a trabalhar mas facilmente poderá tomar conta do serviço das estações”. Contudo, “desconhece as regras da montagem e levantamento das linhas de campanha, mas é perito no estabelecimento, reparação e conservação de linhas gerais permanentes”, pelo que a sua instrução não exigiria mais de quatro semanas.

Ainda no que respeita ao grau de instrução, seguem-se os sinaleiros de artilharia e os sinaleiros de infantaria, havendo alguma semelhança, mas também pequenas diferenças.

No que respeita aos sinaleiros de artilharia, “o seu número foi consideravelmente elevado de 5 a 15 por bataria”, sendo que o “sistema homográfico foi substituído pelo alfabeto Morse”. Por seu lado, o material telefónico foi “substituído por material inglês por o antigo não servir, era americano, e os telefones para linha simples eram só de 4 direções”.

Mas como a “maioria dos sinaleiros são quase analfabetos”, a sua instrução “deve ser demorada, pois é toda feita de novo”, tornando-se “também necessário o ensino da profissão de guarda-fio de que nada ainda até hoje lhes foi ensinado”.

Quanto aos sinaleiros de infantaria e “devido à grande maioria de praças analfabetas nesta arma, teve que lançar-se mão de soldados telegrafistas de Praça, de engenharia, para pelo menos ter 2 soldados por companhia e batalhão capazes de fazer uso do Fullerfone”. Por esta razão “a instrução destas praças deverá ser rápida e fácil”, mas “a dos restantes sinaleiros da infantaria será morosa e difícil, não sendo talvez suficiente 6 semanas”.

Conclusões e propostas

Para terminar o seu relatório ao coronel H. Moore, responsável pelo Signal Corps do 1º Exército Britânico, Soares Branco apresenta as suas conclusões e propostas:

“1. Aumentar a dotação de material das Secções de Telegrafistas de Campanha e de Praça até que os seus números igualem os da Companhia de Sinais duma Divisão Inglesa para o que se fez a devida requisição.

2. Dotar as unidades de infantaria e artilharia de material idêntico ao do Exército Inglês para o que se fez a respetiva requisição.

3. Estabelecer uma Escola de Sinaleiros em Quiestede para a Engenharia e Infantaria e uma outra Escola para a Artilharia em Therouanne, para o que já se recebeu algum material, mas para o que ainda restaria pedir às unidades logo que estas o recebam”.

Instrução na Escola de Marthes/Mametz/Thérouanne 23JUN17

Em conclusão

Analisando de forma sucinta o relatório de Soares Branco, feito pouco mais de um mês depois da sua chegada a França e após a sua rápida visita a várias unidades inglesas da frente, pode concluir-se que ele tinha a perfeita noção das suas responsabilidades e conhecia as condicionantes das tarefas que lhe competiam, para bem cumprir a missão das transmissões na frente que seria entregue ao Corpo Português.

Já sabia que o CEP se iria organizar num Corpo de Exército a duas Divisões, que as suas unidades seriam organizadas à semelhança das unidades inglesas e que também o dispositivo das forças e a sua estrutura interna não poderia ser muito diferente da das unidades que visitara no terreno. Era de facto, uma conclusão lógica.

Mas Soares Branco tinha também o conhecimento suficiente sobre o pessoal e o material de que dispunha para organizar o seu Serviço, pelo que tomara já algumas iniciativas, como a requisição dos materiais em falta e a proposta da constituição de duas escolas de formação, onde o elo mais fraco da sua cadeia de tarefas – os sinaleiros – pudesse receber a instrução necessária à sua completa formação.

A análise do seu relatório final, onde se inclui este apêndice, e que iremos continuar, dar-nos-á uma ideia mais precisa da forma como o capitão de Engenharia Soares Branco, como responsável máximo do Serviço Telegráfico do CEP, desempenhou a sua missão.

 

As TRANSMISSÕES na GRANDE GUERRA – Relatório de Soares Branco (3)

Post do Cor Aniceto Afonso, recebido por msg:

  1. AS COMUNICAÇÕES DA ARTILHARIA

O papel da Artilharia

Na frente ocidental, a guerra de movimento foi posta em causa logo nos primeiros confrontos, em especial pela eficácia da metralhadora e da artilharia. As tentativas de ultrapassar o impasse ligado à supremacia do fogo que levou à construção de um intrincado sistema de trincheiras, não conduziram a resultados concludentes. De facto, nem os gases, nem a concentração de forças no ataque em frentes estreitas, nem as primeiras experiências com viaturas blindadas, resolveram o problema da guerra estática. Mas acabaram por ficar na memória da guerra, as longas preparações e contra-preparações, barragens e flagelações, em que eram consumidos milhões de granadas de todos os calibres pelos mais variados modelos de bocas-de-fogo da artilharia.

Embora a artilharia fosse usada desde há longo tempo, a verdade é que as condições proporcionadas pela forma como se desenrolaram as operações na frente ocidental favoreceu o seu papel, podendo dizer-se que se constituiu numa guerra feita à sua medida. A modificação mais marcante foi a ênfase dado aos obuses, de tiro mais curvo, em detrimento das peças, de tiro mais tenso, já que estas não permitiam bater eficazmente as trincheiras.

Houve inovações não só nas armas propriamente ditas, nas munições e nas cargas propulsoras, mas também na condução do tiro, no sentido da sua eficácia progressiva. Outras inovações vieram também contribuir para o emprego da artilharia, como o telefone, a TSF, o balão cativo e o avião, permitindo a observação e aperfeiçoamento do tiro, assim como a transmissão das respetivas informações entre a observação da frente de combate e as posições dos meios de lançamento.

Balão de observação

A impressionante quantidade de munições, assim como a sua variedade, criou muitos problemas logísticos de fabrico, reabastecimento e transporte, que todos os contendores foram solucionando, com recurso a todos os meios disponíveis. Exemplo desta situação foi a chamada das mulheres às fábricas de munições de artilharia, produzidas aos milhões por qualquer dos lados.

Relativamente à artilharia do CEP, toda a organização foi modificada em França, acabando constituída por seis Grupos de Baterias de Artilharia (GBA) tendo cada um três Baterias de peças 75 mm e uma Bateria de Obuses de 114 mm. Foram também constituídos seis baterias de morteiros médios de 152 mm e duas baterias de morteiros pesados de 236 mm. Quando se constituiu o Corpo de Exército, em Novembro de 1917, os 1º, 4º e 5º GBA foram integrados na 1ª Divisão e os 2º, 3º e 6º na 2ª Divisão.

Desembarque de artilharia portuguesa em Brest (Biblioteca Nacional de França)

No início de 1918 foi ainda constituído um Corpo de Artilharia Pesada (CAP), com dois Grupos de três baterias cada, o 1º em janeiro e o 2º em março de 1918.

Posição de Artilharia (Liga Combatentes)

Finalmente, Portugal constituiu também um Corpo de Artilharia Pesada Independente (CAPI), com três Baterias, que ainda atuou em França e que era constituído por um efetivo de 1328 homens, 70 dos quais oficiais.

As ligações da Artilharia

Soares Branco, quando fez a primeira visita às unidades britânicas no terreno, tinha a ideia da organização da artilharia utilizada nas manobras de Tancos. Constatou que tudo era diferente e que a artilharia portuguesa seria organizada de outra maneira para se integrar no comando inglês. Esteve por isso atento à forma como as unidades de artilharia se articulavam com as unidades apoiadas e qual era o papel das comunicações e quais as suas necessidades.

Verificou assim que ao nível da artilharia do Corpo de Exército, todas as ligações eram feitas por um telégrafo acústico para o QG do Corpo e por “dois indicadores telefónicos magnéticos de dez direções para comunicar com os Comandos do Corpo de Exército, com os Comandos de Artilharia das Divisões, com os Comandos Divisionários laterais da Artilharia, chefe do Estado-Maior do Corpo, Depósito de Munições, elementos de observação, etc.”. Havia também um quadro de entrada de linhas e um quadro de ensaio de linhas.

Soares Branco constatou também que junto da artilharia do Corpo deveria sempre “haver guarda-fios e material para reparação das linhas, sendo estas de ordinário sempre aéreas”. Para além disso, o pessoal deveria “ser fornecido pelas unidades telegrafistas do Corpo, sob a direção de um oficial telegrafista”.

Por seu lado, tanto na Divisão, como na Artilharia pesada, as ligações eram muito semelhantes às do Corpo, sendo dispensável o telégrafo acústico.

Grupo de Sinaleiros do CAP

Já no comando de um Grupo de Artilharia, o material existente constava de um “indicador telefónico magnético de dez linhas para as comunicações com o Comando da Divisão, os Grupos laterais, a Brigada e o Comando da Artilharia Divisionária”. Havia também “vários telefones para um ou dois indicadores telefónicos acústicos, que faziam a ligação com as baterias do Grupo, e os postos centrais dos postos de observação ou mesmo diretamente com aqueles postos de observação”. Na artilharia, “não se empregava nunca o fullerfone”.

Obus 114mm

Ao nível do Grupo havia ainda “estações recetoras de TSF a cargo da Royal Corps Flying para as ligações com os aeroplanos, tendo três telegrafistas de serviço aos aparelhos”.

Dada a relativa complexidade destas comunicações, constatava Soares Branco que, ao nível do Grupo se tornava necessário um oficial telegrafista.

Quanto ao posto de uma Bateria, existia um comutador de sete direções telefónico acústico e vários telefones. Embora as comunicações das baterias “com os batalhões ou unidades a que estão adstritas” se fizessem por intermédio da estação do Grupo”, isso “não era para recomendar”.

Abrigo de uma peça 75mm (coleção Garcês, AHM)

Soares Branco constatou ainda que “normalmente à frente das Baterias e à retaguarda dos postos de observação havia um Posto Central de Postos de Observação, aonde iam ter todas as linhas destes, e por onde passavam as linhas das baterias e dos Grupos”. E que “como nova precaução contra o frequente corte das comunicações, e em regiões onde o bombardeamento era usual, um novo posto como o acima indicado, mas mais avançado, era estabelecido junto dalgum dos postos de observação das baterias”.

Em suma, Soares Branco, visitando as unidades de artilharia da frente inglesa, acabou por reunir um conjunto precioso de informações que em muito vieram a contribuir para o desempenho da sua missão de responsável pelo Serviço Telegráfico do CEP. Contribuíram também para a sua compreensão da dependência que a artilharia ia criando em relações às comunicações, tanto para as unidades apoiadas como para a observação e condução do tiro.

Depois desta apreciação de Soares Branco sobre a Artilharia, o seu relatório contém um primeiro apêndice, que respeita ao memorando que ficou de apresentar ao responsável do Signal Corps do 1º Exército inglês, e que abordaremos no próximo texto.

A voz e os ouvidos do MFA

Na próxima terça-feira, dia 25 de Abril, pelas 21:00, a RTP irá apresentar um filme-documentário realizado por António Pedro de Vasconcelos sobre a participação das Tm no 25A, em particular o lançamento de um cabo, de forma clandestina, que permitiu ligações telefónicas com o comando do MFA no Regimento de Engenharia da Pontinha e que se constituiu como a primeira operação militar do 25A, já descrita e referida neste blogue (ver aqui).

Trailer:

Em tempo:
Se não teve oportunidade de assistir ao programa, pode vê-lo clicando aqui.

As TRANSMISSÕES na GRANDE GUERRA – Relatório de Soares Branco (2)

Post do Cor Aniceto Afonso, recebido por msg:

  1. A PRIMEIRA VISITA DE SOARES BRANCO ÀS UNIDADES INGLESAS

Como já sabemos, o relatório do capitão de Engenharia Soares Branco, chefe do Serviço Telegráfico do Corpo, é um documento fundamental para se compreender como funcionou este Serviço na frente de batalha, durante o período em que o CEP se manteve em França.

Já falámos das visitas que Soares Branco efetuou às unidades inglesas de diferentes escalões, logo após a sua chegada a França, a partir do final do mês de janeiro de 1917. No primeiro texto demos uma ideia geral destas visitas, nas suas grandes linhas. Mas o relatório é minucioso em relação aos aspetos mais interessantes relacionados com o funcionamento do serviço telegráfico nas unidades inglesas.

Vejamos então algumas das observações que Soares Branco considerou relevantes e que incluiu no seu relatório.

Durante a visita que efetuou ao QG do XI Corpo da Força Expedicionária Britânica, iniciada em 2 de fevereiro de 1917, são de destacar os apontamentos sobre pessoal e material e também sobre o funcionamento do Serviço Telegráfico (Signal Service). Na estação telegráfica do Corpo estavam presentes cerca de 30 elementos, com as suas especialidades e funções, que guarneciam oito aparelhos telegráficos e também o sistema telefónico, com dois indicadores, um de 40 e outro de dez direções. Na estação entravam cerca de 200 linhas, entre telegráficas e telefónicas, que eram quase todas aéreas até aos quartéis-generais das Divisões e das Brigadas.

Montagem de linhas aéreas com postes duplos

Soares Branco constatou que, para além da estação telegráfica, havia junto do Corpo, para se efetuar o serviço de comunicações, secções de cabo correspondentes às respetivas Divisões, no caso três secções. Cada uma tinha 36 elementos e fazia uso de oito carros de lançamento de cabo. Não deixa de ser interessante que Soares Branco refira a existência de 40 milhas de cabo, mas que este material “aguardava a guerra de movimento sendo expressamente proibido fazer uso dele”.

Carro de cabo português

Seguidamente, como sabemos, o capitão Soares Branco dirigiu-se para o QG da V Divisão, reconhecendo aí o respetivo Serviço Telegráfico e a Estação Central da Divisão. As comunicações telegráficas dispunham de quatro aparelhos em funcionamento e as comunicações telefónicas eram asseguradas por dois indicadores de 10 linhas, ligando às repartições do QG, ao Corpo, às Brigadas, às Divisões laterais, Comando de Engenharia, Serviço de Saúde, etc.

10 Line Field UC/MK 236 Switchboard

Um sargento, dois cabos e 13 soldados asseguravam o serviço da Estação.

No seu conjunto, o pessoal telegrafista da Divisão dividia-se em estado-maior e quatro secções. O estado-maior era constituído por um oficial, cinco sargentos, um artífice e 45 soldados, estando equipado com um automóvel, 16 motocicletas e 15 bicicletas. Por sua vez, cada secção era constituída por quatro oficiais, dois sargentos, dois artífices e 66 soldados. Cada secção tinha à sua disposição quatro carros de cabo e quatro carros ligeiros, podendo estender 52 milhas de cabo.

Estafetas motociclistas

O quadro abaixo procura dar uma ideia da distribuição do pessoal e do material das comunicações ao nível do Corpo e da Divisão:

Quadro 1, elaborado por Jorge Costa Dias

Soares Branco realça também a importância das informações que recolheu nas visitas a uma Brigada de Infantaria, a um Batalhão, e também à Artilharia, incluindo no seu relatório os números principais e a forma de funcionamento do sistema de comunicações em cada um deles.

Em relação à Brigada, menciona em primeiro lugar a Estação e depois o “Posto de Combate”. Na Estação encontrou em funcionamento um telégrafo acústico para a Divisão, dois indicadores acústicos de sete direções para os Batalhões, assim como um fullerfone com a mesma finalidade. Existia também um indicador telefónico acústico de dez linhas para as ligações internas e para os Grupos de Artilharia.

Quanto ao pessoal, serviam na Estação dois sargentos e nove praças, com as suas especialidades. O total do pessoal da Brigada ligado às transmissões era de 1 oficial, 2 sargentos e 24 soldados, que tinham para o seu serviço 18 bicicletas e quatro cavalos.

Relativamente ao “Posto de Combate” da Brigada, o melhor seria fazê-lo coincidir com a central telefónica do Grupo de Artilharia adstrito à Brigada, embora nem sempre isso fosse possível. De qualquer modo, deveriam funcionar aqui três indicadores telefónicos acústicos de sete direções para a Artilharia e um ou dois para os Batalhões, complementados com um fullerfone para os Batalhões.

Fullerphone Trench S: Usado nas trincheiras nas ligações para as Companhias e os Batalhões. © IWM (COM 176)

Soares Branco tira algumas conclusões, assim sistematizando os conhecimentos proporcionados pela sua visita. Em primeiro lugar, no caso de o posto da Brigada coincidir com o posto do Grupo, o comando daquela podia corresponder-se com os seus Batalhões, as Brigadas laterais e a Divisão; e o comandante do Grupo podia comunicar com qualquer Bateria, Batalhão ou posto de observação. Se fosse necessário instalar dois postos distintos, deveriam prever-se ligações entre os dois postos, não esquecendo que “o telefone da artilharia deve sempre permitir a transmissão de voz”. Também seria de prever um sistema de sinais óticos para comunicar com os batalhões, embora sem a comunicação recíproca.

Por sua vez, o posto telefónico de um Batalhão devia ter dois indicadores acústicos de sete direções, um fullerfone e um telefone, sendo este utilizado para as baterias e o fullerfone para as companhias.

Telephone Set D Mark III

Em qualquer caso, a duração dos serviços era sempre de 24 horas.

As ligações da Artilharia merecem um capítulo separado no relatório de Soares Branco, pelo que as abordaremos em outro texto.

O quadro seguinte é um resumo das observações feitas por Soares Branco, em relação à Brigada, ao Batalhão e também à Artilharia.

Quadro 2, elaborado por Jorge Costa Dias

As TRANSMISSÕES na GRANDE GUERRA – Relatório de Soares Branco (1)

Post do Cor Aniceto Afonso, recebido por msg:

  1. O SERVIÇO TELEGRÁFICO E O INÍCIO DA SUA ATIVIDADE EM FRANÇA

O capitão de Engenharia Carlos Soares Branco foi indicado, em novembro de 1915, para o cargo de chefe do Serviço Telegráfico da Divisão de Instrução que iria preparar-se em Tancos com vista à sua ida para França. Essa escolha foi feita pelo coronel Roberto da Cunha Baptista, chefe do Estado-Maior da Divisão.

O seu desempenho nas manobras revelou um oficial de grande qualidade, com o desejo de afirmar um serviço que procurava um papel de relevo na manobra militar, proporcional ao enorme desenvolvimento técnico que as comunicações vinham conhecendo.

De facto, o apoio das comunicações à manobra militar, nas circunstâncias das frentes de combate da guerra europeia, vinha-se tornando cada vez mais importante.

Foi portanto natural a nomeação do capitão Soares Branco para responsável máximo do Serviço Telegráfico do Corpo Expedicionário Português (CEP), ainda a convite do coronel Roberto da Cunha Baptista, também nomeado chefe do Estado-Maior da 1ª Divisão.

Logo que se programaram os transportes marítimos da força expedicionária portuguesa para França, iniciados em finais de Janeiro de 1917, Soares Branco e uma pequena equipa do seu serviço avançou por terra, atravessando Espanha de comboio, como se tornou habitual, e já estava em França quando os embarques se iniciaram em Lisboa.

Responsável pelo Serviço Telegráfico desde a sua organização com a entrada em linha das primeiras unidades portuguesas até ao completo desempenho do cargo entre 5 de novembro de 1917 e 6 de abril de 1918, tempo em que o Corpo de Exército Português ocupou a linha da frente como grande unidade, Soares Branco redigiu entre junho e julho de 1918 um excelente relatório sobre o Serviço Telegráfico, notável documento que muito esclarece sobre as comunicações no CEP, mas também sobre outras diversas circunstâncias da participação do CEP na frente.

As suas primeiras palavras situam-nos no dia em que Soares Branco iniciou os contactos com os responsáveis e as unidades britânicas presentes na zona de provável ação da força portuguesa, no vale do Lys, na Flandres francesa.

Começa assim o autor do relatório: “Presente na zona de guerra a 27 de janeiro de 1917, foi-me apresentado o oficial de engenharia do Exército Britânico Lte. Brander, o qual havia sido nomeado pelo 1º Exército como oficial de ligação e intérprete junto do Serviço Telegráfico do CEP e como tal havia sido agregado à Missão Britânica”. Completam-se portanto cem anos desde que Soares Branco iniciou os seus contactos com as unidades britânicas e os respetivos serviços telegráficos!

Àrea de responsabilidade do 1º Exército Britânico (AHM)

Area de responsabilidade do 1º Exército Britânico (AHM)

A partir daqui o chefe do Serviço Telegráfico do CEP vai contactar várias unidades britânicas de diferentes níveis, desde o QG do 1º Exército até um Batalhão de Infantaria e as baterias de artilharia, procurando inteirar-se da forma como o serviço telegráfico estava organizado, quais as suas funções, os materiais usados, a distribuição do pessoal, as formas de transmissão, os circuitos da correspondência, as ligações estabelecidas, o funcionamento das centrais, a utilização dos vários especialistas, desde os telegrafistas aos sinaleiros, etc.

Nesses dias de contacto com a realidade das unidades inglesas, Soares Branco tomou boa nota de tudo quanto lhe foi dado observar, desde as grandes linhas organizativas até aos muitos pormenores que poderiam fazer com que o serviço desse resposta pronta às solicitações das unidades que servia.

Foi o seguinte o seu percurso, devidamente referido no seu relatório e que merece mais aprofundada análise:

– QG do 1º Exército Britânico. Apresentou-se aqui ao chefe do Serviço Telegráfico, coronel de engenharia H. Moore, tendo-se comprometido a apresentar um relatório sobre “o que de mais urgente se me afigurasse propor e solicitar” e visitando a sua estação central instalada em Lillers.

Estação "telegráfica" de um QG de Exército (The signal service in european war of 1914 to 1918)

Estação “telegráfica” de um QG de Exército (The signal service in european war of 1914 to 1918)

– QG do XI Corpo, “estabelecido nas proximidades de Hingues”. Aqui reconheceu a estação telegráfica, o pessoal presente, os aparelhos telegráficos e telefónicos instalados, assim como as suas características. Anotou também como se processava o serviço de mensagens e como estava montada a assistência à estação. Resume assim as suas impressões: “Entravam na estação cerca de 200 linhas telegráficas e telefónicas, quase todas aéreas, pelo menos até aos Quartéis-Generais das Divisões e das Brigadas”.

Mensageiro motociclista

Mensageiro motociclista (dia de Natal 1917)

– QG da V Divisão Britânica, constando de um Serviço Telegráfico e de uma Estação Central da Divisão. No seu relatório, Soares Branco anota com todo o pormenor, a rede de comunicações, os aparelhos em uso, as ligações estabelecidas, o pessoal de serviço, o material de transporte em apoio do serviço de mensagens, a orgânica do Serviço Telegráfico ao nível da Divisão.

Distribuição de pombos-correio

Distribuição de pombos-correio

– Brigada de Infantaria, com o seu serviço telegráfico e o seu “Posto de Combate”. Também a este nível Soares Branco fez as mesmas anotações, constatando que “umas vezes o Posto de Comando coincide com a central telefónica do Comando dum Grupo de Artilharia adstrito à Brigada, outras vezes, porém, tal não é possível”, o que implicava alterações significativas na organização das comunicações.

– Posto telefónico dum Batalhão de Infantaria, assim como o seu posto de combate, situado geralmente junto do comando de uma companhia, onde merecem especial atenção as ligações à unidade de artilharia.

Aliás, as ligações da artilharia merecem um capítulo especial nesta primeira ronda pelas unidades inglesas feita por Soares Branco, que desde logo se apercebeu da importância que lhes devia ser atribuída.

Neste domínio, o relatório refere as ligações da artilharia no Corpo de Exército, na Divisão e na Artilharia Pesada, no Comando do Grupo de Artilharia e ao nível da bateria.

A situação, ao nível das baterias, resume-a Soares Branco de seguinte forma: “As comunicações com os batalhões ou unidades a que estão adstritas faziam-se por intermédio da estação do Grupo, o que não era para recomendar.

“Normalmente à frente das Baterias e à retaguarda dos postos de observação havia um Posto Central de Postos de Observação, aonde iam ter todas as linhas destes, e por onde passavam as linhas das baterias e dos Grupos.

Sinais visuais

Sinais visuais com a lanterna Lucas

“Ainda como nova precaução contra o frequente corte das comunicações, e em regiões onde o bombardeamento era usual, um novo posto como o acima indicado, mas mais avançado, era estabelecido junto dalgum dos postos de observação das baterias”.

Sinaleiros em ação

Sinaleiros em ação com quadro de persianas

Finalmente, sob o título de “notas várias”, Soares Branco elenca um conjunto de observações importantes para a organização do serviço telegráfico de que seria responsável no terreno, em breve.

Estas “notas várias” traduzem o sentido prático deste autêntico estágio que Soares Branco efetuou nas unidades inglesas a partir de finais de janeiro de 1917, na sua zona de ação futura. Merecem ser transcritas na totalidade:

“Entre os Quartéis-Generais das Brigadas e os dos Batalhões, e em geral perto do local onde as linhas passavam de aéreas a ser subterrâneas, havia, por vezes, estações de verificação das linhas com pessoal guarda-fios, que desta forma, em abrigos, aguarda ser empregado.

Verificação da linhas

Verificação e teste das linhas

“De centenas em centenas de metros, 500 a 800, existiam caixas de ligação em abrigos com sacos de terra que permitiam a verificação dos troços onde o bombardeamento fazia interrupções.

“As linhas aéreas com cabo isolado estavam suspensas de postes duplos de cerca de seis metros de altura com travessas.

Transporte de postes

Transporte de postes

“Por vezes havia também, e em locais muito expostos ao bombardeamento, linhas enterradas em geral em trincheiras próprias a 1,8 m da superfície com cabo de isolamento apropriado.

“As linhas dos batalhões e das companhias para os postos de combate seguiam os ramais de comunicação, sobre o revestimento lateral, ao qual eram fixados por grampos próprios, ou de corda alcatroada.

“As linhas que não seguiam pelos ramais eram seguras às árvores, a casas arruinadas, etc., para o que se fez largo emprego de grampos”.

Lançamento de linhas

Lançamento de linhas

Com estas notas termina o capítulo I do relatório. O capítulo II será dedicado não apenas ao memorando que Soares Branco ficara de apresentar ao 1º Exército Inglês, mas também à Escola de Sinaleiros, aos materiais novos de transmissão, desconhecidos em Portugal e usados nas trincheiras, e às alterações orgânicas necessárias no Serviço para bem responder às crescentes necessidades das unidades combatentes e de apoio logístico, cujas comunicações estariam a cargo do Serviço Telegráfico do Corpo e suas unidades.

São assuntos para abordar noutros textos.

 

Grande Guerra – CEP – Companhia de Telegrafistas do Corpo

 

 

CEP – Carta de comando do Comandante da Companhia de Telegrafistas do Corpo

O capitão de Engenharia Soares Branco foi o responsável pelo Serviço Telegráfico nas manobras de Tancos da Divisão de Instrução. Quando se constituiu o Corpo Expedicionário Português (CEP), ele foi naturalmente nomeado comandante do Serviço Telegráfico do Corpo e enviado para França. Seguiu por caminho de ferro, atravessando Espanha como muitos outros oficiais portugueses e chegou à zona de guerra em finais de Janeiro de 1917, apresentando-se no QG do 1º Exército Britânico.

 
A partir daí, Soares Branco dedicou-se à criação de condições para que as unidades e os efetivos relacionados com os serviços telegráficos pudessem bem cumprir as suas missões. Estagiou em unidades inglesas, elaborou relatórios, requisitou materiais, reconheceu as áreas de provável ocupação pelas unidades portuguesas, elaborou normas e regulamentos, previu a constituição de uma escola de sinaleiros, fez propostas para a organização, instrução e atribuição das unidades e dos meios de transmissões e definiu finalmente a estrutura do seu serviço e as missões e tarefas inerentes ao apoio telegráfico e de comunicações.

 
Todos os procedimentos foram sendo aperfeiçoados até às vésperas da entrada em setor do Comando do Corpo, ocorrida em 5 de Novembro de 1917. Dias antes, com data de 31 de Outubro, Soares Branco enviou as últimas propostas ao QG do Corpo, fixando a organização do Serviço Telegráfico (nota nº 924).

 
Para apoio do Comando do Corpo existia a Companhia de Telegrafistas do Corpo, constituída por uma Secção de Telegrafistas de Campanha e por uma Secção de Telegrafistas de Praça, às quais se juntava agora uma nova Secção Automóvel Por Fio (SAPF), que também era designada por Secção Automóvel de Ligação por Fio (SALF), que Soares Branco entendia necessário constituir, e a quem competia assegurar todas as ligações do QG do Corpo aos QG das Divisões e à Artilharia Pesada, conseguindo-se “desta forma economia de oficiais encarregados de funções administrativas e maior unidade de comando” (Relatório do Serviço Telegráfico, de Soares Branco, AHM/01/35/148).

 
Foi nomeado comandante da Companhia de Telegrafistas do Corpo o tenente de Engenharia João Alegria dos Santos, deixando a Escola de Sinaleiros, da qual era diretor. Logo em 13 de Novembro, o capitão Soares Branco dirige-lhe uma nota (nº 1028), indicando-lhe os métodos de trabalho técnico que julga preferíveis para as situações de “guerra de trincheiras”, “guerra de movimento” e “instrução”, constituindo este documento um esboço de carta de comando, que viria depois a ser aperfeiçoada de acordo com a experiência recolhida após a entrada em linha.

 
É o seguinte o texto da nota em questão:

“Ao Sr. Comandante da C. T. C.

Pela primeira vez que me dirijo a V. Ex. oficialmente, começo por lhe assegurar a certeza em que estou de que V. Ex. no exercício do comando que lhe foi agora confiado continuará demonstrando o muito zelo e inexcedível dedicação com que dirigiu a Escola de Sinaleiros.

Seguidamente passarei a indicar-lhe, duma maneira geral, qual o método de trabalho técnico que julgo preferível V. Ex. fazer executar, não me referindo a algumas questões de ordem administrativa que, fazendo-se sentir devido às distâncias que separam os comandos e as tropas, desaparecerão com o novo estado de coisas.

Guerra de trincheiras.

I. De entre os oficiais que compõem a Companhia, 1 deles, o comandante da S. de T. de Campanha Sr. Ten. eng. João Pedro Saldanha, ficará tendo a seu cargo as linhas desde a estação do Corpo às Divisões, e quaisquer outras que venham a ser entregues ao Corpo.
Elaborará juntamente com o oficial adjunto deste serviço os esquemas e plantas de traçado das linhas que for necessário enviar ao 1º Exército, e preparará a entrega das comunicações do Corpo a outra qualquer grande unidade. O serviço será montado com os elementos da S.T.P. Fios, e com as rondas dos guarda-fios que forem julgadas convenientes. Nesse serviço poderão ser coadjuvados pelo pessoal de T. P. (telegrafistas de praça) se assim for tido por necessário.
Haverá um graduado especializado por cada traçado principal de linhas o qual será nomeado chefe de guarda-fios do traçado. Um Sargento devidamente habilitado desempenhará o serviço de Chefe de guarda-fios.
Dever-se-á propor talvez de postos permanentes de guarda-fios para a ronda diária que as linhas devem sempre sofrer.
Cada manhã, depois do ensaio prévio das linhas da estação central será participado telefonicamente à S.T.C. quais as linhas que devem ser especialmente ensaiadas e vistoriadas.
Independentemente desse aviso, e segundo um horário a fixar, praças percorrerão os traçados para vigiar o inspecionar as linhas.
Os ensaios, porém, só serão feitos depois do aviso da central, sendo fixados os limites onde em cada traçado começam as praças o serviço e onde o acabam.
Se houver grandes reparações a efetuar ou construção de novas linhas, será solicitado o auxílio da Secção S.A.L.F. que se encarregará então do serviço que o Comando lhe prescrever segundo as instruções de este S.T.
O pessoal telegrafista e telefonista da S.T.C. coadjuva o da 1ª Secção da Companhia, sempre que tal foi pedido.

II. Competirá a um oficial da Companhia, o Sr. alf. eng. Marcial Freitas e Costa, a fiscalização e responsabilidade de tudo o quo disser respeito ao serviço na estação Central do Corpo – telefone, telégrafo e correspondência.
Para coadjuvar o serviço haverá diariamente o 1º sargento Vigoco na correspondência com 2 praças, um sargento de dia à estação – telegrafo e telefone – com 3 telegrafistas, 2 telefonistas, 2 guarda-fios, 1 motociclista, e 3 ordenanças sendo destas 2 ciclistas.
O Snr. alf. eng. Casquilho da S.T.C. será também, conveniente que tome conhecimento deste serviço, pois torna-se indispensável que haja sempre dois oficiais especializados em cada uma das secções da Companhia.
Às 3 horas o sargento de dia verificará todas as linhas que deem entrada na estação. Regista as indicações do ensaio, tendo para esse fim um livro riscado segundo o impresso regulamentar.
Seguidamente, às 11 horas, e na presença do oficial, serão experimentados todos os telefones, será distribuído o serviço aos guarda-fios da estação, pedido serviço aos guarda-fios da S.T.C., solicitados os trabalhos da S.A.L.F. ou ao Comandante da Companhia se se julga necessário.
É da estação central do Corpo que por intermédio da estação de Roquetoire se farão as explorações em toda a área do C.E.P., e para a frente para as estações centrais de cada uma das Divisões.

III. Competirá ao Oficial comandante da 2ª Secção – S.A.L.F.- o Sr. alf. eng. João D´Korth, não só a elaboração de acordo com o Comandante da S.T.C. de todo os projetos de traçados novos a construir, mas também a efetivação de grandes reparações que não possam ser realizadas pelo pessoal da S.T.C. Como comandante da 4ª Secção – S. E. Motociclistas – compete-lhe o serviço de correspondência segundo o horário pelo S.T. formulado, e fazer apresentar para serviço as praças que pela estação telegráfica, mediante autorização superior, sejam pedidas para serviço extraordinário.
No serviço de construção das linhas e instrução do pessoal deve também ser especializado o Snr. alf. Medeiros Tanger da S.T.C.

Guerra de movimento.

Competirá à S.T.C. a construção de todas as linhas de cabo desde o Q.G. das Divisões aos centros de comunicação fim das linhas de fio, para o que utilizará as 3 esquadras de cabo da Companhia.
Competirá à S.A.L.F. a construção de todas as linhas de fio desses centros de comunicação até ao Q.G. do Corpo, ligações laterais e ligações às linhas do Exército, para o que se servirá não só do material da sua Secção, como do material das esquadras de fio de campanha que lhe forem afetas.
Competirá ao C. da 1ª Secção da Companhia a responsabilidades do serviço na estação do Corpo.
Aos 2 subalternos da 3ª Secção e ao oficial de engenharia subalterno da Escola de Sinaleiros competirá o comando de cada uma das 3 esquadras de cabo e esquadra de fio para as quais existe o pessoal da mobilização na 3ª Secção.
Competirá ao oficial Comandante da 3ª Secção a responsabilidade das comunicações desde o Q.G. Avançado até às Divisões.
Competirá ao Comandante da C.T.C. e à S.A.L.F. e esquadra de fio de campanha adstrita a montagem e construção de todas as linhas desde a Estação central do Corpo à estação avançada e sua reparação.
Ao Chefe do Serviço Telegráfico competirá a direção imediata de todas as comunicações estabelecidas.

Instrução.

Conhecido o número de praças de serviço diário, proporá V. Ex. o horário etc. da instrução a dar às praças que estiverem de descanso.

                                                                                                                                                C. Soares Branco
Capt.                                                                                                                                                                           C. S. T. do C. E. P.”

(Ver o original em AHM/01/35/550/5)

Grande Guerra – As Comunicações de um batalhão na linha da frente


Em 10 de Setembro de 1917, o alferes José Augusto do Carmo, chefe da Secção de Sinaleiros do Batalhão de Infantaria 1 pertencente à 6ª Brigada, apresentou um relatório sobre o funcionamento das comunicações ao nível de batalhão nas primeiras linhas. Nesta data, o Comando do CEP ainda não exercia a responsabilidade do Sector Português, estando as unidades portuguesas sob o comando operacional do XI Corpo de Exército britânico comandado pelo general Hacking. A 1ª Divisão exercia essa responsabilidade desde o dia 10 de Julho e o Corpo Português assumirá esse comando no dia 5 de Novembro de 1917, ficando subordinado ao I Exército Britânico, sob o comando do general Horne.
As brigadas pertencentes à 2ª Divisão foram assumindo a responsabilidade das suas zonas de ação, até se concluir o período de sobreposição necessário ao avanço do comando, o que veio a acontecer no dia 26 de Novembro.
Cada divisão ficou constituída por três brigadas, cada brigada por quatro batalhões e cada batalhão por quatro companhias.
Em relação às comunicações, e segundo as informações do alferes Carmo, existiam, na área do batalhão, duas redes de comunicações por fio. Havia a rede de alarme SOS ou “omnibus” só para pedidos SOS, que ligava entre si todas as estações e os postos SOS do batalhão (postos mais avançados de observação, responsáveis por emitir alarmes),os quais se serviam do telefone. Os telefones funcionavam em paralelo e eram operados por sinaleiros.
A rede normal ligava o batalhão às suas companhias, aos postos avançados, às estações dos batalhões adjacentes, às unidades de artilharia de apoio e ao comando da sua brigada. O equipamento desta rede era constituído por dois indicadores 413 e fullerfones. Os fullerfones estavam ligados às centrais 413 e eram operados pelas praças da Companhia de Transmissões de Praça.
O pessoal que operava as comunicações no batalhão era constituído por soldados da Companhia de Telegrafistas de Praça, guarda-fios e sinaleiros. Cada batalhão tinha cinco soldados da Companhia de Telegrafistas, estando um no Batalhão e um em cada companhia; os guarda-fios eram três e estavam todos no Batalhão. Os sinaleiros eram dois por companhia (oito no total), estando um destacado no posto SOS da companhia quando esta estava na frente. De uma forma geral, o dispositivo do Batalhão na frente contava com duas companhia em primeira linha, uma em apoio e outra em reserva, embora os trabalhos fossem ininterruptos. As rotações faziam-se quase sempre com intervalos de seis dias.

O relatório atrás referido do alferes Carmo está estruturado da seguinte forma:
– Comunicações telefónicas estabelecidas
– Aparelhos empregados nas estações e postos
– Forma como o pessoal foi distribuído
– Como desempenharam a sua missão
– Como é pedido o auxílio da artilharia pela infantaria
– Como está montado o serviço de correspondência
– Informações diversas
O relatório, muito sintético e objetivo, dá uma ideia muito aproximada do funcionamento das comunicações ao nível do batalhão, apresentando as principais tarefas e dificuldades enfrentadas pela Secção de Sinaleiros. Publica-se integralmente.

CEP, 2ª Divisão, 6ª Brigada, 1º Batalhão
Secção de Sinaleiros de Infantaria nº 1
Relatório

Comunicações telefónicas estabelecidas.
Existiam no Batalhão em que fiz serviço duas redes de comunicações, uma, a omnibus ou de SOS, que ligava entre si todas as estações e postos os quais se serviam do telefone; outra, a normal, que permitia comunicações pelo fullerfone entre as estações do Batalhão e as que se lhe ligavam da retaguarda.
Junto a este relatório vão os respetivos esquemas.
Pelo primeiro destes sistemas, só é permitido falar-se quando em caso de SOS e mesmo assim limita-se o despacho a SOS e indicação do setor que o pediu. Pelo outro são enviados os outros despachos, mesmo de carácter D.D.
Aparelhos empregados nas estações e postos.
Na central do Batalhão bem como nas estações das Companhias existiam fullerfones. Em virtude do número de ligações no Batalhão existiam 2 indicadores 413, 2 fullerfones e 2 telefones, um para o SOS e outro para a verificação das linhas.
Cada estação está munida de um telefone ligado à linha do SOS e existem no sector de cada Companhia da frente e na 1ª linha um posto munido de um telefone e que é chamado posto de SOS, visto que é dali que parte em caso de perigo essa indicação, que é ouvida no Batalhão e em todas as companhias.
Os fullerfones que vi empregar eram os I e os telefones, franceses.
Forma como o pessoal foi distribuído.
Coloquei em cada Companhia um soldado da CTP e 2 sinaleiros. No Batalhão, um soldado da CTP e 3 praças como guarda-fios.
O sargento fazia serviço na central do Batalhão, e todos os sinaleiros passaram por todas as situações: companhias da frente, apoio, reserva, postos de SOS e central do Batalhão.
Como guarda-fios guardei os inaptos para sinaleiros. Esses acompanharam sempre o serviço que hão de desempenhar.
Como desempenharam a sua missão.
Se atender ao pouco tempo de instrução que tiveram na Escola (1), ao facto de nem todos terem sido sinaleiros, e ao conhecimento de que não tenham responsabilidade no desempenho do serviço, portaram-se a contento.
No entretanto, é preciso substituir alguns homens, para o que já estou dando instrução a igual número.
Como é pedido o auxílio da artilharia pela infantaria.
Quando é necessário bater um ponto inimigo pela artilharia, o fogo é pedido pelo Batalhão às baterias que o apoiam.
Em caso de SOS, para maior rapidez, e segundo as instruções, é comunicado ao Batalhão telefonicamente o sector que periga e este, por sua vez, comunica às baterias.
Se falta o telefone usam-se os outros meios de comunicação e em último caso foguetões, que bastam só por si para que a artilharia faça fogo sobre a frente inimiga indicada pela direção em que os foguetões foram lançados.
Como está montado o serviço de correspondência.
A central do Batalhão é ao mesmo tempo posto de correspondência. Esta é agrupada ali conforme a proximidade dos seus destinos e enviada pelos ciclistas e estafetas apeados. A correspondência urgente é enviada imediatamente, e é considerada urgente a que se refere a munições, para o que lhe basta a indicação no envelope “Munições”.
Este serviço é fiscalizado nos recibos que o destinatário assina e que registam as horas da entrega e do recebimento, nº da correspondência e destino.
Informações diversas.
Não se utilizam nas trincheiras, nem bandeiras, nem discos.
Não vi tão pouco utilizar as lanternas de sinais. Julgo possível e conveniente o seu emprego em comunicações da frente para a retaguarda para postos que não dariam conferências nem entendidos.
Cada linha tem a sua linha de reserva, que passa por itinerário diferente.
As linhas passam em diversos sítios por caixas de experiências, para mais facilmente se conhecerem as avarias e as reparar.
Em Campanha, 14 de Setembro de 1917
José Augusto do Carmo
Alf. Infª. 1”.

(1) Refere-se à Escola de Sinaleiros, em França, que dava instrução aos sinaleiros, de telefonia acústica (buzzer), telefonia por voz e telegrafia ótica com bandeiras, com quadro venezianos e lâmpadas (lanternas).

 

Rede SOS

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Rede Normal

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Grande Guerra -IV- Divisão de Instrução, manobras de 1916 – 5ª parte

As comunicações na Divisão de Instrução, nas manobras de 1916 

Aniceto Afonso
Jorge Costa Dias

 

5. 2 As comunicações na Divisão de Instrução – Instrução

Foi a instrução nº12 da 1ª Repartição do Quartel General que estabeleceu a instrução a ministrar às secções de Telegrafistas de T.S.F. e de Campanha T.P.F. durante as manobras.

– Secção TSF
A Secção de TSF, durante todo o período dos exercícios, dedicou-se à tarefa de instalar a estação de TSF Marconi (MM1), assim como à prática de recepção pelo ouvido, à prática dos motores TSF e ao estabelecimento de comunicações com Lisboa (MM2) e com o Alfeite (Marinha).

– Secção TPF
A instrução em Tancos para os telegrafistas de campanha abrangeu as comunicações telegráficas e telefônicas, assim como os heliógrafos e as bandeiras.
Vejamos alguns dos materiais que foram usados:

Telefones
Foram usados telefones e a central telefônica Ericson e também os telefones de Cavalaria.

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Heliógrafos
Foi usado na instrução o heliógrafos de Mance.

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Heliógrafos e lanterna de Mangin

E também o heliógrafo e lanterna de Mangin.

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Bandeiras
Também foi ministrada instrução de bandeiras, que podiam utilizar o código Morse ou o alfabeto homográfico.

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Bandeiras e códigos
No código Morse, com apenas uma bandeira, havia três posições – posição normal, posição de ponto e posição de traço.

 

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– Esquadras de construção
A partir de 5 de Junho iniciou-se a instrução programada para as diversas especialidades da Secção de TPF e assim, no período de 5 de Junho a 15 de Julho, as esquadras de construção praticaram:
Construção de linhas permanentes
Construção de linhas de cabo
Construção de linhas de fio

 

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– Serviço Ótico
As esquadras de serviço ótico praticaram a utilização de:
Heliógrafo de Mance na ligação do Alto de D. Luís com o Alto da Conceição e de Mangin na ligação do Alto de D. Luís com o Alto da Barquinha, assim como o uso de bandeiras na ligação Casal do Rei com Cascalheira do Freixo.

Fundo 3-5-4-22-211_m0015

11 ligação por bandeiras

– Tarefas dos telegrafistas
Durante todo o período de manobras, as tarefas dos telegrafistas consistiam em treinar os procedimentos telegráficos, assegurando o funcionamento das estações, garantirem o apoio e as ligações entre as unidades e assegurarem as ligações durante as marchas.

 

 

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– Mapa
No conjunto de exercícios do período de instrução pode destacar-se o exercício de grandes destacamentos mistos realizado em 24 e 25 de Julho no planalto da Barquinha no qual se confrontavam a 1ª BI (P.V.), na defensiva, e a 2ª BI (P.A.) no ataque. Reparar que o terreno foi organizado para a defensiva, reconhecendo-se as trincheiras.

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– Instalação de tropas e ligações
Neste exercício, a Secção de TPF instalou e explorou a partir do QG as linhas de cabo para a estação telegráfica da Barquinha, para a Reserva Geral e para o Alto das Éguas e uma ligação ótica também para o Alto das Éguas. Os telefonistas de infantaria instalaram a rede telefónica de serviço ao exercício, assim como uma ligação ótica.
Na imagem apresentam-se as ligações na zona da ação da 1ª BI, que estava na defensiva.

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– Esquema do exercício
No seu conjunto, o exercício pode ser representado como se vê na imagem.

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– Ação sobre Atalaia
Por sua vez, o exercício de Divisão (o maior exercício efetuado durante o período de manobras) foi realizado de 29 a 1 de agosto, concretizando-se através de uma ação sobra a Atalaia. Neste exercício, a Secção TPF teve como missão garantir as ligações durante as marchas, utilizando as estações civis e montando as linhas necessárias para acompanhar as movimentações.

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Os trabalhos efetuados nas manobras de Tancos pelas tropas de transmissões situaram-se em bom nível e apoiaram com bastante eficácia as unidades operacionais, acompanhando as suas movimentações. Testaram os seus conhecimentos e os materiais utilizados. Para aqueles que vieram a integrar o C.E.P., como por exemplo o seu responsável máximo, capitão Soares Branco, foi uma experiência muito útil.

 

6. Balanço dos exercícios militares

Conclusões
Como balanço deste nosso estudo, como dissemos ainda incompleto, escolhemos alguns trechos de relatórios de unidades participantes:
“A intensidade da instrução em Tancos levou-nos a marchas longas bastante penosas, debaixo dum calor ardentíssimo e perfeitamente cercados de nuvens de pó, pois nem assim os nossos soldados deixaram de cumprir com o seu dever” (Coronel Barreira, 2º Regimento da 1ª BI);
“Nas localidades, nenhumas notas discordantes se deram, havendo localidades em que todos, à porfia, primavam em atenções para oficiais e praças que, pela sua conduta irrepreensível, souberam corresponder ao acolhimento amigável que lhes era feito” (Coronel Fragoso, 1ª Brigada).
“Como consequência da falta de educação militar, deriva-se naturalmente a ausência de um espírito disciplinado, sofredor e obediente (…) Tive ocasião de notar que nos diferentes exercícios executados, não havia aquele empenho e aquela coesão e decisão indispensáveis para justificar a transição para as diversas fases dos combates” (Tenente-coronel Veiga, 1º Grupo de Metralhadoras).
“Praticaram-se todos os sistemas de ligações – cadeias de homens, ordenanças, sinais óticos, telefone e telégrafo, sendo digno de registo o desembaraço das tropas de engenharia na montagem e desmontagem dos dois últimos sistemas e na receção e transmissão dos despachos.
Os diversos meios de ligação, mais na ofensiva do que na defensiva, em que aquelas se tornam mais fáceis e práticos, nem sempre foram utilizados conforme as reservas disponíveis, situação tática, natureza do terreno e rede de comunicações, e daí as ordens, informações e notícias chegarem muitas vezes tardiamente, perdendo todo o valor” (Coronel Almeida Fragoso, comandante da 2ª BI).

Em suma, podemos concluir que as manobras de 1916 em Tancos, com a concentração de uma Divisão a duas Brigadas, foi uma decisão politicamente necessária, mas militarmente questionável. Os temas estavam desadequados em relação ao que se praticava quase desde o início da Guerra, na Frente Ocidental. As manobras testaram as capacidades militares do Exército, mas não serviram de grande lição.

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42 anos de Escola Prática – Honra e valor – Um livro notável

Post do MGen Pedroso Lima, recebido por msg:
Como não tive possibilidade de estar presente nas comemorações do dia da Arma deste ano, em que foi apresentado o livro “42 anos e Escola Prática de Transmissões Honra e Valor”, só tive oportunidade de ler o livro a partir do final semana passada, graças à gentil oferta do Coronel Ribeiro, atual Comandante do Regimento de Transmissões no Porto, que muito agradeço.
Trata-se de uma obra notável, que considero de referência na área da historiografia das Transmissões militares e que jugo da maior importância para a Arma de Transmissões pela potencialidades que revela e perspetivas que suscita.
EPT livroEm primeiro lugar a obra tem uma conceção profundamente original e de grande oportunidade, dado que, em 2013, as Escolas Práticas das Armas foram abolidas e concentradas em Mafra na Escola das Armas.
Para quem esperava uma História da EPT (Porto) o título “42 anos de Escola Prática” é enigmático, pois a EPT (Porto) começou em 1977 e acabou em 1913, apenas teve 36 anos de vida. O livro porém inclui no conceito de Escola Prática de Transmissões as duas unidades que tiveram esse nome, primeiro em Lisboa de 1971 a 1977 e depois no Porto de 1977 a 2013. Ou seja a Escola Prática começou em Lisboa e acabou no Porto.
Contudo, vai mais longe, incluindo os antecedentes da Escola Prática, quando as suas funções eram desempenhadas pela Engenharia em Tancos, na EPE; e uma cuidada referência aos antecedentes históricos da valências de Instrução, Transmissões Permanentes, Transmissões de Campanha e Investigação e Desenvolvimento que a acompanharam a Escola Prática durante as quatro décadas de existência
Uma obra monumental e de grande qualidade. Não é, nem pretende ser, uma história completa da Arma, pois não refere nem a componente Logística (hoje retirada da Arma), nem a parte respeitante à Direção da Arma, que nunca estiveram presentes na Escola Prática.
Estão assim de parabéns os grandes responsáveis por esta iniciativa: o MGen Arnaut Moreira, que teve a ideia de se publicar uma obra condigna da Escola Prática que desafiou a pessoa certa para a concretizar: o Coronel Rodrigues que se empenhou decididamente nesta gigantesca tarefa e conseguiu congregar os esforços de uma vasta equipa de militares da própria unidade e obter a contribuição de antigos comandantes e outras figuras altamente prestigiadas da Arma e do Exército como o General Garcia dos Santos e o Ten Gen Xavier Matias.
É um livro imperdível (com uma Bibliografia impressionante) que é indispensável ler.
As maiores virtudes que lhe encontro são:

• Constituir uma contribuição relevante para a historiografia das Transmissões Militares e da preservação da memória sobretudo da Escola Prática de Transmissões (Porto) que há muito o merecia, pelo importante papel que desempenhou.

• A qualidade do livro, feito basicamente por uma vasta equipe de pessoal militar em serviço ativo, vem demonstrar que a historiografia das Transmissões também é uma atividade que pode ser feita por jovens ao serviço e não está necessariamente condenada a ser reservada a pessoal na reserva ou na reforma.

Julgo que este notável esforço constitui um forte exemplo de coesão e capacidade da Arma que terá continuidade no futuro. Entre outros, a leitura do depoimento do MGen Dario Carreira, como antigo Comandante, a obra já realizada pelo cor Ribeiro na historiografia das Transmissões (os “30 anos do RTm” os“42 anos de Escola Prática” e a “CTm 5” que espero venha a ser finalmente publicada) dão fortes garantias de que a ideia de que vale a pena recordar e tentar perceber o passado, não ficará por aqui.

As Eleições para a Assembleia Constituinte (1975) – Parte 2

Post do MGen Edorindo Ferreira, recebido por msg:

NÚMEROS E CURIOSIDADES

1. As eleições para “Deputados à Assembleia Constituinte” deveriam realizar-se até 31 de Março de 1975 (nº 4 do Artº 4º da Lei nº 3/74, de 14 de Maio). No entanto, a instabilidade no País, motivada por complexas lutas políticas em que alguns advogavam a primazia de eleições para a Presidência da República, determinou que, em Novembro, tivessem sido marcadas apenas para 12 de Abril. Mas, na sequência dos acontecimentos de 11 de Março de 75, estiveram em risco por poderem vir a constituir um travão para “o processo revolucionário em curso”. Acabariam por ser re-marcadas para o dia 25 de Abril.

2. A fase de preparação do sistema de transmissão foi algo atribulada pois muitas juntas de freguesias não dispunham de telefone, que era indispensável para comunicar os resultados finais ao Governo Civil e, também, para possibilitar os contactos com o STAP, a Comissão Nacional de Eleições e o Centro de Escrutínio. Nas primeiras reuniões preparatórias os CTT/TLP informaram que não seria possível instalar telefones em várias freguesias, especialmente no interior do País, visto não haver vagas nas centrais telefónicas da zona respectiva. O STAP não aceitou a “desculpa” dos CTT/TLP, tendo-lhes sido dito que teriam que encontrar uma maneira de resolver o problema. Na reunião seguinte surgiu a solução: uns dias antes do acto eleitoral os telefones de alguns assinantes ficariam temporariamente “avariados” e as linhas respectivas seriam encaminhadas para as juntas de freguesia. E assim foi!

3. O papel utilizado no processo eleitoral foi oferecido pelo Governo da Suécia (sendo primeiro-ministro Olof Palme) e transportado num navio da Alemanha, de Gotemburgo para Lisboa (cais de Xabregas). Chegaram 166 paletes, contendo cerca de 90 000 Kg de papel, dos quais 40 000 Kg foram utilizados no fabrico de mais de 8 650 000 boletins de voto e as restantes 50 toneladas em cartazes, folhetos, “posters”, cadernos e impressos vários, etc. Esta enorme quantidade de papel foi devidamente armazenada nas instalações da Manutenção Militar, de onde foi saindo à medida das necessidades das tipografias.

4. Só com muita dificuldade é que o MAI conseguiu que as Direcções Gerais de Impostos e das Alfândegas isentassem o pagamento dos impostos de transações e alfandegários sobre o papel… oferecido!

5. O computador utilizado para o escrutínio dos votos (GE MARK I) estava instalado algures em Lisboa e era constituído por dois processadores interligados por dois controladores. Um dos processadores era um CPU de 16 K com ciclo de memória de 6 microssegundos; o outro executava a transmissão de dados e controlava os terminais remotos (até 40); no Centro de Escrutínio (na Fundação Gulbenkian) foram instalados apenas 30. Utilizava as linguagens de programação BASIC, FORTRAN e ALGOL e a unidade de disco tinha 18 MB de capacidade.

tsharing6. O custo total do processo foi de 23 300 contos, que hoje equivalem a 3,2 milhões de euros a preços correntes. A maior parte deste custo (cerca de 20 mil contos) diz respeito às operações logísticas (recenseamento, documentação, urnas, câmaras de voto, computador, CTT/TLP, tipografias, material de escritório, transportes, etc). Os custos com o pessoal do STAP foram apenas de 1 500 contos. Para comparação refere-se que os partidos gastaram 31 mil contos na propaganda eleitoral!

7.  Discriminação dos custos das principais operações logísticas:

– 13 800 urnas, com o peso total de 55 toneladas: 2 260 contos;

– 13 136 câmaras de voto, 394 toneladas: 1 200 contos;

– 8 657 700 boletins de voto, 35 toneladas: 415 contos;

– Recenseamento e elaboração da documentação respectiva: 9 700 contos;

– Time-Sharing (escrutínio): 1 300 contos;

– CTT/TLP: 1 400 contos.

8. Grande parte das despesas de todo o processo eleitoral foi paga com dinheiro encontrado no cofre do gabinete do ex-director da PIDE/DGS.

9. Apesar de várias vezes instruídos sobre o modo de enviar os resultados apurados em cada freguesia, nem todos os Presidentes de Junta agiram como determinado. O ineditismo do acto, a festa que se lhe seguiu e até razões pessoais (por exemplo o facto de o seu partido não ter obtido um bom resultado) muito contribuíram para os atrasos verificados. Houve quem fosse aos Municípios para entregar os resultados e outros… esqueceram-se! De tal modo que a meio da tarde do dia 26 ainda faltava receber os resultados de 154 freguesias, sendo 2/3 dos distritos de Braga e Vila Real.

ResultadosResultados globais às 16:25 de 26 de Abril

10. Um dos casos caricatos passou-se com uma freguesia não muito longe de Lisboa, que era a única que faltava, no dia 26,  para concluir o escrutínio do Distrito em questão. O respectivo Presidente de Junta nunca respondeu aos sucessivos telefonemas, mas a meio da tarde acabou por aparecer no Governo Civil para entregar pessoalmente o impresso com o resultado já apurado na noite anterior. Desculpou-se dizendo que tinha ido celebrar e depois… adormeceu!  E quando acordou dirigiu-se a galope à capital do Distrito, montado num cavalo!

11. O principal responsável pela “máquina logística” foi o Comandante Camões Godinho, o qual, na madrugada do dia 26, orgulhosamente declarava que o STAP estava pronto para organizar eleições em qualquer parte do mundo, até na China!

12. Todos os principais responsáveis pelas tarefas eleitorais eram Oficiais das Forças Armadas:

Ministro da Administração Interna: Tenente-coronel Costa Braz

Director do STAP: Comandante Vasco Almeida e Costa

Responsável pela Logística: Comandante Camões Godinho

Delegado do Exército: Major Engº de Transmissões José Maria Marques

Adjuntos do Exército: Tenentes Engº de Transmissões Edorindo Ferreira, Paulo Melo e Azevedo, João Oliveira Ferreira e António Sousa Maia.

Entre outros, eram técnicos do STAP o Dr Jorge Miguéis (mais tarde responsável por diversos processos eleitorais) e o futuro Dr e Ministro Jorge Coelho.

13. Nos primeiros dias de Maio “a vitória do STAP”, e de todos os que contribuiram para o sucesso do primeiro processo eleitoral em liberdade, foi devidamente celebrada num almoço no Guincho. Cerca de uma semana depois, outras actividades mais prosaicas esperavam o autor deste escrito e os seus camaradas Tenentes no Regimento de Transmissões, no Porto.

Grande Guerra -IV- Divisão de Instrução, manobras de 1916 – 2ª parte

As comunicações na Divisão de Instrução, nas manobras de 1916 

Aniceto Afonso
Jorge Costa Dias

3. Os exercícios da Divisão de Instrução

Passemos então aos exercícios da Divisão de Instrução.
Quando se tornou evidente que Portugal iria enviar uma força para o teatro europeu, o governo decidiu mobilizar e instruir uma Divisão, como forma de preparação para esse fim.
A opção por Tancos foi assumida em Fevereiro de 1916, e os planos de mobilização iniciaram-se desde logo.

Diapositivo1
Objetivo das manobras
Numas manobras militares deste tipo, com permanência de quase quatro meses no campo, procurava-se testar e treinar algumas capacidades do exército e das suas unidades e serviços, nos seguintes aspetos:
– Capacidade de mobilização, concentração e instalação de comandos e unidades;
– Elaboração de planos de ação pelos estados-maiores dos diferentes níveis;
– Capacidade de execução de exercícios táticos, desde simples manobras de pequenas unidades (Companhia) até operações mais complexas de grandes agrupamentos mistos e da própria Divisão de Instrução;
– Capacidade de instalação e de atuação de infraestruturas logísticas e técnicas de apoio às manobras, como transportes, reabastecimentos, comunicações, organização do terreno, alimentação, saúde, etc.
– Treino de conduta de operações, tanto através de exercícios planeados como em situações inopinadas;
– Verificação das capacidades de resistência do pessoal, bem assim como do seu conhecimento, da disciplina e do moral;
– Verificação da adequação dos materiais e equipamentos, tanto individuais como coletivos.
Temos hoje uma visão geral dos resultados, através dos relatórios elaborados pelas unidades e órgãos participantes. E se em alguns aspetos, as manobras são apreciadas positivamente, existe alguma unanimidade em relação à necessidade de melhorar procedimentos, substituir materiais e munições, continuar a instrução militar e fortalecer a educação cívica.

Diapositivo2

 

Cronologia dos exercícios
Vejamos a cronologia dos exercícios e a forma como eles foram implementados.
A incorporação do contingente começou em Janeiro, com o início da recruta de 1916 nas unidades de instrução, onde fizeram, até Abril, a recruta e o treino tático ao nível Secção e Pelotão.
As unidades para manobras foram constituídas nas unidades das divisões territoriais de Viseu, Coimbra, Vila Real e Tomar. A concentração e instalação fez-se entre Abril e Maio e as manobras ocorreram entre Maio e os primeiros dias de Agosto.
Os exercícios iniciaram-se com manobras de Companhia e foram-se tornando mais abrangentes e complexos, até ao exercício final de toda a Divisão.
É preciso notar que nestas manobras só tomaram parte quatro Regimentos de Infantaria dos seis que constituíam a Divisão de Instrução, pelo que no período de 4 de outubro a 24 de novembro de 1916, também em Tancos, foi ministrada a instrução aos dois Regimentos restantes integrados numa brigada (a 3ª BI). Nesta apresentação não serão abrangidas estas manobras complementares.
Foram levados a efeito, então, os seguintes exercícios:
 Exercícios de Companhia -Entre 26 de Maio e 10 de Junho

Diapositivo3

Estes execícios constaram de:

-Proteção em estação
-Combate de postos avançados
-Manobra de retirada
-Marcha para o inimigo
-Combate defensivo
-Marcha de aproximação
-Combate ofensivo
-Trabalhos de fortificação
-Fogos de guerra

14 programa de instrução de companhia

 

 Exercícios de Batalhão – De 11 a 25 de Junho

Diapositivo4

Estes execícios constaram de:

-Proteção em marcha para o inimigo
-Proteção em marcha de flanco
-Proteção em marcha de retirada
-Preliminares do combate
-Ocupação de posição
-Rotura de combate
-Aproximação em combate ofensivo
-Marcha para concentração

15 programa de instrução de batalhão
Exercícios de Regimento – De 26 a 30 de Junho

Diapositivo5

Estes execícios constaram de:

-Combate ofensivo Barquinha e Rodeio
-Combate defensivo Laranjeiras e Grou
-Ação dupla Ofensiva Barquinha
-Ação dupla defensiva Barquinha

16 programa de instrução de regimenti
Exercícios de Agrupamentos Encorporados –De 3 e 11 de Julho

Diapositivo6

Estes execícios constaram de:

-Forças P.A. e P.V. (Partido Azul E Partido Vermelho)
-Ofensiva e defensiva – Barquinha
-Ofensiva e defensiva – Grou
-Fogos de Guerra
-Organização defensiva

17 programa de instrução de agrupamentos incorporados

Exercícios de Pequenos Destacamentos Mixtos – de 13 e 14 de Julho

Estes execícios constaram de ações entre as forças P.A. e P.V. (Partido Azul e Partido Vermelho)

-Exercício Nº 1 – Ação Simples Defensiva– Figueiras-Laranjeiras
-Exercício Nº 2 – Ação dupla ofensiva e defensiva – Margem direita do Zêzere e Constância
-Exercício Nº 3 – Ação simples ofensiva – Montalvo

19 programa de instrução de destacamentos mixtos
Exercícios de Grandes destacamentos Mistos –De  17 a  20 e de 24 e 25 de Julho

1º  Destacamento

Diapositivo8

Exercícios realizados pelas unidades da  1ª BI em formações de apoio.

TEMA: Estacionamento em SANTA CITA, ataque à posição do Grou, defesa da Barquinha

2º Destacamento

Exercícios realizados pelas unidades da  2ª BI e do Grupo de Artilharia em formações de apoio.

TEMA: Ocupação da Barquinha, defesa da posição do Grou, ataque à posição da Barquinha

Parada de Montalvo -Em 22 de Julho

 Exercícios da Divisão de Instrução – De 26 de Julho a 1 de Agosto

1º Brigada (Azul) – Marcha: Abrantes-Casa Branca-Tolosa
2ª Brigada (Vermelha) – Marcha: Montalvo-Pego-Casa Branca-Gavião
Reconhecimentos
Combate entre a quinta da Marguila e Vale Grande

20 exercicio de divisão Tema

 Desconcentração e regresso das unidades aos seus quartéis -Entre 2 e 6 de Agosto

Mapa da força

Vejamos finalmente o mapa da força que esteve presente nos exercícios, com um total de quase 20.000 homens, mais de 5.000 solípedes e mais de 1.200 viaturas.

3-Mapa da Força da Div Inst. em Tancos 001
Podemos destacar o peso das unidades de apoio e dos serviços, com cerca de 1/4 dos efetivos, assim como a participação de um significativo número de viaturas automóveis (incluindo camiões) e as poucas bicicletas e motocicletas ainda disponíveis.
Deixamos para o final a apresentação de umas breves conclusões.