A voz e os ouvidos do MFA

Na próxima terça-feira, dia 25 de Abril, pelas 21:00, a RTP irá apresentar um filme-documentário realizado por António Pedro de Vasconcelos sobre a participação das Tm no 25A, em particular o lançamento de um cabo, de forma clandestina, que permitiu ligações telefónicas com o comando do MFA no Regimento de Engenharia da Pontinha e que se constituiu como a primeira operação militar do 25A, já descrita e referida neste blogue (ver aqui).

Trailer:

Em tempo:
Se não teve oportunidade de assistir ao programa, pode vê-lo clicando aqui.

O Milagre de Tancos, a GG e as comunicações de campanha

Amanhã, 9 de Abril (data do desastre de La Lys), a partir das 10:00h, realiza-se no Centro Cultural da Barquinha, no edifício da Biblioteca, um colóquio sobre a GG e o Milagre de Tancos. A entrada é livre.

Entre outros, serão oradores os coronéis Aniceto Afonso e Jorge Costa Dias, membros da CHT, que falarão sobre “As comunicações em campanha – Da Divisão de Instrução à instalação do CEP”.
Tancos Barquinha

Os Acontecimentos da Beira e as Transmissões

Post do MGen Pedroso Lima, recebido por msg:

Em Janeiro de 1974 tiveram lugar os “incidentes da Beira” que constituíram a primeira grande manifestação popular, em toda a Guerra Colonial, contra os militares.

Aproveitando a possibilidade que tivemos de ouvir os principais protagonistas ligados à atuação das Transmissões no seguimento destes acontecimentos, vamos procurar descrever a forma como decorreu a ligação do pessoal de Transmissões com a estrutura local e nacional do MFA.

Comecemos pelos acontecimentos da Beira.

Convém acentuar que na Beira, até Janeiro de 1974, não se  tinha ainda sentido, praticamente, que havia guerra,  que nessa cidade era considerada como qualquer coisa que se verificava “lá para o Norte”:[1]  Por isso causou grande apreensão na população local as ações violentas desencadeadas  pela Frelimo, no princípio de 1974,  na região de Vila Pery e duas semanas depois a morte da mulher de um agricultor de Vila Mónica, nas proximidades da cidade da Beira.

Centenas de viaturas  deslocaram-se a Vila Mónica e milhares de colonos incorporaram-se no funeral da fazendeira: Á tarde os agricultores e comerciantes manifestaram-se ruidosamente junto do palácio do governador e no dia seguinte  “cerca de quatrocentos brancos e negros da população local, em fúria, insultaram durante longo tempo os oficiais que se encontravam alojados, em trânsito, na Messe de  Oficiais de Macuti, chegando a apedrejar o edifício perante a passividade das forças policiais que horas antes se haviam instalado na zona “[2]…. A situação foi desbloqueada por iniciativa do tenente-coronel Pinto Ferreira[3] “que põe cobro à situação exigindo ao coronel Baía dos Santos[4] que desse ordem à Companhia de Polícia Militar que enfrenta, no exterior os manifestantes e à que, no pátio interior, se encontra de reserva para “limparem” o espaço fronteiriço à Messe. O que ambas fizeram com proficiência, varrendo tudo e todos, a cassetete, até o mar.”

Para mim, o regime foi o grande responsável por esta atitude da população da Beira  porque sempre  proclamou, com a conivência da hierarquia das  Forças Armadas, que a “Guerra era com os militares”. Todos sabiam que não era[5]. O problema da guerra era a conquista da população. o que não se fazia apenas com armas.

A comissão coordenadora do MFA de Moçambique[6] apercebeu-se da delicadeza do problema  que estes incidentes levantavam em termos de desprestígio dos militares e apressou-se a fazer um telegrama dirigido à Comissão Coordenadora Nacional que, naturalmente, o entregou ao STM para fazer seguir.

Começa aqui a intervenção das Transmissões neste processo.

O texto foi entregue em mão ao capitão Bastos Moreira, para o fazer seguir para Lisboa. Sabia que estava a cometer uma falta, visto que a Comissão Coordenadora do MFA de Moçambique não constava na lista dos expedidores autorizados na estação do STM de Nampula.  Por isso, antes de determinar o envio da mensagem falou telefonicamente com o capitão Fialho da Rosa, que era o chefe do Centro Nacional de Transmissões, na então EPT, a explicar a delicadeza do assunto e para este acompanhar a receção da mensagem, o que viria a acontecer (É evidente que a mensagem não podia ficar registada, para não deixar rasto).

Dias depois o capitão Bastos Moreira foi chamado ao gabinete do comandante do Batalhão, coronel Basto (e que chefiava o STM em Moçambique) que lhe perguntou se tinha conhecimento de, pelo STM, ter sido enviado para a Metrópole uma mensagem relativa aos acontecimentos da Beira.

Respondeu que não tinha conhecimento de nada e depois acrescentou que não poderia, no entanto, garantir que isso não tivesse acontecido porque havia tráfego que ele não estava autorizado a controlar (que eram as chamadas facultadas pelo Comando a VIP para a Metrópole).

Depois desta resposta o coronel Basto não lhe disse mais nada. Bastos Moreira concluiu que o assunto ficara por aí.[7]

Em Lisboa, com o capitão Fialho da Rosa as coisas correram de forma diferente. Também foi chamado pelo seu Comandante, o coronel Corte Real. A diferença é que o capitão Fialho da Rosa, que desde Dezembro pertencia à estrutura organizativa do MFA, tinha grande confiança no seu comandante que “conhecia tudo o que se passava na unidade e não punha quaisquer obstáculos”.[8] Deste modo disse-lhe francamente que tinha recebido a mensagem e que a tinha feito seguir para a Comissão Coordenadora do MFA.[9] Segundo ele, o Comandante revelou apreensão.

Dias depois foi chamado de novo ao gabinete do comandante, onde se encontrava o  Diretor da Arma, Brigadeiro Sales Grade e que, na presença do comandante da EPT o interrogou sobre o mesmo assunto. O capitão Fialho voltou a assumir a sua intervenção no processo. Sales Grade informou-o que já o conhecia há muito e que não esperava aquilo dele. Tudo estava em aberto.

Recentemente informou-me que não se recorda de ter pensado que ia ser punido, visto que quer em relação ao comandante, quer em relação ao 2º comandante (TCor Vargas) “estava igualmente tranquilo, dada uma relação algo tensa, desde sempre, mas entendida e respeitada por ambos”.

O Capitão Fialho da Rosa ainda falou mais uma vez sobre este assunto com o coronel Corte Real. Este chamou-o e mostrou-lhe uma carta pessoal do coronel Basto em que este lhe afirmava a não intervenção do seu pessoal no envio do texto para Lisboa.[10]

Apesar do risco que correram, a estes dois homens de Transmissões  do MFA nada lhes sucedeu.

Penso que prestaram um serviço importante ao MFA. O cap Fialho da Rosa pensa que foi deste telegrama de Moçambique que surgiu o primeiro comunicado da comissão coordenadora do MFA.

Julgo que a melhor explicação para a não punição destes dois oficiais talvez seja a seguinte ideia do general  Spínola (então Vice CEMGFA):

“Já então me tinha apercebido claramente de que perante a incapacidade do Governo para solucionar a gravíssima crise político-militar em que nos debatíamos, o ainda incipiente Movimento dos capitães era irreversível, pois baseava-se em razões indiscutivelmente válidas, havendo portanto que orientá-lo no sentido de o transformar em força útil junto dos chefes militares responsáveis, forçando estes a uma tomada de posição.”[11]

No fim de contas neste caso as punições teriam sido puramente formais, visto que nesta altura a hierarquia militar e o MFA estavam de acordo no essencial: que era necessário defender o prestígio dos militares…


[1] AFONSO; Aniceto in História Contemporânea de Portugal. Lisboa, Vol Estado Novo II, 1988, pág. 269

[2] CARVALHO; Otelo Silva de, Alvorada em Abril. Lisboa,, 1977. pág. 190

[3] Chegou a TGen e Comandou a GNR

[4] Comandante Territorial do Centro

[5] Qualquer oficial ou sargento era obrigado a saber. Basta ler “O Exército na Guerra Subversiva”.

[6] De que fazia parte Aniceto Afonso

[7] Estes dados foram fornecidos verbalmente, já há alguns anos pelo Maj Gen Bastos Moreira.

[8] Declaração recolhida em 15 de Junho de 2012

[9] Informou-me que a entregou pessoalmente ao capitão Vasco Lourenço

[10] Informou-me que o cor Corte Real lhe perguntou se tinha a certeza absoluta que tinha sido o Bastos Moreira que o tinha contatado. Ao que ele admitiu  que certeza absoluta , absoluta não tinha, mas quase…

[11] SPÍNOLA; António de, País sem Rumo, pág. 93.

A utilidade do Blogue

Post do MGen Pedroso Lima, recebido por msg:

Um comentário recente do sr. João Freitas, conhecido animador deste Blogue, refere o fato de a existência deste Blogue permitir o acesso a muita gente  de um conjunto de conhecimentos  militares e civis bem como fotografias que assim vêm preservada a sua memória.

A este respeito gostaria de apresentar as seguintes considerações

  • Sou dos que atribui a este Blogue  uma elevada “utilidade social” (o que para mim constitui o seu maior encanto) sobretudo para a Arma de Transmissões e para o seu pessoal, mas não só porque as comunicações são praticadas não apenas na nossa Arma mas em todos os setores do Exército e cada vez na vida civil.
  • Julgo que a amplitude e diversidade de interesses que as Transmissões despertam  explica o relativo sucesso deste Blogue (feito por não especialistas) , mas que tem tido um conjunto de visitantes relativamente elevado – e muito superior ao que eu esperava. Julgo que tem também a virtude de se situar num campo em que, do antecedente, muito pouco se tem escrito.
  • Basta recordar que dez anos antes os trabalhos publicados relativamente à evolução das Transmissões  do Exército foram trabalhos individuais  de dois homens (o tenente Afonso do Paço que publicou o seu “clássico” livro em 1938 e os trabalhos do coronel Bastos Moreira  com as suas “Notas”).
  • Com a Comissão de História passou a dispor-se de um conjunto de mais de uma dezena de oficiais da reserva ou na reforma que se dispuseram a tratar de problemas da área de história e museologia das Transmissões, em relação aos quais o Blogue veio a dar indiscutível dinamismo.
  • Julgo que o Blogue tem sido alimentado sobretudo pelos esforços do pessoal da CHT, com a colaboração preciosa de outros elementos militares e civis. No entanto penso que, mesmo dentro da CHT os seus elementos estão longe de atingir a sua “velocidade de cruzeiro” em termos de produção de posts e especialmente comentários.
  • Talvez o maior defeito que se possa apontar é que o Blogue parece apontar para que na área da história e da museologia “este mundo não é para jovens”, dada a escassa participação que tem havido no Blogue do pessoal da Arma.
  • Julgo que o Blogue não terá futuro se não conseguir captar os jovens oficiais da Arma no ativo, como , em meu entender, seria altamente desejável que viesse a acontecer, como espero que aconteça.

Quanto a isso,  limito-me a referir que o maior historiador das Transmissões foi Afonso do Paço que, quando publicou o seu livro, em 1938, era tenente e tinha 43 anos. Porém na “Explicação prévia” do livro indica que iniciou este trabalho em 1925, com a recolha de elementos, quando tinha 30 anos.

Julgo que o Blogue constitui uma iniciativa com interesse no campo da recolha de testemunhos na área sobretudo da história, pioneira no âmbito do Exército  e a que a juventude da Arma não deixará, a seu tempo,  de dar o seu indispensável contributo.

Manuais técnicos

Do nosso leitor Sr. João Freitas recebemos um interessante artº sobre os Manuais técnicos de Transmissões utilizados ao longo dos tempos. Com os nossos agradecimentos e o nosso reconhecimento pelo seu entusiasmo por tudo quanto são matérias relacionadas com equipamentos militares de Tm, fica publicado sob o menu Publicações, mas também pode ser consultado clicando diretamente aqui.

Perspetivas do Blogue

‘Post’ do MGen Pedroso de Lima, recebido por msg:

O Blogue da CHT está ‘no ar’ desde 13 de Novembro. Tem pouco mais de um mês. Já teve até agora 1734 visitas (desde a fase de testes), de mais três países (EUA, Brasil e Bélgica), além do nosso (isto desde 21 de Dezembro, quando foi colocado o contador de países).

O período de lançamento era difícil mas decisivo porque toda a gente sabe que se um blogue não é alimentado, morre à nascença. No entanto, apesar do entusiasmo que suscitou o lançamento do Blogue dentro da CHT, poucos foram os que compreenderam que, mesmo nesta fase, era preciso dar ao Blogue uma dinâmica apreciável para o tornar atrativo.

 A grande maioria dos elementos da CHT limitou-se a ser espetador. Até aqui, poucos foram os que apresentaram comentários e,  menos ainda enviaram posts.

No entanto nesta fase inicial, mesmo com a falta de participação da maioria, (trabalhando a CHT a 10% das suas possibilidades) o Blogue acabou por suscitar suficiente interesse para ter os visitantes que teve. Conseguiu assim a CHT que o Blogue não tivesse morrido à nascença, como era necessário, apenas à custa do esforço de muito poucos.

Chocou-me a atitude de um camarada da CHT e amigo, a quem reconheço enorme capacidade e competência que, a uma solicitação para participar no blogue, me respondeu que “entendo que ele tem sido alimentado de uma forma tão rica que pode muito bem esperar pelo meu contributo“.  Esta atitude é, para mim, altamente nociva para a valorização do Blogue, cujo interesse depende da variedade dos contributos. Se forem, como tem sido, apenas muito poucos a alimentar o Blogue ele torna-se monótono em pouco tempo.

No entanto verifico que, felizmente, não estou sozinho nesta preocupação  na necessidade  urgente de maior participação do pessoal da CHT no Blogue, como condição indispensável da sua sobrevivência e para aumento substancial do seu interesse.

Sobre isso permito-me transcrever a parte final do texto do general Garcia dos Santos no seu comentário, que tive a felicidade de ler hoje, a respeito do post de Boas Festas, que dizia assim:

“É bom que se recordem, de vez em quando, questões que a “poeira” do tempo vai desvanecendo na nossa memória. Este blog vai, exactamente e com certeza, permitir “limpar esse pó”. Para isso é necessário que TODOS NÓS peguemos no espanador! Por isso aqui deixo o meu apelo a todos os militares da nossa Arma de Transmissões e em especial a todos os membros da CHT para que intervenham no nosso blog.
A Arma merece-o.”

Esta perspectiva de participação alargada de toda a Comissão dá-me uma grande esperança no futuro próximo do Blogue. Julgo que lhe dará outra vida pois estão por revelar grandes estrelas da Comissão, tecnicamente bem preparados e ainda por cima capazes de escrever muitíssimo bem.

O raciocínio base é que se o Blogue com a Comissão trabalhar a 10% fez o que fez, quando atingir os 100%, será, necessariamente um Blogue referência.

Julgo que o segredo estará em os CHT´s aprenderem a blogar, blogando, pois penso que não é inevitável que os portugueses cultivem o indiferentismo, como dizia Eduardo Lourenço em recente entrevista, mas antes que o podem perfeitamente superar, desde que se disponham a isso, como penso que será o caso da CHT.

Vamos esperar para ver.