As TRANSMISSÕES na GRANDE GUERRA – Relatório de Soares Branco (7)

Post do Cor Aniceto Afonso, recebido por msg:

  1. ENTRADA EM LINHA DA 1ª DIVISÃO

Introdução

O III capítulo do Relatório do capitão de Engenharia Soares Branco, chefe do Serviço Telegráfico do CEP, é dedicado ao tempo em que esteve na frente a 1ª Divisão Portuguesa, entre 16 de junho e 5 de novembro de 1917. No entender de Soares Branco, que interpreta a realidade vivida no terreno, estes dois dias foram marcos da presença portuguesa na frente. Primeiro porque a entrada em linha da 1ª Divisão modificava muitas das orientações que vinham do anterior, até porque introduziam na cadeia de comando um Corpo inglês, o XI Corpo, que até então não tinha tido comando sobre as tropas portuguesas. E também porque em 5 de novembro, quando avança o Corpo de Exército Português com as suas duas Divisões na frente, Soares Branco entende que a situação se altera de novo de forma completa, pois essa situação criou responsabilidades muito especiais, a que dificilmente as estruturas portuguesas podiam dar respostas, sofrendo o Serviço Telegráfico das mesmas carências que outros setores de apoio das tropas portuguesas.

Este período de quase cinco meses não foi, ainda assim, muito difícil para as tropas portuguesas, em especial se o compararmos, como faremos, com os meses seguintes.

As dificuldades do Serviço Telegráfico

A 1ª Divisão ia substituir a 49ª Divisão inglesa, como Soares Branco tem o cuidado de informar:

Nos primeiros dias da 2ª quinzena de junho devia a 1ª Divisão com o respetivo Quartel-General entrar na linha em substituição da 49ª Divisão Britânica e sob as ordens do XI Corpo.

Até então nenhumas relações havia mantido este Serviço Telegráfico com o XI Corpo, pois sempre se considerara diretamente dependente do 1º Exército Britânico.

A incorporação da nossa 1ª Divisão no Corpo Inglês, e nas precárias condições de material e pessoal já referidas, obrigou-me a solicitar autorização su­perior e fazer-me deslocar para junto da sede da 49ª Divisão para seguir de perto a rendição do pessoal inglês pelo português, e assentar com o XI Corpo quais as atribuições com que o Corpo Inglês e Português deviam ficar sobre o pessoal telegrafista da 1ª Divisão.

As alterações orgânicas que conduziram à constituição de um Corpo de Exército português a duas Divisões acabaram por se refletir em quase todos os serviços de apoio, que não estavam preparados para a extensão das suas responsabilidades. Já em França, foi necessário adaptar o contingente de cada serviço, solicitando para Portugal os reforços que as novas missões impunham. Mas a resposta foi muito lenta, e tudo ficou dependente da capacidade de adaptação das tropas que já estavam presentes.

O Serviço Telegráfico sofreu de todas estas dificuldades, e teve que se ir socorrendo do pessoal que pertencia a unidades ainda em instrução ou que de alguma forma não estava empenhado na frente. É o que Soares Branco explica no seu relatório:

Junto das Brigadas já em 1ª linha havia destacamentos da 1ª Secção de Telegrafistas Por Fios, e os oficiais desta unidade haviam montado o serviço das secções de sinaleiros das Brigadas de forma a facilitar ao oficial de infantaria comandante da Secção a árdua tarefa que lhe competiria.

Mas, desfalcada a Secção com essas praças nas secções de sinaleiros das Brigadas e ainda em alguns batalhões, o pessoal para o serviço da Estação do Quartel-General e das rondas de linhas era absolutamente insignificante.

Mais uma vez se fazia sentir e duma forma inquietante a falta das 156 pra­ças da Secção de Telegrafistas de Praça que tanto se instara para a Secretaria da Guerra para que viessem mas que não chegavam, embora nomeadas e adidas a Infantaria 5 des­de o começo de março.

Nestas circunstâncias fiz marchar para a lª Divisão em diligência um desta­camento de dois sargentos e 16 praças da 2ª Secção de Telegrafia Por Fios.

E alguns dias depois recebi a notícia de que haviam desembarcado cerca de 100 praças de telegrafistas de praça.

Uma doença contagiosa havida a bordo de um dos transportes, porém, protelara ainda por mais que uma semana a sua apresentação na Escola de Sinaleiros.

Contudo, Soares Branco não foi surpreendido com a pouca qualidade das tropas mobilizadas para o Serviço. As praças mobilizadas pertenciam às incorporações entre 1908 e 1914, estando portanto há vários anos afastadas de qualquer serviço de comunicações. Como ele próprio previra numa nota do princípio de maio enviada ao Comando, referia desta forma o pessoal da Companhia de Telegrafistas de Praça:

… mas chegado que seja esse pessoal já tenho conhecimento que é da classe 1908 (e algum assim veio); aplicou-se talvez o disposto no Regulamento de Mobilização que dispensa a apresentação imediata do pessoal dos Correios e Telégrafos em caso de mobilização do Exército.

Soares Branco compara então, em nota dirigida ao Comando do CEP, a capacidade profissional do pessoal telegrafista inglês com aqueles que vinham de Portugal para trabalharem em conjunto com o Serviço britânico:

“Por demais, V. Ex.ª concordará comigo julgando que a disposição da Lei é consequência das necessidades do serviço das estações e postos telegráficos civis no interior durante o estado de um país em guerra, mas que com uma guer­ra como aquela em que temos que nos debater tal disposição só servirá para afastar das fileiras o pessoal telegrafista de profissão – único que no Exército Inglês é chamado para o serviço das estações…

 E o autor comenta no seu relatório:

Enviaram-me pessoal de todas as classes e proveniências, algumas praças já afastadas das fileiras e da prática do serviço há muito tempo.

Era o recrutamento por algumas regiões que assim o exigia? Era a dispensa de muitos em partir?

O que existia certamente era uma falsa ideia das necessidades deste Serviço.

Quando uma guerra é um facto e uma Divisão é mandada entrar na linha, quando os Serviços expõem a tempo o que lhes é absolutamente indispensável, quan­do os Comandos perfilham e apoiam essas requisições, é triste ver-se obriga­do na rendição de uma Divisão Inglesa por outra Portuguesa a patentear a estrangeiros ou o pouco crédito que perante os superiores merecem as nossas afirmações, ou as deficiências inacreditáveis da nossa preparação para a Guerra.

Secções de Estafetas

Apesar de todas as dificuldades apontadas por Soares Branco, a verdade é que ele próprio admite que é necessário pôr mãos à obra e ultrapassar esta situação, ou seja, “a ocasião era mais de obras do que para lamentações ou críticas”.

Em sucessivas conferências com os responsáveis do XI Corpo e da 49ª Divisão, acabou por se reconhecer:

que era absolutamente indispensável fazer chamar para o Servi­ço Telegráfico toda e qualquer espécie de comunicações incluindo os feitos por motociclistas, ciclistas e estafetas a pé ou a cavalo.

Esta constatação é importante, pois a alteração dos serviços de comunicações no CEP irá trazer ao Serviço Telegráfico um substancial acréscimo de responsabilidades, acabando por propiciar o acerto com a prática das forças britânicas, nas quais era este Serviço que assumia a responsabilidade por todos os sistemas de comunicações e distribuição de correspondência.

Tiradas as respetivas conclusões e apoiado nas recomendações dos serviços britânicos, Soares Branco expõe, no dia 1 de junho, ao chefe do Estado Maior do CEP a nova situação. E no mesmo dia, como o próprio explica no seu relatório, o Serviço ganhou novas responsabilidades:

Por proposta minha foram criadas as Secções de Estafetas Motociclistas e Ciclistas junto dos Serviços Telegráficos do Cor­po e das Divisões.

E na manhã do dia 16 de Junho, quando a 1ª Divisão entrava com responsabilidade na linha, haviam já sido presentes e entregues ao Serviço Telegráfico 18 motociclistas, 32 ciclistas e 22 motocicletas, tornando-se viável cons­tituir carreiras regulares e mediante horários fixados entre as Divisões e as Brigadas, entre o Corpo e as Divisões, passando toda a correspondência oficial a dar entrada nas estações telegráficas e telefónicas para registo e para ser feita seguir aos destinatários, segundo instruções emanadas do Corpo Português.

Reforço da formação

Para além de manter muito ativa a Escola de Sinaleiros de Quiestede, onde o seu diretor, tenente de engenharia Santos Calado, se portava a contento, com “notável zelo e competência”, Soares Branco fez também instruir mais telegrafistas:

Aproveitando o oferecimento do XI Corpo fiz simultaneamente instruir na Escola de Guarda-fios de Merville 24 Guarda-fios, e desta arte, em 2 de julho, em nota Nº 186, eu podia informar o chefe do Serviço de Telegrafistas da 1ª Divisão que lhe mandaria apresentar naquela data 128 telegrafistas de praça.

Para fazer face às circunstâncias pedira, e obtivera autorização sobre nota de 21 de Junho de 1917, para distribuir conforme as exigências do serviço o aconselhassem e de acordo com as respetivas aptidões, as praças, pelo Quartel-General da Divisão, Brigadas e Batalhões.

Era impossível manter as nomeações feitas em Lisboa.

Nas praças nomeadas para o Quartel-General da Divisão havia apenas um cabo que podia ser considerado telegrafista, não podendo as restantes ser utilizadas como tal. Em compensação havia nos Batalhões algumas praças cujas aptidões eram superiores.

A instrução complementar recebida em Franca, em virtude da urgência que havia em fazer marchar para a linha as praças telegrafistas, não podia ser completa e era mister estimulá-la.

Em Portugal havia gratificações especiais para determinados serviços, como guarda-fios etc., gratificações que em França não eram permitidas.

Em virtude do exposto propus, e o Comando aprovou sobre a minha nota Nº 156, que pudesse haver um número ilimitado de promoções a 1º cabo e a 2º sargen­to nas tropas telegrafistas e nas Secções de Sinaleiros, uma vez que às pra­ças, depois de submetidas a um exame, se reconhecesse que recebiam pelo acús­tico, quer no telégrafo quer no fullerfone, um determinado número de palavras, que se fixariam num regulamento a elaborar.

O resultado cedo se fez sentir com uma notável melhoria do serviço.

Tendo tido conhecimento de que havia depósitos de telegrafistas já chega­dos à Base e que faziam parte da Companhia Mista de Engenharia, solicitei a sua vinda para instrução para a Escola de Sinaleiros pois não me convinha ter pessoal sem a instrução, que seria destinado de um instante para o outro a cobrir as baixas havidas nas unidades.

Alargava-se a responsabilidade do Serviço Telegráfico, o que exigiu a utilização de efetivos que se destinavam à 2ª Divisão, para completar e reforçar as unidades da 1ª Divisão e das estações telegráficas dos restantes comandos do CEP. Soares Branco ia dando solução aos problemas que a evolução da situação lhe exigia, mas adiava as consequências para a altura em que o Corpo de Exército, com as duas Divisões, se tornasse operacional.

Em relação à instrução dos sinaleiros vale a pena socorrermo-nos de um relatório elaborado pelo alferes Alípio Augusto sobre a instrução de observadores ministrada a duas secções de sinaleiros de Infantaria 1 e 10, junto de unidades em 1ª linha nos dias 11 a 13 e 22 a 25 de julho de 1917.

Por exemplo, em relação à instrução de avaliação de distâncias diz o relatório:

A instrução de avaliação de distâncias limitou-se quase exclusivamente a exercícios de avaliação de distâncias ao passo e à vista, por ser impossível, em vista das condições literárias das praças ministrar-lhes outros processos de avaliação de distâncias, visto que muitos são analfabetos e outros não sabem o suficiente para poderem fazer uma pequena conta de multiplicar. (…) Se bem que todos os homens houvessem revelado boas qualidades para observadores, é certo que se não pode contar com os analfabetos para o desempenho de um bom serviço, porque não podem fazer o seu boletim de observação à medida que vão descobrindo os seus objetivos, tendo necessidade de reter na memória, por vezes, mais que uma observação, até que chegue pessoa a quem possam fazer o relato verbal do que se passou, podendo muitas vezes confundir o local onde descobriram esses objetivos, o que pode ser prejudicial ao serviço.

Por isso parecia-me conveniente que os observadores analfabetos fossem substituídos por outros que soubessem ler e escrever, com o que muito teria a lucrar o importante e difícil serviço de observação.

 A TSF

No seu relatório, o capitão Soares Branco aborda todas as situações e a forma como foi avaliando e dando solução aos problemas que surgiam. Com uma Divisão a ocupar um setor da linha da frente seria natural que todos as áreas viessem a ser questionadas, sempre e quando o comando inglês o julgasse pertinente, agora que esse comando era exercido pelo XI Corpo.

Embora até então o serviço de telegrafia sem fios não tivesse merecido uma grande atenção por parte do comando português, a verdade é que a nova situação devia ser considerada antes de questionada pelo comando inglês. Foi uma preocupação de Soares Branco logo que estabilizou os serviços mais urgentes.

Ao mesmo tempo, devido ao desenvolvimento enorme que o serviço de Telegra­fia Sem Fios estava tendo no Exército Inglês, criando-se subsecções de TSF por Divisão, julguei de elementar prudência antecipar-me, dispondo as coisas de forma que, quando pelo XI Corpo fosse solicitado ao Corpo Português pessoal de telegrafia sem fios para substituir o pessoal inglês, a nossa respos­ta fosse afirmativa.

Tendo o comandante da Secção de Telegrafia Sem Fios submetido à minha apreciação um projeto de organização do Serviço, tomando-o como base, dirigi ao chefe do Estado-Maior a nota Nº 155 de 21 de junho sobre o assun­to, e na Ordem do Corpo de 22-07-17, como apenso, eram publicadas as instruções e autorizações convenientes para a organização do Serviço de TSF no CEP, prevendo-se desde logo a criação dos postos de trincheira, am­plificadores e power-buzzers indispensáveis para a 1ª Divisão.

Efetivamente ainda nessa mesma quinzena partiam para Hinges guarnições de TSF, a fim de praticarem nas regras e funcionamento de serviço de sem fios.

 Conclusão

A entrada em linha da 1ª Divisão em 16 de junho de 1917 alterou substancialmente a relação com o comando inglês, até então exercido diretamente pelo QG do 1º Exército. A partir daqui, a 1ª Divisão ficou sob o comando do XI Corpo inglês, com o qual até então não tinha havido contactos operacionais ao nível do Comando do CEP e dos serviços do Corpo. Isto foi particularmente sentido pelo Serviço Telegráfico que desde o início mantinha relações muito próximas com os responsáveis do Signal Service do 1º Exército.

A mudança, dirigida pelo capitão Soares Branco, levou à alteração de muitas das relações anteriores, mas fez-se dentro da cooperação já estabelecida com os serviços e as tropas inglesas, embora nem sempre com a compreensão esperada.

A situação das tropas portuguesas continuava muito precária e a alteração da base da participação portuguesa de uma Divisão para um Corpo de Exército a duas Divisões deixou à vista um conjunto de insuficiências e dificuldades, acentuadas por essa circunstância.

Não foi fácil para um Serviço que exigia uma formação de base de maior nível e uma capacidade técnica apreciável dos seus elementos, adaptar-se e superar as insuficiências dos contingentes mobilizados, tanto dos telegrafistas como dos sinaleiros.

Acresce ainda que foi neste período que o Serviço Telegráfico assumiu a responsabilidade, para além da transmissão da correspondência, também da sua distribuição.

As TRANSMISSÕES na GRANDE GUERRA – Relatório de Soares Branco (1)

Post do Cor Aniceto Afonso, recebido por msg:

  1. O SERVIÇO TELEGRÁFICO E O INÍCIO DA SUA ATIVIDADE EM FRANÇA

O capitão de Engenharia Carlos Soares Branco foi indicado, em novembro de 1915, para o cargo de chefe do Serviço Telegráfico da Divisão de Instrução que iria preparar-se em Tancos com vista à sua ida para França. Essa escolha foi feita pelo coronel Roberto da Cunha Baptista, chefe do Estado-Maior da Divisão.

O seu desempenho nas manobras revelou um oficial de grande qualidade, com o desejo de afirmar um serviço que procurava um papel de relevo na manobra militar, proporcional ao enorme desenvolvimento técnico que as comunicações vinham conhecendo.

De facto, o apoio das comunicações à manobra militar, nas circunstâncias das frentes de combate da guerra europeia, vinha-se tornando cada vez mais importante.

Foi portanto natural a nomeação do capitão Soares Branco para responsável máximo do Serviço Telegráfico do Corpo Expedicionário Português (CEP), ainda a convite do coronel Roberto da Cunha Baptista, também nomeado chefe do Estado-Maior da 1ª Divisão.

Logo que se programaram os transportes marítimos da força expedicionária portuguesa para França, iniciados em finais de Janeiro de 1917, Soares Branco e uma pequena equipa do seu serviço avançou por terra, atravessando Espanha de comboio, como se tornou habitual, e já estava em França quando os embarques se iniciaram em Lisboa.

Responsável pelo Serviço Telegráfico desde a sua organização com a entrada em linha das primeiras unidades portuguesas até ao completo desempenho do cargo entre 5 de novembro de 1917 e 6 de abril de 1918, tempo em que o Corpo de Exército Português ocupou a linha da frente como grande unidade, Soares Branco redigiu entre junho e julho de 1918 um excelente relatório sobre o Serviço Telegráfico, notável documento que muito esclarece sobre as comunicações no CEP, mas também sobre outras diversas circunstâncias da participação do CEP na frente.

As suas primeiras palavras situam-nos no dia em que Soares Branco iniciou os contactos com os responsáveis e as unidades britânicas presentes na zona de provável ação da força portuguesa, no vale do Lys, na Flandres francesa.

Começa assim o autor do relatório: “Presente na zona de guerra a 27 de janeiro de 1917, foi-me apresentado o oficial de engenharia do Exército Britânico Lte. Brander, o qual havia sido nomeado pelo 1º Exército como oficial de ligação e intérprete junto do Serviço Telegráfico do CEP e como tal havia sido agregado à Missão Britânica”. Completam-se portanto cem anos desde que Soares Branco iniciou os seus contactos com as unidades britânicas e os respetivos serviços telegráficos!

Àrea de responsabilidade do 1º Exército Britânico (AHM)

Area de responsabilidade do 1º Exército Britânico (AHM)

A partir daqui o chefe do Serviço Telegráfico do CEP vai contactar várias unidades britânicas de diferentes níveis, desde o QG do 1º Exército até um Batalhão de Infantaria e as baterias de artilharia, procurando inteirar-se da forma como o serviço telegráfico estava organizado, quais as suas funções, os materiais usados, a distribuição do pessoal, as formas de transmissão, os circuitos da correspondência, as ligações estabelecidas, o funcionamento das centrais, a utilização dos vários especialistas, desde os telegrafistas aos sinaleiros, etc.

Nesses dias de contacto com a realidade das unidades inglesas, Soares Branco tomou boa nota de tudo quanto lhe foi dado observar, desde as grandes linhas organizativas até aos muitos pormenores que poderiam fazer com que o serviço desse resposta pronta às solicitações das unidades que servia.

Foi o seguinte o seu percurso, devidamente referido no seu relatório e que merece mais aprofundada análise:

– QG do 1º Exército Britânico. Apresentou-se aqui ao chefe do Serviço Telegráfico, coronel de engenharia H. Moore, tendo-se comprometido a apresentar um relatório sobre “o que de mais urgente se me afigurasse propor e solicitar” e visitando a sua estação central instalada em Lillers.

Estação "telegráfica" de um QG de Exército (The signal service in european war of 1914 to 1918)

Estação “telegráfica” de um QG de Exército (The signal service in european war of 1914 to 1918)

– QG do XI Corpo, “estabelecido nas proximidades de Hingues”. Aqui reconheceu a estação telegráfica, o pessoal presente, os aparelhos telegráficos e telefónicos instalados, assim como as suas características. Anotou também como se processava o serviço de mensagens e como estava montada a assistência à estação. Resume assim as suas impressões: “Entravam na estação cerca de 200 linhas telegráficas e telefónicas, quase todas aéreas, pelo menos até aos Quartéis-Generais das Divisões e das Brigadas”.

Mensageiro motociclista

Mensageiro motociclista (dia de Natal 1917)

– QG da V Divisão Britânica, constando de um Serviço Telegráfico e de uma Estação Central da Divisão. No seu relatório, Soares Branco anota com todo o pormenor, a rede de comunicações, os aparelhos em uso, as ligações estabelecidas, o pessoal de serviço, o material de transporte em apoio do serviço de mensagens, a orgânica do Serviço Telegráfico ao nível da Divisão.

Distribuição de pombos-correio

Distribuição de pombos-correio

– Brigada de Infantaria, com o seu serviço telegráfico e o seu “Posto de Combate”. Também a este nível Soares Branco fez as mesmas anotações, constatando que “umas vezes o Posto de Comando coincide com a central telefónica do Comando dum Grupo de Artilharia adstrito à Brigada, outras vezes, porém, tal não é possível”, o que implicava alterações significativas na organização das comunicações.

– Posto telefónico dum Batalhão de Infantaria, assim como o seu posto de combate, situado geralmente junto do comando de uma companhia, onde merecem especial atenção as ligações à unidade de artilharia.

Aliás, as ligações da artilharia merecem um capítulo especial nesta primeira ronda pelas unidades inglesas feita por Soares Branco, que desde logo se apercebeu da importância que lhes devia ser atribuída.

Neste domínio, o relatório refere as ligações da artilharia no Corpo de Exército, na Divisão e na Artilharia Pesada, no Comando do Grupo de Artilharia e ao nível da bateria.

A situação, ao nível das baterias, resume-a Soares Branco de seguinte forma: “As comunicações com os batalhões ou unidades a que estão adstritas faziam-se por intermédio da estação do Grupo, o que não era para recomendar.

“Normalmente à frente das Baterias e à retaguarda dos postos de observação havia um Posto Central de Postos de Observação, aonde iam ter todas as linhas destes, e por onde passavam as linhas das baterias e dos Grupos.

Sinais visuais

Sinais visuais com a lanterna Lucas

“Ainda como nova precaução contra o frequente corte das comunicações, e em regiões onde o bombardeamento era usual, um novo posto como o acima indicado, mas mais avançado, era estabelecido junto dalgum dos postos de observação das baterias”.

Sinaleiros em ação

Sinaleiros em ação com quadro de persianas

Finalmente, sob o título de “notas várias”, Soares Branco elenca um conjunto de observações importantes para a organização do serviço telegráfico de que seria responsável no terreno, em breve.

Estas “notas várias” traduzem o sentido prático deste autêntico estágio que Soares Branco efetuou nas unidades inglesas a partir de finais de janeiro de 1917, na sua zona de ação futura. Merecem ser transcritas na totalidade:

“Entre os Quartéis-Generais das Brigadas e os dos Batalhões, e em geral perto do local onde as linhas passavam de aéreas a ser subterrâneas, havia, por vezes, estações de verificação das linhas com pessoal guarda-fios, que desta forma, em abrigos, aguarda ser empregado.

Verificação da linhas

Verificação e teste das linhas

“De centenas em centenas de metros, 500 a 800, existiam caixas de ligação em abrigos com sacos de terra que permitiam a verificação dos troços onde o bombardeamento fazia interrupções.

“As linhas aéreas com cabo isolado estavam suspensas de postes duplos de cerca de seis metros de altura com travessas.

Transporte de postes

Transporte de postes

“Por vezes havia também, e em locais muito expostos ao bombardeamento, linhas enterradas em geral em trincheiras próprias a 1,8 m da superfície com cabo de isolamento apropriado.

“As linhas dos batalhões e das companhias para os postos de combate seguiam os ramais de comunicação, sobre o revestimento lateral, ao qual eram fixados por grampos próprios, ou de corda alcatroada.

“As linhas que não seguiam pelos ramais eram seguras às árvores, a casas arruinadas, etc., para o que se fez largo emprego de grampos”.

Lançamento de linhas

Lançamento de linhas

Com estas notas termina o capítulo I do relatório. O capítulo II será dedicado não apenas ao memorando que Soares Branco ficara de apresentar ao 1º Exército Inglês, mas também à Escola de Sinaleiros, aos materiais novos de transmissão, desconhecidos em Portugal e usados nas trincheiras, e às alterações orgânicas necessárias no Serviço para bem responder às crescentes necessidades das unidades combatentes e de apoio logístico, cujas comunicações estariam a cargo do Serviço Telegráfico do Corpo e suas unidades.

São assuntos para abordar noutros textos.

 

Os primeiros Radiotelegrafistas em Cabo Verde durante a II G M

Post do TCor ManTm António Maria Viegas de Carvalho, recebido por msg:

Se a II guerra mundial não chegou a ultrapassar o fundeadouro do porto de Sal-Rei da ilha da Boa Vista, onde um ou outro vaso de guerra alemão, italiano ou inglês terá fundeado ao largo da ilha em observações provocatórias, no que se refere à ilha de São Vicente a coisa atingiu volumes expressivos.

E nem é de estranhar que tenha sido assim. A posse da baía do Porto Grande devia ser uma tentação para qualquer chefe militar conhecedor do mundo.

Dizem que é tão profunda e limpa de recifes, que por diversas vezes, submarinos alemães e ingleses conseguiram iludir os canhões de Monte Branco e João Ribeiro, penetrando na enseada e emergindo dentro dela, sem que os defensores tivessem coragem para os atacar.

Mapa das ilhas de Cabo Verde

Estes episódios frequentes alertaram as autoridades portuguesas que sentiram a necessidade de defender não só a baía do Porto Grande, mas também o próprio arquipélago de Cabo Verde.

Apesar do governo das ilhas estar oficialmente instalado na cidade da Praia (ilha de Santiago), a cidade do Mindelo (ilha de São Vicente) é o centro nevrálgico do arquipélago que é preciso defender a todo o custo.

Face a este perigo as autoridades portuguesas fizeram instalar nas ilhas um vasto reforço militar constituído por um corpo de tropas expedicionárias.

A missão das tropas expedicionárias tinha por base a previsão de que a acção de um possível inimigo fosse inicialmente exercida por meios navais e aéreos, seguidos de uma ou mais tentativas de desembarque de forças terrestres. Competia às tropas estacionadas nas ilhas, defender a integridade do território contra essas forças estrangeiras, beligerantes ou não.

O conceito de defesa da ilha de São Vicente consistia essencialmente numa sólida ocupação e, em caso de emergência, manter a todo o custo a posse das regiões de Monte Branco, João Ribeiro, cidade do Mindelo e do ponto de amarração do cabo telegráfico submarino “Italcable”.

“Italcable” (servizi cablografici radiotelegrafia e radioelettrici SpA) era uma empresa inglesa/italiana que operava diversos cabos submarinos transatlânticos, que ligavam cidades da costa sul da Europa às Américas e que foram cortados ou quebrados durante a II Guerra Mundial, excepto no Mindelo”.

A defesa da ilha do Sal consistia na defesa do seu já importante aeródromo.

A defesa da ilha de Santo Antão consistia em defender as suas reservas de água potável que abasteciam a ilha de São Vicente ali em frente.

O corpo de tropas expedicionárias era inicialmente constituído por várias unidades de Infantaria, agrupadas sob o comando do Regimento de Infantaria 23, Artilharia de Costa e de Contra Aeronaves e da 2ª Companhia de Sapadores Mineiros do Regimento de Engenharia 2, de entre outras.

Três meses depois do reforço das tropas expedicionárias combatentes chegarem à ilha de São Vicente, concentraram-se no Batalhão de Telegrafistas em Lisboa (Sapadores), uma secção de transmissões constituída por dezasseis radiotelegrafistas recrutados por escolha em diversas unidades do país.

Formaram-se quatro equipas de radiotelegrafistas.

Cada uma das equipas era constituída por um 1º Cabo, um 2º Cabo e 2 Soldados. Chefiavam estas quatro equipas os 1º Cabos Armindo Carvalho, António Freitas, Oliveira David e Ferreira da Silva.

Dez dias depois, em 15Ago41, sob o comando do 2º Sargento Telegrafista António Maria da Silva, estes dezasseis radiotelegrafistas formaram na parada do Batalhão de Telegrafistas, onde ouviram palavras encorajadoras do comandante TCor (Eng.º) João dos Santos Calado.

Nesta cerimónia os Soldados foram promovidos a 2º Cabos.

15Ago1941 – Partida do cais de Alcantara do Vapor Colonial

Nesse mesmo dia embarcaram no vapor “Colonial” com destino à ilha de São Vicente com paragem na ilha da Madeira. A bordo seguia um conjunto de caixotes com material de transmissões que eles não chegaram a ver durante os dez dias de estadia no Batalhão de Telegrafistas.

No vapor “Colonial” seguiam também várias famílias de civis com destino a São Tomé, Angola e Moçambique dentro do programa que foi criado pelo governo de “povoamento das colónias”.

18Ago1941 - Radiotelegrafistas a bordo do Vapor Colonial

18Ago1941 – Radiotelegrafistas a bordo do Vapor Colonial

Chegaram ao seu destino em 21Ago41, depois de uma viagem difícil devido ao péssimo alojamento e deficiente alimentação a bordo.

Sendo os únicos militares a bordo tiveram a seu cargo o transporte diário do carvão do porão para alimentar as fornalhas do vapor.

Como não havia porto para atracar, o vapor “Colonial” ficou ao largo. O desembarque é feito em botes com remadores locais. Na recepção a estes telegrafistas está o Cap (Eng.º) Guardiola, comandante da 2ª companhia de sapadores mineiros do regimento de engenharia 2. É nesta unidade que ficam adidos e aquartelados, em péssimas condições, no chamado “Parque da Engenharia”.

Dias depois reuniram os caixotes com os materiais e ao abri-los aperceberam-se das grandes dificuldades que iam ter nesta missão.

02Dez1941 - Um dos tipos de receptores-transmissores de Trincheira instalados

02Dez1941 – Um dos tipos de receptores-transmissores de Trincheira instalados

O material de telegrafia sem fios (TSF) era de fraco rendimento, constituído em parte por estações receptoras/transmissoras de “Trincheira” de origem inglesa, excepto um equipamento construído nas Oficinas de Material de Engenharia (OGME), que se previa ser o equipamento para guarnecer o Quartel-General (QG) do comando militar como posto director.

02Dez1941- Aerodinamo de electro-imanes, 52 polos, 13V - 5Amp - 60 rpm

02Dez1941- Aerodinamo de electro-imanes, 52 polos, 13V – 5Amp – 60 rpm

Antenas, baterias e aerodinamos para o carregamento das baterias completavam o material de (TSF).

O 2º Sargento António Maria informou estes radiotelegrafistas que estava previsto na Primavera de 1942 a chegada de mais pessoal e com eles material novo de origem inglesa e portuguesa.

O material de telegrafia por fios (TPF) era constituído por telefones construídos nas Oficinas Gerais de Material de Engenharia (OGME) e os S33 de origem alemã, enquanto as centrais telefónicas eram do tipo Ericssom de origem sueca.

Foi por aqui que começou a actividade dos telegrafistas.

Nov1941 - Lançamento das linhas telefónicas

Nov1941 – Lançamento das linhas telefónicas

Lançamento de linhas telefónicas de campanha com cabo simples e duplo tipo D-8, entre as diversas unidades e comandos aquarteladas na cidade do Mindelo e instalação dos telefones e centrais telefónicas.

Foram necessários quase quatro meses para instalar as linhas, telefones e centrais telefónicas e ainda instruir os soldados cedidos pelas unidades e comandos para a sua operacionalidade.

Só em Dezembro de 1941 começaram a instalar e a operar o material de TSF.

Quatro estações receptoras/transmissoras foram instaladas na cidade do Mindelo, ficando de reserva duas estações, para serem instaladas nas ilhas do Sal e Santo Antão quando fosse possível o seu transporte.

02Jan1942 - Guarnição da estação directora do QG do comando militar. (em pé) 2º cabo Magro, 1º cabo Armindo Carvalho e 2º cabo Pereira, (sentado) 2º cabo Mourão

02Jan1942 – Guarnição da estação directora do QG do comando militar.
(em pé) 2º cabo Magro, 1º cabo Armindo Carvalho e 2º cabo Pereira,
(sentado) 2º cabo Mourão

A estação directora (P1) chefiada pelo 1º cabo Armindo Carvalho foi guarnecida por um receptor/transmissor de 10 Watts, operando no comprimento de onda dos 15 metros e instalada no quartel-general do comando militar.

As estações (P2) chefiada pelo 1º cabo António Freitas e a (P3) chefiada pelo 2º cabo Martins foram guarnecidas com receptores/transmissores de 1,5 Watts, operando no comprimento de onda dos 15 metros e instaladas em posições da artilharia em João Ribeiro e Monte Branco.

A estação (P4) chefiada pelo 2º cabo Silva foi guarnecida com um receptor/transmissor de 1,5 Watts e instalada numa viatura.

Como as distâncias entre as estações eram curtas as comunicações revelaram-se eficazes em todos os períodos do dia e da noite.

A grande decepção dos radiotelegrafistas era a falta de uma estação receptora/transmissora que permitisse fazer ligações com Lisboa (posto de rádio da Ajuda).

Em Janeiro de 1942 como estava previsto, deu-se o embarque de duas estações de 2,5 Watts operando no comprimento de onda dos 15 metros destinadas às ilhas de Santo Antão e do Sal.

Para a ilha de Santo Antão seguiu a estação (P5) chefiada pelo 1º cabo Oliveira David e para a ilha do Sal seguiu a estação (P6) chefiada pelo 1º cabo Ferreira da Silva.

Ficava assim concluída a primeira rede de seis estações radiotelegráficas com um número reduzido de operadores.

03Junho de 1942 - Posto rádio do QG do comando militar. Em pé, 1º cabo Armindo Carvalho

03Junho de 1942 – Posto rádio do QG do comando militar.
Em pé, 1º cabo Armindo Carvalho

As comunicações com as ilhas de Santo Antão e do Sal, apesar de algumas dificuldades, principalmente nos períodos da noite, onde era necessário ter os ouvidos muito apurados para receber o serviço, cumpriam a missão.

Em Janeiro de 1942, as estações a operarem no Mindelo, começaram a notar interferências na recepção dos sinais.

Como a situação se agravou principalmente no receptor da estação directora instalada no QG do comando militar, o chefe da estação 1º cabo Armindo Carvalho informou o 2º sargento António Maria da situação.

O 2º sargento António Maria, depois de ouvir durante três dias essas interferências, concluiu da possível existência de um emissor clandestino na ilha, informando de imediato o Cap (Eng.º) Guardiola.

O Cap (Eng.º) Guardiola deu conhecimento da situação a um inspector da Policia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE).

A (PVDE) iniciou de imediato a procura desse possível emissor, sem resultados imediatos.

Duas semanas depois destes acontecimentos o 1º cabo Armindo Carvalho e o 2º cabo Santos, radiotelegrafistas no posto director do QG do comando militar, num passeio pela ilha descobriram uma antena estendida no telhado de uma casa.

18Jan1942 - Porto e cidade do Mindelo com localização da casa do espião

18Jan1942 – Porto e cidade do Mindelo com localização da casa do espião

Enquanto o 1º cabo Armindo Carvalho ficou de vigia à casa o 2º cabo Santos procurou o Cap (Eng.º) Guardiola e o 2º Sargento Telegrafista António Maria.

Com a chegada destes militares acompanhados por um inspector da (PVDE) e um graduado da legião portuguesa (LP), a porta da casa foi arrombada no preciso momento em que um civil de auscultadores nos ouvidos e chave de morse na mesa iniciava uma transmissão, enquanto uma mulher segurava uns papéis.

Os civis, foram identificados como sendo o comerciante Mário Ribeiro e sua mulher Isaura, chegados ao Mindelo dois meses antes destes acontecimentos, vindos da cidade da Praia (ilha de Santiago).

Foram levados presos para o forte onde estavam instalados os três elementos da (PVDE) e meia dúzia de indivíduos da legião portuguesa (LP).

Um moderno receptor/transmissor instalado numa mala, outra mala com acessórios radioeléctricos, uma bateria e um aerodinamo foram recolhidos e levados para as instalações da (PVDE).

Os Cabos radiotelegrafistas presentes nesta apreensão verificaram de imediato da excelente qualidade do receptor/transmissor.

Dias depois, os radiotelegrafistas convenceram o 2º sargento Telegrafista António Maria para falar com o Cap (Eng.º) Guardiola para este tentar a cedência do receptor/transmissor para ser instalado no QG do comando militar.

Havia possibilidades técnicas do receptor/transmissor servir para as comunicações com Lisboa (Ajuda), que era um desejo de todo o pessoal radiotelegrafista.

O Cap (Eng.º) Guardiola não conseguiu demover os homens da (PVDE) e da (LP) para estes entregarem o receptor/transmissor aos militares.

Disseram-lhe que todo o material capturado teria de acompanhar os presos quando estes fossem enviado para Lisboa.

Perante esta informação, o Cap (Eng.º) Guardiola sabendo da presença no Mindelo em visita oficial do governador Dr. José Diogo Ferreira Martins, vindo da cidade da Praia, pediu-lhe uma audiência para expor a situação.

O governador ouviu o Cap (Eng.º) Guardiola e no fim disse-lhe:

Está com sorte senhor Capitão.

Tenho aqui nos meus documentos uma comunicação do senhor ministro das colónias datada de 3 de Junho de 1940 para todos os governadores-gerais que lhe vou ler:

“Proíbo terminantemente em todas as colónias o funcionamento de postos emissores particulares, devendo os aparelhos serem apreendidos e depositados em local do Estado que VExas entenderem”.

No final da leitura o governador limitou-se a dizer ao Capitão:

Hoje mesmo vou dar ordens para que esses aparelhos sejam depositados à guarda do QG do comando militar.

E assim sucedeu, apesar da resistência dos homens da (PVDE) e da (LP).

Com a mala receptora/transmissora em seu poder a guarnição do posto de rádio do QG do comando militar, pediu ao Cap (Eng.º) Guardiola para traduzir o pequeno manual em inglês que acompanhava o receptor/transmissor.

Lido o manual, verificaram da excelente qualidade deste material nomeadamente os 60 Watts do transmissor.

Em 18 de Fevereiro de 1942, o Cap (Eng.º) Guardiola enviou, via correios, um telegrama ao Major (Eng.º) Quaresma que no Batalhão de Telegrafistas (Sapadores) chefiava o Serviço Rádio Militar do Continente, indicando que no dia 22 de Fevereiro entre as 20H00 e as 21H30 hora de Lisboa, o posto de rádio militar da Ajuda devia estar em escuta em onda-curta no comprimento de onda dos 35 metros.

O resultado desta experiência era aguardado pelos radiotelegrafistas com grande ansiedade. Manter as comunicações radiotelegráficas com Lisboa, significava poderem receber informações regulares dos seus familiares, numa altura em que os “vapores” só traziam correspondência e encomendas de dois em dois meses e, provavelmente, mais apoio por parte do Batalhão de Telegrafistas.

Quando o 1º cabo Armindo Carvalho manipulou a chave de morse chamando o posto de rádio em Lisboa (Ajuda), este respondeu de imediato.

Durante cerca de cinco minutos trocaram sinais. No final, o 1º cabo Armindo Carvalho informou o Cap (Eng.º) Guardiola, o 2º Sargento António Maria e os outros dois operadores que os sinais chegavam a Lisboa em boas condições, o mesmo sucedendo com os sinais recebidos no posto de rádio do Mindelo.

Foi uma alegria entre todos aqueles homens. Esta ligação com Lisboa ia permitir avanços nos apoios aos militares expedicionários.

Nos dias seguintes em novos horários, voltaram a fazer experiências com o receptor/transmissor capturado ao espião cujos sinais continuavam a ser muito bem recebido em Lisboa (Ajuda) e no Mindelo.

Numa destas comunicações, o 1º cabo Armindo Carvalho recebeu uma boa notícia do operador do posto de rádio em Lisboa (Ajuda), o seu amigo 1º cabo Liberal. Tinha recebido uma comunicação do posto de rádio da Escola Prática de Artilharia (EPA) em Vendas Novas, informando que ele era pai de um rapaz nascido em Janeiro e que tudo estava bem.

O 2º sargento Telegrafista António Maria da Silva que comandava a secção dos radiotelegrafistas ofereceu-se de imediato para ser o padrinho.

Em Março de 1942 o espião Mário Ribeiro e a mulher Isaura embarcaram no navio “Guiné” com destino a Lisboa. Foram acompanhados por um homem da (PVDE) e outro da (LP).

Notas Finais:

– Em Abril de 1942 chegou a São Vicente um contingente de 12 cabos e 12 soldados radiotelegrafistas, comandados pelo furriel Cassio para reforço das redes de TPF e TSF.

11Mai1942 - (da esquerda para a direita) 2º Sarg António Maria, Capº (Engº) Guardiola, Cap (Engº) Costa Pereira, 1º cabo Armindo Carvalho, 1º cabo Ferreira da Silva e 2º cabo Silva, com população local

11Mai1942 – (da esquerda para a direita) 2º Sarg António Maria, Capº (Engº) Guardiola, Cap (Engº) Costa Pereira, 1º cabo Armindo Carvalho, 1º cabo Ferreira da Silva e 2º cabo Silva, com população local

– Em Maio de 1942 chegou a São Vicente mais um contingente de 12 furriéis, 8 cabos e 10 soldados radiotelegrafistas, comandados pelo Alferes Alvarez para reforço das redes de TPF e TSF.

11Mai1942 Cap (Engº) Costa Pereira e Ten (Engº) Abel Cardoso, primeiros comandantes das transmissões no Mindelo

11Mai1942 Cap (Engº) Costa Pereira e Ten (Engº) Abel Cardoso, primeiros comandantes das transmissões no Mindelo

– Em Maio de 1942 chegaram a São Vicente o Cap (Eng.º) Costa Pereira para comandar as transmissões e o Ten (Eng.º) Abel Cardoso como seu adjunto.

Estes dois oficiais organizaram, enquadraram o pessoal e criaram as condições para o sucesso desta missão nas ilhas de Cabo Verde.

03Junho de 1942 - Militares do comando das transmissões (em cima, Cap (Engº) Costa Pereira e Ten (Engº) Abel Cardoso ladeados pelo 1º cabo Armindo Carvalho e 2º sarg António Maria

03Junho de 1942 – Militares do comando das transmissões
em cima, Cap (Engº) Costa Pereira e Ten (Engº) Abel Cardoso, ladeados pelo 1º cabo Armindo Carvalho e 2º sarg António Maria

– Com estes dois oficiais chegaram receptores/transmissores ingleses e outros construídos nas (OGME) e no (BT) que reforçaram e aumentaram a qualidade técnica das redes radiotelegráficas nas ilhas de Cabo Verde.

– O fim da II guerra mundial fez regressar ao Continente os efectivos expedicionários. Ao mesmo tempo, foram sendo extintas as unidades, comandos e serviços ali criados. O regresso do comandante militar, Brigadeiro Nogueira Soares, em Janeiro de 1945, e sobretudo a extinção do comando militar em Novembro de 1946, marcaram o final do reforço militar às ilhas de Cabo Verde.

A verdadeira mala do espião identificada em 1963 através de revistas militares

A verdadeira mala do espião identificada em 1963 através de revistas militares

– A mala com o receptor/transmissor capturada ao espião Mário Ribeiro que nunca deixou de estar controlada pelos homens da (PVDE), foi recuperada por estes no final da expedição militar e trazida para Lisboa tendo sido depositada no quartel da Legião Portuguesa (LP) no edifício da Penha de França.

– Segundo informações de um sargento radiomontador do Batalhão de Telegrafistas que prestava assistência técnica na (LP) para ganhar mais alguns tostões, este receptor/transmissor esteve pelo menos até finais dos anos sessenta, depositado no armazém de material apreendido no edifício da (LP) na Penha de França.

– Depois do 25 de Abril de 1974, o Cor (Eng.º) Bastos Moreira que sabia deste acontecimento e já tinha na ideia a criação do Museu das Transmissões, pediu ao TCor ManTm Armindo Carvalho (ex: 1º cabo radiotelegrafista do posto de rádio do QG do comando militar do Mindelo) para identificar algumas malas de comunicações recuperadas do edifício da (LP).

– Analisadas essas malas contendo receptores/transmissores nenhuma delas foi identificada como a mala capturada ao espião Mário Ribeiro. A mala utilizada pelo espião foi identificada em 1963 através de revistas militares como sendo a “mala de rádio britânica MkII” muito utilizada pelos agentes britânicos do SOE (Special Operations Executive).

Mala receptora-transmissora existente no museu das trasmissões que simboliza a mala capturada ao espião

Mala receptora-transmissora existente no museu das trasmissões que simboliza a mala capturada ao espião

– Por iniciativa do Cor (Eng.º) Bastos Moreira, foi recuperada uma dessas malas do edifício da (LP) contendo um receptor/transmissor. Foi colocada no museu das transmissões para simbolizar e prestar homenagem a um conjunto de militares radiotelegrafistas que pela sua tenacidade, abnegação e dedicação, mantiveram as ligações entre a ilha de São Vicente (Mindelo) em Cabo Verde e Lisboa (Ajuda), através dos sinais de morse durante parte do período que durou o reforço militar.

– Quando os Britânicos declararam o bloqueio económico aos países ibéricos, o governo de Lisboa resiste tenazmente às imposições do cerco económico, gravemente lesivos dos fornecimentos essenciais à economia portuguesa e das relações comerciais com a Alemanha (que considera mesmo essenciais à manutenção da neutralidade de Portugal), mesmo quando se vê obrigado a aceitar formalmente, os princípios e instrumentos do bloqueio, unilateralmente definidos e impostos por Londres.

– Todas as mercadorias destinadas a Portugal ou delas originárias ficavam sob a fiscalização do consulado Britânico, que montou pela simpatia política, pela concessão de facilidades e pelo suborno, uma vasta rede de informadores, nas alfândegas, nos portos, na polícia marítima, no exército, na marinha, nas empresas de navegação e de transportes terrestres e em todos os portos das colónias.

– Mário Ribeiro o espião capturado na cidade do Mindelo que tinha sido quatro anos antes, furriel radiotelegrafista no Batalhão de Telegrafistas, não era mais do que uma “antena informativa” dessa vasta e complexa rede de espionagem implementada pelos Britânicos e treinada pelos (SOE) que operavam em todo o território português.

– Os radiotelegrafistas formados no exército eram detentores de qualidades técnicas invulgares. Durante a guerra, alguns foram recrutados para as redes de espionagem alemãs e britânicas. No final da guerra alguns ficaram no exército mas a grande maioria foi para a marinha mercante em Portugal, EUA, Canadá, França e Inglaterra.

– O autor desta narrativa é o filho do 1º cabo radiotelegrafista Armindo Carvalho, operador da estação directora do (QG) do comando militar do Mindelo, que teve a notícia do meu nascimento pelo 1º cabo radiotelegrafista Liberal, operador na estação em Lisboa (Ajuda) durante a experiência com o receptor/transmissor capturado ao espião.

Nota:

Parte desta descrição “os primeiros radiotelegrafistas na II guerra mundial em Cabo Verde” só foi possível através dos apontamentos deixados pelo meu pai, TCor ManTm Armindo Teixeira de Carvalho (1913 – 1982).