Os Telégrafos na ilha Terceira em 1830

Já anteriormente escrevi neste blogue sobre a existência de uma rede de telégrafos nos Açores, na ilha Terceira, durante o período das guerras liberais. Foi-me então possível, a partir do conhecimento que tinha de uma representação de um telégrafo/semáforo de balões existente no Monte Brasil (Posto de sinais), única em Portugal, referir também, e mostrar descrições e imagens da época, uma outra rede, esta constituída por telégrafos de postigos do Ciera situados na zona da Praia da Vitória, que ligavam a Angra do Heroísmo (ver aqui).

Durante as visitas semanais da CHT ao AHM, deparei-me recentemente com alguns documentos interessantes sobre este assunto, nomeadamente um, assinado pelo TCor Engª Euzébio Furtado, de que abaixo mostro a primeira página, seguida de uma transcrição de todo o documento, que teve a ajuda do “nosso mestre” Cor Aniceto Afonso para tirar algumas dúvidas de legibilidade.

Carta do TCor Furtado para o Quartel-Mestre José Baptista da Silva Lopes

Carta do TCor Eusébio Furtado para o Quartel-Mestre José Baptista da Silva Lopes

Neste documento, o TCor Furtado refere-se a um conjunto de 6 telégrafos de bolas existentes a toda a volta da ilha para comunicar movimentos de navios no respetivo setor, propondo a transferência de 2 deles e a instalação de mais 2 telégrafos repetidores (8 no total), para que um daqueles pudesse comunicar com o do Monte Brasil. Infelizmente não assinala todas as suas posições, apenas a do Monte Brasil, as daqueles que propõe mudar de local e as dos repetidores que pretende instalar.

Transcrição completa do documento:

Ill.mo Sr

Havendo S. Exª o Sr General comandante das Forças, reconhecido que o Serviço dos Telégrafos não preenchia os seus fins, tanto pelo mau Regimento dos Sinais como pela incapacidade de quase todos os Empregados, que nem guardam o segredo que convém, nem têm a vigilância indispensável, e por estas razões se devia dar melhor forma ao mesmo Regimento e Serviço; se dignou portanto S. Ex.ª ordenar-me verbalmente que procedesse a um Projeto com as seguintes condições: 1ª, se convém que os pontos telegráficos fiquem sendo os mesmos, ou mudados e em maior numero de forma que contornem a Ilha; 2ª, que se me parecer altere a forma dos Telégrafos; 3ª, forme um Regimento claro e simples de sinais; 4ª, que proponha novos Empregados para este tão útil serviço, que conhecendo bem a sua importância lhe deem toda a atenção e mereçam a gratificação que se lhe arbitrar, podendo para isto escolher e propor entre o grande numero de Oficiais Inferiores que há de mais nos Corpos, empregando no desempenho desta Ordem o mesmo zelo que sempre me anima pelo serviço cumpre-me dizer a V. S.ª para conhecimento de S. Ex.ª:
Que não obstante ter feito em outra ocasião um completo jogo de Sinais com os mais melhoramentos convenientes, como este Projeto não foi avante, agora se tornou quase inútil e tive de empreender trabalho novo apropriado ao grande aumento de Forças e subsequentes alterações que se tem feito nos mais Ramos de Serviço.

Quanto à 1ª condição, ainda que os atuais pontos telegráficos são bem escolhidos, seria mais conveniente passar o Telégrafo do Pico de D. Joana para o das Contendas onde as névoas não são tão frequentes nem tão densas; e para haver conhecimento do que se passa nos mares do Norte e parte dos do Oeste que não são vistos do Monte Brasil, deve-se é colocar um Telégrafo Indicador no Pico de Martin-Simão, ponto vantajoso sobranceiro aos Altares próximo aos Biscoitos e comunique com o dito Monte Brasil; mas como deste se não divisa imediatamente aquele, será indispensável dois Telégrafos Repetidores, um no Pico Gordo de baixo e outro no Pico da Bagacina; assim ficará perfeitamente fechado o circuleo Telegráfico da Ilha.

Responder à 2ª condição, que sendo muito vantajoso a simplicidade do maquinismo, melhor seriam os Telegrafos Franceses ou Ingleses com o nome de Semáforos, mas esta mudança nos obrigaria a desprezar inteiramente os atuais e construir oito novos, quando aqueles por seu limitado serviço bem satisfazem precisando só serem reparados e construídos pequenos alojamentos para os Empregados.

Para a 3ª condição, V. Exª se servirá ver no Quadro junto o Regimento dividido em dois Capitulos, o 1º dos Sinais para tempos ordinários, e o 2º para a ocasião de Operações; em ambos os casos me persuado ter previsto quanto pode ocorrer de mais essencial e que mereça ser transmitido telegraficamente e isto tão somente com a adição do triangulo de madeira ao que hoje existe, quando seja preciso mais sinais; bem se vê que restam ainda muitas combinações em claro e muitas mais que não desenhei. Os Sinais Gerais ou preparatórios são comuns aos dois capítulos.

Reconhecida a necessidade de substituir os atuais Empregados por outros de mais préstimo, é certamente muito vantajoso e parece mais possível serem estes tirados dos sargentos supranumerários dos Corpos; se esta proposta for da aprovação de V. Exª então pedirei particulares informações sobre os mais idóneos e os proporei ao Sr General. De dois modos podem eles fazer este serviço, ou por destacamentos mensais, ou sendo permanentes, o 1º caso tem o mui grave inconveniente da publicidade dos sinais que forçosamente se seguirá sem ser fácil descobrir os infratores; e por isso me parece preferível a permanência procurando quanto seja possível conciliar a exatidão do Serviço com a residência em pontos isolados e desabridos. Entendo e proponho que estes sargentos tenham como gratificação mais metade de seus soldos abonados e pagos como estes, ficando pelo seu serviço inteiramente responsáveis ao Diretor dos Telégrafos: para os ajudar eles devem ter dois soldados que alternem diariamente o seu serviço e que destaquem por um mês sem outros vencimentos que os que percebem atualmente.

Parece-me conciliar assim o bom e exacto serviço com a economia da despesa, a qual no Inverno ainda pode ser mais limitada.
V. Exª se servirá resolver o que mais bem convier ao Serviço, e as suas novas Ordens me servirão de governo sobre a conferição dos Quadros Telegráficos e Regulamento para os Empregados. Deus guarde a V. S.ª

Quartel em Angra 4 de Agosto de 1830

Ill.mo Sr. José Baptista da Silva Lopes

Assina: Eusébio Candido Cordeiro Pinheiro Furtado
Tenente-Coronel no Real Corpo de Engenheiros

(Nota 1 – José Baptista da Silva Lopes):

Quartel-Mestre General nos Açores, futuro Ten General e Barão de Monte Pedral, Dir Geral da Artª, que foi quem, em 1842, enquanto Inspetor Geral do Arsenal do Exército, instituiu o Museu de Artª, hoje Museu Militar.

Barão de Monte Pedral

Barão de Monte Pedral

(Nota 2 – Eusébio Candido Cordeiro Pinheiro Furtado):

Autor de uma Memória histórica sobre a batalha da Praia em 11AGO1829, futuro Marechal de campo comandante do Real Corpo de Engenheiros e Ten General Governador de Armas do quartel de S. Jorge, que então promoveu em Portugal um novo conceito de empedrar o chão, ao estilo de mosaico, com pedras brancas e pretas, que passaram a denominar-se ‘calçada-mosaico’, depois de, em 1842, já assim ter orientado o revestimento da parada do Batalhão de Caçadores n.5, em Lisboa.

Memória Histórica do 11 de Agosto de 1829

Memória Histórica do 11 de Agosto de 1829

Para desenvolver este conceito fez uma construção, em 1848, no Rossio – a praça Dom Pedro IV – em Lisboa, que resultou num empedrado de 8712 metros quadrados, coberto de ondas a preto e branco (Mar largo). Com o crescimento da cidade, novas ruas foram pavimentadas com este conceito, passando a designar-se definitivamente por calçada portuguesa.

Pormenor do desenho do "Mar largo"

Pormenor do desenho do “Mar largo” para o Rossio

(Nota 3 – Localização dos Picos):

Feteira é uma freguesia localizada na costa sul da ilha Terceira, a cerca de 7 km a leste da cidade de Angra do Heroísmo. No extremo nordeste da freguesia ergue-se o Pico de Dona Joana, um cone vulcânico de escórias basálticas quase circular com cerca de 500 m de diâmetro, esventrado em direção ao sudoeste, com a parte exposta da cratera a uma cota de 262 m acima do nível do mar. A parte mais alta do cone, na cumeada norte e nordeste, atinge os 331 m de altitude.

A Ponta das Contendas, Vila de São Sebastião, concelho de Angra do Heroísmo, localiza-se na ponta sudeste da ilha Terceira, a cerca de 13 km da cidade de Angra do Heroísmo e a 8 km da cidade da Praia da Vitória – Formada por vários cones de escórias, como o Pico das Contendas (142 m acima do nível do mar), esta faixa litoral da Baía da Mina apresenta-se muito recortada, com enseadas rochosas, praias de calhau rolado e alguns ilhéus.

Pico Martin Simão (ou Matias Simão)  é uma elevação de origem vulcânica localizada na freguesia dos Altares, concelho de Angra do Heroísmo, a cerca de 19 km,  e encontra-se localizado na parte Noroeste da ilha Terceira, junto à costa, elevando-se a 153 m acima do nível do mar.

Pico Gordo é um cone vulcânico localizada na freguesia dos Altares do concelho de Angra do Heroísmo. Este acidente montanhoso encontra-se localizado na parte Oeste da ilha Terceira, eleva-se a 622 metros de altitude acima do nível do mar

O Pico da Bagacina é uma elevação de origem vulcânica localizada no interior da ilha Terceira. Este acidente montanhoso eleva-se a 638 metros de altitude acima do nível do mar e encontra-se intimamente relacionado com o Maciço Montanhoso da Serra de Santa Bárbara.

Do mesmo documento consta ainda uma curiosa e complexa tabela de códigos e uma representação de um telégrafo de bolas rudimentar, apoiado numa qualquer arvore ou tronco.

Códigos de sinais

Códigos de sinais (O sinal + quer dizer repetição, isto é, arriado e tornado a içar. E o zero posto antes de qualquer sinal quer dizer 100. Continua com alguns exemplos, terminando com – quando for um nº composto por dezenas e unidades, o sinal se fará no extremo da haste do telégrafo; e quando seja só de unidades, se fará no terço dela.)

Telégrafo rudimentar

Telégrafo de bolas de 3 prumadas, com recurso a balões pretos e brancos (ver códigos acima). A primeira argola é apenas para passagem das 3 espias, não tem gancho para pendurar.

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Ainda a lanterna Lucas de sinais

Do nosso leitor sr Luiz Fernando Dias recebemos, a propósito da recente publicação do manual de instruções da lanterna Lucas, o seguinte comentário/post, que muito agradecemos:

No final da década de 30, princípios dos anos 40 do século passado, foram construídos nas Oficinas Gerais de Material de Engenharia diverso material de transmissões: Telefones de Campanha, Comutadores Telefónicos, Fullerphones, Heliógrafo m/38, Lanternas de sinais (tipo Lucas), etc.

A lanterna de sinais fabricada pelas OGME era cópia exacta da Lanterna Lucas, muito bem executada, não ficava nada atrás da original. Contudo o corpo da lanterna era de alumínio, ao contrário da original que era de latão.

A caixa era de madeira tal como a lanterna Lucas da primeira geração, como se pode ver no desenho do folheto de instruções. Penso que estas instruções são de 1928, logo anteriores ao fabrico da Lanterna OGME.

Mais tarde, na 2ª Guerra Mundial, a Lanterna Lucas passou a ter a caixa metálica, chegando a estar em uso no nosso Exército.

Tenho uma vaga ideia que existe um exemplar destes no Museu de Transmissões, na Graça.

Da minha coleção junto uma fotografia de uma Lanterna de Sinais, fabrico OGME, anos 40, numa exposição em Torres Vedras efectuada em 2004.
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Grande Guerra -IV- Divisão de Instrução, manobras de 1916 – 3ª parte

As comunicações na Divisão de Instrução, nas manobras de 1916 

Aniceto Afonso
Jorge Costa Dias

 

4. Breve História das Transmissões no Exército Português até 1916

A primeira unidade militar de Transmissões em Portugal foi o Corpo Telegráfico, criado em 1810, pioneiro das telecomunicações militares e civis em Portugal.

regulamento de 1810 corpo telegráfico 80X80

Introduziu no país dois sistemas que revolucionaram as telecomunicações da época no país.Em primeiro lugar, a telegrafia ótica, a qual funcionou com base no telégrafo de ponteiro

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e no telégrafo de postigos

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inventados por Francisco Ciera, que estiveram presentes na defesa das Linhas de Torres, e cuja utilização se prolongou até 1855 na rede nacional, altura em que foi substituída pela telegrafia elétrica.

Em segundo lugar, a telegrafia elétrica, que foi operada pelo Corpo Telegráfico de 1855 a 1864, e posta ao serviço do público nacional e internacional. Começou por utilizar telégrafos Breguet

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Breguet-Telegraph-Transmitt

que foram depois substituídos por mesas de telégrafo Morse.

33-Telég Morse campanha
Em 1864 o Corpo Telegráfico foi extinto. O seu pessoal foi integrado numa organização civil do Ministério das Obras Públicas, a Direção Geral dos Telégrafos e Faróis.
A estratégia para a reintrodução das Transmissões no Exército deveu-se a Fontes Pereira de Melo e traduziu-se na inauguração, em 17 de setembro de 1873, da 1ª rede telegráfica militar com 13 estações, e em 1884, com a criação da Companhia de Telegrafistas do Regimento de Engenharia.

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Em 1901, por decreto de 7 de Dezembro, foi criada a Companhia de Telegrafistas de Praça.
Só com a reorganização do Exército de 1911 é que veio a ser criado, em 1913, o Batalhão de Telegrafistas de Campanha com uma Companhia de Telegrafistas por Fio (TPF) e uma Companhia de Telegrafistas sem Fio (TSF).
Voltando ao século XIX, devemos acrescentar que se assistiu à expansão da rede telefónica, que no início usou o telefone de mesa de Bramão concebido em 1879 por Cristiano Augusto Bramão (oficial do Corpo Telegráfico)

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e que é considerado uma referência a nível internacional, porquanto é o primeiro aparelho do mundo que apresenta, reunidos numa única peça, o auscultador e o microfone.
As redes de comunicações conheceram uma crescente expansão entre os finais do século XIX e início do século XX, como mostram os mapas das redes existentes nesta época:
Rede de pombais, que se manteve até à década de 30 do século XX;

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Rede de heliógrafos, que ainda fazia serviço em 1933.

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A rede telegráfica, que conheceu uma enorme expansão em todo o território nacional, era o principal meio de comunicação quando a Divisão de Instrução se concentrou em Tancos.

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Em relação à telegrafia sem fios (TSF), o Exército realizou em 1901 as primeiras experiências de rádio com material encomendado ao fabricante francês Ducretet, que era constituído por um emissor e por um recetor Ducretet.

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Em 1909 foram adquiridas 4 estações de telegrafia elétrica Telefunken, sendo duas fixas e duas de campanha hipomóveis (MT1 e MT2).

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De 1915 a 1917 foram adquiridas 11 estações Marconi – 5 a dorso, 3 hipomóveis e 3 automóveis.

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Em Abril de 1916 havia no Batalhão de Telegrafistas de Campanha quatro estações de TSF, pois algumas das adquiridas tinham sido mobilizadas com as expedições para Angola e Moçambique.
Eram elas:
Em serviço combinado com a Divisão Naval havia uma estação Telefunken (MT1) em S. Julião da Barra e outra (MT2) em Cascais.
Para mobilizar com a Divisão a constituir, existiam duas estações Marconi (uma MM1 e uma outra MM2), ambas no Batalhão de Telegrafistas de Campanha.

Conferência sobre Telegrafia ótica em Portugal

A convite do meu irmão João realizei em Coimbra uma palestra (pode ser consultada no menu Palestras, ou ver aqui), no âmbito das “Lojas de Saber” que criou em 2012.

Conf PL CoimbraA palestra foi destinada a divulgar o tema a uma assistência muito menos preparada para o tema que os visitantes deste Blogue, que nele dispõem de um vasto conjunto de textos esclarecedores.

A maior parte da palestra é, assim, matéria já tratada no Blogue.

No entanto, houve alguns elementos novos que introduzi, uns resultantes da reflexão que fiz na preparação da conferência, outros da colaboração amiga e interessada que tive, em especial de alguns elementos da CHT e que muito agradeço.

Dos elementos novos que introduzi em relação à matéria até aqui tratada no Blogue e que poderão ter interesse para os visitantes deste Blogue destaco os seguintes:

  • A apresentação das Almenaras e dos sistemas óticos usados pela Marinha como “inspiradores” do sistema ótico criado por Chappe nos finais do século XVIII
  • A ideia de que o sistema de telegrafia ótica criado por Ciera e o sistema de heliógrafos implantado por Bon de Sousa constituíram um esforço nacional para acertar o passo com a Europa
  • A referência ao facto de a importância da obra de Ciera ter mérito equivalente à de outros grandes pioneiros da telegrafia ótica e ser muito menos conhecido internacionalmente.
  • A introdução do telégrafo de Ciera no Brasil por D. João VI (confirmada por investigação do coronel Costa Dias)
  • A existência do telégrafo de Ciera de três bolas (confirmada por investigação do coronel Canavilhas).

Há outra razão que torna o texto mais apelativo que é o de estar muito mais bem escrito do que eu seria capaz de fazer. Isso resulta de a minha filha Rosa, jornalista, que ouviu a palestra, se ter oferecido para rever o texto, pois o meu irmão queria uma cópia para arquivo.

Ainda a telegrafia ótica

Post do MGen Pedroso Lima, recebido por msg:

Há dias tive a agradável surpresa de receber um telefonema de um dos meus irmãos a comunicar que lera na edição do Público on-line (de 21 de setembro) uma notícia sobre a realização de um evento, patrocinado pela câmara Municipal de Mafra e relativo à divulgação da telegrafia ótica nas linhas de Torres, durante a guerra Peninsular.

O evento terá lugar já no dia 27 deste mês e eu muito gostaria de nele participar, o que infelizmente não pode acontecer. Por isso lembrei-me de, através deste post, reproduzir a notícia, pois pode haver algum leitor deste Blogue que possa e queira acompanhar esta louvável iniciativa.

O programa do evento, integrado nas Jornadas europeias do património, é o seguinte:

jornadaspatrimonioO que se propõe aos participantes nesta Corrida “Comunicar em Tempo de Guerra com Telegrafia Óptica”, num texto de Nuno Paisana,  é o seguinte:

“É uma prova diferente, não competitiva, uma aula ao vivo sobre a eficácia da Telegrafia Óptica no século XIX e acontece num dos percursos das Linhas de Torres, a 27 de Setembro.

Tem cerca de 16 km, ligando o Forte de S. Vicente em Torres Vedras ao topo da Serra do Socorro e, pela primeira vez, faz-se uma reconstituição de uma operação com réplicas dos telégrafos ópticos do século XIX, tentando de facto transmitir por esta via a uma dezena de quilómetros de distância.

Os corredores levarão cópia da mensagem a transmitir para garantir que a mesma chega ao destino e 80 por cento do percurso será em caminhos pedestres homologados, dispondo de sinalização própria, que será complementada por sinalização semelhante, mas específica do evento, método que será inovador.

O programa implica concentração dos participantes, às 14h00, na Serra do Socorro, Enxara do Bispo, para quem pretenda transporte até ao forte de S. Vicente, em Torres Vedras, local da partida às 15h00.

Cerca das 16h30, chegada dos corredores à Serra do Socorro, Enxara do Bispo, seguida de animação no telégrafo e lanche-convívio pela União das Freguesias de Enxara do Bispo, Gradil e Vila Franca do Rosário.

Informações em arquepedagogia@cm-mafra.pt e inscrições em www.cm-mafra.pt “

Equipamentos de Transmissões da 1ª Guerra Mundial – Introdução

No âmbito do centenário da 1ª Guerra Mundial (1ªGM), o Grupo de História das Transmissões decidiu estudar a organização e o emprego das transmissões no Corpo Expedicionário Português (CEP) que combateu em França, integrado no Exército Inglês. Fiquei responsável pela área da logística e material. É neste âmbito que me proponho dar a conhecer os principais equipamentos de transmissões utilizados pelo CEP, dentro das limitações das fontes disponíveis para consulta.

Quase todo o material de transmissões, assim como a generalidade do material de guerra, foi fornecido pelo Exército Inglês, sendo, portanto, igual ao utilizado por este e não diferindo muito do material usado pelos restantes exércitos, incluindo o alemão.

A missão das transmissões foi sempre a mesma, ao longo da história: transportar a informação. A forma como essa missão é cumprida é que, naturalmente, se foi modificando conforme a evolução da técnica. Na época da 1ª GM, as tecnologias disponíveis e utilizadas foram:

– Telegrafia por fios (telégrafo) ou telegrafia eléctrica

Tinha sido o principal meio de telecomunicações durante a 2ª metade do sec XIX, baseado, essencialmente, no código e no telégrafo inventados por Samuel Morse, mas continuava a ter um papel importante, nessa época.

– Telefonia por fios (telefone)

Por altura da 1ª GM era rei o telefone, inventado por Bell. Não admira, por isso, que viesse a ser este o principal meio de comunicações utilizado em campanha. O próprio tipo de guerra de trincheiras favorecia a utilização de linhas telefónicas, o que seria mais difícil numa guerra de movimento.

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Reparando as linhas telefónicas nas trincheiras

 

– Telegrafia sem fios, (TSF), (telégrafo por rádio)

Estava a dar os primeiros passos, impulsionada sobretudo pelos trabalhos de Marconi. Os primeiros equipamentos eram ainda de faísca, vindo a aparecer, já no fim da guerra, os primeiros equipamentos de onda contínua. A flexibilidade e a mobilidade que este tipo de comunicações permite é uma mais valia para a guerra de movimento, mas traz consigo uma grande vulnerabilidade: a fácil escuta das comunicações pelo inimigo

– Telegrafia óptica

Teve o seu apogeu na primeira metade do sec XIX, com a invenção dos telégrafos ópticos de Chappe (França), Murray (Inglaterra), Ciera (Portugal), entre outros, baseados em códigos próprios. Foi maioritariamente substituída pela telegrafia eléctrica mas, com o aparecimento do código Morse foi de alguma forma reanimada com novos equipamentos: heliógrafos e lanternas de sinais, que transmitiam o código Morse. Na 1ª GM, funcionou como um importante meio de comunicações de reserva, sobretudo quando as linhas telefónicas e telegráficas eram cortadas pelos bombardeamentos .

-Telegrafia pelo solo (TPS)

Apareceu, em termos práticos, durante a 1ª GM e pode-se dizer que desapareceu com ela. Foi rapidamente ultrapassada e substituída pela TSF, que teve uma evolução fulgurante. Além dos curtos alcances, tinha ainda o problema da escuta inimiga. Foi experimentada pelo Exército Inglês a partir de 1915 mas a sua utilização prática dá-se um pouco mais tarde (início de 1917) com a introdução do equipamento de recepção a válvulas, inventado pelos engenheiros do Exército Francês[1].

– Pombos Correio

A utilização de pombos correio como meio de transporte de informação, na guerra, remonta à antiguidade e estendeu-se até aos nossos dias. Neste Blog há vários posts relacionados com tal utilização. Destaco a série de 3 posts intitulados O Pombo Correio (1), (2) e (3).

Os pombos correio foram introduzidos no Exército Inglês em 11 de Setembro de 1914 quando 15 pombos foram oferecidos , pelo Exército Francês, para servirem de meio de comunicação ao Serviço de Informações. Rapidamente os ingleses se aperceberam da sua utilidade,de tal forma que em 1918 o número de pombos ascendia já a 20.000, ocupando um total de 380 especialistas e dando assim origem a um novo ramo do “Signal Service”[2].

pombo correio

Soldados ingleses treinando pombos correio (Fonte: http://www.thesun.co.uk)

 

-Estafetas

A utilização de estafetas para transportar mensagens, como correio, vem dos primórdios das campanhas militares. É um meio lento mas relativamente seguro, utilizado para informação pouco urgente ou quando todos os outros falham.

– Outros

Bandeiras de sinais, pistolas de sinais e telas de sinalização.

    Baseado, essencialmente, nas relações apresentadas pelo então Ten Cor Soares Branco no artigo da Revista de Artilharia “A Batalha de La Lys e as transmissões”, passo a listar os principais equipamentos de transmissões utilizados pelo CEP:

– Telegrafia por fios:

– Fulerfones de 6 tipos diferentes,

– Telégrafos de corrente simples,

– Telégrafos de corrente dupla.

– Telefonia por fios:

– Indicadores (centrais telefónicas) de vários tipos e com capacidade variando entre as 4 e as 30 linhas,

– Telefones de campanha, de mesa e de parede, magnéticos e acústicos,

– Telefones de guarda-fios,

– Equipamento para construção de linhas.

-Telegrafia óptica:

– Lanternas para sinais,

– Lanternas Lucas,

– Heliógrafos.

– Telegrafia sem fios (TSF):

O ten Cor Soares Branco não refere nenhum equipamento de TSF. Os que eventualmente foram utilizados deviam estar sob o controlo directo do Exército Inglês. Esta suspeita baseia-se numa nota do Chefe do Serviço Telegráfico do CEP, de 11/7/1917 a queixar-se ao oficial inglês responsável pelas comunicações do XI Corpo pelo facto de terem sido retirados da área da 1ª Div os meios de TSF, ao que este responde que, devido a uma reorganização dos meios de TSF, estes tiveram de ser retirados da área da 1ª div (Port) para a área da 49ª Div.

– Telegrafia pelo solo:

O equipamento utilizado foi o “Power Buzzer” de que não há nenhuma indicação nas listagens do Ten Cor Soares Branco. Admito que a sua gestão tenha sido semelhante à do equipamento de TSF

– Pombos Correio:

Na área do CEP, em 1917/18, havia um pombal fixo, em Lacouture, e um pombal móvel (O Nº48), guarnecidos por pessoal inglês, coadjuvado por pessoal português.

-Estafetas:

No CEP foram utilizados, essencialmente, estafetas em bicicleta ou em motocicleta. Como havia um Grupo de Companhias de Ciclistas, destinado ao combate, os estafetas utilizados era pessoal dessa unidade que estava adida ao serviço telegráfico do corpo.

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Militares do Grupo de Companhias de Ciclistas

 

[1] The Signal Service in the European War of 1914 to 1918 (France) – R.E. Priestley , MC, BA – W&J MACKAY & CO LIMITED – 1921

[2] IDEM

As fotos dos leitores (13)

A propósito do postal “Dois pedidos de leitores” aqui publicado em 12ABR14 (e que pode ser visto clicando aqui), o nosso leitor Sr Artur Varela teve a amabilidade de nos enviar algumas fotografias de dois equipamentos que possui e das respectivas caixas, só que estas em metal, ao contrário da primeiramente aqui apresentada, das OGME, que era em madeira. Segundo o Cor Jorge Costa Dias, trata-se da lanterna Lucas.
Lucas3Lucas5Lucas1Lucas2Lucas6Lucas4Lucas7

Enviou-nos também uma fotografia de um telégrafo Herrmann, uma preciosidade que igualmente possui e que abaixo é reproduzida:
Herrmann

Uma visita ao Rijksmuseum

Instalado desde 1885 num belíssimo edificio propositadamente construído para o efeito em Amsterdão, o Rijks é o principal museu nacional holandês, dedicado à história e às artes, que visitei recentemente, e onde se podem encontrar obras extraordinárias da pintura mundial, como por exemplo A ronda noturna, do Rembrandt, ou A leiteira, do Vermeer, ou o Escritor afiando a pena, do Jan Ekels, ou A paisagem de inverno, do Hendrick Avercamp, ou ainda A companhia das milícias Meagre, do Frans Hals, entre muitos, muitos outros, e apenas para mencionar pintura e obras que me são caras.

IMG_0566Logo no R/C, e numa das primeiras salas, dedicada a apresentar inúmeros e belíssimos modelos de navios e diversas peças náuticas da época áurea holandesa, é possível encontrar, numa das vitrines, alguns modelos de telégrafos ópticos usados para comunicar de e para os navios, embora sem qualquer informação complementar. Contudo, dada a curiosidade, a seguir se apresentam alguns desses modelos, incluindo uma tabela de 5 símbolos usada para representar o alfabeto por meio de um sistema de portinholas:

IMG_0565IMG_0560IMG_0563IMG_0562Finalmente, não vou deixar passar sem reparo a ultima frase de um texto afixado numa das paredes dessa sala (0.13). Não lhes chegou a perseguição cerrada aos nossos interesses comerciais e estratégicos que nos fizeram à época, as pilhagens, os ataques, em Africa, na Asia, na Oceania, na América do Sul, em terra e no mar, agora até o Cabo da Boa Esperança tem origem holandesa?
Kaap de Goede Hoop? Chamar Traços da presença holandesa a uma mera tradução?
Situado quase no extremo sul de África, foi dobrado pela primeira vez pelo navegador português Bartolomeu Dias, em 1487, que o batizou na altura de Cabo das Tormentas. A designação “Cabo da Boa Esperança”, que se vulgarizou e internacionalizou mais tarde, e que alude às expetativas de chegar às riquezas do Oriente contornando o extremo sul de África, é atribuída pelo cronista João de Barros a D. João II. Segundo o cronista, “Partidos dali, houveram vista daquele grande e notável cabo, ao qual por causa dos perigos e tormentas em o dobrar lhe puseram o nome de Tormentoso, mas el-rei D. João II lhe chamou Cabo da Boa Esperança, por aquilo que prometia para o descobrimento da Índia tão desejada.”

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Heliógrafo Português m/938

Os heliógrafos portugueses foram fabricados a partir de 1930, inspirados no telégrafo de origem italiana (O M I), inicialmente nas Oficinas Gerais de Material de Engenharia e posteriormente na Fábrica Militar de Braço de Prata.

Dá-se a conhecer as instruções de funcionamento destes equipamentos, cujos fundamentos são comuns a todos os tipos de  heliógrafos
instruções de heliografo 1 001 instruções de heliografo2 001instruções de heliografo 3 001

Telégrafo de Postigos

Em 1810 foi criado oficialmente o Corpo Telegráfico, sendo Ciera nomeado seu Director. Ainda neste ano, para a ligação entre as estações de Buenos Aires e de Almada, encontrámos a primeira referência ao telégrafo de postigos(1) , também designado por tábuas, palhetas ou volante, que é uma simplificação do telégrafo inglês de Murray de seis postigos para três postigos. O telégrafo de postigos português, por utilizar as Taboas Telegráficas de Ciera, necessita só de três postigos, que lhe permitem representar os algarismos de 1,2,3,4,5,6 e duas posições de serviço – os três postigos abertos ou fechados.

Com este telégrafo e óculos de aumento 20 a 30 vezes conseguia-se comunicações a distâncias entre três a seis léguas(2)

telégrafo de postigos

Modelo do telégrafo de postigos à escala 1:4 construído para apresentação no bicentenário do CORPO TELEGRÁFICO em 2010 no RTm.

telégrafo de postigos2

telégrafo de postigos posições

Desenhos dos postigos e seu significado

Na obra “Outros tempos ou Velharias de Coimbra, 1850 a 1880”, de Augusto de Oliveira Cardoso Fonseca, publicada em 1911,este autor descreve o funcionamento do Telégrafo de Postigos de Coimbra, a que assistiu, da seguinte forma:
«Recordamo-nos de ter, por algumas vezes, visto funccionar esse telegrapho, a cujo serviço estavam dois veteranos que se revezavam de seis em seis horas. Era muito curioso o seu serviço que demandava a maior attenção. O telegraphista estava sentado n.um banco alto, para melhor poder consultar alternadamente os dois oculos de alcance que se conservavam assestados, cada um, em orificio proprio aberto na parede. Do tecto da pequena e estreita casita pendiam tres cordas, cada uma das quaes correspondia a uma das tres grades de madeira, pintadas de branco e preto, para signaes. O veterano servia-se da mão esquerda para com o auxilio das cordas imprimir movimento aos quadros e transmittir signaes; e com a direita ia escrevendo n.uma ardósia os signaes que recebia, designados por algarismos, os quaes depois passava ao papel, enviando-o ao governo civil, onde eram decifrados»
O processo em 1850 de utilizar só um operador para ver os telégrafos adjacentes ao seu, para escrever e manobrar as palhetas, era o mesmo já descrito por Ciera em 1808 para o telégrafo de ponteiro.

04-Torre Belém

Utilização do telégrafo de postigos na Torre de Belém(3)

(1)AHM Div14-163-29 m0014

(2) AHM/Div 1-14 -163-29 (m0009).

(3) Fotografia do Arquivo Fotográfico da CML

Heliógrafo OMI

No final dos anos 20, o Exército Português adquiriu em Itália heliógrafos da fábrica OTTICO MECCANICA ITALIANA (OMI). Estes heliógrafos utilizavam espelhos quadrados de 4,5 cm de lado, o que implicava que o seu alcance fosse inferior aos heliógrafos Mance, pois não ia além dos 3 a 4 quilómetros.

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A OMI foi uma companhia italiana criada em 1926 em Roma por Umberto Nistri (1895- 1962), o logotipo desta firma, como se pode ver, era constituído pela palavra Nistri em letras de tamanho mínimo, com a palavra OMI em letra grandes por baixo de Nistri ,e por baixo de OMI a palavra ROMA em letras de tamanho mínimo.

Telégrafo Português

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Modelo à escala 1:4, construído pelo Sargento-Mor Paim das Neves para a Coleção Visitável do RTm

O telégrafo português conhecido como telégrafo de ponteiro é um telégrafo ótico desenvolvido por Francisco António Ciera, em que há referência da sua existência em 1805, mas é numa sua carta de 1808 que explica o seu funcionamento e apresenta um desenho do telégrafo conjuntamente com os desenhos do telégrafo sueco Eldcrantz ( 1796) , inglês Murray (1795) e Francês Chappe (1793)

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Desenho de Ciera dos telégrafos Sueco-1024 sinais, Inglês-64 sinais, Francês-256 sinais e Português-8 sinais

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Citando o que escreveu:
“O português (que propus depois de ter examinados os apresentados e muitos outros ) tem uma só manivela ,com a qual se dá ao seu único ponteiro as inclinações 45⁰ em 45⁰a respeito do mastro vertical; de sorte que um só homem observa, faz os sinais e escreve, tudo a um tempo; pois tem a vista aplicada a uma luneta fixa ao mastro, move a manivela com a mão esquerda, ficando-lhe a direita livre para poder escrever em uma pedra convenientemente aplicada ao mastro para esse fim.”

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Em relação ao seu funcionamento, escreve:
“À primeira vista parece impossível satisfazer a tudo somente com 8 sinais; consegui isto por meio d`hum diccionário que compuz – com bastante trabalho -, e que contem mais de 60.000 palavras e frases, cada huma das quais tem por expressão telegraphica huma combinação dos nº 1, 2, 3, 4, 5 e 6 tomados a dous, a três, a quatro, a cinco, a seis.”

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A distância entre dois telégrafos não devia exceder 2,5 léguas (aproximadamente 15Km)

Em 1810 o Corpo Telegráfico é criado oficialmente, para o qual é nomeado Diretor, e é impresso o dicionário a que se refere, com o Título de TABOAS TELEGRAFICAS, na IMPRESSÂO RÉGIA e em que só constam cerca de 10 000 palavras.

Colóquio sobre a Telegrafia visual nas Linhas de Torres

Na tarde do passado dia 8 de dezembro, teve lugar no Auditório Municipal do Sobral de Monte Agraço um colóquio sobre a telegrafia visual nas Linhas de Torres.

Programa ColoquioO Cor Jorge Costa Dias, membro da CHT,  apresentou uma comunicação sobre Francisco António Ciera, o inventor do “telégrafo português” que pode ser lida aqui. Durante o colóquio estiveram expostos os modelos do telégrafo de ponteiro e do telégrafo de postigos de Ciera, que fazem parte da coleção visitável do Regimento de Transmissões.

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Os telégrafos ópticos nas comunicações com Almeida durante a 3ª invasão francesa

Quer neste blogue, quer nos livros publicados pela CHT, já foi amplamente descrita a génese das comunicações telegráficas militares no período das invasões francesas, quer nacionais, quer de origem inglesa (procurar, por exemplo, por uma das tags no final deste artigo, ou pesquisar na side bar do blogue).

Diversos foram os sistemas então testados e usados. Os telégrafos portugueses eram de 3 postigos, de 1 ponteiro, ou de 3 balões. O sistema inglês, mais pesado, moroso e complexo, que mais tarde veio a ser usado nas Linhas de Torres, recorria a um mastro com uma verga, donde pendiam 5 prumadas de balões. Usava balões e bandeirolas para a codificação dos sinais.

Quando da 3ª invasão, em JUL1810, estava já em funcionamento a Linha de Lisboa a Almeida, com ramais para Elvas (a partir de Santarém, por Almeirim) e para Abrantes (a partir da Atalaia, pela Barquinha), usando os telégrafos portugueses inventados por Francisco António Ciera, operados pelo Corpo Telegráfico do Exército português.

Mas além destes e do inglês das linhas de Torres, outros sistemas foram também usados durante as campanhas militares, pelo menos para a comunicação com a praça de Almeida, antes e durante o breve cerco e até à rendição formal (às 10 h da noite de 27AGO1810, pelo governador, o Brigadeiro General William Cox, na sequência da explosão fortuita do principal paiol, que ocorreu cerca das 19 h do dia 26). Infelizmente, um denso nevoeiro cobriu a zona nesses dois dias, impedindo quer as comunicações, quer mesmo a visualização à distância das explosões, apenas havendo notícia da sua frequência e da intensidade do som do bombardeamento de parte a parte.

Na realidade, antes da Batalha do Buçaco (27SET1810) e da retirada para as Linhas de Torres, já o TGen Arthur Wellesley (mais tarde duque de Wellington, Marquês do Douro, Marquês de Torres Vedras, Conde do Vimeiro, cavaleiro da Ordem militar da Torre e Espada, entre dezenas de títulos) mandara montar um sistema expedito de vigilância entre Celorico da Beira, Guarda e Almeida, para poder ser informado dos movimentos dos franceses naquele eixo de penetração, após a conquista de Ciudad Rodrigo, e para a comunicação com essas praças.

São desse tempo os documentos do AHM a seguir apresentados, em inglês, onde se descreve um tipo de telégrafo formado por um mastro e uma verga móvel basculante onde se podiam colocar até 4 balões, em duas prumadas, para representar as letras do alfabeto, e que, com mais um balão no topo do mastro, permitia transmitir algarismos.
PT/AHM/DIV/1/14/270/01 (imagens 33 e seguintes)

Note-se os 4 códigos de serviço na linha superior, o 1º para anteceder nova transmissão, sinalizando o final da palavra anterior, o 2º para transmitir “afirmativo” (recebido), o 3º para “negativo” (não entendido) e o 4º para pedir a anulação do sinal anteriormente transmitido. Na linha de baixo pode ler-se que “Com a adição de um balão no topo do mastro, os sinais acima representam números, de 1 até 24, que correspondem às frases no verso da página”. Estas frases, previamente definidas, foram mudando com o evoluir das situações tácticas, e representavam os assuntos de maior pertinência para o momento:

Na iminência do cerco, as frases acima, destinadas ao BGen Cox, referem-se sobretudo a obter informações sobre o In, localização e numero das suas unidades, baterias, comboios, depósitos, etc, e sobre reforços, aprovisionamentos, munições, etc.
Outro exemplo de frases codificadas previamente acordadas, certamente posterior, pois já contemplam a eventualidade e as zonas de ataques, minagens, possibilidade de capitulações, morte ou ferimento grave do governador, dos comandantes da Engª ou Artª, etc:

Continuação do documento anterior, especificando no verso as 6 possíveis zonas do ataque (ou da sua iminência), ou a minagem, entre os diversos bastiões, que deveriam ser imediatamente comunicadas de seguida à transmissão dos sinais 5 ou 6:
E ainda mais um exemplo de um documento do AHM, reflectindo as diversas cópias então efectuadas para distribuição das instruções para a codificação das letras e algarismos para utilização deste diferente tipo de telégrafo: