Os 20TPL (2)

Post do MGen Edorindo Ferreira, recebido por msg:

Algumas razões do insucesso do rádio 20 TPL da Standard Eléctrica

Julgo poder afirmar que a “ideia luminosa”, mas arriscada, do TCor Rodrigo Leitão de projecto e fabrico de um rádio táctico português, não teve de início aceitação geral. Embora corajosamente apadrinhada de imediato pelo Director da Arma de Transmissões, Brigadeiro Pereira Pinto, houve vozes discordantes no Exército e mesmo dentro da Arma. Estávamos no Verão de 77, com Forças Armadas ainda não estabilizadas e sem rumo bem definido, pelo que, como seria de esperar, os obstáculos a vencer foram mais que muitos.

No entanto, a “grande aventura” chegou a bom porto depois de algumas tormentas, com a produção do P/PRC-425, que nos primeiros anos da década de 80 começou a ser distribuído a todo o Exército, tendo-se revelado um sucesso.

O mesmo não se pode dizer do sucedido no início da década de 70 com a iniciativa da Standard Eléctrica (SE) de concepção e produção do equipamento rádio de HF denominado 20 TPL, na sua óptica visando satisfazer as necessidades das Forças Armadas nas guerras africanas, e transferir para a indústria nacional de telecomunicações as aquisições efectuadas no estrangeiro. É importante referir que a SE, com o seu equipamento, tinha em mente substituir o TR 28, em serviço desde 68 com boa aceitação, depois de várias tentativas frustradas de equipar as tropas em campanha com um rádio táctico de qualidade.

O Sr. João Freitas, num post sobre o 20 TPL, já aflorou as razões para o fracasso do projecto da SE. Com este artigo pretende-se aprofundar o sucedido e, quiçá, “espicaçar” os que viveram esse tempo, para um saudável debate sobre os motivos que inviabilizaram o negócio da SE.

Vejamos a cronologia do processo:

Julho de 70 – Apresentação do 1.º protótipo à Direcção da Arma de Transmissões (DAT), por iniciativa da SE. De imediato foram sugeridas diversas alterações, de modo a melhorar as características técnicas e operacionais do equipamento, manifestamente insuficientes. Os representantes da SE foram também informados da metodologia para aprovação de novos rádios para o Exército: entrega de 3 exemplares para ensaios prévios em laboratório, a que se seguiria, após provas satisfatórias, a aquisição de 50 para ensaios em campanha durante 6 meses.

Outubro de 70 – A SE propôs que a DAT adquirisse uma ou duas centenas de rádios, que já estariam em produção, sem ter ainda fornecido os três equipamentos para os ensaios prévios!

Abril de 71 – Finalmente entregues três equipamentos para ensaios.

Outubro de 71 – Ensaios laboratoriais concluídos. A DAT informa superiormente que o 20TPL não satisfaz como equipamento para o Exército, pelo que não recomenda a sua aquisição para ensaios de campanha. O Brigadeiro DAT, para dissipar quaisquer dúvidas, determina a realização de um estudo comparativo com o TR 28, identificando as vantagens e os inconvenientes de cada um, o qual poderia ser acompanhado pelos engenheiros da SE.

Não obstante o parecer da DAT, um despacho ministerial determinou a aquisição de 50 rádios, após carta da SE em que solicitou protecção para a sua fabricação nacional. Simultaneamente, a firma tentou que fosse suspenso o processo de aquisição de 500 TR 28, com o argumento de que o seu equipamento era o substituto adequado, de fabrico nacional.

Novembro/Dezembro de 72 – Mais de um ano depois do despacho ministerial e mais de dois após a SE ter anunciado que já tinha os equipamentos em produção, a firma entregou os 50 rádios. Apenas 5 ficaram em Lisboa e os restantes foram entregues directamente em Angola, Moçambique e Guiné (15 para cada), para os tão desejados ensaios em campanha.

De acordo com os ensaios sumários de imediato efectuados, o rádio continuava a não servir. Para a DAT, a SE não tinha melhorado suficientemente o equipamento, pois não havia efectuado as alterações consideradas essenciais, sucessivamente transmitidas verbalmente e por escrito.

Apesar de continuar a não recomendar o equipamento, a DAT ter-se-á resignado a que os ensaios em campanha fossem iniciados, os quais viriam a ter os resultados esperados. Ordens superiores?

Janeiro de 73 – Para grande desconforto da DAT, a SE continuou a tentar influenciar os decisores políticos e militares, com afirmações e insinuações consideradas não verdadeiras e mesmo ofensivas, para que o Exército lhe adquirisse uma quantidade significativa de 20 TPL. A posição da DAT foi irredutível e mesmo algo agressiva, ao informar do descrédito em que era tido em todo o Exército, e em especial nas tropas em campanha, o material de HF da SE, com as inerentes consequências para a Arma. Em vez de manobras para conseguir aquisições, melhor seria a produção de equipamentos que honrassem a firma e que prestigiassem a DAT. Acrescentou ainda que teria sido aconselhável acolher a experiência que o Exército em campanha representa, de modo a resolver os problemas sem procurar impor soluções unilaterais, cuja eventual aceitação iria fazer retroceder o Exército para antes do TR28, quando estava equipado com material HF da SE.

E assim foi ditada a “sentença de morte” ao 20 TPL.

Mas o que terá levado a SE a lançar-se na aventura de conceber e construir, a partir do zero, um rádio completamente novo? Motivos patrióticos, ou comerciais numa tentativa de sobrevivência da empresa?

A SE sabia do sucesso do TR 28, de que já tinha produzido e fornecido algumas centenas, sob licença da RACAL, e que, para o substituir, o rádio a fabricar teria que superar as suas capacidades operacionais e técnicas.

Também era conhecida a desconfiança da Direcção da Arma de Transmissões em relação à Standard Eléctrica, motivada pela recordação do que se havia passado com a aquisição dos rádios de HF CHP-1 e DHS-1, que custaram 140 000 contos (um valor elevado para a época) e que não deram provas cabais em campanha, por serem de operação complicada e de manutenção difícil e dispendiosa. Não terão valido o que custaram, causaram alguns dissabores à Arma e às tropas e, com a chegada do TR28 (em 1968), foram de imediato para a prateleira.

Estavam assim reunidas as condições para a lei de Murphy se aplicar. Mas algo mais não terá corrido bem.

Como já referido, a iniciativa de projecto e fabrico foi da SE e não do Exército, numa atitude meritória mas muito arriscada. Com o P/PRC 425 sucedeu o oposto, com a iniciativa e o empenhamento decisivo da Arma de Transmissões em todas as fases do processo. Salvo melhor opinião, foi esta a razão primeira para o sucesso de um caso e o fracasso do outro.

Por outro lado, julgamos que os engenheiros da SE, alguns deles também professores do Instituto Superior Técnico, teriam boa formação teórica, mas faltava-lhes experiência técnica e militar para o projecto e fabrico de um rádio de campanha. Além disso, não terão sabido acolher as opiniões e sugestões ditadas pelos conhecimentos teóricos e práticos dos engenheiros da Arma.

E, finalmente, será que a SE teve apoio da “casa-mãe”, a americana ITT? Possivelmente não, por questões de âmbito político.

Eventualmente outras razões haverá. Aqui fica o meu contributo para início de debate.

NOTA: artigo escrito essencialmente com base em correspondência trocada entre a Direcção da Arma de Transmissões, a Standard Eléctrica e a Comissão de Reequipamento Extraordinário do Exército e da Força Aérea (CREEFA), de Outubro de 70 a Janeiro de 73.

Anúncios

Os 30STPL

Post do nosso leitor Sr. João Freitas, recebido por msg:

Quando relembrámos o rádio “20 TPL” (ver aqui), deixámos antever que o seu imediato sucessor, o “30 STPL”, também pouco traria de bom, nem alteraria a impressão medíocre deixada pelo primeiro.

Um 30STPL no seu saco de transporte

Projetado e fabricado na Standard Electrica (de seu nome completo “30STPL”), pensamos que deverá a nomenclatura “STPL” à evolução da sigla do seu antecessor “20 TPL”. Por ser um aparelho sintetizado, é acrescida a letra “S” ao grupo “TPL” que por si só será a abreviação de Transistorized Portable. Numa leitura final, “STPL” será a redução de Synthesized Transistorized Portable, No entanto (e para não tornar este texto longo demais) pedimos aos interessados que leiam as “Notas” do artigo anterior (sobre o 20TPL), pois poderá haver outra explicação válida para esta sigla. Nunca encontrámos enquadramento cabal para os números 20 e 30. Alguém, de vós, poderá dar uma ajuda?

Em catálogos e manuais diversos, a essa sigla pouco ortodoxa junta-se uma confusão de definições gerais relativas tanto ao 20TPL, como ao 30STPL. Por exemplo, nos catálogos do “20” ele é apresentado na capa como sendo “20TPL HF SSB Transceiver Packset”, na folha seguinte diz-se que é “Model 20 TPL Transistorized Portable Combat Set”, para além de outras encontradas em diversa propaganda. Relativamente ao rádio de que hoje tratamos, a capa do manual original refere-se-lhe destacadamente como sendo “30STPL  SSB Transmitter-Receiver”, para de imediato o definir na segunda folha como “30STPL Synthesized Packset”.

Estas incoerências na apresentação de um produto deste tipo, que queremos lançar num mercado externo muito aguerrido, geralmente pagam-se caro. Assim como se paga cara a escolha de uma nomenclatura identificativa que pouco ou nada tem em termos de leitura universal convencionada. Já que a Standard, nessa altura, não escolheu o sistema “JAN” (1), ainda bem que adotou as mencionadas siglas, pior seria se os tivessem chamado de “Amália”, “Eusébio” ou “Saudade”…

Como se passou com o “20”, o desenvolvimento do “30” está ligado á Guerra Ultramarina, ao desejo de em breve substituir o “velho” TR-28, a possibilidade de exportação mantendo em laboração um número apreciável de funcionários qualificados. No caso do “30” estaria em jogo a viabilidade da própria empresa. Nada disso veio a acontecer.

Por que razão é que, depois do relativo fracasso do 20 TPL, se incorre nos mesmos erros e se agravam outros? Por que motivo, a um rádio temperamental e incómodo de transportar, se segue outro, dito “mais avançado tecnicamente”, mas maior, muito mais pesado e também problemático? Por que é que, na manufatura dos sacos de transporte (mal dimensionados) se continuou a utilizar lona de fraca qualidade que ao fim de duas chuvadas já não permitia que se fechassem convenientemente, ou com alças que não suportariam o enormíssimo peso?

Assim como sucedeu com o “20” e antes de chegar à forma definitiva (até hoje em dia apenas encontrámos uma versão final), sofre muitas alterações, sendo diversos os protótipos ensaiados, nomeadamente com alterações a nível do painel de comando. Um amplificador de áudio (acessório) recebe também diversas modificações (2). Logo após Abril de 74 recolhem à caserna, de onde quase nunca saíram. Algumas unidades serão oferecidas à CVP. Pouco tempo depois todas estarão na sucata, transformadas em reluzentes lingotes.

Ao perscrutarmos o interior, apercebemo-nos das razões do seu desmedido peso e tamanho. Peças grossas de alumínio, e módulos eletrónicos enormes com diversas blindagens elétricas, onde a palavra miniaturização não teve cabimento, para além de um pack de baterias muito grande e pesadíssimo (deverá ter sido dimensionado tendo em vista o grande tamanho do bloco rádio). Até a estaca do plano de terra era enorme e pesada, mais parecendo uma arma medieval de último recurso. Habituados a ver outros “interiores” de diversos aparelhos congéneres, parece-nos que a palavra de ordem foi “forte e feio, que quem vai carregar não sou eu”. Infelizmente assim nos parece.

Os engenheiros da Standard apercebendo-se tardiamente do peso desmesurado, tentam duplicar algumas peças em resina e fibra de vidro. Tal não vem a resultar, como provam diversas caixas exteriores do pack de baterias feitas nesse composto. Por serem finas demais, não aguentavam os fechos de fixação nem os impactes no solo, tendo sido encontradas em estado lastimoso.

Cerca de 40 anos depois do SCR-300/BC-1000 (2ª Guerra Mundial), com 18 válvulas e uma pilha gigante (ocupando mais de metade do rádio), conseguimos fazer um aparelho totalmente transistorizado, mais pesado e problemático.

Pormenor da fixação da antena

Mas nem tudo era “coisa ruim”. Apesar de parecer que entramos em contradição, tal não acontece quando falamos sobre o desenho do painel de comandos, simples e totalmente original, dos soberbos manuais técnicos; o esmerado planeamento interno, tornando a substituição e reparação de qualquer dos seus cinco módulos principais extremamente fácil; o cuidado em todos os acabamentos e componentes empregues e o excelente tipo de pintura utilizada (electroestática). Com o bloco eletrónico no exterior, todo o painel frontal podia rodar 90º para facilitar o acesso a zonas geralmente difíceis de alcançar. Estando o aparelho montado no seu suporte para utilização fixa/veicular, a base onde era atarraxada a antena tinha a particularidade de poder rodar cerca de setenta graus, permitindo a verticalidade da mesma. O manuseamento operacional sem instruções prévias seria muito fácil para qualquer militar, mesmo que não fosse de transmissões.

Articulação da antena referida no texto acima

Os seus periféricos imediatos (microtelefones, auscultadores) eram do tipo inglês clássico, amplamente difundidos nas nossas Forças Armadas e que encontramos em inúmeros aparelhos (ex. TR28).

João Freitas

(Adaptado de um artigo original publicado na revista “QSP”)

Características principais do 30 STPL

Rádio recetor/transmissor de transporte ao dorso, sintetizado. Dotando-o de suporte especial pode ter utilização fixa ou veicular. Estavam previstos vários modos de carregamento das dez baterias de Ni-Cd, incluindo um gerador manual (igual ao do 20 TPL e cópia de um modelo inglês). Estava contemplada uma alimentação de 220vca/12vcc para utilização em posto fixo (igual à do 20 TPL). A grande maioria dos seus acessórios também tinha aí a sua origem.

Frequências       2Mhz  aos  12Mhz (11.999Mhz)

Canais               10,000, c/ possibilidade de sintonia entre canais

Modelação         AM; USB; CW,  todas em BP ou AP

Potência             30W em SSB; 15W em CW

Alimentação      12V

Peso                   Mais de 17 quilos (reais) c/ acessórios.

Notas

1-    Em anteriores artigos foi esclarecido que “JAN” ou apenas “AN”, é a abreviatura de “Joint Army Navy”, designação de um código identificativo americano (de 1943) universalmente aceite ou adaptado para identificar diverso tipo de material militar. Quando este código é aplicado nos EUA em material seu, a sigla começa sempre por AN sendo seguida por um travessão e posteriores letras e números (ex. AN/PRC-10). Quando esse material é feito noutros países, são adicionadas no seu final as letras identificativas desse país ex. AN/PRC-10Gy (Gy/Germany/Alemanha). Fora dos EUA e mais recentemente, simplifica-se o código, substituindo as letras “AN” pelo indicativo do país fabricante (ex. P/PRC-425, aqui o 1º “P” identifica Portugal), mantendo, o conjunto de três letras posteriores, o significado que já tinha anteriormente e que devido às inúmeras conjugações pode ser, quase, interminável.

2-    Este curioso amplificador de áudio (para utilização em fixo) substituía o pack de baterias (era idêntico em dimensões). Quando aplicado ao rádio, estava previsto que a alimentação fosse feita por um cabo exterior ligado a 12Vcc. Também, neste caso, o microtelefone era ligado ao amplificador.

Os 20TPL

Post do nosso leitor Sr João Freitas, recebido por msg:

Desde o início das comunicações militares, Portugal tem sido sujeito activo na concepção e fabricação de diverso tipo de aparelhos e acessórios para esse fim. Projectos originais totalmente realizados no nosso País, montagens com base em licenças estrangeiras ou até algumas cópias feitas nos mais impensáveis sítios foram-se revezando ao longo do tempo, facto que nos dá algum alento doméstico sem no entanto ter expressão fora das nossas fronteiras. Como parte de uma explicação para esse facto será preciso ter em conta que este tipo de material está sujeito a mercados de dificílima penetração, com clientela inclinada para firmas conhecidas, há muito estabelecidas no meio.

Referindo-nos apenas aos rádios, são as décadas de vinte e de trinta, e as quatro últimas, as que delimitam a criatividade e os picos de produção portuguesa neste campo. Nas primeiras duas, em unidades militares de Coimbra e Lisboa, nas outras em diversas indústrias em Lisboa e em seu redor.

Em 1969, tendo em vista a sua utilização na Guerra do Ultramar, a viabilidade das suas linhas de montagem e a possibilidade de venda ao estrangeiro (1), a ITT Standard Electrica propõe a realização de um receptor-transmissor de transporte ao dorso. É dada a esse rádio a nomenclatura “20TPL” (2).

Aspeto geral do 20 TPL;
Note-se, ao meio, as duas fixações para o suporte veicular

Como se disse diversas vezes em outros artigos, a Standard Electrica foi, sem sombra de dúvida, uma das mais importantes firmas ligada à montagem de rádios militares em Portugal, tendo por esse motivo um trato recíproco muito particular e a diversos níveis com as FA. Este fator empresarial, coadjuvado por um sector militar sempre presente, com funções supervisoras e de aconselhamento, são a trave mestra da indústria eletrónica militar em Portugal há mais de cinquenta anos.

A Standard foi responsável, pela montagem sob patente dos TH.C.736 e TH.C.737, dos AVP-1, dos DHS-1 e CHP-1, e de diversos modelos de RACAL TR-28. Não esqueçamos ainda que, para além dos 20TPL, 30STPL e dos modelos anunciados anteriormente, criou e fabricou outros rádios para fixo e móvel, destinados não só às FA, como também às forças militarizadas e de polícia. Nem todos foram casos de sucesso. Após o seu fecho, apenas o seu belo edifício principal, na Av. da Índia em Lisboa defronte à antiga Feira das Indústrias (*), resistiu a décadas de abandono. Os pavilhões anexos onde se montaram milhares de rádios de todo o tipo, foram demolidos há muitos anos.

À complexidade de criar um aparelho original, fiável, e obedecendo a estreitos requisitos bélicos, juntavam-se os condicionalismos a que Portugal estava sujeito, devido à posição singular que tinha assumido em África. Evidenciavam-se essas dificuldades na simples compra de componentes com estreitos requisitos militares, para não falar no alumínio (desse tipo específico) com que viriam a ser feitas diversas peças de estrutura interna e externa. Estas dificuldades seriam solucionadas negociando com países amigos, ou servindo-nos deles como intermediários.

Não esqueçamos que, qualquer novo rádio de transporte ao dorso, iria fazer frente aos RACAL TR-28, já em utilização e que tão boas provas estavam a dar. O aparelho emergente teria que ser tão bom ou melhor. Apesar da vontade, tal não viria a acontecer. O seu sucesso interno, se o teve, foi fogo-fátuo, ao exterior não seria vendida nenhuma unidade.

Uma realidade é a montagem de aparelhos, mesmo tendo incorporação de componentes totalmente feitos em Portugal, outra totalmente diferente é, a partir do zero, fazer um rádio completamente novo. Aparentemente sem experiência recente neste campo (referimo-nos a aparelhos tácticos de transporte ao dorso), os engenheiros da ITT, depararam com dificuldades em juntar num mesmo produto final a técnica, a operacionalidade, a originalidade e a estética. Prova disso são os vários protótipos totalmente funcionais que temos encontrado ao longo dos anos, para além de diversos modelos conceptuais mostrados em catálogos.

Painel de comando (versão em inglês)

Nesta amálgama de versões, que nunca passaram à fase de produção em série, já observámos de tudo, por exemplo: diversas caixas exteriores com e sem nervuras de reforço, diversos painéis de comandos e alterações de disposição dos mesmos, alterações das tomadas de periféricos e na forma de encaixe para a antena tubular, até a alteração radical da posição do pack de baterias, da parte inferior do rádio para um dos seus lados! Estas sucessivas modificações, consumidoras de dinheiro e energia, estão também patentes nos periféricos. A profusão de versões diferentes acabadas e a total falta de informação fiável sobre o assunto, leva-nos a ter enorme dificuldade em determinar onde acabam os protótipos, e onde começam as pré-séries (se as houver) e diferentes modelos finais e a sua evolução. Neste caso, como em muitos outros, os catálogos e promocionais de fábrica não são base de pesquisa segura, ao apresentarem, como dissemos, por vezes, modelos conceituais que nunca irão sair do estirador.

Detalhe da zona onde é fixada a antena

Como produto final, com produção significativa, sobressaem pelo menos duas versões finais que têm como distinção o número de canais (ver quadro abaixo). Ambas pintadas em tons de verde oliva (em 2 ou 3 cores de padrão NATO/RAL), sem nomenclatura que as distinga, usando microtelefones tipo RACAL TR-28 e sacos de transporte em lona de má qualidade mas bom acabamento. Ao ter um rádio destes na mão algo nos diz da sua origem lusitana, algo que não podemos, em certeza, definir, mas que pressentimos. Decerto não serão apenas as indicações de função em português (existem em português e inglês), talvez seja a mistura de estilos e de soluções para diversos problemas que nos dá essa necessária informação.

Mal-amado desde o princípio, visto de soslaio pelos militares que no início da década de setenta tinham mais que fazer do que andar a experimentar um projecto novo, e em parte desnecessário, incómodo de transportar, com alguns problemas electrónicos (que teriam sido facilmente resolvidos) e uma intrincada alteração de frequências, onde não bastava a simples substituição dos cristais. Tendo ainda que se confrontar com o seu rival TR-28, rapidamente passa para um segundo plano de onde nunca sairá. Muito poucas unidades chegarão ao Ultramar. O exército, sem saber o que fazer com eles, resolve ceder à Cruz Vermelha Portuguesa muitas unidades. Com essa nova gerência também não têm sorte, continuando arrumados a um canto (parte deles na antiga delegação da Amadora e na sede em Lisboa), até ao aparecimento do inevitável sucateiro.

Uma parte do espólio não utilizado, resultante da sua produção, tal como gabaritos de montagem, incontáveis excedentes novos do mais variado tipo e fase de acabamento, diversos protótipos e material pronto, foi parar em 1994 a um industrial de reciclagem de excedentes metálicos (leia-se, ferro-velho!) perto de Lisboa.

Pouco tempo depois, a Standard Electrica, persistirá teimosamente na vã tentativa de “um rádio português” e lançará o “30STPL”. Seria outro infeliz projecto do qual falaremos proximamente. Somente em 1978/79, o P/PRC-425, planeado e executado na Centrel, faria esquecer estes percalços e relançar a indústria de comunicações militares tácticas num dos caminhos ao seu alcance. Posteriormente a Sistel lançaria o P/PRT-825 e outros. Atualmente a EID introduz no mercado diversas versões da série 525.

João Freitas

Características dos dois principais modelos 20TPL, sendo a sua principal diferença o número de canais.

Rádios receptores/transmissores de transporte ao dorso, comandados a cristais. Dotando-os de suporte especial podem ter utilização fixa ou veicular. Estavam previstos vários modos de carregamento das dez baterias de NiCd, incluindo um gerador manual (muito similar a um modelo inglês). Foi anunciada uma caixa de alimentação, destinada a albergar pilhas secas de 1.5V cada. Nunca a encontrámos, nem ninguém se lembra da sua real existência. Estava contemplada uma alimentação de 220Vca/12Vcc para utilização em posto fixo.

Frequências: 2Mhz aos 12Mhz

Canais: 6 ou 23, ambos comandados a cristais. As versões de 23 canais são em número muito superior

Modulação: AM; USB ou LSB e CW

Potência do trm.: 20W em SSB, 10W em CW

Alimentação: 12V em 2 packs recarregáveis de 6Ah ou 3.5Ah

Peso: Cerca de 10 quilos c/ acessórios

Notas:

(1) Visando esses mercados, os catálogos e manuais técnicos tinham versões em inglês.

(2) A sigla “20TPL” poderá ser a abreviação de TRANSISTORIZED PORTABLE, forma já reduzida da designação de fábrica – “Model 20 TPL, Transistorized Portable Combat Set”. Foi-nos dito, há alguns anos, por dois engenheiros ex- responsáveis da ITT (áreas da metalomecânica e do desenvolvimento dos módulos) que essa sigla teria o significado de “Telefone Portátil Lisboa”. Não sabemos qual delas será a certa (pensamos ser a primeira!), ou se haverá ainda uma terceira hipótese.
Haverá por aí alguém que nos possa esclarecer?

(Adaptado de um artigo saído na revista “QSP”)

(*) – Onde hoje funciona a OML (Orquestra Metropolitana de Lisboa)

CHP-1 e DHS-1

Largamente utilizados  nas  guerras em Angola, Moçambique e Guiné nos finais dos anos 60, sobretudo até ao aparecimento do TR-28, o CHP-1 e o DHS-1 (representado na fig) constituíram uma família de Rádios transistorizados HF, AM/PM e CW, de sintonia contínua ou cristalizados (18 cristais possiveis, 9 em cada sub-banda: baixa, dos 2-4 e alta, dos 4-8, com intervalos de 2.5kHz), na banda dos 2 a 8 MHz (embora, formalmente, a banda HF comece nos 3 MHz). Podiam trabalhar em fonia – com micro-auscultadores (normal ou de cabeça), ou em grafia – com chave Morse.

RF output de 2 W (CHP-1 ou DHS-1 em LP) ou cerca de 20 W (DHS-1 em HP). Alcances de cerca de 40 Km (LP) até 1.200 Km (HP), conforme o equipamento, a antena utilizada e as condições locais de propagação.

O DHS-1 (4 baterias de cádmio/níquel de 12 V recarregáveis) era um CHP-1 (2 baterias) com um amplificador de RF. Possuiam uma sensivel Unidade de sintonia de antena aparafusada no topo, o que lhes dava um aspecto caracteristico.

A carga das baterias podia efectuar-se empregando, ou um gerador manual (BCC-113); ou uma unidade estabilizadora de carga m/967 e um PROTOM ou um FRAPIL; ou um carregador a partir de baterias 12/24 V (BCC-501); ou ainda um carregador a partir da rede 110/220 V (BCC-503).

DHS-1 - Exemplar da CV do RTm

Transportáveis a dorso (CHP-1), ou fixos/montagem veicular (DHS-1), embora este também pudesse ser transportado a dorso (backpack), pois os sacos de transporte tinham as mesmas dimensões, com o inconveniente de este ultimo pesar cerca de 17 Kg (versus 11 Kg), mas com a vantagem de um muito maior alcance (em HP).

Utilizavam uma antena vertical de 2,43 m, ou um dipolo de dois braços de fio de cobre isolado com 36,27 m cada e com baixada em cabo coaxial de 15,24 m, ou ainda uma antena unifilar de cobre com 8,23 metros.

De origem inglesa (onde tinham a designação A-14/BCC-30), foram fabricados em Portugal pela Standard Electrica (instalada em Alcântara, junto ao rio Tejo, no edifício que hoje alberga a Orquestra Metropolitana de Lisboa).

Em Inglaterra foram sobretudo usados pelos Royal Marines Commandos e pelos Para Battalions.

Fonte principal: Instruções dos emissores-receptores DHS-1 e CHP-1, de 1968, da Direcção da Arma de Transmissões
Manual: TM 189, de ABR1966

Para mais informação, ver por exemplo aqui, ou procurar os inumeros manuais técnicos aqui.

Esquemas do DHS-1 e da instalação da antena dipolo