As TRANSMISSÕES na GRANDE GUERRA – Relatório de Soares Branco (5)

Post do Cor Aniceto Afonso, recebido por msg:

  1. AS ESCOLAS DE FORMAÇÃO

Introdução

O capítulo II do relatório do capitão Soares Branco, que ocupa cinco páginas, refere-se, em primeiro lugar, à organização e preparação das unidades de telegrafistas e das secções de sinaleiros da 1ª Divisão. Como veremos, a sua principal preocupação é a montagem das escolas de telegrafistas, mas especialmente das escolas de sinaleiros, que ele sabia carecerem de muita instrução para bem desempenharem as tarefas que os aguardavam. É também neste capítulo que Soares Branco aborda a questão da organização inicial da força portuguesa, já que para o responsável do Serviço Telegráfico era essencial saber como se iriam articular as unidades, a fim de planear a forma como lhes seria fornecido o apoio em comunicações.

A alteração orgânica do CEP de uma Divisão reforçada para um Corpo de Exército a duas Divisões, proposta pelo Comando do CEP ao governo português logo em fevereiro de 1917, sob sugestão do chefe da missão britânica junto da força portuguesa, que decerto teve a cobertura dos altos comandos ingleses, desencadeou uma série de ações no sentido de completar os quadros orgânicos em pessoal e material por parte de todos os responsáveis pelos vários serviços de apoio.

Embora as preocupações do capitão Soares Branco estivessem concentradas na instrução dos seus efetivos, tanto telegrafistas e telefonistas, como sinaleiros e outras especialidades do seu âmbito, tomou como prioritária a necessidade de propor o recompletamento dos seus efetivos, na perspetiva de ser constituído um Corpo de Exército a duas Divisões, assim como um Corpo de Artilharia Pesada, como já vimos.

Ainda em fevereiro de 1917, pouco depois da sua chegada a França, Soares Branco propôs algumas alterações nos quadros de pessoal, como recorda no seu relatório:

Nesta incerteza de efetivos futuros em que ainda continuava, e do número e natureza dos Quartéis-Generais a constituir, propus, e imediatamente foi aprovada e enviada a proposta para a Metrópole, a vinda de 13 praças de te­legrafistas de praça por cada Batalhão de infantaria que marchasse para França, e a vinda de seis oficiais de Engenharia para as ligações da Artilharia. (Nota e proposta de 19-02-17)”.

E, logo que teve a certeza da futura constituição do Corpo de Exército, fez ainda outras propostas:

“Na primeira quinzena de março, tendo tido conhecimento de que o CEP passava a constituir um Corpo de Exército a duas Divisões a três Bridadas, e um Corpo de Artilharia Pesada, submeti à apreciação do Chefe do Estado-Maior em 19-03-17 as seguintes propostas relativamente a pessoal:

  1. Necessidade de se instar pela vinda de 312 telegrafistas de Praça, correspondendo a 13 praças por cada Batalhão de infantaria;
  2. Necessidade da vinda imediata de seis subalternos de Engenharia a mais do que os Quadros Orgânicos determinavam;
  3. Criação da Escola de Sinaleiros;
  4. Necessidade da vinda de uma 3ª Secção de Telegrafistas para o Corpo, além da Secção de Telegrafistas de Praça já existente, ficando cada Divisão com uma Secção de Telegrafistas de Campanha;
  5. Urgência da chegada a França do material do Trem de Engenharia Automóvel e do pessoal e material da Oficina do Depósito Avançado;
  6. Criação de Secções de sinaleiros nos Batalhões de Infantaria e nos Grupos de Artilharia”.

Mas, para além do recompletamento de efetivos, tornava-se necessário adequar também o material orgânico:

“E na parte referente a material, submeti a aprovação de Sua Exª o General, o quadro completo das dotações de todas as Unidades do CEP, organizado de acordo com o estabelecido como indispensável na presente Guerra, e que foi aprovado em 30-03-17.

Nesse quadro fiz incluir, por prever a sua futura aplicação, uma Secção Automóvel construtora de Linhas de Fio, completa”.

As escolas de formação

O que verdadeiramente preocupava, não apenas o capitão Soares Branco, mas todos os responsáveis pelos vários serviços e pelas unidades de linha, era a consciência que tinham da impreparação das tropas portuguesas para a guerra de trincheiras.

Logo em Dezembro de 1916 avançou para França, através de Espanha, um largo conjunto de oficiais e sargentos, num total de cerca de 100 elementos, para organizarem um período de formação das tropas portuguesas. Deviam eles próprios frequentar as escolas inglesas e organizar depois as escolas portuguesas que tinham por missão preparar os militares portugueses para a realidade da guerra, tanto em termos do uso de novas armas e materiais, como no conhecimento de novas táticas e formas de combate.

Depois de um período de frequência das escolas britânicas, situadas na região de Étaples, os primeiros instrutores portugueses deram corpo a um plano geral de instrução para as tropas do CEP aprovado em março de 1917. O plano contemplava três períodos – ginástica e palestras; uso da baioneta, de granadas e serviço de patrulhamento nas trincheiras; e instrução especial de acordo com as especialidades ou aptidões de cada um.

As principais escolas portuguesas criadas na zona de concentração do CEP foram as seguintes: a Escola de Emprego de Baioneta, em Mametz; a Escola de Granadeiros, em Marthes; a Escola de Metralhadoras Ligeiras, também em Marthes; a Escola de Metralhadoras Pesadas; a Escola de Tiro, Observação e Patrulhas, em Pacaut; a Escola de Morteiros de Trincheira; a Escola de Gás, em Mametz, entre outras. Passaram por estas escolas milhares de militares que assim se foram familiarizando com os novos armamentos e materiais e também com as novas técnicas e táticas. Também ao nível divisionário foram criadas escolas, em especial de baioneta, metralhadoras, gás e granadas.

Depois deste período de instrução, e antes de assumirem responsabilidades na frente, as unidades tipo companhia faziam estágios na frente, junto de unidades inglesas.

A Escola de Sinaleiros

Apesar das preocupações que naturalmente lhe mereciam os telegrafistas e os telefonistas, a verdade é que Soares Branco sabia que o esforço de formação devia ser canalizado para os sinaleiros. É por isso que desde logo planeia a montagem de uma Escola de Sinaleiros, que vem a ser em Quiestede, e apresenta o respetivo programa de instrução:

Limitei-me pois a informar o Comando da necessidade de fazer montar uma Escola de Sinaleiros onde fosse completada a instrução das nossas tropas, fosse qual fosse o seu efetivo, e juntamente submetia a aprovação o programa da mesma instrução:

As matérias a versar na Escola constavam de cinco Secções:

a) lª Secção:

telegrafia acústica simples

telegrafia acústica de corrente dupla.

b) 2ª Secção:

telefonia acústica (buzzer)

telefonia falante

c) 3ª Secção:

telegrafia ótica com bandeiras, quadros venezianos

d) 4ª Secção:

escola de guarda-fios

e) 5ª Secção:

Regras de transmissão, receção, classificação de despachos e sua escrituração.

f) 6ª Secção:

Breves noções sobre o funcionamento do serviço e dos aparelhos em uso nas estações.

 

A 6ª Secção seria diretamente dirigida pelo oficial Comandante da Secção de Telegrafistas de Praça.

Para as praças das unidades de telegrafistas era obrigatória a instrução das cinco Secções (1. 2. 3. 4. 5.)

Às praças de Infantaria era ministrado o ensino das 2ª e 3ª Secções.

Às praças de Artilharia que viessem a frequentar a Escola ser-lhes-ia ministrada a instrução da 2ª, 3ª e 4ª Secções.

Sumariamente, tanto as praças de Infantaria como as da Artilharia era-lhes dado na parte que lhes dizia respeito, noções da 5ª Secção.

O 1º Exército fornecia-me, por empréstimo, o material necessário e com ele dava começo aos primeiros trabalhos, elaborando uns primeiros esquemas e diagramas para a compreensão dos fullerfones, telefones e telégrafos acústicos que de futuro seriam fornecidos às unidades.

Os novos modelos de aparelhos, como o fullerfone, cuja existência era absolutamente desconhecida em Portugal, e a obrigatoriedade da adoção do telégrafo acústico em vez do telégrafo com fita, complicavam extraordinariamente o serviço, e exigiam dos nossos homens uma prática e qualidades que muitos não possuíam.

E se o problema era difícil para as tropas telegrafistas, para a Infantaria parecia quase insolúvel de momento”.

Entretanto, a situação não se apresentou fácil de resolver, pelas dificuldades de os Batalhões dispensarem o seu pessoal para instrução, uma vez que estavam ainda demasiado desfalcados nos seus efetivos. É para isso que Soares Branco chama a atenção:

“As primeiras tropas embarcadas para França, e que em troços haviam começado a chegar à zona de guerra na primeira quinzena de fevereiro, constituídas numa Brigada, só no fim de março puderam enviar os quadros para a Escola de Sinaleiros de Quiestede.

Estavam já em 2 de abril em França quase todos os Batalhões de Infantaria, mas a falta de quadros era enorme.

A custo e por turnos, podiam as unidades dispensar os oficiais e sargentos.

A Artilharia que devia criar e instruir as suas Secções de Sinaleiros de grande efetivo, cerca de 60 praças, precisava também de pessoal idóneo para ser instrutor e instruído”.

A necessidade de instruir todo o pessoal, em especial os telegrafistas e os sinaleiros era tão urgente, que Soares Branco, não tendo completa resposta aos seus pedidos, se viu obrigado, como refere, a converter um dos oficiais da 1ª Secção de TPF, o tenente Mascarenhas de Menezes, em instrutor de praças sinaleiros de Infantaria. E foi ainda obrigado, apesar de tudo tentar para evitar a situação, a aceitar o oferecimento feito pela Missão Inglesa do tenente Colston para auxiliar e dirigir a instrução dos sinaleiros de Artilharia.

Soares Branco refere com clareza esta situação no seu relatório, já que o recurso a este oficial inglês

“contrariava o natural desejo de só com pessoal português instruir as nossas tropas, não menos verdade era que este Serviço Telegráfico havia feito a tempo a proposta que tal evitaria, e não menos verdade era também que o Chefe do Estado-Maior por repetidos telegramas fizera ver à Secretaria da Guerra a urgência na vinda dos seis subalternos requisitados desde os primeiros dias de fevereiro e que só em maio deviam começar a apresentar-se”.

Mas tudo se processou com toda a normalidade, e o capitão Soares Branco vem a reconhecer que

os serviços prestados pelo tenente R.P.A. Colston foram excelentes, e ainda hoje em igualdade de circunstâncias eu procederia como naquela data. Nunca me receei nem receio de aceitar e agradecer a cooperação de oficiais do Exército Inglês, até onde ela pode e deve ser proveitosa e útil”.

Conclusão

Ultrapassadas as dificuldades deste período inicial, as primeiras unidades portuguesas, ao nível Companhia e depois Batalhão, vão-se aprontando para entrar em linha, substituindo unidades inglesas, evidentemente sob o comando dos seus Batalhões ou Brigadas, como veremos no próximo texto.

Neste período, que se estende aproximadamente de fevereiro a princípios de maio, seguindo-se depois a entrada em linha das Brigadas e finalmente a 1ª Divisão em 10 de julho, o Serviço Telegráfico procurou resolver todos os problemas que resultavam da mudança de missão das unidades portuguesas, mas empenhou-se particularmente na melhoria da formação das suas tropas e dos sinaleiros de Infantaria e de Artilharia, da ação dos quais dependia o bom serviço das ligações em campanha, essenciais para o desempenho do comando de qualquer unidade. Pelos resultados que se foram constatando, o Serviço Telegráfico do Corpo foi eficiente e reconhecidamente eficaz na sua missão.

As TRANSMISSÕES na GRANDE GUERRA – Relatório de Soares Branco (4)

Post dos Coronéis Aniceto Afonso e Costa Dias, recebido por msg:

  1. SITUAÇÃO INICIAL DO SERVIÇO TELEGRÁFICO

Introdução

No final de agosto de 1916, pouco depois do fim da primeira fase das manobras de Tancos, chegou a Lisboa uma missão militar anglo-francesa para discutir com Portugal a forma de participação de tropas portuguesas na frente ocidental.

A missão esteve em Portugal até novembro, tendo sido produzido o Memorando das condições de emprego das forças Portuguesas na zona de operações britânica em França, depois aprovado pelo Governo Britânico a 16 de dezembro. O memorando previa que as unidades portuguesas avançariam para França, mas passariam por uma fase de instrução a cargo do comando britânico, antes de entrarem em linha. A força seria constituída por uma Divisão reforçada, com um total de três Brigadas a dois Regimentos e estes a três Batalhões, totalizando 18 Batalhões. Esta composição foi estabelecida numa 2ª Convenção luso-britânica assinada a 3 de janeiro de 1917, pouco antes do embarque das primeiras tropas. Relativamente à artilharia deviam constituir-se quatro Grupos de peças 75 mm e três Grupos de obuses, estes com duas baterias cada. Estava prevista a mobilização de cerca de 40.000 militares.

Partida de Lisboa

Desembarque em Brest

Quando os primeiros contingentes já se encontravam em França, decorrendo o período de aquartelamento e instrução previsto, verificou-se ser necessário fazer uma adaptação de estrutura orgânica, visto que as unidades britânicas não tinham o escalão Regimento, dependendo os Batalhões diretamente das Brigadas. E uma vez que sobravam comandos, foi sugerido pelo chefe da missão militar britânica junto do CEP, que Portugal poderia constituir um Corpo de Exército a duas Divisões, cada uma com três Brigadas e estas com quatro Batalhões, num total de 24 Batalhões, mais seis do que os mobilizados por Portugal. Foi ainda levantada a hipótese de se constituir um Corpo de Artilharia Pesada, na dependência do CEP.

O primeiro contingente em França do mais velho aliado da Inglaterra

Posto o problema ao Governo português ainda em fevereiro, este acedeu de imediato, até porque isso conferia à presença portuguesa um significado de maior relevo. Tornava-se contudo necessário mobilizar mais cerca de 15.000 militares, pois também a estrutura de apoio seria necessariamente aumentada. Isso exigia também a extensão da capacidade de transporte através dos meios navais disponibilizados pela Grã-Bretanha. Ora, essa capacidade estava já comprometida com o transporte de tropas americanas para a Europa, pelo que se tornou muito difícil à Inglaterra aceitar esse compromisso. Apesar de todas as negociações acessórias que se tornaram necessárias e que levaram o ministro da Guerra, Norton de Matos, a permanecer cerca de um mês em Londres, entre meados de maio e meados de junho, o contingente português só no mês de Setembro terminou a primeira fase de transporte para França. Foi nesta altura que, dando corpo a uma intenção que sempre esteve na mente do governo inglês, este propunha que as unidades portuguesas ficassem na dependência de unidades inglesas e integrassem oficiais ingleses, proposta que evidentemente, o governo português rejeitou liminarmente.

Apesar de todas estas hesitações e dificuldades a nível político, no terreno acabou por se trabalhar sempre com a hipótese da constituição do Corpo de Exército, embora as notícias nem sempre fossem tranquilizadoras e fossem causa de algumas dúvidas.

No que respeita ao Serviço Telegráfico, Soares Branco considerou sempre, a partir de março de 1917, a hipótese que depois se viria a concretizar – a entrada em linha do Corpo de Exército português, embora tal só tenha acontecido a partir de 5 de novembro.

Ponto de situação

Voltando à análise do relatório do capitão Soares Branco, constatamos que, quando ele se apresentou ao responsável pelo Serviço Telegráfico do 1º Exército Britânico, coronel de Engenharia H. Moore, no dia 27 de janeiro de 1917, ficou assente que enviaria a este um relatório sucinto sobre a situação do mesmo serviço no CEP.

Coronel Herbert Tregosse Gwennap Moore, Royal Engineers, DSO, CB, CMG, Avis

Para além de uma informação sobre o pessoal e o material do Serviço, Soares Branco deveria também referir as capacidades disponíveis, o grau de instrução do pessoal, as faltas a preencher tanto em pessoal como em material, assim como as alterações necessárias para a sua adaptação à organização inglesa. Soares Branco enviou o relatório ainda durante o mês de março, com data de 23, incluindo-o depois no seu relatório final como apêndice nº. 4. É este apêndice que vamos analisar neste texto.

No corpo principal do seu relatório final, Soares Branco, a propósito do compromisso que tomara de enviar o ponto de situação ao 1º Exército, tece algumas considerações sobre as dúvidas que teve e a forma como procurou resolvê-las, não dando a entender ao seu destinatário as hesitações que ainda subsistiam no CEP quanto à organização das suas tropas. É por isso que ele dá a primeira explicação sobre o envio do relatório ao 1º Exército: “Uma vez estudada a organização e funcionamento do serviço de comunicações no 1º Exército Inglês, no qual deveria o CEP ficar incorporado, julguei da máxima importância informar o Serviço Telegráfico do 1º Exército da organização e estado da instrução à data do embarque para a França das tropas telegrafistas portuguesas”. E também acentua os princípios por que se guiou para cumprir a sua missão, não apenas neste relatório parcial, mas sempre que tivesse de assumir responsabilidades: “Diante de mim tive o problema do futuro, e alheio ao que à Missão Inglesa em Lisboa havia sido comunicado sobre o Serviço Telegráfico, não tendo nem direta nem indiretamente recebido da mesma Missão quaisquer esclarecimentos que pudessem ainda orientar na Metrópole o plano orgânico das unidades telegrafistas e de sinaleiros, dois princípios tive que respeitar:

O primeiro, falar claro e com verdade ao 1º Exército Britânico.

O segundo, em harmonia com o que observara e estudara, propor ao meu Estado-Maior tudo quanto de indispensável havia julgado”.

Tanto para cumprimento dum princípio, como para o outro, seria indispensável que Soares Branco soubesse como iria o CEP organizar-se, o que não foi questão simples neste início de missão. Esta deveria ter sido a principal interrogação que Soares Branco colocou aos responsáveis portugueses já presentes em França, já que era necessário, como diz, “que eu tivesse exato conhecimento de quais as forças que deveriam compor o CEP – Uma Divisão, um Corpo, uma Divisão reforçada com Artilharia Pesada?”. É que, embora compreendendo “quantos melindres e naturais incertezas não encobre uma resposta clara ao que me era indispensável tomar para base de qualquer trabalho, mas sem ela nada de seguro podia propor”.

Mas quando finalmente tem as condições mínimas para prosseguir o seu ponto de situação, já inclui informações sobre a organização dos vários escalões do CEP no que respeita às unidades de comunicações e respetivo pessoal, assumindo em definitivo que a força portuguesa será composta por um Corpo de Exército a duas Divisões. Temos assim, ao nível do Corpo:

“a) 1 chefe do Serviço Telegráfico e 2 adjuntos
b) 1 Secção de Telegrafistas de Campanha
c) 1 Secção de Telegrafistas de Praça
d) 1 Secção de Telegrafia Sem Fios”.

Cada uma destas unidades tinha o seguinte pessoal:

“1. A Secção de Telegrafistas de Campanha tem a composição análoga à indicada para as Divisões podendo contudo receber destas uma ou duas esquadras de fio, no caso de o serviço assim o indicar.
2. A Secção de Telegrafistas de Praça compõe-se de 1 oficial, 3 sargen­tos, 6 cabos e 30 soldados.
3. A Secção de Telegrafia Sem Fios é de 2 oficiais, 3 sargentos, 12 motoristas e telegrafistas, 13 soldados não especializados”.

Mais adiante, Soares Branco refere a composição do Serviço Telegráfico ao nível das Divisões, havendo, em cada uma, uma Secção de Telegrafistas de Campanha e um Destacamento de Telegrafistas de Praça.

Quanto ao “material de que a Secção de Telegrafistas de Campanha dispõe pode ser diminuído duma esquadra de fio que fique pertencente ao Corpo”, e em relação ao pessoal de “Telegrafistas de Praça ficará encarregado das linhas do Corpo na Divisão e transportará no carro de parque o material telefónico e telegráfico que complementarmente for distribuído à Secção de Telegrafistas de Campanha pelo acréscimo do número de ligações pedidas”.

Em cada Divisão, “o chefe do Serviço será o Comandante da Secção de Telegrafistas de Campanha que disporá de 3 oficiais de Engenharia”, a “Secção de Telegrafistas de Campanha tem uma composição idêntica, referida nos quadros”.

Já o Destacamento de Telegrafistas de Praça merece maior atenção e mais extensa referência, com a indicação de que se compõe de “120 praças afetas aos Batalhões de Infantaria, mas sob a direção do Serviço Telegráfico”. Existe também pessoal afeto ao serviço telegráfico e telefónico dos Quartéis-generais, constituído por um segundo-sargento, um cabo e 46 praças, sendo que estas “são treinadas em serviço de estação, construção e reparação de linhas permanentes”.

O relatório que Soares Branco envia ao 1º Exército aborda a questão do material de transmissões existente no CEP, de forma a salientar aquilo que satisfaz as exigências do serviço e o que tem necessariamente de ser substituído ou complementado. Mas as informações acabam por ser genéricas, já que não havia ainda uma clara definição de qual viria a ser a organização das forças portuguesas. Por isso, Soares Branco refere em primeiro lugar o material usado pela Secção de Telegrafistas de Campanha do Corpo, “análogo ao das Secções afetas às Divisões”, que se divide em quatro esquadras, sendo “2 esquadras de cabo, 1 esquadra de fio e 1 esquadra de serviço ótico”.

Esta Secção “pode montar 5 estações telegráficas Morse, 5 estações telefónicas conjugadas servidas pelas mesmas linhas e 5 estações telefónicas falantes”. Com base nos recursos materiais existentes, a Secção podia montar “22 km de linha de cabo simples” e “10 km de linha de fio”.

Por seu lado, a “esquadra de serviço ótico permite estabelecer 8 postos quer de dia quer de noite”, sendo que “todo o material da Secção, a não ser as lanternas para serviço ótico e o cabo simples, é de muito boa qualidade e satisfaz plenamente as condições exigidas do serviço de campanha”.

Seguem-se então informações técnicas sobre o material, algumas bastantes pormenorizadas, incluindo os diâmetros e o revestimento dos vários cabos disponíveis.

Assim, “os telégrafos Morse são de duas direções para sistema escrevente” e os “telefones de 1 e 2 direções têm chamada magnética e chamada acústica para buzzer”. Mas havia apenas “um único comutador suíço para 4 linhas”. E quanto ao cabo, “composto de 5 fios de cobre” e com uma “armadura de 12 fios de aço”, “tem apenas o defeito de estar velho”.

Já o “cabo subaquático é análogo ao cabo armado usado no Exército Inglês”, mas “há apenas 1000 metros”. E embora este cabo fosse “muito pesado, 202 kg. por cada km” estava “enrolado em carretéis apropriados montados nas viatu­ras de carros de cabo, permitindo o seu desenrolamento com a viatura a trote”.

Também o “fio para a linha aérea, composto de 4 fios enrolados em hélice” estava “em boas condições de uso e serviço”.

Por seu lado, “os postes para a linha aérea são de madeira” podendo “atingir uma altura máxima de 16 pés”.

Quanto às pilhas, elas “eram dum sistema Leclanche de rolha e tampa, mas o facto de não se poderem adquirir em Lisboa aglomerados bons para os elementos, torna-lhe o funcionamento defeituoso utilizando-se apenas elementos secos”.

Por fim, o “material para o serviço ótico compõe-se de bandeiras”, “lanternas de óleo de colza ou petróleo”, “heliógrafos de Mance, muito bons para países onde há sol, como em Portugal”, e “aparelhos Mangins (heliógrafo e lanterna) bons mas de complicado funcionamento”, tudo em número de quatro.

Aparelho óptico Mangin, aqui em exercícios em Tancos

Funcionamento do Serviço

Quanto ao funcionamento do Serviço, Soares Branco aborda a questão por sectores, dando informações de cada uma das suas pequenas unidades, secções e esquadras.

Assim, “cada esquadra de cabo (…) faz o serviço indo todas as praças a pé divididas em distribuidores, marcadores, desenroladores e assentadores e verificadores, cujo serviço se faz simultaneamente atingindo-se uma velocidade de 3 a 4 km a hora”. Já as esquadras de fio trabalhavam “com o fio enrolado em carretéis no carro de fio”, não se atingindo mais que “uma velocidade de 2 ou 1 km por hora, conforme os diferentes traçados”.

Em relação ao “serviço ótico, destinado às ligações menos importantes ou a duplicar as principais, tem uma grande mobilidade para as marchas graças ao transporte do pessoal nos carros de parque e ao uso de bicicletas”, podendo “montar sempre 4 postos duplos quer de dia quer de noite”, empregando, conforme as condições, os heliógrafos Mangin ou Mance. De qualquer forma, e durante as marchas, a “Secção divide-se em dois escalões”.

No que respeita à Secção de Telegrafistas de Praça, ela “é a formação cujo pessoal é mais treinado pela sua ocupação civil e militar no guarnecimento das estacões e na construção e reparação de linhas permanentes”. Contudo, os seus “recursos, como facilmente se nota, não chegam atualmente para a multiplicidade de ligações exigidas”.

O serviço desta Secção, segundo Soares Branco, poderia aproveitar-se tanto na “guerra de movimento, na construção de transversais nas redes civis ou militares da retaguarda, reparações e serviço de estações”, como na guerra de posição”, neste caso para a “construção e conservação das linhas enterradas chamadas gerais, e no guarnecimento de estações”.

Relativamente à Secção de Telegrafia Sem Fios, Soares Branco informa que “o material desta Secção é do sistema Marconi – antena em L, com 1,5 kw de potência, 250 km em terreno plano como do Brabante belga, e os mastros em madeira da altura de cerca de 25 metros”, sendo o material “análogo ao do sis­tema inglês”. Nesta Secção “o pessoal está regularmente treinado, mas ainda não pode na sua generalidade considerar-se telegrafista de 2ª classe, embora haja algumas praças de 1ª classe”.

Marconi 1,5 KW Spark Field Set em montagem veicular

Marconi 1,5 KW Spark Field Set

Grau de instrução

Relativamente ao “grau de instrução do pessoal”, Soares Branco separa os telegrafistas de campanha dos telegrafistas de praça, informando que no primeiro caso o pessoal “está razoavelmente treinado no serviço de guarnecimento de estações, bem treinado na monta­gem de linhas de campanha de cabo e de fio”, mas que “precisa todo ele de receber instrução sobre o material inglês diferente do português e com que terá também que trabalhar”. Mas não serão necessárias mais que quatro a seis semanas para essa instrução.

Quanto às Secções de Telegrafistas de Praça, Soares Branco afirma que o seu pessoal “está treinado no serviço de estações, precisa conhecer o material inglês com que virá a trabalhar mas facilmente poderá tomar conta do serviço das estações”. Contudo, “desconhece as regras da montagem e levantamento das linhas de campanha, mas é perito no estabelecimento, reparação e conservação de linhas gerais permanentes”, pelo que a sua instrução não exigiria mais de quatro semanas.

Ainda no que respeita ao grau de instrução, seguem-se os sinaleiros de artilharia e os sinaleiros de infantaria, havendo alguma semelhança, mas também pequenas diferenças.

No que respeita aos sinaleiros de artilharia, “o seu número foi consideravelmente elevado de 5 a 15 por bataria”, sendo que o “sistema homográfico foi substituído pelo alfabeto Morse”. Por seu lado, o material telefónico foi “substituído por material inglês por o antigo não servir, era americano, e os telefones para linha simples eram só de 4 direções”.

Mas como a “maioria dos sinaleiros são quase analfabetos”, a sua instrução “deve ser demorada, pois é toda feita de novo”, tornando-se “também necessário o ensino da profissão de guarda-fio de que nada ainda até hoje lhes foi ensinado”.

Quanto aos sinaleiros de infantaria e “devido à grande maioria de praças analfabetas nesta arma, teve que lançar-se mão de soldados telegrafistas de Praça, de engenharia, para pelo menos ter 2 soldados por companhia e batalhão capazes de fazer uso do Fullerfone”. Por esta razão “a instrução destas praças deverá ser rápida e fácil”, mas “a dos restantes sinaleiros da infantaria será morosa e difícil, não sendo talvez suficiente 6 semanas”.

Conclusões e propostas

Para terminar o seu relatório ao coronel H. Moore, responsável pelo Signal Corps do 1º Exército Britânico, Soares Branco apresenta as suas conclusões e propostas:

“1. Aumentar a dotação de material das Secções de Telegrafistas de Campanha e de Praça até que os seus números igualem os da Companhia de Sinais duma Divisão Inglesa para o que se fez a devida requisição.

2. Dotar as unidades de infantaria e artilharia de material idêntico ao do Exército Inglês para o que se fez a respetiva requisição.

3. Estabelecer uma Escola de Sinaleiros em Quiestede para a Engenharia e Infantaria e uma outra Escola para a Artilharia em Therouanne, para o que já se recebeu algum material, mas para o que ainda restaria pedir às unidades logo que estas o recebam”.

Instrução na Escola de Marthes/Mametz/Thérouanne 23JUN17

Em conclusão

Analisando de forma sucinta o relatório de Soares Branco, feito pouco mais de um mês depois da sua chegada a França e após a sua rápida visita a várias unidades inglesas da frente, pode concluir-se que ele tinha a perfeita noção das suas responsabilidades e conhecia as condicionantes das tarefas que lhe competiam, para bem cumprir a missão das transmissões na frente que seria entregue ao Corpo Português.

Já sabia que o CEP se iria organizar num Corpo de Exército a duas Divisões, que as suas unidades seriam organizadas à semelhança das unidades inglesas e que também o dispositivo das forças e a sua estrutura interna não poderia ser muito diferente da das unidades que visitara no terreno. Era de facto, uma conclusão lógica.

Mas Soares Branco tinha também o conhecimento suficiente sobre o pessoal e o material de que dispunha para organizar o seu Serviço, pelo que tomara já algumas iniciativas, como a requisição dos materiais em falta e a proposta da constituição de duas escolas de formação, onde o elo mais fraco da sua cadeia de tarefas – os sinaleiros – pudesse receber a instrução necessária à sua completa formação.

A análise do seu relatório final, onde se inclui este apêndice, e que iremos continuar, dar-nos-á uma ideia mais precisa da forma como o capitão de Engenharia Soares Branco, como responsável máximo do Serviço Telegráfico do CEP, desempenhou a sua missão.

 

As TRANSMISSÕES na GRANDE GUERRA – Relatório de Soares Branco (3)

Post do Cor Aniceto Afonso, recebido por msg:

  1. AS COMUNICAÇÕES DA ARTILHARIA

O papel da Artilharia

Na frente ocidental, a guerra de movimento foi posta em causa logo nos primeiros confrontos, em especial pela eficácia da metralhadora e da artilharia. As tentativas de ultrapassar o impasse ligado à supremacia do fogo que levou à construção de um intrincado sistema de trincheiras, não conduziram a resultados concludentes. De facto, nem os gases, nem a concentração de forças no ataque em frentes estreitas, nem as primeiras experiências com viaturas blindadas, resolveram o problema da guerra estática. Mas acabaram por ficar na memória da guerra, as longas preparações e contra-preparações, barragens e flagelações, em que eram consumidos milhões de granadas de todos os calibres pelos mais variados modelos de bocas-de-fogo da artilharia.

Embora a artilharia fosse usada desde há longo tempo, a verdade é que as condições proporcionadas pela forma como se desenrolaram as operações na frente ocidental favoreceu o seu papel, podendo dizer-se que se constituiu numa guerra feita à sua medida. A modificação mais marcante foi a ênfase dado aos obuses, de tiro mais curvo, em detrimento das peças, de tiro mais tenso, já que estas não permitiam bater eficazmente as trincheiras.

Houve inovações não só nas armas propriamente ditas, nas munições e nas cargas propulsoras, mas também na condução do tiro, no sentido da sua eficácia progressiva. Outras inovações vieram também contribuir para o emprego da artilharia, como o telefone, a TSF, o balão cativo e o avião, permitindo a observação e aperfeiçoamento do tiro, assim como a transmissão das respetivas informações entre a observação da frente de combate e as posições dos meios de lançamento.

Balão de observação

A impressionante quantidade de munições, assim como a sua variedade, criou muitos problemas logísticos de fabrico, reabastecimento e transporte, que todos os contendores foram solucionando, com recurso a todos os meios disponíveis. Exemplo desta situação foi a chamada das mulheres às fábricas de munições de artilharia, produzidas aos milhões por qualquer dos lados.

Relativamente à artilharia do CEP, toda a organização foi modificada em França, acabando constituída por seis Grupos de Baterias de Artilharia (GBA) tendo cada um três Baterias de peças 75 mm e uma Bateria de Obuses de 114 mm. Foram também constituídos seis baterias de morteiros médios de 152 mm e duas baterias de morteiros pesados de 236 mm. Quando se constituiu o Corpo de Exército, em Novembro de 1917, os 1º, 4º e 5º GBA foram integrados na 1ª Divisão e os 2º, 3º e 6º na 2ª Divisão.

Desembarque de artilharia portuguesa em Brest (Biblioteca Nacional de França)

No início de 1918 foi ainda constituído um Corpo de Artilharia Pesada (CAP), com dois Grupos de três baterias cada, o 1º em janeiro e o 2º em março de 1918.

Posição de Artilharia (Liga Combatentes)

Finalmente, Portugal constituiu também um Corpo de Artilharia Pesada Independente (CAPI), com três Baterias, que ainda atuou em França e que era constituído por um efetivo de 1328 homens, 70 dos quais oficiais.

As ligações da Artilharia

Soares Branco, quando fez a primeira visita às unidades britânicas no terreno, tinha a ideia da organização da artilharia utilizada nas manobras de Tancos. Constatou que tudo era diferente e que a artilharia portuguesa seria organizada de outra maneira para se integrar no comando inglês. Esteve por isso atento à forma como as unidades de artilharia se articulavam com as unidades apoiadas e qual era o papel das comunicações e quais as suas necessidades.

Verificou assim que ao nível da artilharia do Corpo de Exército, todas as ligações eram feitas por um telégrafo acústico para o QG do Corpo e por “dois indicadores telefónicos magnéticos de dez direções para comunicar com os Comandos do Corpo de Exército, com os Comandos de Artilharia das Divisões, com os Comandos Divisionários laterais da Artilharia, chefe do Estado-Maior do Corpo, Depósito de Munições, elementos de observação, etc.”. Havia também um quadro de entrada de linhas e um quadro de ensaio de linhas.

Soares Branco constatou também que junto da artilharia do Corpo deveria sempre “haver guarda-fios e material para reparação das linhas, sendo estas de ordinário sempre aéreas”. Para além disso, o pessoal deveria “ser fornecido pelas unidades telegrafistas do Corpo, sob a direção de um oficial telegrafista”.

Por seu lado, tanto na Divisão, como na Artilharia pesada, as ligações eram muito semelhantes às do Corpo, sendo dispensável o telégrafo acústico.

Grupo de Sinaleiros do CAP

Já no comando de um Grupo de Artilharia, o material existente constava de um “indicador telefónico magnético de dez linhas para as comunicações com o Comando da Divisão, os Grupos laterais, a Brigada e o Comando da Artilharia Divisionária”. Havia também “vários telefones para um ou dois indicadores telefónicos acústicos, que faziam a ligação com as baterias do Grupo, e os postos centrais dos postos de observação ou mesmo diretamente com aqueles postos de observação”. Na artilharia, “não se empregava nunca o fullerfone”.

Obus 114mm

Ao nível do Grupo havia ainda “estações recetoras de TSF a cargo da Royal Corps Flying para as ligações com os aeroplanos, tendo três telegrafistas de serviço aos aparelhos”.

Dada a relativa complexidade destas comunicações, constatava Soares Branco que, ao nível do Grupo se tornava necessário um oficial telegrafista.

Quanto ao posto de uma Bateria, existia um comutador de sete direções telefónico acústico e vários telefones. Embora as comunicações das baterias “com os batalhões ou unidades a que estão adstritas” se fizessem por intermédio da estação do Grupo”, isso “não era para recomendar”.

Abrigo de uma peça 75mm (coleção Garcês, AHM)

Soares Branco constatou ainda que “normalmente à frente das Baterias e à retaguarda dos postos de observação havia um Posto Central de Postos de Observação, aonde iam ter todas as linhas destes, e por onde passavam as linhas das baterias e dos Grupos”. E que “como nova precaução contra o frequente corte das comunicações, e em regiões onde o bombardeamento era usual, um novo posto como o acima indicado, mas mais avançado, era estabelecido junto dalgum dos postos de observação das baterias”.

Em suma, Soares Branco, visitando as unidades de artilharia da frente inglesa, acabou por reunir um conjunto precioso de informações que em muito vieram a contribuir para o desempenho da sua missão de responsável pelo Serviço Telegráfico do CEP. Contribuíram também para a sua compreensão da dependência que a artilharia ia criando em relações às comunicações, tanto para as unidades apoiadas como para a observação e condução do tiro.

Depois desta apreciação de Soares Branco sobre a Artilharia, o seu relatório contém um primeiro apêndice, que respeita ao memorando que ficou de apresentar ao responsável do Signal Corps do 1º Exército inglês, e que abordaremos no próximo texto.

As TRANSMISSÕES na GRANDE GUERRA – Relatório de Soares Branco (2)

Post do Cor Aniceto Afonso, recebido por msg:

  1. A PRIMEIRA VISITA DE SOARES BRANCO ÀS UNIDADES INGLESAS

Como já sabemos, o relatório do capitão de Engenharia Soares Branco, chefe do Serviço Telegráfico do Corpo, é um documento fundamental para se compreender como funcionou este Serviço na frente de batalha, durante o período em que o CEP se manteve em França.

Já falámos das visitas que Soares Branco efetuou às unidades inglesas de diferentes escalões, logo após a sua chegada a França, a partir do final do mês de janeiro de 1917. No primeiro texto demos uma ideia geral destas visitas, nas suas grandes linhas. Mas o relatório é minucioso em relação aos aspetos mais interessantes relacionados com o funcionamento do serviço telegráfico nas unidades inglesas.

Vejamos então algumas das observações que Soares Branco considerou relevantes e que incluiu no seu relatório.

Durante a visita que efetuou ao QG do XI Corpo da Força Expedicionária Britânica, iniciada em 2 de fevereiro de 1917, são de destacar os apontamentos sobre pessoal e material e também sobre o funcionamento do Serviço Telegráfico (Signal Service). Na estação telegráfica do Corpo estavam presentes cerca de 30 elementos, com as suas especialidades e funções, que guarneciam oito aparelhos telegráficos e também o sistema telefónico, com dois indicadores, um de 40 e outro de dez direções. Na estação entravam cerca de 200 linhas, entre telegráficas e telefónicas, que eram quase todas aéreas até aos quartéis-generais das Divisões e das Brigadas.

Montagem de linhas aéreas com postes duplos

Soares Branco constatou que, para além da estação telegráfica, havia junto do Corpo, para se efetuar o serviço de comunicações, secções de cabo correspondentes às respetivas Divisões, no caso três secções. Cada uma tinha 36 elementos e fazia uso de oito carros de lançamento de cabo. Não deixa de ser interessante que Soares Branco refira a existência de 40 milhas de cabo, mas que este material “aguardava a guerra de movimento sendo expressamente proibido fazer uso dele”.

Carro de cabo português

Seguidamente, como sabemos, o capitão Soares Branco dirigiu-se para o QG da V Divisão, reconhecendo aí o respetivo Serviço Telegráfico e a Estação Central da Divisão. As comunicações telegráficas dispunham de quatro aparelhos em funcionamento e as comunicações telefónicas eram asseguradas por dois indicadores de 10 linhas, ligando às repartições do QG, ao Corpo, às Brigadas, às Divisões laterais, Comando de Engenharia, Serviço de Saúde, etc.

10 Line Field UC/MK 236 Switchboard

Um sargento, dois cabos e 13 soldados asseguravam o serviço da Estação.

No seu conjunto, o pessoal telegrafista da Divisão dividia-se em estado-maior e quatro secções. O estado-maior era constituído por um oficial, cinco sargentos, um artífice e 45 soldados, estando equipado com um automóvel, 16 motocicletas e 15 bicicletas. Por sua vez, cada secção era constituída por quatro oficiais, dois sargentos, dois artífices e 66 soldados. Cada secção tinha à sua disposição quatro carros de cabo e quatro carros ligeiros, podendo estender 52 milhas de cabo.

Estafetas motociclistas

O quadro abaixo procura dar uma ideia da distribuição do pessoal e do material das comunicações ao nível do Corpo e da Divisão:

Quadro 1, elaborado por Jorge Costa Dias

Soares Branco realça também a importância das informações que recolheu nas visitas a uma Brigada de Infantaria, a um Batalhão, e também à Artilharia, incluindo no seu relatório os números principais e a forma de funcionamento do sistema de comunicações em cada um deles.

Em relação à Brigada, menciona em primeiro lugar a Estação e depois o “Posto de Combate”. Na Estação encontrou em funcionamento um telégrafo acústico para a Divisão, dois indicadores acústicos de sete direções para os Batalhões, assim como um fullerfone com a mesma finalidade. Existia também um indicador telefónico acústico de dez linhas para as ligações internas e para os Grupos de Artilharia.

Quanto ao pessoal, serviam na Estação dois sargentos e nove praças, com as suas especialidades. O total do pessoal da Brigada ligado às transmissões era de 1 oficial, 2 sargentos e 24 soldados, que tinham para o seu serviço 18 bicicletas e quatro cavalos.

Relativamente ao “Posto de Combate” da Brigada, o melhor seria fazê-lo coincidir com a central telefónica do Grupo de Artilharia adstrito à Brigada, embora nem sempre isso fosse possível. De qualquer modo, deveriam funcionar aqui três indicadores telefónicos acústicos de sete direções para a Artilharia e um ou dois para os Batalhões, complementados com um fullerfone para os Batalhões.

Fullerphone Trench S: Usado nas trincheiras nas ligações para as Companhias e os Batalhões. © IWM (COM 176)

Soares Branco tira algumas conclusões, assim sistematizando os conhecimentos proporcionados pela sua visita. Em primeiro lugar, no caso de o posto da Brigada coincidir com o posto do Grupo, o comando daquela podia corresponder-se com os seus Batalhões, as Brigadas laterais e a Divisão; e o comandante do Grupo podia comunicar com qualquer Bateria, Batalhão ou posto de observação. Se fosse necessário instalar dois postos distintos, deveriam prever-se ligações entre os dois postos, não esquecendo que “o telefone da artilharia deve sempre permitir a transmissão de voz”. Também seria de prever um sistema de sinais óticos para comunicar com os batalhões, embora sem a comunicação recíproca.

Por sua vez, o posto telefónico de um Batalhão devia ter dois indicadores acústicos de sete direções, um fullerfone e um telefone, sendo este utilizado para as baterias e o fullerfone para as companhias.

Telephone Set D Mark III

Em qualquer caso, a duração dos serviços era sempre de 24 horas.

As ligações da Artilharia merecem um capítulo separado no relatório de Soares Branco, pelo que as abordaremos em outro texto.

O quadro seguinte é um resumo das observações feitas por Soares Branco, em relação à Brigada, ao Batalhão e também à Artilharia.

Quadro 2, elaborado por Jorge Costa Dias

As TRANSMISSÕES na GRANDE GUERRA – Relatório de Soares Branco (1)

Post do Cor Aniceto Afonso, recebido por msg:

  1. O SERVIÇO TELEGRÁFICO E O INÍCIO DA SUA ATIVIDADE EM FRANÇA

O capitão de Engenharia Carlos Soares Branco foi indicado, em novembro de 1915, para o cargo de chefe do Serviço Telegráfico da Divisão de Instrução que iria preparar-se em Tancos com vista à sua ida para França. Essa escolha foi feita pelo coronel Roberto da Cunha Baptista, chefe do Estado-Maior da Divisão.

O seu desempenho nas manobras revelou um oficial de grande qualidade, com o desejo de afirmar um serviço que procurava um papel de relevo na manobra militar, proporcional ao enorme desenvolvimento técnico que as comunicações vinham conhecendo.

De facto, o apoio das comunicações à manobra militar, nas circunstâncias das frentes de combate da guerra europeia, vinha-se tornando cada vez mais importante.

Foi portanto natural a nomeação do capitão Soares Branco para responsável máximo do Serviço Telegráfico do Corpo Expedicionário Português (CEP), ainda a convite do coronel Roberto da Cunha Baptista, também nomeado chefe do Estado-Maior da 1ª Divisão.

Logo que se programaram os transportes marítimos da força expedicionária portuguesa para França, iniciados em finais de Janeiro de 1917, Soares Branco e uma pequena equipa do seu serviço avançou por terra, atravessando Espanha de comboio, como se tornou habitual, e já estava em França quando os embarques se iniciaram em Lisboa.

Responsável pelo Serviço Telegráfico desde a sua organização com a entrada em linha das primeiras unidades portuguesas até ao completo desempenho do cargo entre 5 de novembro de 1917 e 6 de abril de 1918, tempo em que o Corpo de Exército Português ocupou a linha da frente como grande unidade, Soares Branco redigiu entre junho e julho de 1918 um excelente relatório sobre o Serviço Telegráfico, notável documento que muito esclarece sobre as comunicações no CEP, mas também sobre outras diversas circunstâncias da participação do CEP na frente.

As suas primeiras palavras situam-nos no dia em que Soares Branco iniciou os contactos com os responsáveis e as unidades britânicas presentes na zona de provável ação da força portuguesa, no vale do Lys, na Flandres francesa.

Começa assim o autor do relatório: “Presente na zona de guerra a 27 de janeiro de 1917, foi-me apresentado o oficial de engenharia do Exército Britânico Lte. Brander, o qual havia sido nomeado pelo 1º Exército como oficial de ligação e intérprete junto do Serviço Telegráfico do CEP e como tal havia sido agregado à Missão Britânica”. Completam-se portanto cem anos desde que Soares Branco iniciou os seus contactos com as unidades britânicas e os respetivos serviços telegráficos!

Àrea de responsabilidade do 1º Exército Britânico (AHM)

Area de responsabilidade do 1º Exército Britânico (AHM)

A partir daqui o chefe do Serviço Telegráfico do CEP vai contactar várias unidades britânicas de diferentes níveis, desde o QG do 1º Exército até um Batalhão de Infantaria e as baterias de artilharia, procurando inteirar-se da forma como o serviço telegráfico estava organizado, quais as suas funções, os materiais usados, a distribuição do pessoal, as formas de transmissão, os circuitos da correspondência, as ligações estabelecidas, o funcionamento das centrais, a utilização dos vários especialistas, desde os telegrafistas aos sinaleiros, etc.

Nesses dias de contacto com a realidade das unidades inglesas, Soares Branco tomou boa nota de tudo quanto lhe foi dado observar, desde as grandes linhas organizativas até aos muitos pormenores que poderiam fazer com que o serviço desse resposta pronta às solicitações das unidades que servia.

Foi o seguinte o seu percurso, devidamente referido no seu relatório e que merece mais aprofundada análise:

– QG do 1º Exército Britânico. Apresentou-se aqui ao chefe do Serviço Telegráfico, coronel de engenharia H. Moore, tendo-se comprometido a apresentar um relatório sobre “o que de mais urgente se me afigurasse propor e solicitar” e visitando a sua estação central instalada em Lillers.

Estação "telegráfica" de um QG de Exército (The signal service in european war of 1914 to 1918)

Estação “telegráfica” de um QG de Exército (The signal service in european war of 1914 to 1918)

– QG do XI Corpo, “estabelecido nas proximidades de Hingues”. Aqui reconheceu a estação telegráfica, o pessoal presente, os aparelhos telegráficos e telefónicos instalados, assim como as suas características. Anotou também como se processava o serviço de mensagens e como estava montada a assistência à estação. Resume assim as suas impressões: “Entravam na estação cerca de 200 linhas telegráficas e telefónicas, quase todas aéreas, pelo menos até aos Quartéis-Generais das Divisões e das Brigadas”.

Mensageiro motociclista

Mensageiro motociclista (dia de Natal 1917)

– QG da V Divisão Britânica, constando de um Serviço Telegráfico e de uma Estação Central da Divisão. No seu relatório, Soares Branco anota com todo o pormenor, a rede de comunicações, os aparelhos em uso, as ligações estabelecidas, o pessoal de serviço, o material de transporte em apoio do serviço de mensagens, a orgânica do Serviço Telegráfico ao nível da Divisão.

Distribuição de pombos-correio

Distribuição de pombos-correio

– Brigada de Infantaria, com o seu serviço telegráfico e o seu “Posto de Combate”. Também a este nível Soares Branco fez as mesmas anotações, constatando que “umas vezes o Posto de Comando coincide com a central telefónica do Comando dum Grupo de Artilharia adstrito à Brigada, outras vezes, porém, tal não é possível”, o que implicava alterações significativas na organização das comunicações.

– Posto telefónico dum Batalhão de Infantaria, assim como o seu posto de combate, situado geralmente junto do comando de uma companhia, onde merecem especial atenção as ligações à unidade de artilharia.

Aliás, as ligações da artilharia merecem um capítulo especial nesta primeira ronda pelas unidades inglesas feita por Soares Branco, que desde logo se apercebeu da importância que lhes devia ser atribuída.

Neste domínio, o relatório refere as ligações da artilharia no Corpo de Exército, na Divisão e na Artilharia Pesada, no Comando do Grupo de Artilharia e ao nível da bateria.

A situação, ao nível das baterias, resume-a Soares Branco de seguinte forma: “As comunicações com os batalhões ou unidades a que estão adstritas faziam-se por intermédio da estação do Grupo, o que não era para recomendar.

“Normalmente à frente das Baterias e à retaguarda dos postos de observação havia um Posto Central de Postos de Observação, aonde iam ter todas as linhas destes, e por onde passavam as linhas das baterias e dos Grupos.

Sinais visuais

Sinais visuais com a lanterna Lucas

“Ainda como nova precaução contra o frequente corte das comunicações, e em regiões onde o bombardeamento era usual, um novo posto como o acima indicado, mas mais avançado, era estabelecido junto dalgum dos postos de observação das baterias”.

Sinaleiros em ação

Sinaleiros em ação com quadro de persianas

Finalmente, sob o título de “notas várias”, Soares Branco elenca um conjunto de observações importantes para a organização do serviço telegráfico de que seria responsável no terreno, em breve.

Estas “notas várias” traduzem o sentido prático deste autêntico estágio que Soares Branco efetuou nas unidades inglesas a partir de finais de janeiro de 1917, na sua zona de ação futura. Merecem ser transcritas na totalidade:

“Entre os Quartéis-Generais das Brigadas e os dos Batalhões, e em geral perto do local onde as linhas passavam de aéreas a ser subterrâneas, havia, por vezes, estações de verificação das linhas com pessoal guarda-fios, que desta forma, em abrigos, aguarda ser empregado.

Verificação da linhas

Verificação e teste das linhas

“De centenas em centenas de metros, 500 a 800, existiam caixas de ligação em abrigos com sacos de terra que permitiam a verificação dos troços onde o bombardeamento fazia interrupções.

“As linhas aéreas com cabo isolado estavam suspensas de postes duplos de cerca de seis metros de altura com travessas.

Transporte de postes

Transporte de postes

“Por vezes havia também, e em locais muito expostos ao bombardeamento, linhas enterradas em geral em trincheiras próprias a 1,8 m da superfície com cabo de isolamento apropriado.

“As linhas dos batalhões e das companhias para os postos de combate seguiam os ramais de comunicação, sobre o revestimento lateral, ao qual eram fixados por grampos próprios, ou de corda alcatroada.

“As linhas que não seguiam pelos ramais eram seguras às árvores, a casas arruinadas, etc., para o que se fez largo emprego de grampos”.

Lançamento de linhas

Lançamento de linhas

Com estas notas termina o capítulo I do relatório. O capítulo II será dedicado não apenas ao memorando que Soares Branco ficara de apresentar ao 1º Exército Inglês, mas também à Escola de Sinaleiros, aos materiais novos de transmissão, desconhecidos em Portugal e usados nas trincheiras, e às alterações orgânicas necessárias no Serviço para bem responder às crescentes necessidades das unidades combatentes e de apoio logístico, cujas comunicações estariam a cargo do Serviço Telegráfico do Corpo e suas unidades.

São assuntos para abordar noutros textos.

 

Grande Guerra – CEP – Companhia de Telegrafistas do Corpo

 

 

CEP – Carta de comando do Comandante da Companhia de Telegrafistas do Corpo

O capitão de Engenharia Soares Branco foi o responsável pelo Serviço Telegráfico nas manobras de Tancos da Divisão de Instrução. Quando se constituiu o Corpo Expedicionário Português (CEP), ele foi naturalmente nomeado comandante do Serviço Telegráfico do Corpo e enviado para França. Seguiu por caminho de ferro, atravessando Espanha como muitos outros oficiais portugueses e chegou à zona de guerra em finais de Janeiro de 1917, apresentando-se no QG do 1º Exército Britânico.

 
A partir daí, Soares Branco dedicou-se à criação de condições para que as unidades e os efetivos relacionados com os serviços telegráficos pudessem bem cumprir as suas missões. Estagiou em unidades inglesas, elaborou relatórios, requisitou materiais, reconheceu as áreas de provável ocupação pelas unidades portuguesas, elaborou normas e regulamentos, previu a constituição de uma escola de sinaleiros, fez propostas para a organização, instrução e atribuição das unidades e dos meios de transmissões e definiu finalmente a estrutura do seu serviço e as missões e tarefas inerentes ao apoio telegráfico e de comunicações.

 
Todos os procedimentos foram sendo aperfeiçoados até às vésperas da entrada em setor do Comando do Corpo, ocorrida em 5 de Novembro de 1917. Dias antes, com data de 31 de Outubro, Soares Branco enviou as últimas propostas ao QG do Corpo, fixando a organização do Serviço Telegráfico (nota nº 924).

 
Para apoio do Comando do Corpo existia a Companhia de Telegrafistas do Corpo, constituída por uma Secção de Telegrafistas de Campanha e por uma Secção de Telegrafistas de Praça, às quais se juntava agora uma nova Secção Automóvel Por Fio (SAPF), que também era designada por Secção Automóvel de Ligação por Fio (SALF), que Soares Branco entendia necessário constituir, e a quem competia assegurar todas as ligações do QG do Corpo aos QG das Divisões e à Artilharia Pesada, conseguindo-se “desta forma economia de oficiais encarregados de funções administrativas e maior unidade de comando” (Relatório do Serviço Telegráfico, de Soares Branco, AHM/01/35/148).

 
Foi nomeado comandante da Companhia de Telegrafistas do Corpo o tenente de Engenharia João Alegria dos Santos, deixando a Escola de Sinaleiros, da qual era diretor. Logo em 13 de Novembro, o capitão Soares Branco dirige-lhe uma nota (nº 1028), indicando-lhe os métodos de trabalho técnico que julga preferíveis para as situações de “guerra de trincheiras”, “guerra de movimento” e “instrução”, constituindo este documento um esboço de carta de comando, que viria depois a ser aperfeiçoada de acordo com a experiência recolhida após a entrada em linha.

 
É o seguinte o texto da nota em questão:

“Ao Sr. Comandante da C. T. C.

Pela primeira vez que me dirijo a V. Ex. oficialmente, começo por lhe assegurar a certeza em que estou de que V. Ex. no exercício do comando que lhe foi agora confiado continuará demonstrando o muito zelo e inexcedível dedicação com que dirigiu a Escola de Sinaleiros.

Seguidamente passarei a indicar-lhe, duma maneira geral, qual o método de trabalho técnico que julgo preferível V. Ex. fazer executar, não me referindo a algumas questões de ordem administrativa que, fazendo-se sentir devido às distâncias que separam os comandos e as tropas, desaparecerão com o novo estado de coisas.

Guerra de trincheiras.

I. De entre os oficiais que compõem a Companhia, 1 deles, o comandante da S. de T. de Campanha Sr. Ten. eng. João Pedro Saldanha, ficará tendo a seu cargo as linhas desde a estação do Corpo às Divisões, e quaisquer outras que venham a ser entregues ao Corpo.
Elaborará juntamente com o oficial adjunto deste serviço os esquemas e plantas de traçado das linhas que for necessário enviar ao 1º Exército, e preparará a entrega das comunicações do Corpo a outra qualquer grande unidade. O serviço será montado com os elementos da S.T.P. Fios, e com as rondas dos guarda-fios que forem julgadas convenientes. Nesse serviço poderão ser coadjuvados pelo pessoal de T. P. (telegrafistas de praça) se assim for tido por necessário.
Haverá um graduado especializado por cada traçado principal de linhas o qual será nomeado chefe de guarda-fios do traçado. Um Sargento devidamente habilitado desempenhará o serviço de Chefe de guarda-fios.
Dever-se-á propor talvez de postos permanentes de guarda-fios para a ronda diária que as linhas devem sempre sofrer.
Cada manhã, depois do ensaio prévio das linhas da estação central será participado telefonicamente à S.T.C. quais as linhas que devem ser especialmente ensaiadas e vistoriadas.
Independentemente desse aviso, e segundo um horário a fixar, praças percorrerão os traçados para vigiar o inspecionar as linhas.
Os ensaios, porém, só serão feitos depois do aviso da central, sendo fixados os limites onde em cada traçado começam as praças o serviço e onde o acabam.
Se houver grandes reparações a efetuar ou construção de novas linhas, será solicitado o auxílio da Secção S.A.L.F. que se encarregará então do serviço que o Comando lhe prescrever segundo as instruções de este S.T.
O pessoal telegrafista e telefonista da S.T.C. coadjuva o da 1ª Secção da Companhia, sempre que tal foi pedido.

II. Competirá a um oficial da Companhia, o Sr. alf. eng. Marcial Freitas e Costa, a fiscalização e responsabilidade de tudo o quo disser respeito ao serviço na estação Central do Corpo – telefone, telégrafo e correspondência.
Para coadjuvar o serviço haverá diariamente o 1º sargento Vigoco na correspondência com 2 praças, um sargento de dia à estação – telegrafo e telefone – com 3 telegrafistas, 2 telefonistas, 2 guarda-fios, 1 motociclista, e 3 ordenanças sendo destas 2 ciclistas.
O Snr. alf. eng. Casquilho da S.T.C. será também, conveniente que tome conhecimento deste serviço, pois torna-se indispensável que haja sempre dois oficiais especializados em cada uma das secções da Companhia.
Às 3 horas o sargento de dia verificará todas as linhas que deem entrada na estação. Regista as indicações do ensaio, tendo para esse fim um livro riscado segundo o impresso regulamentar.
Seguidamente, às 11 horas, e na presença do oficial, serão experimentados todos os telefones, será distribuído o serviço aos guarda-fios da estação, pedido serviço aos guarda-fios da S.T.C., solicitados os trabalhos da S.A.L.F. ou ao Comandante da Companhia se se julga necessário.
É da estação central do Corpo que por intermédio da estação de Roquetoire se farão as explorações em toda a área do C.E.P., e para a frente para as estações centrais de cada uma das Divisões.

III. Competirá ao Oficial comandante da 2ª Secção – S.A.L.F.- o Sr. alf. eng. João D´Korth, não só a elaboração de acordo com o Comandante da S.T.C. de todo os projetos de traçados novos a construir, mas também a efetivação de grandes reparações que não possam ser realizadas pelo pessoal da S.T.C. Como comandante da 4ª Secção – S. E. Motociclistas – compete-lhe o serviço de correspondência segundo o horário pelo S.T. formulado, e fazer apresentar para serviço as praças que pela estação telegráfica, mediante autorização superior, sejam pedidas para serviço extraordinário.
No serviço de construção das linhas e instrução do pessoal deve também ser especializado o Snr. alf. Medeiros Tanger da S.T.C.

Guerra de movimento.

Competirá à S.T.C. a construção de todas as linhas de cabo desde o Q.G. das Divisões aos centros de comunicação fim das linhas de fio, para o que utilizará as 3 esquadras de cabo da Companhia.
Competirá à S.A.L.F. a construção de todas as linhas de fio desses centros de comunicação até ao Q.G. do Corpo, ligações laterais e ligações às linhas do Exército, para o que se servirá não só do material da sua Secção, como do material das esquadras de fio de campanha que lhe forem afetas.
Competirá ao C. da 1ª Secção da Companhia a responsabilidades do serviço na estação do Corpo.
Aos 2 subalternos da 3ª Secção e ao oficial de engenharia subalterno da Escola de Sinaleiros competirá o comando de cada uma das 3 esquadras de cabo e esquadra de fio para as quais existe o pessoal da mobilização na 3ª Secção.
Competirá ao oficial Comandante da 3ª Secção a responsabilidade das comunicações desde o Q.G. Avançado até às Divisões.
Competirá ao Comandante da C.T.C. e à S.A.L.F. e esquadra de fio de campanha adstrita a montagem e construção de todas as linhas desde a Estação central do Corpo à estação avançada e sua reparação.
Ao Chefe do Serviço Telegráfico competirá a direção imediata de todas as comunicações estabelecidas.

Instrução.

Conhecido o número de praças de serviço diário, proporá V. Ex. o horário etc. da instrução a dar às praças que estiverem de descanso.

                                                                                                                                                C. Soares Branco
Capt.                                                                                                                                                                           C. S. T. do C. E. P.”

(Ver o original em AHM/01/35/550/5)

Grande Guerra – Divisão de Instrução – Relatório Soares Branco (1)

Post do MGen Pedroso Lima e do Cor Costa Dias,  recebido por msg:

Relatório do Serviço Telegráfico da Divisão de Instrução – 1ª Parte

O Relatório da participação das transmissões nas Manobras de Tancos da Divisão de Instrução, em 1916, elaborado pelo Chefe do Serviço Telegráfico da Divisão, capitão de Engenharia Soares Branco é um documento extenso dividido em 4 partes:

 1ª Parte – Trabalhos efetuados antes de 5-6-1916

2ª Parte – Instrução Técnica das Tropas

3ª Parte – Operações

4ª Parte – Conclusões e Propostas

Com este post dá-se início à apresentação de um resumo do relatório:

1ª Parte – Trabalhos efetuados antes de 5-6-1916

Ligações estabelecidas para o serviço da Divisão no acampamento, com a Direcção de Etapas e Zona de Fogos de Guerra.

O capitão de Engenharia Soares Branco foi nomeado Chefe do Serviço Telegráfico da Divisão de Instrução em Fevereiro de 1916.

A sua missão consistia em elaborar o programa de Instrução das tropas telegrafistas da Divisão, estabelecer as ligações necessárias entre Tancos e Lisboa e entre as forças estacionadas, bem como assegurar o funcionamento do serviço, durante as manobras.

O capitão Soares Branco deslocou-se para Tancos, com o Quartel General da Divisão, em 5 de maio, um mês antes da concentração das tropas. Nessa altura já tinha elaborado o Plano de Instrução, de acordo com a Inspeção do Serviço Telegráfico Militar (ISTM), o que, segundo ele, “muito o beneficiou”.

As ligações permanentes existentes em Tancos, em maio, eram manifestamente insuficientes para suportar o tráfego com o exterior que as manobras iriam exigir.

Na altura, encontrava-se em Tancos a Escola de Aplicação de Engenharia (EAE) [1], onde existia uma estação miliar que se ligava à estação da Barquinha de dia, e de noite às estações militares de Santarém e Abrantes, que se encontravam ligadas às estações civis locais.

Dado o aumento de tráfego previsto, a Direção Geral dos Correios e Telégrafos (DGCT) deu ordem para que as estações civis da Barquinha e Santarém passassem a serviço permanente e que a estação de Santarém centralizasse o trafego entre Tancos e Lisboa.

Esta solução era insuficiente, pelo que o chefe do Serviço Telegráfico propôs ao comando a construção de várias linhas, o fornecimento de 18 km de linha telefónica e 18 km de linha telegráfica, e a vinda de uma esquadra com o efetivo de dois 2º sargentos e de treze cabos e soldados da Companhia de Telegrafistas de Praça (CTP), que chegaram a 15 de maio.

O Comando da Divisão considerou prioritárias as seguintes ligações:

  • Estabelecimento de uma linha telefónica Tancos – Entroncamento para a Direção de Etapas, com estação intermédia na Barquinha;
  • Prolongamento da linha telegráfica militar Tancos – Barquinha (a que seguia pela linha 303 para Abrantes) até ao Entroncamento, permitindo a sua ligação a uma linha civil do Norte (24), cedida pela Direção Geral dos Correios e Telégrafos (DGCT), permitindo comunicação direta e exclusiva para Lisboa;
  • Ligação com alguns comandos de forças que viriam a constituir-se: Brigadas de Infantaria e Comandos da Artilharia e Cavalaria;
  • Linha telegráfica e telefónica para o Casal do Relvão, na zona dos fogos de guerra.

As construções efetuaram-se a uma velocidade de 1 a 2 km por dia devido a terem que ser substituídos quase todos os postes do traçado militar, ou por terem de ser rebaixados e ripadas (retiradas) as linhas existentes.

A linha telefónica e a linha telegráfica entre Tancos e a Barquinha com destino ao Entroncamento foram instaladas utilizando os postes do traçado civil, marginal à linha férrea.

A 1 de junho estavam a funcionar todas as linhas telegráficas e telefónicas na margem Norte do Tejo.

Em seguida começou a construção da linha para sul do Tejo (Arrepiado – Carregueira – Casal do Relvão) que terminou em poucos dias porque a DGCT permitiu a utilização dos postes civis até à Carregueira, pelo que apenas houve que construir cerca de 4 km entre a Carregueira e o Casal do Relvão,

Fundo-3-5-4-22-211_m0056A 12 de junho o serviço estava concluído.

Surgiu uma dificuldade, que foi a de ter que se por de parte a utilização de linhas simples, não só por razões de segurança nas comunicações, mas também por se verificar que a chamada para uma estação acionava também outras.

Para manutenção das linhas, durante o exercício, ficaram 7 praças guarda-fios.

Ao todo, foram montadas, neste período que antecedeu as manobras, as seguintes estações:

  • Estações telegráficas e telefónicas no QG e no Casal Relvão;
  • Estação telefónica dupla na Barquinha;
  • Estações telefónicas simples (CEM e 2ª Rep/Div; 1ª e 2ª Brigadas de Infantaria, Comando da Cavalaria, Comando da Artilharia, Comando da Engenharia e Serviço Telegráfico; Direção de Etapas (Entroncamento), Direção de Fogos de Guerra, Comando da Ponte no Arrepiado e EAE.

Através do indicador da EAE era possível ao QG da Divisão (Aringa) comunicar com várias entidades como o Batalhão de Pontoneiros, a secretaria da EAE, o Hospital de Tancos, entre outras.

As comunicações cm Lisboa ficaram asseguradas pela ligação direta Aringa – Entroncamento – linha 24 -Lisboa e pela linha Tancos – Barquinha – linha 303 – Santarém – Lisboa.

Esta duplicação de linhas para Lisboa viria a revelar-se de grande utilidade durante o Exercício.

A guarnição das estações instaladas:

  • na Central do QG 1 – 2º sargento (da CTP) e 6 – praças (4 da CTP e 2 da STC)
  • na estação do Casal do Relvão 2 – praças (1 da CTP e 2 da STC)
  • na estação telefónica da Barquinha 2 – praças (1 da CTP e 1 da C.S.)
  • as estações telefónicas simples não tinham telegrafistas e eram guarnecidas com pessoal do comando a que estavam adstritos.

Foram gastos cerca de 50 km de fio telefónico, assentes cerca de 200 postes, montadas duas estações telegráficas, uma telefónica de 10 direções em conjugação com outra de 9 direções (na Barquinha) e estabelecidos outros 10 postos telefónicos.

As estações telegráficas e telefónicas do QG (Aringa) e casal do Relvão serviam também para prática dos telegrafistas de campanha, os quais, fora das horas de serviço eram obrigados à permuta de um certo número de despachos. No entanto, apesar dos esforços e dedicação do 2ºsargento da estação do QG (da CTP), poucos resultados se obtiveram visto que o pessoal “praticava na manipulação e receção de despachos mas eram de uma rudeza extraordinária, quanto às regras de serviço”.

O Relatório diferencia claramente a capacidade do pessoal da CTP da do pessoal de campanha.

Com efeito, verificava-se que apenas o pessoal da CTP tinha capacidade para exploração das estações telegráficas e construção das linhas permanentes.

O pessoal de campanha só fazia bom serviço na montagem e levantamento de linhas de campanha e exploração de postos telefónicos.

Mesmo a exploração de estações telefónicas, sobretudo em comunicações com outras civis, só podiam ser realizadas por pessoal da CTP.

Este claro reconhecimento da maior capacidade do pessoal da CTP teria importantes consequências na composição do pessoal do CEP na Flandres, onde se aumentou substancialmente o emprego de pessoal da CTP em relação ao inicialmente previsto, com vista a melhorar a qualidade do serviço.
Redes telefónicas e telegráficas de TancosFundo 3-5-4-22-211_m0051

[1] A Escola Prática de Engenharia foi criada em Tancos em 1880. Em 1911, com a reorganização do Exército da I República, passou a ser Escola de Aplicação de Engenharia. Em 1927 retomou o nome de Escola Prática de Engenharia.

O livro “A TSF e as Transmissões”

Post do MGen Pedroso Lima, recebido por msg:

A obra “A TSF e as Transmissões” (1) , publicada em 1938, da autoria do então tenente de Engenharia  Luís de Câmara Pina (1904-1980) (2) é um livro de referência na História das Transmissões Militares.

Trata-se de uma obra diferente de todas as publicadas sobre transmissões do Exército e que apresenta caraterísticas próprias, algumas das quais passaremos a destacar.

TSF livro-2Embora se trate de um livro  baseado na Memória do Concurso para o Serviço de Estado-Maior, o livro ultrapassa claramente o âmbito exclusivamente militar. Sendo a parte essencial do livro, dedicada à  técnica e organização das transmissões a considerar para o conveniente aproveitamento da TSF, não  deixa de incluir uma referência às grandes invenções de Leonardo da Vinci, que compara com a invenção da TSF, bem como enuncia as suas grandes potencialidades futuras e os perigos que comporta.

O autor escreve muito bem, revela cultura histórica, demonstra estar bem preparado tecnicamente, é imaginativo e a sua escrita é muito agradável de ler.

Outra particularidade do livro é que o autor do Prefácio do livro é  o então tenente coronel Soares Branco (3), e que também, como o general Pina, foi uma figura de projeção nacional e um grande vulto das transmissões dado o brilho da sua atuação na Grande Guerra como chefe do Serviço Telegráfico do CEP.

O tenente coronel Soares Branco foi o arguente, incluído no júri que avaliou a defesa da Memória pelo tenente Câmara Pina e escreve o Prefácio a pedido do autor.

No próprio Prefácio indica que esse convite “estava na linha cimeira dos prazeres intelectuais que a carreira docente lhe tinha proporcionado”. Este prefácio também é digno de se ler. Se o livro é uma manifestação inequívoca do interesse do tenente Câmara Pina pelas Transmissões e do seu enorme entusiasmo  pela TSF e pelas  possibilidades que apresenta, o tenente coronel Soares Branco, segue-lhe as pisadas, considerando o trabalho de enorme qualidade.

Em resumo Soares Branco ressalta as seguintes virtudes da obra:

– O livro estar muito bem escrito;

– O autor mostrar invulgar cultura histórica e humanística;

– Apresentar propostas de organização da TSF para o Exercito, que revelam conhecimentos muito avançados para um subalterno de Engenharia;

– Apresentar o quadro das perspetivas e perigos da  TSF.

Espero que tais virtudes sejam suficientes para  incentivar a leitura deste livro, algo esquecida.

Embora com o desgaste inevitável do tempo, considero que continua a valer a pena  a sua leitura, dada a atualidade e interesse de algumas das teses que nele se incluem.

(1) Ver Post de 11 de Janeiro de 2012  “Bibliografia sobre História das Transmissões”.

(2) Anos mais tarde seria General CEME, comandante do Exército entre 1958 e 1961.

(3) Ver post de 22 de janeiro de2013

O general Soares Branco

Post do MGen Pedroso Lima, recebido por msg:

O dia 17 de Janeiro de 2012 foi um dia especial para a CHT, em que  teve lugar a experiência de iniciar elementos interessados da Comissão no estudo da vasta documentação existente no Arquivo Histórico Militar sobre as Transmissões no CEP, durante a Grande Guerra.

O coronel Aniceto Afonso, como orientador científico da Comissão, orientou a experiência, que pelo significativo número de presenças que envolveu e pela forma interessada como decorreu, pareceu-me ter sido francamente prometedora.

Julgo poder afirmar que nunca, até hoje, tantos elementos se empenharam, simultaneamente em investigar aspetos relativos à História das Transmissões.

A mim coube-me estudar a caixa 1/35/Cx 550 relativa à Companhia de Telegrafistas do Corpo. Tirei notas sobre louvores e assinalei algumas Instruções Técnicas, uma dada ao Comandante da Companhia pelo Chefe do Serviço Telegráfico e outra relativa a Instruções do Exército Britânico que pedi para fotocopiar, com vista a fazer um post sobre esta matéria pois a forma cuidada e pormenorizada como foram apresentados merecem-no. Nada que pudesse ser traduzido, para já, num post.

Como defendo que esta experiência foi basilar para sustentáculo sério da produtividade da Comissão, em trabalhos participativos, resolvi apresentar um conjunto de notas que coligi sobre o capitão de Engenharia Carlos Soares Branco que foi o excecional Comandante das Transmissões do Corpo.

Não é um trabalho definitivo  mas que além de poder ser comentado no Blogue julgo que poderá servir de incentivo aos camaradas da CHT que se iniciam no estudo das Transmissões na Grande Guerra.

Passemos então às Notas.

Notas sobre o General Soares Branco

Este trabalho é um “assentar de ideias” depois de ter lido a biografia, publicada no livro dos generais do EME e de ter consultado o seu processo individual no AHM. Procurarei salientar os aspectos fundamentais e sobretudo definir o “que gostaria de saber mais”.

Trata-se de um homem que nasceu no século XIX, em 1886, no tempo em que “reinava” Bon de Sousa nas transmissões permanentes do Exército. Mas foi um homem do século XX, durante o qual, a partir de 1901, as Transmissões passaram a estar centralizadas na Engenharia.

A sua actividade desenvolve-se sobretudo na área militar, mas Soares Branco teve projecção na sociedade civil que não tem sido realçada (a biografia do EME omite-a completamente).

CarlosSoaresBrancoNo Exército, embora tenha participado noutras áreas da Engenharia (como nos Pioneiros, nas Obras Militares, ou Comando do RE1) foi no Ensino e na área das Transmissões que a sua acção foi mais marcante.    

Vamos debruçar-nos, a seguir, sobre as três áreas fundamentais da sua actividade:

  • O ensino militar, no qual passou a maior parte da sua carreira militar.
  • As Transmissões, onde não esteve muito tempo (uns quatro anos) mas onde teve uma actuação particularmente brilhante na Grande Guerra.
  • Uma significativa actividade civil, ligada às Finanças, que durou mais de duas décadas, em acumulação com as suas funções militares.

O ensino militar

Soares Branco começou por ser um excelente aluno no curso de Engenharia na Escola do Exército[1], que frequentou entre 1904 e 1909. Recebeu prémios pecuniários em todos os anos do Curso, inclusivamente no primeiro ano, em que frequentou a Escola Politécnica.[2]

Depois do Curso foi professor na Escola do Exército (antes e depois de ir para a Flandres) na Escola Central de Oficiais (precursora do IAEM) e no próprio IAEM

Na Escola do Exército (com as diferentes designações):[3]

Em 1916, com o posto de capitão, foi professor da 6ª e 7ª cadeira na Escola do Guerra.[4]

Depois de regressado da Flandres, em 1919, foi nomeado professor provisório da 18ª cadeira da Escola Militar. [5]

Quando teve que fazer a prova oral, em 1920, dentro do curso de promoção a major, em que foi aprovado por unanimidade, um dos membros do júri, um coronel de Artilharia, escreveu a seguinte comentário à prova que classificou de óptima: “durante a minha permanência no serviço de júri a exames para major, foram poucos os que a igualaram”.[6]

Em 1922 efectivou-se como lente da 18ª Cadeira da Escola Militar.

Em 1927, no mês seguinte a ser promovido a tenente-coronel, foi nomeado lente efectivo da 17ª cadeira da Escola Militar.[7]

Em 1941 foi louvado “pela forma como na Escola do Exército desempenhou as múltiplas funções de que foi incumbido, quer regendo as cadeiras de fortificação, de comunicações militares e de transmissões… foi um professor com o brilho próprio da sua cultivada inteligência, sabendo imprimir ao ensino que lhe esteve confiado superior interesse e elevação revelando sempre, a par do seu muito saber, os mais elevados dotes de pedagogo, contribuindo assim para elevar o nível da instituição que serviu.” [8]

Na Escola Central de Oficiais e Instituto de Altos Estudos Militares

Em 1920,um mês depois de promovido a major, foi nomeado instrutor do 1º e 2º graus da Escola Central de Oficiais.[9]

Promovido a coronel em 1939, no ano seguinte foi nomeado professor do Curso de Estado Maior do IAEM e, a partir de 1947, como brigadeiro e mais tarde como general, como professor do Curso de Altos Comandos até à sua passagem, em 1948, ao Quadro de Reserva.

O louvor que recebeu, nesse ano de 1948 em que deixou o IAEM, tem a seguinte fundamentação: “porque tendo sido quase ininterruptamente professor da Escola Central de Oficiais (1927)[10] até ao presente se revelou professor exemplar e completo, patenteando sempre, no uso da função docente, as suas brilhantes qualidades de inteligência, o seu vasto saber, o seu carácter o seu notável método pedagógico, a sua clara exposição e o seu entusiasmo pelo trabalho, qualidades estas acompanhadas da melhor e mais leal camaradagem. Durante o tempo que desempenhou funções docentes foi professor distinto do Curso de Estado-maior e do Curso de Altos Comandos prestando assim serviços relevantes não só ao Instituto como à Instrução do Exército.

Em resumo Soares Branco foi professor de Capitão a General. De 1916 a 1948 esteve a ensinar 31 anos, embora com algumas interrupções.

Nisto tudo só me surpreende que não tenha sido louvado pelo Comando do RE1. Alguma coisa lhe teria corrido mal?

Por estes textos fiquei a saber que na Escola do Exército Soares Branco dava sobretudo cadeiras de carácter técnico (Fortificação, Estradas e Transmissões). No meu tempo cada uma destas cadeiras tinha o seu professor diferente.

Na Escola Central de Oficiais e no IAEM é que não sei o que ele que dava. Irei dar uma saltada ao IAEM para ver se sabem alguma coisa. Teria passado a ser um estratega ou continuava a ser fundamentalmente um técnico de Engenharia/Transmissões? Deixou alguma coisa publicada?

Na área das Transmissões

Teve basicamente duas intervenções na área das Transmissões:

  • A primeira foi a sua participação como capitão, com um ano de posto, na Grande Guerra.
  • A segunda, já oficial general, como Inspector das Tropas de Transmissões

Soares Branco na Grande Guerra

A participação na Grande Guerra, a parte da sua vida que, por enquanto, conheço melhor, permite considera-lo o grande vulto das transmissões na guerra, tornando possível, na parte que competia às transmissões, o “Milagre de Tancos” e assegurando uma participação das transmissões na Flandres extremamente dignificante.

Em 1916, tendo 30 anos e sendo capitão com cerca de um ano de posto, foi nomeado chefe do serviço telegráfico da Divisão de Instrução. Segundo os QO, o lugar podia ser ocupado por “capitão ou major”. Ele próprio declarou ter sido nomeado sem que fosse respeitada a escala[11].

A sua actuação nas manobras de Tancos foi notável, como reconheceu o comandante do CEP no louvor que lhe concedeu realçando o seu papel “na elaboração dos projectos das ligações telegráficas e telefónicas da Divisão e a sua ligação à rede geral”. [12]

Mais notável ainda foi a actuação das transmissões do CEP na Flandres.

Pela sua acção como chefe do Serviço telegráfico do CEP foi o único capitão do Exército Português que foi condecorado tanto pelo Exército Português, como pelo rei de Inglaterra e pelo Governo Francês, pela forma como o seu serviço actuou. Mostrando o apreço que a sua actuação teve por parte dos nossos aliados.[13]

Pelo lado português foi agraciado com o grau de oficial da Ordem de Torre e Espada de Valor Lealdade e Mérito, “pelo mérito notável como desempenhou o cargo… devendo-se às suas medidas oportunas e de larga iniciativa e à sua muita competência técnica e profissional que os referidos serviços decorressem com a maior regularidade, removendo por vezes as dificuldades naturais para a aquisição do material e adaptação do mesmo às necessidades de serviço, o que lhe mereceu especial consideração entre as autoridades do exército britânico devido ao seu valor e inteligente dedicação pelo serviço da sua responsabilidade.”[14]

O Comandante do CEP, general Tamagnini de Abreu, no louvor que lhe concedeu refere “o raro brilho e distinção com que desempenhou o cargo” e que o seu serviço “foi o que melhor funcionou, graças à sua constante acção, iniciativa e competência técnica.”

Pelo rei de Inglaterra foi agraciado com a “Military Cross” e pelo Governo da República Francesa com o grau de cavaleiro da Legião de Honra, em virtude dos serviços prestados durante a guerra.

A respeito desta brilhante actuação em Tancos e na Flandres suscita-me uma dúvida. Como se sabe a participação na Guerra dividiu o Exército. Uma grande parte considerava que era um erro ir combater para a Flandres. Devíamos ficar por África. O Partido Democrático de Afonso Costa era o “partido da guerra”. No exército essa corrente pró guerra na Europa era liderada pelo general Norton de Matos e por um conjunto de oficiais, os chamados “jovens turcos” que impulsionaram o “milagre de Tancos”.  Poderia considerar-se o capitão Soares Branco como um “jovem turco”? Estava próximo do general Norton de Matos e do Partido Democrático? Nada ainda consegui saber sobre a sua orientação política.

Outro ponto que me parece interessante investigar é o facto de considerar que o sucesso das transmissões na Grande Guerra, por muito bom que fosse Soares Branco – e não tenho dúvidas que era – os oficiais que o acompanhava e as praças (da CTP sobretudo) também tinham que ser bons. O trabalho feito na Flandres, quanto a mim, o sucesso resultou do trabalho da equipa e não apenas de um só homem.  

Para isso vou ver se no AHM estudo os percursos desses oficiais através dos processos individuais. (quero ver como é que o Soares Branco apreciou o trabalho dos seus subordinados através dos louvores que lhes deu).

O entusiasmo e grande dedicação de Soares Branco, neste processo e na Guerra, permitem levantar a questão: era ele também um “jovem turco?”. A sua nomeação, fora da escala, parece confirmar essa hipótese.

Soares Branco como Inspector das Tropas de Comunicações e das Tropas de Transmissões

Em 1940 Soares Branco foi nomeado Inspector das tropas de Transmissões. Primeiro Director das Tropas de Comunicações e mais tarde das Tropas de Transmissões. Devia ter sido o último Director das Tropas de Comunicações e o primeiro Director das Tropas de Transmissões. No processo individual são registadas várias visitas de inspecção a unidades. O louvor que lhe foi conferido pelo Director da Arma de Engenharia, quando cessou as suas funções é perfeitamente banal “ pela maneira distinta, competente e dedicada e também pela leal e valiosa colaboração que sempre prestou ao Director da Arma de Engenharia”. O que significa que como Inspector das Tropas de Transmissões não fez mais que o normal, sem grandes rasgos.

Na pesquisa que fiz no AHM não encontrei nada de relevante sobre a Inspecção das Tropas de Transmissões nesta época.

Actividade no âmbito Civil

Na leitura do processo individual fiquei a saber que Soares Branco de 1931 a 1956, isto é durante vinte e cinco anos foi Vice-Governador do Banco de Portugal.

Em 11 de Fevereiro de 1921 , era  tenente coronel e secretário geral do banco de Portugal e foi nomeado  para  o conselho de administração do Banco Nacional Ultramarino.[15]

Em 1931 era Coronel, em 1956 era General. Nesse ano passou à Reforma, por ter atingido os 70 anos.

A sua assinatura encontra-se na nota de 500 escudos com a imagem de Damião de Góis, como se mostra na figura [16]

500Apenas sei que o Banco de Portugal publicou em 19 de Novembro de 1946 a “Alocução do Vice-Governador Carlos de Barros Soares Branco” na data do centenário do Banco de Portugal.

Estas notas foram tiradas antes de contactar com o Arquivo Histórico do Banco de Portugal

Contacto com o Arquivo Histórico do Banco de Portugal.

O meu pedido ao Arquivo Histórico do banco de Portugal de elementos sobre Soares Branco teve resposta imediata. Poucas horas depois enviaram-me por e-mail a biografia que conta a história resumida de Soares Branco no Banco.

Deste documento tirei os seguintes ensinamentos:

  • Soares Branco foi aluno do Colégio Militar.[17]
  • De 1922 a 1923 exerceu o cargo de Inspector de Câmbios, na Inspecção de Câmbios (Ministério das Finanças). È um alto cargo nas Finanças. Soares Branco tem 36 anos quando inicia a sua carreira nesta área. Donde lhe surge esta competência financeira?
  • De 1924 a 1926 foi vogal delegado do Conselho do Tesouro.
  • Em 1926 foi eleito Deputado por Cabo Verde e nomeado relator da lei relativa ao regime dos tabacos (uma faceta de intervenção política que desconhecia completamente)
  • Nomeado Secretário-geral do Banco de Portugal pelo Governo em 1925, ocupou esse cargo até 1931.

Isto é muito estranho. Soares Branco foi nomeado em 1925 sendo 1º Ministro António Maria da Silva do Partido Democrático e depois vem a Ditadura Militar e Soares Branco continua no mesmo cargo.  

  • Tendo sido extinto o lugar de Secretário-geral em 1931 Soares Branco passou a exercer as funções de Vice-Governador do Banco (foi o último Secretário Geral e o primeiro Vice – Governador do Banco de Portugal).
  • Entre 1936 e 1956 (durante vinte anos) assumiu as funções de Governador Interino do Banco de Portugal. (A Directora do Arquivo disse-me que constava que Salazar não quis nomear um militar Governado do Banco). Mas também não nomeou ninguém para o cargo. Soares Branco esteve assim vinte anos à frente do Banco de Portugal.

Saiu em 1956 porque atingiu a idade da reforma. (Em 1948 tinha deixado o IAEM por ter passado à situação de reserva).  

  • Fui informado pela minha interlocutora que o caso de Soares Branco é único. Não houve qualquer outro caso de um militar ocupar o cargo de Governador ou Vice – Governador do Banco de Portugal. Soares Branco era tipo Mourinho, um “special one”.

Só durante esses últimos 8 anos (de 1948 a 1956) é que Soares Branco esteve apenas no Banco de Portugal, sem acumular com funções militares. De resto acumulou sempre as suas funções civis com as militares.

Soares Branco começou a sua carreira civil como Inspector de Câmbios em 1922 e acabou em 1956, trinta e quatro anos depois! Em sobreposição com a carreira militar desde capitão até general reformado.

Tivemos assim um Coronel Comandante do RE1 (que julgo ter tido sede na actual universidade Lusófona) que era Vice – Governador do Banco de Portugal e um Inspector das Tropas de Transmissões, que simultaneamente era o Governador Interino do Banco de Portugal…

Contacto com o Arquivo Contemporâneo do Ministério das Finanças (Dr. João Sabino)

Procurei saber, por indicação do AHBP, se me podiam dar alguns elementos sobre a passagem de Soares Branco no cargo de Inspector de Câmbios.

Dessa resposta fiquei a saber que:

  • O quadro de pessoal da Inspecção de Câmbios deveria ser composto por um magistrado judicial e por três membros de reconhecida competência técnica. Portanto, em 1922, aos 36 anos, Soares Branco era de “reconhecida competência técnica” na área financeira.

Considerações finais

Este estudo é um conjunto de notas que me levaram a aprofundar, talvez em demasia (estamos na fase de partir pedra) que me permitem ter uma ideia do que foi a carreira militar e civil desta figura notável que foi Soares Branco.

 


[1] É preciso ter em atenção que neste período a actual Academia Militar teve as seguintes designações:

  • Entre 1837 e 1911 – Escola do Exército
  • Entre 1911 e 1919 – Escola de Guerra
  • Entre 1919 e 1938 – Escola Militar
  • Entre 1938 e 1956 – Escola do Exército
  • A partir de 1956 – Academia Militar

[2] Ver nota de assentos, no processo individual existente no AHM

[3] Ver nota de rodapé 1

[4] OE nº12 2ªsérie de16 Dez 1916

[5] OE nº 16 de

[6] Extraído do processo individual no AHM.

[7] OE nº10 de 16 Jul 1917

[8] OE nº 3, 2ª série de 1941

[9] A Escola Central de Oficiais, criada pelos artigos 410º e 412º da organização do Exército, com o fim de preparar tenentes, capitães e majores, com vista à promoção ao posto superior. Foi reestruturada em 1926 pelo Decreto‑Lei nº 11856 de 5 de Julho (regulamentado pelo Decreto‑Lei nº 13646 de 21 de Maio). É a antecessora do Instituto de Altos Estudos Militares. Ver Google Uma Cronologia da História do Ensino Superior Militar em Portugal

[10] Deve ser lapso do redactor do louvor pois, como vimos, começou a leccionar na ECO em 1920

[11] Ver processo individual no AHM, no requerimento que faz em Maio de 1918, depois da Batalha de La Lys. (e que foi deferido) pedindo o regresso a Portugal por a sua missão só fazer sentido desde que o CEP estivesse em linha.

[12] A actuação das transmissões nas manobras de Tancos é descrita noutra parte do trabalho. Tanto as ligações com Lisboa como nas manobras no Polígono foram excelentes. Soares Branco conseguiu formar uma notável equipa.

[13] Isto, quanto a mim, torna Soares Branco dos oficiais portugueses mais condecorados da Guerra.

[14] Quanto a mim os britânicos tinham a razão para estar admirados visto que no exército britânico o lugar era desempenhado por um tenente-coronel.

[15] Portaria nº 7026  publicada no Diário de Governo, I Série, nº 35, de 11 de Fevereiro de 1921

[16] Entrada Google: Fórum Numismática – Ver tópico – 500 escudos de 1942 – Damião

[17] Pedi aos CHT´s que vissem no livro do Colégio Militar se há alguma referência a Soares Branco. Até agora apenas o Pena disse que talvez o pudesse arranjar na Revista Militar.