As TRANSMISSÕES na GRANDE GUERRA – Relatório de Soares Branco (19)

Post do Cor Aniceto Afonso, recebido por msg:

A BATALHA DE LA LYS (ÚLTIMOS APONTAMENTOS)

Introdução

Como vimos, o capitão Soares Branco optou por incorporar o relatório do seu adjunto capitão Mascarenhas Inglês, enquanto responsável pelo Serviço Telegráfico da 2ª Divisão, no seu próprio relatório da missão no CEP. Isso permitiu-lhe trazer para o seu relato um testemunho mais próximo dos acontecimentos, traduzindo mais adequadamente a realidade no terreno, pois a partir do dia 6 de abril, a única unidade operacional do Corpo Expedicionário Português passou a ser a sua 2ª Divisão. Mascarenhas Inglês descreveu os acontecimentos com muito pragmatismo, não se afastando muito da sua apreciação técnica, sem tecer comentários ou transmitir opiniões pessoais sobre os factos relatados.

Mas chegado ao fim o relato dos acontecimentos do dia 9 de abril, o capitão Soares Branco retomou o seu relatório, imprimindo-lhe o seu estilo, em que não raras vezes emerge uma visão mais abrangente dos acontecimentos, incluindo as suas opiniões pessoais sobre vários assuntos, que especialmente respeitam ao seu Serviço, mas que abrangem também temas de maior amplitude.

Sistema de TSF e TPS

O capitão Soares Branco aceita desde logo que tanto o sistema de TSF como o sistema de TPS não deram “resultados satisfatórios”, mas não vai limitar-se ao relato factual, que também faz.

A TSF e a TPS no CEP
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Ora, estes sistemas, no dizer de Soares Branco, não deram “resultados satisfatórios” por várias circunstâncias, que envolvem também responsabilidades exteriores ao serviço telegráfico. Foram estas algumas das razões do não funcionamento destes sistemas:

Entre o QG2 e o XI Corpo pela razão deste não ter ainda dado conhecimento dos indicativos e características da sua estação diretora e não ter por sua iniciativa nunca chamado o posto de QG2.

Entre o QG 2 e as Brigadas porque em Laventie a antena e as árvores de suporte foram derrubadas pelo bombardeamento e as três praças do posto não puderam sem auxílio da Brigada de novo proceder à instalação; em Huit Maisons o pessoal foi atingido logo no começo do bombardeamento sendo morto o chefe do posto; em Cense du Raux a estação, parece por ordem da Brigada, fora desmontada e levada para junto dos Batalhões.

Entre os postos duplos e transmissores, o da 4ª Brigada (…) nada se sabe pois todo o pessoal desapareceu, o da 6ª Brigada (…) foi atingido logo de começo por um morteiro tendo tudo ficado soterrado; o do posto de Landsdown funcionou até perto das dez horas, mas como tinha ligação bilateral com o da 6ª BI não obteve nunca resposta.

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Linhas enterradas e outros meios

Em relação ao sistema de linhas enterradas, que tinha sido possível instalar na zona portuguesa, “só funcionou bem na ligação do 1º GBA com o 5º GBA e entre o 1º GBA e o Batalhão de Landsdown Post a qual funcionou sempre”. Para isso, Soares Branco encontra a explicação nas decisões tomadas sobre o dispositivo final, quando as unidades portuguesas tiveram de ocupar posições diferentes daquelas que estavam preparadas, não só do ponto de vista da organização no terreno, como das ligações que tinham sido estabelecidas. De facto, as poucas linhas que funcionaram, eram “as únicas que se tinha podido utilizar do sistema já feito, dada a nova distribuição de sectores”, porque “de todas as ligações possíveis a aproveitar descritas (…) nem uma só mais podia ter aplicação”.

Não pode por isso, Soares Branco perder a ocasião de expressar o que pensa acerca da forma como as unidades portuguesas foram distribuídas pela sua zona de ação:

Tendo havido assim uma forma tão arbitrária de colocação de comandos sem que o Serviço Telegráfico nem sequer fosse ouvido não admira o pleno insucesso do sistema que tanto trabalho tinha dado a construir.

O Serviço Telegráfico da 2ª Divisão fora pois obrigado a estabelecer as comunicações duma forma certamente defeituosa que era a única possível dada a frequência de mudança de ordens e a natureza destas.

Era assim por exemplo que as antigas estações de La Gorgue, Cockshy House e Vangerie tinham de funcionar como estações intermédias fornecendo, por ligações laterais e paralelas à frente, as comunicações necessárias aos diferentes comandos.

Como daquilo que afirmamos apresentamos cabais e abundantes provas a quem há de julgar estes acontecimentos competirá averiguar aonde vão parar as responsabilidades deste estado de coisas.

Por nós resta-nos ainda desfazer uma lenda que ouvimos já na boca de alguns e que poderia levar à conclusão de que às 06h50 o inimigo forçara alguém que estivesse no extremo do troço principal longitudinal do antigo sector da 1ª Divisão a transmitir a ordem de alto fogo às nossas Baterias. (…)

Soares Branco dedica a esta questão um conjunto alargado de informações, provando que não podiam ter sido as forças alemãs a transmitir a ordem de cessar-fogo à Artilharia, começando por focar o contexto da situação:

Dos sobreviventes da secção de sinaleiros do Batalhão pode saber-se que tendo sido cortada logo de começo uma das linhas do Batalhão para uma Companhia foi esta mandada reparar e o guarda-fios de regresso em vez de se dirigir para a sede do Batalhão ficou na Companhia de Apoio donde só retirou às 09h45 sem que os alemães dela se tivessem apossado.

A Companhia da direita, segundo informações do telefonista de serviço, conservava ainda duas horas depois do bombardeamento as suas ligações com os postos de SOS e por eles pedia socorro.

Ainda depois das 06h00 havia comunicações entre a Companhia e a 1ª linha e com o Batalhão.

Foi só entre as 07h00 e as 08h00 que uma das linhas (…) para o Batalhão foi cortada e só posteriormente se recebeu pedido (…) para lhe ser dada comunicação (…) para o Batalhão.

E conclui:

Sendo assim parece-me que impossível era a informação dada ao 1º GBA pelas linhas enterradas fosse já feita pelo inimigo (…).

Na verdade, das informações fornecidas pelo oficial de ligação da 6ª Brigada se conclui que cerca das 06h20 a barragem sobre a linha da frente parece ter cessado o que certamente correspondeu ao pedido às 06h50 feito de Infantaria 17 para fazer cessar também o fogo da nossa Artilharia.

É só às 10h00 que um oficial observador da Artilharia confirma que o inimigo está em Landsdown House.

Soares Branco termina esta parte do seu relatório com uma breve referência ao sistema de linhas aéreas, o primeiro que sofreu as consequências do ataque alemão, “visto ter os seus traçados ao longo das estradas e postes de junção em cruzamentos de caminho”. Também às linhas de cabo, que “foram aquelas que durante mais tempo funcionaram, mas essa circunstância só derivava do facto das barragens virem gradualmente recuando desde a Brigada às 1ªs linhas”. E ainda às comunicações por pombos-correios, que foram muito pouco úteis, e finalmente às ligações por aeroplanos, para dizer que “não houve nenhumas durante o combate; certamente devido ao nevoeiro que sempre se manteve durante todo o dia”.

O relatório propriamente dito termina aqui. Segue-se um capítulo de “conclusões e ensinamentos”, ao qual nos referiremos em novos textos.

Conclusão

Este longo relatório do responsável pelo Serviço Telegráfico do CEP, capitão Soares Branco, que ainda continuaremos a analisar, transmite-nos um testemunho único, acompanhando quase dia-a-dia os trabalhos, opções, dificuldades e atuação do Serviço. Não é um relatório de fácil consulta, mas situa-se muito acima de outros relatórios sectoriais que os respetivos responsáveis nos deixaram. É sem dúvida a primeira vez que o Serviço Telegráfico, antecessor da Arma de Transmissões do Exército Português, assume a responsabilidade de planear, apoiar e executar uma manobra tecnicamente autónoma, contribuindo, como outras, para o cumprimento da missão do Corpo Expedicionário Português em terras de França, durante a Primeira Guerra Mundial. E, apesar das dificuldades de um Serviço jovem e inexperiente, deixar marcas indeléveis na memória de todos os que com ele se relacionaram. As distinções de que foi alvo, e de que daremos conta mais adiante, confirmam o esforço, a dedicação e o sacrifício de muitos dos seus elementos.

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As TRANSMISSÕES na GRANDE GUERRA – Relatório de Soares Branco (18)

 

Post do Cor Aniceto Afonso, recebido por msg:

A BATALHA DE LA LYS (ARTILHARIA)

Introdução

Depois da descrição dos acontecimentos de 9 de abril nas Brigadas e nos respetivos Batalhões, o capitão Mascarenhas Inglês aborda também o que se passou nas unidades de Artilharia, dando, em primeiro lugar, uma ideia geral das “ligações na artilharia” e passando depois a descrever as ações levadas a efeito pelos GBA (Grupo de Baterias de Artilharia) que estiveram em apoio das Brigadas empenhadas, os 1º e 2º GBA em apoio da 6ª BI, no sector de Neuve Chapelle; o 5º GBA em apoio da 5ª BI, no sector de Ferme du Bois; e o 6º GBA, em apoio da 4ª BI, no sector de Fauquissart.

As ligações entre as unidades de Infantaria e as unidades de Artilharia foram sempre uma das principais preocupações do Serviço Telegráfico, já que delas dependia a execução dos pedidos de apoio de fogos em tempo oportuno e de forma precisa. As unidades de artilharia tinham na frente, junto das companhias em primeiro escalão os seus observadores, que conduziam o tiro de artilharia do seu sector, tornando-se elementos fundamentais para o sucesso das missões. Ora isso requeria boas comunicações, contempladas na existência de linhas especiais dedicadas a esses observadores avançados.

In A “Batalha de La Lys” e as Transmissões, Revista de Artª, TCor Soares Branco (“clique” sucessivamente para aumentar)

Quando estas ligações falharam, em breve tempo depois do início dos bombardeamentos alemães no dia 9 de abril, as unidades de artilharia ficaram cegas, sem saberem o que fazer. Ainda assim, mantiveram-se nos seus postos e quase todas puderam participar na batalha, a pedido das unidades de Infantaria, enquanto foi possível, e tomando depois várias iniciativas, sem a garantia de qualquer eficácia.

Ligações da Artilharia

Nas primeiras linhas do seu relatório sobre as ligações da artilharia, o capitão Mascarenhas Inglês dá-nos uma imagem do que foi o começo da batalha:

Às cinco horas do dia 9 notou-se avariada a linha que servia o 6º G.B.A. pelo que foram mandados sair guarda-fios que a percorreram com o sargento, sem que até às 12 horas tivessem conseguido alguma coisa de útil; pouco depois das 5 horas avariaram-se as linhas para o 1º e 5º GBA e às 5 e três quartos avariou-se a linha para o 2º GBA.

Tendo saído outro grupo de guarda-fios chegou-se à conclusão que as linhas de Fosse para a frente estavam completamente destruídas.

Ou seja, antes das seis horas da manhã já nenhuma linha de artilharia estava a funcionar e as equipas de reparação nada puderam fazer. Seguiu-se uma luta contra o tempo e contra as condições do campo da batalha, tornando cada vez mais difícil qualquer ação de reparação.

Apesar de restarem algumas ligações para os comandos laterais das unidades inglesas e com a Artilharia Pesada, a verdade é que as tropas da frente, assim como os observadores, ficaram sem qualquer tipo de comunicações.

A situação foi-se degradando, como podemos ver pelo relatório:

As linhas que entravam no indicador foram sucessivamente cortadas e às dez horas e quarenta e cinco minutos já não existiam senão linhas dos circuitos locais.

As únicas comunicações que depois foram feitas com os Grupos foram-no por meio de motociclistas.

Cerca do meio-dia encerrou-se o serviço da estação telefónica de artilharia.

Os telefonistas só saíram de Lestrem depois de se ter verificado que os subscritores já não se encontravam nos seus gabinetes para poderem fazer uso dos respetivos telefones.

A segunda companhia de telegrafistas recebera também ordem de retirar com o Quartel-General.

Restava pois reunir o material que fosse possível e abandonar Lestrem.

Grupos de Baterias de Artilharia

No seu relatório preliminar sobre o 9 de Abril, o general Costa Gomes, comandante da 2ª Divisão, refere-se à artilharia alemã e à resposta da artilharia portuguesa do seguinte modo:

Das 20h30 do dia 8 à 01h00 de 9, o inimigo executou sobre as nossas posições de artilharia curtas rajadas de 4-5 minutos, intervaladas duns 15 minutos; da 01h00 às 04h15 de 9 fez uma pausa; a esta hora, porém, abriu um violento fogo não só sobre as baterias, como sobre as nossas 1ª e 2ª linhas de infantaria, comandos de batalhões, Brigadas e estradas que se dirigiam para os sectores.

Este bombardeamento destruiu logo quase todas as ligações telegráficas.

A nossa artilharia respondeu ao fogo inimigo, umas baterias por lhe pedir a infantaria S.O.S.; outras por iniciativa própria, porque tendo as comunicações cortadas e atendendo à violência do fogo inimigo, perceberam que não deviam esperar pelo pedido.

No entanto, algumas baterias, preocupadas com o consumo de munições e dificuldades de remuniciamento não imprimiram ao tiro a velocidade que seria para desejar num tal momento, como sucedeu no flanco direito.

Por sua vez, Mascarenhas Inglês ocupa-se dos quatro Grupos de Baterias de Artilharia que apoiavam as Brigadas da 2ª Divisão, esclarecendo as circunstâncias das ligações para cada um deles. Como dissemos, os 1º e 2º GBA apoiavam a 6ª BI, no sector de Neuve Chapelle.

Em relação ao 1º GBA escreve Mascarenhas Inglês:

Na estação do Comando deste Grupo, interromperam-se as ligações com as baterias (…) logo nos primeiros tiros (…)

Não foi possível tentar sequer a reparação das linhas em face do fogo de barragem em volta do Grupo, facto este que é confirmado pelo ajudante e mais oficiais do Grupo.

A densidade do nevoeiro não permitiu o emprego de comunicações óticas.

Na 1ª bateria as ligações foram completamente inutilizadas no começo do bombardeamento. Saíram os guarda-fios mas a artilharia inimiga tornava-lhes o trabalho inútil e impossível.

Na 2ª bateria sucedeu o mesmo que nas anteriores.

Na 4ª bateria iguais factos se passaram tendo desaparecido dois telefonistas, mandados ao Grupo como agentes de ligação.

A Secção de Sinaleiros perdeu 9 homens e todo o material, à exceção de dois telefones franceses, um telefone D3 e um indicador buzzer de 4×3 direções.

Em relação ao 2º GBA, o capitão Mascarenhas Inglês refere-o desta forma:

Na estação deste Grupo (…) às 04h20 só havia ligações com o Comando de Artilharia, ligação que se manteve até às 05h45. (…)

A barragem de artilharia, que momentos antes se havia deslocado, voltou a bater com violência as proximidades do Grupo, ferindo os guarda-fios e obrigando todos a retirar. (…)

As comunicações, porém, do Grupo para as baterias, Brigada e Comando da Artilharia da Divisão foram estabelecidas por estafetas, estabelecendo-se assim um serviço regular desde as 06h00 às 10h00.

Depois, reuniu o conselho de oficiais e resolveu-se a retirada.

A Secção de Sinaleiros do Grupo perdeu 23 homens. Do material salvou-se o indicador buzzer unit, um indicador magnético, um telefone D3, quatro telefones franceses e um fullerfone.

Cão com desenrolador de fio durante a GG. Não há notícia de terem sido utilizados pelo CEP.

A apreciação dos outros Grupos é bastante semelhante, sempre com realce para a perda prematura das comunicações e, em virtude disso, a falta de coordenação da sua ação com as forças de Infantaria apoiadas.

Em relação ao 6º GBA, que no sector de Fauquissart apoiava a 4ª BI, Mascarenhas Inglês traça o seguinte quadro:

Cerca das 04h45 o Comando do Grupo ficou isolado da sua estação telefónica, apesar de haver entre o Comando e a estação 4 linhas telefónicas estabelecidas por traçados diferentes.

O comandante da Secção de Sinaleiros, alferes de cavalaria João Baptista, fez prevenir os guarda-fios para se conservarem perto da estação e prontos para o serviço de reparação de linhas, ficando à espera de uma oportunidade que permitisse a execução daquele trabalho, oportunidade que nunca apareceu.

O bombardeamento continuava e a impossibilidade de qualquer serviço de linhas foi reconhecida pelo comandante do Grupo e outros oficiais.

(…) Nada se sabe como o serviço decorreu na central do Grupo, porque todos os homens que ali estavam desapareceram.(…)

A Secção de Sinaleiros do Grupo perdeu um oficial e 31 homens e todo o seu material.

O 5º Grupo, que apoiava a 5ª BI no sector central de Ferme du Bois é referido por Mascarenhas Inglês desta forma:

Às 04h20, das linhas do Grupo apenas funcionavam a do comando de artilharia da Divisão e a do Grupo da esquerda, 1ª GBA.

Foram mandados sair guarda-fios para as linhas avariadas mas em virtude da barragem de artilharia nada puderam fazer regressando à estação do comando cerca das 11 horas. (…)

As ligações óticas não funcionaram devido à densidade do nevoeiro podendo o serviço de ligações ser feito apenas pelos estafetas.

Nenhum dos telefonistas que estavam em serviço nas cabines das posições no OPX e na estação avançada do Grupo retirou.

A secção de sinaleiros perdeu 38 homens dos 65 que tinha presentes.

Do material distribuído ao Grupo perdeu-se todo exceto dois telefones franceses e uma bolsa de pequenas reparações incompleta.

Mascarenhas Inglês termina o seu relatório, como responsável do Serviço Telegráfico da 2ª Divisão, com esta referência aos Grupos de Baterias de Artilharia:

Neste como nos outros Grupos o pessoal das secções de sinaleiros portou-se de um modo geral bem, sendo de notar que as melhores dedicações pelo serviço foram manifestadas pelos que há mais tempo permaneciam na frente.

As conclusões sobre o dia 9 de abril chegam-nos já, de novo, pela mão do capitão Soares Branco:

Resumindo da descrição feita pelo CST2 dos acontecimentos passados no dia 9 pode concluir-se:

Até às 03h00 houve todas as comunicações telefónicas exceto as do 2º GBA para a 4ª. Brigada.

Às 04h20 foram cortadas todas as linhas do QG2 para o XI Corpo, 5ª BI e 4ª BI.

Às 04h30 foi também cortada a linha do QG2 para a 6ª BI e entre o 1º GBA e o 2º GBA.

Às 04h45 fora cortada a ligação entre o comando e a central do 6º GBA.

Às 05h00 era também interrompida a ligação entre QG2 Artilharia e o 6º GBA.

Às 05H30 um oficial saído de QG2 fazia a ligação com a 4ª e a 3ª BI.

Às 05h45 desaparecia ainda a ligação telefónica entre o QG2 Artilharia e o 2º GBA.

Às 06h00 deixavam de funcionar as linhas telefónicas entre o 6º GBA e a sua 1ª Bateria, entre QG2 Artilharia e o 5º GBA, entre QG2 Artilharia e a central da artilharia pesada Heather.

A partir desta hora, Soares Branco passa a referir as comunicações que foi possível restabelecer, mas quase todas através de estafetas, algumas em motociclos, até perto do meio-dia.

Conclusão

Pelo quadro de fogo da artilharia publicado no relatório do general Gomes da Costa, comandante da 2ª Divisão, poderemos constatar que quase todas as baterias iniciaram o fogo entre as 04h30 e as 04h45, hora a que a maior parte das comunicações estava já destruída. Uma única bateria não terminou a sua missão até às 12h00. Neste período, como é referido no mesmo relatório em relação à força atacante “sob a ação do violento fogo de artilharia e morteiros, pelas 7 horas da manhã, já as nossas 1ª e 2ª linhas estavam completamente destruídas e empastadas formando uma massa revolta de escombros, donde aqui e além emergia a perna, o braço, ou a cabeça dum cadáver”.

“Quadro do fogo de artilharia”, publicado no relatório do general Gomes da Costa, comandante da 2ª Divisão

Enfim, Gomes da Costa, ainda a quente, ao elaborar o seu relatório, completa-o com as suas “notas pessoais”:

(…)

O estado de espírito não era pois o de verdadeiros e bons soldados.

A inconveniência de se não manterem os quadros completos e estarem capitães a comandar batalhões, e alferes a comandar companhias, foi outra causa do desaire.

Não culpo por isso os Comandos que se não mostraram à altura da sua missão, porque para ela não estavam preparados; não culpo a 3ª Brigada por não ter ocupado a tempo a Village Line, por isso que não tivera tempo sequer de a reconhecer; não culpo os soldados, que não tinham a preparação suficiente para uma guerra desta ordem.

Porque, se há culpas neste desastre, provêm de faltas de organização, e essas faltas pagam-se sempre caras em tempo de guerra.

As TRANSMISSÕES na GRANDE GUERRA – Relatório de Soares Branco (17)

Post do Cor Aniceto Afonso, recebido por msg:

A BATALHA DE LA LYS  (III) (5ª BI e 3ª BI)

Introdução

Paul von Hindenburg, comandante em chefe dos exércitos alemães, descreve assim, nas suas memórias, a ofensiva do Lys em 9 de abril:

No Inverno, a área do vale do rio Lys ficava inundada numa larga extensão, e na primavera, não passava muitas vezes de um pântano, por semanas a fio – um verdadeiro horror para as tropas que estavam nas trincheiras nesta altura.

Era perfeitamente inaceitável pensar na realização de um ataque antes do vale do Lys se tornar transponível. Em circunstâncias normais de clima, só poderíamos esperar que o solo ficasse suficientemente seco, em meados de abril.

Mas pensei que não seria possível esperar até essa altura para começar o combate decisivo no Ocidente. Tivemos de contar com as perspetivas de intervenção americana.

Não obstante estas objeções ao ataque, tínhamos o plano detalhado, pelo menos teoricamente.

Esta hipótese estava assente nos finais de março. Logo que vimos que o nosso ataque a Ocidente era inevitável, decidimos iniciar as nossas operações na frente do Lys.

Uma pergunta dirigida ao Grupo de Exércitos do Príncipe Herdeiro Rupprecht, trouxe a resposta de que, graças à primavera seca, o ataque em todo o vale do Lys se tornara viável.

Em 9 de abril, aniversário da grande crise em Arras, as nossas tropas passaram das suas lamacentas trincheiras na frente do Lys para a frente de Armentières a La Bassée.

Claro que não foram transferidas por grandes movimentos, mas principalmente por pequenas destacamentos e colunas lentas, através do pântano.

Sob a proteção de nossa artilharia e morteiros de trincheira, eles conseguiram alcançar os seus postos rapidamente, apesar de todos os obstáculos naturais e artificiais, embora aparentemente nem os ingleses nem os portugueses acreditassem que isso fosse possível.

O Tank inglês Mk I (macho) “Lusitania”, que participou na batalha de Arras, um ano antes.

Esta memória deve ser confrontada com alguns excertos da memória de Douglas Haig, comandante em chefe dos exércitos aliados:

A preparação do inimigo para uma ofensiva neste sector central tinha sido concluída há algum tempo. O admirável e extenso sistema ferroviário tornou possível, com grande rapidez, a concentração de tropas necessárias para um ataque. As minhas forças neste sector não poderiam ser grandemente reduzidas.

Em consequência destes vários fatores, a maior parte das divisões na linha de frente, e em particular a 40ª, 34ª, 25ª, 19ª e 9ª Divisões, as quais em 9 de abril estavam na frente, entre o sector Português e o Canal Ypres-Comines, já tinham tomado parte na batalha do sul. Deve considerar-se que, antes da batalha do norte se iniciar, quarenta e seis das minhas cinquenta e oito divisões, tinham estado empenhadas no sul.

No final de março, no entanto, a parte norte da frente secou rapidamente sob a influência de uma primavera muito quente, ficando em condições de sofrer um ataque mais cedo do que seria de esperar. Preparativos para apoiar a Divisão Portuguesa, que tinha estado continuamente em linha por um longo período e precisava descansar, foram feitos durante a primeira semana de abril, e deveriam ter sido concluídos até à manhã do dia 10 de abril. Entretanto, outras divisões, que tinham sido empenhadas na luta no Somme e que tinham sido retiradas para descansar e se reorganizarem, foram transferidas para a frente do Lys.

A persistência do bom tempo fora da estação e a secagem rápida do vale do Lys permitiu ao inimigo antecipar o ataque à 2ª Divisão Portuguesa.

Na noite de 9 de abril, um invulgar bombardeamento pesado e prolongado, também com gás, foi iniciado ao longo de praticamente toda a frente de Armantieres a Lens, cerca das 4,0 horas, do dia 9 de abril.

O ataque do inimigo, em primeira instância foi lançado sobre a porção norte da frente do general Sir Horne, do Primeiro Exército.

Cerca das 07h00 horas, no dia 9 de abril, na espessa neblina que tornou a observação impossível, o inimigo parece ter atacado pela esquerda, a brigada da esquerda da 2 ª Divisão Portuguesa em força e de ter quebrado as suas trincheiras. Poucos minutos depois, a área de ataque alargou-se para sul e para norte.
A comunicação com as divisões em linha foi difícil, mas durante a manhã, a situação ficou esclarecida, tornando-se evidente que um sério ataque estava em andamento na frente da 55ª Divisão, da 2ª Divisão Portuguesa e da 40ª Divisão, desde o canal de La Bassé até ao Bosque Grenier.

Para o norte das posições da 55ª Divisão, o ímpeto do ataque alemão submergiu as tropas portuguesas, e a progressão do inimigo foi tão rápido que as movimentações para cobrir as defesas da retaguarda deste sector com as tropas britânicas apenas puderam ser concluídas no limite do tempo.

A ação destas tropas, e mesmo de todas as divisões que se empenharam nos combates do Vale do Lys, foi notável, porque, como já foi salientado, praticamente a totalidade delas tinha vindo do campo de batalha do Somme, onde tinham sofrido gravemente e sido submetidas a uma grande tensão. Todas estas divisões, sem um descanso adequado e preenchido com jovens reforços, foram novamente atiradas apressadamente para a luta e, apesar das grandes desvantagens, conseguiram segurar o avanço de forças muito superiores”.

Periscópio de trincheira

Nem tudo fica em definitivo esclarecido, mas as explicações que ambos os lados nos transmitiram, ao mais alto nível, respondem a muitas das dúvidas que especialmente acompanharam os participantes deste trágico dia 9 de abril, na região do rio Lys.

5ª Brigada de Infantaria

A 5ª Brigada de Infantaria ocupava o flanco direito do sector português, o subsector de Ferme du Bois, estabelecendo ligação com a 165ª Brigada da 55ª Divisão Britânica. Tinha na frente, à esquerda, o Batalhão de Infantaria 17, e à direita, o Batalhão de Infantaria 10. Em apoio estava o Batalhão de Infantaria 4 e em reserva o Batalhão de Infantaria 13. A 5ª BI era comandada pelo coronel Diocleciano Martins, e ocupou o sector nos dias 6 e 7 de abril, referindo o seu comandante no respetivo relatório as condições em que os seus batalhões se encontravam nas vésperas desse movimento. As suas palavras resumem a situação:

Foi neste estado de depressão física e moral que deixei esboçada, que o comando da Divisão não desconhecia pelo meu relatório de 4 de abril exigido pelo mesmo comando, que a Brigada de Infantaria entrou outra vez no serviço de trincheiras com os batalhões reduzidos a pouco mais de metade do seu efetivo completo em espingardas úteis e maior área a defender.

E mais adiante:

O comando do XI Corpo Inglês, a que desde esta ocasião se achava subordinada a 2ª Divisão, não ignorava os preparativos do inimigo para uma ação ofensiva, tanto que, após os cumprimentos de S.Exª., o comandante daquele corpo pelos comandantes das brigadas e batalhões, no dia 7 de abril, seguiu-se uma conferência em que pelo mesmo senhor foi dito que era possível um ataque à frente portuguesa, mas que não haveria a recear um ataque a fundo, pois que o inimigo não possuía tropas à retaguarda para o apoiar; que em se lhe oferecendo resistência na linha B com as tropas dos sectores, nada mais seria preciso para fazer malograr qualquer ataque.

Como vemos, ou eram incompletas as informações do comando inglês ou não foram devidamente comunicadas aos comandos portugueses.

Batalhão de Infantaria 10

O BI 10, como dissemos, guarnecia o subsector direito da 5ª BI. O major António José Teixeira, que fez o relatório respetivo como comandante do Batalhão, em finais de 1919, depois de regressar dos campos de prisioneiros da Alemanha, descreve a batalha com bastante pormenor.

Todos nos erguemos, como impelidos por uma força elétrica e no meio do maior sobressalto, cerca das 04h15 da madrugada, despertados por um bombardeamento tremendo e ensurdecedor.

O comandante do Batalhão, Guilherme Araújo, e 2º comandante, Ramires, correm ao telefone e procuram inteirar-se do que ocorre…

O nevoeiro sinistro da natureza, a que em breve se junta outro produzido por milhares de bocas de fogo, e talvez o dos aparelhos que para esse fim os alemães possuíam, barravam inteiramente o campo de visão. (…)

Os ecos das granadas e dos morteiros sucedem-se ininterruptamente (…) O ribombar do canhão tem todas as modelações (…)

As trincheiras tremem, e com elas toda a terra; oscilam e esboroam-se como se fossem brinquedos de criança… (…)

Assim se reconhece estar a ser batido todo o sector português, em profundidade e largura, a começar pelo nosso “Ferme du Bois”, La Couture, e por ali acima… (…)

É debaixo da pressão dum tal concerto que o infante português, de olhos esbugalhados, fixa a “terra-de-ninguém” até às 7 horas, sem poder encontrar uma explicação dos factos que se estão passando à sua volta (…)

O comandante do Batalhão mantinha-se ainda em ligação com as companhias, indagando o que havia na frente e fazendo assim a exploração da rede telefónica. (…) As respostas são sempre as mesmas… o inimigo não aparece, mas o bombardeamento agora é mais intenso nas proximidades do comando do Batalhão (…)

São quase 6 horas!

A exploração das linhas começa a dizer que estão cortadas…

Agora o comandante de Batalhão tenta ligar-se por meio de estafetas (…) essas estafetas iam, mas não regressavam!

As comunicações telefónicas com a artilharia estavam cortadas. Lançam-se mais foguetões… (…)

O inimigo bate todas as comunicações.

O nevoeiro é cada vez mais denso, mais escuro… (…)

Lançam-se agora, que o dia vem rompendo, os pombos correio existentes junto do comando, mas as pobres avezitas, sob um céu de metralha e sufocador, estarrecidas, não querem voar, e alguma que parte fica sem vida certamente, pois o resultado da comunicação é nulo…

O oficial de ligação da artilharia (…) lança ainda todos os foguetes que existem no comando. Mas parece que estes sinais serviram apenas para fazer recrudescer o bombardeamento em torno do comando do Batalhão (…)

A conselho do 2º comandante e atendendo a que os telefones já não funcionavam, o comandante deixou o abrigo dos telefonistas e dirigiu-se para o do oficial sinaleiro, em melhores condições de segurança (…)

Continuou-se daí a mandar ordenanças para a frente. Pelas 9 horas e alguns minutos, voltou uma das últimas enviadas dizendo ser impossível chegar às linhas (…)

A tempestade aumenta. Os entrincheiramentos continuam a esboroar-se. A terra treme. Há muita gente ferida que se mantém nas suas posições… A artilharia, agora, cerca das 9h30, bombardeia dum modo pavoroso os abrigos destinados ao comando e pessoal do E.M. do Batalhão!

A nova de que o inimigo devia estar na 2ª linha a todos pôs em sobressalto. (…)

Por isso (o comandante do Batalhão) resolve, agora, cerca das 9h40, abandonar o local do comando e dirigir-se a informar o comandante da Brigada da situação (…)

Todos se preparavam para coadjuvar as forças contra-atacantes… Mas, triste ilusão!… o inimigo havia feito o envolvimento!

Uma patrulha, precedida de 30 homens comandados por um oficial, gritava-lhes: Nach aubers! Nach aubers!… Eram prisioneiros!…

De uma forma geral, estas foram as horas que todas as unidades da frente viveram, umas mais cedo e outras mais tarde, de acordo com a hora de ataque da infantaria alemã. O bombardeamento alemão fez-se por fases, sendo primeiro atingida a retaguarda das forças aliadas e rolando a frente de fogo em direção às primeiras linhas. É isso que justifica a sobrevivência das ligações telefónicas nas primeiras horas entre as companhias e os respetivos batalhões, quando já estes não conseguiam ligar-se às suas Brigadas ou estas à 2ª Divisão.

As ligações da 5ª Brigada de Infantaria

O relatório do capitão Mascarenhas Inglês reflete a situação geral que nos é transmitida por estes testemunhos. Apesar dos pormenores técnicos que predominam no seu relato, sente-se igualmente o ambiente geral e os efeitos dos bombardeamentos sobre as linhas de comunicação, causadoras da ausência de informações dos comandantes dos vários níveis, em especial das Brigadas e da Divisão.

Em relação à 5ª Brigada, é o seguinte o ponto de situação feito por Mascarenhas Inglês:

O QG da Brigada que ocupava o sector de Ferme du Bois, transferira-se poucos dias antes, salvo lapso na tarde de 6, por determinação su­perior para o antigo Posto de Comando em Cense du Raux. No acampamento da Rue du Bois (…) ficara contudo um escalão recuado junto ao qual funcionava na manhã de 9 o telégrafo da Brigada e uma central telefónica que assegurava ao Comando da Brigada as comunicações para a Divisão e Brigadas laterais as quais ainda não fora possível estabelecer diretamente para Cense du Raux.

Com o QG da Divisão estava a Brigada ligada por duas linhas tele­fónicas de traçado diferente numa das quais se sobrepunha o telégrafo. (…) A Brigada dispunha das devidas ligações telefónicas com os QG das Brigadas laterais, com a artilharia e com os seus Batalhões (…)

A conservação de uma central telefónica à retaguarda do posto de comando da Brigada e a uma distância que pouco menos era de dois quilómetros tornava a meu ver assaz defeituoso o dispositivo das comunicações telefónicas do sector. (…)

Junto a Cense du Raux havia uma estação de TSF que comunicava com a da Divisão e com a do QG em Huit Maisons. Quanto a aparelhos de TPS ainda não existiam nenhuns no antigo sector de Ferme du Bois porque não tendo sido recebidos em tempo oportuno e quantidade suficiente os respetivos acumuladores e estando para deixar de ficar à nossa responsabilidade esse sector, julgou-se mais conveniente montar nos outros sectores os que se podiam pôr a funcionar. (…)

Mascarenhas Inglês refere depois cada um dos Batalhões, sem que a situação geral se apresente diferente do panorama da Brigada. No final da sua descrição, a propósito do BI 10, diz o seguinte:

Foi então que o comando do Batalhão começou a ser alvejado cortando-se primeiramente as linhas para a companhia do centro, e perto das 9 horas, a da companhia da esquerda e Batalhão à esquerda. Pouco depois a estação foi atingida por uma granada; os aparelhos deviam ter ficado destruídos sob os destroços do abrigo. (…)

Durante a manhã tinham sido mandados dois estafetas em bicicleta à Brigada e vários a pé para as companhias tendo sido empregado neste serviço todo o pessoal da Secção de Sinaleiros. Não me consta que quaisquer dessas estafetas tenham voltado ao comando do Batalhão.

Foram largados dois pombos-correios.

Transmitiu-se com uma lâmpada Lucas, mas é provável que os seus sinais não fossem captados devido ao nevoeiro.

Pouco depois de ser atingida a estação, o sargento da Secção de Sinaleiros retirou com o comandante e ajudante do Batalhão. Ouviam-se já tiros de pistola e espingarda muito próximos constando que os alemães estavam no Posto de Socorros.

3ª Brigada de Infantaria

A 3ª BI estava em reserva, tendo os seus Batalhões dispersos na linha do Corpo, prontos a ocupar a chamada Linha das Aldeias, em caso de ataque. Embora não chegando a avançar para esta linha, acabaram por fazer parte da resistência posterior, perdendo 17 oficiais, 18 sargentos e 218 cabos e soldados. A 3ª BI incorporava os Batalhões de Infantaria 9, 12, 14 e 15, e era comandada pelo coronel João Júlio dos Reis e Silva.

in Flandres, Cap Costa Dias

A sua ação é assim recordada pelo capitão Mascarenhas Inglês:

A 3ª Brigada saíra do sector de Neuve Chapelle na noite de 6 para 7 e não era possível ter tido materialmente tempo para executar este serviço (defesa da Linha das Aldeias).

O que existia na manhã do dia 9 era pois o que fora previsto para a hipótese de ocupação de Vilage Line por duas Brigadas, uma de cada Divisão.(…)

Na manhã do dia 9 o QG da 3ª BI estava ainda em La Gorge quando a 2ª Divisão recebeu ordem às 5h30 para mandar ocupar a linha intermédia. (…)

Pela sequência das operações realizadas pelas unidades desta Brigada eu creio que não se teria sentido muito a falta de ligações.

Pela descrição acima feita reconhece-se que as ordens dadas não estavam naturalmente de acordo com as ligações, o que fatalmente sucederia dada a mudança dos efetivos de ocupação e de número dos QG de Brigadas correspondentes.

Pôde ainda averiguar-se pelo sargento da Secção de Sinaleiros de Infantaria 13 o qual estava em Diez Bailleuel com alguns sinaleiros nos postos de Pont du Hem e Charter House aguardando fazer a respetiva entrega aos sinaleiros da 3ª Brigada, que com o bombardeamento de Diez Bailleul as linhas se cortaram sendo impossível repará-las e que nenhuns sinais óticos podendo ser vistos dos postos da frente.

Este sargento se retirou dali, trazendo todo o material, cerca das treze horas, depois de ver retirar uma força inglesa.

Conclusão

Ao situarmo-nos nesta terrível manhã de 9 de abril de 1918, podemos compreender o sacrifício que foi pedido aos soldados da 2ª Divisão Portuguesa. A nossa análise não pode separar os soldados portugueses dos seus camaradas ingleses e de outras nacionalidades, todos integrando as forças aliadas. A Batalha de La Lys fez parte duma ofensiva alemã da primavera de 1918, com a qual o comando alemão pretendia romper as linhas aliadas. Não o conseguiu, pelo que a derrota nos combates do vale do Lys faz parte de um conjunto mais vasto de operações militares que no final conseguiram suster a ofensiva alemã. Ver a Batalha de outra forma é deturpar a análise serena dos acontecimentos. É certo que a 2ª Divisão não estava preparada para combater, pelas circunstâncias que temos descrito e analisado, muitas vezes com recurso a documentos originais elaborados pelos próprios protagonistas, mas nem por isso deixaram de constituir um obstáculo, pese a sua debilidade, à progressão das forças alemãs. Eles são credores da nossa homenagem e merecedores da nossa sentida memória, quando se perfazem cem anos sobre o dia fatal para o Corpo Expedicionário Português.

As TRANSMISSÕES na GRANDE GUERRA – Relatório de Soares Branco (16)

Post do Coronel Aniceto Afonso, recebido por msg:

A BATALHA DE LA LYS (4ª e 6ª BRIGADAS DE INFANTARIA)

Introdução

O relatório do capitão Mascarenhas Inglês, chefe do Serviço Telegráfico da 2ª Divisão, que Soares Branco utilizou para relatar os acontecimentos de 9 de abril, procura fazer um ponto de situação exaustivo sobre as condições em que funcionaram as comunicações durante o ataque alemão, em todas as unidades posicionadas no terreno. Por isso nos oferece um quadro vivo e pormenorizado de todas as unidades da frente, e de todas as tentativas levadas a efeito para assegurar as comunicações, apesar de a maior parte das linhas ter ficado inoperacional logo aos primeiros bombardeamentos. Os seus esforços e de todos os elementos do Serviço Telegráfico ficam em evidência através das descrições da ação de muitos elementos que assumiram a sua missão em toda a dimensão, incluindo o risco e o sacrifício da sua própria vida.

Sturmtruppen, as tropas de choque de elite que lideraram o ataque alemão em 9 de Abril

A ordem de rendição da 2ª Divisão

Antes de analisarmos o que se passou em cada um dos sectores das Brigadas portuguesas no dia 9 de abril de 1918, vejamos um extrato do relatório da 2ª Divisão referido pelo capitão Álvaro Teles Ferreira Passos, chefe interino da Repartição de Operações do Corpo. O texto refere-se à ordem de rendição e diz o seguinte:

Como acaba de se ver nos parágrafos anteriores, tudo levava à necessidade de adotar uma atitude de aturada e ativa vigilância na frente La Bassée–Armantières. Não sabemos se o comando britânico se apercebia bem da gravidade da situação temendo ou não um ataque a fundo neste sector, ou se esperava que nunca nele se produzisse mais do que uma simples demonstração. Que ele foi completamente surpreendido é um facto, que a ordem de rendição de 8 veio tornar mais flagrante.

O que motivou esta ordem?

O tenente-general Hacking, comandante do XI Corpo, que em 7 de abril conferenciou no QG da 2ª Divisão com os comandantes das Brigadas portuguesas, tomando conhecimento do estado debilitado dos efetivos e quadros, não desconhecia também o estado moral das nossas tropas, que na véspera bem se tinha manifestado na 2ª Brigada.

Num pequeno discurso que então fez prometeu aos comandantes das Brigadas empregar a sua influência pessoal para a vinda de reforços e de quadros, fez o elogio das tropas portuguesas (…) Terminou por pedir-lhes mais um pouco de sacrifício, continuando na linha por mais algum tempo, e insistindo no seu tema de que as Brigadas dos sectores tinham que se agarrar à linha B.

Quando pois o comandante do XI Corpo deixou o QG da 2ª Divisão, no dia 7, todos ficaram com a ideia bem assente de que a Divisão continuaria guarnecendo ainda aquele sector por largo período. Como surgiu depois, no dia seguinte, a ordem de rendição nº 328 do XI Corpo?

Teria o general reconhecido efetivamente que a Divisão estava tão fatigada moral e fisicamente que era necessário e justo substituí-la imediatamente? Teria o Comando Britânico, em face das informações sobre o inimigo, adquirido finalmente a convicção de que estava iminente um ataque a fundo no nosso sector, e daí a necessidade da substituição, pelo facto das nossas tropas não estarem em condições de receber aquele choque? (…)

Em virtude destas ordens, a 2ª Divisão começava a deslocar-se no dia 9 para a área de reserva do Corpo. A 3ª Brigada, de reserva, recebeu um aviso prévio no dia 8 e estava por isso, na manhã de 9, com as suas disposições tomadas para… ser rendida!

E embora a ordem não chegasse às outras Brigadas, nos sectores, todos sabem como estas notícias correm velozes e que na noite de 8/9 as tropas sabiam que a sua rendição ia fazer-se.

Assim, o inimigo surpreendeu o Comando Britânico e apanhou as tropas do XI Corpo em preparativos de rendição, que é sempre o período mais crítico.

Nas circunstâncias por várias fontes descritas, nunca seria de esperar que as unidades portuguesas pudessem responder com eficácia a um ataque tão intenso, com uma defesa tão deficientemente preparada. Ao percorrermos o comportamento das tropas do Serviço Telegráfico nos vários sectores da frente portuguesa, deveremos sempre ter em conta as condições em que tiveram de agir, para responderem às suas missões.

4ª Brigada de Infantaria

Como sabemos, desde 6 de abril, a 2ª Divisão ocupou toda a frente que antes era defendida pelo Corpo Português, sendo integrada no XI Corpo Britânico. Esta linha, com cerca de 10 600 metros, estava antes ocupada por duas Divisões, com quatro sectores de Brigada. A partir do dia 6, a 2ª Divisão ocupou a mesma frente com apenas três Brigadas, o que obrigou a vários ajustamentos. Em linha ficaram, da esquerda para a direita a 4ª, a 6ª e a 5ª Brigadas, continuando a 3ª Brigada em reserva.

A 4ª Brigada manteve-se no sector de Fauquissart, a 6ª ocupou o sector de Neuve Chapelle e a 5ª passou a defender o sector de Ferme du Bois. Foi extinto o sector de Chapigny, que se situava entre Fauquissart e Neuve Chapelle, obrigando todos os outros a alterações da sua frente.

A 4ª Brigada, também conhecida por Brigada do Minho, ocupava o sector de Fauquissart desde 8 de fevereiro, sector que viu alargado no dia 6 de abril. Era comandada pelo tenente-coronel Eugénio Carlos Mardel Ferreira e integrava o Batalhão de Infantaria 8, comandado pelo tenente-coronel Aníbal Coelho de Montalvão e posicionado no subsector mais à esquerda estabelecendo ligação com a 119ª Brigada Britânica, e o Batalhão de Infantaria 20, mais à direita, que estabelecia ligação com as forças da 6ª Brigada. O Batalhão de Infantaria 29, comandado pelo major Xavier da Costa, dava apoio às primeiras linhas e em reserva estava o Batalhão de Infantaria 3. Aos efetivos da Brigada faltavam mais de 50 oficiais e cerca de 1300 praças.

Foi na Ordem de Serviço do Corpo de 27 de maio de 1918 que saiu a seguinte determinação. “Que em todos os documentos oficiais a 4ª Brigada de Infantaria do CEP seja designada por Brigada do Minho, correspondendo esta designação ao seu recrutamento principal e a uma aspiração dos oficiais e praças que constituem esta Brigada e consagrando o heroísmo e valor com que se bateram na Batalha de 9 de Abril”.

Apoiavam a Brigada do Minho o 6º Grupo de Metralhadoras Pesadas, a 4ª Bateria de Morteiros Médios e a 4ª Bateria de Morteiros Pesados.

No lado esquerdo da primeira linha portuguesa, a 2ª Divisão (4ª Brigada) confrontava, como dissemos, com a 40ª Divisão Britânica (119ª Brigada), transformando a zona fronteiriça de unidades de nacionalidades diferentes numa zona de maior fragilidade. Foi assim que o comando alemão pensou e por isso o ataque foi ainda mais intenso nesta área de junção.

As comunicações na 4ª Brigada

O capitão Mascarenhas Inglês, no seu relatório, descreve em primeiro lugar a forma como o apoio de comunicações estava organizado, não deixando de apontar os trabalhos que ainda não estavam concluídos quando o ataque alemão se iniciou.

No essencial, a situação era a seguinte:

A Brigada dispunha de todas as ligações telefónicas e telegráficas que eram devidas. Tinha duas linhas para a Divisão por traçados diferentes tendo uma delas um troço em cabo enterrado que se continuava por cabo armado estendido em drenos (…)

Tinha ligações com a Brigada inglesa da esquerda, e com a da direita comunicava por intermédio da estação de Cockshy House.

O alargamento do seu sector não alterara os locais de comando de Batalhão e por isso as ligações com estes achavam-se estabelecidas como de há muito (…)

Havia postos óticos entre a Brigada e os Batalhões da direita e apoio.

As ligações com a artilharia estavam asseguradas por linhas telefónicas e postos óticos.

A estação de TSF que servia a Brigada era de Cockshy que aí fora estabelecida quando estava instalado neste prédio o QG da 5ª BI. O Batalhão da direita dispunha de um power buzzer com que transmitia para Cockshy por intermédio do batalhão em Winchester.

A estação telefónica estava montada no abrigo junto ao prédio em que funcionava em períodos de pouca atividade.

O autor passa então ao relato dos acontecimentos do dia 9 de abril, baseando-se, como diz, em informações de várias praças da Brigada e de sinaleiros dos Batalhões. As referências assinalam um conjunto de factos eventuais:

Pouco antes das 4 horas todas as linhas tinham sido exploradas e estavam em boas condições de funcionamento. Minutos depois de começado o bombardeamento, todas as comunicações estavam cortadas exceto a da cave do edifício da Brigada ao abrigo do Comando da Brigada, a da cabine central do 6º GBA e a de Cockshy House.

Tentou-se falar com os Batalhões por meio desta última; os telefonistas de Cockshy informaram que estavam cortadas todas as linhas da frente. (…)

O tenente Branco, comandante da Secção, cerca das 6 horas pediu aos telefonistas de Cockshy que fossem ver se se podia comunicar com a Divisão por TSF. Segundo declaram aqueles telefonistas, o tenente Branco ditou-lhes o seguinte despacho: “intenso bombardeamento, comunicações cortadas” que um deles levou ao abrigo da estação de TSF. Os homens que guarneciam esta declararam não poder transmitir porque as árvores tinham sido atingidas e a antena estava cortada; entretanto tentavam repará-la.

À telegrafia ótica não se chegou a recorrer em consequência do nevoeiro.

As únicas comunicações que houve com os Batalhões fizeram-se por meio de estafetas que vinham dos Batalhões, constando-me que da Brigada nenhumas saíram para os Batalhões.

Cerca das 10h30 deixou de funcionar a linha de Cockshy. A estação foi desmontada por volta das 12h30. Os dois sargentos da Secção entregaram os aparelhos aos homens que iam saindo dos quais, porém, nenhum voltou.

O relatório refere ainda algumas ações individuais de reparação das linhas e de entrega de algumas mensagens, assim como as dificuldades com que tais ações se confrontaram. Em relação aos Batalhões, Mascarenhas Inglês apenas refere o BI 29, que estava em apoio, com o comando em Red House e os dois que estavam na frente, o BI 8, à esquerda, em Hyde Park e o BI 20, à direita, em Temple Bar. As referências confirmam o corte muito prematuro de todas as ligações e assinalam os esforços efetuados para se restabelecerem algumas linhas.

6ª Brigada de Infantaria

A 6ª Brigada, que estava na linha da frente desde 6 de março, passou a defender o sector de Neuve Chapelle, depois da extinção do sector de Chapigny, onde antes se encontrava. Estava ao centro da defesa avançada da 2ª Divisão, entre as 4ª e 5ª Brigadas. Tinha na primeira linha o Batalhão de Infantaria 1, à direita, e o Batalhão de Infantaria 2, à esquerda. Em apoio estava o Batalhão de Infantaria 11 e em reserva o Batalhão de Infantaria 5.

A Brigada era comandada pelo coronel Alves Pedrosa, tendo o seu quartel-general em Huit Maisons. A situação repetiu-se, com o corte quase imediato de todas as comunicações após os primeiros bombardeamentos a partir das 04h15. Os estafetas enviados pelo comando da Divisão não voltaram e apenas um capitão conseguiu regressar, concluindo que a Brigada estava sem comando sobre as suas tropas.

O Batalhão de Infantaria 1 era comandado pelo major António Barros Rodrigues, tendo como 2º comandante o capitão José da Cruz Viegas. É do relatório deste que extraímos algumas passagens, como exemplo do que foi a reação dos comandos deste nível à situação que se viveu nessas horas difíceis:

Em 8 de abril (…) pelas 18 horas veio da parte da 6ª BI (…) uma nota comunicando que devíamos ser rendidos por tropas inglesas na noite de 8 para 9, para o que devíamos entregar na 6ª BI um croquis topográfico das linhas com as posições das metralhadoras pesadas, das ligeiras e de vários postos de comando e também uma relação das munições, material de trincheira e mantimentos a entregar. Estava ainda trabalhando neste serviço às 04h15 da manhã de 9 de abril, quando fomos surpreendidos por um intenso bombardeamento no comando e sobre todo o sector, que nos cortou logo ao começo as comunicações telefónicas. (…)

Às 04h25 foi pedido SOS à nossa artilharia.

Pelas 08h30 por ordem do Sr. major comandante do batalhão dirigimo-nos para junto dos abrigos do pessoal do comando, um pouco à retaguarda do nosso abrigo. Aqui tornou-se ainda mais intenso o fogo da artilharia inimiga.

O relatório do capitão Mascarenhas Inglês completa a informação sobre a 6ª BI:

O sistema de ligações de que dispunha o sector de Neuve Chapelle, embora fosse completo ressentia-se da rapidez com que se estavam operando as modificações na área e guarnição dos sectores, algumas das quais depois de ordenadas ou eram alteradas ou não chegavam a ser levadas à execução.

De princípio, para cumprimento das ordens de operações Nºs. 34 e 36 pelas quais o sector de Neuve Chapelle, depois de aumentado, passava para o comando da 2ª Divisão, tinham-se preparado as comunicações do Batalhão da direita para as duas companhias do antigo subsector esquerdo de Ferme du Bois (…). Estas ordens nunca foram, porém, confirmadas e na tarde do dia 5 recebeu-se subitamente ordem para a 6ª Brigada na noite de 6/7 ocupar o novo sector de Neuve Chapelle (ordem de operações Nº 44). Por consequência o QG da Brigada tinha de se transferir para Huit Maisons perdendo as suas ligações diretas para a Brigada de Fauquissart, para o Batalhão junto a Winchester e para o comando do 2º GBA. Em primeiro lugar a falta de cabo e depois a escassez de tempo pois que o pessoal era pouco para o muito trabalho que ultimamente exigiam os constantes cortes das linhas, não permitiam que se procedesse à montagem das comunicações diretas.

Para de alguma forma se assegurarem as ligações ficou funcionando, com carácter provisório, de posto intermédio a estação telefónica de Cockshy House de onde existiam todas as comunicações de um QG de Brigada. (…)

Quanto às restantes ligações, o sector de Neuve Chapelle dispunha das que eram devidas e que lhe estavam estabelecidas desde o tempo em que pertencia à área da 1ª Divisão.

O QG de Huit Maisons tinha duas linhas para a Divisão em cabo enterrado até Vieille Chapelle e de aí aéreas até Lestrem. Estava ligada a Cockshy, por onde obtinha comunicação para a 4ª Brigada, e com a estação telefónica junto ao 2º escalão do QG da Brigada à direita. Tinha ligações óticas para o Batalhão da direita e, por intermédio de Cockshy ou do posto de Rouge Croix, para o Batalhão da es­querda. Dispunha também de uma estação de TSF numa barraca próxima ao QG da Brigada que podia comunicar com a Divisão e em que havia um amplificador que recebia os despachos dos power buzzers do Batalhão da direita e do seu antigo Batalhão, agora subsector esquerdo de Ferme du Bois.
(…)
Cerca de uma hora depois do começo do bombardeamento, recebeu-se de Infantaria 2 um pedido de SOS. Mais tarde tornaram a pedir SOS dizendo quem falava ao telefone que se tinham lançado muitos “very-lights” mas que a artilharia não intervinha. Nesta altura já não foi possível transmitir o pedido para o 2º GBA porque a comunicação acabava de ser cortada bem como todas as outras com exceção da 4ª Brigada que se conservou ainda algum tempo. Todo o material que havia em Cockshy foi destruído.

Os únicos meios de comunicação que restavam à Brigada, eram portan­to as estafetas mas do seu emprego nada me consta a não ser que não tornaram a voltar ao QG as que tinham saído para os Batalhões da frente.

Mascarenhas Inglês refere ainda no seu relatório os Batalhões de Infantaria 1 e 2, terminando a descrição dos acontecimentos da seguinte forma:

A estação deste Batalhão (BI 1) foi atingida por três granadas que a demoliram, cerca das 9 horas. Foram soltos dois pombos com mensagens dizendo que as comunicações estavam cortadas. O pessoal da estação depois de destruir um fullerfone e um indicador de 4×3, tendo o restante material ficado debaixo dos escombros, retirou pelas 11h30 segundo declara o sar­gento da Secção de Sinaleiros por ordem do comandante do Batalhão. Houve um soldado que vindo de um posto de SOS conseguiu trazer um telefone francês.

Conclusão

Estas descrições mais pormenorizadas, com referência a unidades de mais baixo escalão confirmam a ideia transmitida pelos relatórios mais abrangentes. Ninguém estava preparado para o ataque alemão, todos se aprontavam para sair das linhas da frente e iniciar um ciclo mais consistente de descanso. A missão, antes atribuída, de defesa da linha B a todo o custo, ficou desde logo comprometida pela decisão de rendição da Divisão Portuguesa. Ninguém, nem os comandos nem as tropas, conseguiu renunciar à última orientação recebida, a mais justa de todas as ordens. O ataque alemão apanhou as tropas portuguesas num momento de grande fragilidade, não só pelas condições que se arrastavam do anterior, mas também pelas especiais condições desse dia, o dia da rendição por uma Divisão Britânica! Para compreender os relatos que vimos seguindo e os comportamentos que nos transmitem, é necessário não esquecer as circunstâncias em que as tropas portuguesas tiveram de enfrentar a ofensiva alemã da madrugada de 9 de abril de 1918.

 

 

 

 

As TRANSMISSÕES na GRANDE GUERRA – Relatório de Soares Branco (15)

Post do Cor Aniceto Afonso, recebido por msg:

A BATALHA DE LA LYS (I)

Introdução

No dia 9 de abril mantinha-se na frente a 2ª Divisão Portuguesa, com todas as dificuldades que Soares Branco nos tem vindo a relatar. O responsável maior pelas comunicações era por isso o chefe do Serviço Telegráfico da 2ª Divisão, capitão Heitor Mascarenhas Inglês. Com toda a lógica, Soares Branco decidiu dar a palavra ao seu camarada de serviço, transcrevendo por inteiro o seu relatório dos acontecimentos.

O relatório do capitão Mascarenhas Inglês é sobretudo um relatório técnico e descritivo, que procura explicar as diversas situações e respetivas soluções, mas que nos transmite um panorama completo de toda a frente, percorrendo todas as unidades de Infantaria e Artilharia (Divisão, Brigadas, Batalhões e Grupos de Baterias), com detalhada explicação das ligações, trabalhos executados e interrompidos, assim como o destino do pessoal, material e equipamentos. Ressalta dos diversos relatos a importância que no dia 9 de abril tiveram as ligações por estafetas em que todo o pessoal disponível foi utilizado, a pé, a cavalo, de bicicleta ou motocicleta. Fica também a ideia do corte quase imediato, a seguir aos primeiros bombardeamentos alemães, das comunicações por cabo e da ineficácia de qualquer outro meio de comunicação, como a TSF ou os pombos-correio.

Apesar da compreensível preocupação técnica do autor, o relatório é um testemunho muito interessante para a compreensão do drama vivido naquelas horas decisivas na frente portuguesa no dia 9 de abril de 1918, em que as tropas portuguesas foram completamente surpreendidas por um grande ataque das tropas alemãs, enquadrado na sua grande ofensiva de primavera, com o objetivo de romper a frente aliada.

QG’s: CEP – St Venant; 2ª Div – Lestrem; 2ªCDT – Lestrem; 5ª BI (setor de Ferme du Bois) – Cense du Raux, com escalão recuado na Rue du Bois; 6ª BI (setor de Neuve Chapelle) – Huit Maisons; 4ª BI (setor de Fauquissart) – Lavantie; 3ª BI (reserva, linha C) – La Gorgue; Pombal fixo – LaCouture

As comunicações no QG da Divisão

O que se passou com o capitão Mascarenhas Inglês é um exemplo do que aconteceu, de uma forma geral, com o pessoal do Estado-maior da 2ª Divisão. A relativa tranquilidade de mais um dia de rotina, em que a Divisão se preparava para ser substituída na frente, foi brutalmente interrompida por um intenso bombardeamento alemão, que desde logo pareceu ter dimensões pouco usuais. Vejamos algumas passagens do relatório:

As estações centrais do QG em Lestrem possuíam todas as ligações que é de regra haver numa Divisão. (…)

As linhas, ao sair da Divisão, eram todas aéreas (…)

As duas linhas para cada Brigada e Cockshy tinham traçados diferentes e, a partir de certo ponto, seguiam por cabo armado enterrado ou em drenos.

Em Lestrem tinham sido preparadas pela 1ª Divisão duas estações de reserva, uma para as linhas do comando da Divisão e outra para as da Artilharia, para o que se tinham feito derivações dos traçados aéreos em cabo armado colocado em drenos. Estes drenos passavam num dado ponto a menos de 200 metros do edifício do QG

Todas as linhas estavam em bom estado de funcionamento na noite de 8/9. Pouco depois das 4 horas começou a ouvir-se um forte bombardeamento notando-se que algumas granadas rebentavam nas proximidades do QG. Parecendo-me que se devia tratar de uma ação importante, levantei-me para me ir informar do que ocorria e dirigir o funcionamento do serviço.

Às 4 horas e 20 minutos as comunicações para as Brigadas da esquerda e direita já estavam interrompidas, conservando-se apenas por mais alguns minutos as da Brigada do centro.

Mandei imediatamente pôr de prevenção todo o pessoal telefonista e de guarda-fios.

Entretanto recebia ordem, que fiz executar, para guarnecer a estação de reserva. Feitas rapidamente as ligações ao indicador, constatou-se que nenhuma das linhas da frente funcionava. Uma das avarias foi logo descoberta; tratava-se de um corte, produzido em todos os cabos armados que entravam na estação, por granada que incidira sobre o dreno entre e edifício do QG e a estação de reserva (…)

Entretanto ordenava-se que outros grupos de guarda-fios saíssem para tentar reparar as linhas. (…)

Os primeiros, tendo chegado a Fosse, comunicaram por uma das linhas que a partir desse ponto até ao Poste quadrado de Vieille Chapelle as linhas estavam completamente por terra. (…)

Não chegou a haver tempo para concluir este trabalho que, devido à intensidade do bombardeamento junto a Fosse, só muito morosamente podia ser executado; entretanto recebia-se ordem para retirar. (…)

Pela Secção de Cabo do tenente Williams foram montadas linhas até Fosse. Julgo que por uma delas que teria sida ligada a um par de linhas enterradas, chegou a estar estabelecida comunicação com uma das Brigadas mas apenas por poucos momentos. (…)

A fim de ser utilizada em qualquer construção que as circunstâncias tornassem oportuna, mandei apresentar no QG uma esquadra de cabo. Depois de dada esta ordem constatei que o bombardeamento das estradas de Lestrem para a frente tornava efémera a duração de qualquer linha que ao longo delas se estabelecesse. (…)

Cerca das 13 horas e 30 minutos, em harmonia com instruções recebidas ordenei que se desmontassem as estações do QG2, a de reserva e a da artilharia, e que se recolhessem todos os telefones que fossem encontrados nas Repartições, pondo-se todo o material em condições de ser transportado.

Pelas 15 horas retirei para Calonne onde pedi instruções acerca da montagem de quaisquer comunicações. Apenas me foi apresentada a necessidade de uma ligação da Secretaria do Town Major para uma casa onde estava o Comando da Artilharia, mandando para isso construir em cabo D3 uma linha com uns 200 metros de extensão.

As comunicações por estafetas

A descrição que o capitão Mascarenhas Inglês faz deste serviço permite-nos perceber o grande drama e os pequenos dramas daquele dia 9 de abril. Falhadas as comunicações telegráficas e telefónicas, só parecia viável a troca de correspondência por estafetas, usando qualquer meio de transporte disponível. Mas a situação no campo de batalha raramente permitiu que as missões fossem levadas a bom termo, apesar da urgência e da importância dos pedidos de apoio das unidades ou da transmissão de ordens dos comandos. Pouco foi possível executar a tempo, mesmo à custa dos esforços, do desembaraço ou mesmo da valentia dos estafetas. Algumas mensagens concretas chegaram aos destinatários, mas poucas em condições de poderem ser respondidas com eficácia.

São estas algumas das passagens do relatório:

Na manhã de 9 a Divisão dispunha de nove motociclistas, 11 ciclistas e dois estafetas a cavalo em condições de prestar serviço. Dois dos motociclistas estavam apresentados nos QG das 4ª e 6ª Brigadas de Infantaria. Um outro estava exclusivamente encarregado do serviço do Corpo de Artilharia. (…)

Da 4ª Brigada as primeiras notas expedidas foram entregues ao motociclista Américo que lá estava em serviço. Eram dirigidas essas notas ao Chefe do Estado-Maior, ao 6º Grupo de Baterias de Artilharia e ao 2º Grupo de Baterias de Artilharia. O motociclista saiu cerca das 8h30, foi aos Grupos e passando por La Gorgue veio a Lestrem. Regressou a Laventie com uma nota urgente para a Brigada, cujo Comando já se encontrava então na cave da Missão Britânica. A Brigada, tendo necessidade de enviar outra nota para a Divisão, provavelmente durante a ausência do motociclista, entregou-a a uma estafeta a cavalo. O cavalo foi morto na ocasião em que a estafeta o aparelhava, ficando o homem levemente ferido por um estilhaço pelo que foi receber curativo ao Posto de Socorros seguindo a pé para a Divisão, onde teria chegado pelas 11h30 entregando a nota a um capitão do estado-maior.

Entretanto, da Divisão tinha sido mandado a Laventie o motociclista Gonçalves. Antes deste aí chegar, cerca das 11 horas, o Américo foi mandado levar correspondência ao 6º Grupo e neste recebeu uma nota para o Comando de Artilharia para onde seguiu. Em Lestrem apresentou-se-me com a moto avariada. Mandei entregar-lhe uma outra e voltou para a frente com três notas para a 3ª BI e uma para a 4ª. Em La Gorgue já não encontrou ninguém no QG da Brigada. Continuou para a frente e ao chegar à estrada de La Bassee encontrou sentinelas inglesas que o não deixaram passar, recolhendo então a Lestrem onde se apresentou. Quanto ao Gonçalves sei que tendo chegado a Laventie perdeu a sua moto que tinha deixado na rua à porta da estação e foi atingida por uma granada ficando completamente despedaçada. Esta praça não mais voltou a aparecer. (…)

Da Divisão foram mandados a Huit Maisons dois motociclistas. O primeiro saiu muito cedo não tendo chegado ao seu destino porque lhe caiu muito próximo uma granada ficando a estrada cortada e por ter sido atacado de gases tendo de abandonar a motocicleta. O segundo saiu pelas 7 horas e encontrando em Fosse um ciclista que vinha da Brigada à Divisão com um urgente pedindo carros para transporte de feridos, trouxe-o na moto até Lestrem, levando-o depois a Fosse donde o ciclista seguiu para a Brigada.

Das duas comunicações recebidas da 5ª BI, de nenhuma posso informar qual o meio de transmissão. Da Divisão foram lá mandados dois motociclistas e um ciclista. Saiu primeiramente um motociclista que não se sabe o que conseguiu; não voltou à Companhia. Depois disso foi mandado um ciclista e cerca das 7 horas, o motociclista Cruz. (…)

Ao chegar lá, o Cruz achou destruído e abandonado esse posto, e na estrada encontrou o ciclista da Divisão acima referido atacado de gás. Conseguiu ser informado perguntando a outras praças do local onde estava o Comando e atravessando a intensa barragem de granadas de gás, alcançou esse local entregando a correspondência. No regresso esta praça atrelou a bicicleta à sua moto, trazendo assim para Lestrem o ciclista.

Além destas transmissões muitas outras se fizeram de correspondência ordinária e urgente (…)

A ineficácia da TSF

A TSF poderia ter sido uma alternativa à falha dos outros meios de comunicação, mas o serviço não tinha ainda desenvolvimento e operacionalidade que sustentasse um mínimo de eficácia. O capitão Mascarenhas Inglês faz um breve ponto de situação da ação deste meio no dia 9 de abril:

A estação de TSF da Divisão estava montada no abrigo da estação de reserva (…). Podia comunicar com a antiga estação diretora do CEP enquanto esta funcionou e com as três estações adstritas às Brigadas na linha. Quanto às comunicações com o XI Corpo deveriam ser possíveis se dele tivessem sido recebidas as necessárias indicações para o serviço. Na Divisão não havia conhecimento das cha­madas da estação do Corpo nem da chave da cifra.

Quando, cerca das 5.30 h, me dirigi para à estação de reserva, man­dei os telegrafistas fazer chamadas e pedir informações para as Brigadas.

Dizendo-me os homens que ainda não tinham conhecimento da palavra de cifra para esse dia, mandei-os entretanto telegrafar em linguagem clara visto que o texto do despacho era apenas o pedido de informações e mandei chamar o Oficial TSF que comparecia pouco depois, bem como o tenente Ivo de Carvalho. Nenhuma resposta se obteve, contudo, a estas transmis­sões.

W/T 130w Wilson transmitter (estação diretora do Corpo, comprimentos de onda 350/450/550 m, alcance 7/8 km)

Tuner short wave Mk III (recetor, em conjunto com a estação Wilson)

Também as comunicações com os aeroplanos não tiveram qualquer papel, embora o posto de receção dos despachos tivesse sido montado no local previsto, aí permanecendo desde as 5h15 até as 13h00, “não tendo sido recebido nenhum despacho”.

A retirada

Era inevitável que ainda no dia 9 fosse decidido que as unidades e serviços não empenhados retirassem para a retaguarda, procurando salvar homens, materiais e equipamentos. A ordem chegou por volta das 13h00, como refere Mascarenhas Inglês:

Pouco depois das 13 horas, conforme instruções recebidas, ordenei que a Companhia [2ª Companhia Divisionária de Telegrafistas] iniciasse a marcha. (…)

Solicitei autorização para que a Companhia se dirigisse a St. Flo­ris onde ocuparia o antigo acantonamento da Companhia de Telegrafistas de Campanha, se o QG estacionas­se em Calonne.

Pouco depois recebeu-se ordem de marchar para St. Venant e mais tarde para Lambres. (…)

Também o material mereceu a atenção do capitão Mascarenhas Inglês que nos transmite a seguinte informação:

Logo que se previu a possibilidade de re­tirada mandei preparar o camião.

Cerca das 13 horas começou este carro transportando para St Floris o material telegráfico. Ficou em Lestrem até perto das 20 horas para dirigir esse serviço o alferes Craveiro Lopes. O camião levou três car­gas de material de Lestrem para a retaguarda, tendo ainda trazido algum material um carro de parque da 2ª Companhia Divisionária de Telegrafistas. Conseguiu-se assim salvar todo o material importante, quase todo o material miúdo e de consumo exceto cabo armado, alguma mobília e os artigos da Repartição como arquivos, (…) máquinas de escrever e artigos de Re­partições do QG2.

Quando o camião na sua última carreira passava junto a mim em St Venant, ordenei ao alferes Craveiro Lopes que procurasse arranjar uma arrecadação em Berguette em que descarregaria o material que o camião levava, voltando este imediatamente e tantas vezes quantas necessárias a St Floris até que o material ficasse todo em Berguette. Arranjou-se a arrecadação em Guarbecque e o camião voltou a St Floris donde trouxe durante a noite uma nova carga.

Conclusão

As tropas portuguesas não chegaram a compreender a razão da sua prolongada presença na frente de combate. Todos, comandos e tropas, se foram apercebendo que tinham uma retaguarda débil, que as condições de emprego como força militar em operações era extremamente fraca, que o moral se degradou continuamente. As unidades tinham falta de oficiais, a instrução tinha sido deficiente, o apoio não estava ao nível do de outras unidades do mesmo escalão. Os soldados não gozavam férias, estavam muito longe da sua terra, confrontavam-se constantemente com ausências mal explicadas dos seus oficiais.

A atividade militar na zona intensificou-se de forma gradual mas constantemente. O mês de março foi extremamente penoso para as unidades portuguesas. Os comandos portugueses aperceberam-se desta situação, mas o comando britânico manteve a ideia de que o ataque principal que as forças alemãs preparavam não seria na região de Armentières. Só em 6 de abril as tropas portuguesas receberam ordens para manterem na linha da frente apenas a 2ª Divisão, comandada por Gomes da Costa, passando para o comando do XI Corpo de Exército. O tempo foi curto para consolidar as inevitáveis mudanças táticas resultantes desta decisão.

Mas o pior estava para vir. As visitas a 6 e 7 de abril do comandante do XI Corpo, general Hacking, ao comando da 2ª Divisão coincidiram com as notícias dos preparativos alemães e a constatação do nível moral e do estado físico das tropas portuguesas, o que levou o comando britânico à decisão lógica, que uma prudente análise de situação já deveria ter aconselhado há bastante tempo. A 8 de abril foi dada ordem para a substituição da 2ª Divisão por uma divisão inglesa, movimento que deveria iniciar-se a 9 de abril. Era tarde e a decisão tardia desmoronou o moral das primeiras linhas portuguesas. Se a vontade de lutar e a disposição anímica era já extremamente baixa, a perspetiva de sair da frente anulou toda a capacidade de resistência e de comando. A situação só poderia conduzir a um desastre, se o ataque se realizasse exatamente nesse dia. Foi o que aconteceu.

O ataque alemão de 9 de abril inseriu-se na sua estratégia de rotura da frente em sectores estreitos, com grande superioridade de meios. Os comandos alemães sabiam que seria a última oportunidade de o conseguirem. O ataque foi bem planeado, bem preparado e executado de forma eficaz. A preparação da artilharia foi longa e intensa. Os gases de combate foram usados da forma habitual. O assalto fez-se de acordo com os princípios táticos consolidados pela longa guerra de trincheiras.

O general von Quast, comandante do exército alemão no sector de la Lys, e o seu chefe de Estado-maior, o TCor von Lentz

Houve resistências, mas os confrontos foram pontuais e não duraram mais que escassas horas, o tempo necessário ao avanço das tropas alemãs. Em seis horas ruiu toda a resistência das primeiras linhas; ao fim do dia estava conquistado todo o sector português e os sectores adjacentes e, em consequência, consolidada a penetração alemã.

As necessárias mudanças do dispositivo e a respetiva substituição de unidades agravaram até ao limite as fragilidades do sector português. As comunicações sentiram acrescidas dificuldades de resposta às alterações táticas decididas em cima da hora. Todas as ações de apoio no sector português acabaram por sofrer os efeitos do principal ataque alemão, em especial do prévio bombardeamento de artilharia, que tornou inoperacionais, nas primeiras horas, quase todos os sistemas de ligação. Ao princípio da tarde, as instruções foram no sentido de se iniciar a retirada, tanto quanto possível.