Notas sobre a Grande Guerra nas colónias portuguesas (3)

Post do MGen Pedroso Lima, recebido por msg:

Este post é baseado numa carta, escrita pelo tenente de Infantaria Manuel Almeida de Oliveira, que pertenceu à 3ª expedição a Moçambique, comandada pelo general Gil e que complementa o post anterior sobre a Grande Guerra em Moçambique.

A carta foi-me facultada pela filha do seu autor, uma vizinha e amiga, a D. Clélia Morujão, parente do Cor de Transmissões José Eduardo R. Morujão.

A carta foi escrita em Mocímboa da Praia em 12 de dezembro de 1916 e era destinada à mulher, D. Branca, e na qual procura relatar a sua experiência de meados de Outubro a a dezembro de 1916.

A carta é um documento que me impressionou e vem confirmar o sofrimento que a Grande Guerra provocou aos expedicionários em Moçambique[1], em especial no período em causa, com a efémera conquista de Nevala e as consequências do contra-ataque alemão.

Limitamo-nos aqui a transcrever, na parte que interessa, este relato do tenente Almeida de Oliveira

N Moç…. “Depois que se atravessou o rio em Namoto, tendo os alemães abandonado as suas posições, foi organizada uma coluna com destino a Massassi, ponto de concentração das forças alemãs. A comandar essa coluna vai o nosso major Pires, mas sem praças nem oficiais de Infantaria 24. Algum tempo depois da partida dessa coluna foram requisitados 4 oficias de Infantaria 24 e um deles, a quem coube a sorte, foi a mim. Fui ao encontro dessa coluna que se encontrava bivacada na margem do rio, a 120 km do ponto de partida, à espera de reforços e muito desalentada.

Era a fadiga das marchas, era a forma porque tinha passado e muitas outras causas que contribuíam para este abatimento moral. Este local, onde se encontrava bivacada a coluna, chamava-se Sicumbibira e foi neste local que a coluna me deixou, a 17 de outubro, e onde permaneci até 1 de dezembro. Fiquei naquele local sozinho tendo por fim providenciar para que a coluna fosse fornecida por meio de carregadores. Os trabalhos que tive durante a minha estadia foram muitos e variados. Mas podem resumir nas obras de misericórdia. Estava no meu papel. À noite deitava-me tranquilo e agradecido a Deus por me te proporcionado ocasião de fazer alguma coisa de útil ao meu semelhante.

Como, por certo, deves saber, essa coluna ocupou Newala, que fica a meio caminho de Massassi, e chegou até Lilindi, onde se travou um combate com forças alemãs durante 5 horas, ficando estas derrotadas, mas tendo, poucas semanas depois, de regressar a Newala por não se encontrar com forças para prosseguir até mais longe. Entretanto o inimigo concentrava as suas forças e, pressentindo a nossa fraqueza, resolveu-se a atacar-nos. Cercou Newala, tomou a água donde a coluna se reabastecia e as nossas forças, dento do forte de Newala, ficaram sem terem água e sem terem alimentação e sem forças para se defrontar com o inimigo assim estiveram desde 20 a 28 de Novembro.

Organizou-se uma coluna de socorro que saiu de Palma em camiões, tendo como comandante o capitão Azevedo de Infantaria 24, indo também o capitão Sena Lopes e o tenente Carvalhais, todos de Infantaria 24.

Passaram por Sicumbibira, onde eu estava, e compenetrando-me que tinha o dever de socorrer os meus camaradas cercados, fui também. Pedi ao general licença para ir morrer a Newala e enviei-te uma carta que te seria entregue, caso Deus quisesse que eu lá ficasse.

Lá fui e não me portei mal no combate.

Fui o último a retirar depois de estar entre as nossas metralhadoras e as inimigas a uma distância inferior a 100 metros, fazendo fogo umas contra as outras.

Não conseguimos entrar em Newala, mas os nossos aproveitaram esse dia para sair do forte sem combate e seguindo por entre o mato, salvando-se mesmo os doentes. Como era de prever, perderam-se uns dos outros e foram alguns perseguidos pelo inimigo. O que passaram alguns deles não te devo contar.

Principiou aqui o nosso desastre. Os alemães vieram logo em nossa perseguição.

Os oficiais que passavam pela coluna de socorro davam todos parte de doente. Eu vim para o meu posto de Sricumbibira.

Os postos de Manta e Chinchira, que ficavam na estrada que de Lucumbiliso e se dirigia a Nissala foram abandonados pelas nossas forças e queimados à medida que o inimigo se aproximava. Chegou a vir também a Sicumbibira. Já tinha passado todo o material de guerra para o outro lado do rio e estavam a passar o rio as forças que tinham vindo de Chinchira, quando uma força alemã rompeu fogo. Ao mesmo tempo e a um sinal dado se incendiaram todas as palhotas que tinha mandado construir e a coberto do fogo e fumo se passou o rio sem perigo algum. Depois da passagem do rio ainda fomos incomodados por alguns tiros de patrulhas alemãs que tinham passado o rio e que pretendiam cortar-nos a retirada para Nangadi, o nosso principal posto em nosso território e a 8 quilómetros do rio. Rapidamente avisei este posto do que se estava passando e volto a escolher posição para resistir ao inimigo. Nessa altura começa o forte de Nangadi a ser bombardeado por um peça alemã posta em Chinchira e todos os praças e oficiais que nestes posto se encontravam… fugiram a caminho de Palma, acometidos de um pavor terrível. Tudo desmoronava. Eu encontrava-me a alguns quilómetro para além do posto, com algumas cem praças e mais 3 oficiais à espera do inimigo.

O Chefe do E. Maior que se encontrava também comigo vai ao posto para nos mandar reforços e alimentação e não encontra ninguém. Pouco depois mandou-nos retirar para o forte com toda aquela gente. Ao chegar ali vem mais uma dúzia de granadas e fugiu quase tudo, ficando apenas algumas praças de Infantaria 28, o Chefe EM, eu e mais dois oficiais. Estivemos ali algumas horas e depois de ter passado um automóvel que conduzia um grande número de oficiais vindos de Newala. Era meia-noite quando deixámos o forte e assim queimámos uma dezena de contos.

Retirámos para o alto da serra de Nangadi e ali fiquei com alguns oficiais e algumas praças à espera dos acontecimentos e à espera dos retardatários fugitivos de Newala que ali iam chegando. Tudo procurava escapar-se. E eu, que não tinha comando de tropas por ali fui ficando.

Em 7 de Dezembro fomos informados que o inimigo se preparava para atacar o posto de Matchemba e ficaríamos assim com a retirada cortada e sem possibilidades de nos salvarmos. Resolvemos ir sobre Matchemba e, de qualquer forma, auscultar a guarnição daquele posto. Só depois de 11 hora de marcha sem descanso chegámos perto daquele posto e verificámos que este estava a arder e tinha sido abandonado pelas nossas forças, mas não conseguimos saber notícias do inimigo.

Descansámos ali um pouco e prosseguimos a marcha para Pundanhare já de noite quando inesperadamente rompeu o fogo do inimigo que se encontrava emboscado no mato e que tinha presenciado todos os nossos movimentos. Deu-se então a confusão e tudo se espalhou pelo mato, indo um para um lado e outro para outro. E eu confesso agora a minha fraqueza. Não quis morrer ali ou ficar prisioneiro e fugi também.[2]

Por fim conseguimos dar com um caminho que nos conduziu a Mocímboa da Praia, onde estou há três dias e donde te escrevo. Esperamos amanhã umas lanchas que nos conduzirão para Palma.

As praças que aqui chegavam e os oficiais vinham num estado de fadiga e cansaço horrível e não admirava, atendendo à grande distância que percorremos e cerca de dois dias e duas noites e a quase absoluta falta de alimentação. Só eu vinha com a mesma saúde e sem cansaço algum. Devo-o a um burro que me apareceu e que pareceu se oferecer para eu o montar. Não comeu e caía para o chão logo que eu o desmontava.

O meu cavalo, o único dos de Infantaria 24 que tinha escapado à morte e que estava forte e bonito lá ficou com o tratador e ainda não sei o que foi feito deles…[3]

Apenas duas coisas tenho pena: do cavalo e do tratador e de um frasco de mel que eu, com tanto cuidado, conservei para levar para aí. É uma especialidade.

De tanta coisa que podia contar-te as deixarei para quando aí chegar.

As doenças, a nossa incompetência e sobretudo a nossa falta de caracter de sentimento pátrio foram e hão de ser a causa deste nosso desastre e de outros futuros. É uma pátria em ruínas.
……..

[1] Sobre este assunto ver o livro “Epopeia Maldita”, a que se refere o post de 21 de março de 2014

[2] Nota posterior do autor: Ainda nesta última tragédia fui o último e o único a ficar e só quando não vi outro recurso que não fosse escapar-me do inimigo. E chamo-lhe fraqueza! E digo que fugi!

[3]Nota posterior do autor: Ainda voltei a ver o meu cavalo. Estava em Palma quando lá cheguei, mas já atacado de doença que matara todos os outros. O meu foi o último, ficando ainda vivo quando baixei ao hospital.

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A Campanha Portuguesa em Moçambique – A 1ª expedição (2 de 2)

… continuação:

  1. Da organização das forças

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Para Massano de Amorim, que especialmente privilegiamos neste apontamento (mas cujo exemplo se poderá estender a outras expedições), os problemas surgiram quando da organização das forças, tanto no que respeita ao pessoal e material, como aos apoios em Moçambique, assim como aos reabastecimentos e recompletamentos.

Por mais bem gizada que estivesse a manobra, na previsão das várias possibilidades do inimigo, a verdade é que sem os apoios necessários, a expedição não poderia por si própria cumprir as tarefas inerentes à missão inicial e muitos menos a um aumento de encargos operacionais, como a certa altura foi exigido.

Massano de Amorim concebeu a sua força com meios operacionais e logísticos adequados à missão, ao terreno que bem conhecia e às condições que iria encontrar. Confiou no apoio que receberia do governo de Moçambique e da Companhia do Niassa, ocupante por contrato de toda a zona previsível de operações.

Apesar das providências que Massano de Amorim procurou desencadear a partir de Lisboa e mesmo na sua passagem por Lourenço Marques, em contacto pessoal e prolongado com o governador-geral Joaquim José Machado, a verdade é que, como ele próprio afirma no seu relatório: “Quando porém em 1 de Novembro desembarquei em Porto Amélia nada havia feito”. Nem estradas, nem telégrafo, nem ocupação do território, nem informações sobre o terreno ou sobre as forças alemãs, nem cobertura administrativa, nem cais acostável, nem instalações no porto de desembarque, nem forças indígenas disponíveis, nem carregadores, nem meios de navegação de qualquer espécie.

Por outro lado, a organização da força contou com várias dificuldades iniciais, pois incorporou um significativo número de voluntários, só recebeu muitos oficiais e sargentos quase na véspera do embarque e os soldados careciam de toda a espécie de instrução. Muitos militares não apresentavam compleição física necessária para integrarem uma expedição desta natureza.

Com os objetivos vagos que são apontados às expedições que partem para África, era natural que a composição das forças obedecesse ao esquema habitual, com unidades combatentes, de apoio e de serviços. Por isso, esta expedição incluiu um batalhão de infantaria, um esquadrão de cavalaria e uma bateria de artilharia, assim como um quartel-general e respetivos apoios e ainda elementos dos serviços de saúde, engenharia, administração militar e outros elementos especializados. Tudo o resto, deveria ser providenciado pelo Governo-Geral de Moçambique e pelas autoridades locais, com base em unidades indígenas e em carregadores.

 

  1. Da logística

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O mau desempenho das forças portuguesas em Moçambique, conclusão unânime das análises feitas à sua atuação, está também ligado à incapacidade de as dotar com os elementos fundamentais da logística.

Todos se aperceberam, desde muito cedo, das dificuldades que se desenhavam em quase todos os aspetos essenciais à manobra logística – transportes, alimentação, fornecimento de água, reabastecimentos (munições, armamento, víveres, material), instalações, comunicações terrestres, ligações telegráficas, carregadores, etc.).

Os problemas iniciaram-se durante a fase de organização da expedição, em Lisboa e também com o transporte da expedição para Moçambique e com as dotações de munições (Massano de Amorim argumenta que teve de aceitar “tais como tinham sido estabelecidas, atendendo a motivos ponderados que me foram então significados” (p. 7), ou seja, a insuficiência da produção nacional e a dificuldade de importação). Embora a expedição fosse portadora da maior parte das necessidades para quatro meses, nem sempre foi possível responder às preocupações iniciais, como por exemplo no fardamento e calçado: “estas deficiências com que lutei relativamente a fardamento e calçado e que muito influíram na saúde do soldado, resultaram principalmente da falta de previsão” (p. 15).

Embora a viagem ocupe um longo capítulo no relatório de Massano de Amorim, interessa-nos apenas salientar a dura prova por que as tropas passaram nesta longa viagem, em condições péssimas de alojamento e alimentação, o que deixou as primeiras marcas na situação sanitária das praças. Estes problemas não deixam de ser surpreendentes, se considerarmos a longa experiência do exército e da marinha em campanhas coloniais.

Mas os verdadeiros problemas começaram no terreno.

A seguir ao desembarque, um longo período foi dedicado à instalação das tropas, tornando-se necessário construir de novo ou reparar a maior parte das instalações destinadas à expedição, assim como regular o abastecimento de água, a panificação, a limpeza e higiene, a contratação de indígenas, os serviços de saúde, a telegrafia.

Tendo escolhido Porto Amélia como base de operações, Massano de Amorim sabia que a fronteira, como principal zona de ação operacional, distava da base mais de 250 km e que por isso se tornava necessária a construção de vias de comunicação e de linhas telegráficas, mas também sabia que as alternativas para bases de operações, que poderiam ser (como vieram a ser) Mocímboa da Praia ou mesmo Palma (ambas muito próximas da fronteira), eram pouco adequadas para estacionamento prolongado de tropas, em especial pelo seu clima, pela falta de instalações e pela maior dificuldade em apoios de outras entidades. As suas recomendações para futuras expedições apontavam para a manutenção da sua opção, mas a decisão política acabou por influenciar a escolha, e as bases foram depois instaladas mais a norte, com péssimos resultados, em especial no estado sanitário das tropas.

 

  1. Do dispositivo e articulação

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O plano de Massano de Amorim, uma vez escolhida a base de operações em Porto Amélia, passava necessariamente pela abertura de itinerários em direção ao norte e a oeste, assim como pela construção das respetivas linhas telegráficas. A manobra logística revestiu-se de características especiais que se torna necessário compreender no contexto em que foi planeada e executada.

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Tanto quanto se pode deduzir da disposição das suas tropas no terreno e das suas orientações escritas, Massano de Amorim entendia que as forças alemãs só poderiam penetrar em Moçambique, ou por uma manobra secundária que poderia ser levada a efeito junto ao Lago Niassa (“a fim de passarem para a África Central Inglesa”), ou numa manobra conjunta de infiltração, sendo que neste caso, o poderiam fazer junto à costa, com ataque a Palma e depois a Porto Amélia ou em várias direções simultaneamente (pp. 124-125).

Preconizava por isso uma defesa em profundidade, com postos de vigilância e defesa junto da fronteira, desde Pundanhar, junto à costa até Chiminde, junto ao Lago Niassa, e bases de operações no interior, constituídas por Porto Amélia, Muirite, Metarica e Metangula, a mais de uma centena de quilómetros da fronteira. Estas bases deviam ser dotadas com vias de comunicação e linhas telegráficas a ligá-las entre si e com os postos de fronteira, por forma a poder organizar-se uma resposta adequada e em tempo. Sendo também necessário manter meios navais capazes de deslocarem uma força significativa desde Porto Amélia a qualquer ponto da costa, a norte.

Mas esta estratégia carecia de tempo, apoios e reforços que os responsáveis locais (Governo-Geral e Companhia do Niassa) não estavam em condições de fornecer; carecia também de novas armas e materiais, de tropas robustas e motivadas, o que nunca aconteceu com as expedições portuguesas.

Por isso, a substituição de Massano de Amorim e da sua exausta expedição, no final da ano de 1915, foi a solução que o governo encontrou para alterar a estratégia de Massano de Amorim e responder às vozes que em especial em Moçambique se levantavam contra a alegada inércia dos militares portugueses, que, na sua opinião, em vez de defenderem a fronteira junto ao Rovuma, permaneciam, sem atividade, longe das zonas de maior perigo.

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Contudo, a 1ª expedição a Moçambique deixou executado um notável trabalho, que o seu comandante cuidadosamente refere no seu relatório: reconstrução da ponte-cais de Porto Amélia, estrada “para automóveis” com mais de 400 km de Porto Amélia para o interior (com “muitas pontes, algumas de 90 metros”), passando por Montepuez, Muirite e seguindo para Mocímboa do Rovuma. Sobre outras vias Massano de Amorim assegura que deixou praticamente concluída a rede de comunicações.

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Quanto às linhas telegráficas, Massano de Amorim encontrou a funcionar a linha Porto Amélia-Palma, assim como Porto Amélia-Moçambique, o que permitia ligação “com todas as estações telegráficas da Província” (p. 180). Para o interior não havia qualquer ligação. Iniciou por isso a construção de duas linhas, uma ligando os postos da margem direita do Rovuma, de Palma a Negomano, com mais de 250 km, e outra, avançando para o interior a partir de Porto Amélia, passando por Montepuez e depois caminhando para norte por Muirite até Mocímboa do Rovuma, com mais de 400 km. A expedição deixou em construção as restantes linhas de apoio (pp. 159-160 e 180-181).

As vias de comunicação e as linhas telegráficas correspondiam à ideia de manobra de Massano de Amorim, prudente e flexível, mas não correspondiam aos desejos do governo de Lisboa e às insistências dos responsáveis locais, que queriam as forças portuguesas a protagonizar façanhas mais notáveis, como a invasão do território alemão, como depois se veio a verificar, com os maus resultados conhecidos.

  1. Das forças aliadas

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As forças aliadas presentes na região pertenciam à Grã-Bretanha e à União Sul-Africana. Havia também forças belgas, que cooperavam com as forças inglesas no norte. Nesta primeira fase da intervenção das forças portuguesas em Moçambique, o problema não teve grande relevância, embora não deixasse de constituir uma preocupação do seu comandante. Ele sempre esperou que o comando inglês fornecesse ao comando português melhores e mais oportunas informações sobre as forças alemãs, mas isso raramente aconteceu. É necessário ter em conta que neste período Portugal era ainda um país neutral, embora sem declarar a neutralidade, na bizarra fórmula encontrada pelos governantes de Portugal e da Grã-Bretanha logo no início do conflito.

 

  1. Conclusões – Do comando e conduta das operações

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Quando a Grande Guerra teve início, Portugal não estava preparado para desempenhar o seu papel de potência colonial. A relação de Portugal com as colónias vinha sendo influenciada pela constante falta de recursos financeiros e pela ausência de uma estratégia adequada às capacidades reais. A situação de conflito entre potências europeias, com territórios da Alemanha vizinhos das colónias portuguesas de Angola e Moçambique, evidenciou as dificuldades de Portugal para responder à urgente necessidade de reforçar a defesa dos seus territórios.

A tradição da presença portuguesa em territórios coloniais privilegiava a instalação no litoral e a enorme dificuldade de penetração no interior, o que levou ao menor desenvolvimento das vias de comunicação com o interior e à pouca ou mesmo nula presença da administração portuguesa na maior parte dos territórios. Esta situação conduziu também à constante revolta dos povos indígenas, a que Portugal foi respondendo com expedições militares, sempre muito dispendiosas, mas capazes de cumprirem os seus objetivos.

Quando o governo português se viu obrigado a responder à situação criada pela guerra nas colónias de Angola e Moçambique, acabou por seguir o figurino anterior, já que o exército colonial não tinha qualquer capacidade militar e vinha sendo votado ao abandono desde o início do século, sem qualquer tentativa de reorganização ou de qualquer tipo de apoio, tanto do governo central, como dos governos coloniais.

Foi por isso necessário recorrer de novo às expedições militares, enviadas à pressa para Angola e Moçambique, sempre demasiado onerosas e militarmente inadequadas para o tipo de conflito que se previa. De uma forma geral, as expedições foram mal organizadas, com deficiente mobilização, com indefinida missão e fraco apoio político.

Os comandantes das primeiras expedições a Angola e Moçambique tiveram que deduzir a sua missão, tanto pelas oscilações políticas que ocorreram em Portugal, como pela indecisão que caracterizou a posição de Portugal perante a guerra.

Massano de Amorim, comandante da expedição a Moçambique, deixou-nos um relatório de missão com apontamentos justificativos das suas opções e com reflexões que explicam, com muita clareza, os condicionamentos da sua missão.

Fala-nos, mais ou menos longamente, sobre:

– Os princípios de utilização de tropas em condições adversas;

– A relação da ação de comando com a interferência das decisões políticas;

– Os reflexos da inconstância das orientações políticas sobre a capacidade militar;

– A necessidade do estudo do terreno e da sua constante atualização;

– A urgência do conhecimento do inimigo e do permanente acompanhamento das suas ações;

– A influência das infraestruturas de comunicação na capacidade de manobra das forças.

E sobretudo, o relatório alerta-nos para decisiva relevância da preparação das tropas e da sua motivação para o cumprimento da missão. Também se devem realçar as relações das tropas expedicionárias com os povos locais, no que respeita especialmente às tropas indígenas, aos carregadores e trabalhadores e ao comportamento desses povos (são relevante as referências, neste caso, aos Macondes).

Finalmente, se a História deve ser explicada e se ela nos apetrecha com ensinamentos, então torna-se relevante que continuemos a estudar esta campanha de Portugal nas suas colónias durante a Primeira Guerra Mundial. Pode ser que fiquemos avisados sobre erros que não devemos cometer no presente.

A Campanha Portuguesa em Moçambique – A 1ª expedição (1 de 2)

No âmbito da data da batalha de La Lys que amanhã se comemora, começo hoje a publicar, em dois postais sucessivos, a palestra que o membro da CHT e nosso coordenador cientifico, Coronel Aniceto Afonso, apresentou em Novembro de 2014 na Academia Militar sobre a Campanha em Moçambique durante a Grande Guerra:

ACADEMIA MILITAR,  19 de NOVEMBRO de 2014

A Campanha Portuguesa em Moçambique – A 1ª expedição

Aniceto Afonso

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Introdução:

Nesta comunicação farei breves apontamentos sobre os seguintes pontos, sendo que privilegiarei a 1ª expedição a Moçambique em alguns deles:

– Necessidade da campanha
– Política internacional
– Ameaças
– Estratégia do governo português
– Capacidades militares
– Organização das forças
– Logística
– Dispositivo e articulação das forças
– Forças aliadas na região
– Conclusões

 

  1. Da necessidade da campanha, em geral

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Existe um conjunto de condicionantes sobre as quais devemos refletir sempre que analisamos a campanha portuguesa em África durante a Grande Guerra.

Em primeiro lugar, a nossa análise deve recair especialmente sobre os seguintes pontos:

– Características que envolvem a herança colonial portuguesa;

– Grandes linhas das relações entre as potências coloniais;

– Estratégia das diversas potências perante a guerra em África;

– Disputa concreta dos respetivos territórios coloniais.

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Em segundo lugar, temos de considerar as ameaças que pendiam sobre os territórios coloniais e qual a estratégia do governo português e os seus fatores. Só assim poderemos compreender as circunstâncias que levaram às soluções encontradas para responder à situação. Este estudo nunca poderá esquecer a avaliação das reais capacidades militares de Portugal, na consideração dos vários teatros de operações que requeriam ou podiam requerer a presença de forças portuguesas. Para além dos territórios africanos, especialmente Angola e Moçambique, também o território nacional, o Oceano Atlântico e os arquipélagos dos Açores e da Madeira e a eventual ou efetiva participação na frente europeia.

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Seguir-se-á a consideração dos objetivos militares definidos para a campanha em geral e para cada uma das expedições e a capacidade de organização de forças e da sua projeção em teatros de operações distantes e com características adversas; virá depois a composição das forças, os sistemas logísticos e as relações a estabelecer com as forças amigas na região. Só então se poderão tornar compreensíveis, num quadro de análise geral, os dispositivos das forças no terreno e a sua articulação, bem assim como a crítica do comando e da conduta das operações.

 

  1. Da política internacional

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São conhecidas as negociações da Alemanha com a Grã-Bretanha e a disposição desta para ceder às pretensões alemãs, em contrapartida do alívio das perspectivas bélicas que se desenhavam na Europa. Boa parte desta cedência da Grã-Bretanha desenhava-se à custa dos territórios portugueses.

Por seu lado, a Grã-Bretanha definia limites para a expansão colonial da Alemanha, preservando as zonas que considerava estratégicas, mesmo que estivessem na posse de Portugal.

Não parece portanto desadequado pensar que poderia ocorrer, em especial antes do início da guerra, um entendimento, mesmo não formal, entre a Grã-Bretanha e a Alemanha para a partilha dos territórios coloniais portugueses, apesar da aliança entre Portugal e a Inglaterra.

 

  1. Das ameaças

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A diplomacia portuguesa sabia das ameaças que pendiam sobre o império colonial. Embora alguns acordos entre a Grã-Bretanha e a Alemanha permanecessem secretos, o governo republicano seguia com atenção as conversações anglo-alemãs. Os argumentos das grandes potências baseavam-se na incapacidade portuguesa, que era real, de aplicar os princípios saídos da Conferência de Berlim. Os territórios portugueses permaneciam pouco desenvolvidos, atrasados e inseguros para o comércio das potências. Qualquer intervenção do governo português para melhorar a situação exigia meios humanos e materiais que Portugal não possuía. Diminuir as ameaças de partilha das colónias portuguesas requeria um grande esforço financeiro e um grande equilíbrio diplomático, nem sempre ao dispor dos governos portugueses, fosse qual fosse a sua perspetiva em relação à política colonial.

O grande atraso no desenvolvimento de estruturas administrativas e de defesa dos territórios potenciou outra ameaça em torno das revoltas dos povos indígenas. A política colonial portuguesa tinha um longo historial de expedições militares “pacificadoras” e punitivas, mas extremamente dispendiosas. Mas, um pouco paradoxalmente, o exército colonial nunca foi encarado como uma solução, conservando-se, tanto durante a Monarquia como depois da implantação da República, como um corpo praticamente inexistente e esquecido. Na verdade, a República nunca chegou a implementar forças colonias, de acordo com as necessidades dos extensos territórios que administrava.

 

  1. Da estratégia do governo português

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Não se afigurava fácil o estabelecimento de uma estratégia eficaz que se opusesse às ameaças que pendiam sobre os territórios coloniais. Mas, uma vez desencadeada a guerra na Europa, as ameaças tendiam a concretizar-se, pelo que o governo português foi obrigado a equacionar o que fazer em relação ao império, em especial à defesa de Angola e de Moçambique.

Uma vez que a posição de Portugal ficou definida logo à partida, neutral sem declarar a neutralidade, com base na recomendação inglesa, o governo português veio a guiar-se, grosso modo, pelas seguintes orientações:

– Implicar a Grã-Bretanha, ao abrigo da secular aliança luso-inglesa, na definição das políticas portuguesas, tanto em relação à defesa das colónias, como à participação de Portugal na frente europeia;

– Obter garantias da negação da Grã-Bretanha a qualquer pretensão de Espanha em relação ao território português;

– Manter a integridade territorial das colónias, em colaboração com as forças aliadas presentes na região, contando com a Grã-Bretanha para a segurança das rotas marítimas e das zonas litorais;

– Manter em segurança o porto da cidade de Lisboa e, uma vez mais com o apoio da Grã-Bretanha, a rota Lisboa-Açores.

 

  1. Das capacidades militares

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O governo português procurava consolidar um relacionamento internacional favorável ao regime republicano e à importância de Portugal no contexto das potências coloniais. A defesa militar das colónias, colocadas sob ameaça alemã, não podia deixar de constituir uma prioridade para o governo. Para tal era necessário deitar contas às capacidades militares do país. E como o governo não desconhecia o fraco desenvolvimento das forças militares coloniais, não teve qualquer dúvida em mobilizar expedições para cada um dos territórios ameaçados – Angola e Moçambique.

Como dissemos, as expedições eram dispendiosas, mas a situação exigia essa solução. As duas primeiras expedições foram organizadas logo em Agosto de 1914 e partiram de Lisboa a 11 de Setembro. Os seus objetivos eram muito genéricos, centrando-se na preservação da integridade territorial, na submissão dos povos indígenas e, eventualmente, conforme a evolução dos acontecimentos, na ocupação de uma parte dos territórios alemães vizinhos. Este fim não foi assumido para as primeiras expedições, às quais o governo entendeu frisar que Portugal não se encontrava em conflito com a Alemanha e que deveriam evitar-se confrontos diretos com as suas forças militares.

Esta questão das capacidades militares de Portugal deve merecer um aprofundamento especial, sem o qual não poderemos compreender algumas das opções que foram feitas. Em primeiro lugar é necessário compreender as circunstâncias de reorganização do exército e da marinha, motivada pela mudança de regime. Nos quatro anos que medeiam entre a implantação da República e o começo da guerra europeia, o exército é especialmente atingido por uma série de transformações que enfraqueceram a sua capacidade militar, tanto ao nível da mudança do seu corpo profissional, como dos princípios de mobilização das tropas.

A ideia republicana de reorganização da força armada não se encontrava minimamente consolidada quando a guerra se iniciou – nem nos efetivos, nem na instrução, nem no armamento, nem na organização e disciplina das tropas. A prudência deveria ter sido a ideia chave do comportamento do governo português. Não foi, como sabemos.

Faço aqui este apontamento para deixar claro que nunca é simples a análise de qualquer momento histórico e muito menos se estamos num período de rotura e transição.

Retomemos então a campanha colonial, fazendo-o através da análise mais detalhada da primeira expedição a Moçambique, como exemplo. Ela foi comandada pelo tenente-coronel Massano de Amorim, com larga experiência colonial, sendo a mais recente das suas funções a de governador do distrito de Moçambique de 1907 a 1910.

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Embora os objetivos concretos da expedição não estivessem muito claros, Massano de Amorim vai estabelecer a sua missão com bastante rigor:

– Defesa contra a invasão de forças alemãs;

– Submissão dos povos indígenas;

– Cooperação com as forças aliadas na região;

– Prevenção de confrontos em território português.

O governo português, o comando da expedição e o governo-geral de Moçambique deveriam, de acordo com a missão atribuída, disponibilizar meios credíveis, por forma a garantir o essencial das tarefas a realizar pela expedição. Depreende-se da correspondência e do relatório da expedição que muitas foram as dificuldades em conciliar as tarefas a executar com as capacidades fornecidas ao comando da expedição.

continua…

Notas sobre a Grande Guerra nas colónias portuguesas (1)

Post do MGen Pedroso Lima, recebido por msg:

Ao elaborar este post tivemos em conta que o aparecimento de novos posts, mesmo sem grandes pretensões, como este, é sempre um contributo para animar o Bogue, para cuja continuidade consideramos dever contribuir.

O texto baseia-se no livro “Impérios em Guerra 1911-1923, uma perspetiva inteiramente nova da PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL” da autoria de Herbert Gerwarth/Erez Manela (coordenadores).

imperios-em-guerraDe referir que a abordagem da Guerra, pelos autores, abrange um período que engloba a Grande Guerra (1914-1918), começando com a conquista da Líbia pelos italianos em 1911 e acabando em 1923, com a paz de Lausanne, que pôs termo às convulsões provocadas pela revolução russa.

O livro relata a evolução da guerra nos diferentes impérios, cada um tratado por um historiador diferente, permitindo comparar e salientar as diferenças que houve, nomeadamente em relação o caso português, da autoria do historiador Filipe Ribeiro Menezes, e do qual se extraem as notas que se seguem.

Singularidade do caso português

A este respeito Ribeiro Menezes refere:

“Enquanto países como a Grã Bretanha e a França (e até a Bélgica) usaram as suas colónias para fortalecer o seu esforço de guerra económico e reforçar os exércitos que lutavam na frente ocidental e noutras frentes, Portugal deu por si a ter de enviar soldados europeus e africanos para os campos de batalha em África.”

Esta singularidade da atitude portuguesa poderá, quanto a mim, ter resultado de os portugueses, ao contrário dos Aliados, terem sobrevalorizado o “perigo alemão” em África, durante a Grande Guerra.

Para os aliados, as reduzidas forças alemãs existentes nas suas colónias africanas não representavam perigo significativo tanto mais que, graças à supremacia britânica nos mares as colónias alemãs não tinham qualquer possibilidade de apoio da metrópole e rapidamente ficaram sem comunicações via rádio ou cabo submarino, logo no início da guerra.

Consequentemente a estratégia aliada em África foi sempre ofensiva, com a utilização sobretudo de tropas africanas, tendo sido, nos primeiros anos da guerra, conquistadas as colónias alemãs do Togo, Camarões e Sudoeste Africano. O caso da África Oriental Alemã (hoje Tanzânia) foi diferente, por se ter prolongado a resistência das forças de Von Letow, um pioneiro da guerra subversiva, que só combatia em condições vantajosas, para permitir a sobrevivência da suas reduzidas forças mas que não aspirava à posse definitiva de qualquer parcela de terreno. O objetivo estratégico de Von Letow, e a sua grande contribuição para a causa alemã foi fixar em África importantes forças aliadas para o combater, que assim não puderam ser usadas noutras frentes. O que conseguiu inteiramente.

No caso português esta fragilidade das forças alemãs foi bem patente em África. Em Angola a ameaça alemã só durou até 1915, porque os alemães se renderam perante a ofensiva sul africana. Antes tinha havido apenas, em Angola, o recontro de Naulila, em que apesar de as forças alemãs terem sido consideradas vitoriosas, retiraram sem perseguir as forças portuguesas também em retirada, o que parece mostrar que os alemães não tinham qualquer intenção de continuar em Angola e muito menos de conquistar a colónia.

O caso de Moçambique só aparentemente é diferente. As forças de Von Letow estiveram 10 meses em Moçambique numa longa digressão de milhares de quilómetros. Sempre em movimento, atacando vários postos portugueses, em situações vantajosas e acossados por foças anglo-lusas muito superiores, mas muito mais lentas. Quelimane chegou a estar ameaçada. Os alemães não atacaram e acabaram por regressar à África Oriental Alemã, para prosseguir a sua guerra de sobrevivência em que não podiam deixar-se envolver em batalhas decisivas nem tomar pose definitiva de qualquer parcela de terreno. Conquistar Quelimane era possível mas manter a posse da cidade seria o seu fim. Havia que prosseguir o seu movimento.

Parece portanto que Portugal poderia ter adotado uma atitude semelhante à dos aliados e não enviar os fortes contingentes expedicionários metropolitanos, como enviou e que a fragilidade da ameaça alemã parecia aconselhar.

Porém não foi isso que fez e, no entanto essa decisão prece ter sido a mais correta, não por causa da ameaça alemã mas porque outra ameaça mais significativa se verificava, o que veremos a seguir, na resposta à seguinte pergunta:

Afinal contra quem combateram os portugueses em Angola e Moçambique?

Filipe Ribeiro de Menezes diz-nos o seguinte acerca do emprego dos nossos contingentes expedicionários em Angola e Moçambique durante a Grande Guerra:

“…só em parte estes (contingentes) foram destacados para fazer frente ás pequenas forças alemãs reunidas contra eles. Grande parte do esforço português em África, durante a guerra, foi dedicado a combater os africanos.”

De facto, Ribeiro de Menezes, a este respeito refere a importância das sublevações indígenas nas nossas colónias, a que as forças expedicionárias enviadas para Angola e Moçambique tiveram que fazer frente e que não cabe aqui descrever. Limitamo-nos a indicar as sublevações, que o livro aponta, nestas nossa colónias africanas, durante a Grande Guerra:

  • Em Angola, depois do combate de Naulila, forças alemãs ao mesmo tempo que retiraram provocaram uma forte rebelião indígena no sul de Angola que envolveu os cuanhama e a que expedição portuguesa comandada pelo general Pereira de Eça, combateu de forma “extremamente brutal” , e venceu a batalha de Môngua, em Agosto de 1915, “uma das maiores batalhas campais entre tropas africanas e europeias”. Em 1917 revoltaram-se os indígenas das plantações de café de Amboim e Porto Redondo, prolongando-se a revolta pelo ano seguinte, Em 1918 uma nova revolta – a dos ovundos que se propagou por todo o Quanza Sul.
  • Em Moçambique refere uma revolta em 1917 junto ao rio Zambeze, mais forte no antigo reino barué e que durou de março a setembro e alastrou até á província de Tete e, no mesmo ano, a revolta dos macondes.

Em especial esta segunda nota, respeitante à aplicação da forças expedicionárias enviadas para Angola e Moçambique, durante a Grande Guerra, no combate às rebeliões indígenas poderá ter interesse para a CHT, para eventualmente incluir no seu estudo da participação das transmissões na Guerra, visto que. como se sabe, da composição das forças expedicionárias faziam parte tropas de telegrafistas e não conhecemos a forma como foram utilizadas no apoio a este tipo de operações.

Aspetos da Grande Guerra (1914-18) em Moçambique

Post do MGen Pedroso Lima, recebido por msg:

Recentemente tive oportunidade de ler o livro “A Epopeia Maldita”, escrito em 1924, por António de Cértima,[1] que uma pessoa amiga teve a amabilidade de me emprestar.

Pareceu-nos ter cabimento apresentar, neste Blogue, alguns trechos desta obra,  por três razões fundamentais:

  • A CHT andar a investigar a participação das Transmissões (então na Arma de Engenharia) na Grande Guerra;
  • A 3ª expedição a Moçambique – o livro é a sua epopeia – incluí tropas de transmissões que se distinguiram, nomeadamente, no cerco alemão a Nevala[2]
  • A participação militar portuguesa na Grande Guerra em Moçambique, apesar de ter exigido sacrifícios enormes, é pouco difundida em comparação com a atuação portuguesa na Flandres.

Epopeia maldita, livro de 1924

Mas sobre o interesse do livro parece mais que suficiente recordar o que escreveu, sobre ele, o general Gomes da Costa:

(…) O livro “A EPOPEIA MALDITA” é a reacção salutar contra a mentira de África, é um livro de coragem absoluta, é um livro de Verdade! Porque, os que, como eu, viram em Mocímboa da Praia, ao terminar a guerra, as montanhas de pneus, os centos de automóveis, os rios de águas minerais e de vinho, as máquinas de toda a espécie, algumas das quais nem tinham quem delas se soubessem servir; os refrigeradores, as toneladas de víveres que, estragados pelo tempo, tiveram de ser atirados ao mar, indo envenenar o peixe da baía; as cruzes de pau dos cemitérios, abandonados, dos nossos soldados; quem viu tudo isto, é que pode compreender bem o que é “A EPOPEIA MALDITA”, e revoltar-se contra a inépcia, incapacidade, incúria, desleixo, estupidez e desumanidade dos que, com os meios de acção mais poderosos que nenhuma outra expedição portuguesa teve em África, deixaram devastar e destroçar à fome e à sede, esses pobres soldados de Portugal! (…)[3]

No livro, o autor indica as enormes dificuldades por que passaram as tropas da 3ª  expedição, em que participou, enviada para Moçambique em 1916, e que ilustram bem a severa apreciação desta expedição, que transcrevemos.

Não pretendemos, de forma alguma, aqui apresentar uma síntese do livro mas apenas alguns trechos relativos à parte inicial da expedição e à forma como o autor sentiu, na sua pele, o funcionamento do serviço de saúde.

Comecemos pela narrativa do desembarque do navio “Zaire”, em 25 de Julho de 1916, em que o pessoal era desembarcado em barcaças que levavam 20 a 50 homens que eram “depostos ainda em água alta e eram carregados para terra sobre os ombros nus de uma legião algarreante de pretalhões… Demorou horas este desembarque grotesco mil vezes deprimente”[4]

No que respeita á instalação do pessoal, nada estava previsto, como sucedera nas duas expedições anteriores[5]:

… “ Parece que o QG ignorava a viagem que há um longo mês vínhamos fazendo em direção a estas paragens. Daqui o à última hora dos serviços de preparação para o recebimento em terras do cabo Delgado do nosso contingente. Daqui o desconchavo desta noite mal prevista, desgarrada, à matroca, num bivaque improvisado, sem senso comum, em que as companhias não sabiam onde alinhar, onde pernoitar…”[6]

Mas, se o desembarque do pessoal e a sua instalação foram desastrosos, o que se verificou com o material e o gado, não foi diferente:

….“O “Amarante” e o “Machico” tinham chegado tarde e a más horas. O armamento, que deveria vir antes da expedição, só veio depois, muito depois, dando motivo a estas cenas de alto burlesco: nos bivaques a guarda era feita de cacete. Os soldados com uma cartucheira à vista e um grosso cacete ao ombro… uma chuchadeira intolerável, tudo isto…” [7]

…”Depois, o material naufragado à descarga: o gado que era lançado a nado para terra e que se internava no mato para nunca mais aparecer; os desaparecimentos, os incêndios, os múltiplos desleixos e incompetências, tudo isto originou, duma maneira condenável, precisar a expedição de iniciar a primeira marcha e não ter o material respetivo para a praticar…” [8]

A expedição estava condenada uma longa estadia em Palma. Vejamos como autor nos conta a instrução que se dava na base, antes de se poder fazer a primeira marcha:

…“Todos os dias se assistia a uma escola de recrutas. Parece que às cegas tinham trazido esta gente do continente, como se fossem agarrados de surrelfa pelos campos e trazidos clandestinamente para os aquartelamentos destas regiões…”

“Fazia-se a “escola de pelotão”, estabelecia-se o “serviço de segurança em estação”, simulavam-se pequenos combates e, a fechar esta obra grandiosa de técnica e estratégia, havia o já famoso “exercício de sacos” que era o que mais horripilava o soldado, devido ao penoso cansaço que infligia. Esta especialidade era executada por uma linha de atiradores postados no chão, de ventre para baixo, e protegidos por um saco cheio de terra que tinham à frente da cabeça e que eles eram obrigados a deslocar com a mão esquerda e sem se levantar quando houvesse necessidade de avançar.” [9]

Mais de um mês depois  “ao mesmo tempo que o tédio – essa flor do mal – ia dilacerando o coração da malta…”[10], verificou-se em 16 de setembro a saída para a primeira marcha.

Estava-se em Kionga, após uma marcha aniquiladora de 10 horas horríveis…

“É certo que o meu batalhão tinha chegado a Kionga, mas só o Comandante e o resto da oficialidade que tinham feito a marcha de Palma a esta povoação choutando sobre o dorso das “montadas”. De resto , sob os palmeirais do burgo  apenas se encontravam meia dúzia de praças e alguns sargentos, verdadeiras exceções de energia nesta derrocada avassaladora e barbaríssima a que o batalhão acabava de ser submetido. Um fiasco!

Os outros… jaziam espalhados pela floresta, caídos de cansaço ao longo do caminho durante o inferno de fadiga desta horrível marcha tão mal orientada…

A dois quilómetros de Kionga, quando o Major-Comandante se lembrou de olhar para a retaguarda encontrou apenas oitenta homens no seu séquito.  Ficou fulo! E acima do seu folgado rocinante, exorcismou o batalhão, apodou de cobarde e desonrosa a malta…”[11]

O conhecido ditado “quem torto nasce, tarde ou nunca se endireita” aplica-se cabalmente a esta 3ª expedição a Moçambique que teve este triste começo. As coisas continuaram a correr mal em combate contra o inimigo, superiormente comandado por Von Letow e sobretudo no combate à doença, provocada pela insalubridade do clima, deficiências da alimentação e pelas insuficiências do serviço de saúde, causadoras do elevadíssimo número  de baixas.

Vejamos, para terminar, a forma dramática como o tenente autor do livro relata a sua dolorosa experiência pessoal com o serviço de saúde, no hospital de M´lamba.

“O sargento enfermeiro e o capitão-médico, quando de raro apareciam a fazer inspeção sanitária, tinham o cuidado de se munir de desinfetante enérgico e polvilhar o caki do uniforme contra a matacanha que pululava aos milhões na poeira negra do chão …

Com mil razões, pois, é de crer que o desgosto causado pela vileza do tratamento a que votavam estes pobres párias, provocasse mais baixas que a púa dos vermes que os trucidava.”[12]

Oh mulheres de Portugal, que aqui perdestes os noivos belos! Oh mães enternecidas que tendes aqui sepultadas as caveiras frias dos vossos filhos, todas vós que generosamente, enviaste a estas terras malditas os frutos sadios da vossa carne, levantai-vos a protestar, gritai quanto puderes contra os matadores dos vossos noivos, filhos, que eu vo-los aponto: foram os homens de M`lamba!”[13]


[1] António de Cértima é o nome literário que António Augusto Gomes Cruzeiro (1894-1983) adotou. Publicou 34 livros de 1914 a 1970; Licenciou-se em direito e ingressou na carreira diplomática em 1925, tendo sido cônsul em Dacar e Sevilha. Participou como subalterno na 3ª expedição portuguesa a Moçambique, tendo participado na ocupação de Nevala e na posterior retirada, face à reação alemã.

[2] Ver o 3º Volume das “Notas sobre Transmissões militares em Portugal”, pag 71 e 72  do Cor Bastos Moreira onde descreve a notável ação do tenente Moreira de Sá em Nevala.

[4] Livro citado pág 45

[5] Se é grave nada estar preparado para receber a  3ª expedição muito mais grave é verificar que o mesmo já sucedera nas duas expedições anteriores, revelando inadmissível incapacidade de corrigir os erros.

[6] Idem, pág. 47

[7] Idem, pág. 76

[8] Idem, pág. 77

[9] Livro citado pág. 55

[10] Idem pág. 56

[11] Livro citado pág. 68

[12] Idem , pág. 94

[13] Idem, pág. 96

As fotos dos leitores (5)

Do ex-1º Cabo Radiotelegrafista do STM Sr. Antero Ferreira, recebemos as fotos abaixo, mostrando a primeira o edificio do Posto Rádio de Mocuba, e a segunda o seu interior, onde está a receber e a transmitir msg’s pelo código morse. “Estive em Mocuba de Janeiro de 1973 a Agosto de 1974, donde passámos para Quelimane, até vir embora em Novembro de 1974.”

STM MocubaPosto Radio Mocuba

BTm 2 – Moçambique 70/75 – 38.º Almoço Convívio – Abrantes 2012

Participei, no dia 28 de Abril, na 38.ª reunião-convívio dos militares de Transmissões que serviram em Moçambique durante o período 70/75. Realizou-se na Quinta do Lago, em Abrantes.

Esteve muito concorrida e teve ex-militares vindos de todas as partes do País. É um grupo de grandes tradições, que se mantém fiel a estes reencontros, onde se convive, se actulizam novidades familiares e profissionais e recordam episódios que marcaram a memória desses tempos. O próximo convívio, como sempre no último sabado de Abril, será em Mira, em 2013.

Distúrbios da Beira – Janeiro de 1974

Relato dos factos servindo-me apenas da memória, como suporte do que então vivi.

Eu estava lá!

Até ao “Nó Górdio – operação de Cabo Delgado”, a Frelimo não tinha convencido os Macondes a combaterem fora do seu território. A progressão da guerrilha, de Cabo Delgado para sul, estava vedada com o dispositivo militar português e os Macuas eram pouco permeáveis a infiltrações de guerrilha. Findo o Nó Górdio, Machel resolveu contornar o nosso dispositivo militar, fazer um envolvimento lateral e abrir a frente de Tete, convencendo para o efeito os Chefes Macondes a segui-lo para fora do seu próprio território.

Independentemente da relação que possa ter havido entre o assassino e a vítima que foi a causa próxima dos distúrbios da Beira, a verdade é que a história englobou o acontecido nas acções de guerrilha que a seguir se generalizaram à zona e que tiveram implicações em Cahora Bassa.

Em Janeiro de 1974 iniciou-se a operação secreta que consistia em garantir a protecção das Cargas Críticas para Cahora Bassa (transformadores de potência, geradores, alternadores e válvulas de segurança) de que, eu, como oficial de transmissões de Kaúlza de Arriaga, fui incumbido de projectar, de instalar no terreno e de acompanhar. Dadas as características da missão, a minha presença não convinha ter muita visibilidade e, por isso, me encontrava na Messe, como qualquer passante.

É então que se tem conhecimento, com grande convulsão da população civil (quanto a mim, manipulada), de que um mainato teria assassinado a patroa e fugido de seguida para o mato. À boca pequena falava-se de uma relação de proximidade excessiva entre ambos. Porém, para a manifestação tudo se passava como se a guerra tivesse chegado a Vila Pery – centro de recreação de gente da Beira e local de passagem dos machambeiros ricos da Rodésia a caminho da Beira e do mar.

Ainda nessa altura, para muitos portugueses incultos radicados no território, a guerra era um assunto da Metrópole, para ser resolvido por gente ida da Metrópole, sem que os locais tivessem de ser perturbados no seu dia-a-dia. Para esta gente, a guerra era entre a Metrópole e a guerrilha e era lá para o Norte. Mas, a partir daquele dia, ela saltava-lhes para o pé da porta e disso tinha de prestar contas quem estava mais à mão, como era o caso daquela cambada de calaceiros que estava na Messe, enquanto devia andar a catar terroristas e a eliminá-los, para impedir que perturbassem a vida de gente pacata e trabalhadora.

Por isso, fácil foi atear uma centelha, parece que soprada pela própria PIDE, com o fim de, posteriormente, ter parte grande no apaziguamento e na primazia na detecção de novos focos de guerrilha. Fosse como fosse os acontecimentos ganharam um volume que ultrapassou o que eventualmente tivessem previsto.

Era pelas primeiras horas da tarde e começaram a chegar bons carros, que iam estacionando na berma da rua, oposta à Messe, dos quais saíam os ocupantes que ficavam por ali, em grupos. À medida que iam chegando mais carros, iam estacionando mais perto da messe, saindo os seus ocupantes e ficando eles também no mesmo ritual. Por esta via foram sendo cada vez mais os carros e cada vez mais pessoas na rua, acabando por obstruí-la completamente.

Dentro da Messe observava-se e faziam-se comentários. Alguns diziam reconhecer PIDES entre os presentes na rua. Quando o ajuntamento tomou proporções de largas centenas começaram a ouvir-se alguns insultos como, “vão trabalhar”,”vão para a guerra”, “não vieram cá para férias…”

A Messe que guardo na memória

A Messe era um edifício amplo, de dois ou três pisos, que no R/C á esquerda da entrada tinha a Sala de Refeições e à Direita o Bar. Saindo do Hall, que os separava, subia uma escada para o piso superior, onde existiam os quartos. Do Hall havia ainda uma porta para as traseiras. A rua que faceava com a frente da Messe (a rua dos distúrbios), separava esta do mar. Em frente à Messe, do outro lado dessa rua, havia um edifício em construção, que apenas tinham as fundações e, saindo destas, a dois metros de profundidade, erguiam-se as armaduras metálicas que viriam a ser os pilares do novo edifício. Para lá disso era areia inclinada até à linha de água com algumas árvores dispersas aqui e ali.

A evolução do distúrbio

Muita gente junta afoita-se uma à outra e foi isso que aconteceu. Os mais novos costumam tomar a dianteira e também aqui não se fugiu à regra. Uma das primeiras manifestações hostis deu-se, quando um rapazote em idade de inspecção militar, se virou para um alferes, fardado, com ar triste a meu lado nos degraus de entrada para o Hall e lhe pergunta por que estava no bem-bom em vez de estar no mato. O alferes respondeu, com grande dignidade e até cortesia, que do mato viera ele dois dias antes para embarcar o corpo de um colega morto em combate e para lá voltava no dia seguinte. Este episódio retrata mais ou menos o cariz de outros que se estavam a passar cá fora, entre os diálogos possíveis.

Confrangedor era o que se passava dentro do Bar, onde se revelou a incapacidade dos militares agirem quando desinseridos das suas cadeias de comando: Ou se tornam caudilhos com os riscos que isso representa para as suas carreiras, ou ficam paralisados, com aconteceu na Beira.

A dada altura alguém se lembrou de chamar o governador civil, na lógica de que se a agitação era civil, deveria entrar em acção a autoridade civil. Veio o governador, que cometeu o erro de não ter avaliado que a situação não era normal e que a ordem pública estava posta em causa. Em vez de mandar chamar quem representasse os manifestantes, saiu para a rua, deixando-se envolver por eles, criando um novo problema e não resolvendo aquele para que tinha sido chamado. Foi preciso um grupo de nós ir-se aproximando até lhe servir de couraça e trazê-lo de volta, numa altura em que já recebia encontrões, não directamente contra a sua pessoa, mas contra aqueles com os quais tentava manter o diálogo.

Com o Governador recolhido para o Bar, a turba, no exterior viu nisso uma espécie de fuga e medo, mostrando-se mais afoita. Foi aí que começaram a cair as primeiras pedras contra os vidros do Bar.

Ao contrário do que foi deixado entender no Post não houve nenhum acto destacado de heroicidade. Tal como os militares graduados estavam paralisados antes, sem ter de quem receber ordens, também o ficaram agora, dado que a autoridade máxima presente passou a ser o governador, de nome Teles ou Melo ?.

Na confusão que aumentava, começaram a ouvir-se, no andar de cima, os gritos de esposas e filhos de militares, os quais não estavam presentes. E uma das vozes, quase em pânico, perguntava: “Ninguém faz nada?”.

Os militares mais novos estavam em efervescência, mas a presença dos mais antigos bloqueava as suas iniciativas.

Houve alguém que tomou a palavra e falou bem. Penso que era um ten-cor de Administração Militar, cujo nome não fixei, mas penso que foi o primeiro of da AM a chegar a general.

A partir dessa palavra, as coisas tornaram-se imparáveis. Fala-se de uma companhia armada, mas, se existia eu não a vi. A única força que actuou, comandada por um miliciano e guiada por dois oficiais do quadro foi um pelotão (penso que da PM), que estava nas traseiras da Messe.

As coisas que registei passaram-se assim: Do hall para as traseiras havia uma porta através da qual vi alguns militares fardados. Fui lá! A força era diminuta (uma secção ou um pelotão menos).

Perguntei ao alferes se ele estava disposto a agir. Disse que sim. Na escada havia uma árvore-da-borracha, dentro de um grande vaso, escorada por um caibro. Parti o caibro ao meio e ofereci metade ao Cap. Luciano Garcia Lopes, então Cmdt dos GEE, que o não quis, preferindo sair a peito descoberto.

Perguntei ao alferes se tinha munições e tinha. Combinei que saíamos de rompante eu e o Luciano na frente, seguidos pelas força, que logo que atingisse a rua faria uma rajada para o ar e correria sobre a multidão seguindo-nos.

Assim fizemos e alguns momentos depois, com muitos danos nos carros, atingíamos a borda de água, com tudo limpo à nossa volta e com pessoal ainda a fugir pelo rua fora a uma centena de metros, tendo desaparecido todo o mundo até ao dia seguinte, quando a pouco e pouco foram sorrateiramente aparecendo condutores para levar os carros, alguns bem danificados.

Junto à água perguntei ao grupo do pelotão pelo Luciano. Ninguém o tinha visto, depois da saída connosco. Regressámos procurando em volta e fomos encontrá-lo no fundo de uma das covas das fundações do edifício em construção, sem conseguir sair. Uma pedra tinha-lhe esfacelado a clavícula.

Regressámos à Messe, agora com o campo livre, mas sem alardes nem aplausos.

Não vi o relatório que foi feito disto tudo, mas pelo Post parece-me enaltecer uma pessoa.

Não devia! Ninguém foi herói na Messe da Beira nesse dia, a não ser o Luciano Garcia Lopes que poderia lá ter deixado a vida.

Também, por aqui, se verifica que as Transmissões entraram neste episódio mais cedo do que os anais registam.

Sobre estes acontecimentos, ver post anterior aqui.

Manuel da Cruz Fernandes

Os Acontecimentos da Beira e as Transmissões

Post do MGen Pedroso Lima, recebido por msg:

Em Janeiro de 1974 tiveram lugar os “incidentes da Beira” que constituíram a primeira grande manifestação popular, em toda a Guerra Colonial, contra os militares.

Aproveitando a possibilidade que tivemos de ouvir os principais protagonistas ligados à atuação das Transmissões no seguimento destes acontecimentos, vamos procurar descrever a forma como decorreu a ligação do pessoal de Transmissões com a estrutura local e nacional do MFA.

Comecemos pelos acontecimentos da Beira.

Convém acentuar que na Beira, até Janeiro de 1974, não se  tinha ainda sentido, praticamente, que havia guerra,  que nessa cidade era considerada como qualquer coisa que se verificava “lá para o Norte”:[1]  Por isso causou grande apreensão na população local as ações violentas desencadeadas  pela Frelimo, no princípio de 1974,  na região de Vila Pery e duas semanas depois a morte da mulher de um agricultor de Vila Mónica, nas proximidades da cidade da Beira.

Centenas de viaturas  deslocaram-se a Vila Mónica e milhares de colonos incorporaram-se no funeral da fazendeira: Á tarde os agricultores e comerciantes manifestaram-se ruidosamente junto do palácio do governador e no dia seguinte  “cerca de quatrocentos brancos e negros da população local, em fúria, insultaram durante longo tempo os oficiais que se encontravam alojados, em trânsito, na Messe de  Oficiais de Macuti, chegando a apedrejar o edifício perante a passividade das forças policiais que horas antes se haviam instalado na zona “[2]…. A situação foi desbloqueada por iniciativa do tenente-coronel Pinto Ferreira[3] “que põe cobro à situação exigindo ao coronel Baía dos Santos[4] que desse ordem à Companhia de Polícia Militar que enfrenta, no exterior os manifestantes e à que, no pátio interior, se encontra de reserva para “limparem” o espaço fronteiriço à Messe. O que ambas fizeram com proficiência, varrendo tudo e todos, a cassetete, até o mar.”

Para mim, o regime foi o grande responsável por esta atitude da população da Beira  porque sempre  proclamou, com a conivência da hierarquia das  Forças Armadas, que a “Guerra era com os militares”. Todos sabiam que não era[5]. O problema da guerra era a conquista da população. o que não se fazia apenas com armas.

A comissão coordenadora do MFA de Moçambique[6] apercebeu-se da delicadeza do problema  que estes incidentes levantavam em termos de desprestígio dos militares e apressou-se a fazer um telegrama dirigido à Comissão Coordenadora Nacional que, naturalmente, o entregou ao STM para fazer seguir.

Começa aqui a intervenção das Transmissões neste processo.

O texto foi entregue em mão ao capitão Bastos Moreira, para o fazer seguir para Lisboa. Sabia que estava a cometer uma falta, visto que a Comissão Coordenadora do MFA de Moçambique não constava na lista dos expedidores autorizados na estação do STM de Nampula.  Por isso, antes de determinar o envio da mensagem falou telefonicamente com o capitão Fialho da Rosa, que era o chefe do Centro Nacional de Transmissões, na então EPT, a explicar a delicadeza do assunto e para este acompanhar a receção da mensagem, o que viria a acontecer (É evidente que a mensagem não podia ficar registada, para não deixar rasto).

Dias depois o capitão Bastos Moreira foi chamado ao gabinete do comandante do Batalhão, coronel Basto (e que chefiava o STM em Moçambique) que lhe perguntou se tinha conhecimento de, pelo STM, ter sido enviado para a Metrópole uma mensagem relativa aos acontecimentos da Beira.

Respondeu que não tinha conhecimento de nada e depois acrescentou que não poderia, no entanto, garantir que isso não tivesse acontecido porque havia tráfego que ele não estava autorizado a controlar (que eram as chamadas facultadas pelo Comando a VIP para a Metrópole).

Depois desta resposta o coronel Basto não lhe disse mais nada. Bastos Moreira concluiu que o assunto ficara por aí.[7]

Em Lisboa, com o capitão Fialho da Rosa as coisas correram de forma diferente. Também foi chamado pelo seu Comandante, o coronel Corte Real. A diferença é que o capitão Fialho da Rosa, que desde Dezembro pertencia à estrutura organizativa do MFA, tinha grande confiança no seu comandante que “conhecia tudo o que se passava na unidade e não punha quaisquer obstáculos”.[8] Deste modo disse-lhe francamente que tinha recebido a mensagem e que a tinha feito seguir para a Comissão Coordenadora do MFA.[9] Segundo ele, o Comandante revelou apreensão.

Dias depois foi chamado de novo ao gabinete do comandante, onde se encontrava o  Diretor da Arma, Brigadeiro Sales Grade e que, na presença do comandante da EPT o interrogou sobre o mesmo assunto. O capitão Fialho voltou a assumir a sua intervenção no processo. Sales Grade informou-o que já o conhecia há muito e que não esperava aquilo dele. Tudo estava em aberto.

Recentemente informou-me que não se recorda de ter pensado que ia ser punido, visto que quer em relação ao comandante, quer em relação ao 2º comandante (TCor Vargas) “estava igualmente tranquilo, dada uma relação algo tensa, desde sempre, mas entendida e respeitada por ambos”.

O Capitão Fialho da Rosa ainda falou mais uma vez sobre este assunto com o coronel Corte Real. Este chamou-o e mostrou-lhe uma carta pessoal do coronel Basto em que este lhe afirmava a não intervenção do seu pessoal no envio do texto para Lisboa.[10]

Apesar do risco que correram, a estes dois homens de Transmissões  do MFA nada lhes sucedeu.

Penso que prestaram um serviço importante ao MFA. O cap Fialho da Rosa pensa que foi deste telegrama de Moçambique que surgiu o primeiro comunicado da comissão coordenadora do MFA.

Julgo que a melhor explicação para a não punição destes dois oficiais talvez seja a seguinte ideia do general  Spínola (então Vice CEMGFA):

“Já então me tinha apercebido claramente de que perante a incapacidade do Governo para solucionar a gravíssima crise político-militar em que nos debatíamos, o ainda incipiente Movimento dos capitães era irreversível, pois baseava-se em razões indiscutivelmente válidas, havendo portanto que orientá-lo no sentido de o transformar em força útil junto dos chefes militares responsáveis, forçando estes a uma tomada de posição.”[11]

No fim de contas neste caso as punições teriam sido puramente formais, visto que nesta altura a hierarquia militar e o MFA estavam de acordo no essencial: que era necessário defender o prestígio dos militares…


[1] AFONSO; Aniceto in História Contemporânea de Portugal. Lisboa, Vol Estado Novo II, 1988, pág. 269

[2] CARVALHO; Otelo Silva de, Alvorada em Abril. Lisboa,, 1977. pág. 190

[3] Chegou a TGen e Comandou a GNR

[4] Comandante Territorial do Centro

[5] Qualquer oficial ou sargento era obrigado a saber. Basta ler “O Exército na Guerra Subversiva”.

[6] De que fazia parte Aniceto Afonso

[7] Estes dados foram fornecidos verbalmente, já há alguns anos pelo Maj Gen Bastos Moreira.

[8] Declaração recolhida em 15 de Junho de 2012

[9] Informou-me que a entregou pessoalmente ao capitão Vasco Lourenço

[10] Informou-me que o cor Corte Real lhe perguntou se tinha a certeza absoluta que tinha sido o Bastos Moreira que o tinha contatado. Ao que ele admitiu  que certeza absoluta , absoluta não tinha, mas quase…

[11] SPÍNOLA; António de, País sem Rumo, pág. 93.

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Cabo Auto-Suportado – Moçambique

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Um projecto que colocou as Forças Armadas de Moçambique em contacto radiotelefónico full duplex com Portugal e com os territórios sob dominação portuguesa. No ano de 1968/9, era eu comandante da TPF, do BT, quando recebi a missão de especificar … Continuar a ler

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A família RACAL TR-28

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Artº do nosso leitor João Freitas, recebido por msg: O artigo que vos trazemos é muito importante. Não o será devido à prosa, mas porque tomámos a liberdade de vos falar sobre um dos mais significativos aparelhos usados pelas nossas … Continuar a ler

O BTm 2 e o Destacamento do STM em Moçambique- Dispositivo Final

A retirada de um teatro de operações constitui uma operação delicada e que exige grande disciplina, um bom planeamento e a conjugação favorável de vários fatores externos.  O facto de ter vivido essa experiencia em Moçambique em 1975, com a evacuação da componente Transmissões, leva-me a relatar esses momentos com dados e imagens únicas, o que farei aqui em curtos apontamentos, esperando que os meus amigos que passaram pela experiencia complementem com novos dados ou imagens.

O Batalhão de Transmissões 2 foi criado em 1968 tendo sido o seu primeiro comandante o TCor Ivan Serra e Costa/ Maj Pereira Pinto ( Ver livro “As Transmissões da Guerra Peninsular ao 25 de Abril” ).

Em 30 de Abril de 1975, com o seu ultimo Comandante TCor Gois Ferreira, já na metrópole a chefiar a comissão liquidatária, e o 2º Cmdt Maj Amaral Marques em Lourenço Marques, coube-me a mim, Capitão João Martins Alves, chefe do destacamento do STM, não só entregar a  unidade à Frelimo como chefiar o agrupamento de Transmissões que se manteve até ao ultimo dia e regressou na componente do comando no dia D ( 25 de Junho de 1975).

Por agora fiquemos pelo dia 30 de Abril de 1975 na cerimónia de passagem de testemunho.

O nosso efetivo era de 2 Oficiais, 19 Sargentos, 49 cabos e 21 soldados.

Foi perante a formatura das forças Portuguesas comandadas pelo Capitão Martins Alves e da Frelimo comandadas por Cornélio Focas que após breves palavras da minha parte teve lugar a cerimónia do arrear da bandeira (1º Sarg  Hilário).

          

As palavras:

“Este é o momento simbólico da entrega das instalações deste batalhão às Forças Populares de Libertação de Moçambique. Devo dizer que é com orgulho que o faço, considerando-o uma honra. Neste momento devo salientar a contribuição que foi dada para um processo de descolonização que se vai processando com uma dignidade exemplar. Nestes meses de convivência neste batalhão, portugueses e moçambicanos, fomos protagonistas de páginas brilhantes da nossa história comum e que demonstra a aproximação do nosso ideal, hoje felizmente comum, no que respeita ao ideal democrático da libertação dos povos. Nestes últimos tempos em que partilhámos as instalações não estivemos aqui para sermos agradáveis ou captar simpatias, cumprimos um dever, transmitimos o nosso saber, a nossa determinação. As nossas atividades neste batalhão não são fáceis, pois, dia a dia surgem problemas que pacientemente têm que ser superados. Entregamos materiais e instalações, e os inerentes problemas técnicos, que dão enfase ao nosso trabalho à nossa atividade.
Acrescento nesta entrega, a nossa amizade e saudações sinceras.”

As pessoas:

Esta é a lista dos últimos elementos de Transmissões primeiro em Nampula e que na madrugada de 1 de Maio saíram para Nacala, e depois a relação daqueles que constituíram o ultimo agrupamento em Moçambique e que saíram de Nacala, Beira e Lourenço Marques em 24 de Junho de 1975 (‘Clicar’ em cima das imagens para ver a lista dos nomes).

    

Um apontamento final para este dia 30 de Abril, dia da entrega das instalações, em que após a entrega, os dirigentes da Frelimo se retiraram e “cederam” as instalações para descansarmos por umas horas e partirmos durante a madrugada de 1 de Maio para Nacala. Embrulhadas as armas em mantas e os últimos caixotes embarcados no “machibombo” aí fomos nós rumo a Nacala onde fomos hóspedes do BART 6224 comandado pelo Maj Possidónio.

Próximamente publicarei as listas das últimas guarnições do STM em Mueda, Marrupa, Quelimane, Mocuba, Tete, Vila Cabral e Porto Amélia.