A voz e os ouvidos do MFA

Na próxima terça-feira, dia 25 de Abril, pelas 21:00, a RTP irá apresentar um filme-documentário realizado por António Pedro de Vasconcelos sobre a participação das Tm no 25A, em particular o lançamento de um cabo, de forma clandestina, que permitiu ligações telefónicas com o comando do MFA no Regimento de Engenharia da Pontinha e que se constituiu como a primeira operação militar do 25A, já descrita e referida neste blogue (ver aqui).

Trailer:

Em tempo:
Se não teve oportunidade de assistir ao programa, pode vê-lo clicando aqui.

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Eletrificação dos Lugares de Chã,       Abadia e Pinheiro pelos Militares da Escola Prática de Transmissões

No inicio dos anos 70 do séc passado, cerca de 30% dos portugueses eram ainda analfabetos, sendo a taxa nas mulheres bem superior à dos homens (quando da implantação da República, 3/4 da população portuguesa não sabia ler nem escrever). A esmagadora maioria não tinha qualquer acesso à cultura, ou sequer à informação, nem a meios e recursos de bem-estar.

Analfabetismo

Fonte: INE/GEPE

Mais de 50% das casas onde a população portuguesa vivia não tinham água canalizada; em cada 5 casas, 4 nem sequer tinham casa de banho; 40% não tinham esgotos.

Cerca de metade das habitações não tinha eletricidade. Muitas aldeias e lugares não tinham sequer quaisquer estradas, ou saneamento, ou eletricidade.
Não admira pois que, após o 25 de Abril, as Forças Armadas se tenham empenhado em diversas formas de apoio às populações, com realce para as Armas e Serviços técnicos do Exército (Engª, Tm e SMat).

Na sequência de um despacho de 12NOV74 do CEME, realizou-se de imediato uma reunião com vista a estabelecer uma Comissão para o estudo global das potencialidades da Engenharia militar, bem como de eventuais missões de apoio às populações e a entidades civis, tendo a Arma de Tm nomeado dois representantes, o Cor Corte Real e o Cap Cruzinha Soares.

Corpo Eng 1 Corpo Eng 2 Corpo Eng 3Entretanto, já em 7 de Março de 1975 a EPTm dera conta ao CEME que um instruendo do COM, o Asp Miliciano Amilcar Faustino, fizera chegar à EPTm, logo no início do ano, a informação de que, como engenheiro, colaborara com a CM de Sobral de Monte Agraço num projecto para a eletrificação de algumas das suas freguesias e que sugeria e se disponibilizava para efetuar os trabalhos em apoio dessas populações, desde que fossem fornecidos os meios materiais e humanos necessários.

EPTm meia aj custo1 EPTm meia aj custo2 EPTm meia aj custo3

Carta do Cap Golias para o Asp Faustino

Carta do Cap Golias para o Asp Faustino

Muitos outros pedidos de apoio foram chegando à Arma de Transmissões, por parte de diversas Câmaras Municipais, como foi o caso já aqui relatado neste blogue, na história de vida do Cor Cruz Fernandes (ver aqui), na zona de Castro Daire (Viseu), ou o da CM da Tábua, como é referido no documento seguinte:

Nota DATAutorizados superiormente, os trabalhos levados a cabo nos lugares de Chã, Abadia e Pinheiro (todos em Sobral de Monte Agraço) iniciados ainda em Março, permitiram a eletrificação daquelas aldeias pelo pessoal da EPTm (2 oficiais subalternos, 3 sargentos e 22 praças, todos voluntários), com grande satisfação das populações, que comemoraram no final com uma festa, a “Festa da Luz”, no dia 28 de Junho de 1975.
Esta acção teve na altura imensa repercussão na comunicação social, nacional e internacional, tendo nomeadamente sido alvo de uma reportagem da revista Der Spiegel.

Chã

Chã, Abadia e Pinheiro (retirado do Google Maps)

Lista imprensa

Documentação conhecida sobre esta missão da EPTm

Reportagem Der Spiegel

Spiegel: “Como um paciente aprende de novo a andar” Uma reportagem sobre um ano de revolução em Portugal

Timidez ou defesas são desfeitas por bandas ou danças, cinema e teatro - ou mesmo pela instalação de linhas de energia elétrica, como na aldeia de Chã, a 35 quilómetros a noroeste de Lisboa. Aquartelados lá desde Março, numa exploração agrícola vazia, dezassete jovens soldados de Lisboa, sob o comando de Faustino, apoiam as vidas de cerca de 300 moradores. Pequenos agricultores e trabalhadores agrícolas, sobretudo, mudaram muito: pela primeira vez foi reconhecido pelo povo de Chã que seria bom ter uma sala de reuniões na aldeia - e concedeu um barracão vazio. Agora, existem filmes, discussões e apresentações de teatro por grupos de teatro amadores de Lisboa.

Timidez ou defesas são desfeitas por bandas ou danças, cinema e teatro – ou mesmo pela instalação de linhas de energia elétrica, como na aldeia de Chã, a 35 quilómetros a noroeste de Lisboa. Aquartelados lá desde Março, numa exploração agrícola vazia, dezassete jovens soldados de Lisboa, sob o comando de Faustino, apoiam as vidas de cerca de 300 moradores. Pequenos agricultores e trabalhadores agrícolas, sobretudo, mudaram muito: pela primeira vez foi reconhecido pelo povo de Chã que seria bom ter uma sala de reuniões na aldeia – e concedeu um barracão vazio. Agora, existem filmes, discussões e apresentações de teatro por grupos de teatro amadores de Lisboa.

Quarenta anos depois, no passado dia 28 de Junho de 2015, o povo de Chã resolveu comemorar a eletrificação da sua aldeia, com uma nova festa, em que foi erigido um pequeno monumento na praça principal com uma placa de agradecimento aos Aspirantes milicianos de Tm Amilcar Faustino e Emílio Vasconcelos, que chefiaram os trabalhos, bem como à Escola Prática de Transmissões (Lisboa), que dirigiu a missão e disponibilizou os homens e o material.

Placa no largo principal de Chã

Placa no largo principal de Chã

Detalhe

Detalhe

Placa na colectividade local

Placa na colectividade local, de agradecimento ao Asp mil engº Amilcar Faustino

22 de Abril de 1974 – primeira operação militar do MFA

Aranha das TmTendo sido decidido que o Posto de Comando (PC) do MFA no 25 de Abril seria instalado numa sala recatada do Regimento de Engenharia nº1 (RE 1) na Pontinha, houve que garantir a instalação prévia de meios de comunicações (telefones e rádios), de que o local não dispunha, com urgência e discrição.

Os rádios tácticos e respectivas antenas foram obtidos e instalados de véspera, sob a supervisão do então tenente coronel Garcia dos Santos, responsável pelas transmissões do movimento. Mas a montagem de telefones militares, fundamentais para garantir ligações seguras à rede militar (controlada por oficiais de Tm do MFA) e para providenciar uma linha directa (ponto-a-ponto) entre o PC e a sala da Central automática da EPTm (hoje RTm) em Sapadores, onde eram controladas as comunicações, tinha que começar mais cedo.

Para tal, e aproveitando uma ordem hierárquica já existente para instalar com urgência um telefone militar na zona dos Pupilos do Exército (Estrada de Benfica), foi decidido dar seguimento a esse processo, instalando clandestinamente, a partir das 20H00 do dia 22, um cabo aéreo de 5 pares com 2.000 m (retirado clandestinamente do depósito da EPTm depois das 20H00), primeiro até ao Colégio Militar (Largo da Luz), onde chegou às 04H00 do dia 23, e depois, com um novo cabo de 3.000 m, até ao RE 1, a cuja Porta d’Armas chegou às 06H00 do dia 24, depois de muito trabalho e algumas vicissitudes, como o ter que partir algumas lâmpadas de iluminação pública, para mascarar a instalação a que se procedia. Após um brevíssimo descanso do pessoal envolvido, procedeu-se então às emendas e aos ensaios necessário às ligações a estabelecer, sendo duas à central automática militar (EPTm), e outras duas, por uma questão de redundância, à central do QG de Lisboa e ainda a referida ligação ponto-a-ponto, que viria a permitir um contacto imediato sempre que houve que relatar escutas ao PC, ou coordenar ligações.

Cerca das 18H00 do dia 24, para surpresa dos oficiais que iriam constituir o PC, e que na altura tapavam as janelas com mantas, tal como é relatado por um deles, o Cap Engª Luis Ferreira de Macedo, os terminais do cabo davam entrada no PC, procedendo-se de imediato à ligação, teste e activação dos respectivos telefones.

Esta primeira “operação militar” do 25 de Abril foi dirigida pelo chefe da secção TPF do STM, Cap Verissimo da Cruz (já falecido), coadjuvado pelo adjunto da secção, Cap Pena Madeira, chefiando a equipa de guarda-fios que procedeu à montagem o furriel miliciano Cedoura. A este propósito, “clicar” aqui  para ver, neste blogue, o depoimento do hoje MGen (R) Pedro Pena Madeira.

TrajectoCTA

Apêndice 6 (Autenticação) ao Anexo de Tm à Oop 25 Abril

 

1) Para utilização nas Redes FOXTROT
2) Para utilização nas Redes LIMA

A autenticação consiste num procedimento obrigatório que visa garantir que a entrada de um posto na rede seja uma unidade das nossas forças. Os sistemas de autenticação mais simples, são os constituídos por tabelas com duas entradas. Normalmente o conteúdo das tabelas muda a intervalos de tempo relativamente curtos e previamente combinados, a fim de evitar que o IN consiga decifrar a autenticação. No 25 de Abril foram utilizadas sempre as mesmas tabelas, porque foi assumido que o IN não teria capacidade de as decifrar em tempo oportuno para se introduzir nas redes e tentar prejudicar as operações.

Apendice 6 pg1 de 1 001

 

Apêndice 5 (Lista de códigos de frequências) ao Anexo Tm à OOp 25 Abril

Descrição:

1) Frequências
2) Canais do E/R Racal TR-28
3) Mudanças de canal

Este Apêndice é muito interessante de ler, uma vez que nos permite conhecer a forma expedita, engenhosa e aparentemente simples, utilizada na codificação e descodificação dos requisitos 1), 2) e 3) que constam da Descrição acima. De sublinhar que a matéria deste Apêndice, também se enquadra no princípio de evitar referências em claro a elementos que, se forem detectados pela escuta IN, poderão comprometer o êxito da manobra das Forças Amigas.

Apendice 5 pg 1 de 1

Apêndice 4 (Lista de códigos de Entidades) ao Anexo de Tm à OOp 25 Abril

Codificação e Descodificação de entidades

As observações e recomendações a fazer relativamente a esta lista de códigos, são as mesmas que constam do apêndice 3. Em todo o caso, reafirma-se a proibição de referências em claro a entidades ou outros elementos susceptíveis de fácil identificação pela escuta do IN. De referir que apesar de serem códigos relativamente simples, a sua utilização, prevista para um intervalo de tempo tão curto, não tornava previsível que o IN efectuasse a eventual descodificação em tempo oportuno.

Apendice 4 pg1 de 2

Apendice 4 pg2 de 2 

Apêndice 3 (Lista de códigos de objectivos e locais) ao Anexo de Tm à OOp 25 Abril

Codificação e Descodificação de objectivos e locais

A utilização de códigos destina-se a evitar, senão mesmo a proibir, referências em claro, de objectivos, entidades ou outros elementos susceptíveis de fácil identificação pela escuta do inimigo. Nas Instruções de Coordenação do Anexo de Transmissões, deve constar a forma correcta de como utilizar os códigos em vigor, seja qual for o meio de transmissão utilizado.

Apendice 3 pg1 001

Apendice 3 pg1 001

Apêndice 2 (Lista de códigos/indicativos das unidades) ao Anexo de Tm à OOp 25 Abril

Descrição:

1) Sector Norte – Agrupamento November

2) Sector Centro – Agrupamento Charlie

3) Sector Sul – Agrupamento Sierra

4) Sector de Lisboa – Agrupamento Lima

Durante as conversações via rádio era proíbido identificar as unidades pela sua sigla em claro. Sempre que houvesse necessidade de referir uma qualquer unidade, era obrigatório utilizar o código/indicativo correspondente. Todas as unidades que participaram no MFA em 25ABR, tinham um código atribuido, do qual só tomaram conhecimento através do conteúdo deste apêndice.

Notas:

1. As unidades estão agrupadas por sectores, correspondente à implantação territorial do Exército, que na altura era constituida por quatro Regiões Militares: Norte, Centro, Sul e Lisboa.

2. As redes foram constituidas em função da missão das unidades, conforme determinado na Ordem de Operações; as redes FOXTROT foram constituídas nessa base, mantendo os indicativos dos sectores a que pertenciam, por isso apresentarem a heterogeneidade de indicativos.

3. A rede LIMA apresenta um conjunto de indicativos homogéneo, porque só é constituida por unidades da RML e no cumprimento de missões dentro desta região militar.

 

 

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Apêndice 1 (Esquema das Redes Rádio) ao Anexo de Tm à OOp 25 de Abril

As redes Foxtrot 1 e 2 destinaram-se à ligação do Posto de Comando com as unidades não pertencentes à RML e que actuaram fora de Lisboa. As redes Lima foram destinadas à ligação do PC com todas as unidades que actuaram na região de Lisboa. De referir que as redes foram constituídas com base nas dotações das unidades, a saber: – E/R Racal TR28 para as ligações a distância; – E/R AVP-1, ou do mesmo tipo, para as ligações locais; – E/R das viaturas de Cavalaria. Deve entender-se por ligações locais, as respeitantes ao comando e controlo do movimento e da actividade operacional das sub-unidades dentro de cada unidade.

Notas:

a. Considerando que o TR28, bom para o Teatro de Operações africano, em Portugal não garantia a fiabilidade das comunicações, considerando a distância entre o PC e a maioria das unidades durante o seu deslocamento (inferior a 100Km), as unidades cujo movimento foi na direcção de Lisboa, foram discretamente seguidas por uma viatura civil com 1 ou 2 militares à paisana, que através do telefone civil e a intervalos regulares, foi informando o PC da forma como foi decorrendo o movimento da respectiva unidade.

b. Todas as redes rádio funcionaram em regime de rede dirigida, sendo o posto director o PC do MFA. À hora H, o PC entrou em escuta permanente em todas as redes. Os postos dirigidos só podiam contactar entre si mediante autorização do posto director.

 

2.1 APENDICE 1 ao Anexo A( TRANSMISSÕES)

2.2--APENDICE 1 ao Anexo A( TRANSMISSÕES

Anexo de Tm à OOp 25 Abril 74

Este documento foi elaborado pelo então Tenente-Coronel Garcia dos Santos e descreve ao pormenor as ligações de transmissões do Posto de Comando (PC) do Movimento das Forças Armadas (MFA) localizado no RE 1, na Pontinha, com as unidades participantes. Estas ligações, rádio e telefónicas, permitiram exercer o comando e a coordenação da actividade operacional. As redes rádio permitiram também, quando necessário e sempre após autorização do PC, a coordenação da situação das operações entre as unidades. Todos os contactos através das redes rádio foram obrigatoriamente precedidos de autenticação. O Anexo de Transmissões foi distribuído com a Ordem de Operações a todas as unidades do MFA.

Este Anexo de Transmissões é uma cópia do existente no Centro de Documentação 25 de Abril da Universidade de Coimbra, onde foi entregue pelo então Cap. Salgueiro Maia, portanto corresponde ao que foi distribuido à EPC.

Os apêndices que integram o Anexo de Transmissões são os seguintes:

Apêndice 1 – Esquemas das redes rádio
Apêndice 2 – Lista de códigos / Indicativos das unidades
Apêndice 3 – Lista de códigos de objectivos e locais
Apêndice 4 – Lista de códigos de entidades
Apêndice 5 – Lista de códigos de frequências
Apêndice 6 – Sistemas de autenticação

Cada um destes apêndices será objecto de referência específica num novo artigo.

Na Colecção Visitável do RTm e no Polo de Tm do Museu Militar de Elvas existem referências a todos estes documentos, em espaços dedicados à Arma de Transmissões e o 25 de Abril.

1- Anexo A( TRANSMISSÕES

2013-09-12 16-52-30_0399

2013-09-12 16-52-46_0400

2013-09-12 16-53-07_0401

2013-09-12 16-53-23_0402

2013-09-12 16-53-38_0403

2013-09-12 16-53-53_0404

2013-09-12 16-54-13_0405

2013-09-12 16-54-29_0406

2013-09-12 16-54-49_0407