Heliógrafo português m/938 C comunica a 38,5Km na Alemanha

Através de um post colocado neste blogue no dia 16ABR2013 (ver aqui) foram dados a conhecer alguns elementos relativos ao heliógrafo português modelo 938 e ao modelo italiano da OMI em que se inspirou.

No passado dia 17 de Junho este blogue foi contactado pelo Dr Joerg Noack, do Instituto Max Planck de Antropologia Evolutiva de Leipzig (radioamador DG2ORK), através da seguinte mensagem:

Exmos. Srs.:

Somos um grupo de entusiastas da Alemanha que promovem Ciências Naturais para alunos do ensino secundário e jovens estudantes.
Entre os nossos projectos actuais conta-se a comunicação óptica com heliógrafos. O objetivo deste projecto é ensinar os princípios físicos e ópticos por detrás desta tecnologia, e mostrar como este tipo de comunicação foi usada no século passado.
Temos vindo a utilizar com sucesso heliógrafos portugueses do tipo 938C (números de série 116, 1489, 2580) em transmissão Morse, numa distância superior a 38,5km.
Sabemos, através do V/ site, que o modelo 938C é baseado num heliógrafo italiano da OMI, e que foi fabricado na Fábrica de Braço de Prata, em Lisboa, entre 1920 e 1940.
Estamos à procura de outras informações sobre a história do heliógrafo 938C, e ficariamos muito gratos por qualquer ajuda que nos possa dispensar nesse sentido, nomeadamente no que diz respeito a manuais, planos de construção, informações sobre a Fábrica de Braço de Prata, e uso de heliógrafos no Exército Português.

Se fosse possível, seria mais fácil para nós comunicar em Inglês.
Obrigado desde já pela V/ atenção.
C/ melhores cumprimentos,
Jörg Noack

Heliógrafo português m/938C utilizado (foto Dr Jörg Noack)

Heliógrafo português m/938C utilizado (foto Dr Jörg Noack)

Heliógrafo italiano OMI utilizado (foto Dr Jörg Noack)

Heliógrafo italiano OMI utilizado (foto Dr Jörg Noack)

No seguimento da nossa pronta resposta, o Dr Noack enviou-nos amavelmente logo no dia seguinte mais a seguinte mensagem, dando conta do êxito alcançado por ele e pelo Dr. Karsten Hansky (DL3HRT) numa transmissão por Morse visual entre um modelo português (m/938c) e o heliógrafo OMI em que o nosso se baseou, efectuada nesse mesmo dia entre Seitz e Leipzig, na incrível distância de 38,5 Km:

Dear José Manuel Canavilhas,

Thank you very much for your friendly reply. I did not expect any feedback that fast!
I have to admit, that I do not speake any Portuguese. So I will forward your compliments to my colleague, who did the translation 🙂
Please let me introduce Dr. Karsten Hansky (DL3HRT). He is the driving force behind the heliograph project. Karsten, like me, is a radio amateur interested in everything connected to light.
We did know, that the 938C was made for just 4km. However, Karsten is a serious scientist and a very curious mind. After some calculation he convinced me to try to heliograph between Zeitz and Leipzig over the distance of 38,5km. So we did it – and to our big surprise, it worked! I could even see the signal from Karsten’s 938C with naked eye.
Bright sunlight is not very common in our area, so we had to wait for this moment for many weeks.
However, we did it again today. Karsten operated an italian heliograph from OMI at a location above the city of Zeitz. I used a 938C at the roof of your institute in Leipzig. The distance was about 38,5km.
It is unbelievable, how far heliograph communication with these small mirrors works. The alignment of the heliographs over this distance is the most crucial step and requires a lot of adjustment. Fortunately, the OMI heliograph has a build in magnifying telescope that helps a lot.

(Muito obrigado pela sua resposta amigável. Eu não esperava um feedback tão rápido!
Eu tenho que admitir que eu não falo Português. Por isso vou encaminhar os seus elogios ao meu colega que fez a tradução 🙂
Por favor, deixe-me apresentar o Dr. Karsten Hansky (DL3HRT). Ele é a força motriz por trás do projeto heliógrafo. Karsten, como eu, é um radioamador interessado em tudo relacionado com a luz.
Nós sabemos que o 938C foi feito para apenas 4 km. No entanto, Karsten é um cientista sério e uma mente muito curiosa. Depois de alguns cálculos, ele convenceu-me a tentar heliografar entre Zeitz e Leipzig numa distância de 38,5km. Então nós fizemos isso – e para nossa grande surpresa, funcionou! Eu pude até ver o sinal do 938C do Karsten a olho nu.
A luz solar brilhante não é muito comum na nossa área, por isso tivemos que esperar por esse momento por muitas semanas.
No entanto, nós fizemos isso novamente hoje. Karsten operava um heliógrafo italiano da OMI num local acima da cidade de Zeitz. Eu usei um 938C no telhado do nosso instituto em Leipzig. A distância era de cerca de 38,5km.
É inacreditável quão longe a comunicação heliográfica com estes pequenos espelhos funciona. O alinhamento dos heliógrafos para estas distâncias é o passo mais importante e requer um grande ajustamento. Felizmente o heliograph OMI tem incluída ampliação telescópica, o que ajuda muito.)

Zeitz_Leipzig

O heliógrafo OMI visto a olho nu

O heliógrafo OMI visto a olho nu (foto Dr Jörg Noack)

Além desta informação e destas imagens, o Dr Noack enviou-nos também um ficheiro em que se pode ver a transmissão efectuada pelo heliógrafo português (e também do OMI). Infelizmente, o alojamento deste blogue (gratuito) não nos permite colocar aqui videos, mas os nossos leitores poderão ver essas imagens acedendo a este endereço.
No caso do m/938C, os sinais são visíveis contra o fundo mais escuro do edifício do Instituto de Leipzig, situado um pouco à esquerda da mais alta chaminé. No caso do OMI, este situa-se na linha do horizonte, um pouco à esquerda da torre metálica, tal como também é visível na imagem acima, onde está assinalado por um circulo.

Uma ultima nota, para chamar a atenção desta louvável iniciativa de explorar física e empiricamente este antigo sistema óptico de comunicações, e, sobretudo, de procurar envolver jovens alemães no entusiasmo pelo conhecimento destes ainda hoje úteis equipamentos. Algo que deveríamos procurar fazer em Portugal, com este e outros sistemas visuais, que foram da maior importância no nosso país.

Os heliógrafos portugueses

O heliógrafo, ou telégrafo óptico, é um aparelho que utiliza o reflexo dos raios solares num espelho para transmitir um código. Em dias de excepcional visibilidade, pode transmitir uma mensagem a dezenas de quilómetros.
Vários foram os heliógrafos utilizados em Portugal ao longo dos séc XIX e XX. Todos eles já aqui foram referidos e tiveram alguma informação disponibilizada neste blogue, nomeadamente o Martins, o Mance, o OMI e o mod/938.

Devemos hoje considerar portugueses dois desses heliógrafos (o primeiro, sem dúvida, mas também o último), sucessivamente utilizados no passado pelo Exército português:

– O primeiro foi inventado pelo então sargento Manuel Martins na década de oitenta do séc XIX (1884) e consistia de dois modelos, o grande, de espelho rectangular, para estações fixas/de guarnição, e o portátil, de espelho redondo e de menores dimensões, para utilizações móveis/táticas. Com o modelo grande foi montada pelo Exército uma rede heliográfica que previa, em 1889, cobrir mais de dois terços do território continental, com 58 estações militares, mas que ficou aquém do pretendido.
Em 1898, quando era já instrutor do serviço telegráfico na Direcção dos Telégraphos de Guarnição e Pombaes Militares, Martins publicou um livro sobre “Telegrafia óptica e acústica” onde estas suas invenções (e outras, como por exemplo o phanógrapho Martins, para comunicação de noite, com luz artificial) foram apresentadas, descritas e tratadas, e de que apresento aqui alguns elementos de interesse, relevantes para este postal:

Livro MartinsMartins heliogLivro Martins pag 15Livro Martins pag 16Livro Martins pag 17Livro Martins pag 18O modelo grande, sobretudo, foi largamente utilizado no País e durante algumas dezenas de anos.
Nas figuras seguintes podem ver-se:
– estação de Palmela, instalada junto ao castelo, nos inícios do séc XX, podendo observar-se o heliógrafo Martins grande em operação, aqui com recurso a um espelho auxiliar (para situações com o sol por trás);
– heliógrafo Martins grande modelo, montado em tripé;
– a rede heliográfica militar em 1889, no seu auge, tal como consta do livro “As comunicações militares de relação em Portugal”, de 1938, de Afonso do Paço;
– a rede heliográfica militar efetivamente existente em 1899 (ter em atenção que a rede telegráfica eléctrica já vinha sendo instalada desde 1855 pelo Corpo Telegráfico);

3 - Heliog Martins in station

Estação heliográfica de Palmela

Heliógrafo Martins grande, com espelho auxiliar, montado em tripé

Heliógrafo Martins grande, com espelho auxiliar e tripé

RedeHelio

A Rede heliográfica em 1889

CHT Mapa de heliografos 1899

A rede heliográfica em 1899

Já no séc XX, apesar de o heliógrafo Martins continuar a ser usado pelos especialistas de Transmissões (então ainda integrados na Arma de Engenharia) até aos anos trinta (bem como o aparelho óptico Mangin, para uso noturno, entretanto introduzido, também para uso exclusivo destes especialistas), o principal heliógrafo utilizado pelas restantes Armas do Exército foi, sobretudo a partir da participação na Grande Guerra e até finais da década de 30, o heliógrafo Mance.

Do livro Sinaleiros - programa de instrução, Ten Inf Guedes Pinto

Do livro Sinaleiros – programa de instrução, Ten Inf Guedes Pinto

Heliógrafo Mance

Heliógrafo Mance com bolsa de transporte, montado em tripé

Aparelho óptico Mangin

Aparelho óptico Mangin em exercícios (Tancos)

Nas imagens seguintes, e a este propósito, podem também aqui ser consultadas as instruções sobre o heliógrafo Mance, para os Sinaleiros da Arma de Infantaria, retiradas do livro Sinaleiros, de 1926, da autoria do ten Infª Rodrigo Guedes Pinto:

Sinaleiros Inf 1Sinaleiros Inf 2– Mais tarde, na sequência da aquisição, cerca de 1930, de um heliógrafo italiano (OMI – Ottico Meccanica Italiana) que utilizava um manobrador e palhetas móveis para cobrir ou descobrir a reflexão do sol, mantendo fixos os espelhos, o que era vantajoso para uma mais fácil transmissão dos sinais Morse, este aparelho veio a ser alterado e largamente melhorado, primeiro pelas Oficinas Gerais de Engenharia (OGME) e mais tarde pela fábrica militar de Braço de Prata, constituindo verdadeiramente um novo modelo de heliógrafo, que mereceu a designação de heliógrafo português mod/938 e teve larga divulgação e utilização.
Duas imagens do heliógrafo OMI pertencente à coleção visitável do RTm (Lisboa), hoje DCSI:

Heliógrafo italiano OMI

Heliógrafo italiano OMI

Heliógrafo italiano OMI

Heliógrafo italiano OMI

E três imagens do mod/938 pertencente à mesma coleção:

Heliógrafo português mod/938

Heliógrafo português mod/938

mod 1938_2

Heliógrafo português mod/938

mod 1938_3

Heliógrafo português mod/938

As instruções para este heliógrafo português mod/938 já anteriormente foram publicadas neste blogue, podendo ser consultadas clicando aqui.