Grande Guerra -IV- Divisão de Instrução, manobras de 1916 – 3ª parte

As comunicações na Divisão de Instrução, nas manobras de 1916 

Aniceto Afonso
Jorge Costa Dias

 

4. Breve História das Transmissões no Exército Português até 1916

A primeira unidade militar de Transmissões em Portugal foi o Corpo Telegráfico, criado em 1810, pioneiro das telecomunicações militares e civis em Portugal.

regulamento de 1810 corpo telegráfico 80X80

Introduziu no país dois sistemas que revolucionaram as telecomunicações da época no país.Em primeiro lugar, a telegrafia ótica, a qual funcionou com base no telégrafo de ponteiro

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e no telégrafo de postigos

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inventados por Francisco Ciera, que estiveram presentes na defesa das Linhas de Torres, e cuja utilização se prolongou até 1855 na rede nacional, altura em que foi substituída pela telegrafia elétrica.

Em segundo lugar, a telegrafia elétrica, que foi operada pelo Corpo Telegráfico de 1855 a 1864, e posta ao serviço do público nacional e internacional. Começou por utilizar telégrafos Breguet

telegrafo_breguet

Breguet-Telegraph-Transmitt

que foram depois substituídos por mesas de telégrafo Morse.

33-Telég Morse campanha
Em 1864 o Corpo Telegráfico foi extinto. O seu pessoal foi integrado numa organização civil do Ministério das Obras Públicas, a Direção Geral dos Telégrafos e Faróis.
A estratégia para a reintrodução das Transmissões no Exército deveu-se a Fontes Pereira de Melo e traduziu-se na inauguração, em 17 de setembro de 1873, da 1ª rede telegráfica militar com 13 estações, e em 1884, com a criação da Companhia de Telegrafistas do Regimento de Engenharia.

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Em 1901, por decreto de 7 de Dezembro, foi criada a Companhia de Telegrafistas de Praça.
Só com a reorganização do Exército de 1911 é que veio a ser criado, em 1913, o Batalhão de Telegrafistas de Campanha com uma Companhia de Telegrafistas por Fio (TPF) e uma Companhia de Telegrafistas sem Fio (TSF).
Voltando ao século XIX, devemos acrescentar que se assistiu à expansão da rede telefónica, que no início usou o telefone de mesa de Bramão concebido em 1879 por Cristiano Augusto Bramão (oficial do Corpo Telegráfico)

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e que é considerado uma referência a nível internacional, porquanto é o primeiro aparelho do mundo que apresenta, reunidos numa única peça, o auscultador e o microfone.
As redes de comunicações conheceram uma crescente expansão entre os finais do século XIX e início do século XX, como mostram os mapas das redes existentes nesta época:
Rede de pombais, que se manteve até à década de 30 do século XX;

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Rede de heliógrafos, que ainda fazia serviço em 1933.

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A rede telegráfica, que conheceu uma enorme expansão em todo o território nacional, era o principal meio de comunicação quando a Divisão de Instrução se concentrou em Tancos.

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Em relação à telegrafia sem fios (TSF), o Exército realizou em 1901 as primeiras experiências de rádio com material encomendado ao fabricante francês Ducretet, que era constituído por um emissor e por um recetor Ducretet.

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Em 1909 foram adquiridas 4 estações de telegrafia elétrica Telefunken, sendo duas fixas e duas de campanha hipomóveis (MT1 e MT2).

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De 1915 a 1917 foram adquiridas 11 estações Marconi – 5 a dorso, 3 hipomóveis e 3 automóveis.

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Em Abril de 1916 havia no Batalhão de Telegrafistas de Campanha quatro estações de TSF, pois algumas das adquiridas tinham sido mobilizadas com as expedições para Angola e Moçambique.
Eram elas:
Em serviço combinado com a Divisão Naval havia uma estação Telefunken (MT1) em S. Julião da Barra e outra (MT2) em Cascais.
Para mobilizar com a Divisão a constituir, existiam duas estações Marconi (uma MM1 e uma outra MM2), ambas no Batalhão de Telegrafistas de Campanha.

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A evolução do conhecimento da Telegrafia ótica na última década

Post do MGen Pedroso Lima, recebido por msg:

Ao passar num alfarrabista encontrei, a preço de saldo, o livro, em 2 volumes, de mais de 1000 páginas, “XV COLÓQUIO DE HISTÓRIA MILITAR,” dedicado ao tema PORTUGAL MILITAR NOS SÉCULOS XVII e XVIII ATÉ ÀS VÉSPERAS DAS INVASÕES FRANCESAS. O colóquio foi organizado pela Comissão Portuguesa de História Militar e realizado no Palácio da Independência em 2005.

Pt militarAo folhear o volume 2, deparei com uma comunicação da Dr.ª Ana Mateus Cardoso intitulada “Meios de comunicação e transmissão do Exército português na Beira nos séculos XVII e XVIII”.

Esta comunicação continha uma fotografia, tirada pela autora, do modelo do telégrafo de bolas britânico usado nas Linhas de Torres e que, na altura, constituía a peça que julgo ser então a mais emblemática do Museu das Transmissões, no Regimento de Transmissões. A fotografia tinha a particularidade de apresentar os fios verticais de suspensão das bolas emaranhados uns nos outros o que dava ao modelo um aspeto ainda mais bizarro.

Também despertou o meu interesse a comunicação terminar com a autora a afirmar não poder “deixar de expressar a nossa gratidão ao Museu das Transmissões em Lisboa, onde temos uma visão da panóplia técnica dos nossos antepassados que muito contribuíram para o êxito de muitas missões de caracter militar.”

Tinha a expetativa de encontrar, na comunicação, uma referência detalhada ao sistema português de telegrafia ótica desenvolvida por Ciera , continuada pelo Corpo Telegráfico até meados do século XIX, tanto mais que em 1993 tinha sido publicado, pela Comissão Portuguesa de História Militar, o livro de Raeuber Les Reinsignements, La Reconnaissance et Les Transmissions Militaires du Temps de Napoleon.

A comunicação, era dedicada sobretudo às comunicações através de mensageiros ou dos serviços postais e da influência da rede estradal nessas comunicações e muito pouco referia acerca da telegrafia ótica, parecendo mostrar a pouca importância que se lhes atribuía.

Nestas condições pareceu-me que a forma como era vista a telegrafia ótica nessa altura era substancialmente diferente da visão atual, pelo que se justifica uma breve reflexão sobre o assunto.

Em 1905 era dado um grande relevo ao telégrafo de bolas, guarnecido por marinheiros ingleses, enquanto que o sistema português, criado por Ciera, era quase um ilustre desconhecido, assim como o Corpo Telegráfico, que prolongou a sua obra,

O relevo dado ao telégrafo de bolas em Portugal, em detrimento do sistema português, não me parece ter qualquer justificação. Este telégrafo teve em Portugal uma utilização que se reduziu apenas à sua aplicação nas linhas de Torres Verdes, da ordem de alguns meses, e depois da retirada de Massena não foi mais aplicado em Portugal, enquanto que o sistema português foi utilizado durante mais de quatro décadas, até o aparecimento da telegrafia ótica.

A figura de Ciera quer como ilustre cartógrafo português, quer como pioneiro das telecomunicações em Portugal é hoje muito mais reconhecida em Portugal. Para mim a sua obra, nas telecomunicações, não é menos relevante (embora muito menos reconhecida internacionalmente ) que a de outros pioneiros como Edelcrantz e de Murray, o que justifica que tanto a Arma de Transmissões como os CTT – Correios de Portugal se considerem como herdeiros históricos de Francisco António Ciera.

Ao Corpo Telegráfico é reconhecida hoje a sua importância na constituição, operação e manutenção da rede de telegrafia ótica até à sua substituição pela telegrafia elétrica, em meados do século XIX , no cumprimento da missão que lhe foi atribuída de operação da rede nacional de telegrafia elétrica, que se manteve durante nove anos quando a rede foi aberta ao público e finalmente. na passagem do pessoal do Corpo Telegráfico a organização civil, antecessora dos atuais CTT-Correios de Portugal, em 1864 quando foi extinto.

Estas mudanças de perspetiva com que assinalámos parecem resultar do seguinte conjunto de ações levadas a efeito depois de 2005:

  • A publicação de várias obras, das quais destaco o trabalho de Isabel Luna, Ana Catarina de Sousa e Rui Sá Leal “Telegrafia Visual na Guerra Peninsular”, a magistral obra coordenada por Maria Fernanda Rollo “A história das Telecomunicações em Portugal”, os dois livros da Comissão de História das Transmissões e o trabalho do académico espanhol, da universidade Complutense de Madrid, prof Giles Mutinger, “Subrevuelo da de la telagrafia óptica en lusitanea“
  • A Exposição “Telecomunicações Militares” em 2008
  • A comemoração do Bicentenário do Corpo Telegráfico em 2010
  • A comemoração dos 250 anos do nascimento de Francisco António Ciera em 2014

Telégrafo de Postigos

Em 1810 foi criado oficialmente o Corpo Telegráfico, sendo Ciera nomeado seu Director. Ainda neste ano, para a ligação entre as estações de Buenos Aires e de Almada, encontrámos a primeira referência ao telégrafo de postigos(1) , também designado por tábuas, palhetas ou volante, que é uma simplificação do telégrafo inglês de Murray de seis postigos para três postigos. O telégrafo de postigos português, por utilizar as Taboas Telegráficas de Ciera, necessita só de três postigos, que lhe permitem representar os algarismos de 1,2,3,4,5,6 e duas posições de serviço – os três postigos abertos ou fechados.

Com este telégrafo e óculos de aumento 20 a 30 vezes conseguia-se comunicações a distâncias entre três a seis léguas(2)

telégrafo de postigos

Modelo do telégrafo de postigos à escala 1:4 construído para apresentação no bicentenário do CORPO TELEGRÁFICO em 2010 no RTm.

telégrafo de postigos2

telégrafo de postigos posições

Desenhos dos postigos e seu significado

Na obra “Outros tempos ou Velharias de Coimbra, 1850 a 1880”, de Augusto de Oliveira Cardoso Fonseca, publicada em 1911,este autor descreve o funcionamento do Telégrafo de Postigos de Coimbra, a que assistiu, da seguinte forma:
«Recordamo-nos de ter, por algumas vezes, visto funccionar esse telegrapho, a cujo serviço estavam dois veteranos que se revezavam de seis em seis horas. Era muito curioso o seu serviço que demandava a maior attenção. O telegraphista estava sentado n.um banco alto, para melhor poder consultar alternadamente os dois oculos de alcance que se conservavam assestados, cada um, em orificio proprio aberto na parede. Do tecto da pequena e estreita casita pendiam tres cordas, cada uma das quaes correspondia a uma das tres grades de madeira, pintadas de branco e preto, para signaes. O veterano servia-se da mão esquerda para com o auxilio das cordas imprimir movimento aos quadros e transmittir signaes; e com a direita ia escrevendo n.uma ardósia os signaes que recebia, designados por algarismos, os quaes depois passava ao papel, enviando-o ao governo civil, onde eram decifrados»
O processo em 1850 de utilizar só um operador para ver os telégrafos adjacentes ao seu, para escrever e manobrar as palhetas, era o mesmo já descrito por Ciera em 1808 para o telégrafo de ponteiro.

04-Torre Belém

Utilização do telégrafo de postigos na Torre de Belém(3)

(1)AHM Div14-163-29 m0014

(2) AHM/Div 1-14 -163-29 (m0009).

(3) Fotografia do Arquivo Fotográfico da CML

Telégrafo Português

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Modelo à escala 1:4, construído pelo Sargento-Mor Paim das Neves para a Coleção Visitável do RTm

O telégrafo português conhecido como telégrafo de ponteiro é um telégrafo ótico desenvolvido por Francisco António Ciera, em que há referência da sua existência em 1805, mas é numa sua carta de 1808 que explica o seu funcionamento e apresenta um desenho do telégrafo conjuntamente com os desenhos do telégrafo sueco Eldcrantz ( 1796) , inglês Murray (1795) e Francês Chappe (1793)

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Desenho de Ciera dos telégrafos Sueco-1024 sinais, Inglês-64 sinais, Francês-256 sinais e Português-8 sinais

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Citando o que escreveu:
“O português (que propus depois de ter examinados os apresentados e muitos outros ) tem uma só manivela ,com a qual se dá ao seu único ponteiro as inclinações 45⁰ em 45⁰a respeito do mastro vertical; de sorte que um só homem observa, faz os sinais e escreve, tudo a um tempo; pois tem a vista aplicada a uma luneta fixa ao mastro, move a manivela com a mão esquerda, ficando-lhe a direita livre para poder escrever em uma pedra convenientemente aplicada ao mastro para esse fim.”

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Em relação ao seu funcionamento, escreve:
“À primeira vista parece impossível satisfazer a tudo somente com 8 sinais; consegui isto por meio d`hum diccionário que compuz – com bastante trabalho -, e que contem mais de 60.000 palavras e frases, cada huma das quais tem por expressão telegraphica huma combinação dos nº 1, 2, 3, 4, 5 e 6 tomados a dous, a três, a quatro, a cinco, a seis.”

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A distância entre dois telégrafos não devia exceder 2,5 léguas (aproximadamente 15Km)

Em 1810 o Corpo Telegráfico é criado oficialmente, para o qual é nomeado Diretor, e é impresso o dicionário a que se refere, com o Título de TABOAS TELEGRAFICAS, na IMPRESSÂO RÉGIA e em que só constam cerca de 10 000 palavras.

Ainda o Infogestnet

Já “aqui” foi referido o interesse deste portal e da informação magnífica que disponibiliza gratuitamente.
(ver www.infogestnet.com e também http://www.facebook.com/portal.infogestnet)

Sou frequentador assiduo e, tendo-me apercebido de que faltavam algumas imagens numa das áreas que pesquisava, contactei os responsáveis por e-mail. Pois bem, já lá está muito mais, daquilo que eu andava à procura. Um exemplo é o importante documento que reproduzo, que confirma que os telégrafos de postigos (como lhes chamava o Ciera), persianas ou “palhetas” tinham uma razão de ser no nome, e, mais importante ainda, que eram calculados caso a caso, consoante o local e a distância a que estavam dos telégrafos com que comunicavam, mas sempre respeitando uma relação de 2 para 3. Também muito importante, o permitir ver o esquadro, as ripas e a existência dos reforços na zona da charneira, um simples pivot, e o ponto de inserção deste, assimétrico em relação à altura, o que permitia uma posição vertical natural em repouso:

Entretanto, o Cor Aniceto Afonso apercebeu-se da existência de mais um recente documento no Infogestnet, importante para a CHT, porque apresenta um inovador desenho do Maj Couto e Melo, cmdt do CT, datado de 15JUN1828, em que mostra o modelo de um novo tipo de telégrafo e informa que os telégrafos de sua invenção haviam sido aprovados na véspera para construção. Este “novo” telégrafo de palhetas é do tipo de corrediças, apresentando as palhetas (com 4×5 palmos cada) em situação de repouso recolhidas num caixilho colocado na parte inferior, e subindo e descendo por calhas formadas por sarrafos pregados nos 4 prumos, através de 3 cordas passando por roldanas, de forma a que fiquem as 3 no espaço entre os 2 prumos intermédios (certamente para facilitar a operação por um só homem). A altura total deste telégrafo de corrediças era de 26 palmos e a sua largura de 15, mais as larguras dos prumos:

Telégrafos de bolas

Os telégrafos de 3 bolas (ou balões) terão sido largamente utilizados pelo Corpo Telegráfico nas suas linhas permanentes, como o comprova a seguinte requisição de material (19 telégrafos de balões), da responsabilidade do Maj Engº Couto e Melo, o comandante do CT que mais anos esteve em funções (pelo menos desde 1814, mas pode depreender-se de alguns documentos, que o foi desde Janeiro de 1812):

É importante notar que esta requisição é feita em maio de 1828, numa altura em que Couto e Melo preparava a extensão da linha Lisboa-Coimbra até ao Porto, onde chegaria no final desse ano, abandonada que fora a variante para a linha para Almeida alguns anos antes. A relação seguinte mostra as existências, nessa mesma data, o que é importante, permitindo supôr que a extensão para o Porto terá sido feita toda com os telégrafos de bolas da requisição anterior. Note-se que entre Santarém e Coimbra há várias estações cuja designação não vem mencionada, o que indicia que na altura desta relação os seus locais não estavam ainda definidos com precisão, e muito menos activos. De Lisboa a Coimbra havia então 14 telégrafos instalados, sendo 8 até Santarém.

Linha telegráfica Lisboa/Coimbra

Um desafio aos nossos leitores, “à laia do geocaching”.

Inaugurado parcialmente em 1812 (aproveitando posições da antiga linha para Almeida, inaugurada em 1810), este troço da linha de telegrafia óptica Lisboa/Porto, usando o telégrafo português de postigos de Ciera – já amplamente divulgado neste blogue (pode usar o Pesquisar, na barra do lado direito, ou então seleccionar nas Etiquetas/Tags) – foi, desde o início, operado pelo Corpo Telegráfico (a primeira Unidade de Tm do Exército, criada em 1810 e extinta em 1864). Utilizados desde 1804 (quer na linha da Barra, quer na linha de Mafra), os telégrafos de concepção portuguesa (mais simples e mais baratos que todos os existentes à época) podiam ser de três tipos – de postigos (ou “táboas”, ou janelas, ou persianas, ou ainda palhetas, como também ficou conhecido), de ponteiro, ou de 3 balões (ou bolas). O 1º para maiores distâncias, e com carácter mais permanente, os restantes para distâncias menores. Os três podiam usar a mesma tabela de códigos, uma vez que todos utilizavam 6 posições significativas (e duas para códigos de serviço).

Texto, pelo punho de Ciera, em que se refere aos 3 tipos de telégrafos ópticos existentes na sua época

O prolongamento da linha até ao Porto só ficou concluído em Novembro de 1828, durante as guerras liberais e ao serviço de D. Miguel, sob a supervisão do Maj Engº João Crisóstomo do Couto e Melo, Comandante e anteriormente Inspector do Corpo Telegráfico desde 1814, ano em que em Portugal existiam 31 telégrafos ópticos instalados (divididos organicamente em 9 secções), que, desde a zona da barra do Tejo (Oitavos, Cascais) seguiam para Lisboa e depois, para norte, até Abrantes e, para sul, desde o Pontal, chegavam até Elvas. E isto depois do abandono dos telégrafos de Mafra e Queluz, devido à ausência do príncipe real no Brasil! Os telégrafos estavam montados em locais altos e desimpedidos, distantes entre si entre 1 e 3 léguas, eram operados em permanência por uma guarnição de 3 homens (por vezes mais 1 ou 2, de reserva, ou para substituição de doentes) que tinham que estar de serviço do nascer ao pôr do sol, e que ficavam alojados em barracas de lona, à excepção de Santarém e Coimbra (em que eram de madeira) e de Lisboa, pois aqui o respectivo telégrafo ficava no quartel do Corpo, à Penha de França, onde hoje se situa o Comando Geral da PSP.
O troço depois de Coimbra, até ao Porto, já viria a ser dotado de barracas de pedra (excepto o da Aldeia Branca), uma vez que era frequente as de lona “irem pelos ares”, como aconteceu com a de Vila Franca na noite de 7 para 8 Nov 1828, e as de madeira serem na altura mais caras. Este outro troço (Coimbra-Porto) pode ser visto clicando duas vezes na imagem abaixo que representa em croquis o troço Lisboa-Coimbra.

Com base nos elementos documentais que encontrei e na vista Mapa/Terreno do Google maps (altitudes e curvas de nível), procurei proceder à implantação no terreno, da forma mais rigorosa possível, ou pelo menos lógica, dos telégrafos deste primeiro troço Lisboa/Coimbra, tal como existentes em 1828. Sabemos por exemplo que, nas cidades principais, o de Lisboa se situava no quartel da Penha de França, que o de Coimbra se situava nos terrenos do Observatório Astronómico (tendo em 1828 sido mudado para Santo António dos Olivais), bem como sabemos que o de Gaia ficava localizado em Santo Ovídio, no alto da Bandeirinha, ou que o do Porto se situava do lado ocidental da igreja da Lapa (por trás do antigo “QG do Porto”). Por outro lado, pesquisas no mapa permitiram encontrar, por exemplo no caso da 5ª estação, Boa Vista, um revelador local com o nome de “Casais dos telégrafos”, ou, na Atalaia, uma “Encosta do Telégrafo”. Também em Tomar, onde pensei inicialmente que poderia ter estado localizado junto ao convento de Cristo e ao antigo hospital militar, acabei por descobrir nas Algarvias uma “Rua do telégrafo”. Outros casos destes haverá, é bem sabido que por esse País fora abundam locais com referências a cabeços ou picos do facho, atalaias, ou telégrafos.

O desafio que venho lançar aos nossos leitores, militares ou civis, é o de auxiliarem, pesquisando localmente, por conhecimento efectivo do terreno, ou em eventual viagem de fim de semana, a localização, tão exacta quanto possível, dos terrenos onde possam ter estado localizados os telégrafos deste primeiro troço. Se obtivermos resultados, num outro post será mostrada a localização o mais aproximada possível no troço Coimbra/Porto, com o mesmo objectivo. E o mesmo virá nesse caso a acontecer com a linha de Elvas na versão de 1828 (mas também na de 1810, em que, em vez de partir do Pontal, entroncava com a linha Lisboa/Porto em Santarém e, por Almeirim, Montargil, Aviz, Estremoz e Atalaya dos Sapatos seguia até Elvas).

Pode “navegar” no mapa seguinte, onde se encontram implantados os locais prováveis dos telégrafos, da mesma forma que o faz habitualmente no Google maps (mudar o zoom, a vista, etc):

Um dos elementos de que me procurei valer como auxiliar – o mapa dos telégrafos referido a 1OUT1828, mas em que não deposito muita confiança no respeitante ao rigor das distâncias (visto que são dadas em léguas, meias léguas e, num caso apenas, em quartos de légua), merece contudo ser aqui reproduzido (a imagem apenas mostra o que se refere a este troço), bem como um croquis com a lista dos locais em causa, para melhor referência dos nossos leitores (clicar nas imagens para depois as aumentar e ver em maior detalhe) e um outro com as alterações efetuadas nas posições dos últimos telégrafos antes de Coimbra, que tinham sido posicionados nos locais da antiga linha para Almeida. Relembro também, por ultimo, como eram estes telégrafos, com a imagem do que esteve instalado em Peniche para comunicar com as Berlengas:

Mapa apenas com as estações Lisboa/Coimbra, referido a 01OUT1828, onde constam os lugares dos telégrafos, quais os responsáveis por distrito/zona, por onde recebiam o pré, ângulos de observação (a norte e a sul), distâncias relativas, e outras informações sobre o pessoal e sobre o material à carga.

Croquis da linha telegráfica de Lisboa a Coimbra (1812)

Alteração efetuada em 1828, em que a seguir a Ceiras foi eliminado o do Zambujal e alteradas as localizações dos 3 últimos antes de Coimbra.

Alteração efetuada em 1828, em que a seguir a Ceiras foi eliminado o telégrafo do Zambujal e mudadas para oeste as localizações dos 3 últimos telégrafos antes de Coimbra (Sto António dos Olivais).

Exemplo de um “telégrafo de postigos”, no caso o que esteve instalado em Peniche e que durou até à entrada do séc XX.

Telégrafo Português 2

Em conversa com o Cor. Eng. Caixaria tive conhecimento que, nas suas pesquisas sobre o Real Corpo de Engenheiros no Arquivo Histórico Militar, leu que tinha sido construído um telégrafo óptico de grandes dimensões em madeira e entregue no Arsenal do Exército. Este telégrafo devido às dimensões não chegou a ser instalado e ficou guardado no Arsenal até ser abandonado. Nas minhas pesquisas na Internet encontrei uma imagem de um telégrafo português de que não há referência de ter existido no Corpo Telegráfico e que poderá corresponder ao telégrafo referido. Junto a imagem Imagem disponível na Internet, no site do National Museum of American History, que pode ser visto aqui.

Os primórdios das Transmissões Permanentes (1810-1864)

Post do MGen Pedroso Lima, recebido por msg:

O período que decorre de 1810 a 1864, de que trata o presente post, corresponde à existência da notável unidade que foi o Corpo Telegráfico que iniciou no Exército – e no País – a era das Telecomunicações.

Recorde-se que, em 2010, o Exército, por proposta da CHT, liderou as comemorações do Bicentenário da criação do Corpo Telegráfico, a que se associaram, entre outros a Fundação Portuguesa das Comunicações e os CTT, foi publicado um livro, que se encontra disponível neste Blogue e inaugurada a lápide na entrada do RTm que se apresenta na figura.

A breve referência que se faz ao Corpo Telegráfico pretende recordar a enorme importância que teve na sua época, aproveitando o facto de, a 10 de Março, último terem passado 202 anos da sua criação.

Os aspetos mais relevantes da ação do Corpo Telegráfico em proveito do Exército e do País podem sintetizar-se em ter sido:
• A primeira unidade de Transmissões do Exército;
• O introdutor da telegrafia visual terrestre no país, espalhando estações telegráficas por todo o território e participando na guerra Peninsular e nas Lutas Liberais;
• O utilizador de tecnologia portuguesa, desenvolvida por Francisco António Ciera que se mostrou competitiva e com vantagem em relação à inglesa nas Linhas de Torres e que se prolongou durante quase 50 anos;
• O introdutor da telegrafia eléctrica em Portugal, cujo funcionamento assegurou durante os nove primeiros anos, incluindo o serviço público nacional e internacional.
• O precursor de vários órgãos, entidades e empresas, que no âmbito militar e civil asseguram hoje os complexos serviços das comunicações a longa distância, nomeadamente os atuais CTT.
De fato, o Corpo Telegráfico merece ser recordado neste blogue, como sucede com a lápide no RTm, pelo seu pioneirismo e por, durante meio século, ter concentrado em si todas as responsabilidades das Telecomunicações nacionais existentes na sua época.

As ‘Taboas telegraficas’ de 1810

Taboas telegraficas de Ciera

Como já foi divulgado neste blogue em artigos anteriores (ver também as págs 14 a 19 do livro ‘As Transmissões Militares…’ e o livro sobre o CT), as Tábuas telegráficas de Francisco António Ciera, impressas em 1810, com milhares de códigos, aplicavam-se aos telégrafos óticos da sua autoria, pois, quer o de ponteiro, quer o de tábuas, quer o de bolas, tinham 6 posições significativas – representando os algarismos 1 a 6 (além de duas posições ‘de serviço’).

Pode tentar acompanhar-se o raciocínio do autor na feitura das ‘Taboas’ através da leitura dos códigos que criou, nas 3 seguintes imagens, onde se apresentam as 6 primeiras páginas do livro (como exemplo):

Páginas 2 e 3

Páginas 4 e 5

Páginas 6 e 7

Acontece que, como aqui também já foi dito (procurar artigos anteriores, ou seleccionar “Telegrafia óptica” nas Etiquetas), durante a 3ª invasão francesa (Massena, Julho de 1810 a Abril de 1811, com 65.000 homens), os telégrafos de Ciera foram usados também nas Linhas de Torres e noutros locais do Reino, como na linha até Almeida, o que obrigou a acrescentar diversos códigos ‘de campanha’, até ao esgotamento do segundo código de 3 algarismos (666). Assim, podem ver-se nas ultimas duas páginas do livro (88 e 89, manuscritas, tal como parte da pág 87, ao contrário de todas as anteriores) referências a povoações e regiões portuguesas e espanholas, nomes de generais e de responsáveis políticos (incluindo ‘Napulião’ Bonaparte e o irmão José), além de códigos de divisões (pelos nomes dos seus Cmdts), brigadas, regimentos, baterias e outras unidades dessa época, de ambos os lados:

Páginas 88 e 89 (‘Clicar’ na imagem para abrir em tamanho grande)

INTEIRO POSTAL do bicentenário do CORPO TELEGRÁFICO


No Salão Nobre do Regimento de Transmissões, a 17 de Setembro de 2010, Dia da Unidade, foi lançado um inteiro postal alusivo ao Bicentenário da criação do Corpo Telegráfico, com o respectivo carimbo.

Neste inteiro postal apresenta-se: o Telégrafo de Ponteiro, conforme desenho executado pelo seu criador, Francisco António Ciera, em documento de 1808; a capa do documento de criação do Corpo Telegráfico,”Organização e Regulamento de Disciplina do Corpo Destinado ao Serviço dos Telégrafos”, de1810; uma reprodução de uma gravura da Torre de Belém, em que se vê no seu terraço um telégrafo de persianas e o castelo radiante símbolo da Arma de Transmissões.

Este inteiro postal está à venda nas estações dos CTT.


Galeria

Bi-centenário do CT

Esta galeria contém 4 imagens.

Comemorações do Bi-centenário do Corpo Telegráfico, que tiveram lugar no RTm em 2010, com a presença do General CEME Placa comemorativa, à entrada do Regimento de Transmissões Telégrafo de persianas de Ciera, réplica à esc 1:4, propriedade da CHT Telégrafo … Continuar a ler