Almenara 2010

Artº (só o texto), da responsabilidade primária do MGen Pedroso de Lima, publicado na revista do RTm A Almenara (nº 2, 1º semestre de 2010):

 

Bicentenário do Corpo Telegráfico 

O Corpo Telegráfico, criado oficialmente em 1810, foi o pioneiro dos actuais serviços de telecomunicações em Portugal.

Durante mais de meio século a sua actividade desenvolveu-se sobretudo em função dos interesses do país, uma vez que a sua utilidade militar apenas se acentuou na Guerra Peninsular e nas lutas liberais.

É por isso que as comemorações do bicentenário do Corpo Telegráfico, da iniciativa da Comissão de História das Transmissões, são promovidas pelo Exército (Estado Maior do Exército, Direcção de Comunicações e Sistemas de Informação e Comissão de História Militar) e por organizações civis com a dimensão e o prestígio da Fundação Portuguesa das Comunicações e os CTT.

As Comemorações iniciam-se no Regimento de Transmissões, no dia da Unidade, presididas pelo general Chefe do Estado Maior, por o Regimento ser o herdeiro o histórico do Corpo Telegráfico, a primeira unidade de transmissões permanentes do Exército.

Apesar da sua prolongada predominância nas telecomunicações nacionais o Corpo Telegráfico é muito pouco conhecido mesmo dentro da Arma de Transmissões, justificando-se a breve resenha histórica que a Comissão de História das Transmissões preparou para ser publicada na revista “Almenara”, a pedido do Comandante da Unidade, coronel Viegas Pires.

Começa-se por referir as circunstâncias que levaram à criação do Corpo Telegráfico em 1810, seguindo-se o papel que teve na introdução da telegrafia visual terrestre (entre 1810 e 1855), e na telegrafia eléctrica (entre 1855 e 1864) e finalmente a sua transformação, em 1864, numa organização civil precursora dos actuais  para podermos concluir quais as razões que levaram a Comissão a defender estas Comemorações.

 

A criação do Corpo Telegráfico em 1810

Com o Corpo Telegráfico foi introduzida em Portugal a telegrafia visual terrestre.  No entanto, a telegrafia visual já existia  em  funcionamento no país.

Com efeito, no início do século XIX existia em Lisboa a chamada “Linha da Barra” que era um sistema de telegrafia visual, superintendido pela Marinha, que compreendia um conjunto de estações telegráficas que se estendiam do Cabo da Roca ao Castelo de S. Jorge. Nas estações encontravam-se instalados telégrafos visuais, (designados por semáforos) constituídos por um mastro com bandeiras e um balão que permitiam a comunicação das estações entre si e com os navios. Esta rede destinava-se ao controlo militar e aduaneiro do tráfego marítimo do porto de Lisboa e permitia a informação à população de Lisboa , no Castelo de S.Jorge, da chegada e saída de navios.

A criação informal do Corpo Telegráfico resultou da necessidade de “expansão terrestre” desta informação do tráfego marítimo que a “Linha da Barra” dispunha, para permitir que o Príncipe Regente (depois D. João VI) nos largos períodos que passava fora de Lisboa, nos palácios reais de Sintra, Queluz ou Salvaterra de Magos, estivesse permanentemente informado do tráfego marítimo no porto de Lisboa.

Para o efeito nomeou o Príncipe Regente em 1803 Francisco António Ciera, lente da Real Academia de Marinha, para Director da Linha da Barra.

O problema consistia em montar um sistema de telegrafia visual terrestre, a exemplo do que sucedia noutros países desde 1794 com o telégrafo francês de Chappe, seguido por outras soluções noutros países da Europa e que Ciera conhecia.

No entanto procurou uma solução própria desenvolvendo um telégrafo “mais simples e económico do que todos os existentes”, o chamado telégrafo português.

Convém referir que os sistemas de telegrafia visual terrestre e o da Linha da Barra  eram semelhantes, diferindo fundamentalmente no facto de os telégrafos terrestres  permitirem distâncias sensivelmente maiores entre estações o que exigia equipamentos de maiores dimensões e maior resistência instalados em pontos altos a distâncias da ordem dos 12Km mas que podiam ir até aos30 km.

Ciera desenvolveu dois tipos de equipamentos, o chamado telégrafo de persianas e o de ponteiro, que se apresentam na figura e elaborou também as “Tábuas Telegráficas” um código interpretativo dos sinais a transmitir.

Este sistema destinado a servir o Príncipe Regente quando se encontrava fora de Lisboa era temporário e territorialmente limitado, exigindo efectivos reduzidos e utilizando sobretudo soldados reformados, o que permite explicar que embora o sistema funcionasse antes  da saída da Corte para o Brasil em Novembro de1807, asua criação oficial do Corpo Telegráfico só se tenha feito anos mais tarde

A Guerra Peninsular veio dar outra finalidade e importância estratégica ao Corpo Telegráfico, graças à construção uma linha telegráfica com a extensão de cerca de500 kmentre Lisboa e Almeida com ramificações para Abrantes e Elvas, cobrindo as principais penetrantes em território nacional e que estava em funcionamento antes de Massena abordar a fronteira portuguesa.

A criação oficial do Corpo telegráfico era então inevitável e verificou-se por decreto de 5 de Março de 1810 que estabelece a sua dependência directa do Ministério dos Negócios Estrangeiros e da Guerra e um efectivo de 126 homens.

O Comandante do Corpo Telegráfico acumulava com o de Director do Serviço Telegráfico. O primeiro Comandante/Director foi Francisco António Ciera. Um civil, mas que foi caso único e só durou até 1813.

 

O Corpo telegráfico e a telegrafia visual (1810 – 1855)

Neste período de 45 anos o Corpo Telegráfico utilizou o telégrafo português desenvolvido por Ciera e que se manteve ao serviço até ao aparecimento do telégrafo eléctrico em 1855.

Na Guerra Peninsular o sistema telegráfico português para além da sua utilização na Linha Lisboa- Almeida que já referimos foi utilizado também nas Linhas de Torres Vedras, a pedido do general  Wellington que comandava o exército anglo-luso.

 Wellington teve conhecimento do telégrafo português na parte inicial das campanhas  da invasão de Massena na Beira-Alta antes da batalha do Buçaco e ficou com boa impressão das suas capacidades. O pedido da sua instalação resultou de admitir a possibilidade, que não se verificou, de os marinheiros ingleses que guarneciam o sistema montado nas Linhas terem que abandonar o serviço em terra.

De notar que esta escolha é honrosa para o sistema português visto que se sobrepôs à  simples troca das guarnições dos telégrafos por soldados ingleses, por estes não poderem atingir rapidamente a desejada fiabilidade e qualidade do serviço que os marinheiros ingleses garantiam.

O sistema inglês montado era constituído por 10 telégrafos, situados na 1ª e 2ª linha de defesa das Linhas de Torres e permitia não só que a comunicação dos principais fortes entre si mas também a comunicação com as frotas inglesas do Tejo e do Atlântico.

Este sistema funcionava perfeitamente, como seria de prever, dado o prestígio e a capacidade que a Royal Navy tinha na área das comunicações visuais.

O sistema português era uma réplica do inglês, sendo os telégrafos portugueses colocados nas proximidades de cada uma das estações inglesas.

Os dois sistemas eram independentes e funcionaram até ao fim da Guerra Peninsular. O sistema português, que era destinado a substituir o inglês acabou por ser um sistema redundante nas Linhas de Torres. Não o foi completamente porque acrescentou uma capacidade que o sistema inglês montado não possuía que era a ligação a Lisboa, permitindo o contacto entre Wellington e Lisboa, onde se encontrava o Conselho de Regência.

A participação do Corpo Telegráfico nas Linhas de Torres é uma confirmação da capacidade do sistema português, não só por ter sido o escolhido por Wellington para substituir o sistema inglês, mas também porque foi o único que perdurou no nosso país, enquanto que o sistema inglês não teve qualquer expressão no país depois da Guerra Peninsular.

Finda a Guerra Peninsular o Corpo Telegráfico perde a sua importância visto que as redes montadas nas Linhas de Torres e a linha Lisboa-Almeida foram desactivadas, limitando-se a actividade do Corpo à Linha da Barra. O regresso de D. João VI em 1821 deu-lhe alguma reanimação mas os efectivos do Corpo Telegráfico mantiveram-se em baixa até1828.

 Nesse ano começa a revitalização da telegrafia visual terrestre com a instalação da linha telegráfica Lisboa – Porto,  que  teve um papel importante nas lutas liberais dado que grande parte das  operações consistiram no cerco da cidade do Porto defendida pelos liberais.  Sobretudo por razões ligadas à instabilidade do reino durante esta época foi instalada a linha Lisboa- Algarve.

De referir que há muito que o Corpo Telegráfico deixara de ter a feição inicial que era a de congregar a Direcção e a Execução que foram separadas. O Corpo passou a ser um órgão apenas de execução.

No final das lutas liberais em 1834 o Director Geral passou a ser Francisco José de Santa Rita, capitão-de-mar-e-guerra que esteve vinte e um anos como Director Geral.

A rede telegráfica desenvolveu-se muito e aumentou a sua densidade. A telegrafia eléctrica iria provocar importantes mudanças.

Entretanto em 1852 é criado o Ministério das Obras Públicas e a Direcção Geral dos Telégrafos passa a depender deste Ministério. O Ministério da Guerra continua a manter o vínculo militar sobre o Corpo Telegráfico que se manifesta apenas em termos de promoções do pessoal e disciplina.

 

O Corpo Telegráfico e a telegrafia eléctrica (1855-1864)

A iniciativa da mudança para a telegrafia eléctrica em Portugal, a exemplo do que se fazia na Europa e Estados Unidos, acontece na época da Regeneração, dentro da política  que pretendia o fomento do país através do desenvolvimento de infra-estruturas básicas em vias rodoviárias, ferroviárias e no telégrafo.

O aparecimento da telegrafia eléctrica, inaugurada em 1855, deve-se á iniciativa de Fontes Pereira de Melo, que através do Ministério das Obras Públicas promoveu o respectivo concurso e contracto com a firma Breguet.

Ao Corpo Telegráfico coube o papel de explorar o sistema, à medida que se iam instalando os novos telégrafos. Entretanto o Director Geral dos Telégrafos foi substituído por outro capitão de mar e guerra José Bernardo da Silva.

O problema inicial, que o contrato resolveu, era a aprendizagem e treino do pessoal Corpo Telegráfico nos novos equipamentos que no caso do telégrafo Breguet era relativamente simples mas o mesmo não acontecia com o telégrafo Morse que exigia o conhecimento do respectivo código.

Os telégrafos visuais eram progressivamente substituídos à medida que os telégrafos eléctricos eram instalados.

A rede passou a despertar  o interesse da população e empresários que manifestaram a aspiração de que, a exemplo do que sucedia noutros países a rede deixasse de estar apenas reservada ao serviço oficial. 

Em1857 arede foi aberta ao público em geral e foi feita a sua ligação a Espanha, integrando-se na rede internacional.

A rede tem uma certa expansão atingindo em 1864  kms.

A transformação do Corpo em organismo Civil(1864)

A transformação do Corpo em  organismo civil que se previa há vários anos foi feita em 1864 com um, novo Director Geral o Tenente General José Vitorino Damásio um dos vultos importantes da Engenharia portuguesa da época.

Envolveu a reorganização de carreiras, com a criação de novas especialidades que substituíram as patentes usadas no Exército, o estabelecimento de incentivos e de vencimentos adequados e uma abertura deliberda a civis.

Os correios receberam não só Kms de linhas como também centenas de trabalhadores qualificados e experimentados.

O Exercito deixou de ter qualquer unidade de Transmissões. Mas isso não era muito importante pois o serviço que fazia era muito mais para o país do que para o Exército.  No entanto em 1873, em 17 de Sembro.  foi inaugurada a primeira rede telegráfica do Exército, com larga colaboração dos Telégrafos do Reino  e em1884 aprimeira unidade de transmissões de campanha.

Desta breve resenha histórica é fácil concluir que as Comemorações que agora se iniciam se justificam plenamente em virtude da importância que a actividade desenvolvida pelo Corpo Telegráfico em proveito do  país e do Exército e que se traduziu fundamentalmente:

  • Na introdução e operação da telegrafia visual terrestre no país e sua operação durante mais de meio século
  • Na introdução e operação da telegrafia eléctrica e sua operação nos 9 anos inicias
  • Na passagem a organização civil, percursora dos actuais CTT.

 

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