Museu Militar (Cor JCD)

Comunicação sobre Francisco António Ciera proferida nas comemorações do Bicentenário do Corpo Telegráfico, pelo Cor Jorge Costa Dias

A Comissão da História das Transmissões, já então constituída, resolveu aprofundar o conhecimento sobre este Corpo Telegráfico, e para minha surpresa, travo conhecimento com um Português notável, Francisco António Ciera, filho do um matemático italiano, Miguel António Ciera, que prestou serviços relevantes a Portugal, Há quatro anos o meu conhecimento sobre a telegrafia óptica era de que tinha existido o Corpo Telegráfico como primeira unidade de Comunicações organizada com carácter permanente e, como tal, a Arma de Transmissões considera-se como um dos seus herdeiros.

Francisco António Ciera nasceu em 1763 e foi nomeado com 19 anos, por reconhecimento do seu mérito, professor de trigonometria esférica e arte de navegar teórica e prática, na Real Academia Naval, para substituir seu pai, que entretanto falecera.

Nesta Academia notabilizou-se como matemático e astrónomo ao longo da sua vida académica.

Em 1785, aos 22 anos, foi eleito sócio da Real Academia de Ciências de Lisboa.

No livro que acabaram de receber, apresentámos uma pequena biografia, dado que o período da sua vida entre 1790 e 1804 está exaustivamente estudado pela Profª Dr.ª Maria Helena Dias. Em relação a este período assinalamos que em 1790 iniciou os trabalhos geodésicos, a fim de obter a Triangulação Geral de Portugal, tendo em vista a construção da Carta do Reino, dirigindo os trabalhos que se iniciaram em 1800 e que foram suspensos em Abril de 1804.

Ciera foi membro fundador da Sociedade Real Marítima, Militar e Geográfica, criada a 30 de Junho de 1798, na qual, em 1803, viria a ser premiado pelos seus trabalhos. Esta sociedade está na origem do actual Instituto Geográfico do Exército.

O período da vida de Ciera, ao qual dedicámos a nossa investigação e estudo foi de 1803 – data em que foi encarregue de assumir a direcção dos telégrafos, incluindo a Linha da Barra, pelo príncipe regente D. João VI – até à sua morte a 6 de Abril de 1814.

Para compreendermos a sua acção neste período, vamo-nos situar nos finais do século XVIII, período em que na Europa se desenvolveram os primeiros sistemas de redes de telegrafia óptica, primeiro em França com o Telégrafo Chappe (1793), seguindo-se em Inglaterra com o telégrafo de Murray (1795) e na Suécia com o Telégrafo de Eldcrantz (1796.)

Estes desenvolvimentos estão ligados à descoberta das lentes acromáticas (inventadas e patenteadas por John Dollond em 1758). Estas lentes corrigem a aberração cromática, focalizando no mesmo ponto a cor azul e a vermelha, cores dos extremos opostos do espectro visível da luz. Por isso, o ponteiro e as tábuas eram pintados de vermelho para se destacarem no fundo azul do céu.

Em Lisboa, em Julho de 1796, foi impresso no Palladio Português um caderno intitulado “Memória sobre o Telégrafo”, tradução de uma carta escrita de Paris a Leypsic.

Em aparte;

Na lista de Publicações coligidas, traduzidas e publicadas por Mariano Veloso responsável pela edição do Paladio Portuguez não consta este caderno, que encontrei na Biblioteca da Academia Militar, pelo que deve ser exemplar único.

Esta Memória descreve o Telégrafo de Chappe, com a história do seu descobrimento, primeiros sucessos, instruções para a sua construção e com estampas finas iluminadas, das quais se destaca uma do telégrafo de Paris.

Neste contexto, o príncipe regente D.João VI deve ter tido interesse em ter um sistema de telegrafia óptica que lhe permitisse introduzir mudanças significativas na linha da Barra, e garantisse comunicações rápidas para as residências de Mafra, Queluz e Salvaterra.

Este interesse e o conhecimento por parte de Ciera da orografia do País, devido aos seus anteriores trabalhos da Carta do Reino, levaram a que a 12 de Junho 1803 fosse encarregado das comunicações telegráficas. Cito: “O Príncipe Regente Nosso Senhor hé servido que a Real Junta de Comércio mande fazer entrega ao Lente Francisco António Ciera huma relação exacta de todas as embarcações mercantes Portuguesas, com especificação dos seus nomes, grandeza e forma, e das mais circunstancias que forem precisas para o uso das comunicações telegráficas de que o lente se acha encarregado”, fim de citação.

Como Lente da Academia Real da Marinha, Ciera tinha conhecimento do desenvolvimento e implantação dos telégrafos na Europa e presumivelmente foi o responsável pela apresentação de alguns modelos de telégrafos no Palácio de Mafra ao próprio Rei, facto que esteve na origem do Aviso de 19 de Novembro de 1803. Cito: “foram alguns lentes da Academia Real de Marinha igualmente incumbidos de examinar e darem o seu parecer sobre os telégrafos apresentados a V.A.R. no Palácio da Mafra”, fim de citação.

A 2 de Dezembro do mesmo ano, pelo aviso 728 foi-lhe entregue a incumbência de dar seguimento aos trabalhos dos telégrafos, função em que manteve a gratificação que recebia na Expedição da Carta Geográphica.

No seguimento desta incumbência desenvolveu o telégrafo português de ponteiro, cuja primeira referência documentada é de 3 de Maio de 1805, Este documento refere a existência dos telégrafos de Salvaterra, Mafra e Queluz e a intenção de formar uma Companhia de Telégrafos. Cito: “que se hão-de empregar no telégrafo de Salvaterra, de Mafra, e no projecto mais amplo”, fim de citação.

Em 1808 após a expulsão de Junot, surge um projecto de alargar a rede, agora com objectivos claros de defesa e segurança nacionais. Em relação a este projecto, a 10 de Outubro deste ano, apresenta o orçamento para a linha Lisboa – Almeida, prevendo a necessidade de 50 óculos e de 25 estações telegráficas, distando entre si no máximo 2,5 léguas. Neste documento justifica como suficiente a aquisição de óculos acromáticos Dolland de 20 a 25 vezes de aumento, em detrimento do óculo de Herschel com capacidade de observar sinais a 6 ou 8 léguas de distância, mas de custo despropositado de 100 moedas de ouro.

A 19 de Outubro, em carta enviada ao Rei, Ciera propôs a redução dos nove telégrafos de bandeiras existentes na Linha da Barra, por quatro de ponteiro. Para esta redução propõe-se utilizar os dois telégrafos de ponteiro, existentes na Torre de Belém e na Torre de S. Julião e retirar os de Mafra para os colocar em Lisboa e na Guia.

Logo a seguir, em documento de 25 de Outubro, que considero o mais importante, estão desenhados os telégrafos mais divulgados na Europa (o sueco com 1024 sinais, o inglês com 64 sinais e o francês com 256) e o telégrafo de ponteiro português com 8 sinais, de sua concepção. Este desenho e a descrição do seu funcionamento permitiram reconstitui-lo.

Descreve depois a forma como deve ser utilizado o telégrafo nas suas oito posições e nada melhor que utilizar as suas próprias palavras: “À primeira vista parece impossível satisfazer a tudo somente com 8 sinais: consegui isto por meio dum dicionário que compus – com bastante trabalho -, e que contém mais de 60.000 palavras e frases, cada uma das quais tem por expressão telegráfica uma combinação dos números 1, 2, 3, 4, 5 e 6 tomados a dois, a três, a quatro, a cinco e a seis”.

Este dicionário foi publicado em 1810 com a designação de” Táboas Telegráficas” na Impressão Régia, de forma reduzida, com cerca de 10.000 entradas.

A solução de satisfazer a tudo somente com 8 sinais é a prova da sua genialidade. Conseguiu ultrapassar o bloqueio mental da necessidade no mínimo de 38 sinais (26 letras, 10 números e 2 sinais de serviço).

Inverteu o modo de resolução do problema.

Definiu primeiro o telégrafo de modo a ser o mais simples possível, um mastro vertical e um ponteiro a rodar na extremidade definindo 8 posições de 45º em 45º. Às 2 posições em que o ponteiro faz ângulos de 0º e 180º com o mastro dedicou-as essencialmente para serviço. Às outras 6 posições atribui-lhes os valores de 1 a  6, e construiu uma tabela de numeração na base 6, que é a base do seu dicionário.

Em 1810 foi criado oficialmente o Corpo Telegráfico, sendo Ciera nomeado seu Director. Ainda neste ano, para a ligação entre as estações de Buenos Aires e de Almada, encontrámos a primeira referência ao telégrafo de postigos, também designado por tábuas, palhetas ou volante, que é uma simplificação do telégrafo inglês de seis postigos para três postigos. O telégrafo de postigos trabalha no sistema binário, cada postigo só tem 2 posições (aberto ou fechado), pelo que 3 postigos permitem os 8 sinais necessários. Neste ano a rede da linha Lisboa – Almeida apresentava duas ramificações, na Atalaia para Abrantes (linha de Abrantes) e em Santarém para Elvas (linha de Elvas)

Até 1813 a rede telegráfica, com o impulso dado por Ciera, tinha instalado 51 estações, das quais 31 estavam a funcionar:

Ciera adoeceu em 1813 sendo autorizado, a 25 de Abril, a ir tratar-se às termas das Caldas da Rainha.

Após um ano, morre a 6 de Abril de 1814.

A rede de telegrafia óptica manteve-se para além de 1855, data em que se começou a implantar a rede de telegrafia eléctrica, mas desde a criação até ao seu fim, os equipamentos utilizados foram os desenvolvidos por Ciera.

Em 2013 completam-se 250 anos sobre o nascimento deste português notável. Será uma boa oportunidade para promover a justa homenagem que merece, congregando as vontades do Exército, da Marinha, da Academia de Ciências e da Fundação Portuguesa das Comunicações.

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