TGen Pereira Pinto

DAS MINHAS MEMÓRIAS MILITARES

(ENTRE 1970 e 1983)

 

PREAMBULO 

Sempre me repugnou, nos meus múltiplos escritos militares,  referir-me ou,  quando não podia deixar de o fazer, mencionar, a minha própria acção, muito especialmente quando dessa acção pudesse inferir-se que tivera realizado tarefa eventualmente meritória.

Porém, após a recente publicação da história das Transmissões, no livro AS TRANSMISSÕES MILITARES DA GUERRA PENINSULAR AO 25 DE ABRIL, na  qual, apesar do título, se procura focar, muito brevemente, as acções desenvolvidas entre o 25 de Abril e o fim do século, em período em que eu, pelas missões que me couberam em 13 desses anos como Director da Arma, tive oportunidade de ter grande intervenção, quer na conduta mas muito especialmente, na concepção e realizações, entendi que era urgente passar a escrito a descrição de como tudo se passou e porque se passou.

É que, se algum dia alguém – depois de nós, os interventores- se dispuzer a continuar  aquele trabalho, porventura passará directamente para o século XXI, por considerar que, mau grado o título, a matéria do pós-25 de Abril já estará esgotada e até os seus actores já terão, por ventura, deixado de existir.

Assim, vou procurar focar esse período como fazendo parte das minhas Memórias- as quais jamais editarei – afim de que, se houver mais tarde quem se interesse pelo período em causa, tenha uma base de consulta testemunhal.

Não vou exibir documentos para justificar as minhas descrições e afirmações, mas estou certo de que, se se fizer uma investigação nos arquivos do EME e na Direcção da Arma, se provará a escrupulosa verdade de tudo quanto aqui vou afirmar.

Que este trabalho que faço, com tanto sacrifício e relutância, possa vir a ter alguma utilidade.

Lisboa  18 de Fevereiro de 2009

António Avelino Pereira Pinto
Tenente General

 


PERÍODO DE 1970 A 1974

 

COMISSÃO EM MOÇAMBIQUE

1 – ATÉ À OPERAÇÃO “NÓ GÓRDIO”

Desde Dezembro do ano anterior que eu, Major de Eng do Ramo de Tm, deixara de comandar o Batalhão de Tm2 – que eu próprio organizara por determinação do EME ainda com sede em Lourenço Marques, mas destinado a deslocar-se para Nampula logo que o seu quartel ficasse construído – para aí desempenhar as funções de Adjunto do Comando das Tm em Nampula, este  a cargo do Ten Cor Ivan Serra e Costa, e onde fui render o Maj Pinto Correia que, por seu turno, veio para Lourenço Marques comandar o BTm2 até ao final da sua comissão, que terminava em Junho.

O Maj Pinto Correia, ao entregar-me as suas funções, deu-me conhecimento de um projecto, classificado de muito secreto, de uma operação que estava a ser planeada para se realizar no planalto  dito dos “macondes” que se situava no distrito de Cabo Delgado e na qual as Transmissões teriam importante papel, pois iria ser uma operação a envolver grandes efectivos e muitas unidades.

Para me ir familiarizando desde logo com o problema, apresentou-me o Ten Cor Cav RS que estava a planear a operação e que, presumivelmente, a iria comandar.

O TenCor RS manifestou-me a sua grande apreensão por estar destinado a comandar as Tm da operação o Cap Eng Tm Amaral Marques pois, segundo lhe constara, não tinha ainda tido qualquer experiência operacional.

Para o descansar, eu afirmara-lhe: “O meu TenCor esteja descansado pois eu não deixarei que o Cap Amaral Marques vá para Mueda sem ir bem industriado sobre o que terá que fazer, e, se durante a operação vier a surgir, localmente, alguma dificuldade, eu próprio lá irei dar uma mão”.

Não mais voltei a ter conhecimento sobre tal operação nem a contactar com o citado TenCor.

Além das funções de rotina do CmdTm, o TenCor Serra e Costa manifestou-me o desejo de, antes se ir embora para a Metrópole, que fossem elaboradas umas NEP de Tm, pois ainda as não havia e tinha o desgosto de partir sem deixar um trabalho concreto realizado..

Como faltava pouco tempo e eu também dispunha de poucas horas para além das necessárias para atender as tarefas normais, reservei as partes da tarde para, em conjunto com um alferes miliciano de Tm de Infantaria que se encontrava no CmdTm, e num gabinete isolado,  escrever os rascunhos que lhe passava com a indicação  de que os lêsse e, quando os não compreendesse, ou por incompreensão da escrita, ou por as ideias não estarem claras, me chamasse imediatamente a atenção afim de o esclarecer e/ou fazer a necessária emenda até o texto ficar claro.

Logo que tivesse cada página de rascunho emendada deveria levá-la  a um dactilógrafo, também disponível para ser prontamente feito o stencil, que ele também teria de rever.

Como eu fazia preceder cada assunto de uma introdução teórica pedagógica para habilitar os oficiais de Tm que iriam receber essas NEP, o alferes que me apoiava, no final, terá ficado extraordinariamente habilitado para a sua especialidade de Tm.

Nunca mais o vi, e tenho pena porque era um rapaz de muita qualidade e dedicação, mas,  depois de vir de Mueda parti logo para Lourenço Marques, o que me impediu de o procurar.

Todavia, apesar desta maratona de escrita e edição, as NEP ficaram prontas e distribuídas antes da despedida do TenCor Ivan Serra e Costa que era um excelente Comandante porque  era amigo e defensor intransigente dos seus subordinados.

Voltando à operação no Planalto dos Macondes.

O tempo foi-se passando e nunca mais se realizavam reuniões no QG sobre a referida operação e, entretanto, o Cap Amaral Marques e o Maj Pinto Correia estavam a acabar as respectivas comissões.

Para render o Cap.Amaral Marques apresentou-se o Cap Veríssimo da Cruz e, para o Maj Pinto Correia, o Maj Oliveira Simões o qual, devendo ir rendê-lo a Lourenço Marques, fora mandado seguir da Beira para Nampula para me render a mim como Adjunto do Cmd Tm.

Esta decisão, que fora tomada em Lisboa na DATm, causou grande consternação no Major Simões, recém-chegado, e no Maj Pinto Correia, que teria de ficar a aguardar a minha rendição, a qual só se processaria em Julho.

Por essa altura, ao Cmd Tm foi comunicado  que mandasse  comparecer o oficial que iria colaborar no planeamento da operação e que providenciasse no sentido de se ir organizando e dotando o Destacamento a deslocar para Mueda,.

Esclareço que a  intenção de se realizar tal operação era, desde há meses, do domínio  público, a ponto de eu até pensar que já se não realizaria.

A essa reunião foi mandado o Maj Simões, porque  ele, ao tempo da operação ( prevista para Junho), já deveria ser o Adjunto do Cmd Tm e, portanto deveria ser ele a planear a operação, que acompanharia como adjunto do Cmd Tm, embora estivesse previsto que quem iria comandar as Tm, no terreno, seria um Capitão de Tm a nomear, presumivelmente o substituto do Cap Amaral Marques.

Face ao sucedido com o caso do Maj Pinto Correia, que temia ter de esperar ainda um mês para ser rendido quando se apresentasse o meu substituto, elaborei uma proposta na qual me oferecia para ir render o Maj Pinto Correia a Lourenço Marques, com a obrigação de, três dias depois, regressar a Nampula, depois de promover para que fossem transportados para Nampula, imediatamente, os órgãos fundamentais do comando e CCS, para os quais já havia instalações prontas do aquartelamento em construção,  deixando apenas em Lourenço Marques a  Comp Tm,  elementos locais do STM e Pel Recuado da Comp de ManReabMatTm.

Esta proposta de solução mereceu desde logo aprovação do TenCor Rio Carvalho Frazão, que entretanto rendera o TenCor Ivan Serra e Costa, o qual a levara ao QG onde foi deferida pelo Cmdt RMM, Gen Tiroa.

Na sequência, foi-me até entregue um bilhete de avião para Lourenço Marques, de ida e volta, para eu embarcar no domingo seguinte.

Na madrugada desse domingo, quando me preparava para me deslocar para o aeroporto, recebi um recado muito urgente do TenCor Frazão para ir ao seu apartamento na messe antes de seguir para o aeroporto.

Assim fiz. Encontrei o TenCor ainda na cama, o qual me comunicou que a minha ida para Lourenço Marques fora cancelada por ordem do Comandante Chefe Gen Kaulza de Arriaga, depois de o TenCor RS lhe ter comunicado que eu, que estava nomeado para comandar as Tm da operação, e para fugir a tal missão, inventara uma solução pela qual me deslocava para Lourenço Marques deixando, a um recém chegado inexperiente, o cumprimento de tal missão.

Fiquei profundamente magoado, por razões evidentes.

Ainda pensei em pedir para que o TenCor Frazão passasse a escrito essa directiva para, com base nela, pedir uma averiguação.

Não o fiz porque entendi que, não só aquele não me iria  referir tudo quanto me contara, como também eu sabia que ia decorrer uma operação importante onde as Tm seriam essenciais e não haveria tempo a perder para preparar material e planeamentos que não poderiam esperar.

Além disso, só o facto de eu pôr em causa a palavra de um comandante tão prestigiado  como o TenCor RS, e ter como objecto a minha ida para Lourenço Marques,  iria  consolidar as suspeitas de que eu queria, de facto, fugir ao cumprimento de uma missão.

Por isso, embora magoado, dispus-me a cumprir uma missão que aliás nunca me fora dada,  e procurei informar-me da operação planeada – a qual eu ainda desconhecia em absoluto a não ser por boatos com 6 meses de antecedência – nomeadamente, seus efectivos e unidades territoriais envolvidas, as suas missões e respectivas dependências funcionais durante a acção.

Estudei quais os sistemas de transmissões a montar e o material mais adequado e pedi à Companhia Reab ManMatTm, comandada pelo CapMan Teixeira de Carvalho  e que tinha, a chefiar as oficinas, o TenMan Birrento, que me informasse da situação em material de Tm das Unidades envolvidas, e, de uma forma geral, da situação da RMM para aquilatar das possibilidades de ter de recorrer a outras unidades.

O panorama que me foi apresentado era dramático, em equipamentos com características adequadas para uma acção de grande mobilidade, como a das forças que iriam intervir nas operações de assalto. Apenas a situação era menos grave nas chamadas forças do cerco, porque mais estáticas.

Efectivamente o único material de rádio portátil existente era o CHP-1  (o Racal TR-28 só começou a ser distribuído na RMM já a meio da operação), o qual, em cerca de 90%, estava avariado por causa da alimentação, que era feita por uma bateria de cádmio-níquel, estando quase todas em mau estado.

Tomei em seguida a resolução de apresentar, logo nos dias imediatos, três propostas ao Cmd Chefe, que, afinal era pessoalmente o promotor da operação:

1 – O envio imediato de três equipas constituídas, cada uma, por um sargento radiomontador e um ajudante de mecânico, em aviões fretados, realizando três circuitos por forma a procurar ainda apanhar as Unidades designadas antes da sua deslocação, para verificarem quantitativa e qualitativamente os equipamentos seleccionados, afim de se montar a operação de recuperação e redistribuição ainda a tempo da operação que se previa vir a realizar-se a menos de um mês.

2 – A aquisição de 10.000 pilhas BA-211 Tudor para com elas em série-paralelo as colocar no compartimento dos acessórios do CHP-1 e garantir assim os 4,5 volts e com a capacidade máxima compatível com o tamanho desse compartimento.

Não sei exactamente de quem foi a ideia desta solução mas talvez tivesse sido do Ten Birrento. Eu apenas a apoiei e adoptei.

Eram necessários 9 pilhas por equipamento e, por segurança, previu-se-lhes uma actividade muitíssimo intensiva, de 2 tempos de recepção para 1 de emissão ( os catálogos referem 1 de emissão para 5 de recepção) para serem reabastecidas em cada 3 dias, prevendo-se que a operação iria durar 30 dias.

Esta aquisição revelou-se ter sido exageradíssima pois, por segurança, nós fixáramos um regime de serviço que no terreno se não verificou.

Todavia estes dados não foram fixados á sorte, mas após experiências feitas na Comp Reab Man, com equipamentos a operar consecutivamente, noite e dia, durante três dias.

3 – A determinação pelo CmdChefe de que, contrariamente à doutrina – que atribui aos comandantes das unidades a responsabilidade pelas suas transmissões e a superintendência sobre as das unidades suas subordinadas – houvesse, durante a operação, um único responsável, que seria eu próprio, alegando que as fracas condições em que as transmissões iriam funcionar aconselhavam a que houvesse uma centralização completa da conduta das transmissões.

Destas propostas, das quais as duas primeiras  implicavam largas somas de dinheiro, só a última não foi sequer despachada e quero crer que nem sequer chegou a ser presente ao Gen Kaulza,  pois não acredito que a não aprovasse.

Soube contudo, através do TenCor Frazão, que o Cmdt RMM, Gen Tiroa,  torcera o nariz   e terá dito mais ou menos isto:”O quê! Então num país onde toda a gente anda a safar-se das responsabilidades , este tipo quer assumir mesmo as que lhe não competem! Aqui há coisa!”

No CmdTm  havia, ao tempo, um excelente desenhador por recrutamento da Província que me fêz  diagramas das redes rádio contemplando todas as fases e dispositivos previstos, em grandes quadros parietais e os reduziu para serem também integrados nas ITTm que realizei para a operação, tendo nestas incluído, em todas as redes, um indicativo para o oficial do COFI (Comando Operacional das Forças de Intervenção, que era o Comando de toda a operação) e esse oficial seria eu próprio.

Para poder escutar e intervir, se necessário, em todas as redes, eminentemente de AM, para as quais eu dispunha de um RF-301A de sintonia contínua e com 100W de potência.

Entretanto, em transportes aéreos sucessivos, fui enviando para Mueda 4 TRT-BLU para equipar a rede de comando do cerco, respectivamente, em Mueda, Miteda, Nangololo, e Sagal bem como as suas antenas devidamente calibradas para as frequências  seleccionadas, e estabelecera igualmente uma ligação de Mueda ao Cmd Chefe em Nampula.

O Gen Kaulza de Arriaga, decidiu só mandar realizar a operação depois de,  em Mueda, promover uma reunião onde estariam presentes todos os responsáveis do COFI e das unidades intervenientes, e, bem assim, os seus adjuntos do CmdChefe, dos quais fazia parte um prestigiado técnico de Comunicações da Armada, o Cap de Fragata Vasconcelos.

Essa reunião foi aberta pelo Gen Kaulza explicando o objectivo da reunião e solicitando aos responsáveis do COFI, incluindo os seus elementos de EM, nomeadamente o responsável pela logística e o das transmissões, as quais considerava fulcrais para poder tomar a decisão, que lhe traçassem os seus planos e apontassem os pontos fracos que poderiam condicionar a operação.

Para descrever o plano de operações, foi dada a palavra ao TenCor RS que expôs e muito bem, o plano que ele próprio gizara, e terminou dizendo: “Este plano tem um forte condicionante nas transmissões, pelo que se elas faltarem ou falharem poderá fracassar”

Em seguida falaram os responsáveis pelas informações, operações, pessoal e, especialmente, o responsável pela logística, a qual iria ser feita principalmente a partir de Porto Amélia.

Todos, especialmente este ultimo, se referiam às Tm como factor primordial para o êxito das Tm.

Chegou a minha vez. Eu apresentei os meus esquemas murais, demonstrando que tomara em consideração todas as situações previstas e acabei por informar os presentes que já tinha naquela altura a funcionar a rede base do Cerco e a ligação a Nampula.

Mais informei ainda que a maior parte dos equipamentos recondicionados, ou estavam já entregues às unidades ou já se encontravam em condições de serem transportados para Mueda e, por serem material crítico, iria procurar transportá-los por avião a partir de Nampula.

Tendo-me ele perguntado se eu tinha confiança nos meus sistemas instalados e a instalar por forma a dar viabilidade à operação, eu respondi  prontamente que tinha toda a confiança e  de que todos podiam igualmente confiar.

Então o Gen Kaulza afirmou, que igualmente confiava que as Tm iriam funcionar satisfazendo as necessidades de ligação da operação, pelo que decidiu finalmente que a operação seria realizada de acordo com os planos, mas sempre no sentido de recuperar as populações e dissuadir o inimigo e não em provocar-lhe baixas.

Daí a uns dias foi feita a transferência do COFI para Mueda tendo já como Comandante o Coronel Paraquedista AV, passando a 2ºcomandante o TenCor RS.

Quando tomei o avião militar para Mueda com os restantes responsáveis da operação, procurei que nesse avião fossem todos os rádios a utilizar pelas forças do cerco, que iria implantar-se no terreno 5 dias antes da hora H da operação de assalto às bases inimigas já identificadas em operações prévias.

Estas operações a conduzir pelo BCaç 15 estacionado em Mueda e que foram  muito mais eficazes sob os pontos de vista táctico e logístico do que a NÓ GORDIO ( pois até foi durante ela que se encontrou a Base OMAR que, junto ao Rovuma, constituía o local de reabastecimento do armamento da Frelimo), teriam tido um cunho de operações de decepção para a hipótese, mais do que provável, de o inimigo estar a par da Operação NÓ GÓRDIO e admitir que ela já estaria em curso.

Procurei levar, desde logo, tais equipamentos, porque temia que, no transporte por coluna, viéssemos a ter baixas insubstituíveis, por as colunas vindas de Nampula passarem em percursos tradicionalmente  minados.

Tal veio a provar-se correcto, pois acabámos por vir a perder duas viaturas, uma das quais destinada ao CmdTm e outra com material de reserva.

Quando íamos no avião, um Capitão paraquedista que seguia ao meu lado, informou-me:

“Você ponha-se a pau com o TenCor RS”

Perguntei-lhe porquê. Respondeu-me: “O senhor deu muito nas vistas na reunião promovida pelo Gen Kaulza, e o RS não gosta de se ver  subalternizado”

2 – OPERAÇÃO NÓ GORDIO

A operação decorreu conforme o planeado e não teve quaisquer contratempos pela falha das transmissões.

Pelo contrário. Face aos sistemas de controlo que lhe montei, que englobavam  o apuramento diário dos tempos de processamento, desde o autor, passagem pelo Centro de Mensagens e pelo CCpt (sempre que classificadas), pelos meios de Tm, pelos diversos órgãos idênticos do CTm de destino, até ser entregue ao destinatário.

Diria que terão sido porventura das mais eficientes de todas as Tm de campanha da minha experiência profissional.

Para tal terão concorrido os controlos estabelecidos, mais o facto de eu poder estar à escuta e intervir em qualquer rede, o que estava patente na composição de todas as redes rádio, e ainda, o ter montado uma rede de sentido único em intercomunicador de mim para todos os postos do Cmd COFI e para todas as restantes secções do CTm.

A operação foi, quanto a mim um êxito sob o ponto de vista estratégico,  como o veio a confessar Samora Machel, mais tarde,  pois o obrigou a deslocar todo o seu dispositivo para 2000Km para sul, para a Zambézia.

Porém, em termos tácticos, foi pouco eficaz, tendo provocado baixas inesperadas nas nossas forças, que afectaram as Unidades de Reconhecimento, às  quais fora dada uma missão, que diríamos, impossível, de  conseguiriam estabelecer, pelo seu contínuo movimento, ao longo de cerca de 150 Km,  a continuidade física da ligação entre as forças emboscadas a constituírem o cerco e que eram 4 ou 5 BCaç.

Porém, para que tal fosse conseguido, seriam necessários mais do dobro dos efectivos  e Unidades, implantados no contorno do cerco e não Batalhões para tal designadas, as quais eram Unidades em rendição.

Além disso, o Comando do COFI funcionava de uma forma lamentável.

O comandante, nomeado à última hora para assumir um plano a que era alheio e que tinha sido gizado pelo seu segundo Comandante, parecia alheado e não enérgico como seria de esperar de um homem que fora o primeiro paraquedista português.

Pouco antes do início da operação uma coluna vinda de Nampula foi minada já próximo de Mueda onde se perderam duas viaturas de Tm, como anteriormente referi.

Seria natural que tal facto causasse apreensão no Comando e eu fosse chamado para ver o que haveria que fazer para colmatar tal perda.

Mas não. Apenas o Coronel AV, justamente poucas horas antes da hora H para o início da Operação, veio ter comigo e me disse: “A operação está nas suas mãos. Está em condições de garantir o apoio das Tm ou acha que cancele a operação?”

Respondi-lhe que a operação se iria iniciar pelo cerco, onde o sistema de Tm estava pronto e apto,  poderia ser iniciada como previsto”

A sua resposta foi: ”Vou dar ordem para se cumprir o Plano de Operações, mas saliento-lhe que, o que suceder, fica à sua inteira responsabilidade”

O segundo Comandante, por seu turno, sentia-se defraudado nas suas expectativas, e procurava, ao transe, que as Tm falhassem para sentir justificação para as suas eventuais falhas de planeamento.

Imagine-se que, nos briefings diários, o TenCor RS procurava ansiosamente que algum dos responsáveis presentes, anunciassem falhas nas Tm, interrogando-os objectivamente nesse sentido.

Sempre que alguém referisse que enviara uma mensagem que não tivera imediata resposta ou ela chegara tarde demais, ali estava ele a rir-se consolado para mim.

Via-me forçado a, por minha vez, pedir explicações das razões prováveis dessa deficiência e, sempre, a explicação nada tinha que ver com as Tm, mas por ausência do destinatário no respectivo PC, ou por falha da responsabilidade desse destinatário.

Num dia, sensivelmente a meio da operação, estava a tomar o pequeno almoço na messe do BCaç15, na mesa dos oficiais superiores e, casualmente, em frente do TenCor RS.

A messe estava cheia de oficiais, capitães e subalternos, estes praticamente  todos milicianos.

Inesperadamente, o TenCor RS começou a bradar contra as Transmissões, afirmando, em alto brado, que ele sempre soubera que nós éramos uns vigaristas procurando convencer os superiores de uma eficiência que não tínhamos.

Sem compreender o que se passara, perguntei-lhe a razão de tal atitude para connosco, não apenas em termos pessoais, mas das Tm em geral.

Respondeu-me que tinha sido uma Companhia de Engenharia – a qual estava a realizar importantíssimos trabalhos no interior do cerco (a abrir itinerários para se deslocarem forças de assalto) – que ficara sem transmissões, e nós, os responsáveis, nem déramos por falta de nada nem nada providenciámos.

Preocupado, dirigi-me ao Comando do Batalhão de Engenharia sedeado em Mueda e que tinha as suas três Companhias em acção, e lá foi-me dito que não se passara nada de especial, apenas que um rádio DHS-1 (o que era frequente como toda a gente sabia, pelo que já havíamos reforçado as dotações), tivera uma avaria, mas que fora prontamente substituído, como estava previsto.

Fui-lhe imediatamente comunicar o sucedido  ao TenCor RS, e pedir-lhe que, sendo ambos oficiais superiores e, no meu caso, estar a ser promovido a TenCor a poucos meses de vista, nos passássemos a entender melhor, até porque decorria uma operação difícil e arriscada, que já tinha provocado baixas nas NT.

Ele manteve-se irredutível.

Face a isso, passei a falar com ele (sempre que tive de falar com ele) em posição de sentido.

Em resumo: Num mês emagreci 10 kilos e, à chegada a Nampula, fui, a conselho médico, fazer um electrocardiograma, que felizmente estava razoável..

Foi o pior Comando onde prestei serviço em toda a minha vida militar. De resto, estava até habituado a ser muito benquisto pelos oficiais do anteriores Comandos, pois, de certa forma, os seus próprios êxitos dependiam, em larga medida, da minha acção ou por meu intermédio. Haja em vista os 5 anos que pertenci ao BTm3 e à 3ª Divisão.

Todas as vezes em que o Gen Kaulza lá foi visitar o PC, eu colava-me a ele, sempre levando comigo os quadros e gráficos de controlo diário para poder prontamente esclarecer qualquer dúvida que fosse colocada sobre as Tm. Mas, felizmente, nunca foi preciso justificar-me.

Alguns dias após ter sido iniciada a operação, apareceu-me lá o Cap Cruzinha Soares para comandar o Destacamento de Tm que lá fora utilizado na montagem e exploração do CTm. Foi o que me valeu, até para poder regressar à Metrópole já com um mês de “mata-bicho”.

Agora, à distancia de 29 anos, reconheço que o Cor AV e o TenCor RS eram dois muito bons oficiais, mas  que foram, por decisão errada do Gen Kaulza de Arriaga, colocados em posições incorrectas, criando neles frustrações e revoltas que se vieram a reflectir no seu comportamento durante a operação.

Já lhes perdoei o que sofri, mas talvez tivesse sido útil para as Tm e, consequentemente para as nossas tropas, pois me obrigaram a empenhar-me a fundo e a estabelecer sistemas e métodos de controlo mais seguros e eficazes, do que os que sempre utilizara.

É interessante verificar que acabei por vir a ser promovido a coronel um ano exacto antes do TenCor RS e fui promovido a Brigadeiro na mesma Ordem do Exercito que o Cor AV.

 

NA METRÓPOLE ATÉ AO 25 DE ABRIL

À chegada à Metrópole em Agosto de 1970, fui colocado na Escola Prática de Transmissões em Sapadores e, por acumulação, como professor no IAEM, para ministrar Táctica de Tm aos alunos do CPOSAS (Curso de Promoção a Oficial Superior das Armas e Serviços), o qual, porque estava muito atrasado em relação às promoções por via das mobilizações, se realizava  para oficiais já promovidos e se processava num sistema compacto  de  4 meses e em duas épocas por ano.

Na Escola Pratica foi-me atribuída a função de 2ºComandante e Director da Instrução.

O meu Comandante  e Director do STM era o TenCor Azeredo Basto e o seu Adjunto para o STM era o Maj Pinto Correia.

Logo após ter tomado posse da minha função de Director da Instrução, apresentou-se na Escola um notável curso de tirocinantes, respectivamente, os Tenentes Jorge Costa Dias, José Oliveira Gardete, Francisco Bastos Moreira e Jorge Sales Golias.

Destes tirocinantes só conhecia um, o Ten Costa Dias, que fora meu aluno quando eu fora professor na Academia Militar antes de partir para Moçambique.

Logo me dispus a realizar um Tirocínio de qualidade, como eu próprio não tivera.

De facto assim sucedeu, e, deste curso, resultaram quatro excelentes  oficiais e técnicos de valia.

No IAEM ia tendo também alunos relevantes, por exemplo: nas Tm, tive o Maj Garcia dos Santos, o Maj Geraldes  e outros; nas Armas o Cap Ramalho Eanes, o Maj Fabião, o Maj Almeida Bruno e outros os quais que vieram a revelar-se vultos notáveis; e nos Serviços, o Cap Aventino Teixeira e outros.

Ali me mantive até Outubro de 1974, data em que fui colocado na EPTm como Comandante, rendendo o Cor Mateus da Silva.

Em finais de Outubro de 1971, porque fora mobilizado para Angola, para desempenhar as funções de Comandante das Tm da RMA, o TenCor Sanches da Gama, ao tempo a dirigir o Depósito Geral de Material de Transmissões em Linda-a-Velha, fui eu próprio nomeado para o render.

Quando o TenCor Azeredo Bastos me comunicou a decisão da DATm, fê-lo rodeando a notícia com muitas cautelas para me preparar e, mesmo assim, com um tom fúnebre, acrescentando que, na DATm, tentara dissuadir o Director, Brig Sales Grade sem resultado, acrescentando que eu mereceria uma colocação mais dignificante.

De facto, não me senti muito feliz porque, apesar de, quando estivera colocado na DATm, ter tentado com os sucessivos Directores da Arma, que se desse mais atenção e modernização ao Depósito, sabia que ele continuava a ser uma arrecadação de material obsoleto e, a sua Direcção, um lugar considerado “de prateleira”, pois todas as decisões de fornecimento continuavam a ser dadas pelo chefe da Rep Mat da DATm.

Nunca lá tinha ido, nem sequer sabia como lá chegar, pelo que tive de pedir telefonicamente que me indicassem o caminho. Cheguei no dia 2 de Novembro, dia dos defuntos. Se eu fosse supersticioso, acreditaria que seria o meu funeral, mas não foi.

Esta relutância que sentia, vinha desde o tempo em que eu, tenente, desempenhara as funções de Comandante do PelReabMan do Btm3 e solicitava os reabastecimentos à antiga 2ª Secção do DGME (que viria a transformar-se no DGMT), a qual nunca tinha nada para fornecer com prontidão e que mandava, para manobras, uma GMC onde o Sarg Liberal aparecia com baterias e água destilada em garrafões, uns poucos Km de cabo WD-1 TT, intitulando a viatura de delegação  de Depósito de MatTm do Corpo de Exercito.

Mas não desanimei e dispus-me a tentar pôr em prática algo que me ficara de um curso de 15 dias, “on-job trainning”, no Batalhão de Apoio de Serviços da 3ª Divisão de Infantaria USA, sedeado em Bad Kitsingen em 1963.

E assim fiz.

Iniciei, desde logo um trabalho escrito, designado por CONTRIBUIÇÃO PARA O ESTUDO DA LOGÍSTICA DAS TRANSMISSÔES, de que pretendia fazer dois volumes, respectivamente, um de  teorias  e conceitos e outro de reestruturação de toda a logística de Transmissões, tendo o DGMT como Depósito Base com as oficinas a realizar 4ºescalão, cada Região Militar com Depósitos Avançados realizando e reabastecendo o 3º escalão de Manutenção e, dentro das RM da Metrópole ou Sectores no Ultramar, sempre que as situações o justificassem, Destacamentos de Apoio.

Infelizmente não tive tempo de realizar o 2º volume porque a DATm, que não via com bons olhos o facto de eu ter, dentro do conceito de artigos críticos,  decidido só lhe mandar a despacho exclusivamente as requisições desses artigos, aproveitou a minha promoção a Coronel, a 1 de Janeiro de 1971 e, apesar de eu já lhe ter submetido a despacho um QO onde o Director seria Coronel, retirou-me em Julho dessa função tendo ficado apenas colocado no IAEM.

Desse volume sobre a Logística das Tm, realizadas em stencil, foram mandadas fazer cópias encadernadas e enviadas a todos os oficiais de transmissões com dedicatória individual, onde se pedia para que os conceitos neles expendidos fossem meditados e, se fosse caso disso, apresentassem propostas de alteração para ser adoptada uma logística de qualidade e de grande prontidão e eficácia.

Quem me substituiu no DGMT foi o TenCor Góis Ferreira que, durante todo o tempo em que eu fora Director, era já o Sub Director mas estava em Inglaterra onde fora tirar um curso numa universidade inglesa sobre Análise Operacional.

Tive foi a felicidade de ter comigo dois magníficos Of Tm, respectivamente o Cap Falcão e o Ten Costa Dias que se oferecera para ser lá colocado, além de excelentes subalternos milicianos eng electrotécnicos e também bons oficiais oriundos de sargentos Radiomontadores, tais como o CapManTm França, e os Tenentes S.Mat Cabrita do Rosário e Aquiles e, ainda, mas mais tarde, o Major Teixeira de Carvalho que conhecera em Moçambique

É interessante que daqueles Tenentes oriundos de Sarg. Radiomontadores, mais o Ten Sepúlveda, que conheci em Moçambique, os quais, sendo de Engenharia, haviam sido obrigados a entrar no SMat quando ele foi constituído e, exactamente por isso, não haviam podido entrar no Quadro de Manutenção da Arma de Tm ficando em tenentes, vieram, por meu intermédio através do TenCor Fisher Lopes Pires que era ao tempo adjunto do CEME,  Gen Jaime Silvério Marques, a ser promovidos a Capitães em 1974.

Fez-se justiça.

Entretanto, começaram as contestações dos capitães oriundos da AM por causa da lei de protecção aos oriundos de milicianos, o que levou á realização de reuniões privadas que, com o tempo, se foram transformando em contestações à Guerra do Ultramar, face à falta de soluções e às dificuldades por falta e/ou obsolescência do material das nossas tropas.

Por essa ocasião, fui abordado por um capitão de Tm, que suponho terá sido o Cap Saraiva Mendes, no sentido de eu ir a uma reunião representar as Tm, das dedicadas a tais reivindicações.

Aceitei prontamente, mas não voltei a ser avisado de tal reunião, tendo-me mantido em expectativa.

Acredito que, nesse entretanto, as reuniões já tivessem alterado os seus objectivos imediatos e se fossem tomando mais reivindicações políticas.

Nunca mais fui abordado, embora, como só depois do 25 de Abril vim a saber, no Grupo revolucionário se contasse o TenCor Fisher Lopes Pires, que era  do meu curso e de quem sempre fui um grande amigo.

Hoje estou convencido de que, como eu sou vulgarmente considerado como um  falador inveterado e compulsivo, me terão mantido fora do segredo do Golpe com receio que eu não garantisse a indispensável segurança, o que não é bem verdade, mas é evidente que não há que discutir as ”famas” que se espalham e se enraízam nas pessoas..

De resto, no dia 25 de Abril encontrava-me na Alemanha a chefiar uma missão do CPOSAS do IAEM, de visita de estudo constituída pelo TenCor do EM Silva e Castro e pelo TenCor Médico Sebastião Guerreiro, de onde regressámos 3 dias depois, quando um C-130 nos  foi   buscar, mais  a  uma  outra  missão  do  Curso  de  Estado Maior , ao aeroporto militar de Frankfurt.

 

DO 25 DE ABRIL DE 1974 AO 25 DE NOVEMBRO DE 1975 ATÉ AO 11 DE MARÇO

Como antes refiro, encontrava-me na Alemanha, sedeado em Kitsinghen, onde já ficara instalado 11anos antes quando frequentara um estágio de “on job trainnig” de logística de Tm e, no dia 25 de Abril, a minha missão tinha ido visitar o troço de fronteira entre as duas Alemanhas no vale de Fulda, para podermos tomar conhecimento das várias defesas construídas pela Alemanha Oriental, que incluíam campos de minas protegidos por rede electrificada e muro de betão armado com torreões de vigilância havendo, do lado americano, forças do Grupo de Reconhecimento da 3ª Div Infantaria.

O nosso acompanhante americano, desde Lisboa, era um TenCor dos EUA que desempenhava as funções de chefe da MAAG da Embaixada dos EUA em Lisboa, mas que, nesse dia, não nos acompanhara na visita.

Quando regressámos esse oficial veio ter comigo muito preocupado, para, em muito segredo,  me comunicar que  tinha recebido de Lisboa notícias muito importantes de que se realizara um Golpe de Estado militar e que a situação parecia muito grave.

Comuniquei aos meus camaradas de missão, com o que todos nós muito nos regozijámo-nos.

Eu fui imediatamente ao PX comprar um televisor portátil a preto e branco – que ainda conservo como recordação – para nós procurarmos obter imagens e notícias veiculadas pelas redes europeias sobre a situação em Portugal. Além disso, cada um de nós passou a comprar, diariamente, jornais europeus, cabendo-me a mim o THE GUARDIAN, ao Castro e ao Guerreiro, o EL PAÍS e o FIGARO, respectivamente..

E assim fomos acompanhando os acontecimentos filtrados pela imprensa internacional.

Foi apenas à entrada no C-130 , através do pessoal da guarnição, que fomos sabendo pormenores e quem haviam sido os intervenientes.

Na sequência do vitorioso 25 de Abril o IAEM suspendeu os cursos.

Passados poucos dias, o TenCor Garcia dos Santos convocou, segundo directivas emanadas da Junta de Salvação Nacional, uma reunião com elementos seleccionados entre oficiais e sargentos do QP da Arma, para se proceder à apreciação dos militares da Arma de Tm, classificando-os em três categorias; a manter e apoiar a sua ascensão, a congelar nos postos actuais e a sanear.

A primeira sessão foi constituída  ad-hoc para se assentar como se seleccionariam os elementos da chamada Comissão de Saneamento que seria chefiada pelo Director da Arma, o qual também resultaria da escolha da composição da Comissão, por dever ser o oficial mais votado dentre os coronéis e o brigadeiro ainda a desempenhar, ao tempo, tais funções, e que era o Brigadeiro Sales Grade.

Aquela reunião ad-hoc, para a qual eu fora chamado a tomar parte, decidiu percorrer a lista de antiguidades e, para cada militar, o colocar à apreciação dos presentes, apenas para se seleccionar a lista de onde, por votação estendida aos militares da Arma, seriam escolhidos os que iriam constituir a Comissão de Saneamento.

Logo nessa reunião ficou assente que não se estenderia a votação aos militares no Ultramar, porque poderiam surgir dúvidas sobre a segurança do envio dos votos e, além do mais, a Arma de Tm era a que se encontrava mais atrasada e não se poderia perder tempo.

Também foi ali dito, por nós, que nos repugnava proceder a uma classificação “a sentimento” dos nossos camaradas, mas foi-nos comunicado pelo TenCor Garcia dos Santos que tal fora uma decisão superior e que todas as Armas e Serviços já a haviam realizado, pelo que teríamos de a realizar também, embora com o máximo possível de isenção.

A lista, que dessa sessão resultou, foi enviada para todos os militares da Metrópole e fixada a sessão da abertura dos votos.

Na abertura da sessão, o Presidente da mesa (suponho que o TenCor Garcia dos Santos) leu uma carta do TenCor Garrido Batista, colocado na EMElm, que comunicava que recebera a lista onde não figurava.

Tal facto, traumatizara-o, tanto mais que, ao verificar os restantes nomes, constatara  que seriam aqueles que ele próprio escolheria, o que lhe dera a certeza de que a escolha teria sido correcta e, por isso,  sentia que tinha falhado no Exercito, não votaria e iria pedir a sua passagem à reserva.

Feita a contagem dos votos, foi eleito presidente da Comissão de Saneamento, e por isso, a propor para Director da Arma, o Cor Sanches da Gama, seguido por mim  com menos um voto, depois o Cor Pinto Correia, o Cor Corte Real e, só depois, o Brig Sales Grade.

A partir daí procedeu-se às múltiplas sessões de saneamento, tendo sido propostos para serem saneados, o Cor Azeredo Basto, o Cor Pires Afonso e o Cor Ramos e congelados o TenCor Costa Ferreira e o  Cap Daniel Ferreira.

O saneamento do Cor Azeredo Basto foi muito debatido e exigiu o convite a militares que com ele haviam trabalhado, para aquilatar se, de facto, as sua capacidades de comando e de liderança seriam tão fracas como se concluía por testemunhos dos elementos da Comissão.

Um dos convidados foi o Ten miliciano na disponibilidade Inácio. No entanto, em sucessivas votações, a decisão foi irrevogável.

O Cor Ramos, ao qual todos reconheciam o valor técnico e os altos serviços prestados, era insistentemente acusado de falta de qualidades de comando e de que o tratamento aos inferiores era lamentável, tendo até, no DGMT, onde se encontrava colocado como Director, agredira fisicamente um sargento.

Passados poucos dias o Cor Sanches da Gama era promovido a Brigadeiro e colocado na Arma de Tm como Director, substituindo o Brig Sales Grade que pedira para passar à reserva.

Para o cargo de Cmdt da EPTm, até então ocupado pelo Cor Sanches da Gama foi nomeado o Cor Mateus da Silva.

Passado cerca de um mês, o TenCor Garcia dos Santos , que entretanto fora  nomeado Secretário de Estado das Obras Públicas, comunicou à DATm que o Ministro das Obras Publicas e Comunicações, CorEng José Augusto Fernandes, solicitara que fosse designado um Coronel de Tm para ir presidir ao Conselho de Administração dos CTT/TLP, onde havia alguma perturbação interna.

Reuniu-se a Comissão de Oficiais, que constituía parte da Comissão eleita, para deliberar sobre a solicitada nomeação e foi eleito o Cor Pinto Correia, seguido do Cor Almeida Viana e, em terceiro lugar, o Cor Mateus da Silva.

Entretanto o Cor Mateus da Silva pediu a palavra para aconselhar que o Cor Pinto Correia não devia seguir sozinho para um cargo onde havia grande politização, pelo que sugeria que fosse proposto a indicação de três membros em lugar de um.

Assim se fez e foi aceite, pelo que seguiram para o Conselho de Administração dos CTT/TLP os: Cor Pinto Correia para desempenhar as funções de Presidente daquele Conselho, o Cor Almeida Viana para o pelouro das Telecomunicações e o Cor Mateus da Silva para o pelouro do Pessoal.

Para substituir o Cor Mateus da Silva no Comando da EPTm fui eu próprio nomeado, tendo tomado posse em Novembro de 1974.

Fui-me apresentar ao Governador Militar de Lisboa Brig Grad Otelo Saraiva de Carvalho, que me deixou excelente impressão e me tratou com uma grande consideração e respeito, tanto mais de admirar quanto ele antes não tivera oportunidade de me conhecer porque, por virtude de estar ainda na Guiné, não tinha sido meu aluno no IAEM.

Encontrei a Unidade com alguma falta de aprumo e de disciplina, que se reflectia no atavio e fardamento mas, a breve trecho, com a exigência de envolvimento que a mim próprio impus, as coisas começaram a melhorar substancialmente.

Preocupei-me em acompanhar as actividades da Unidade, chegando a estar diariamente pelas 8 horas da manhã para aparecer com alguma frequência na aula de Ginástica e Desportos,  e em fazer visitas a todos os órgãos da unidade, sempre acompanhado pelos respectivos responsáveis pelos diversos sectores, além do  envolvimento directo nas várias actividades da Unidade, tais como: nos cursos, no CNT (Centro Nacional de Transmissões), na vida interna e nas actividades logísticas, não deixando passar as manifestações de desleixo ou sintomas de indisciplina, sempre através dos responsáveis que me acompanhavam.

Assim, dentro aproximadamente um mês, a Unidade já se apresentava com outro aspecto e em bom ritmo funcional, apenas prejudicado pelas necessidades de intervenção dada a conflitualidade provocada pelos activistas políticos, muito especialmente o MRPP, cuja sede se situava na Rua do Forno do Tijolo e que tinha, como um dos  objectivos primordiais, a criação de perturbação nas Forças Armadas.

Após a demissão do General Spínola de Presidente da Republica em 28 de Setembro de 1974, fora refundida a Junta de Salvação Nacional.

Para proceder às substituições do Gen Spínola em Presidente da Republica, foi nomeado o Gen Costa Gomes que já fazia parte da Junta de Salvação Nacional. Assim, havia que nomear um novo Chefe do EME, para render o Gen Jaime Silvério Marques, que também saíra, e um outro militar, com patente de General, para completar na Junta os 3 elementos que competiam ao Exercito.

Foi marcada uma reunião de todos os Conselhos das Armas e dos Serviços mais os Comandantes e Directores da Instrução das Escolas Práticas, mais os membros da inicial e sua substituta, Comissão Coordenadora do MFA, e ainda todos os membros militares a desempenharem funções no governo, incluindo o Cor Vasco Gonçalves, que era o 1º Ministro, mais o Gen Costa Gomes que era o Presidente da Republica, para se proceder à eleição dos oficiais que deveriam render os que haviam saído.

No total eram cerca de duzentos, pelo que aquela assembleia, que passou a desempenhar no futuro um órgão de aconselhamento, passou a ser designada por “Assembleia dos Duzentos”

Da Escola Pratica havia, além de mim e do Director da Instrução, que era o TenCor Cunha Lima, havia o Major Homero Figueira, o Capitão Pinto de Castro, o Cap Fialho da Rosa, e não me recordo se mais algum.

Dessa reunião resultou a nomeação para CEME do TenCor Fabião, ainda na Guiné como Governador.

Para render a vaga deixada pelo Gen Spínola, foi nomeado o TenCor Eng Fisher Lopes Pires.

Ambos estes Tenentes Coronéis foram graduados em Generais, o Carlos Fabião com 4 estrelas e o Fisher Lopes Pires com 3 estrelas.

Depois dessa reunião da Assembleia dos Duzentos, várias outras se realizaram, entre as quais, por volta de Fevereiro de 1975, uma, muito importante, para apreciar um plano económico e financeiro, elaborado por uma notável equipa de técnicos chefiados pelo Major Melo Antunes, que se mantiveram em reflexão durante 2 semanas num hotel fora de Lisboa .

Este plano que havia já sido presente ao Governo, que o aprovara em princípio, e ao Presidente da Republica para promulgação, ficou conhecido como “Plano Melo Antunes”.

O Presidente da República decidiu submetê-lo ao Conselho dos Duzentos.

Este plano, aliás notável, no qual se não apoiavam as nacionalizações de Banca e de Seguros nem uma atrabiliária Reforma Agrária, destinava-se a restabelecer a política económica e financeira  para reestruturar e fazer evoluir o país, pois, quer pela alteração do regime, quer pela confusão com que o país se debatia, havia que, com urgência, rever as estruturas  e a legislação para que, sem sobressaltos – que só desacreditavam o pais e fazia fugir os investidores – se renovasse a confiança

Nessa reunião, na qual o Documento veio a ser aprovado por maioria esmagadora, a dado momento, pediu a palavra o TenArt Andrade da Silva para atacar o documento e o governo, ali representado, por não fazer o que era mais urgente e que, segundo ele, era a imediata nacionalização da banca e dos seguros e uma, também imediata, reforma agrária espoliando os latifundiários e distribuindo as terras aos trabalhadores.

Afirmava que, a continuarmos como se propunha no plano em apreço, estaríamos a fazer uma politica de direita e fascista.

O Cor Vasco Gonçalves, na qualidade de 1º Ministro, tomou a palavra e disse “Se eu volto a ouvir dizer que faço, ou colaboro, com uma política de direita ou fascista, saio daqui e nunca mais ninguém me vê”

Em seguida respondeu-lhe que a nacionalização da Banca e dos Seguros seria o golpe de misericórdia das finanças portuguesas, pois não seria mais possível parar a saída de divisas pela perda de confiança dos investidores e, além do mais, o Estado herdaria  uma infinidade de firmas em situação difícil que, por falta de liquidez, estavam na posse da Banca e dos Seguros.

E acrescentou que ele estava bem dentro do problema porque, por razões familiares, esteve desde sempre ligado à problemática financeira.

Quanto à Reforma Agrária que  preconizava, a fazer-se atrabiliariamente, seria a ultima machadada na economia nacional e na nossa credibilidade externa, além de  destruir a agricultura nacional pela falta de preparação e capacidade de gestão dos futuros detentores da terra.

 

11 DE MARÇO DE 1974

No dia 11 de Março,  pelas 9 horas, convoquei uma reunião de Comando de rotina para avaliar a situação da Unidade e das diversas actividades em curso, estando presentes o 2º Comandante e Director da instrução, TenCor Cunha Lima, TenCor Cordeiro Adjunto do STM, mais os comandantes de Companhia e demais Capitães, nomeadamente Capitão Camilo, Cap Veríssimo da Cruz, Cap Fialho da Rosa e Cap Pena Madeira.

Esta reunião realizou-se no salão nobre mas, a dada altura, fomos interrompidos por oficiais que, nos vieram dizer que, estranhamente, andava um helicóptero e aviões a realizarem voos em circulo  lá para o norte da cidade.

Interrompi a reunião e fomos todos ver das janelas do edifício do comando viradas ao Norte.

Na realidade viam-se perfeitamente helicópteros e aviões militares  a realizar tais sobrevoos.

Ordenei logo que, com um AN/PRC-10, procurássemos apanhar as ligações em FM das  redes internas dos aviões e helicópteros.

Assim se fez, e vieram-me dizer que falavam com frequência numa “matança da Páscoa”.

Imediatamente dei por encerrada a reunião e fiz-me acompanhar pelo Maj Veríssimo da Cruz e pelos capitães que comigo se encontravam, respectivamente, Camilo,  Fialho da Rosa, Pena Madeira e outros, para o CNT, onde nos instalámos e lhes ia solicitando que me fossem feitas ligações, primeiro  ao COPCON – o qual que me disse que não sabia de nada – e às diversas Escolas Práticas, falando com os respectivos Comandantes para saber se saberiam algo sobre  qualquer movimentação militar que justificasse os misteriosos voos.

Da Escola Prática de Engenharia, através do seu Comandante, Cor Milheiro, tomei conhecimento de que havia grande movimentação de aviões e helicópteros na BA3 e que o comandante daquela base cancelara à ultima hora um almoço agendado, por ter lá visitantes importantes.

Comuniquei imediatamente ao COPCON cujo chefe do estado maior me agradeceu e solicitou que continuasse a pesquisa.

Da EP Cavalaria, o Comandante, Cor Morgado,  informou-me que viera um helicóptero buscar o TenCor Ricardo Durão o  qual levara também consigo o Cap Salgueiro Maia,  para irem à Base 3 falar com o Gen Spínola e com o Cor Para Rafael Durão.

Voltei a informar o COPCON.

E nada mais consegui obter.

Depois do almoço soubemos, pelas notícias, que teria havido um golpe  da direita tendo sido atacado o RALIS por uma Companhia de Paraquedistas que teria sido enviada pelo Comandante da Base de Paraquedistas CorCav Rafael Durão, a mando do General Spínola, mas que o golpe fracassara por os Paraquedistas, depois de negociações com o Cap Dinis de Almeida do RALIS, terem desistido de atacar o quartel, acabando por  afirmar que tinham sido enganados.

Soube-se ainda que, em 2 helicópteros, o General Spínola com os seus colaboradores, tinha partido para a base aérea espanhola de Talavera-La-Real , mas que o Cor Rafael Durão não o acompanhara e viera entregar-se a Lisboa  como responsável pelos paraquedistas envolvidos.

Dali a pouco tempo, nessa mesma tarde, foram-me entregar um papel impresso, que, segundo me foi referido, andava a ser distribuído na Unidade, no qual se apelava a uma ”justiça imediata” sobre os responsáveis pela intentona que deveriam prontamente ser presos e executados.

Fazia-se insistentemente o apelo seguinte: “FUZILEMOS  JÁ”

Mandei imediatamente reunir todo o pessoal  da Unidade no refeitório das praças para lhes falar.

Aí apelei para a maior calma e para que fossem aguardados as convenientes averiguações sem quaisquer atitudes que contrariassem as directivas superiores, afirmando-lhes que, de contactos mantidos por mim directamente com o COPCON, reinava a maior ordem e calma em todo o país.

Aproveitei a oportunidade para lhes lembrar que, nos filmes de cowboys, era frequente prenderem supostos criminosos e haver logo o levantamento das populações para imediatamente enforcarem os suspeitos e que, sempre que tal acontecia, o sherif se via obrigado a fazer frente à multidão enfurecida para defender esses suspeitos e os entregar no dia seguinte ao juiz. E, de uma forma geral, tais suspeitos não eram afinal os criminosos procurados, mas outros que haviam promovido o levantamento popular.

Por isso, deveríamos aguardar, na melhor ordem, as instruções e ordens que os nossos superiores legítimos, respectivamente, o Cmdt RML e/ou do COPCON, que eram a mesma pessoa, o Brig Otelo, nos iriam transmitir se fosse caso disso.

Encerrada a reunião voltei para o gabinete e lá fui procurado pelo oficial responsável pelo Material de Guerra, dizendo-me que um oficial miliciano da Unidade tentara arrombar a arrecadação do armamento e tentara ainda, forçá-lo a entregar as armas e munições para distribuir pelo pessoal, o que ele impedira  e não entregara qualquer armamento, pois só o faria por minha ordem expressa..

Mandei imediatamente chamar esse Aspirante que me deu umas desculpas atabalhoadas.

Não tomei imediatamente qualquer medida disciplinar por considerar que não era oportuno face à exaltação dos ânimos, mas disposto a vir a fazer as necessárias averiguações, quando tudo acalmasse.

Nessa noite decidi permanecer no quartel, pois poderia receber ordens superiores e, também, para sossegar os ânimos e impedir quaisquer distúrbios.

Já depois de jantar e estando na messe dos oficiais a conviver com os que lá ficaram, chegou-me a notícia de que me chamavam ao telefone da casa da guarda.

Estranhei que uma ligação para mim tivesse sido feita para a casa da guarda, mas ainda assim lá fui, pois podia ser qualquer directiva superior.

Era o 1º Sarg Gil que me pedia para fazer saber a uns dois ou três sargentos, que não recordo, para irem imediatamente ao então chamado Instituto de Sociologia Militar, hoje Instituto da Defesa Nacional e onde se reunia a acima citada Assembleia dos Duzentos – pois estava lá a decorrer uma reunião da maior importância para os sargentos e a sua presença era indispensável.

Mandei procurar os sargentos citados, que não fixei, e que lhes transmitissem o recado,  pois poderia ser efectivamente importante, embora tivesse ficado sentido com a falta de respeito demonstrada pelo 1º Sargento Gil ao ir incomodar o seu Comandante Coronel com um problema como aquele, tencionando esclarecer o caso no dia imediato..

No dia seguinte, vim a saber que a tal reunião tinha sido uma reunião selvagem por ocupação do Centro de Sociologia por oficiais e sargentos, que, na maioria, nem pertenciam à Assembleia dos Duzentos, obrigaram a que a mesa fosse constituída pelos membros da comissão Coordenadora do MFA mais os militares membros do Governo incluindo o 1º ministro, exigiram a presença do Presidente da Republica, tentaram que fosse decretada a execução sumária  dos eventuais suspeitos – o que felizmente não conseguiram – mas fizeram aprovar os decretos que nacionalizavam a Banca e os Seguros e o que determinava a execução da Reforma Agrária.

Na imprensa do dia imediato e na TV, o senhor Cor Vasco Gonçalves afirmava que Portugal dera finalmente um passo em frente, pois haviam sido decretadas as medidas fundamentais para que a nossa recém-implantada democracia pudesse rumar ao socialismo.

Um mês antes, dissera justamente o contrário, quando respondera ao Ten Andrade da Silva, no mesmo Centro de Sociologia.

O Plano Melo Antunes desapareceu e dele nunca mais houve notícia.

No dia 12 convoquei uma reunião de comando, mas foi-me pedido que, em lugar de uma reunião formal, me reunisse com todos os oficiais da Unidade na messe dos oficiais porque, dada a recente evolução dos acontecimentos, todos deviam participar e ser informados do que efectivamente se passara e se previa que viesse a passar-se.

Aceitei e ficou assente que essa reunião seria feita nessa mesma tarde.

Assim se fez mas, pouco tempo depois de termos começado, o Cap Pena Madeira, em nome dos presentes, apresentou uma sugestão que teria o consenso geral, de que, em vez daquela reunião, que  era apenas com oficiais, viesse antes a ser realizada outra no refeitório das praças com todos os militares presentes na Unidade e que seria como que uma reunião geral dos militares da Unidade.

Fiz algumas perguntas para me esclarecer antes de tomar a decisão, pois me estavam a parecer muito suspeitas as motivações dessa reunião e, pela pouca segurança e aparente comprometimento nas respostas, conclui que tinha razão para suspeitar, mas entendi que não devia recusar tal reunião, dai a dois dias ao início da tarde.

Nesse mesmo dia entrei em contacto com o Brig Sanches da Gama e comuniquei-lhe que acabara de autorizar a realização de uma assembleia geral, por entender que o seu impedimento poderia desencadear perturbações na unidade, mas estava convencido de que eu seria nela posto em causa,  pelo que, se ele quisesse, poderia vir assistir e tomar localmente as suas decisões, pois a minha função dependia dele.

Porém, que desde já o informava de que, se eu entendesse que a minha pessoa tinha perdido o apoio da maioria absoluta dos presentes, eu entraria de licença da alínea A e pedia a minha  substituição.

O Brig Sanches da Gama desvalorizou as minhas suspeitas e disse que não compareceria.

Em seguida fiz o mesmo, via telefónica  ao Brig Otelo, que ficou muito preocupado com o que lhe contei, me pediu para eu não abandonar a Unidade, mas eu respondi-lhe que, ou ele vinha assistir e tomava a posição decisiva sobre a minha continuidade na Unidade ou eu, no caso de a minha pessoa e a minha idoneidade militar virem a ser postas em causa, com o apoio  da maioria absoluta da Unidade, eu entraria de licença de 5 dias da alinea A e, quando regressasse,  já devia estar nomeado o meu substituto por proposta do Director da Arma, que já fora informado por mim, e eu passaria guia a mim próprio para a DATm.

Não se negou a ir à reunião, mas não garantiu se poderia ir.

No dia e hora marcadas dirigimo-nos todos para o refeitório das praças.
Á chegada foi-me solicitado que não ocupasse o lugar da mesa para  dar à reunião um cunho democrático e não o de  uma reunião de Comando.

Embora interiormente contrariado, mas curioso sobre a forma como tudo se iria passar, aceitei.

Foi-me colocada, ao lado mas mais à frente da mesa da condução da reunião, uma cadeira de espaldar e braços e, ao meu lado, outra semelhante para o 2º Comandante, TenCor Cunha Lima.

Senti-me, na melhor das hipóteses, como um Bispo numa cerimónia militar, mas, face às minhas suspeitas que iam sendo confirmadas pela organização da reunião,  como um réu, pois iria de facto ser ali julgado.

A mesa foi constituída por três membros, dos quais, com segurança só me lembro do Capitão de Manutenção Conceição Dias. Suponho que os outros seriam o Cap Expl Vieira Pereira e o Maj Veríssimo da Cruz, mas não tenho a certeza.

Devo dizer que fui sempre tratado com o maior respeito durante toda a sessão, nem outra coisa eu aceitaria, pois teria encerrado de pronto a reunião.

A reunião iniciou-se por um dos membros da mesa anunciar que ela se destinava a reflectir sobre o golpe que havia ocorrido dias antes e apreciar a actuação do Comando da Unidade face à tentativa de derrube do governo.

Em seguida foi dada a palavra a um oficial miliciano que afirmou que o golpe não podia ser apenas aquilo que se viu, mas teria decerto aliados nas Unidades, pelo que importava analisar  o comportamento do Comando da EPTm a começar pelo próprio Comandante.

Não intervim a dar quaisquer explicações, mas tive a satisfação de assistir à minha defesa por dois ou três oficiais dos quadros técnicos, dos quais se destacou o CapExpl Dias Valente.

Deixei que os debates continuassem perante as dúvidas que iam sendo colocadas pela mesa e por alguns milicianos, sem intervir, para conhecer bem a audiência e os seus propósitos,  aguardando que algum dos meus defensores, ou a mesa me questionassem sobre a minha posição sobre os acontecimentos, bem como a minha reacção perante a realização do golpe.

Assim aconteceu. Então expliquei quais as minhas actividades para tomar conhecimento do que se estava a passar, mantendo-me sempre em contacto com o COPCON, ao qual fui dando as informações que ia obtendo através das ligações que ia fazendo para as Unidades.

Mais informei que poderiam testemunhar toda esta minha actividade o major Veríssimo da Cruz e  os  Cap Fialho da Rosa e Cap Pena Madeira e outros que comigo estiveram no CNT.

Face a este esclarecimento, deixaram de fazer mais perguntas e surgiu uma moção que foi aceite pela mesa, na qual,  o primeiro parágrafo, me fazia um grande elogio  à minha pessoa e à minha acção como Comandante; mas, no segundo e último parágrafo, alegando que as situações vividas no processo em curso justificavam a escolha de um Comandante mais preparado para as enfrentar, propunha-se que eu fosse substituído no Comando da EPTm  pelo Cap Fialho da Rosa a graduar no posto adequado.

Face a esta moção eu decidi intervir para lhes comunicar que a nomeação do Comandante da EPTm teria de ser decidida pelo Cmdt da RML por proposta do Director da Arma de Tm, que aliás já tinham sido por mim postos ao corrente do que ali se viria a passar, pelo que não cabia àquela assembleia fazer nomeações, quando muito fazer sugestões.

Por outro lado, e de tal dera conhecimento prévio àquelas duas entidades, eu queria, sim, verificar o grau da minha aceitação pelos meus militares, pelo que determinava que fosse feito um consulta, de todos os presentes, para saber se desejariam que eu continuasse ou não, ficando já estabelecido que se não obtivesse uma maioria de 2/3 dos presentes eu entraria no dia seguinte com uma licença de 5 dias e apresentaria a minha demissão como Comandante.

Mais informei de que desta minha resolução também dera previamente conhecimento aos Brigadeiros Otelo Saraiva de Carvalho e Gonçalo Sanches da Gama para, em tal caso, procederem à minha substituição

Ainda houve tentativas por parte da mesa para interrompermos aquela reunião e continuá-la no dia seguinte, até porque estava próxima a hora de jantar das praças, mas eu fui irredutível na minha decisão.

Foi feita a votação com “sim” e “não”, mas não houve uma boa explicação sobre qual o significado das opções, pelo que uns interpretaram o “sim” como sendo para ficar, o que aliás era a interpretação correcta, outros terão compreendido que esse “sim” era para sair.

De qualquer forma a votação foi-me desfavorável e eu voltei-me para o 2 º comandante e anunciei-lhe que ia passar o meu passaporte de licença por 5 dias da alínea A, pelo que, a partir do dia seguinte ficaria, a comandar interinamente. No fim da licença já decerto haveria uma decisão sobre a minha substituição e eu viria reassumir a Comando, apenas para fazer a minha despedida da Unidade com formatura geral na parada, e partir  de seguida para a DATm.

Fui para o meu Gabinete donde telefonei ao Brig Otelo, que estava a tomar posse de membro do Conselho da Revolução, recém criado, mas que acabou por me atender e ao Brig Sanches da Gama, comunicando-lhes quanto se passara e que tomara a decisão de sair da Unidade, em conformidade com o que, aliás, lhes previamente anunciado.

Em seguida passei guia de marcha para a DATm ao Cap Expl Sousa que era o comandante da CCS e que estava a ser muito hostilizado pelos seus militares pela sua exigência e eu entendia que, após a minha saída,  ele iria ser “crucificado” .

No dia seguinte fui à unidade em visita privada para apresentar um requerimento, ao abrigo do Regulamento de Disciplina do Exercito, para ser julgado no Conselho Superior de Disciplina .

Cinco dias depois o carro do comandante foi-me buscar a casa donde saí devidamente fardado de nº1.

Quando cheguei soube que já estava nomeado o TenCor Falcão.

Dirigi-me à parada onde se encontrava já formatura geral dos militares da Unidade, que me prestaram continência, dirigi-lhes umas breves palavras de amizade e de exortação militar, congratulando-me por saber que o Cmdt nomeado era o TenCoronel Rego Falcão, o qual eu tinha na conta de ser um excelente oficial, pelo que iria dar decerto um bom comandante.

Em seguida foi-me prestada continência, sem desfile, embarquei no carro do Comando e regressei a casa para, em seguida ir, pelos meus meios, apresentar-me na DATm onde fui investido nas funções de Inspector.

Já tinha tomado a resolução de que, qualquer que fosse a decisão tomada sobre o meu requerimento, eu, quando completasse anos completos de serviço – que, de acordo com informação que obtive da Repartição de Oficiais ocorreria em 12 de Outubro – requereria a minha passagem á reserva com 27 anos de serviço.

Entretanto o Maj Golias, que trabalhava na Repartição de Acção Psicológica do EME, contactou-me e propôs-me que eu assumisse, como engenheiro civil, a chefia de uma frente de trabalho da Acção Psico Social no Distrito de Castelo Branco, onde, por iniciativa de pessoal da Guerin, se procurava realizar, para as populações do campo, trabalhos de apoio, para a solução das suas necessidades, entre as quais se contavam muitas obras publicas que, de resto estavam já listadas.

Disse-lhe que se se tratasse de apoio técnico, eu estaria disponível, mas que haveria que obter facilidades de tempos de serviço por parte do Director da Arma.

O Brig informado concedeu-me flexibilidade de horário e dirigi-me à Repartição de Acção Psicológica onde fui apresentado a um oficial do Serviço de Material que me entregou uma listagem de pequenas obras, consideradas úteis para as populações e que eu estudei para poder contribuir para a sua efectivação.

Em seguida fui visitar as brigadas de trabalho e os trabalhos já realizados, os quais, em geral, me pareceram adequados e razoavelmente realizados, à  excepção de um , que era um campo de futebol de salão na imediata proximidade de uma Escola, a qual se situava no interior de uma mata de pinheiros mansos.

Pois bem, a escola que se situava num pequeno morro que dominava o belo pinhal, ficou com o terreno da sua frente arroteado para lá se construir o campo, sem falar dos pinheiros que ali haviam sido sacrificados.

Depois de regressar dessa visita, e perante da falta de verbas para realizar trabalho digno, fui visitar o Presidente da Fundação Calouste Gulbenkian, ao qual pedi um milhão de escudos (mil contos) que ele me concedeu, depois de lhe ter explicado o que  com eles pretendia fazer.

As alterações da situação política decorrentes do 25 de Novembro, impediram que tal verba, atribuída  à  5ª Divisão  do  EMGFA, fosse gasta, pelo que foi depois devolvida à Gulbenkian.

Durante o mês de licença fui à minha aldeia de Trás-os-Montes e, quando um familiar me perguntou quando seria promovido, eu respondi que o não seria jamais porque eu, em Outubro, iria passar à reserva a meu pedido e passaria a dedicar-me à engenharia civil.

Quando regressei a Lisboa, a minha irmã mais velha, telefonou-me do Porto perguntando-me se era verdade que eu ia pedir para passar à reserva o que lhe confirmei.

Então ela perguntou-me porquê e eu disse-lhe que o faria porque o Exercito que eu abraçara já não era o que nós tínhamos então, e no qual me não revia.

Ela então disse-me: “Se tu deixares o Exercito só porque não aprovas a forma em que se tornou, serás um desertor, pois o abandonas, sem luta, só porque te não agrada, não tentando endireitá-lo como é teu dever. Espera que te mandem embora, não sejas tu a desertar”

E foi por isso que me mantive.

 

25 DE NOVEMBRO DE 1975

Todo aquele Verão de 1975 foi um período de grandes convulsões no país com constantes incidentes de natureza político-militar e com as consequências das decisões de nacionalização e da reforma agrária, que iam atingindo as estruturas militares e antevia-se que elas acabariam por se envolver, mas agora perigosamente divididas por concepções políticas antagónicas .

Para providenciar no sentido de se garantir maior segurança e maior prontidão e eficácia no caso de uma eventual necessidade de intervenção, foi criado o AMI sob a dependência do EMGFA.

Tendo sido pedida à DATm a nomeação de um oficial responsável pelas Transmissões  e um adjunto  para esse Agrupamento, fui nomeado eu e como meu adjunto o Cap Maia de Freitas.

Quando me fui apresentar na 3ª Divisão do EMGFA, encontrei nas escadas um camarada de Artilharia, que de chofre, me perguntou se já fazia parte de algum dos grupos dispostos a intervir militarmente, ao que respondi que ainda não.

Antes do 25 de Novembro apercebi-me que havia uma organização em marcha à qual pertencia o Cor Garcia dos Santos. Dirigi-me a ele e ofereci-lhe os meus serviços justamente quando ele se deslocava para o Regimento de Comandos.

Ele disse-me que seria mais útil mantendo-me nos dias seguintes em casa para prontamente me apresentar no caso de necessidade, o que fiz.

Na sequência do 25 de Novembro, quando cheguei à DATm, o TenCor Expl Nelson comunicou-me que o TenCor Eanes mandara comunicar-me para, desde já, assumir as funções de Director da Arma de Transmissões mas não mandara ordem escrita a qual depois chegaria.

Mais me informou que a TenCor Eanes mandara comunicar ao Cor Pinto Correia, que se encontrava nos CTT/TLP como Presidente do Conselho de Administração, que se apresentasse ao serviço e fosse tomar conta da EPTm e, se até vinte e quatro horas depois, a Unidade não se encontrasse pacificada, o Regimento de Comandos ocuparia a Unidade.

Perguntei ao TenCor Nelson onde estava o Brig Sanches da Gama e ele disse-me que estava no gabinete.

Não tive coragem de lhe aparecer e lhe dar  uma notícia como aquela. Por isso  decidi partir para o Regimento de Comandos onde apanhei o TenCor Eanes que me confirmou a ordem.

Regressei à DATm e fui ao gabinete do Director onde comuniquei ao Brig Sanches da Gama as ordens que recebera.

No mesmo dia telefonei ao TenCor Garcia dos Santos sugerindo que, como constava que o Brig Pedro Cardoso, que ocupava as funções de QMG, iria para a Academia Militar, talvez fosse uma boa solução colocar em QMG o Brig Sanches da Gama.

E, de facto, assim sucedeu.

Poucos dias depois, estava prevista a reunião da Comissão Técnica da Arma para fazer a proposta dos oficiais para  promoção para as vagas que eventualmente surgissem.

Dirigi-me ao EME, já então chefiado pelo TenCor Eanes graduado em General de 4 estrelas, e informei-o do que se havia passado na EPTm e da minha saída, o que faria prever que, na reunião da Comissão Técnica, eu iria garantidamente ser rejeitado.

Comunicou-me que fosse descansado porque ele iria tomar providências.

De facto, nessa mesma tarde, chegou-me por estafeta uma mensagem dirigida ao Director da Arma , tendo como autor o próprio CEME, na qual este comunicava que eu iria ser promovido e que, por isso, não pertenceria já aos oficiais a votar para a promoção.

Na reunião da Comissão Técnica, quando se tratou das propostas para a promoção a Brigadeiro, li a mensagem, e tudo decorreu com normalidade.

Em seguida fiz saber aos oficiais da EPTm que eu não iria fazer “caça ás bruxas”, como “révanche” por ter sido rejeitado na sequência do 11 de Março, pois o que havia que fazer era devotarmo-nos, todos, sem excepção, à valorização da Arma.

E, de facto, a Arma Transmissões terá sido a única em que não foram levantados processos aos alegados perturbadores após do 11 de Março, havendo apenas de deslocar  do RTm  para a DATm  um  CapEng Tm e o 1ºsarg Gil, e, para a DSSaúde, o 1º Sarg enfermeiro Flores, que estavam  colocados no Regimento de Tm do Porto, ao tempo comandado pelo Cor Oliveira Pinto e que, por consenso da unidade, eram motivo de perturbação para a sua pacificação interna.

Aos militares deslocados na DATm foi prometido que não seriam perseguidos nem descriminados e, no prazo de um ano, seriam de novo colocados na sua unidade anterior, se assim o entendessem.

De facto, havia no QG da RMN, a ideia de que os principais activadores da revolta militar conhecida pelo CICAP/RASP,  teriam sido os militares do RTm, na altura em instrução da Escola de Recrutas, os quais teriam para tal sido provocadas por alguns quadros.

Isso foi-me confirmado pelo próprio Brig Grad Veloso, quando lhe fui apresentar cumprimentos, quando, ainda Coronel, fui, nas funções de Director da Arma, presidir ao Juramento de Bandeira dessa Escola de Recrutas.

O Brig Veloso informou-me que iria propor a transferência da Unidade para outra RM.

Quando lhe disse que, entre outras medidas pelas quais ia lutar como Director, uma delas seria, justamente, a de transformação do RTm em EPTm, pois a actual, funcionava deficientemente por acumular com o STM.

O Brig Veloso, que não tinha qualquer Escola Prática na RMN, achou bem e afirmou que, assim, iria apoiar tal proposta.

 

ACTIVIDADES DA DATm APÓS O 25 DE NOVEMBRO

MEDITAÇÃO SOBRE AS MEDIDAS A IMPLEMENTAR  NA  ARMA

Imediatamente a seguir á minha nomeação como Director, entrei a meditar sobre a Arma no sentido de resolver os seus problemas.

Assim, foram equacionados, para sucessivamente ir promovendo a sua resolução, os seguintes âmbitos de preocupações:

1-Análise da sua estrutura e dispositivo, bem como a revisão dos seus quadros de efectivos e, respectivos QO´s, face às novas realidades e necessidades com o abandono do Ultramar e preparação para outros tipos de conflito;

2-Estudar as necessidades a satisfazer em tipos e quantidades de equipamentos de rádio, face ao eventual desajustamento em tipos e características dos equipamentos recolhidos do Ultramar estudados para equipar outros tipos e actuações das unidades e também preparados para  outros tipos e condições de propagação;

3-Rever as actividades logísticas de Tm não só  na qualificação e dispositivo dos seus órgãos, mas também, pela adopção de técnicas modernas para a detecção das avarias e na reparação dos equipamentos;

4- Estender a Arma de Transmissões para as Forças de Segurança no sentido de se garantir uma acção conjugada em caso de actuações conjuntas;

5- Procurar criar um Sistema Integrado de Telecomunicações  do Exercito, com grande disponibilidade de canais e constituindo um sistema adequadamente malhado  para garantir o pronto reencaminhamento.

Todos estes assuntos foram estudados com o apoio inestimável da minha equipa de oficiais da DATm, que entusiasticamente me apoiou e assim foram sendo resolvidos não sequencialmente, mas ao longo do meu extenso contributo para a Arma de que fui director durante cerca de oito anos ( desde 26 de Novembro de 1975 a 15 de Julho de 1983)

 

REFLEXÃO SOBE A PROBLEMÁTICA  DA ARMA DE TRANSMISSÕES

Para atacar o problema indicado em primeiro lugar, entendi realizar um trabalho escrito a difundir por todos os oficiais e sargentos do QP da Arma, afim de que eles estudassem e se pronunciassem sobre as soluções preconizadas em tal trabalho e, tais soluções e suas propostas de alteração, fossem apresentadas e discutidas pelos seus, representantes, oficiais e sargentos, os quais seriam enviados por todas as unidades ao RTm para  aí participarem numa reunião para esse efeito.

Esse trabalho foi realizado e constituído por dois volumes, respectivamente, um com SITUAÇÃO E CONCEITOS e o outro, com PERSPECTIVAS.

A edição destes dois volumes foi feita a partir de textos manuscritos, com intenção de tornar menos cansativa e apelativa a sua leitura.

As criticas que me iam chegando durante a elaboração do trabalho  eram tantas, que eu estive disposto a não completar tal trabalho e tomar as decisões que entendesse apenas com o apoio dos meus conselheiros directos, mas acabei por completá-lo devido à insistência do CorEng Tm Pedroso Lima.

Este magnífico oficial, que pertencera aos quadros do “glorioso” BTm3, onde desempenhara trabalho de grande valia, fora mobilizado para a India  para responsável pelas Tm militares daquele território.

Lá ficou prisioneiro após a invasão pela União Indiana e, regressado à Metrópole, foi colocado de novo na BTm3, que, por via das Guerras do Ultramar, deixara de ser o “glorioso” que já fora, para se transformar num mero Centro de Instrução.

Esta colocação levou-o a optar por concorrer ao Corpo do Estado Maior onde entrou, ficando assim fora das Tm durante 11 anos.

Por nossa sorte, após o 25 de Abril, foi mandado regressar à sua Arma de origem, tendo ficado colocado na DATm como Inspector.

Perante a minha indisponibilidade em presidir ao Grupo de Trabalho que iria dirigir o Conselho a constituir para  discutir o trabalho que eu realizara, pelo facto de ter sido o seu autor e a minha presença poder condicionar, de qualquer forma, as intervenções dos delegados e o Cor Pinto Correia – o outro Inspector – não ter aceitado fazê-lo por não concordar com a acção pioneira da DATm a promover a sua própria reestruturação, o Cor Pedroso Lima ofereceu-se para o fazer e convidou para o acompanhar na orientação dos trabalhos, os capitães Jorge Dias e Golias, que prontamente aceitaram.

As soluções propostas para a Arma foram aceites quanto à organização e dispositivo, mas foram propostas alterações na composição orgânica dos órgãos, o que se reflectiria nos Quadros de Efectivos para a Arma.

Eu acompanhava diariamente o andamento dos trabalhos através do relatório verbal dos três oficiais e propunha os ajustamentos que iam sendo aprovados por forma que, no final foi possível ter, a um tempo, os QO´s dos órgãos e unidades, e, também, os quadros de efectivos para a Arma revistos por consenso.

Face a estes elementos que tinham sido merecido o consenso  da Arma, foram estes submetidos à aprovação do EME que os aprovou.

Assim os órgãos e Unidades da Arma foram os seguintes.

– Direcção da Arma em Lisboa

– Escola Prática de Tm  no Porto,  por transformação  do  RTm, e dispondo de uma Companhia de Tm escolar de apoio à instrução, a completar devidamente para as suas novas funções, por oficiais e sargento de Lisboa

– Regimento de Transmissões, realizando exclusivamente a função STM situado em Lisboa por transformação da anterior  EPTm que fora transferida

– Batalhão  de  Transmissões  de  Campanha,  englobando  uma  Companhia  de Comando e  SVC uma Companhia de GE de Campanha, a Companhia de Tm da 1ªBrigada Mista Independente e quatro Destacamentos de GE de instalação fixa, em  aquartelamento a definir, havendo conveniência que se situasse no centro do País para maior prontidão na sua  intervenção e apoio à BMI.

– Depósito Geral de Material de Transmissões, o já existente em Linda-a Velha mas  com  ajustamentos orgânicos internos e a criação de uma nova Divisão de Estudos e Projectos.

Tudo acabou por ser montado á excepção do Batalhão de Tm de campanha por falta de aquartelamento, tendo sido pedido o quartel da antiga EPC e, mais recentemente, do extinto GACA 3, por este estar cedido à PSP onde se fixou definitivamente com a sua Escola da Polícia.

 

REAJUSTAMENTO  DAS  DOTAÇÕES  DAS TM  EM  MATERIAL RÁDIO, EM ACTUALIDADE, FUNÇÕES  E QUANTIDADE

Nós tínhamos recolhido cerca de 4000 equipamentos Racal TR-28 que haviam demonstrado ser excelentes para as missões operacionais da guerra subversiva e no Ultramar.

Porém, para o tipo de guerra que poderia vir a ser o nosso, na Metrópole e na Europa, os equipamentos desejáveis seriam em FM, com versões portáteis, com frequências entre 30 e 80 MHtz , com 3 a 5 watts nas versões a dorso e 15 a 20 watts nas versões de montagem em viatura ou em instalação fixa.

A minha primeira ideia foi a de pegar nos 4000 TR-28 e substituir-lhes o “miolo” desenvolvendo, com os nossos engenheiros da Arma, um outro “miolo” com as características técnicas adequadas.

Como na Repartição de Material, então chefiada pelo Ten Cor Falcão, por felicidade fora colocado o TenCor Rodrigo Leitão, oficial com uma grande bagagem técnica, teórica e prática e que se  sabia andar, desde 2 anos antes, a preparar-se para fazer o seu doutoramento em Electrónica, na Inglaterra, tive, com os dois TenCor,  na Repartição de Material, uma reunião em que expus a minha ideia.

Ela foi bem aceite mas, o Ten Cor Leitão, informou-me – com grande pasmo meu – de que, em Portugal, não havia um só engenheiro português preparado para projectar qualquer equipamento de rádio, pois, a celebrada industria portuguesa de electrónica, só existia para a execução das montagens e, até, as mesas de montagem, vinham já estudadas e preparadas pelas fábricas internacionais e nem sequer havia quem estivesse preparado para fazer o procurement das peças e acessórios no comercio internacional.

Por isso,  e com alguma vergonha, ele, que até porventura seria, naquele momento, o engenheiro português mais habilitado para tal, pois, desde 2 anos antes, estudava para se preparar para o doutoramento tomando  contacto  com  as publicações mais avançadas, confessava  a sua ignorância, mas achava bem que encomendássemos um protótipo a uma construtora internacional pois , tendo nós já as baterias de alimentação, as antenas, microfones,  a própria caixa metálica e a bolsa do equipamento, poderíamos poupar 80% do valor dos rádios novos com as mesmas características electrónicas.

Todavia, eu insisti que essa solução só seria adoptada se o desenvolvimento do projecto, o procurement e toda a concepção e montagem, fossem  realizados em Portugal por engenheiros portugueses em equipas onde a participassem dos engenheiros da Arma, pois não podíamos deixar passar essa oportunidade de introduzir a tecnologia de projecto e de fabrico e de preparar adequadamente os engenheiros da Arma.

Entretanto recebeu-se na DATm um convite para a visita de uma feira de material em Wiesbaden, intitulada ELECTRÓNICA PARA A DEFESA.

Então tive uma ideia “maluca”:

Porque não enviar o TenCor Rodrigo Leitão à Feira de  Wiesbaden – pois ele até falava alemão por estar casado com uma alemã – para avaliar as características dos equipamentos em exposição e, daqueles que apresentassem os mais evoluídos avanços tecnológicos, procurar saber onde se situavam as respectivas fábricas, lá ir e contactar com os responsáveis, e  pôr-lhes o problema do desenvolvimento em Portugal, com apoio tecnológico a uma industria electrónica portuguesa para um equipamento com as características técnicas a definir, mas análogas, embora, porventura, com menores amplitudes de frequência de acesso directo, para equipar o Exercito Português.

Informei-o de que não tinha muita fé na missão, porém, por outro lado, os encargos e riscos a assumir pela industria estrangeira seriam tão insignificantes (bastando umas tantas visitas de um técnico a Portugal para orientar e fiscalizar o trabalho do desenvolvimento) e bastava assentar com uma empresa portuguesa os royalties, a receber por cada equipamento dos que viessem a ser fabricados para todo o Exército, que talvez viesse a haver interessados.

O TenCor Leitão visitou algumas fábricas alemãs e uma francesa e, para nossa surpresa, apareceram vários interessados e até fui procurado por um Coronel sul-africano na reforma e a trabalhar na industria electrónica, que eu conhecera na ex-Rodésia.

Este queria-me mesmo vender um equipamento que trazia consigo e me afirmou que não me devia meter a fazer desenvolvimentos porque jamais, conseguiria atingir a qualidade daquele rádio.

Também fui procurado por um Coronel israelita, a trabalhar para o Ministério da Defesa do seu país, que, para me convencer, me ofereceu um excelente jantar no Shareton, mas, perante a minha determinação, me comunicou que eu iria receber um convite para visitar Israel, podendo levar um ou mais consultores técnicos, pois as suas Forças Armadas estavam equipadas com o material mais avançado do mundo e eu veria que, nele, encontraria a solução do meu problema.

Até em Inglaterra, onde me deslocara para assistir a um curso NATO sobre Guerra Electrónica, fui procurado por um elemento de uma empresa fabricante britânica, o qual igualmente me levou a almoçar num local idílico nas margens do Tamisa para me convencer a abandonar a ideia “desastrosa” de desenvolver um equipamento.

Efectivamente, tal como o Coronel israelita me afirmara, dali a uns dias, recebi o convite para visitar as Forças Armadas de Israel com dois acompanhantes, por conta daquele país.

Fui autorizado pelo CEME pelo que, acompanhado pelo Coronel Pedroso Lima para visita à Escola de Transmissões e pelo TenCor Rodrigo Leitão como o meu técnico, lá fomos fazer a citada visita.

Fiquei efectivamente maravilhado com tudo quanto vi, mas não convencido, porque o meu objectivo era, principalmente, introduzir tecnologias avançadas no nosso país.

Foi-me muito encorajadora uma afirmação que, sobre o assunto, me foi transmitida  pelo Ministro da Defesa, de seu nome Weizman, num jantar que nos ofereceu num magnifico museu de equipamentos rádio (em vitrines iluminadas por dentro).

Perante a minha determinação em fazer o desenvolvimento, ele disse: “Fazem vocês muito bem. Se nós não tivéssemos feito exactamente isso mesmo, Israel já não existiria!”

Regressados a Portugal, estruturámos um caderno de Encargos para um concurso, entre firmas nacionais, para o desenvolvimento de quatro protótipos, de equipamentos a integrar nas caixas dos TR-28,  utilizando a sua caixa, a sua alimentação e  restantes acessórios, e ainda,  para obedecerem a características técnicas, que eu e o TenCor Leitão estudámos, para satisfazerem às necessidades do nosso Exército, nomeadamente, reduzindo as suas amplitudes de frequências com acesso directo, para se resumirem a 10 mega hertz, com a separação, entre canais, de 25 khertz..

Tal permitiria a utilização directa  de 400 canais, o que já satisfaria à atribuição de frequências, a uma Divisão, ou três Brigadas,  preparando-os para, com substituição de adequadas placas de circuito impresso , se poder fazer deslocar, tais canais, entre 30 a 80 megahertz, para assim se poder, eventualmente, intervir em acções, integrados em operações e exercícios com  quaisquer Forças da NATO.

Foram estas características relativamente às frequências, que levou o TenCor Falcão  a  propor, no que foi por mim aceite, que a sua designação numérica fosse de 425 (400 canais separados por 25 KHertz).

Mais se exigia que: o desenvolvimento teria de ser realizado totalmente em Portugal; nas equipas em projecto teriam de ser integrados técnicos militares a nomear pela DATm; e o desenvolvimento só seria aprovado depois de testado num banco de ensaios com prestígio internacional e nele verificadas as características técnicas fixadas no Caderno de Encargos.

Foi preparada uma proposta, a acompanhar o CE, muito objectiva nas vantagens de se virem a introduzir, no país, tecnologias que a nossa industria não possuía nem facilmente viria a adquirir enquanto  apenas fizesse montagens  para reduzir o custo da mão de obra, e, por outro lado, se daria oportunidade de envolver os engenheiros electrónicos da Arma, em trabalhos de tecnologias evoluídas, preparando-os para poderem ser formadores de outros, os quais, pelo menos, poderiam ficar mais habilitados para fiscalizar futuras aquisições.

Espantosamente, estando eu no EMGFA numa reunião com o Chefe da Divisão de Comunicações e Electrónica – ao tempo o Contra Almirante Vasconcelos – ele me comunicou que o CEME – ao tempo o General Graduado Vasco Rocha Vieira – lhe entregara a minha proposta e CE em anexo, pedindo-lhe que estudasse a proposta e lhe desse a sua opinião.

Já lhe dera o seu parecer que, infelizmente fora negativo, porque não acreditava na industria portuguesa .

Fiquei furioso e, após a reunião, dirigi-me ao EME para pedir audiência ao CEME.

Soube que, felizmente para mim, ele estava em visita oficial no Estrangeiro, estando interinamente o Gen Melo Egídio que eu conhecera em Moçambique, onde ele fora Governador do Distrito do Niassa.

Expus-lhe o meu problema e a minha revolta. Ele mandou vir a proposta e imediatamente a despachou e, assim, pôde ser aberto o Concurso.

Concorreram apenas duas empresas, respectivamente, a Centrel, com o apoio tecnológico da AEG –Telefunken cumprindo todos os requisitos e pedindo 10.000.000 de escudos pelos quatro protótipos e a Standard Eléctrica Portuguesa, apresentando o equipamento já desenvolvido e a ser comercializado da sua  associada alemã Lorenz, oferecendo-se apenas para desenvolver a unidade de sintonia de antena.

Como se calculará, nem houve que fazer muitas comparações entre as concorrentes pois só a Centrel cumprira o CE.

Só depois de ter sido aprovada  a atribuição à Centrel  do desenvolvimento, do que veio a ser o P/PRC-425, é que me dispus a ir ver como eram as instalações da Centrel, ainda em Porto Salvo e fiquei muito apreensivo com  o que vi, o que procurei transmitir ao Director Jorge Rocha de Matos – o qual também só conheci naquele momento – e lhe disse que, naquele projecto, estava a ser jogada a minha terceira estrela, mas igualmente a industria portuguesa, se viesse a perder aquela oportunidade.

Ele garantiu-me que se envolveria o mais possível naquele projecto e, dentro de um mês, a própria Centrel iria transferir-se para parte das instalações da Timex, com as condições adequadas.

A equipa da Arma para se integrar no projecto foi constituída por TenCor Rodrigo Leitão, como coordenador da DATm do projecto, os Majores Costa Dias e Pinto de Castro, que se integrariam na equipa de execução do desenvolvimento, chefiada pelo Eng Eduardo Pratas.

Antes de se iniciarem os trabalhos com o apoio de um Eng de projecto da AEG- Telefunken, o Major Costa Dias elaborou um PERT para o desenvolvimento, que afinal veio a revelar-se como menos favorável do que a realidade do desenvolvimento.

Entretanto vieram a verificar-se alguns problemas que foram ultrapassados, o mais grave dos quais foi a inviabilidade de montar o “miolo” na caixa dos TR-28, pois as características técnicas foram afectados pela citada caixa ao introduzirem-se-lhe os apoios desse miolo e houve que conceber uma outra, que teve de ser esculpida  em molde e fundida, mas igualmente preparada para nela se lhe adaptarem as baterias do TR-28.

Porém, outras ideias vieram a ser muito úteis, como foi a de se conseguir o equipamento veicular e o fixo sem ter de criar um equipamento diferente, para o que bastou criar uma montagem para o mesmo equipamento, transportável a dorso, que nela se encaixava, e onde se integrava um amplificador linear para elevar a potência  dos 3 Watts para os 15 Watts.

Assim se criaram os VRC-425 e os GRC-425, conforme se instalava tal montagem em viatura e ligada à alimentação da mesma viatura, ou essa montagem seria instalada  numa mesa e ligada a Baterias convencionais ou a moto-geradores.

Além desta mais valia, há que referir que, na aplicação de um circuito que a AEG-Telefunkem não recomendava porque nunca tinha conseguido com ela o seu rendimento teórico, um dos nossos engenheiros militares, perante a admiração do técnico alemão,  obteve o êxito que aquele não esperava.

Depois de o nosso engenheiro ter descrito como fizera, o técnico alemão partiu para a Alemanha e a AEG-TelefunKen passou a integrar essa nova tecnologia nos seus projectos.

Quando os protótipos ficaram prontos, os elementos de projecto foram  à Alemanha e lá foram testados os protótipos, que cumpriram com vantagem os requisitos exigidos, e lá foram instruídos com os elementos de projecto para a composição das mesas de montagem e, bem assim, dos tempos parcelares de montagem dos diferentes componentes, para os habilitar a estruturar a linha de montagem.

Entretanto a DATm adquiriu um equipamento para constituir uma base de dados a ser utilizado pela Centrel para garantir as verificações das características ao longo do processo, nas pré-séries e nas montagens finais, para garantir, no fim das linhas de montagem, que os equipamentos a entregar cumpriam os requisitos impostos.

Esta ultima função de verificação final foi entregue ao Cap ManTm Pinto.

Este banco de ensaios foi transferido, no final do fornecimento dos 4000 equipamentos, para o DGMatTm, para servir de detector das avarias e da finalização das reparações.

Por estranha coincidência, foi ainda  o Gen Melo Egídio quem veio a aprovar todas as propostas que lhe foram apresentadas pelo CEME, Gen Pedro Cardoso, quer para cada uma das várias pré-séries, quer para o  fornecimento final.

Antes de encerrar este assunto informa-se que, para além de se ter atingido o objectivo da Arma e o nacional que estiveram na base da aquisição, pois daí em diante se passaram a projectar e a construir equipamentos de rádio em Portugal, a Marinha, que havia rejeitado a industria portuguesa, encomendou à Centrel,  no final deste processo, o projecto e a montagem de todos os sistemas electrónicos dos centros de comunicações da Fragatas, que vieram a constituir outros tantos êxitos, a ponto de a Centrel ter recebido encomendas estrangeiras  desse sistema de comunicações.

Além disso, Portugal, veio a poupar muitíssimo dinheiro.

Assim, se tivessem sido adquiridos os mesmos 4000 equipamentos ao equivalente da Lorenz, teriam gastado 1.600.000 contos pois cada equipamento custaria 400 contos.

Assim, como cada equipamento custou cerca de 100 contos se despendeu  400.000 contos mais os 10.000 contos do desenvolvimento, teremos gasto 410.000 contos, ou seja, menos 1.190.000 contos, não contando que o nosso projecto apenas gastou 15% em divisas em royalties, ou seja, 15 contos por equipamento o que prefaz  60.000 contos enquanto no caso da compra directa à Lorenz, tal verba seria de 1.600.000 contos todos em divisas.

Depois deste equipamento foram já construídos vários equipamentos para o Exército, pela EID, que veio render a Centrel, e agora sem qualquer apoio tecnológico estrangeiro, mas desenvolvidos em edificação especialmente construída no DGMat Tm, para a Divisão de Estudos e Projectos, com a direcção dos projectos a competir sempre ao Director do Depósito e com vários oficiais integrados nas equipas de projecto.

Tal foi o caso dos P/PRC-501, dos P/VRC-301, dos telefones digitais de campanha BLC-101, e, finalmente, para 28 anos depois ir  render os P/PRC-425, os P/PRC- 525, os quais já foram considerados  por uma a revista militar americana, como topo de gama no seu segmento.

Todo este trabalho de concepção, concurso, projecto e fabrico do P/PRC-425, demorou até 1980.

Porque previa que iria precisar de  vários anos  para o desenvolvimento, em 1976, tomara a iniciativa de, a título privado e a expensas minhas, convidar o Adido Militar da Embaixada dos EUA, para almoçar num restaurante em Cascais, afim de o sondar sobre a possibilidade de se obter, dos EUA, cem equipamentos  transportáveis a dorso e FM, para garantir a montagem de redes de uma eventual força com elevada prontidão, enquanto durasse ao trabalho de desenvolvimento.

Mas ele disse-me que não haveria qualquer possibilidade, pelo que se não propôs o pedido oficial.

Felizmente não chegou a ser preciso tal fornecimento.

 

ACTIVIDADES  LIGADAS À LOGÍSTICA DE TRANSMISSÕES

REPARAÇÃO DE CIRCUITOS IMPRESSOS

Desde que se adoptaram, no nosso Exercito, equipamentos com placas de circuitos impressos, a solução para a sua reparação era a de substituir as placas por outras, o que era muito dispendioso pois as placas eram construídas na Standard Eléctrica em Cascais, iam para os EUA e só depois elas eram fornecidas, muitíssimo mais caras, para satisfazer as nossas requisições.

Então procurei que o TenCor Leitão se informasse se não haveria possibilidade de fazermos nós a reparação dessas placas.

Acabou por saber que havia uma empresa americana, de seu nome PACE, detentora dessa tecnologia, que ministrava cursos aos radiomontadores e que tinha em vista a venda dos seus produtos, que eram ferramentas preparadas para tais reparações.

Mandei-o informar-se e ele transmitiu-me que era possível solicitar a vinda a Portugal de um técnico que cá ministraria um curso, no máximo a 12 radiomontadores, e que o encargo seria de 50.000 escudos diários.

Pedi autorização superior e mandou-se vir o citado técnico.

Entretanto chamei o Ten Eng Tm Miguel Leitão, irmão mais novo do Rodrigo, e dei-lhe a seguinte missão: procurava obter os melhores radiomontadores do nosso Exército e, com eles, actuando como interprete, mas também para realizar o curso como 12º radiomontador.

No final do curso ele escolheria um ou dois desses radiomontadores e teria de ministrar, esse mesmo curso, a todos os radiomontadores do Exercito.

Veio o americano e, depois de acabar o curso que era de uma ou duas semanas, fez questão de me mostrar, no Depósito, onde decorria o curso, as capacidades finais dos radiomontadores.

Para tal, ele tinha registado, em vídeo, o decorrer do curso e mostrava-me, maravilhado, a habilidade dos radiomontadores a realizarem a recuperação dos circuitos impressos avariados.

Então eu pedi-lhe que me vendesse todos os equipamentos que trazia e, bem assim, os auxiliares de instrução, o que ele fez.

Despediu-se oferecendo-se para voltar a Portugal as vezes que fossem precisas porque nunca vira tão excelentes alunos.

A partir daí o Ten Leitão com dois radiomontadores do DGMatTm ali ministraram os cursos a todos os radiomontadores do Exercito e, depois, este mesmo curso foi  oferecido aos CTT/TLP e a todas as industrias portuguesas que trabalhavam e operavam equipamentos de electrónica, que ali vieram ser preparados, em cursos gratuitos.

Em seguida, esse curso foi passado para a Escola Militar de Electromecânica, actualmente Centro Militar de Electrónica, por ser o local indicado para dar tal formação.

 

FABRICAÇÃO DE PLACAS DE CIRCUITOS IMPRESSOS DE DUPLA FACE

Quando se começou a pensar no desenvolvimento de rádios, surgiu o problema, que me foi posto pelo TenCor Rodrigo Leitão, de tentarmos fabricar , ainda que sem carácter industrial, mas para a execução de protótipos, placas de circuitos impressos de furo metalizado ou também conhecidos como circuitos impressos de dupla face.

Pedi-lhe que se informasse onde poderíamos obter tal tecnologia, e ele informou-me que havia em França uma empresa que trabalhava na matéria.

Imediatamente providenciei para que o Ten Miguel Leitão, fosse a França tirar esse curso e industriei-o no sentido de obter a relação e custos para montarmos no DGMatTm um pequeno laboratório.

Ele foi, trouxe a relação e preços e foram adquiridos e montados no Depósito numa sala apropriada.

Esta tecnologia, que não existia em Portugal, exigia um desenhador para desenhar os circuitos impressos e um químico para executar os banhos a realizar.

Uma vez mais pusemos a tecnologia assim obtida ao serviço da industria electrónica nacional através de cursos gratuitos ministrados pelo Ten Leitão.

Foi nesse laboratório que foram construídas as placas de circuitos impressos do protótipo do computador português desenvolvido na Universidade de Coimbra, o Sinclair 1000.

 

LABORATÓRIO DE CIRCUITOS HIBRIDOS

Quando terminou o desenvolvimento do P/PRC–425, começou-se logo a pensar que haveria que desenvolver equipamentos portáteis para os escalões de pelotão.

Para tal haveria que miniaturizar os circuitos.

Segundo o TenCor Rodrigo Leitão, havia dois tipos de circuitos:

-Os circuitos integrados, que exigiam tecnologias e especializações que estavam fora das nossas possibilidades militares;

-Os circuitos híbridos, que embora exigindo 5 especialistas diferentes, um dos quais era de electrónica, tinham maior versatilidade de emprego que os integrados e muito mais baratos. Mesmo estando fora das nossas possibilidades, por via dos 4 especialistas que teriam de ser obtidos exteriormente, seria o melhor caminho a escolher.

A propósito, lembrou que o Prof Veiga Simão acabara de montar no campus do Lumiar o LNETI, sendo possível que estivesse interessado, em parceria connosco, lá montar um laboratório de circuitos híbridos.

Mandatei-o para, em meu nome, procurar falar com o Prof Veiga Simão, informando-o de que nos disponibilizávamos para assumir o encargo com os equipamentos, cabendo ao LNETI a disponibilidade das instalações e o fornecimento dos técnicos especialistas.

Ele concordou e à Arma de Transmissões coube o encargo, que o EME assumiu, no valor de cerca de 20.000 contos.

Esse laboratório, que ainda existe no actual INETI, foi, durante muito tempo, gerido por uma comissão de que fazia parte um membro da Arma de Tm, o primeiro dos quais foi o Cap Miguel Leitão, e nele a Arma de Tm tinha o direito de apenas pagar o valor de aquisição dos materiais que viessem a ser consumidos nos seus projectos.

E foi assim que se vieram a desenvolver, já depois de 1983, os equipamentos P/PRC-501 e o P/VRC-301.

Na sequência das negociações com o LNETI, o Prof Veiga Simão fez questão de me vir agradecer a nossa disponibilidade para a montagem do laboratório dos circuitos híbridos no LNETI e fez questão de que fosse recebido no Depósito de Linda-a-Velha que visitou com muito agrado e lá almoçou e firmou comigo o protocolo de cooperação.

 

REORGANIZAÇÃO DA CADEIA LOGISTICA 

RESTRUTURAÇÃO DO DEPÓSITO

Como tive ocasião de referir a propósito de ter sido colocado no Depósito em 1971, este era uma grande arrecadação de material, praticamente todo, ou quase todo, em avançado estado de obsolescência, mas que continuava a ser tratado com o cuidado e responsabilização, como se tratasse de um material valioso e essencial.

Pouco tempo depois de assumir as funções de Director da Arma, mandei o Cor Pinto Correia ao Depósito para o visitar e me apresentar as soluções que entendesse, para fazer dele um órgão logístico de base, dentro dos meus conceitos que havia explanado no trabalho que então escrevera sobre Logística de Tm.

O Pinto Correia  respondeu-me: “Só lhe vejo uma solução: Pegar-lhe o fogo e deixá-lo arder!”

Entendi-o.

Assim, telefonei ao Gen QMG, na altura já o Gen Lopes da Conceição, oriundo de Engenharia, contei-lhe a situação de Depósito, que era onde se guardavam equipamentos e material obsoletos, mas que continuavam a estar à carga com valores de património elevado, e que, se se fosse a cumprir a lei, jamais me desembaraçaria dos autos de incapacidade e dos concursos para venda dos materiais, alem de que, tais equipamentos, sendo de rádio, poderiam ainda estar em condições de operar e cair em mãos de pessoas perigosas

Por isso, pedia-lhe para me dar parecer favorável a uma proposta que lhe iria fazer para negociar a alienação, com a Siderurgia Nacional, para me ver livre dele .

Ele concordou e deu o desejado despacho.

A negociação foi feita da seguinte forma: a Siderurgia pagava-nos um valor, que seria igual ao custo do transporte e fundição desse material.

Saíram do Depósito 56 camiões de material. Dele ficou, por minha determinação e a pedido do Cor Bastos Moreira, 6 exemplares de cada equipamento, ou de outra natureza mas de Tm, destinados a museus a criar, e também, por sugestão do TenCor Rodrigo Leitão, os receptores do AN/GRC-9 pois, segundo ele, poderiam ainda vir a ter utilidade pela sua grande sensibilidade, selectividade  e fiabilidade.

A partir do esvaziamento dos edifícios do Depósito, foi possível criar:

– armazéns de sobressalentes com a armazenagem tipo SUC e de material de carga, uns e outros modernos;

– oficinas de 4º escalão de qualidade;

– e até, oficinas de algum 5º escalão, como de pintura de caixas dos rádios e para a recuperação e preparação de conjuntos de cablagens e de outros acessórios, no que passaram a ser empregues os militares de guarda e segurança fornecidos pela RML, depois de orientados pelos sargentos radiomontadores e por oficiais de Manutenção. Quem primeiro lançou esta actividade foi o TenCorMan Barroca da Cunha, ao tempo Sub-Director.

Também, para se implementar as actividades da Divisão de Estudos e Projectos, solicitou-se o projecto e construção, pelo SFOM, de um edifício de raiz no lugar das antigas oficinas – e que antes da ocupação daquele lugar pela a extinta 2ª Secção do DGME, haviam sido cavalariças da Bateria de Artilharia de Costa ali sedeada – projecto que seguiu as especificações que eu fixei, tomando como matriz as instalações de estudos e as de montagens experimentais do LNEC.

Por essa altura, coloquei no Depósito o CorEngTm Roquete Morujão, mas eng civil, que ali realizou um excelente trabalho, nomeadamente na recuperação das casernas, messe e refeitório, sala de oficias, sargentos e de praças e, principalmente, o asfaltamento da parada que assim garantiu, para além  da melhoria do piso, a anulação de um problema que se fazia sentir pelo prejuízo causado pelas poeiras nas reparações dos materiais delicados, como os rádios.

 

CADEIA LOGÍSTICA

Dentro dos conceitos doutrinários que havia mencionado no meu trabalho sobre a Logística de Transmissões, considerei que havia que montar, agora só na Metrópole e nas Ilhas Adjacentes, em cada RM e Cmd Territorial, um pequeno núcleo realizando o 3º escalão de manutenção para apoio directo às unidades, e o reabastecimento em sobressalentes necessários à execução do 2º escalão das unidades.

Assim, nasceram os Destacamentos do DGMatTm com um ou dois sargentos radiomontadores e os correspondentes ajudantes de mec radiomontadores.

Só que, para se garantir uma maior prontidão de resposta, foram dotados esses Destacamentos com um numero limitado de rádios de reserva, que serviam de volante da manutenção, os quais eram distribuídos às Unidades por troca directa com os que iam ficando avariados e que o radiomontador da unidade reconhecia que ultrapassava a sua capacidade local de reparação.

Esses mesmos Destacamentos, logo que a reparação fossem superiores às suas possibilidades ou devido à acumulação de avariados, iriam demorar mais de duas semanas, deviam enviar tal material para o Depósito, recebendo em troca directa um reparado. Cada um tinha pois o tempo de evacuação de 2 semanas.

Como o Depósito tinha de manter actualizado o registo do material em carga nas unidades, a mudança dos números de identificação dos equipamentos trocados tinha de ser comunicado imediatamente ao serviço do controlo de cargas, para permanente actualização das cargas das unidades. Estas cargas eram controladas periodicamente entre o Depósito e as Unidades.

 

ESTENDER A ACÇÃO DA ARMA DE TRANSMISSÕES ÀS FORÇAS DE SEGURANÇA

Para, a um tempo, satisfazer as necessidades evidenciadas pelos Comandantes das Forças de Segurança, que eram, respectivamente, a PSP, Guarda FISCAL e PSP, cujos Comandantes   eram Oficiais Generais do Exercito, e estender a acção da Arma àqueles importantes sistemas de comunicação, decidi colocar em cada uma dessas Forças, um oficial Engenheiro de Tm, um oficial do Quadro de Manutenção  e outro do Quadro de Exploração.

Foi uma medida acertada, pois se procurou enviar para lá oficiais de qualidade que muito dignificaram lá a sua Arma de origem e fizeram muito bom trabalho na valorização dos seus próprios sistemas com reflexo positivo na prontidão e fiabilidade de tais sistemas.

Além disso deu-se possibilidade, aos capitães de Tm, de assumirem funções de órgão independente e à sua responsabilidade, em permanente empenhamento, o que só experimentariam ao comandar uma Unidade, mas com menor responsabilidade, pela  importância e cobertura nacionais de qualquer desses corpos de segurança.

 

CRIAÇÃO  DE  UM  SISTEMA  INTEGRADO  DE TELECOMUNICAÇÕES DO   EXERCITO

Depois do 25 de Novembro em que à Força Aérea tivemos de recorrer para nos disponibilizar um canal, da sua dorsal em micro-ondas entre Lisboa e Cortegaça, logo pensei em solicitar, em regime permanente mas por tempo limitado, esse canal, enquanto nos não fosse possível montar um sistema próprio.

Tive grande dificuldade em que o CEMFA, ao tempo o General graduado Morais e Silva, aceitasse tal cedência com receio  de que a nossa entrada no seu sistema lhes reduzisse a segurança.

Porém, finalmente cedeu.

Este foi o alerta para a indispensabilidade de fazer o estudo e, logo que possível, fazer a montagem e exploração pelo STM de um sistema próprio, mas que seria estendido às Forças de Segurança, para o que deveriam  ser deixados os portais adequados.

Para fazer o estudo convidei: o Coronel Almeida Viana ainda nos CTT/TLP, justamente no pelouro das Telecomunicações; o TenCor Cruz Fernandes que estava no Regimento de Transmissões onde se encontrava a realizar um notável trabalho no projecto e montagem, ou recuperação, de redes telefónicas internas de dezenas de unidades por todo o país; e, finalmente, o Major Oliveira Gardete que suponho que estaria ainda nos CTT.

Este grupo de trabalho apresentou-me um primeiro estudo com vista a caracterizar o sistema e sugeriu que tomássemos em consideração os sistemas deste tipo em países da nossa dimensão e com uma forma territorial alongada.

Para ir ao encontro dessa proposta nomeei o TenCor Cruz Fernandes para se deslocar à Bélgica e à Noruega por saber que esses países tinham já sistemas integrados e forma adequada, embora a Noruega tivesse uma extensão longitudinal enorme, mas, por isso, ainda mais significativa.

O estudo ficou nas mãos do TenCor Cruz Fernandes que ainda levei aos Açores para estudar o sistema HF em tempo real, para garantir as ligações internas e ao Continente com alta prontidão e fiabilidade.

Na altura era comandante Militar dos Açores o Brigadeiro Oliveira Pinto, perante o qual o TenCor Cruz Fernandes fez a sua explanação, e que lhe deu, no final o seu apoio.

De regresso a Lisboa apresentei no EME a proposta para a aquisição e montagem dos equipamentos e antenas que garantiriam, de futuro excelentes comunicações para e entre as ilhas dos Açores, o qual foi aprovado pelo General Vice-Chefe do EME Lopes Alves por ausência do GenCEME, que era o General Garcia dos Santos.

Depois disto deixei de ser Director da Arma por ter sido nomeado sucessivamente QMG,  Comandante da Academia Militar e, finalmente, Inspector  Geral do Exercito, de onde passei à situação de reserva e desligado do serviço.

Contudo, mesmo afastado, contra a vontade, das Transmissões, eu ia-me mantendo a par do que por lá se passava, até porque, a pedido dos Comandantes do RTm, EMELm, e dos Directores do DGMTm e do Serviço de Informática, ia, uma vez por mês, às quartas feiras, almoçar nessas unidades e Serviço

Assim, acompanhei, “por ouvir dizer”, o notável trabalho realizado no RTm e no  STM pelo Cor Cruz Fernandes e, bem assim, a importante evolução do projecto e progressiva montagem do sistema que a ele se deve.

Soube depois que teriam surgido, a nível do EMGFA, algumas divergências com a DATm por via da integração dos três Ramos  num sistema único, mas creio que tudo terá terminado bem e quero crer que o actual sistema conjunto corresponderá às necessidades.

 

OUTROS ASSUNTOS QUE FORAM MOTIVO DA MINHA ACÇÃO NA ARMA DE TRANSMISSÕES

CRIAÇÃO DE CENTROS DE TRANSMISSÔES MONTADOS EM VIATURA E PREPARADOS PARA A AMEAÇA NUCLEAR

Desde a minha visita a Israel onde vira umas Forças Armadas permanentemente preparadas para a guerra, e visitei a respectiva Escola de Transmissões onde os centros de Tm estavam dotados de viaturas com todas as montagens já realizadas e com antenas telescópicas amarradas a essas viaturas, entendi que havia que enveredar por esse caminho.

Por outro lado, entendia que a construção das cabines tipo contentores (shelters) deveriam estar preparadas para garantir o isolamento dos equipamentos e pessoal contra o efeito EMP, que resultam de correntes de alta voltagem induzidas nos condutores eléctricos, destruindo equipamentos e pessoal operador, quando um engenho nuclear detona antes de chegar ao solo,  abrangendo uma área considerável.

Assim o TenCor Rodrigo Leitão, com a colaboração do Cap Moreira, projectaram as montagens a realizar em contentores, especialmente concebidos de acordo com documentação obtida sobre o assunto, que foram mandados construir nas OGMA.

Posteriormente, face à morosidade das OGMA e ao elevadíssimo preço pelo qual ficavam, foi decidido especificar os seus requisitos e procurar, no estrangeiro uma ou mais firmas especializadas e interessá-las na sua construção por firma portuguesa e em Portugal.

Sempre procurei utilizar o mesmo critério que utilizara com tanto êxito no desenvolvimento e construção dos P/PRC-425, para endogeneizar tecnologias e garantir, no futuro, o nosso próprio mercado a que recorrer.

Abriu-se concurso e foi feita a adjudicação a uma empresa, suponho que francesa, mas e através de uma firma metalomecânica Portuguesa, que passou a fabricá-las.

Havia cabines para feixes hertzianos, para centros de mensagens, para rádios com possibilidade de fazerem repetição, para centrais telefónicas, e, finalmente, para Comando.

Quando se pôs o problema da montagem das cabines de feixes, verificou-se que os FM-200, que adquiríramos em 1971 à AEG, estavam avariados e não havia em Portugal quem os soubesse reparar.

O TenCor Rodrigo Leitão ofereceu-se para os levar à Alemanha e, pessoalmente, os reparar na própria fábrica.

E assim sucedeu ficando, após mais esta notável realização do TenCor Leitão, perfeitamente reparados e operacionais.

 

MONTAGEM DE CENTROS DE  PROFISSIONALIZAÇÂO  EM  MECANICOS RADIOMONTADORES

Quando visitámos Israel, e na Escola de Transmissões, tomou-se conhecimento da existência de “kits” e de técnicas avançadas para fazer radiomontadores., mas alertaram-nos que, um técnico habilitado, teria de ter três anos de curso, sendo destes, dois  com as aulas teóricas constantemente intercaladas com manuseamento de aparelhos, pelo que, até as salas de aula, eram divididas ao meio por uma vidraça, sendo, um lado, para prática e o outro, para a leccionação teórica

Quando regressámos o TenCor Leitão, e a propósito de se estar dentro de pouco tempo a festejar o trigésimo  aniversário  da EMELm,  sugeriu que  se propusesse ao EME que os mancebos destinados a radiomontadores, fossem sempre incorporados por voluntariado, e  aos dezassete  anos.

Assim, eles estariam dois anos em aulas na Escola de Militar de Electromecânica  e, aos dezanove anos (dois anos depois), iriam para as unidades onde iriam encontrar os incorporados da sua incorporação, se esta tivesse sido por conscrição e não por voluntariado, onde ficariam um ano a praticar.

Seria uma excelente  alfobre de sargentos radiomontadores e de profissionais civis.

Assim, seria possível, que o Ministério do Trabalho lhes viesse a conferir a carteira profissional, quando eles passassem à disponibilidade,  além de se evitar o problema que existia, de as praças recém-entradas sem qualquer qualificação técnica,  concorressem à Escola de Sargentos do Exercito para sargentos radiomontadores e,   passados dois anos, viessem a  ser promovidos a sargentos do QP radiomontadores, com a mesma formação que as praças recrutadas para ajudantes de mecânico, que era justamente o que estava a suceder.

Fui pessoalmente, com o TenCor Leitão, pedir uma audiência ao ministro do Trabalho, Luís Morales, ao qual expusemos a ideia, que aceitou muito bem e ali deu logo instruções nesse sentido ao Instituto de Formação Profissional, na sua directa dependência.

Da conversa havida, surgiu a sugestão de criar, imediatamente, uma escola de profissionalização pilôto, que deveria ser o primeiro de 4 Centros a montar no país, podendo ser escolhida, para tal, a EMElm, que, se as Forças Armadas autorizassem lá a frequência por civis, poderia ela própria vir a constituir o primeiro dos 4 Centros, pois que já tinha uma longa experiência e prestígio nacional na formação desta especialização.

Assim, realizou-se uma visita do Ministro Luis Morales à EMElm, acompanhado pelo Director do Centro de Formação Profissional, e onde esteve também presente o CEMFA, ao tempo o Gen Melo Egídio, de quem dependia a EMElm, os quais ali assinaram um protocolo de cooperação, e até se cunhou uma medalha comemorativa.

Ali ficou assente que a DATm forneceria os equipamentos adquiridos a Israel, o EMGFA construiriam um edifício prefabricado, mas em betão, com as características exigidas e que eram diversas das instalações da Escola, e o Ministério do Trabalho forneceria o mobiliário.

Tudo isso se realizou conforme o que fora resolvido.

Ainda lá se realizou o curso de preparação dos instrutores e monitores, civis e militares, para a montagem desta nova técnica de ensino.

Porém, entretanto, o EME não promoveu a legislação de criação do voluntariado para as especialidades de mecânicos para a Arma de Tm e para o SMat, como se comprometera, pelo que este projecto morreu, até porque eu saí para o EME para as funções de QMG,

Os técnicos assim preparados, com o apoio de alguns dos militares, montaram, sob a égide do  Instituto de Formação Profissional,  uma escola privada na Pontinha, de seu nome CITEL,  dirigida por uma engenheira que já dirigira no Porto uma escola privada de formação e profissionalização em electrónica e robótica, e que, voluntariamente, se havia oferecido à DATm, para apoiar o nosso projecto, do qual acabara por ser uma extraordinária animadora, enquanto este durou, mas que foi continuar no Instituto de Formação Profissional.

Anos depois foi para a Alemanha valorizar-se ainda mais, lá casou, constituiu família e lá reside.

O que resta deste aliciante projecto militar é o edifício que actualmente serve para qualquer actividade logística indiferenciada do Centro Militar de Electrónica, herdeiro da EMElm.

A engenheira Maria João Filgueiras, ainda me escreve pelo Natal enviando-me os seus votos de Boas Festas e com pena de o projecto se não ter realizado..

E assim morreu um importantíssimo projecto, o qual  tanta falta fez e porventura continuará a fazer ao Exercito, que, agora, manda à CITEL fazer estágios aos seus técnicos militares de electrónica.

 

VALORIZAÇÃO DOS OFICIAIS ENGENHEIROS DE TRANSMISSÕES

Numa segunda-feira de 1981 o TenCor Rodrigo Leitão chegou à DATm e contou-me que um membro do Conselho de Administração dos CTT/TLP, seu amigo e que vivia, como ele em S.Pedro do Estoril, estivera com ele naquele fim de semana e lhe oferecera uma vaga no Curso que os CTT iriam financiar.

Este curso a realizar pelo INESC (Instituto Nacional de Engenharia de Sistemas e Computadores) de que os CTT eram sócios fundadores, seria financiado pelos CTT/TLP, e seria designado, justamente, por Curso de Engenharia de Sistemas e Computadores, que seria classificado como um curso de mestrado para engenheiros electrotécnicos, já com longa formação e provas dadas.

Ele não aceitara porque ainda estava muito envolvido no P/PRC-425.

Fiquei com pena e fui logo telefonar  ao Presidente dos CTT/TLP que fora meu colega no Liceu, e pedi-lhe para me reservar duas vagas no curso, mas sem quaisquer encargos.

Ele fez-me a vontade e então eu entrei a convidar oficiais, pela informação que me deram sobre os mais preparados.

Devo acrescentar que o oficial no qual mais apostava foi o TenCor Figueira, oficial famosíssimo na Arma pela sua preparação técnica e capacidade.

Ele, chamado à minha presença, informou-me que não aceitava porque era um grave risco que corria a sua carreira, pois quem lá fosse ir-se-ia defrontar com professores do IST  teoricamente muito preparados.

Todavia se o quisesse nomear desde que com 6 meses de antecedência, fosse para o que fosse, estaria pronto.

Desolado, recorri aos meus conhecimentos próprios e alguns palpites, e assim chamei dois oficiais, respectivamente o Major Carlos Alves que tinha a alcunha, desde a AM, de “Einsteinezinho”, e o Cap Diniz da Costa por me terem na altura dito que ele estaria interessado e que era mais antigo que o Cap Guerreiro Rodrigues, que era a minha opção seguinte, por o ver constantemente a estudar lá na DATm, o que afinal não correspondia à realidade pois ele era efectivamente o mais antigo dos dois.

Deste lamentável lapso, peço ainda hoje desculpa ao Ten General Guerreiro Rodrigues.

Chamei os dois, o Maj Carlos Alves e o Cap Diniz da Costa ao meu gabinete e, tive, ainda assim, grande dificuldade em os convencer, pelas razões apontadas pelo Figueira.

Só depois de o Cor Pedroso Lima com eles conversar e perante a minha promessa de que o seu eventual e compreensível fracasso não pesaria na sua carreira e, pelo contrário, a sua aceitação, seria tomada por uma acção de alto risco em prol da Arma, eles lá aceitaram.

Logo no primeira reunião do Conselho da Arma, contei o que se passara, e mandei que ficasse exarado em acta que a DATm nomeara, com pronta aceitação, para a missão de alto risco para as suas futuras apreciações, aqueles dois oficiais, os quais, em caso de fracasso, o que seria natural, não poderia tal facto pesar em suas futuras apreciações.

Antes de partirem, fixei-lhes a seguinte missão:

Quando tivessem de fazer, como trabalho de aplicação dos conhecimentos adquiridos, um protótipo, eles deveriam, os dois e em conjunto, escolher uma central digital de 100 direcções.

Expliquei-lhes que desejaria dotar o STM de um centro de estudos e projectos na área hardware de equipamentos para, posteriormente, podermos colaborar com a industria civil no desenvolvimento desses equipamentos.

Os dois oficiais, que tiveram inicialmente grandes dificuldades em acompanhar o curso, acabaram por ficar muito bem classificados a ponto de o director do curso, Prof José Tribolet me ter insistentemente pedido para lhos ceder para o INESC.

Já em 1983, soube que, também pelo INESC, iria ser feito um curso análogo no Porto, sob direcção do Reitor da Universidade local.

Entrei em contacto com ele e solicitei-lhe que reservasse dois lugares para a Arma de Tm do Exercito.

Respondeu-me que tal só seria possível se pagasse 200.000 escudos por cada inscrição.

Respondi-lhe que não seria possível, até porque não dispúnhamos de tal verba.

Passados alguns dias o Reitor da Universidade do Porto telefonou-me solicitando os meus bons ofícios no sentido de que, dois dos seus professores assistentes, teriam de abandonar projectos importantíssimos por terem sido chamados para o serviço militar, fossem dispensados de o fazer e, se tal fosse possível, talvez fosse possível reconsiderar o meu pedido de inscrição de 2 oficiais.

No dia imediato, depois de me informar no EME, respondi ao senhor Reitor, de que deveria fazer o seu pedido/requerimento por escrito ao seu Ministro da Educação, o qual o iria encaminhar  para o Ministro da Defesa, o qual, por seu turno, o remeteria ao EME que o apoiaria, e o problema iria depois em sentido contrário para o Ministério da Defesa com o parecer do EME, e este deferiria tal requerimento.

E foi assim que fiz integrar os Majores Dário Carreira e Daniel Ferreira no curso do INESC do Porto, onde, depois de um período muito difícil e também com a promessa de eu providenciar para que nada sofressem com o eventual fracasso, ambos tiveram êxito a ponto de passarem a dar aulas na própria Faculdade de Engenharia.

A esses dei como missão de, no seu trabalho de curso, que procurassem realizar um sistema computorizado de Comando Coordenação e Controlo de Transmissões, pois era minha intenção fazer da EPTm um centro de desenvolvimento de software, para, logo que possível, dotar os Comandos de GU e PU de sistemas de comando em tempo real.

Foi a partir dos seus trabalhos, principalmente do actual Maj General Dário Carreira, que surgiu o VIGREST (Visualização Gráfica e Estudos do Terreno), e os sistemas de Comando, e de Controlo de Comunicações, de Informações, de Logística  e  ainda de Pessoal, Material  e Ordens de Batalha.

Os primeiros trabalhos realizados na EPTm pelos dois oficiais, após o curso do INESC,  permitiram criar um escol de técnicos de software de tal forma que, nos grupos de trabalho da NATO em que os portugueses tomam parte nesses desenvolvimentos, foi a Portugal que coube a direcção desses projectos lá em curso.

Actualmente a EPTm, agora situada no Quartel do Viso, antigo RIP, tem cursos por via da INTRANET militar, com instruendos nas respectivas unidades, sem terem necessidade de presença física, ao mesmo tempo que mantém os cursos tradicionais que implicam formação, na própria Escola.

Todos os meses ela publica uma Newsletter, que envia aos antigos e actuais responsáveis pelas Tm, onde comunica o trabalho realizado e em curso, bem como as actividades levadas a cabo no mês decorrido.

Como me coube a mim colocar a EPTm no Porto, exactamente para a afastar do STM que, pela  sua exigência de imediata necessidade de intervenção, estava a impedir que a parte escolar realizasse um trabalho aceitável e dignificante, hoje sinto-me muito feliz por o ter feito.

A qualidade de Gestão e a dinâmica de valorização dos próprios militares, com a preparação para o 9º e 12º anos de escolaridade dentro da própria Escola, levaram já a que, num concurso promovido a nível nacional pelo Diário Económico, nas Instituições Publicas, e a que concorreram universidades, como a de Coimbra, entre cerca de trezentos concorrentes, foi a EPTm que recebeu uma menção honrosa à frente de todos os outros, numa cerimónia realizada no RITZ em Lisboa, a que assistiram cerca de 250 representantes de organismos entre os quais a Fundação Calouste Gulbenkian.

Ainda na preocupação de incentivar os engenheiros da Arma a evoluírem técnica e tecnologicamente, preparei um projecto de concurso de inovação técnica a apreciar pelo Ministério da Indústria, tendo chegado a enviar, ao então Ministro da Industria, professor Baião Horta – que antes fora um notável Ministro da Defesa por acumulação- um projecto de tal concurso, para o qual pedia apoio pecuniário para os prémios a atribuir.

Ainda cheguei a falar-lhe pessoalmente no assunto.

Infelizmente nessa altura ele foi substituído pelo Prof Veiga Simão e eu próprio parti para o EME, pelo que tudo morreu.

 

REALIZAÇÃO ANUAL DAS SEMANAS DA ARMA

A partir de 1979, tive a ideia de aproveitar a data festiva da Arma em 24 de Março (por ser o dia de S.Gabriel, o patrono da Arma), para realizar um período de apresentação do trabalho realizado, face ao que ficara previsto para o ano decorrido.

Além disso, fazer a apresentação, pelos militares da Arma (oficiais e sargentos), de novos trabalhos, no sentido de se procurarem interessar, nas área técnica e táctica, os oficiais que, pelo seu trabalho em curso, poderiam difundir os conhecimentos recolhidos, e aqueles que, afastados em missões fora da Arma, tivessem a possibilidade de se informarem sobre o que se estava a realizar e apresentarem, por seu turno, novos conhecimentos e ideias de utilidade para todos.

Devo confessar que a ideia de fazer o ponto de situação, resultou de conversas havidas com o meu braço direito na condução da Arma, que foi o Coronel Pedroso Lima, o qual defendia a necessidade de “trabalhar por objectivos”.

Quando aprovei a ideia, o Cor Pedroso Lima, passou a ser o grande dinamizador da realização das Semanas da Arma, não só na difusão da ideia em participarem nessa actividade pela apresentação de comunicações, mas também na recolha e na elaboração dos artigos a entregar.

Em todas as Semanas da Arma, que se começaram por se realizar no quartel de Sapadores, mas depois passou para a EPTM, então ainda instalada no quartel do Bom Pastor no Porto, cabia-me, a mim, prestar publicamente conta do que fora realizado face ao que havia sido determinado ou por nós previsto e que contara em directivas da DATm do ano anterior, e, bem assim, as razões do seu eventual não cumprimento, para, em seguida, enunciar para a Arma, como um  todo, o que deveria ser feito no ano que ali se iniciava e, Unidade e Órgão, um por um, o que teria de estar realizado no Dia da Arma do ano seguinte.

Foi uma tarefa que colheu assinalável êxito.

A titulo de exemplo, recordo que, logo na primeira Semana da Arma, ainda em Sapadores, a qual coincidiu com a do ano em que o General Garcia dos Santos foi nomeado CEME,  essa vinda ao dia festivo da sua Arma e à sua única Unidade de colocação no continente, correspondeu à primeira visita oficial a unidades desde a sua tomada de posse.

Quando, na parte da cerimónia de encerramento, apresentei à assembleia (onde se encontrava o Comendador Rocha de Matos Presidente da AIP e Presidente da CENTREL que ainda nos estava a realizar o P/PRC-425) as minhas explicações sobre o que se não cumprira e as missões da Arma e as das unidades e órgãos, em sequência, o General Garcia dos Santos, falou congratulando-se com o que se estava a realizar mas acusando a Arma de viver muito voltada para si própria e não cuidar dos problemas de Tm nas outras Armas.

Esta acusação era profundamente injusta pois tudo o que a Arma de Tm estava a fazer, nomeadamente no desenvolvimento e construção da série 425, era justamente para servir as Unidades das Armas nas suas Tm internas.

Senti-me tão magoado quando no dia seguinte me apercebi da extensão e profundidade da crítica, que estava mesmo disposto a escrever uma nota dirigida ao CEME rebatendo a justiça das suas palavras, mas o Cor Pedroso Lima dissuadiu-me de o fazer sugerindo-me que, para rebater correctamente tais acusações, usássemos a Semana da Arma do ano imediato para trabalharmos com todas as Armas e Serviços demonstrando a aplicação, nas suas redes típicas, da nova série de rádios, desde o rádio-base que era o P/PRC-425, até às versões veiculares e de solo e suas composições de entrada em duas redes e de actuarem como repetidores.

Assim se fez, tendo-se solicitado a presença, em cada dia da Semana da Arma, de oficiais de Tm e de representantes das respectivas Armas, para lhes demonstrar a utilização de cada tipo de rádio nas diversas redes típicas que teriam de equipar e guarnecer em campanha, o que decorreu com grande êxito.

Tudo isso foi materializado, no próprio dia da Arma com uma exposição dos equipamentos e as necessárias explicações em cada caso, seguida de uma demonstração de funcionamento em rede, com postos em viaturas e no solo, estes em tendas instaladas no terreno, uns e outros com redes  de camuflagem e os operadores equipados como em campanha.

Foi uma grande jornada que dignificou o esforço feito pela Arma desde o desenvolvimento dos materiais, até à sua aplicabilidade em campanha.

 

REVISÃO DOS CURRICULA DOS OFICIAIS DE TRANSMISSÕES ORIUNDOS DA ACADEMIA MILITAR

Ao longo de toda a minha carreira militar, especialmente quando tive oportunidade de contactar com outros Exércitos, como nos EUA, quando eu era ainda um tenente de formação recente, sempre me pareceu incorrecto que se impusesse a todos os oficiais da Arma de Engenharia, um curriculum de engenheiros civis, para, na vida prática como oficiais, a maioria esmagadora desses oficiais não terem oportunidade de, na sua actividade militar, exercer a actividade de engenheiro.

Além disso, a incongruência ainda maior surgia quando, a Arma de Engenharia, tinha a seu cargo as Transmissões, cuja tecnologia científica, além de não exigir senão um relativamente pequeno grupo de engenheiros, nada tinha que ver com o curriculum de engenheiro civil.

Tive, no meu curso americano, que de facto começava por ser um minicurso de Estado Maior, vários professores que, em Portugal, teriam que ser licenciados nas suas áreas, tais como de Transmissões, Engenharia, Serviço de Saúde e  Serviço de Material.

Pois bem nenhum deles era Engenheiro, médico, veterinário ou farmacêutico.

Mas, em cada uma das Armas ou Serviços, havia o Corpo especialista, esse sim, com os licenciados  adequados.

Por outro lado, ao longo de toda a minha vida militar, nunca me foi atribuída uma função onde fosse necessário ser engenheiro civil.

Esse trauma acompanhou a minha vida militar a ponto de, embora me sentisse muito feliz a trabalhar no “glorioso” Btm3, e com uma excelente qualidade de vida para mim e para a minha família crescente, que Tancos me proporcionava, tive, a certa altura, de concorrer à AM para ministrar uma cadeira, para eu estava efectivamente muito bem preparado, e que tinha por nome ORGANIZAÇÃO, TACTICA E SERVIÇOS DE TRANSMISSÔES,  arrostando, por isso, com enormes dificuldades para me instalar e viver em Lisboa, mas sempre  com o medo de cristalizar e de me tornar incapaz de me vir a realizar como engenheiro.

Assim, achei sempre que a forma mais correcta seria que aos oficiais de Transmissões fosse ministrada uma fase propedêutica idêntica à dos Engenheiros electrotécnicos, mas, na fase de especialização, se ministrasse uma preparação eminentemente prática para o os tipos, características  e emprego de materiais e de equipamentos, cálculo e montagem de antenas, organização e gestão de redes  por fio, cabo e de rádio, e regulamentação da exploração dessas redes.

Posteriormente, já depois do Tirocínio, e fixado o número estudado para as necessidades em engenheiros, seriam convidados para irem completar a licenciatura, os interessados mais qualificados.

Esses seriam apenas os destinados a guarnecer centros de estudo e de desenvolvimento de materiais e técnicas, especialmente nos órgãos logísticos de manutenção de material de Tm,  guarnecer as secções de carácter técnico do STM, a servirem – a nível de cada comando de Grandes Unidades, tipo Divisão, e em cada Região Militar – como conselheiros técnicos dos respectivos Comandantes e de apoio ocasional às necessidades das Unidades dessas GU ou Regiões.

Esta formação de licenciatura não alteraria a sua posição nos respectivos quadros nem constituiriam um novo quadro pois, todos, sem excepção, deveriam cumprir os mesmos cursos de formação e condições de promoção para que, no final, tivessem as mesmas oportunidades de carreira de acesso a escalões menos ligados à técnica.

O que se tratava era de uma especialização para efeito de colocação e mobilização até a coronel.

Antes de terminar a minha passagem pela Arma de Transmissões, convoquei uma Comissão de Oficiais ( parte do Conselho da Arma) mas alargada por forma a integrar, para além dos oficiais votados para essa Comissão, ainda os oficiais oriundos da Escola do Exército / Academia  Militar, de maior prestígio da Arma, tais como o General Garcia dos Santos, Almeida Viana, Oliveira Pinto, Mateus da Silva, etc.

Puz-lhes o problema, solicitando-lhes que propusessem soluções para as incongruências que havia entre a formação e a aplicação dos oficiais na vida prática, tendo como consequências previsíveis as de, na maioria dos casos, por falta de aplicação das suas competências, se degradarem as aptidões e se criarem complexos nos não utilizados de acordo com as suas presumíveis competências.

Foram apresentadas 8 hipóteses, cada uma com mais do que um defensor.

Foi dado a cada um dos proponentes a oportunidade que a expusesse e a defendesse.

No final foi aprovada por consenso a que apresento acima.

Feita a proposta ao EME essa solução foi aprovada, não apenas para as Tm mas também, para o Serviço de Material, também interessado no mesmo sistema de formação.

A Arma de Engenharia, fiel à sua opção elitista, não aceitou a mudança.

Assim, foi alterada na AM a composição curricular,  para os alunos de Transmissões, e, durante vários anos, ainda subsistiu este regime.

Mas:

– por via das preocupações da grande maioria dos tirocinantes em continuarem, desde logo e a título privado, a sua formação na Faculdade de Engenharia  do Porto o que criava problemas na EPTm sem qualquer razão, porque tal só deveria passar-se, se é que haveria que se passar, e só após haver a decisão do numero que se estimava como necessário, os quais iriam, com prejuízo do serviço,  realizar tal formação;

– porque se criou a ideia errada, que tal iria obrigar a criar um 4º quadro orgânico dentro da Arma, o que era falso, porque se tratava apenas de uma especialização, tal como  os médicos se classificam consoante as suas especializações mas não deixam de ser médicos com a mesma categoria dos que ficaram a exercer  como generalistas.

Apenas são nomeados, de preferência, para o exercício da sua especialização, se a tiver.

– e, vamos lá, por um lamentável elitismo de, cada oficial de Transmissões, ser sempre um engenheiro;

fizeram cair o sistema curricular adoptado, e o meu prestígio, por tal facto, caiu consideravelmente.

Noto com frequência quando, a propósito desse assunto, se fala nele na minha presença,  que se nota alguma perturbação, como se  se tratasse de uma lamentável inconveniência.

Porém eu, sem entrar em debate sobre o assunto,  sempre digo que não há problema, porque não estou arrependido e continuo a pensar como quando, por meu intermédio, foi adoptado tal sistema.

 

CONCLUSÕES

Não foi como desculpa prévia, a que eu no início referi,  de que me era muito penoso ter de descrever e escrever sobre factos em que tenha tido, eu próprio, alguma intervenção, e, principalmente, se tal intervenção tivesse tido algum mérito.

É um facto que  muito me custou ter de o iniciar, mas entendi que a minha actuação e o que os outros pensem sobre as minhas intenções, seriam despiciendos em relação à vantagem em produzir descrições exactas de, como e porquê, as coisas se passaram, isto enquanto, neste meu fim de vida, ainda conservo – sabe-se lá por quanto tempo ainda – a minha memória elefantina.

Mas acabei por ter um prazer enorme em recordar a nossa luta por uma Arma mais válida, e ainda me chegou o perfume inebriante daqueles sonhos que, não apenas eu mas também um considerável grupo de nós, alimentámos e que, na maioria dos casos, levámos até à sua realização.

Acho que, com mérito sempre discutível, este trabalho poderá constituir uma fonte do maior interesse para um autentico historiador que queira continuar a história das Transmissões em Portugal,  nele descobrindo e respigando algo de válido de quanto foi feito, como e porquê foi feito, completando as ligeiras referências que lhes fizemos já no volume publicado.

Também, a experiência vivida por mim, poderá ser uma fonte de aprendizagem pelo que de bom se terá feito mas também pelos erros cometidos.

Que este trabalho seja útil é afinal o meu mais profundo desejo

Lisboa 23 de Fevereiro de 2009

António Avelino Pereira Pinto
Tenente General

6 comentários a “TGen Pereira Pinto

  1. Eu era Furriel Miliciano e estava a comandar o Radio Telefone do STM em Nampula em 1970 no QG . Por indicação directa do General Kaulza, que conhecia o meu trabalho a chefiar o RadioTelefone em LM desde 1967 e da minha colaboração com vários alferes engenheiros entre os quais o Capitão Alcides de Oliveira na montagem de uma Antena Retransmissora para Timor , da execução de uma rede radio para transmissão de mensagens em telex etc etc ,, fui ( indevidamente ) no,primeiro avião do COFI que foi para Mueda. Foi montado o posto do STM em casa do administrador do Concelho , ausente em Portugal,
    Os rádios colocados à nossa disposição entre os quais um americano semelhante aos usados no Vietnam com um alcance incrível ,eram muito temperamentais e deram muitos sustos. Basicamente o que acima está escrito está certo.
    Comentários pessoais sobre este aquele eu dispenso. Era miliciano e como sou honrado tenho mantido silêncio sobre tudo o que ouvi durante 4 anos numa área sensível. Fico triste é com alguns desvios a verdade .
    Já agora tive um louvor individual do General Kaulza ainda em Lm pelo meu trabalho no Radiotelefone a quem dediquei quase 24 horas por dia sete dias por semana porque era muito motivador trabalhar com oficiais engenheiros de grande gabarito. Fui o primeiro classificado do meu curso e não segui o curso de oficiais porque ……. não quis . Uma estória !

  2. Sendo oficial de Marinha e advogado, apreciei imenso e fiquei emocionado pelas palavras inspiradas numa ternura filial que aqui deixou a minha Exmª Colega e Amiga, a distinta Advogada Ana Maria Pereira Pinto.

  3. Exmo Senhor General

    Acabei só agora, quase a fazer 3 anos sobre a partida do meu pai, de ler a publicação das suas Memórias que os senhores tiveram a amabilidade de fazer publicar, o que naturalmente em seu nome muito agradeço, não por uma questão de querer ver o endeusamento de uma pessoa que me é querida, pois que naturalmente de humana teve defeitos e virtudes, mas porque realmente considero útil, talvez até mais que buscar a perspectiva histórica que das suas Memórias possa resultar – e que foi o que o levou a escrevê-las – transmitir a sua filosofia de vida que delas ressalta de que sem descurar a nossa carreira, é importante lutar por aquilo em que acreditamos e apostar nos outros, ainda que estes possam nunca vir a entendê-lo e a agradecê-lo.

    Muitas das situações que aqui vi por ele descritas acompanhei desde pequena nos bastidores familiares, pois o meu pai tinha o hábito de “levar para casa” os seus problemas diários, expondo em família a sua forma de ver e resolver os mesmos, assim nos fazendo a nós família, deles partilhar.
    Foi assim que, ao longo da nossa vida, todas nós filhas, viemos a tirar benefício quando defrontadas com algumas situações profissionais e pessoais delicadas que com tal bagagem soubemos ultrapassar.

    Na verdade algumas dessas situações, dada a tecnicidade dos seus problemas, nem eu nem as minhas irmãs, na altura tínhamos capacidade para perceber o seu concreto alcance, contudo não deixámos de retirar e aprender as lições de vida e da sua forma de relacionamento com terceiros que elas nos transmitiram.

    Posso mesmo dizer que, apesar de, desde pequena ter por ele sido ensinada a respeitar todas as pessoas, tivessem estas a posição sócio económico ou profissional que tivessem, não deixei de me surpreender e comover, quando durante a recta final da sua vida, encontrando-se já internado no Hospital Militar, ele era frequentemente visitado por um antigo empregado de mesa da Academia Militar que tendo sabido do seu internamento, considerava uma obrigação sua visitá-lo.
    Tais visitas ocorriam com alguma frequência durante os dois meses em que ele ali se encontrou, alternando a sua presença com a família e os oficiais generais seus colegas e amigos de juventude e outros amigos que também ali ocorriam para o distrair e conversar, facto que o meu pai, embora não gostasse que o vissem tão debilitado, intimamente muito apreciava e me parece demonstrar bem como as pessoas com quem ao longo da vida interagiu, entenderam o grande respeito que por elas sempre teve e se prontificavam a retribuir de alguma forma.

    Deixe-me que lhe diga que gostei particularmente da sua visão sobre a importância que ele dava ao
    Sonho a qual erradamente não é conectada com uma visão castrense.

    De facto, uma característica que o meu pai promovia era tentar “estar na hora certa” na encruzilhada da vida profissional de alguém, facilitando-lhe o “voo” em prol não só da própria pessoa em causa, mas também do exército e da sociedade civil, tendo o dom inato de ver em nós capacidades e virtualidades que nós próprios desconhecíamos e dando-nos o incentivo para que elas desabrochassem.

    Sem ter uma visão ingénua sobre as pessoas com quem se relacionava, via nos outros, amigos, independentemente da gradação da amizade, sendo-lhe tal visão normalmente retribuída, daí que tivesse fácil relacionamento com todos os sectores da sociedade civis e militares, o que lhe permitiu maior facilidade empenhar as pessoas no objectivos comuns a que se propunha.

    Recordo-me bem a título de exemplo, uma vez nos idos de 80, ter entrado de braço dado com ele numa recepção da embaixada da Áustria no Hotel Sheraton, onde à nossa chegada e após os nossos cumprimentos formais aos anfitriões, as pessoas que se apinhavam dispersas á volta de uma enorme mesa que se encontrava a um canto, onde se servia um buffet frio, começaram a dirigir-se-lhe uma a uma e não mais de cinco minutos depois o meu pai e eu ficamos rodeados no centro da sala no meio de uma multidão alegre e efusiva, de pessoas – algumas conhecidas outras desconhecidas – com as histórias que no entretanto eram contadas pelo meu pai, só tendo dispersado para a saída quando ele resolveu que também estava na hora de sair.

    É verdade o meu pai sonhava, vivia os seus sonhos e admirava os que sabiam sonhar, considerando missão sua (tinha um espírito de missão muito arreigado) promover o sonho, pois para ele “o sonho comandava a vida”, tal como diz António Gedeão no seu poema que ele tanto apreciava.

    Considerava ele, e vejo que não se enganou ao ler algumas das memórias das pessoas com quem interagiu – nomeadamente as do sr. Cor Rodrigo Leitão, pessoa com quem, anos mais tarde, eu própria, como advogada, vim a ter pontualmente contactos profissionais – que um bom chefe não era aquele que se aproveitava do trabalho dos subordinados, mas aquele que cumpria a sua obrigação de lhes dar as oportunidades de que eles necessitavam para crescerem e melhorarem a sociedade, o exercito e o país , assim se fazendo respeitar.

    Aprendi também com ele de pequenina, que a vida dá muitas voltas e que o rancor e o desejo de vingançazinha só nos faz “pequenos”, amarrando-nos a um passado triste onde alguma coisa não correu bem e impedindo-nos de abrir as asas para sonhar e avançar com vistas largas para o futuro, daí que uma das expressões mais fortes que ele utilizava – e de resto utiliza nas suas Memórias- fosse “ficar sentido”.

    Por mero acaso, vim a constatar várias vezes por conta própria, e sem a sua interferência, que esta sua visão estava correcta.

    De facto apercebi-me que ao longo da sua vida, que esta lhe tinha posto no caminho oportunidades de révanche que, ao serem por ele rejeitadas, não só lhe permitiram dar hipóteses a quem, eventualmente vitima das circunstâncias no passado, pudesse ter dado um passo em falso, vir a demonstrar o seu real valor sem qualquer deslustre, como tal rejeição lhe permitiu avançar pessoal e profissionalmente, alcançando êxitos para o exército, para a sociedade civil e para o país que de outra forma, tenho a certeza, nunca teriam ocorrido.
    Bem entendido todas estas lições foram sendo sempre facultadas com aquele seu colorido sentido de humor e entusiasmo que todos os que com ele privámos lhe conhecíamos e que nunca perdeu.

    Mais uma vez apresento os meus agradecimentos por ao recordá-lo aqui me terem permitido voltar alguns anos atrás e sentir-me mais uma vez tão próxima dele, sentindo a sua alegria contagiante, bem como o imenso orgulho que tenho nele.

    Com os meus cumprimentos

    Ana Maria Pereira Pinto

    Post Scriptum

    Peço desculpa aos utilizadores deste blogue por tê-lo ocupado com a esta minha visão necessariamente facciosa, mas que é a minha, tendo-me sido sugerido no entanto que o fizesse para que pudesse de alguma forma dar uma outra visão da pessoa que todos conheceram.

    • A auspiciosa estreia, como comentadora deste blogue, da Dr.ª Ana Maria, filha do general Pereira Pinto, merece uma referência muito especial, pois mostra à saciedade que herdou algumas das qualidades do seu Pai e que há toda a vantagem, para este Blogue, em minha opinião, que a sua colaboração não fique por aqui.
      Para mim a valorização do Blogue pela sua intervenção, naturalmente ligada às caraterísticas pessoais do nosso general, resulta de trazer a perspetiva de um famíliar num Blogue onde predominam as intervenções de militares e sobre aspetos técnicos ou equipamentos de transmissões.
      Dou como certo que o general Pereira Pinto teria gostado de perceber que a filha o recorda como um sonhador que lutou denodadamente para concretizar os seus sonhos, o que em muitos conseguiu como no caso da reorganização da Arma, que soube apreciar e apoiar os sonhos dos jovens criativos como o então major Rodrigo Leitão e teve o condão de não ser revanchista em relação aos que o prejudicaram.
      O general Pereira Pinto não conheceu este Blogue que só surgiu dois anos após o seu falecimento. Mas não tenho dúvidas que, se pudesse, nele participaria com o seu proverbial entusiasmo pela projeção da Arma. Julgo que também gostaria de ver a filha continuar a sua carreira de comentarista agora iniciada.
      Vamos a ver se eu consigo dar uma ajuda.
      Em primeiro lugar convém acentuar que há três trabalhos do general Pereira Pinto que não estão publicados no Blogue, e que, em meu entender, só havia vantagem, pelo seu interesse, que, logo que possível, o fossem. Estão nesse caso dois textos de Memórias que serviram de base de trabalho para o livro publicado pela CHT, bem como um trabalho sobre a Guerra Colonial, essencial também para a elaboração do texto final do livro.
      Julgo que se não encontrar outra oportunidade para intervir neste Blogue, julgo que será praticamente obrigatório termos oportunidade de ler os comentários da Dr.ª Ana Maria aos documentos citados, logo que publicados no Blogue , o que desde já agradecemos.

  4. Embora considere que, pela sua irrelevância, o episódio referido ao 11 de Março era perfeitamente dispensável a sua inclusão no trabalho do TGen Pereira Pinto e ainda menos neste Blogue, julgo que o comentário do coronel Praça é significativo e suscita-me as seguintes consi derações,

    O comentário do Praça é de grande expontaneidade e sinceridade. O General Pereira Pinto merece-lhe a maior considerção e transparece a sua gratideão pela imensa obra que deixou e a que chamou revolucionária.

    Tive ocasião de verificar que essa gratidão existia quando a CHT, quase em peso, elaborou o panegirico do TGen Pereira Pinto publicado na Almenara do ano passado e que consta nos documentos deste Blogue.

    De cetrto que obra do General Pereira Pinto foi imensa, mas talvez não tenha sido ainda devidamente salientado que a sua maior visrtude talvez tenha sido a confiança que depositou nos seus subordianados, mesmo aos mais jovens. Deixou-os sonhar, ter ideias novas e depois, de alma e coração ajudou-os a concretizar os seus sonhos, Não conheço nenhum chefe militar que tenha arriscado tanto e se tenha saído tão bem com essa atitude..

    A esta Comissão de História pertencem mais de meia dúzia de oficiais, a quem a generosidade e visão do TGen Pereira Pinto permitiu que aspirassem voar e, com a sua sempre presente ajuda, o conseguissem fazer. Desse enorme conjunto de “sonhadores triunfantes” o testemunho mais impressionante desta gratidão, que até agora surgiu, foi o do TCor Rodrigo Leitão o “pai do rádio português”, que infelizmente parece ter passado despercebido, dado que apenas suscitou um comentário. Julgo que perante um post com o nível do que apresentou o TCor Rodrigo Leitão, o exemplo doTGen Pereira Pinto, sempre pronto a apoiar uma inicioativa, impõe que se lhe dê outra atenção.

    Outro ponto que me interessa sublinhar é que estas “Memórias” do TGen Pereira Pinto, para além de outros trabalhos que elaborou, nomeadamente sobre as Transmissões na Guerra Coloonial, foram, no fim de contas, a grande base documenal que permitiu a elaboração do livro “As Transmissões Militares da Guerra Peninsular ao 25 de Abril”. Sem esse contributo o livro só poderia ter saído vários anos depois.

    Quanto a mim hã vários trabalhos de Memórias do TGen Pereira Pnto que ainda falta publicar e que vou tentar encontrar em formato digital, o que facilitaria a sua incluusão no Blogue, como sucedeu com este.

  5. O Sr. General António Avelino Pereira Pinto teve o valor de organizar os sistemas de telecomunicações e a sua orgânica, colocá-los em prática e de motivar os seus homens para a realização do fundamental, no âmbito da Arma de Transmissões.
    Era um Oficial General do Planeamento e da Acção! Quando colocava um Oficial na missão que lhe destinava, tinha perfeito conhecimento das suas capacidades.

    Este seu testemunho sobre o comportamento do Sarg. Gil do STM da RMN agudiza a curiosidade, porque não foi visto a 25ABR74 no QG/RMN, uma vez que era, do antecedente, o Chefe do STM da RMN.

    Paz à Alma do nosso General, que revolucionou a Arma de Transmissões, acompanhado por excelentes Oficiais. Pode afirmar-se que revolucionaram as Telecomunicações Militares!

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