TCor Rodrigo Leitão

 

MEMÓRIAS DE  1974  A  1983

  

Quisera que o exército se
reduzisse unicamente aos
corpos científicos
Prosas-Antero de Quental

 

PREFÁCIO

Começo estas memórias em Março de 1974 quando me apresentei no DGMT aonde fui colocado após ter regressado de Angola depois de uma comissão de 4 anos no ATMA. A minha vontade era passar à reserva, pois estava desiludido com a situação nas FA. Nos finais de 1973 tinha participado nas reuniões do que veio a ser chamado o Movimento dos Capitães e, numa delas, todos os presentes assinaram um requerimento, em papel selado, para a passagem à reserva em forma de contestação. Por outro lado, queria continuar a dedicar-me à área técnica, como tinha feito desde o fim do tirocínio, primeiro no STM e depois em Angola. Tendo sido colocado em Linda-a-Velha (sabe-se lá porquê) as minhas perspetivas em Engenharia não eram muito risonhas, pois nessa altura o DGMT não era mais que um depósito de material meio arruinado.

Em Angola nos primeiros 6 meses comandei a Comp de Instrução e a CCS. Durante esse período dediquei-me ao estudo de antenas e às teorias de propagação em HF, tendo projetado várias que melhoravam as ligações via rádio. A partir dessa altura decidi dedicar pelo menos 1 hora, se possível duas, ao estudo nas áreas de eletrónica e telecomunicações via rádio o que mantive até 1990. Em meados de 1970, com 27 anos, assumi o comando do Destacamento do STM de Angola (DSTMA), onde adquiri experiência no que os anglo-saxónicos chamam, “Management”, que é a capacidade de executar bem quatro coisas:

      Planear, Organizar, Dirigir e Controlar.

O DSTMA, quando terminei a minha comissão, tinha 14 CTm, com Centro Emissor, Centro Recetor e Rede Telefónica urbana (que também servia as autoridades civis), com efetivos de mais de duas centenas de homens e só com 5 oficiais e cerca de 18 sargentos do quadro e mais alguns furriéis milicianos (tudo pessoal fora de série). Procurei sempre orientar-me pela lógica:

“Quais os objetivos?”

“Quais as condicionantes com que nos confrontamos seja em potencial humano ou recursos materiais?”

Duma certa forma deriva da técnica de EM do estudo de situação. No texto que se segue apresento várias situações que mostram esta forma de atuar.

Optei por organizar o texto em dois capítulos correspondentes a dois períodos: DGMT & DAT. Em cada um deles as acções que descrevo sobrepõem-se no tempo, mas para melhor clareza resolvi partilhá-las pelos contextos a que se referem.

Iniciativa é fazermos o que
está certo sem ser preciso
que alguém nos diga para fazermos tal.
Victor Hugo

                                   

CAPITULO I

 

NO DGMT (1974-1977) 

No dia 1 de Março de 1974 apresentei-me no DGMT (Depósito Geral de Material de Transmissões) em Linda-a-Velha, uma unidade que só conhecia de nome. O aquartelamento era uma antiga Bateria de Artilharia de Costa. A oficina da manutenção estava instalada nas antigas cavalariças e os armazéns estavam distribuídos por várias dependências. Na retaguarda do aquartelamento existiam quatro enormes naves, uma das quais atulhada até ao tecto com material obsoleto da 1ª Guerra Mundial. O que senti foi o de ter recuado 50 anos no tempo. Fui encarregado da recepção de materiais e equipamentos e para tal dispunha duma sala (a única restaurada) com alguns equipamentos de medida.

A minha ideia de passar à reserva mantinha-se até porque ainda em Angola tinha sido seleccionado para o curso para oficial do Corpo do EM e, graças ao então Cor Sanches da Gama (meu cmdt), tinha ficado adiado para data posterior ao fim da minha comissão. Eis senão quando se dá o 16 de Março. Resolvi aguardar a evolução dos acontecimentos até porque me mantinha informado do Movimento dos Capitães, pois diariamente me encontrava no comboio com o Major Sanches Osório.

Dá-se o 25 de Abril. Grande alvoroço acompanhado de grande alegria. No DGMT estávamos como que isolados dos acontecimentos.

Criámos um centro de escuta com os rádios que dispúnhamos para tentar perceber o que se passava. Depois o Director, Cor Lino Góis Ferreira, é substituído pelo Cor Silva Ramos. O Gen Sanches da Gama é nomeado Director da Arma.

Aconteceu nesta altura um caso caricato que passo a relatar:

Certo dia, a meio da tarde, chega uma mensagem a nomear-me para oficial de transmissões da GNR substituindo o Cor Mário Leitão (meu Pai, convicto salazarista, e já na reserva) que tinha sido mandado para casa, devendo apresentar-me nesse mesmo dia no Quartel do Carmo. Fiquei preocupado e falo com Cap Arnaldo Oliveira Pinto que percebeu de imediato que eu estava metido numa alhada e desde logo se propôs a ir no meu lugar. Falámos com o director, Cor Silva Ramos, que também se apercebe da situação e consegue a autorização para a substituição. Apresenta-se o Arnaldo, já depois do toque ordem, no Carmo, informando o Oficial de Dia que era o novo Oficial de Transmissões. O Oficial de Dia só diz: – Ai é! Então venha comigo – e meteu-o numa cela da prisão, onde passou a noite.

 

Manutenção 4ºEscalão-Origens

Em finais de 1975 começa a chegar o material do Ultramar. Estava em tão mau estado, não só da utilização em campanha, mas também por ter sido muito mal acondicionado e ter estado longo período exposto às intempéries nos cais de embarque e nos navios, que a primeira opinião geral, de oficiais e sargentos, era que iria tudo para a sucata.

Resolvi, com a ajuda dum Alf Eng. Electr. e de Sarg Radiomontadores, começar a recuperar a Aparelhagem de Medida, que me fazia muita falta. Alguns tinham as placas da electrónica cobertas de latrite não sendo possível chegar aos componentes. A solução foi pô-los na parada para serem lavados com jactos de água e depois postos a secar ao sol.

Um certo dia telefona-me o Cap Arnaldo Oliveira Pinto a dizer que necessitava rádios e se era possível dispensar alguns para a GNR. Respondi-lhe que tínhamos os vindos do ultramar, mas estavam em muito mau estado e que se me disponibilizasse pessoal talvez os conseguisse recuperar. Dias depois apresenta-se no DGMT o 1ºSarg Chaves com quatro cabos da GNR. Os rádios em questão eram os Marconi H-4000 e os Racal TR-28.

Aqui começou o grande desafio. Sabia quase nada de desoxidações, tratamentos de superfície, pintura, borrachas, plásticos e tudo mais que não é relacionado com electrónica. As tarefas a executar correspondiam a Manutenção de 4º Escalão o que significava criar infra-estruturas, adquirir tecnologia e formar pessoal. Passo a descrever como consegui solucionar várias carências para conseguir o objectivo a que me tinha proposto:

”Recuperar os Rádios”.

-No DGMT não existia nenhuma instalação de ar comprimido, que era imprescindível não só para limpezas como para as pinturas. Falei com o Director do DGME (um ano mais antigo na AM) para me arranjar um compressor. Informou-me que tinha vindo um de Moçambique, mas que estava gripado. Foi feito o pedido de fornecimento do compressor. De seguida contactei o fornecedor (em Leiria) e pedi-lhe um orçamento não só para a reparação, mas também para uma instalação da canalização para distribuição do ar por várias fichas. Contactei com as OGME no sentido de saber se poderiam fazer o serviço de acordo com o orçamento da firma de Leiria. Em resposta enviaram uma proposta e foi feita a requisição para reparar a “instalação de ar comprimido do DGMT” às OGME. Semanas depois tinha uma instalação perfeita para os trabalhos a executar.

-Quando se começou a reparar os rádios verificou-se que faltavam a maior parte dos parafusos e ou que estavam calcinados ou com roscas moídas. Estes parafusos eram com rosca fina (inglesa withworth) que não havia em Portugal. Contactei os representantes dos referidos rádios que me deram um preço de vários escudos por parafuso (impossível). Fiz uma busca e descobri uma fábrica em Sto. Amaro de Lisboa (fazia os compassos Mocho para as escolas e pertencia a conhecidos meus). Aceitaram fazer os parafusos e a niquelagem por alguns tostões cada, mas tinha que arranjar o abre rosca para withworth. Consegui descobrir uma firma que tinha um em stock. Solicitei a verba à DAT e foi adquirido. Mais um resolvido.

-As fichas e tomadas (na gíria conectores) do TR-28 estavam na maioria completamente oxidadas com os pinos sem o revestimento em ouro e muitos deles torcidos e a alma de borracha calcinada. O costume era serem substituídas por novas e na parada do Depósito havia fichas aos pontapés. O corpo da ficha era em aço e na tal firma em Sto. Amaro, de Lisboa, disseram-me que as podiam metalizar. Fiz uma experiência e o resultado foi que pareciam novas. Então contactei o representante do fabricante (a SOURIAU) no sentido de me fazer uma proposta para o fornecimento só dos pinos e borrachas. Com certa relutância acabaram por chamar um comercial da firma Francesa que veio falar comigo. Este explicou-me que eram precisas ferramentas especiais e que para encomenda mínima duma certa quantidade eles poderiam fornecer e ministrar um curso para a montagem dos conectores. Tinha de resolver quem iria tirar o curso.

Não era serviço para Sargentos e as Praças passariam à disponibilidade e perdia-se a tecnologia. Aconteceu que nessa altura o Director, o Cor Cunha Lima, chamou-me para me dizer que havia uma funcionária civil que trabalhava na cozinha e ali criava conflitos com as colegas (Dona Conceição) e se eu nas minhas actividades não a poderia aproveitar. Falei com ela que me disse aceitar o trabalho que eu lhe propunha (montar conectores) com a condição de lhe ser fornecido um creme para proteger as mãos. Não percebi muito bem e perguntei-lhe se era creme Nívea e respondeu-me que gostava mais de Atri! Tudo bem e assim tirou o curso dos franceses e durante muitos anos montou fichas em Linda-a-Velha, e fez-se uma grande economia.

-Além da limpeza dos rádios era necessário fazer a desoxidação e decapar a pintura. Fiz uma busca de mercados e encontrei uma firma de produtos químicos que dispunha de todos os produtos necessários e ainda de produtos para posterior protecção não só das superfícies metálicas como também dos circuitos electrónicos.

-Os rádios eram pintados com uma tinta que, além de poder sofrer riscos com facilidade, resistia mal aos hidrocarbonetos e ambientes salinos. Certo dia perguntei a um dos fornecedores da tinta como eram pintados os petroleiros. Esclareceu-me que é uma tinta à base de poliuretano e que era aplicada com uma pistola especial (cuspida) e que poderia ser adquirida na AtlasScope, que por coincidência eram nossos vizinhos em Linda-a-Velha. Entrei em contacto com eles, acabou por ser adquirida a referida pistola e foi dado um curso no DGMT para a sua utilização e os equipamentos passaram a ser pintados com esta tinta especial que se verificou ser resistente às acções acima referidas.

-Era necessário um processo para impedir que as juntas de borracha calcinassem, melhorar a estanquicidade dos equipamentos e evitar os efeitos dos pares galvânicos entre o cobre e o alumínio. Contactei a firma Wacker, que era um fabricante de silicones. O comercial desta firma informou-me que me arranjava as amostras que eu quisesse e documentação técnica sobre o emprego de silicones, mas mais que isto não podia fazer. Montei então no forro do edifício da oficina uma espécie de laboratório e comecei a fazer experiências e a estudar as tecnologias associadas, acabando por seleccionar as diferentes pastas para as diferentes aplicações.

Estavam criadas as condições mínimas para a recuperação dos equipamentos rádio e os primeiros passos para a criação das oficinas de Manutenção de 4º Escalão. Os principais equipamentos a recuperar foram: RACAL TR-28, MARCONI H-4000 e AVP-1.

As oficinas de electrónica (instaladas na antiga cavalariça) estavam em muito mau estado e muito sujas de lama (o asfalto ainda não tinha chegado ao Depósito) e em conversas com os sargentos eles prontificaram-se a deitar as mãos à obra e as paredes foram pintadas, o chão encerado, foi instalado um tecto falso em esferovite e melhorada a iluminação (tudo feito por eles).

Para recuperar os rádios foram removidos os cristais e metidos em sacos de plástico (ultrapassavam o milhar). Foi então o Major Birrento encarregado de fazer a  selecção por tipo e frequência tendo ele dinamizado todo o pessoal (oficiais, sargentos, civis e até o Director) para colaborarem nesta tarefa que nalgumas semanas ficou concluída.

Não posso deixar de referir o apoio que sempre me foi dado pelos Directores da Arma. Primeiro o Gen Sanches da Gama, que em meados de 1975 me motivou a actuar como engenheiro e transmitido ao Cor Simões (Chefe da Rep de Material) para me dar todo o apoio possível em verbas e material. Depois o Brig Pereira Pinto a quem telefonei logo após ter tomado posse a informar do que estava a fazer e que, de imediato, me deu todo o apoio e sempre atendeu as minhas solicitações. Isto reforçado com o seu documento RELEXÕES, que apontava, no relativo à Logística das Tm, para uma estratégia que ia ao encontro das minhas ideias.

No dia 25NOV1975, ao fim da tarde, o Cor Morujão (Director) deu-me ordem para no dia seguinte ir a Setúbal e tentar resolver o problema dos intercomunicadores das Panhares do Esquadrão de Cavalaria de Estremoz. Cheguei a Setúbal e fui falar com o Cmdt, o Maj Sá (do meu curso da AM). Contou-me que tinha vindo desde Estremoz sem qualquer sistema de intercomunicação e tinha resolvido o problema amarrando cordas aos braços do condutor e que passando por dentro do carro até à torre eram manuseadas como rédeas dum cavalo. Fui ver o que se passava e constatei que os equipamentos e a instalação estavam muito danificadas. Informaram-me que os carros tinham estado inoperativos durante o período das campanhas em África. Lamentei não poder fazer nada e regressei a Linda-a-Velha a congeminar como poderia resolver o problema. No dia seguinte reuni os TM (Manuais Técnicos) de todos os modelos de intercomunicadores que existiam no Exército (eram três) e estudei como funcionavam e como eram feitos. De seguida com componentes de equipamentos obsoletos (CHP-1) projectei um sistema. Aproveitando umas caixas de metálicas velhas fez-se a montagem de equipamentos e foi-se a Estremoz fazer a instalação tendo esta operação ficado a cargo do então Maj Barroca da Cunha. O sistema funcionou, mas não durou muito porque as caixas não eram estanques e as praças lavavam o interior dos carros com jactos de água o que enferrujou tudo, e provocando muitos curto-circuitos.

Em 1976 fui nomeado para o curso geral de Estado-Maior, apesar de já ter sido promovido a Major. Aconteceu que durante o curso fui promovido a TCor e passei a ser o chefe de curso, sendo o mais novo em idade e a maioria ter mais três anos de antiguidade militar. Não foi fácil!

Apesar de não estar muito entusiasmado com a ida para o curso acho que me foi útil nas matérias de Estudo da Situação e Logística. No fim do curso fomos à Alemanha visitar unidades do exército dos EUA. O Maia de Freitas e eu ficámos em Frankfurt com o Cor Geraldes, o nosso “mestre” das Transmissões, aonde estava aquartelado o Bat.Tm americano. Fiquei impressionado com o facto de todos os sistemas de Tm estarem instalados em cabines sobre viaturas e ficou-me a ideia de que teríamos de fazer o mesmo no nosso exército.

Penser est facile;
Agir est dificile;
Agir suivant sa pensée
est ce qu’il y a au monde
de plus difficile.
Goethe

CAPITULO II

NA DAT (1977-1983)  

No Verão de 1977, durante as férias, após o curso em Pedrouços, encontro-me, acidentalmente, com o Cor Falcão que me diz que tinha sido colocado na DAT e que iria ser seu adjunto na Rep. de Material.

Disse-me que o meu primeiro trabalho seria fazer o caderno de encargos para a aquisição de rádios AN/PRC-77. A minha resposta foi que para esse trabalho não era preciso um eng.º pois era um equipamento de só um fabricante e não passaria de um ajuste-directo a esse fabricante. Quando me perguntou que fazer então, e a minha resposta foi que poderíamos fazer um projecto em Portugal e com firmas portuguesas. A conversa ficou por aqui mas, quando me apresentei na DAT voltámos ao assunto. Expliquei-lhe a minha ideia após o que me levou ao gabinete do Gen Pereira Pinto.

Esclareci que os maiores custo dum equipamento rádio eram as caixas e acessórios, incluindo baterias, e fazer uma procura no mercado de um rádio em que o fabricante desse a licença para adaptar os circuitos electrónicos de forma a poderem ser montados nas caixas do TR-28. O projecto seria feito numa indústria portuguesa em conjunto com oficiais Eng. de Tm.

Passados uns dias o Gen Pereira Pinto chamou-me e disse-me que para ir a Wiesbaden à Feira das Indústrias de Defesa fazer a procura de indústrias interessadas em participar no projecto. Regressei com a informação que tinha contactado duas firmas que disseram estarem interessadas: a Standard Eléctrica Lorenz (SEL), com base no rádio SEM portátil que forneciam ao exército alemão, e a AEG-Telefunken, com o rádio Fug8b utilizado pelas forças de segurança alemãs. O passo seguinte foi contactar as indústrias portuguesas existentes na área da electrónica&telecomunicações, que eram a Standard Eléctrica S.Gabriel, a AEP-Plessey e a Centrel. Foi-lhes exposta a ideia e do interesse demonstrado pelas firmas alemãs já referidas e que deveriam apresentar propostas conjuntas com essas firmas ou outras que eles escolhessem, com a condição que o projecto fosse executado em Portugal com o acompanhamento de oficiais do exército.

A seguir comecei a fazer o caderno de encargos que me obrigou a um trabalho na pesquisa de normas militares (STANAG) e civis (CCIR&CCITT).

O concurso público foi publicado a 20 de Março de 1978 tendo sido adjudicado ao grupo Centrel/Telefunken, apesar de haver autorização para a adjudicação de dois projectos, a SEL pôs condições inaceitáveis em preço e condicionamento da Licença da Tecnologia.

Face à verba envolvida, a autorização para a assinatura do contrato era do Gen. Quartel Mestre General (Gen Sanches da Gama) que não quis tomar a decisão e enviou ao CEME (Gen Rocha Vieira) que enviou para o MDN e ficou para ser aprovado pelo Conselho da Revolução (CR) que só reunia, em princípio, uma vez por semana. Nas duas sessões seguintes o assunto não foi posto em agenda, mas passado quase um mês, o Gen Pereira Pinto chamou-me para o acompanhar ao MDN pois o assunto tinha sido agendado e o CR poderia querer esclarecimentos. Passámos toda a manhã a aguardar e, era quase uma hora, vieram informar-nos que não tinha havido oportunidade. Quando chegámos a DAT estávamos muito consternados, tive um desabafo que não interessa reproduzir, e pedi autorização para ir falar com GQMG (Gen Sanches da Gama).

O Gen Sanches da Gama recebeu-me mas disse-me que já não estava com o processo e para desistir da ideia. Em meados de Setembro de 1978 o Gen Pereira Pinto chamou-me e, com um cara de grande alegria, informou-me que o Gen Melo Egídio (VCEMGFA) tinha despachado positivamente a adjudicação e a realização do contrato para execução do projecto, que foi assinado a 25 de Setembro de 1978.

Assim começou a “Grande Aventura”!!!

Logo de seguida solicitei autorização para escolher dois oficiais de Tm para fazerem parte da equipa de projecto, com o que de imediato concordou e para o informar logo que possível o nome desses oficiais. Primeiro fiz o convite ao Maj Costa Dias que me propôs o Maj Pinto de Castro como o segundo oficial. Tivemos uma reunião informal em que expus a situação e os riscos que íamos correr mas, ambos apoiaram-me e julgo que ainda estavam mais entusiasmados que eu.

Lembro-me, como se fosse hoje, de ter dito que se o projecto falhasse levaríamos uma “porrada” e se tivesse sucesso iriam chamar-nos de vigaristas. Assim foi! Após o projecto concluído encontrei na 4ª Rep um oficial amigo (meu curso da AM) que me perguntou se sabia quem era o vigarista das Tm que tinha feito o negócio do rádio. Respondi, de imediato: – sou eu. Calou-se e não disse mais nada. Claro que o Gen Pereira Pinto tinha tido uma posição corajosa ao confiar em mim e ter estado desde a nossa primeira conversa a envidar todos os esforços para conseguir as necessárias verbas e autorizações, apesar de mal me conhecer e eu ser um jovem com 35 anos, com os entusiasmos naturais desta idade.

Propus ao Gen Pereira Pinto os oficiais acima referidos, que aprovou. De imediato começámos umas sabatinas de recapitulação de matérias relacionadas com circuitos transistorizados, amplificadores operacionais, filtros, etc…

Passo a seguir a descrever o projecto deste rádio e doutros equipamentos assim como de várias acções que foram executadas no período em que estive na DAT. Organizei a sua descrição por:

-Equipamentos

-Reorganização das Tm

-Logística

-Formação Técnica

-Aquisição de Tecnologia

 

-EQUIPAMENTOS-

Rádio Táctico de VHF

A aprovação do contrato foi feita a 27 de Novembro de 1978 e iniciou-se o projecto com a definição da filosofia de todo o equipamento, de que resultaram os objectivos a atingir, tendo em conta as condicionantes e, entre outras, ficado decidido que a banda de frequências de funcionamento seria de 10MHz entre 30 a 76MHz com o espaçamento 25KHz por canal, o que correspondia a 400 canais.

Fez-se uma listagem de todas as tarefas a executar e seguiu-se um planeamento tipo PERT de forma aos protótipos estarem concluídos em 18 meses, conforme estabelecido no contrato.

Como director executivo do projecto percebi a importância do termo anglo-saxónico de “do-to-do”, ou seja fazer-fazer, que significava resolver todos os problemas que poderiam causar atraso na execução das tarefas planeadas. Realço a ida aos serviços de Alfândega para conseguir a importação de componentes, a procura de indústrias para fabrico das peças de plástico, borracha, fundição de alumínio, blindagens metálicas, metalização, selecção do tipo de materiais plásticos e alumínio, colas, etc.Fazia o acompanhamento da evolução do projecto e por vezes era necessário tomar decisões sobre questões imprevistas. Uma delas foi relativa à concepção do 1º andar de recepção pois a minha solução era diferente da dos eng. da Telefunken.

Resolveu-se experimentar as duas soluções e verificou-se que a que eu propunha era melhor. Outra foi que, resultado da concepção modular dos circuitos não era económico utilizar a caixa do TR-28.Tive que expor a questão ao Gen Pereira Pinto, que compreendeu o problema e conseguiu a verba para os moldes para a fundição em alumínio. Não me recordo como descobri a Sonafi no Porto, mas contactei com os eng. mecânicos desta fábrica que ficaram entusiasmados com o desafio de produzir esta peça, que estava nos limites das capacidades técnicas que tinham. Uma descrição mais detalhada do projecto pode ser consultada num trabalho dos Majores Costa Dias e Pinto de Castro numa das semanas da Arma organizadas pelo então Cor Pedroso de Lima.

Em 5 de Nov de 1979 o Gen Pereira Pinto apresentou ao CEME, Gen Pedro Cardoso, os pré-protótipos e ficou desde logo decidido fazer uma encomenda à Centrel duma pré-serie de 100 equipamentos para serem testados em operações.

O Cor Falcão fez entretanto os cálculos da quantidade necessária de equipamentos de acordo com os quadros orgânicos das unidades existentes e chegou ao número de 4220,considerando reservas logísticas, mas quando apresentamos esse número na 4ªRep do EM, esta contestou esta quantidade e quis ser ela a fazer os cálculos e, ao fim de algumas semanas, chegaram à conclusão que deveriam ser 4221 (coisas da burocracia!).

A tarefa seguinte foi fazer a negociação para chegar ao preço do equipamento, e a elaboração do contrato que, com o acordo do Cor Falcão e do Gen Pereira Pinto, incluía todos os equipamentos de medida necessários à produção: jigs de teste e sobressalentes em determinada percentagem do número de equipamentos. Os aparelhos de medida e os jigs seriam propriedade do Exército e no fim da produção ficariam para a manutenção de 4ºEsc.do DGMT.

Um outro problema que então surgiu foi relacionado com a organização da área da produção da Centrel, que a meu ver era, digamos, um pouco aleatória e que não tinha nada a ver com o que eu tinha visto nas fábricas da Telefunken e da Siemens (menciono a seguir o porquê desta estadia). Após várias reuniões com os responsáveis da Centrel e com a intervenção do Gen Pereira Pinto ficou decidido que o Maj Costa Dias iria a uma fábrica da AEG em Berlim ter um estágio na organização da produção. Enfim tudo acabou em bem e a produção arrancou com o acompanhamento de dois oficiais de Tm de Manutenção os então Capitães Pinto e Quintela Leitão.

Entretanto tinha começado a conceber a montagem veicular. Fiz, com a ajuda da minha mulher, um modelo em cartolina da estrutura que levei para a Centrel que a reproduziu em metal. Fiz a listagem de todas as funções que deveria executar e em conjunto com a equipa de projecto (civil&militar) a fazer o esquema bloco da parte electrónica, a que se seguiu o desenvolvimento dos circuitos.

Era necessário dar um nome ao equipamento portátil. Na NATO estes rádios são conhecidos por PRC e segundo norma da DAT os rádios de VHF deveriam começar por 4 e tendo 400 canais espaçados 25KHz ficou o PRC-425 e para referenciar que era português foi antecedido por um P, isto é, P/PRC-425 (que fazia homenagem ao Gen PP).

A última fase foi a implementação do rádio nas unidades, a formação de operação e formação da manutenção nos vários escalões.

Já se passaram mais de 30 anos e continua ao serviço no exército, o que julgo ser um recorde.

Feixes Hertzianos de Campanha FM200

O Gen Pereira Pinto tinha a ideia de recuperar os eq. de FH do antigo BTm-3, mas com mais de 12 anos, abandonados, e de tecnologia muito antiquada e verificou-se que não era viável. Informei-o que em 1969, quando chefiava o Serv. de FH do STM, tinha sido nomeado para fazer o parecer técnico dum concurso público para a aquisição de 12 equipamentos e que tinha sido adjudicado ao grupo AEG/SIEMENS. Fui investigar ao STM e encontrei-os numa sala em conjunto com outros materiais para serem abatidos porque ninguém os conseguia reparar. Solicitei ao Gen Pereira Pinto para pedir uma cotação à AEG para eu ir com esses equipamentos à Alemanha e numa aprendizagem “on-the-job” fazer a sua reparação e verificar o necessário à manutenção para a sua reparação no DGMT (ap. medida e jigs de teste).

Estive na Alemanha cerca de mês e meio nas fábricas da AEG e da SIEMENS. De principio acharam muito estranho que um Ten Cor quisesse reparar equipamentos mas exigi e acabaram por ceder. Fui integrado na área de produção o que me permitiu analisar a organização fabril que eles tinham implementado. Certo dia o Dir. da Fábrica de Offenburg convidou-me para almoçar e no fim fez um discurso em que disse estar muito impressionado por verificar como eu me tinha interessado por todos os detalhes das linhas de produção. Na verdade aproveitei a oportunidade, quer nesta fábrica como na da SIEMENS em Kempten, para me informar sobre a organização de toda a área de produção, o que me foi muito útil para a produção do PRC-425.

Depois do meu regresso comecei, por orientação do Gen Pereira Pinto, a fazer um estudo sobre as necessidades de equipamentos de FH para as possíveis situações operacionais e situações de apoio à Protecção Civil em caso de catástrofes. De seguida foi iniciado um processo de negociação com a AEG/SIEMENS para apresentarem uma proposta para o fornecimento dos equipamentos em kits para serem montados em Portugal e incluindo jigs de teste e a aparelhagem de medida especial necessária e sua posterior utilização no DGMT. Depois foi todo o processo de obtenção das autorizações e o cabimento de verbas. O contrato foi adjudicado em fins de 1982.

Teleimpressor T1000Z

O Gen Pereira Pinto deu ordem à Rep. Mat. para fazer a avaliação das necessidades de teleimpressores de campanha. O Cor Falcão fez esse estudo e fui encarregado de fazer uma procura do que existia no mercado. Constatei que os novos teleimpressores tinham deixado de ser aparelhos electromecânicos e eram quase 100% electrónicos.

Elaborei um rascunho de caderno de encargos em que, além dos equipamentos, deveriam ser fornecidos jigs e aparelhos específicos de teste, um lote de componentes e módulos sobressalentes e um curso de manutenção em Portugal. Quando foi aberto o concurso a SIEMENS estava em vantagem mas pretendia fazer um contrato para a manutenção na Alemanha o que estava fora de questão. Depois de negociações muito difíceis foi conseguido o que pretendíamos. Apesar da quantidade de equipamentos a adquirir ser pequena, o que não justificava uma produção nacional, era fundamental garantir que o Exército tivesse controlo sobre o apoio logístico aos seus equipamentos.

Telefone BLC-101

No Exército existiam três modelos de telefones de campanha. Dois do tempo da 2ª Guerra Mundial, que eram o alemão OBZB, o do EUA EE-8 e um terceiro adquirido aos ingleses, o BLC-63, da altura do inicio das campanhas coloniais.

Numa visita a Israel, a acompanhar o Gen Pereira Pinto e o, então, Cor Pedroso Lima, foi-nos apresentado pela firma Tadiran um telefone de campanha que já era totalmente electrónico. Perguntei se estavam dispostos a licenciar o seu fabrico em Portugal a que responderam afirmativamente. As negociações foram muito complicadas mas conseguiu-se o contrato entre a Tadiran e a Centrel, tendo o exército pago, além dos telefones, os moldes da caixas para fundição de alumínio e o Licenciamento. Já se passaram cerca de 30 anos e continuam ao serviço e a EID, continuadora da Centrel, tem nos últimos anos exportado um modelo com electrónica actualizada e em caixas de material plástico muito mais leve.

Cabinas de Transmissões 

Não tinha esquecido a ideia de o nosso exército ter os sistemas de Tm de campanha, dum futuro BTm, montados em cabines como tinha visto no BTm dos EUA em Frankfurt, mas achava que deveriam ser feitas em Portugal e assim sendo era necessário um projecto.

Aconteceu que houve um ano que ao se fecharem as contas se verificou que existia uma sobra de verbas em relação às dotações orçamentais por motivos burocráticos (autorizações, TC, etc.). Então lembrei-me da legislação que permitia a encomenda às Oficinas Gerais de serviços sem quaisquer entraves burocráticos e como tinha feito no DGMT para a instalação do ar comprimido. Expus a ideia ao Gen Pereira Pinto que abraçou desde logo a ideia telefonando ao Cor Camizão sub-Director das OGMA, que aceitou a execução do projecto.

Elaborei um caderno de encargos técnico com base nas especificações que tinha obtido da documentação de fabricantes europeus. No essencial a cabine em alumínio deveria ter uma dupla blindagem electromagnética e suportar os choques resultantes de lançamento em pária-quedas. O protótipo feito pelas OGMA era uma obra de arte e obedeceu a todos os ensaios a que foi submetido. Infelizmente o preço que as OGMA apresentaram para o fornecimento era super exagerado em relação aos preços do mercado.

Fui falar com o Cor Camizão com o intuito de ver se conseguia um processo para reduzir o preço. Mas disse-me que o Director, o Gen Espadinha queria falar comigo. Entrei no gabinete e, depois de uma introdução, disse-me abertamente que não estava de maneira nenhuma interessado em fazer cabines. Vim-me embora, como é costume dizer, com o rabo entre as pernas. Informei o Gen Pereira Pinto e tivemos que aceitar a situação. Tempos mais tarde o representante duma firma Francesa foi à DAT e falou com o Cor Falcão dizendo que os franceses estavam dispostos a licenciar o fabrico em Portugal em conjunto com uma empresa fabricante de carroçarias. Após negociações e obtenção de verbas e procedimentos legais foi assinado o contrato para o fornecimento das cabines. A importação limitava-se à matéria-prima, painéis e perfis de alumínio. Foi pois atingido o objectivo de haver capacidade técnica de produzir as cabines em Portugal.

Agora punha-se o problema de equipar as cabines e instalar os equipamentos de Tm. Era pois necessário instalar bancadas, armários, cadeiras, instalação eléctrica e de sinais, painéis para entrada de sinais, material de limpeza e de escritório e depois de seleccionado fazer a sua catalogação. Propus então ao Gen Pereira Pinto que o curso de Oficiais que estava a terminar o tirocínio fosse colocado no DGMT para, sob a minha orientação, executarem este projecto. Ele aprovou a ideia e assim nasce o gabinete de projectos no DGMT.

Fez-se um planeamento do projecto enumerando as tarefas a executar e que foram distribuídas pelos diferentes membros da equipa. O chefe de curso era o Cap Moreira, que era o meu adjunto. Era um entusiasta, de dedicação total, ficando a trabalhar à noite. As dificuldades surgiam a cada instante e em conjunto, e com o recurso a capacidade criativa, procurávamos as soluções. Uma das dificuldades foi seleccionar as cadeiras que tinham que ser rotativas e com ajuste em altura, quanto possível confortáveis e resistentes. As cadeiras de escritório ou eram demasiado grandes ou pouco resistentes. Aconteceu ver um anuncio publicitário da Renault que era a fotografia do assento dum dos modelos de automóvel e que focava a resistência e com toda articulação integrada independente de estrutura da carroçaria. Falei para a Renault a solicitar se podiam fornecer-nos os assentos. A resposta foi que sim mas que contactássemos a Molaflex que era o fabricante. E assim adquirindo as bases duma cadeira de escritório e juntando este assento arranjámos a solução.

Isto foi a título de exemplo mas passou-se com muitas outras peças do completo da cabine ficando cada uma catalogada e com a referência do fornecedor. Descobrimos uma pequena serralharia de ferro e alumínio em Algés, que eram artistas, que nos deram um grande apoio. Concluímos os projectos com sucesso das cabines de: CMsg, FH, VHF, HF e Central Telefónica

O projecto incluiu ainda ligação a um grupo gerador, fornecido pelo SMat, em atrelado.

É pena que a regra seja adquirir tudo “chave na mão” e não aproveitar a capacidade técnica, que tem como por exemplo num Corpo de Engenheiros como nos EUA.

REORGANIZAÇÃO DAS TM –

Frequentemente o Gen Pereira Pinto chamava-me ao gabinete para trocarmos impressões. Os temas estavam relacionados com assuntos que tinha analisado no documento por ele elaborado:

“Reflexões sobre a problemática das Transmissões”

mas incidindo na Logística e na criação do Btm. Uma vez disse-me estar preocupado pois queria tirar a Escola Prática do quartel de Sapadores e queria saber qual era a minha opinião. Debatemos o assunto e então comentei que era altura de haver uma Escola Prática no Norte (somos os dois nortenhos) e que se falasse com o Gen Pires Veloso, cmdt da RMN, ele daria concerteza todo o apoio. Pegou no telefone e ligou para o Gen Pires Veloso e quando desligou, com um sorriso, disse-me:

Está decidido.

Numa conversa informal com o Cor Barradas, Chefe da Rep.Pessoal da DAT, disse-me que a breve prazo não haveria Sarg Radiomontadores para preencher os QO de todas as unidades. Então ocorreu-me uma ideia e fui falar com o Gen Pereira Pinto e propus que se retirassem o pessoal radiomontador das unidades e se concentrassem em Destacamentos do DGMT, a criar, distribuídos por todas as RM e Comandos Territoriais. Achou a ideia muito boa e com grande empenho, como era seu costume, tratou de arranjar as aprovações superiores para concretizar este objectivo.

Outra acção muito relevante foi a decisão que tomou da colocação de Oficiais de Tm nos Comandos das RM. Estes oficiais tiveram um papel muito importante na implementação dos novos equipamentos nas Unidades.

Mas para o Gen Pereira Pinto o maior desejo era a criação do BTm de campanha, continuação do BTm-3, sua primeira unidade, há muito extinta. O problema não era fácil e até hoje ainda não foi resolvido. Aconteceu que o Gen Loureiro dos Santos, Gen.Dir.Dept.Op., resolveu criar um grupo de trabalho para a reorganização do Exército. O Gen Pereira Pinto chamou-me e informou-me que iria ser nomeado para ser o oficial de Tm nesse GT. Reagi pois não via como seria possível com todas as tarefas em que estava empenhado. Ele achou que tinha razão e disse-me que iria falar com o Gen Loureiro dos Santos. No dia seguinte chamou-me para dizer que o Gen Loureiro dos Santos não tinha dito um Oficial de Tm mas sim o TCor Rodrigo Leitão. Sem alternativa lá fui e aproveitei para lutar pelo BTm. Fiz um trabalho de EM sobre este assunto e uma das condições era que deveria estar aquartelado fora de grandes centros urbanos e com acessos fáceis para se poder deslocar sem grandes dificuldades a qualquer parte do território nacional acabando por concluir que o sítio deveria ser o quartel da Trafaria. Esta reorganização não foi para a frente.

Não desisti e resolvi fazer um estudo que concluía com a proposta da criação na EPT duma Comp+ a que chamei “Companhia Operacional de Apoio à Instrução”(COAI) que seria composta pelos Pelotões de CCS, CMsg, FH, HF, VHF e TPF. Entreguei este estudo ao Gen Pereira Pinto, que mais uma vez se empenhou e a Compª foi implementada.

LOGISTICA-

Não tinha esquecido a necessidade de melhorar as oficinas de manutenção no DGMT. A primeira tarefa era arranjar instalações capazes e a solução estava nas naves nas traseiras do aquartelamento mas que estavam cheios de material obsoleto da 1ª&2ªGuerra Mundial na maioria rádios cujo processo para ser alienado era muito complicado. Em conversa com o Gen Pereira Pinto ele teve a ideia de enviar esse material para um dos edifícios do antigo BTm-3 que estavam abandonados. Após a obtenção das necessárias autorizações o Maj Lucas Nunes, sub-Dir do DGMT, ficou encarregado de organizar o transporte do material para Tancos. Quando terminou esta transferência a Engenharia disse necessitar das instalações e o material teve de regressar a Linda-a-Velha. As normas determinavam que todos os equipamentos rádio após o abatimento à carga deveriam ser destruídos, de forma a não ser possível a sua reutilização o que normalmente era feito com a sua destruição com recurso a marretas, mas as quantidades em questão eram tais que seriam necessários vários anos para fazer esta tarefa com o pessoal disponível.

Ocorreu-me então a ideia de que isso poderia ser feito com uma prensa hidráulica utilizada pelas empresas de sucata. Contactei a Siderurgia Nacional que me informou que esse serviço era feito por uma empresa situada junto às instalações da siderurgia e forneceram-me os contactos. Contactei essa empresa e dois elementos foram a Linda-a-Velha e depois de verem a sucata, começaram a pôr problemas por causa de haver muito material não ferroso.

Então o Cor Morujão, Director, propôs irmos à messe dos oficiais e num agradável convívio discutiu-se o negócio em que propúnhamos que a empresa receberia toda a sucata gratuitamente e o Exército não teria quaisquer encargos na sua destruição. Nós defendíamos que os equipamentos eram só ferro com materiais plásticos e alguns fios de cobre e que o alumínio naqueles equipamentos ainda não era utilizado (UPPS!). Ao fim de algumas horas de agradável convívio aceitaram receber todo o material. Foi então o Cap Ferreira da Silva encarregado de organizar o transporte do material para a empresa de sucata e de fazer os autos de aniquilamento conforme as normas.

Seguiu-se a limpeza do armazém e a sua recuperação (reboco, pintura, forro, a abertura de janelas e revestimento do chão com tapete de borracha) e colocação de divisórias para gabinetes.

O Maj Brites ficou encarregado de fazer a organização da oficina. As bancadas de radiomontador eram metálicas e estavam muito ferrugentas e amolgadas pelo que decidi conceber uma nova.

Tinha de ser em madeira laminada (MDF), que além de ser isolante não enferrujava nem se amolgava. Inclui um bloco com gavetas para as ferramentas e um compartimento arrumos e sobre rodados que ficaria colocada debaixo da bancada mas também poderia servir de mesa auxiliar de apoio e ainda um módulo com a instalação eléctrica, disjuntor, filtro RFI e tomadas e que servia para colocação da aparelhagem de medida. Fiz o desenho, foi aberto concurso tendo sido adquiridas em quantidade não só para as oficinas do DGMT, mas também destacamentos, EMEl e EPT. Por último era necessário resolver a questão da energia, pois o DGMT recebia a energia eléctrica em BT e a potência não era suficiente para as necessidades. Foi instalado um PT e passou-se a receber a energia em AT com grande economia na conta da luz. No quadro geral da oficina foi colocada um filtro de RFI tendo sido instaladas redes de terra de segurança e de serviço independentes.

O passo seguinte foi o estudo para uma nova colecção de ferramentas de radiomontador e de um novo conjunto de aparelhagem de medida. Para as ferramentas foi encarregado o Cap Silva Santos com os radiomontadores que estavam na Rep. de Mat e a quem eu também dava apoio. Para a aparelhagem de medida comecei por seleccionar duas ou três firmas tendo sido adquiridos dois equipamentos de cada, que foram para as oficinas do DGMT para ter o parecer dos radiomontadores. Tratava-se do Geradores de Sinais de RF e de Audio, osciloscópio, Volt.Electrónico, Multímetro, Medidor de Potencia RF e Fonte de alimentação em CC. Após ensaios e análise dos pareceres dos futuros utilizadores foram adquiridos e fornecidos a Linda-a-Velha e aos Destacamentos.

Um dos serviços que foi instalado foi o da manutenção dos teleimpressores, que foi equipado com os meios necessários à manutenção de 3ºEsc. adquirido na Siemens em conjunto com os T100Z. Contudo os poucos mecânicos de TT estavam no STM, que queria ser independente na manutenção dos seus equipamentos. Aqui, mais uma vez, valeu a intervenção do Gen Pereira Pinto que determinou que a manutenção dos teleimpressores passaria a ser centralizada no DGMT.

Após estas acções considerei que finalmente a manutenção estava como tinha sonhado.

Num dos gabinetes foi instalado um sistema para teste final automático dos rádios, controlado por um computador.

Faltava o Reabastecimento.

Os armazéns de equipamentos e de sobressalentes estavam situados num edifício que no inverno era super húmido e frio e no verão super quente e abafado, condições que eram péssimas para condensadores, semicondutores e pilhas, ainda por cima acondicionados em caixas de cartão. Falei com o Gen. Pereira Pinto e expus-lhe a situação e que na minha opinião era preferível utilizar a verba de sobressalentes em obras que permitissem armazenar correctamente do que comprar mais sobressalentes que acabariam por se degradar e originar que houvesse mais equipamentos a avariar. Concordou comigo e contactou-se a DSFOM, que fez o orçamento e foi transferida a verba necessária do orçamento da DAT para DAE. Ficou no armazém ao lado da nova oficina tendo sido feitos dois guichet para recepção e entrega de equipamentos e sobressalentes. O armazém foi dividido em duas partes. Uma com gabinetes com os serviços de reabastecimentos e secção de cargas. O restante foi partilhado por dois armazéns, equipamento e sobressalentes, com ar condicionado e um grande armário frigorífico para o armazenamento das pilhas.

-FORMAÇÃO TÉCNICA-

Formação Profissional

Após o 25 de Abril as Escolas Industriais foram encerradas o que tornou, não só para as empresas como para as Forças Armadas, mais complicada a formação de praças na especialidade de radiomontador, com jovens que não possuíam quaisquer conhecimentos de electrónica básica. Resolveu o Ministério do Trabalho criar um grupo de trabalho para propor uma solução.

O Gen Pereira Pinto nomeou-me como delegado do Exército. O grupo era constituído por uma dúzia de elementos e discutia-se tudo desde de quem tinha tido a culpa, à filosofia de formação, tipos de formação, categorias de formação mas, de concreto, não aparecia nada.

Teve a vantagem de conhecer o Director do Instituto de Formação Profissional (IFP) que me pareceu com muito bom senso e muito pragmático.

Convidou-me a visitar as instalações em Xabregas e fiquei muito agradado com o que vi na formação nas profissões tradicionais (pedreiros, carpintaria, electricista, etc.). Disse-me que no relativo à electrónica tinha uma grande difilculdade de arranjar monitores com experiência nesta área e com capacidade para montarem um curso.

O Governo mudou e o grupo foi extinto.

Na visita a Israel, que já referi, o Gen Pereira Pinto perguntou como é que eles resolviam o problema da formação. E explicaram que de inicio tinham tido dificuldades, mas que ultrapassaram com a criação de cursos concebidos por um oficial que entretanto tinha passado à reserva e tinha criado uma empresa que fornecia esses cursos. Fomos visitar essa empresa e fiquei impressionado com a qualidade dos cursos.

O Gen Pereira Pinto teve comigo várias reuniões com o objectivo de implementar esses cursos na EMEL em Paço de Arcos. A resolução foi irmos avançando passo a passo. Primeiro foi solicitado uma proposta à DGEM (a empresa Israelita), a seguir fui à EMEL ver se haveria alguma instalação para instalar as salas de aula. Não existia nada, mas havia um espaço para a construção dum edifício. Como a EMEL dependia, nessa altura, do MDN fui falar com o então Cor Correia Leal, da Direcção Geral de Infra-estruturas e expus com detalhe o objectivo a que se propunha a DAT e as suas razões. Para minha grande satisfação informou-me que a DGI se encarregaria de construir um Pré-fabricado na EMEL. A seguir houve reuniões com o IFP, em que o Gen Pereira Pinto tomou parte, e ficou acordado que eles dariam apoio com pessoal qualificado para a implementação dos cursos.

Entretanto o Gen Pereira Pinto arranjou as verbas necessárias para aquisição dos cursos e equipamentos de apoio à instrução (Electrónica Base, Circuitos Electrónicos e Telecomunicações). Propus então que o Maj Brites (que já tinha concluído a instalação da oficina no DGMT, com grande eficácia) fosse colocado na EMEL para orientar a instalação das salas de aula. O Gen Pereira Pinto concordou, mas disse para lhe propor um oficial superior de Tm engº para ser director dos cursos e gerir a colaboração com o IFP e outras entidades que viessem a solicitar apoio na formação (Forças de Segurança, Escolas ou Institutos, entidades privadas).

Pensei no assunto e propus o TCor Gaspar que estava na AM e ele concordou, mas que fosse falar com ele a perguntar se aceitava. Fui num fim de tarde à AM e no parque junto à sala de Tm tivemos uma longa conversa e utilizando todos os argumentos que arranjei acabei por o convencer. Assim iniciou-se um novo ciclo na Formação Profissional com um grupo de jovens engºs muito activos e criativos começando a surgir Centros de FP por todo o país, públicos e privados, primeiro para electrónica depois para outras novas tecnologias como, por exemplo, o CAD/CAM.

Curso de Soldadura

Numa visita à Feira de Electrónica de Munique deparei num dos corredores com um indivíduo sentado num caixote, tipo vendedor ambulante, o que era fora do normal e perguntei-lhe o que fazia ali.

Apresentou-se e disse que não tinha conseguido arranjar espaço para um stand, mas deram-lhe autorização para ficar num corredor. Era dos EUA e o seu produto eram ferros de soldar de temperatura controlada e cursos de técnicas de soldadura para electrónica. Tivemos uma longa conversa em que me explicou o âmbito dos cursos e como funcionavam. Propus-lhe que no regresso aos EU fizesse escala em Lisboa. Assim fez e apareceu na DAT e apresentei-o ao Gen Pereira Pinto e repetiu as explicações que já me tinha feito.

O Gen Pereira Pinto gostou e pediu que fizesse uma proposta a um preço especial para realizar um curso para técnicos seniores para a avaliação do curso. Chegou-se a um acordo e propus uma lista de Sarg Radiomontadores seleccionados entre os disponíveis e mais experientes. Tive de ouvir contestações do género: ”Ao fim de tantos anos de serviço é que nos vão ensinar a soldar!”. O Cap Miguel Leitão foi encarregado de organizar o curso de demonstração e dar um parecer sobre o interesse para o Exército e os elementos que tomaram parte no curso dar a sua opinião por escrito. Todas as informações foram no sentido de que a implementação destes cursos era  fundamental e que todo o pessoal radiomontador deveria fazer este curso. Perante isto o Gen Pereira Pinto determinou a aquisição do curso e do material de apoio necessário. O curso foi adquirido e o Cap Miguel Leitão (meu irmão) ficou encarregado da execução da tradução e dobragem para português dos audiovisuais, e de implementar o curso na EMEL.

Assim que os cursos se iniciaram começaram a chegar à DAT solicitações para este curso de entidades públicas e privadas.

As oficinas passaram a ser dotadas de ferros de soldar com temperatura controlada.

Mestrados

Após a minha apresentação na DAT expressei ao Gen Pereira Pinto o meu desejo de fazer o mestrado e, se possível o doutoramento, em EE.

Respondeu-me que iria ver como tal seria possível mas, mais tarde, disse-me para primeiro acabar as tarefas que tinha entre mãos.

Aconteceu que o Prof. Tribolet (de quem fui graduado no CM – Colégio Militar) me contactou para me dizer que tinha criado no INESC o curso de Mestrados e se o Exército estaria interessado em inscrever engºs nesse curso. Debati este assunto com o Gen Pereira Pinto e olhando para a lista de oficiais seleccionámos os Majores Carlos Alves e Diniz da Costa.

Lembro-me, como se tivesse sido ontem, o que se passou quando o Gen P.P. me informou que aqueles dois oficiais tinham recusado porque tinham receio de fazer má figura. Primeiro fiquei como que paralisado depois, deve-me ter aumentado o nível de adrenalina, virei-me para o Gen P.P. e disse: ”Um oficial do Exército não devia ter receios e que o Gen P.P. dava a ordem e mandava passar a guia de marcha”. O Gen P.P. olhou para mim durante uns momentos e depois disse: ”É isso mesmo”. Eles foram fazer o Mestrado e não fizeram má figura. Nos anos seguintes outros oficiais fizeram Mestrados e, lamentavelmente, esse hábito acabou.

Guerra Electrónica

Periodicamente fazia um briefing ao Gen P.P. da evolução dos trabalhos a meu encargo. Nessas alturas perguntava-me sempre se tinha mais ideias. Ora andava há tempos a pensar como se poderia iniciar a formação em GE especialmente em Intercepção, Análise de Sinais e Radiolocalização, pois essa tinha sido a razão das Tm serem uma Arma e não um Serviço. Do que tinha conseguido investigar os principais fornecedores de países NATO eram a HP e a R&S, esta com vantagem sobre a HP que não tinha Radiolocalização e ser na Europa. Tinha tido contactos com ambas as firmas e a questão era se eram capazes de propor a instalação duma sala com simuladores, bancadas com os equipamentos de escuta e Análise de Sinais e formação de instrutores. A R&S informou-me que estavam em condições de fazer uma proposta nesse sentido, pois já o tinha feito para outras entidades.

Apresentei esta ideia ao Gen P.P. que achou que era para concretizar. Solicitei à R&S uma orçamento estimativo que foi inscrito no orçamento da DAT (julgo que foi 1981). O Centro de instrução de GE ficou concluído em finais de 1982 e, se não me engano, foi o Maj Daniel Ferreira o primeiro responsável pela organização dos cursos. Anos mais tarde foram adquiridos equipamentos para Intercepção, Análise e Radiolocalização, para HF e VHF, instalados em viaturas, que foram integrados no pelotão de GE da COAI.

Seria bom que todos os oficiais de Tm, em especial os Eng. e de Exploração, tivessem o curso de GE, como no meu tirocínio tínhamos o curso de Morse, mas julgo que isso não acontece.

Estágios

Uma das propostas que fiz ao Gen P.P., quando fui colocado na DAT, foi a dos estágios de engenharia serem estudos e/ou projectos com interesse para o Exército ou, em especial, para a Arma de Tm.

Concordou, mas que teria de ser eu a fazer a orientação dos estágios.

O primeiro foi o do Cap Miguel Leitão.

Escolhi como tema “Baterias seu armazenamento e manutenção”. Para as baterias de CdNi desenhei o circuito para carga de elementos individuais. Foi feito um protótipo em circuito impresso a partir do qual se fizeram os numerosos circuitos que foram montados num bastidor (recuperado).

Passou-se então a testar os elementos das baterias do TR-28 e a formar novos conjuntos com os elementos recuperados. O trabalho foi muito bem sucedido. Julgo que foi a primeira vez que se fez um estudo aprofundado sobre Pilhas no Exército.

Assim começou o embrião do Gabinete de Estudos&Projectos (GEP).

Orientei os estágios de, pelo menos, mais dois cursos tendo sido os temas variados mas incidindo em especial nos projectos em curso do PRC-425 e Cabines de Tm.

  

-AQUISIÇÃO DE TECNOLOGIA-

Circuitos Impressos

Em 1978 o LNETI já tinha um centro de formação em projectos em CAD/CAM mas de cada vez que era necessário fazer um protótipo, em especial se fosse com furos metalizados, tinha que se encomendar ao estrangeiro e com as dificuldades das licenças de importação de então perdiam-se várias semanas senão meses. Resolvi ir falar com o Eng. Cabral da Fonseca, sub-director para a industria eléctrica e electrónica da DGI. Apresentei-lhe a questão e disse-me que já tinha tentado adquirir a tecnologia, mas as verbas necessárias eram muito elevadas e portanto para esquecer.

Não fiquei convencido. Não me lembro como, mas descobri uma firma francesa que fazia formação na tecnologia de circuitos impressos de furo metalizado (CIFM) e forneciam o equipamento para laminagem do filme foto-sensitivo, impressão, revelação, corte e furação. Os tanques para metalização é que eram de muito má qualidade. Numas férias em casa dos meus sogros em Pforzheim, centro da industria do ouro na Alemanha, passei em frente duma montra com tanques de metalização para as ourivesarias. Contactei com a firma e fui à fábrica onde fabricavam os tanques. Expliquei o que pretendia e mostraram-me uns tanques que estavam a montar por encomenda do exército alemão produção de CIFM. Tinha encontrado o elemento que faltava.

Apresentei a minha ideia ao Gen P.P. que, mais uma vez, aprovou e que iniciasse o processo de aquisição dos equipamentos e arranjasse um local no DGMT para o Laboratório de Circuitos Impressos. O local foi o antigo armazém de sobressalentes. O Cor Morujão, Director, conseguiu a recuperação do edifício e o Cap Miguel Leitão ficou o responsável da instalação e supervisão das obras e instalação eléctrica, águas e esgotos. O Cap Miguel Leitão foi a França tirar o curso de produção de CIFM e começou a fazer os primeiros CIFM em Portugal. Os processos são químicos e era necessário dar continuidade ao laboratório o que não seria possível com um oficial do QP. Propus ao Gen P.P. para se admitir uma engenheira química, a Eng.ª Ana Julia, e ele concordou e disse que iria solucionar este assunto. Assim foi e o laboratório iniciou uma laboração com solicitações do IST, ISEL, empresas privadas, etc., e a tecnologia foi endogeneizada. Afinal não era muito difícil nem muito dispendioso.

Circuitos Híbridos

No dia da Arma, julgo que foi o de 1981, com o Cmd do Exército presente, o Gen Firmino Miguel disse-me: ”Agora que o PRC-425 está pronto tem de fazer o Hand-held que é o Rádio da Infantaria”. Essa ideia já a tinha, pois o AVP-1 era muito pesado e só tinha meia dúzia de canais e com uma tecnologia antiquada, mas o problema estava em que era necessária uma tecnologia para miniaturização dos circuitos chamada de Circuitos Híbridos (CIHI).

Perguntei ao representante da R&S se esta firma não poderia dar-nos apoio técnico na realização de CIHI e algum tempo disse-me que isto era possível. Esta tecnologia exigia um certo trabalho de investigação, pois estava ainda no início, o que não poderia ser feito nas Tm. Debati o assunto com o Gen P.P. e chegámos à conclusão de que o local ideal seria o LNETI. O Gen P.P. falou com o Prof. Veiga Simão e foi acordado um protocolo Exército/LNETI pelo qual o Exército suportaria os encargos com a assistência técnica e o LNETI com instalações e pessoal. O laboratório funcionou vários anos, infelizmente com pouca rentabilidade, e depois surgiu nova tecnologia para a miniaturização dos circuitos impressos e a do CIHI foi abandonada.

 

 

CAPITULO III

1983 

Em Junho de 1983 ia fazer 40 anos. Conforme já referi em 1974 tinha a intenção de passar à reserva tendo acabado por entregar o requerimento que foi para a DAT. O Gen Sanches da Gama mandou-me ir falar com ele e disse-me para reconsiderar. Após uma longa conversa em que disse saber do meu interesse pela actividade de engenharia (foi o meu comandante em Angola) e que iria falar com o Cor Simões (Chefe da Rep. Mat.) para me apoiar, na medida do possível, nas actividades que viesse a ter no DGMT e que se mais tarde continuasse com vontade de passar à reserva, fosse falar com ele. Aceitei!

(já estava na reserva e soube que o Gen Pinto Correia encontrou numa gaveta da secretária do Dir. da Arma esse meu requerimento).

O que se passou a seguir já descrevi atrás e na realidade estava tão entusiasmado com o que estava a fazer que optei por continuar ao serviço. No entanto, ficou nos meus planos que, houvesse o que houvesse, aos 40 anos passaria à reserva.

Já na DAT, e logo que foi oportuno, informei o Gen P.P. destes acontecimentos e também do meu ensejo de fazer um mestrado, mas já me tinha começado a envolver no projecto do PRC-425 e ele disse que deveria primeiro concluir o projecto e depois falaríamos.

Voltando ao assunto deste capítulo, no inicio de 1983 a produção do PRC-425 e montagens veiculares e dos FM-200 decorria normalmente com a supervisão dos Cap Pinto e Quintela Leitão. O Maj Costa Dias continuava na Centrel na ultimação da família PRC-425, controlo remoto e função repetidor. O Maj Pinto de Castro tinha entretanto abandonado o projecto para ir comandar a Comp. Tm da BMI.

As Cabines de Tm estavam a ser montadas com a supervisão do Cap Moreira também responsável pela montagem do mobiliário, instalação eléctrica e de sinais e equipamentos.

As oficinas do DGMT estavam em funcionamento incluindo a área de manutenção dos teleimpressores e com uma área para a manutenção para os pára-quedistas com pessoal das Tropas Pára-quedistas.

A razão da presença de pessoal paraquedista foi consequência do, então, Cor Almendra, ter ido à DAT solicitar ao Cor Falcão apoio técnico para a montagem duma oficina de Manutenção no BTP e estando presente disse que o investimento não se justificava para a quantidade de equipamentos a que se destinava e propus que fossemos falar com o Gen P.P. para solicitar autorização para que no DGMT fosse feita a manutenção dos equipamentos das TP com pessoal dos pára-quedistas e ele de imediato concordou e sem muitas burocracias foram os “Paras” para o DGMT. Julgo que foi a primeira ruptura do corporativismo nas FA.

O Reabastecimento estava nas novas instalações e sob a orientação do Maj Golias foi reestruturado e estabelecidas normas de procedimento ficando a funcionar como tinha imaginado.

O 4ºEscalão continuava a fazer a recuperação dos equipamentos e cablagens nas mesmas instalações, mas que o Cor Morujão tinha conseguido que fossem recuperadas, e agora com um Chefe de Oficina e dotado com o pessoal necessário.

Tinha-se passado do séc. XIX para o séc. XX, do artesanato para o profissionalismo, mas sem perder o ambiente humano tipo “familiar” que todos os que estiveram no DGMT percebem o que quero dizer.

Na EMEL o Cor Gaspar tinha sido nomeado 2ºCmdt, o Maj Brites tinha concluído as instalações nas várias salas de aulas, tinha sido feito o curso de monitores e estavam a decorrer os cursos de formação para Sargentos e Praças assim como do curso de soldadura.

Estes anos na DAT, que sob a Direcção do Gen P.P. secundado pelo Cor Pedroso Lima, que funcionava quer como catalisador quer como apaziguador, funcionou como uma grande equipa, ou talvez “taskforce”, no sentido de modernizar a Arma nas vertentes Operacional, GE, Logística e de Engenharia. As minhas relações com o meu chefe de Rep., o Cor Falcão, em que partilhávamos as tarefas de acordo comum face às missões e/ou solicitações que iam surgindo, não podiam ter sido melhores.

Ter trabalhado sob as ordens do Gen P.P. foi um grande momento na minha carreira militar e profissional. Nunca tinha tido um superior que nunca me dizia logo não às propostas que fazia. Quando tinha dúvidas ou não estava de acordo dizia necessitar de ser melhor esclarecido e/ou que iria pensar no assunto indo, por vezes, trocar impressões com alguém, normalmente o Cor Pedroso Lima, e depois debatíamos de novo a questão convencendo-me algumas vezes que eu não tinha razão.

Quando aceitava lutava por todos os meios para a sua concretização como foi com o projecto do PRC-425, a contratação da Eng.ª Ana Julia para o laboratório dos CI, e todos os outros projectos que foram realizados durante a sua vigência como Director da Arma de Tm.

Finalmente disse-me que se queria passar à reserva não se ia opor mas que devia esperar pela semana da Arma, que nesse ano foi na EPT, em que queria fazer a apresentação do resultado de todos os projectos em que tínhamos estado envolvidos e ainda a demonstração duma rede táctica, incluindo estações repetidoras, comandos à distância e IRF, em operação. Tudo correu muito bem e as Cabines de Tm foram apresentadas pelo Cap Moreira com um PCmd, com camuflagem, que foi muito admirado. Após o que fiz o requerimento que seguiu para o EME tendo o CEME, o Gen Garcia dos Santos, informado que queria falar comigo. Fui ao EME e enquanto aguardava para entrar para o gabinete o Gen Salazar Braga e o Gen Firmino Miguel mandaram-me chamar e tentaram-me a continuar ao serviço. O Gen Garcia dos Santos quis saber a razão do meu requerimento e expliquei e ele compreendeu e o requerimento foi deferido. A data que escolhi para a passagem à reserva foi, por um certo motivo especial, o 1º Maio e no dia 1 de Abril entrei de férias tendo assim terminado a minha carreira militar no activo.

Para despedida ofereceram-me um grande almoço num restaurante perto da igreja da Graça.

Logo no início do ano correu a notícia das minhas intenções e o Cor Morujão convidou-me para almoçar no DGMT e quando lá cheguei encontrei um grupo de oficiais ex-alunos do CM (Colégio Militar), de Tm e de Eng.ª incluindo o Gen Rocha Vieira e, num agradável convívio, tentaram convencer-me a continuar no activo. O Gen Rocha Vieira deu como argumento que estava para ser criado o Corpo de Engenheiros e quando tinha saído do EME o processo estava muito avançado. Este teria sido possivelmente um motivo para continuar ao serviço, mas não acreditava que alguma vez isso viesse a acontecer (tinha razão).

A notícia chegou às empresas que trabalhavam connosco e comecei a receber convites de emprego de quase todas e, não sendo a que propunha melhores condições, aceitei o convite da Centrel pois era aonde via mais hipóteses de continuar a projectar. Comecei a trabalhar na Centrel no dia 1º Abril, no dia em que comecei as minhas férias (dia das mentiras ah! ah!).

 

 

EPÍLOGO

 

Comecei na Centrel como Dir. Geral de Marketing. Em 1984 fui nomeado Dir. Geral da fábrica da Princesa que fabricava os telefones, centrais telefónicas e televisões. No início de 1985 passei a Dir. Geral da EID e depois a membro do conselho de Administração.

Na EID comecei com o projecto duma central telefónica, o DIGICOM.

Seguiu-se o projecto duma pequena C.Telef. em conjunto com a GTE, na Bélgica partir do DIGICOM concebi a Central de Campanha.O telefone BLC101 foi revisto e passou a ter teclado.

Em simultâneo comecei a conceber o PRC-501. Para a caixa optei pelo fabrico com fundição e cera perdida numa fábrica em Singmarine, RFA.

Soube nessa altura que pensavam montar uma fábrica em Espanha e, com a ajuda do Gen. Mateus da Silva, consegui que montassem a fábrica na Maia. Este projecto deu-me enorme prazer pois utilizei a técnica dos Circuitos Híbridos e porque vendi a licença de produção para a Bélgica e para o Brasil para serem fornecidos aos respectivos exércitos.

Seguiu-se o projecto dos ICC (intercomunicadores de CC) em que o Cor Cav. Pereira Coutinho definiu todos os requisitos operacionais, e o projecto do E/R de HF, VRC-301.

Por último, comecei a conceber o substituto do PRC-425, que viria a ser o PRC-525. Estavam a decorrer os estudos prévios quando saí da EID e fui para TELERUS que era o representante da R&S. Para o projecto do novo rádio era necessário encontrar um sintetizador que permitisse fazer Hoping e descobri que a R&S tinha um sintetizador em circuito integrado que obedecia a este requisito. Falei com eles.

Não se opunham em a EID o poder utilizar até porque estavam interessados em participar no projecto. Pus a EID e a R&S em contacto e depois de negociações e alguns acidentes de percurso o projecto foi concluído e é o novo rádio do nosso Exército.

Este foi o último projecto em que participei.

Depois foi a Reforma.

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8 comentários a “TCor Rodrigo Leitão

  1. Lamento sinceramente que o General Sanches da Gama já tenha “partido”.
    Do Homem que conheci apenas tenho que referir dois pontos, que o definiram como um militar que tratava todos por igual, e da pessoa que abdicava das honrarias militares para não interromper o normal funcionamento da Unidade.
    No que se refere ao tratamento por igual de todos, independentemente do posto, a situação passou-se comigo.
    Estando eu de Sargento dia á Unidade acompanhando o Oficial dia, quando nos aproximamos da zona do comando, fomos surpreendidos com a apresentação de uma das antenas do então Capitão Rodrigo Leitão. Como só estavam nesse grupo Oficiais com patentes igual ou acima de Capitão, eu resolvi afastar-me, quando senão escuto uma voz “nosso Furriel não faz parte da Unidade”, quando me volto deparo com o então Cor Sanches da Gama a olhar para mim, e convidou-me a juntar ao grupo.
    A outra situação é de nível geral, o ATmA, tinha uma porta de armas antiga que estava encerrada, mas passou a ter lá um soldado da guarda até chegar de manhã. Entrava por essa porta abdicando das honrarias militares a que tinha direito.

    Reinaldo Macedo

  2. Em relação ao general Sanches da Gama, falecido há cerca de dois anos, se a memória não me falha e que, em 1975, quando era Diretor da Arma me recebeu, com a maior cordialidade, quando regressei à Arma depois de mais de uma década a prestar serviço no Estado Maior do Exército, aproveito para lembrar dois episódios marcantes do percurso do nosso saudoso general nas Transmissões.

    O primeiro passa-se em Março de 1974, era coronel, no mês anterior ao 25 de Abril, em que foi demitido das funções de comandante do Regimento de Transmissões pelo general Comandante da Região Militar. Isto por ter tido a coragem de, seguindo o pedido da Comissão do Norte do MFA, ter telefonado ao comandante da Região a mostrar o seu repúdio pela exoneração dos generais Spínola e Costa Gomes, na sequência da sua não participação na jornada de apoio a Marcelo Caetano conhecida pela “brigada do reumático”

    O segundo é anterior e passa-se na Guiné, num brieffing no QG, durante a Guerra colonial, quando Sanches da Gama era o Comandante das Transmissões na Guiné e o general Spínola o Comandante do CTIG. No brefing estava o comandante de uma força a descrever “o sucesso de uma operação que só tinha sido possível porque as Transmissões tinham funcionado impecavelmente“.

    Ouvindo isto, Sanches da Gama levantou-se imediatamente e disse, dirigindo-se ao Comandante Chefe:
    – Saiba Vossa Excelência, meu General, que tal não voltará a acontecer!

  3. Quanto ás antenas, ainda assisti á montagem de uma e sua apresentação frente ao comando da unidade, Estando presente o então comandante da unidade Cel. Sanches da Gama, (será que ainda tem o problema da sua ulcera estomacal).
    Reinaldo Macedo

  4. Foi com muito prazer e orgulho que encontrei este trabalho feito pelo meu primeiro comandante de companhia, na CI do AtmA, já lá vai o distante ano de 70. Era então o Capitão Rodrigo Leitão, um jovem, com um andar desengonçado, que pouco parava nas companhias que tinha a seu encargo (CI e CCS), pois tratava-se de um homem ligado á investigação. Criticas e inveja era o pão nosso de cada dia. Dou-lhe os meus parabéns por nunca ter desistido, este pais ficou mais rico e o senhor realizado. Foram aflorados nomes aqui como o do General Sanches da Gama, meu digníssimo comandante da unidade. Coronel Gaspar, meu comandante na Companhia de Transmissões, e por último o capitão Garcia dos Santos. O Cel. Mário Leitão conheci-o numa visita que fez ao ATmA em 1971, se não estou errado como Inspetor da Arma de Transmissões, Usando ainda a farda amarela luvas e um pingalim na mão.
    Quando sai do AtmA , e da vida militar em julho de 1973, o então capitão Rodrigo Leitão continuava nas suas investigações no STM.
    Bem-haja
    Reinaldo Macedo

  5. Foi com o maior prazer que li os comentários do TCor Pinto ao texto do TCor Rodrigo Leitão.

    Por duas razões essenciais : a primeira por ser rara a participação de pessoal de Manutenção do Blogue; a segunda porque considero muito importante a ação do TCor Pinto em todo o processo de participação da Arma no desenvolvimento de equipamentos de Transmissões em cooperação com a indústria nacional e pela qual tem toda a razão para se sentir orgulhoso.

    Faço por isso votos para que, a exemplo do TCor Leitão, nos conte também, neste Blogue, a história da sua participação no processo, o que, pela minha parte, desde já agradeço.

  6. O Tenente-Coronel Joaquim Pinto tem razão. Ele teve um papel muito importante em muitos destes projectos de Desenvolvimento e estabeleceu uma exemplar ligação entre a Indústria Nacional e o Exército (Arma de Tm)
    J.Golias

  7. Meu caro R.Leitão se por acaso quiser mais algumas infos para escrever mais alguma coisa sobre o esforço desenvolvido em prol do desenvolvimento da indústria nacional e do autentico ninho criador de empresas de tecnologias de ponta que vós os três fosteis (RL-CD-PC), estou disponível se o entenderdes. Segue o meu mail sem gralhas – jjppinto@hotmail.com

  8. Então o meu caro mestre R.Leitão esqueceu o contributo do capitão Pinto nos desenvolvimentos e produção do BLC-101 da Central de Campanha, e na execução de detalhado manual de manutenção nivel 3 do Prc-425 que obrigou à introdução de hábitos de Normalização da Manutenção dos equipamentos de Campanha, áreas nas quais me orgulho de ter dado o meu contributo sempre com apoio e confiança quer da Sua parte como da dos Cor Costa Dias e Maj Gen Pinto de Castro primeiro e mais tarde do TC Golias nas áreas quer da produção como do planeamento Logístico.
    A todos vós mestres com quem tive o prazer de trabalhar, o meu muito obrigado pelo que me ensinasteis e pela confiança depositada.
    Bem hajam, um grande abraço e um até sempre do
    Joaquim João Pinheiro Pinto
    T.Cel TMANTM Refº
    jjppinto@otmail.com

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