História das Tm

Pode dizer-se que a história das Transmissões começa em 1810, quando foi criada a primeira unidade responsável pela transmissão de informação a distância – o Corpo Telegráfico. É certo que as comunicações para fins militares coexistem com as origens do próprio conflito, mas a criação do Corpo Telegráfico obedeceu às necessidades de um contexto de guerra, com as tropas invasoras presentes no território português, provavelmente a caminho de Lisboa. Foi natural, portanto, que a sua primeira grande acção ocorresse nas Linhas de Torres Vedras, grande operação defensiva das forças anglo-portuguesas, em torno da capital.

A comunicação de mensagens fazia-se, naquela época, por telégrafos ópticos, através de linhas com vários postos que transmitiam em cadeia. Este sistema prestou grandes serviços, sabendo-se hoje que nestes postos guarnecidos por pessoal do Corpo Telegráfico se usaram telégrafos portugueses, inventados pelo seu primeiro director, Francisco Ciera. Depois da guerra, a rede de postos estendeu-se pelo país, constituindo a primeira rede de comunicações a distância.

Em meados do século XIX o telégrafo eléctrico chegou a Portugal, substituindo o telégrafo óptico e levando o sistema de comunicações a quase todo o território nacional. Nesta rede, inaugurada em 1855, utilizaram-se inicialmente os telégrafos Breguet e depois os telégrafos Morse, acabando estes por serem os dominantes. A nova rede foi de início operada pelo Corpo Telegráfico, que, depois de ter assegurado a transição da telegrafia óptica para a telegrafia eléctrica, viria a ser extinto, passando a rede para a responsabilidade do Ministério das Obras Públicas.

Em 1873 o Exército voltou a ter uma rede telegráfica permanente própria, inaugurada no dia 17 de Setembro, que ainda hoje se mantém como “Dia do Regimento de Transmissões”, por marcar o início da existência de uma estrutura permanente de comunicações militares. No ano seguinte foi criada a Direcção do Serviço Telegráfico Militar e publicadas pelo seu director, capitão Francisco da Câmara Leme, as primeiras “Instruções Provisórias para o Serviço das Estações Militares”.

O capitão de Infantaria Bon de Sousa foi nomeado, em 1880, director do Serviço Telegráfico Militar, cargo em que se manteve até 1901. Neste período foi desenvolvida a rede de telegrafia eléctrica, a de pombais militares, reintroduziu-se a telegrafia óptica (telegrafia visual através de semáforos, lanternas e heliógrafos), realizaram-se as primeiras experiências com telefones e foi constituída a primeira unidade de transmissões de campanha – a Companhia de Telegrafistas.

No início do século XX as transmissões passaram a depender da Arma de Engenharia, com a criação da Inspecção dos Telégrafos Militares e da Companhia de Telegrafistas de Praça, tendo prosseguido os trabalhos anteriores com a montagem da primeira rede telefónica militar e a introdução da telegrafia sem fios (TSF) em Portugal, rede que começou com a instalação de quatro estações Telefunken, adquiridas em 1909.

Com a reorganização republicana do Exército, em 1911, surgiu a Inspecção dos Serviços Telegráficos Militares e foi criado, em 1913, o Batalhão de Telegrafistas de Campanha, constituído essencialmente por uma Companhia de TPF e uma Companhia de TSF, unidade que veio a desempenhar um papel importante na participação portuguesa na Primeira Guerra Mundial nas três frentes (Angola, Moçambique e Flandres), em especial nesta última, onde as forças portuguesas se integraram no sistema britânico. Os meios de transmissões utilizados foram principalmente os telefones (forma mais comum de comunicação), os telégrafos, os equipamentos rádio (sobretudo nos escalões mais elevados), pombos-correio, foguetes de sinais, e, como sempre, os mensageiros. Os homens de transmissões, que lançaram e repararam quilómetros de linhas, ficaram conhecidos na gíria das trincheiras como “os alicates”. O chefe do serviço telegráfico do CEP foi o então major de Engenharia Soares Branco, que muito se distinguiu nas suas funções.

Em 28 de Maio de 1926 um pronunciamento militar derrubou a Primeira República e implantou uma ditadura militar, dando origem, a partir de 1932, ao regime do Estado Novo. Neste período procedeu-se a uma reorganização do Exército, sendo as actividades de transmissões cada vez mais centralizadas no Regimento de Telegrafistas, criado em 1926. Ao longo das décadas de 30 e 40 a evolução continuou a dar-se sobretudo nas transmissões permanentes, embora ambos os sectores (permanentes e de campanha) tenham beneficiado de um plano de produção de material, tanto nas Oficinas Gerais de Material de Engenharia como no Batalhão de Telegrafistas.

Depois da II Guerra Mundial assistiu-se a uma grande evolução dos sistemas e dos equipamentos de transmissões militares, que Portugal aproveitou depois da criação da NATO, em 1949, da qual foi membro fundador. Neste contexto, foi criada, no início dos anos 50, uma Divisão NATO (3ª Divisão ou Divisão SHAPE), com sede no Campo Militar de Santa Margarida, ambiente fundamental para a renovação do Exército e das transmissões militares.

Depois da extinção do Serviço Telegráfico Militar, foi criado, em 1951, o Serviço de Telecomunicações Militares (STM) vocacionado para as comunicações permanentes, que passou para a dependência directa do ministro do Exército, o que conduziu, nos anos seguintes, a uma melhoria significativa das redes permanentes do continente e ilhas.

Por outro lado, em relação às transmissões de campanha e no âmbito das manobras anuais da Divisão SHAPE, foi criado o Batalhão de Transmissões nº 3 (BTm3), unidade organizada segundo o modelo americano, completamente motorizada e dotada de material novo. Esta unidade de campanha granjeou um justo prestígio no seio do Exército, não só pela sua novidade e eficiência, mas também pelo empenho e competência dos seus quadros e tropas, constituindo-se em modelo para uma geração de oficiais de Transmissões.

São de assinalar, nesta época, algumas mudanças que demonstram a transformação técnica da área das comunicações e da importância que elas assumiam no seio do Exército – a criação da Escola Militar de Electromecânica, em 1952 e o desenvolvimento das áreas de exploração e manutenção das transmissões, originadas nas respectivas funções do BTm3.

Embora as transmissões do Exército continuassem a depender da Direcção da Arma de Engenharia iam-se criando condições para uma futura separação, objectivo que foi surgindo como natural, mas que só teria concretização efectiva em 1959, com a criação da Direcção da Arma de Transmissões. Bastante tardia, em relação às expectativas dos seus oficiais, foi a criação da Arma de Transmissões, que só se concretizou em 1970.

Entretanto, no âmbito da preparação do Exército para o conflito ultramarino que se adivinhava, as Transmissões prepararam a sua participação, sobretudo em comunicações permanentes, através do STM, mas também de apoio às operações, através das transmissões de campanha. No quadro da Guerra Colonial, com a dispersão das unidades e com a generalização dos dispositivos em quadrícula, mais se fez sentir a necessidade dos dois tipos de meios de comunicação – tanto a mais longa distância, para ligar os quartéis e as bases das forças dispersas por imensos territórios, como a distâncias mais curtas, dentro das zonas de acção de cada unidade, no âmbito da sua actividade operacional. As transmissões, assentes em meios técnicos de alta especificidade, foram sempre desenvolvidas, aperfeiçoadas e suportadas pela Arma de Transmissões, cujos engenheiros, técnicos e especialistas se encarregaram de dar resposta aos problemas que as características do ambiente operacional e geográfico lhes foram colocando.

Podemos dizer que as transmissões foram, no quadro da Guerra Colonial, um dos elementos base da actuação das unidades do Exército, não apenas no desempenho operacional, mas também na oportuna exploração das informações militares. O esforço feito, que partiu quase do zero, conduziu a uma notável evolução dos equipamentos, dos procedimentos e do conhecimento técnico, operacional e logístico relativos às comunicações a longa distância e às ligações de campanha. Nos territórios em guerra, Angola, Guiné e Moçambique, foram criados, pelas Transmissões, vastos e importantes sistemas de transmissões permanentes, cuja preparação se iniciou ainda antes da eclosão das operações militares. Também foram montados sistemas de transmissões de apoio táctico (transmissões de campanha) que apresentaram sérias dificuldades na garantia de ligação, nos primeiros anos da guerra, enquanto o equipamento base atribuído às unidades de combate não foi o RACAL TR-28, em especial em Angola e Moçambique.

No relativo sucesso que teve a Arma de Transmissões na criação de um sistema de transmissões de resposta satisfatória ao apoio do tráfego de comando logístico e operacional não devemos esquecer que, para além do talento e capacidade revelada pelos principais responsáveis, muito se deveu à qualidade do pessoal que o soube executar. Oficiais, sargentos e praças de manutenção e exploração, assim como os especialistas das Armas foram os grandes obreiros da viragem que ocorreu nos teatros de operações, onde “nas Transmissões quase tudo estava por fazer”.

Entretanto, com o prolongamento da guerra, os quadros médios do Exército iniciaram, como é conhecido, um movimento de protesto e de contestação em relação à continuação do conflito e também de questionamento da própria natureza do regime político. Constituiu-se assim o Movimento dos Capitães, a partir de meados de 1973, em que se integraram muitos oficiais da Arma de Transmissões, tanto em Portugal, como nos territórios em guerra, de Angola, Guiné e Moçambique.

O Movimento veio a planear, a partir do início de 1974, um golpe militar para o derrube do poder, o que se concretizou com o 25 de Abril de 1974, no qual teve papel decisivo o então tenente-coronel Amadeu Garcia dos Santos, da Arma de Transmissões, que concebeu e preparou o Anexo de Transmissões da Ordem de Operações, coordenou as acções necessárias ao apoio à operação e fez parte do Posto de Comando da operação que derrubou o regime e esteve instalado no Regimento de Engenharia nº 1, na Pontinha, em Lisboa.

O mesmo oficial viria a desempenhar, também no âmbito das transmissões, importante papel nos acontecimentos de 25 de Novembro de 1975, decisivo confronto a que o processo revolucionário conduziu os militares, e após o qual se iniciou uma mais tranquila transição para a democracia. Nos acontecimentos deste período estiveram empenhados muitos militares de Transmissões, não apenas no processo mais propriamente político, mas também no apoio institucional a vários actos de consolidação do novo regime democrático, como os processos eleitorais, em especial nas eleições constituintes de 1975 e nas eleições legislativas, presidenciais e autárquicas de 1976. É ainda de realçar a sua participação em várias funções técnicas e administrativas em empresas públicas e outros serviços do Estado.

Após estes acontecimentos, tanto o Exército como a Arma de Transmissões passaram por processos de reestruturação, que nos trouxeram até à actualidade, sendo de realçar a forma como os quadros e as tropas de Transmissões assumiram essa mudança e as novas missões que lhes foram atribuídas. Neste período deve assinalar-se a figura do general Pereira Pinto, como personalidade relevante na transformação da Arma.

Até ao final do século, as Transmissões foram adquirindo novas valências e capacidades, de entre as quais se devem destacar as seguintes:

– Participação no desenvolvimento e produção de rádios militares de campanha de nova geração, em colaboração com a indústria nacional;

– Profunda alteração do sistema de transmissões permanentes, através do desenvolvimento de um projecto integrado, o SITEP, Sistema Integrado de Transmissões do Exército Português;

– Colocação do Serviço de Informática do Exército na dependência da Direcção da Arma de Transmissões;

– Constituição de unidades de transmissões para missões no exterior, no âmbito da ONU, actuando a primeira em Moçambique.

As Transmissões continuam hoje a assegurar a respectiva componente de apoio ao Exército, através do estudo, planeamento e coordenação das actividades de comunicações e sistemas de informação, da guerra electrónica, da segurança das comunicações e da formação dos quadros e técnicos necessários às suas missões.

Cor Aniceto Afonso, pela Comissão da História das Transmissões

 

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5 comentários a “História das Tm

  1. Estou a fazer um estudo sobre balões cativos e livres na estrutura militar Portuguesa.
    Um pregunta que surge é se alguma vez as Transmissões usaram aeróstatos para as comunicações.

  2. A respeito do heliógrafo Martins apenas acrescento que o único exemplar que conheço – do modelo grande – está exposto no Núcleo de Transmissões do Museu de Palmela

  3. gostei de visitar e ler o vosso site. se possivel gostaria de saber se o 2º sargento amanuense Manuel Martins da DTPMC, construiu dois heliografos, e que ficaram, conhecidos com o seu nome – heliógrafos de Martins, que foram considerados “simples e vantajosos, tendo dado os ” mais apreciaveis resultados” (ofício nº 470 da DTPMC de 15-08-1884. desculpem-me a curiosidade, mas não li nada sobre este equipamento de origem e fabrico portugues. tenho um, de colecçao, e gostaria de saber o valor.

    • Se quiser fazer o favor de ver as págs 33 e 34 do livro ‘As Transmissões militares…’, que pode consultar em pdf na sidebar do blogue, verá que lhe é feita referência e prestado tributo, e que são apresentadas duas fotos do heliógrafo de que foi inventor (aliás, uma dessas fotos é também usada aleatóriamente no header do blogue). Quanto ao valor, não o sei ajudar, mas é um equipamento de colecção, muito raro hoje em dia.

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