O símbolo @

Post do Cor Cruz Fernandes, recebido por msg:

Qual o seu significado e como apareceu o símbolo @

Todo o mundo usa este símbolo na correspondência electrónica, mas poucos saberão o seu significado e origem.

Durante a Idade Média os livros eram escritos pelos copistas à mão. Os copistas simplificaram o seu trabalho substituindo letras, palavras e nomes próprios por símbolos, sinais e abreviaturas. Não era por economia de esforço nem para o trabalho ser mais rápido. Os motivos eram económicos porque a tinta e o papel eram caríssimos. Assim surgiu o til (~) para substituir o m ou o n que nasalavam a vogal anterior. Reparando bem, ver-se-á que o til é um enezinho sobre a letra.

Francisco, também grafado Fhrancisco foi abreviado para Phco e Pco que em espanhol deu o apelido Paco.

Ao citarem os santos os copistas identificavam-nos por algum detalhe significativo das suas vidas. O nome São José, por exemplo, aparecia seguido de Jesus Christi Pater Putativos, ou seja pai putativo (suposto) de Jesus Cristo. Mais tarde os copistas passaram a adoptar, para designar São José, a abreviatura JHS PP e depois, simplesmente PP. A pronúncia dessas letras em sequência explica porque José, em espanhol, tem o apelido Pepe.

Já para substituir a apalavra latina et (e), eles criaram um símbolo que resulta do entrelaçamento dessas duas letras, o &, popularmente conhecido como e comercial, em português e ampersand, em inglês, junção de and (e em inglês), e per se (por si em latim) e and.

Foi com o mesmo recurso da entrelaçamento de letras que os copistas criaram o símbolo @, para substituir a preposição latina ad, que tinha entre outras significações o sentido de casa de.

Foram-se os copistas e veio a imprensa, mas os símbolos @ e & continuaram nos livros de contabilidade. O @ aparecia entre os números das unidades da mercadoria e o preço. Por exemplo: O registo de contabilidade 10@£3 significava 10 unidades ao preço de 3 libras, cada uma. Nessa época o símbolo @ significava em inglês at (a ou em).

No século XIX na Península Ibérica o comércio e a indústria procuraram imitar as práticas comerciais e contabilísticas inglesas. Como desconheciam o sentido que os ingleses davam ao símbolo @ (a ou em) acharam que o símbolo deveria ser uma unidade de peso. Para isso contribuíram duas coincidências:

  1. A unidade de peso para os portugueses e para os espanhóis era a arroba cuja inicial lembra a letra @.
  2. Os carregamentos desembarcados vinham frequentemente em fardos de uma arroba.

Por isso interpretava-se o mesmo registo de 10@£3 assim: 10 arrobas, custando 3 libras cada uma. Então o símbolo @ passou a ser usado na Península para designar a arroba (medida de peso).

O símbolo arroba vem da palavra árabe arruba, que significa a quarta parte. Uma arruba (15kg em úmeros redondos) correspondia a ¼ de outra medida de origem árabe, o quintar, que originou o vocábulo português quintal, medida de peso correspondente a 58,75kg.

As máquinas de escrever começaram a ser comercializadas na sua forma definitiva no século XIX, mais precisamente em 1874, nos Estados Unidos (Mark Twain foi o primeiro autor a apresentar os seus originais dactilografados) e trouxeram no seu teclado o símbolo @, mantido pelo seu sucessor – o Computador.

Então, em 1972, ao criar o programa de correio electrónico, (o e-mail), Roy Tomlinson usou o símbolo @ (at) disponível no teclado dessa máquina entre o nome do Usuário e o nome do Provedor do serviço. E foi assim que Fulano @ Provedor X, ficou significando o Usuário Fulano no Provedor X.

Na maioria dos idiomas o símbolo @ recebeu o nome de alguma coisa parecida com a sua forma: Em italiano chiocciola (caracol), em sueco snabel (tromba de elefante), em holandês apestaart (rabo de macaco). Em alguns idiomas tem o nome de um doce de forma circular: strudel, em alemão e pretazel em vários outros idiomas europeus.

Entre nós manteve a sua designação original, @rroba.

PS: Baseado num texto de stella calazans

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Os primeiros detectores de TSF

 

Nos primórdios da TSF foi a recepção, mais especificamente a detecção, a área que mais ocupou os cientistas responsáveis pela evolução da rádio, como vimos nos “posts” publicados sob o título “Pioneiros da TSF”.

A tecnologia da emissão não sofreu grandes alterações desde Hertz a Marconi; utilizou sempre o emissor de faísca baseado na bobina de indução, apenas com uma melhoria significativa, introduzida por Braun e Marconi: a sintonia da frequência emitida.

    A espira de Hertz

O primeiro receptor rudimentar foi utilizado por Hertz na descoberta das ondas electromagnéticas. Era constituído apenas por uma antena de forma circular, interrompida em determinado ponto por um intervalo de ar. Na presença de radiação electromagnética dava-se uma descarga visível, do tipo faísca,  no intervalo de ar. Não tinha qualquer utilidade prática para além da demonstração da existência dessas ondas. Era muito pouco sensível, só funcionando na proximidade do emissor, e era de difícil utilização pois, no caso de sinais mais fracos, o intervalo de ar não podia ter mais que alguns microns, obrigando à visualização da descarga  com auxílio de um microscópio.

Antena de recepção usada por Hertz. (Equipamento da frente. Atrás está a antena de emissão)

Antena de recepção usada por Hertz  (Equipamento da frente. Atrás está a antena de emissão)

   O coesor de Branly

O primeiro detector usado em transmissões TSF foi o coesor, desenvolvido por Branly. Consistia num tubo de vidro cheio de limalha de metal com dois contactos nas extremidades. Se a limalha estivesse solta apresentava uma grande resistência eléctrica entre os contactos. Quando passava uma corrente de radiofrequência de determinada intensidade pelo coesor, a limalha ligava-se (tornava-se coesa) formando um circuito de baixa resistência. Este comportamento tornou possível a detecção das ondas electromagnéticas mas era ainda inútil para a transmissão de informação pelas mesmas pois o seu estado mantinha-se inalterado quando terminava o sinal.

Esquema de coesor (esquerda) e figura de coesor real (direita)

Esquema de coesor (esquerda) e figura de coesor real (direita

É necessário referir que só é possível transmitir informação se o sinal for sujeito a um qualquer tipo de modulação. Na época, o que se pretendia era transmitir o alfabeto Morse constituído por traços e pontos, o que era possível com a modulação básica ON/OFF (presença/ausência de sinal) com o estado ON com 2 valores: um intervalo maior para os traços e um intervalo menor para os pontos.

Foi o inglês Lodge que.introduziu um dispositivo tipo martelo que, dando uma pancada seca no coesor, fazia este regressar ao estado inicial com a limalha desligada. Só assim foi possível conseguir que o coesor reflectisse a presença/ausência de sinal, permitindo receber os traços e pontos do código Morse.

O martelo batia no coesor a intervalos menores que a duração da transmissão do ponto do código Morse. Assim os traços e pontos correspondiam a várias ligações da limalha, ao ritmo do bater do martelo, enquanto a ausência de sinal correspondia a uma desligação contínua.

O receptor era essencialmente constituído por uma antena receptora, o coesor e um equipamento de sinalização, onde os sinais do alfabeto Morse eram traduzidos em sinais perceptíveis pelos sentidos humanos da audição ou da visão.

O equipamento de sinalização era, no caso dos sinais sonoros, uma campainha ou um receptor telefónico (à época já inventado) e, no caso dos sinais visuais, um receptor de Morse igual ao utilizado no telégrafo por fios. Este equipamento era actuado pela corrente de uma bateria local modulada pelo estado do coesor o que significa uma corrente sob a forma de impulsos ao ritmo do bater do martelo quando havia sinal de radiofrequência ou ausência total de corrente quando não havia sinal. Esta forma peculiar da corrente facilitava a actuação de uma campainha, era traduzida no receptor telefónico por um som com a frequência dos impulsos e era traduzida no receptor de Morse por linhas impressas a tracejado.

Receptor de Popov com coesor. Notar o aproveitamento do martelo para , em simultâneo, fazer a descoesão e fazer soar uma campaínha.

Esquema do receptor de Popov com coesor.

Esquema de um receptor de coesor com telefone. Aqui a descoesão é feita "chocalhando" o coesor através do relé e da mola mostrados.

Esquema de um receptor de coesor com telefone. Aqui a descoesão é feita “chocalhando” o coesor através do relé e da mola mostrados.

Receptor de coesor com telégrafo de Morse impressor.

Esquema de receptor de coesor com telégrafo de Morse impressor.

As figuras apresentam os receptores com os vários tipos de equipamento de sinalização. De notar o esquema engenhoso, inventado por Popov, que utilizava um único martelo para desligar a limalha e para tocar uma campainha.

Apesar de mais sensível que a espira de Hertz o coesor exigia ainda muita energia para actuar pelo que só foi utilizado para ligações a curta e média distância. Foi o detector usado por Marconi nas suas primeiras experiências mas as ligações através do Canal da Mancha e a primeira ligação transatlântica já foram conseguidas com outro tipo de detector.

Contribuição para uma Breve história da evolução das Transmissões do Exército (7)

Post do MGen Pedroso Lima, recebido por msg:

7º Período (1974 -1985) 25 de Abril

A preparação das Transmissões para o 25 de Abril, feita nas vésperas do golpe militar, fundamentalmente por razões de segurança, resumiu-se essencialmente à construção do cabo telefónico que ligava o quartel da EPT à Pontinha, onde se situava o PC e era indispensável à sua operacionalidade, e à execução do Anexo de Transmissões, elaborado pelo tenente coronel Garcia dos Santos, onde se apresentava o planeamento do apoio de transmissões.

Na execução da operação, as forças militares utilizaram o material disponível, nomeadamente o TR-28 , também utilizado pelas forças governamentais e brilhante em África mas manifestamente inadequado para a operação, pelo que o Anexo de Tm estabelecia que as colunas que se deslocavam para os seus objetivos fossem acompanhadas por viaturas civis, com oficiais, trajando civilmente, encarregados de fazer a ligação com o PC, através da rede civil (não havia ainda telemóveis), em caso de necessidade.

Embora as transmissões no 25 de Abril tivessem contribuído claramente para o sucesso da operação, com destaque para a escuta às transmissões governamentais, feita pelo pessoal da EPTm, o sistema montado, nas unidades intervenientes, em nada diferia do utilizado em África.

No PREC, que se seguiu, verificou-se a intervenção técnica importante de oficiais da Arma em várias empresas em dificuldade (RTP, CTT, TLP, Radio Renascença, DDP e RDP), nas campanhas de dinamização cultural e, posteriormente no sistema montado para o 25 de Novembro, de novo liderado pelo tenente coronel Garcia dois Santos

A seguir a este período agitado, em 1976, antecipando-se alguns anos á remodelação do Exército, a Arma impulsionada pelo seu Diretor, brigadeiro Pereira Pinto, aproveitou para se reorganizar, com a concordância e apoio do EME.

As implicações desta reorganização nos sistemas de Transmissões Permanentes e de campanha do Exército foram muito vastas.

Nas Transmissões de Campanha, a reorganização incluía a ambiciosa criação de um Batalhão de Transmissões de Campanha, que não se concretizou, apesar de aprovada pelo Estado Maior que, contudo, apoiou francamente a aquisição do material necessário para a sua concretização.

O Diretor da Arma impulsionou um vasto programa de aquisição de material de transmissões de campanha não só para o Batalhão a criar, mas para reequipar todo o Exército. Teve o mérito e a coragem de acreditar que a Arma tinha capacidade técnica de liderar um processo desta dimensão apenas com recurso à indústria nacional.

A verdade é que, quer a nova geração de eletrotécnicos da Arma, quer a indústria nacional, para surpresa de muita gente, conseguiram levar o processo até ao fim.

Foi neste contexto que se seguiu a produção de uma série de equipamentos de campanha com a colaboração da indústria nacional, o primeiro e o mais conhecido de todos foi o P/PRC-425, o conhecido “Centrel” que, ainda hoje, decorridas mais de duas décadas, continua ao serviço no Exército. Seguiram-se, entre outros, as montagens veiculares, o vastíssimo projeto das cabines, o P/VRC-301, a recuperação dos FM-200, o PRC-501, o P/BC-101 e as centrais telefónicas digitais de campanha.

Embora o material não tenha servido para o BTm a criar acabou por ser usado para equipar o BTm4, em 1993, na primeira unidade portuguesa a participar em missões de paz, no âmbito da ONU, em Moçambique e mais tarde, em 1995 na CTm5, em Angola. Estas duas unidades eram equipadas com material de Transmissões na sua grande maioria fabricado em Portugal.

No conjunto de oficiais engenheiros eletrotécnicos que, pela sua preparação técnica, tornaram possível o processo de cooperação com a indústria nacional é justo destacar o tenente coronel Rodrigo Leitão.

Mas para além deste enorme salto que se deu nas transmissões de campanha verificou-se, a partir de meados da década de 80, um processo que provocou uma enorme transformação nas transmissões permanentes e que se prolonga até hoje. O grande protagonista deste processo foi o coronel Cruz Fernandes. O seu projeto – o SITEP – consistiu na passagem do sistema analógico, nitidamente ultrapassado, para o digital.

Envolvia a aplicação de verbas elevadas e constituía uma aposta ambiciosa numa considerável melhoria da qualidade do sistema que mereceu a aprovação primeiro do Diretor da Arma general Pinto Correia e depois do general Firmino Miguel, então Vice Chefe do EME.

Todo o processo foi viabilizado numa reunião, convocada pelo EME , em que o coronel Cruz Fernandes defendeu o que chamou “o projeto da sua vida” e convenceu o general Firmino Miguel, mesmo com a clara oposição de todo o seu estado Maior.

O futuro viria a dar razão ao acerto desta decisão.

P/PRC-425

P/PRC-425

Ligações SITEP

Ligações SITEP

Contribuição para uma Breve história da evolução das Transmissões do Exército (6)

Post do MGen Pedroso Lima, recebido por msg:

6º Período (1961 -1974) A Guerra Colonial

A Guerra começou em Angola em 1961, alastrou para Guiné em 1963 e, no ano seguinte, a Moçambique.

O sistema de transmissões, montado para guerra colonial, representou uma enorme mudança, tanto nas transmissões permanentes do Exército como nas de campanha.

Contrariamente ao que sucedeu nas duas guerras mundiais do século XX, o sistema de transmissões usado na Guerra Colonial não foi, nem podia ser, uma transposição de sistemas de transmissões usados por ingleses na IGM ou americanos na IIGM, incluindo o respetivos equipamentos, mas teve que ser encontrada uma solução própria, dado o isolamento internacional da Portugal, pela sua posição contrária aos “ventos da história”.

No sistema de transmissões permanentes verificou-se uma enorme expansão para ligar a Metrópole às antigas colónias e a ter estações nos comandos dos escalões mais elevados , em Angola, Guiné e Moçambique, o que foi uma mudança significativa, se nos lembrarmos que, o sistema de transmissões permanentes do Exército se limitava anteriormente ao continente e ilhas.

Para o efeito, construi-se em Lisboa (Encarnação) um centro emissor de HF, um Centro Recetor no Campo de Tiro de Alcochete, bem como um Centro de Transmissões no Quartel da Sapadores, ligados por feixes hertzianos.

O grande impulsionador desta expansão do STM foi o tenente coronel Mário Leitão.

Mas se não houve problemas de maior para montar o sistema de Transmissões Permanentes, o mesmo não aconteceu com as transmissões de Campanha, onde eram essências, neste tipo de guerra, as transmissões via rádio para manter a ligação entre as unidades em operações e as suas sedes.

No início da guerra em Angola, em 1961, procurou-se dotar as transmissões de campanha com o material inglês da II GM existente (P-19. P-21 e ZC-1) que se revelou completamente inadequado. De assinalar que não era permitida a utilização do material americano, existente na 3ª Divisão, fora do teatro europeu.

O grande problema que surgiu e cuja solução demorou a resolver foi o do rádio portátil, que se pretendia suficientemente leve para ser transportado a dorso, para equipar os grupos de combate, de efetivos da ordem do pelotão, que realizavam a atividade operacional dominante no princípio da guerra, para permitir comunicar com as sedes das suas companhias a distâncias, por vezes da ordem das dezenas de quilómetros.

Inicialmente foi usado o AN/GRC-9, conhecido da divisão NATO, que era fiável mas excessivamente pesado, obrigando o transporte à sua decomposição em partes, tornando-se da maior importância encontrar alternativa.

Várias tentativas foram feitas nesse sentido, nomeadamente com os rádios CHP-1 DHS-1, fabricados sob licença em Portugal, mas que não tiveram sucesso.

A primeira solução encontrada verificou-se em 1968, em Angola, com um equipamento rádio, o TR-28, desenvolvido pela Racal sul africana e que veio a ser produzido em Portugal. Na Guiné nas comunicações táticas foram utilizados, com sucesso a partir de 1973 rádios suecos da família STORNO.

No final da guerra a indústria portuguesa tomou a iniciativa de produzir equipamentos para substituir o TR-28 que foram o 20 TPL e uma versão mais avançada, com sintetizador, o 30 STPL. Qualquer dos rádios não passou da fase experimental, não chegando a equipar as nossas tropas por, entretanto, ter surgido o 25 de Abril.

A guerra colonial deu lugar a uma enorme evolução dos sistemas de Transmissões para se adaptarem à Guerra Colonial, a que se deu, naturalmente prioridade em detrimento da Metrópole.

Com o fim da guerra surgiu o problema de o material rádio usado na guerra colonial ser, em geral, inadequado ao quadro europeu em que nos iríamos inserir. Havia que pensar tudo de novo…

Sala de emissores no Centro Emissor Ultramarino (CEU)

Sala de emissores no Centro Emissor Ultramarino (CEU)

AN GRC-9

AN GRC-9

Contribuição para uma Breve história da evolução das Transmissões do Exército (5)

Post do MGen Pedroso Lima, recebido por msg:

5º Período (1939 -1961) A II Guerra Mundial e o pós-guerra

Portugal manteve a neutralidade na II Guerra Mundial, o que não impediu que se tenham tomado medidas defensivas para o caso de um eventual envolvimento no conflito, entre as quais se destacam a defesa de costa nos portos de Lisboa e Setúbal, a defesa Antiaérea da cidade de Lisboa, bem como o reforço dos Açores, que, naturalmente implicavam a montagem de sistemas de apoio de transmissões. De referir que, no final da Guerra, depois do acordo das Lajes, receberam-se quantidades apreciáveis de material de transmissões Inglês

Mas no período que estamos a considerar, os aspetos que consideramos mais marcantes para a evolução das transmissões militares verificaram-se no pós-guerra, na década de 50, e foram, na área das Transmissões Permanentes, a criação do STM, e na das Transmissões de campanha, a criação do BTm3, em Tancos, integrado na 3ª Divisão, também conhecida por Divisão NATO.

A criação do STM, em 1951, representou a revitalização das Transmissões permanentes do Exército que permitiu a restruturação da rede radiotelegráfica existente no Continente e ilhas e a renovação do seu equipamento.

A criação do BTm3 representou também um enorme salto nas Transmissões de Campanha do Exército, visto que o Batalhão, graças ao apoio militar americano, com material relativamente recente e pessoal bem instruído e treinado, as transmissões, na 3ª Divisão, passaram a funcionar, como já não acontecia há décadas.

Em relação aos equipamentos utilizados na Divisão, entre as inovações verificadas destacam-se: o aparecimento dos feixes hertzianos, que dispensavam a construção de linhas em ligações essenciais da Divisão, os teleimpressores de campanha, que davam outra velocidade na transmissão de textos longos, e os rádios VHF de frequência modulada que permitiam melhorar sensivelmente as comunicações em fonia. As transmissões de campanha, na 3º Divisão, diferenciavam-se das da guerra anterior por não disporem de meios óticos nem pombos correios, havendo, contudo, uma grande dotação de meios rádio em todos os escalões e mantendo-se os telefones e o uso da telegrafia.

Em relação à Grande Guerra, o salto qualitativo das transmissões de campanha que se verificou, na II GM com o BTm3, tem uma diferença substanciai. Com efeito, enquanto que, na IGM as transmissões de campanha só foram verdadeiramente operacionais durante a guerra, o BTm3 manteve-se operacional como uma unidade de referência das transmissões de campanha praticamente até à Guerra Colonial.

Estes dois saltos qualitativos: nas transmissões Permanentes, com a criação do STM e nas Transmissões de Campanha, com a criação do BTm3 tiveram como consequência que no final da década, quando em 1958, se passou a dar prioridade à Guerra Colonial, houvesse pessoal preparado e treinado para planear e executar umas transmissões para um tipo de guerra completamente diferente.

Ao major Costa Paiva coube a execução do planeamento do apoio das transmissões para a guerra, que previa, para as transmissões Permanentes a expansão do STM para as antigas colónias e, para as de Campanha a aquisição de material moderno, que a verba atribuída não permitiu adquirir.

Isto deu lugar a que no início da luta armada, em 1961, o STM já estivesse representado em Angola com uma delegação, antecipação que também se viria a verificar na Guiné e Moçambique.

Deste período interessa sobretudo acentuar que sem a modernização das Transmissões verificadas no início das década de 50 com a criação do STM e do BTm3, dificilmente as Transmissões na Guerra Colonial poderiam ter a surpreendente atuação que tiveram.

Teleimpressor de campanha TG 7B usado no BTm3

Teleimpressor de campanha TG 7B usado no BTm3

Rádio VHF FM (1 emissor e 2 recetores) usado na 3ª Div, nomeadamente no GDCC

Rádio VHF FM SCR-528 (1 emissor e 2 recetores) usado na 3ª Div, nomeadamente no GDCC

Coronel Cruz Fernandes – Uma notável história de vida (7)

 

Cap. VII – Cidadania

Os pontos mais marcantes da minha intervenção na área da cidadania prendem-se com a prolongada colaboração nos jornais regionais dos concelhos de Arcos de Valdevez e de Ponte da Barca, respectivamente o Notícias dos Arcos, o O Povo da Barca e Notícias da Barca, com a fundação e direcção da Associação dos Amigos da Penha (Adapenha) e com um mandato de deputado municipal independente pelo PS.

N´O Povoa da Barca fui colaborador durante mais de 20 anos, fui jornalista de Imprensa Regional, editor do Suplemento Alto Lima, Presidente da Comissão Comemorativa do Centenário de O Povo da Barca, e Director adjunto deste periódico.

No Notícias da Barca a minha colaboração estende-se já por 14 anos consecutivos, durante os quais mantive temas como o dos Resíduos Sólidos Urbanos (RSU), “Descobertas Invenções que Mudaram as Nossas Vidas”, “O que falta fazer…”, etc.

Em tipo menor apresenta-se uma lista dos artigos publicados só na década 1995/2005.

Lista de artigos publicados n “O POVO DA BARCA”:

Ano de 1995

Mês         dia          ano         n.º           pág.        – Título do artigo

Março      12             1995        6                PAG.!/3 –Plano Director Municipal (PDM) – Apreciação

Abril        9                “               8                Pág. Alto Lima – Separata: Ambiente- Pág. 2/3747677/8/11/13/14

Pág.3/4   – Britelo – Um futuro que promete (foto do primo pintor)

Pág.5       – Parque Nacional Peneda-Gerês

Maio        10             “               10             Pág. 1      – Barca Cultural – colaboração da Comissão

Maio        21             “               11             Pág.5       – Requiam por um Rio que morreu

Junho       4                “             12             Pág.2       – Avaliação do Cadastro Rústico do Concelho de Ponte da

“               Pág. 3      – Comemoração dos Descobrimentos Portugueses.

“               Pág. 4      – Paradamonte – Uma ponte sobre o tempo (Fala-se desde a recolha do lixo até ao tempo das vezeiras).

Junho       18             “               13             Pág. 3      – Serra Amarela – Um caminho para o passado.

Julho        16             “               15             Pág. 5      – Comissão para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses e as autarquias “Pivot” preparam actividades e coordenam iniciativas até 2000.

Julho        30             “               16             Pág. Alto Lima – Separata:- Editorial Pág. 1/4/5

–        II Morgados do Alto Lima dos Arcos e Barca Pág. 10

–        III Em terras de Vinho verde Pág. 14

“               Pág. 5      – Núcleo Museológico do Castelo de Lindoso

“               Pág. 1/5  – Susana Costa Quelha eleita Miss Dia de Portugal da área consular de Boston USA

Agosto    20             “               17             Pág. I       – A Casa do Concelho de Ponte da Barca em Lisboa faz o balanço ao passado e levanta padrões da sua ambição.

“               Pág. III   – Ana Margarida dos Santos Fernandes prepara exposição em Ponte da Barca – Entrevista muito boa!

“               Pág. V/VI – Como uma raça de altivos pastores nos tornamos servis e servidores. (Traz os limites territoriais entre Cidadelhe e Paradamonte).

Outubro  8                “               19             Pág. 2      – Lisboa na viragem do século

Outubro  22             “               20             Pág. 6/7  – Sagrada Escritura – (Os versos da minha Mãe).

Novembro5              “               21             Pág. 9      – Exposição colectiva de pintores do Alto Minho está entre nós.

“               Pág.6/7/8 –Romagem à volta do românico no Alto Lima (Fala também da evolução do castelo de Lindoso)

Novembro 19          “               22             Pág. 7/8  – Parque Natural (Um artigo que contém mapas, paisagens, humanização, circuitos turísticos, vias de acesso, etc.)

“               Pág. 10    – A Casa da Barca em Lisboa movimenta-se.

Dezembro 3              “               23             Pág. Alto Lima: Separata: Pág. 1 – Editorial

“               Pág. 8 Alto Lima: Rota de reis e palco da história.

“               Pág. 11    – Festa da Casa da Barca em Lisboa.

Dezembro 17           “               24             Pág. 2      – Comissão dos Descobrimentos aposta forte nas terras do Alto Lima.

“               Pág. 4      – Barquenses festejam 5º aniversário da Casa da Barca em Lisboa (Anunciada na 1ª Pág. de 3 de Dez. de 1995).

“               Pág. 6/7/8 –Exposição de arquitectura portuguesa da época dos

“               Pág. 8      – Portugal na Abertura do Mundo (Entrevista com Faria Paulino).

Dezembro 31           “               25             Pág. 4      – Adesão à candidatura de Jorge Sampaio (Eu também).

“               Pág. 4      – Pintora Ana Fernandes doa 151.000$00 aos Bombeiros Voluntários de Ponte da Barca provenientes da venda de parte dos trabalhos que expôs no Centro Cultural.

“               Pág. 4      – Comissão de Melhoramentos da Senhora da Penha deseja Boas festas.

“               Pág. 10    – Comissão de melhoramentos da Senhora da Penha presta

Ano de 1996

Mês         Dia         Ano         N.º            Página    – Assunto

Janeiro     15             1996        1                Pág. 6/7  – Santiago de Compostela I

Fevereiro 11            “               4                Pág. 2      – Santiago de Compostela II

“               Pág. 2      – Lisboa com um pé no Séc. XXI. EXPO. 98, Ponte Vasco da Gama, e agora a TV Cabo

Março      24             “               6                Pág. Alto Lima: Pág1 e Separata: (Conta a História de Macau)

Abril        7                “               7                Pág.3       – Secretário de Estado preside a colóquio sobre as áreas protegidas com associações de defesa do ambiente e universidades em Paradamonte.

“               Pág. 5/8  -EXPO 98 – O maior empreendimento português deste século.

Abril        21             “               8                Pág. 6/7  – Via XVIII de Itinerário Antonino, na Serra do Xurês Gerês

Maio        5                “               9                Pág. 5      – Ouvindo um Barquense na Assembleia da República – António Dias

Maio        19             “               10             Pág. 7      – Alto Lima – Um espaço de análise de assuntos actuais.

Junho       2                “               11             Pág. 7      – ? Alto Lima – Uma espaço de análise de assuntos

Junho       17             “               12             Pág. 3      – Resíduos sólidos urbanos.

Junho       30             “               13             Pág. 6      – Venha d onde vier a promessa, Tito Costa é o devedor.

“               Pág. 6      – A servidão não acabou!

“               Pág. 6      – A verdade manda Deus que se diga: Adapenha agradece à EDP, PNPG Vieira da Silva.

Julho        17             “               14             Pág. 5      – Tito Costa. Exonerado por não ser “Yes men”.

“               Pág. 6/7  – O coração da Barca palpitou em Lisboa no 5º almoço da Casa da Barca (muitas fotos com os nomes dos sócios).

“               Pág. 5      – Comemoração do Dia de Portugal nos USA (Artigo da Maria)

Julho        31             “               15             Pág. 5      – A Comissão dos Descobrimentos e as Entradas régias.

“               Pág. 5      – São Bartolomeu patrono da Vila da Barca.

“               Pág. 6/7  – Fortalezas de Macau – Seu desenho e sua história (Importante)

Setembro 22              “               17             Pág. 1      – Editorial – Bombeiro: Uma forma de ser franciscano.

“               Pág. 8      – Senhora da Penha esteve em festa. Tópicos históricos.

“               Pág. 8      – Director do PNPG toma posse – Paulo Castro.

“               Pág. 9      – O sinal do Gião chegou tarde e não é bom.

“               Pág. 9      – Concelho da Barca à espera do martírio do fogo.

“                                 – Cadastro Rural

Outubro13               “               18             Pág. 6B   – São Martinho de Tour e de Dume. Práticas populares em

“               Pág. 10    – PNPG reúne com os caçadores de Britelo e São Miguel.

Outubro 27              “               19             Pág. 5      – Anabela Fernandes no Massachusetts Institute of Technology

“               Pág. 5      – Mário Barros Pinto. Carta à família pela sua morte.

Novembro 10           “               20             Pág. 2      – Em Cambridge USA Adapenha afirma-se e expande-se.

Dezembro 8              “               22             Pág. 1/6/7- Alto Lima – Somos Filhos de Deus Menor- Convénio hidrográfico Ibérico; Teresa Andresen e os seus falhanços; Auto-estradas; Aborto; Estátua do II milénio a.C.; Dr. Manuel Joaquim Gonçalves ( a minha dívida pessoal).

“               Pág. ?      – A casa da Barca em Lisboa promove tradicional

Dezembro22            “               23             Pág. 6      – Alto Lima: Tito Costa ; Santa Luzia de Paradamonte.

“               Pág. 7      – São Miguel de Entre Ambos os Rios.

Ano de 1997

Mês        Dia        Ano        N.º            Página     – Assunto

Janeiro     5                1997        1                Pág. 5      – Georges Duby      Um historiador comprometido com o seu tempo

Janeiro 19                 “               2                Pág.5       – Alto Lima – Conversa com o Deputado António Dias;

“               Pág. 8      – Morreu Carl Sagan – Um daqueles homens em quem poder não tem a morte.

Fevereiro 2               “               3                Pág. 6      – Alto Lima: Comissário vai, comissário vem; Afirmações da Ministra do Ambiente em Lindoso; Outra vez o aborto.

“               Pág. 6/7  – Justiça portuguesa – Sector em crise.

Fevereiro 16            “               4                Separata Alto Lima: Editorial; Macau, de porta da China a último bastião do ciclo do Império.

“               Pág.6       – Como se fabrica uma injustiça fiscal.

Março      2                “               5                Pág. 7      – Alto Lima – Por ocasião dos 98 anos do Povo da Barca.

Março      16             “               6                Pág. 7      – Alto Lima: Troço Paradamonte-Cidadelhe talvez ainda este ano; IC 28, antes do ano 2000 nem pensar;

“               Pág. 7      – Homenagem póstuma a Rómulo de Carvalho/António Gedeão

Março      30             “               7                Pág. 7      – Alto Lima: IC 28- Um bem ou mal para as populações do vale superior do Lima? ; É ou não é desta vez que o troço Paradamonte-Cidadelhe é concluído?

“               Pág. 7      – Dia Mundial da Árvore. Paulo Castro, Director do PNPG na Penha.

Abril        13             “               8                Pág. 7      – Alto Lima: Dia Mundial da Árvore nos Montes da Penha

Abril        27             “               9                Nada meu

Maio        25             “               11             Pág. 4      – Alto Lima: Britelo II – Da origem aos nossos dias (Continuação)

Junho       8                “               12             Pág. 6     – Britelo III Da origem aos nossos dias.

“               Pág. 6      – Lindoso, o castelo e a região

“               Pág. 7      – Adapenha presta contas

Junho   22                 “               13             Pág. 3      – Alto Lima: Santo António da Paradamonte;

“               Pág. 5      – Limites territoriais da Freguesia de Britelo;

Julho        6                “               14             Pág. 6/7  – Alto Lima: S. João ( o Baptista).

Julho   20                 “               15             Nada meu

Agosto    3                “               16             Nada meu

Agosto 22                “               17             Pág. 7      – Alto Lima: Alimentos Transgénicos

Setembro 21             “               18             Pág. 6/8  – Alto Lima: Alinhamentos políticos e poder autárquico.

“               Pág. 6      – Regionalização: Sim ou não?

Outubro                    5                “               19             Pág. 3      – Cabral de Oliveira parte para a corrida às municipais.

“               Pág. 7      – Alto Lima: A propósito dos filhos da terra …

“               Pág. 7      – Regionalização. É precisa?

Novembro 16          “               22             Pág. 5      – Alto Lima: A Clarificação necessária; A propósito de “Quem está com o governo mama, quem não está não cheira”.

Novembro 30          “               23             Pág. 3      – Alto Lima: A Barca que todos amamos é uma barca à deriva;

“               Pág. 9      – Alto Lima: A IC 28, a Central de camionagem e os acessos ao Campo Grande; A estrada Barca- Lindoso; O Dr. Marcelo (PSD) negou-nos a igualdade perante a lei das portagens. Que havemos de negar-lhe quando for ele a pedir?

Dezembro 15           “               24             Pág. 7      – Alto Lima: A Barca que todos amamos é uma barca à deriva; Homem: Abre os olhos e verás! Resultados das eleições.

Ano de 1998

Mês         Dia       Ano         Número  Página    Assunto 

Janeiro     11           1998        1                Pág. 10    – Alto Lima: Sede social da Casa da Barca em Lisboa já é uma realidade.

  1. 8               “               3                Pág. 7      – Alto Lima: Isto é um centro de saúde?

–                                                     “               “               – Telecom junta-se ao consumismo sem ética;

“               “               – EXPO 98- Ministro da Educação leva escolas Exposição.

  1. 22             “               4                Pág. 7      – Alto Lima: EXPO 98 – O seu comissário na Ordem dos

Março        8                “               5                Pág.7       – Alto Lima: Os caminhos da EXPO;

“               “               – A moeda Única europeia;

Março      22             “               6                Pág. 6      – Alto Lima: Os caminhos da EXPO 98

Abril        5                “               7                Pág. 7      – Festa da Árvore comemorada pelas crianças numa festa da Adapenha.

“               Pág. 9      – Alto Lima: EXPO 98 – Plataforma giratória do Poder

Abril        19             “               8                Pág. 5      – Casa da Barca em Lisboa sofre obras de adaptação.

“               Pág.6       – Alto Lima:- EXPO 98 (Continuação da Anterior).

“               – Assim, sim!…Assim, não.

Maio        17             “               10             Pág. 5      – Alto Lima: Casa da Barca em Lisboa;

“               – Para a Barca recordar;

“               – Famílias ilustres são notícia.

Maio        31             “               11             Pág. 6      – Alto Lima: A Barca tem Morte anunciada (IC28)

Junho       14            “               12             Pág. 6      – Alto Lima: Troço de estrada Paradamonte- Cidadelhe.

“               – Pólo industrial (Um estudo de custos)

Junho       28            “               13             Pág. 6      – Na esteira de um importante caminho de Santiago (Terras de Nóbrega – Um caminho revisitado).

Pág. 7      – Fogos florestais – Previsão e combate.

Julho        27            “               15             Pág. 6      – Capa e Alto Lima: Casa da barca em Lisboa: Contas

Pág. 7      – Vamos à EXPO 98?

Agosto    19             “               16             Pág. 7/8 – Alto Lima: São Pedro Faz das suas no Rio Vade;

– Britelo – Uma freguesia ao acaso;

– A água que se (não) consome na Barca.

Setemb. 20                “               17             Pág. 1/7  – Editorial

Pág. 6      – Alto Lima: São Bartolomeu – A festa maior do povo Barquense;

Pág. 7      – EXPO 98 – Mensagens trazidas pelas diferentes nações;

Outubro  4               “               18             Pág. 7      – Alto Lima: Informação da Freguesia de Britelo do concelho de Ponte da Barca de 9 de Maio de 1758.

Novemb. 1                “               20             Pág. 7      – Alto Lima: Casa da Barca em Lisboa inaugura a sede

– Potencialidades do discurso do Ministro João Cravinho;

– Pelas estradas do concelho.

Novemb. 15             “               21             Pág. 5/6/7/8- Alto Lima: Casa da Barca em Lisboa inaugura a sede Social (Reportagem do acto com fotos)

Novemb. 29             “               22             Pág. 7      – Alto Lima: Avaliação pedagógica dos docentes;

– Acidentes, responsáveis e segurança rodoviária.

Dezembro 25           “               23             Pág. 6      – Alto Lima: Na senda dos Caminhos de Santiago.

Ano de 1999

Mês          Dia        Ano         Número  Página    – Assunto

Janeiro        21         1999        1                Pág. 6/7  – Alto Lima: Assembleia Municipal;

– Plano Director das Zonas e pólos Industriais;

– Plano de Ordenamento das Albufeiras de Touvedo e Lindoso ( em nome da Adapenha);

Fevereiro 6               “               2                Pág. 1      – Anexo: Comissão Executiva do Centenário de “O Povo da Barca”. Eu sou o Coordenador.

Pág. 13    – O Centenário d”O Povo da Barca”.

Fevereiro 21            “               3                Pág. 4      – Alto Lima: Plano de Ordenamento das albufeiras de Touvedo e Lindoso (POTAL)- Um processo ainda em aberto.

Março      7                “               4                Pág. 4      – Comemorações Centenárias do Povo da Barca – Comissão Executiva.

Pág.6       – Dia Mundial da Árvore em Britelo e Lindoso.

Março 21                  “               5                Pág. 5/6  – Alto Lima: Centro Histórico da Barca – A propósito de um colóquio promovido pelo GTL;

– Lampreias cada vez menos. Pescadores culpam açude de Ponte do Lima;

– Polidesportivo municipal – Um bem que requer cuidados;

– Assembleia da casa da Barca em Lisboa constituiu um acto social de grande importância;

– Outra vez o troço Paradamonte – Cidadelhe da IC 28.

Abril        4                “               6                Pág. 3      – Dia mundial da Árvore celebrada pelos “Amigos da Penha” e Escolas do projecto Lethes.

Abril        25             “               7                Pág. 7      – Festa da Lampreia na casa da Barca em Lisboa.

Maio        2                “               8                Pág.6       – Para mim festejar Abril é perseguir a utopia. Intervenção a propósito dos 25 anos do 25 de Abril, como deputado do PS Barquense.

Maio        16            “               9                Pág. 6/7  – Alto Lima: Ponte da Barca foi estrela no programa da RTPI;

–        Ao Celebrarmos o 1º Centenário da Imprensa;

–        Medalha de Honra do Município para “O Povo da Barca”

Maio        30             “               10             Pág. 7/8  – O Povo da Barca recebeu publica homenagem de Concelho pelo seu Centenário;

Pág. 9      – Extractos das intervenções;

Pág. 12    – Uma visita muito oportuna de Carlos Lage à Adega de Ponte da Barca;

Pág. 14   – Alto Lima: Asias, uma freguesia em revista.

Junho 13                   “               11             Pág. 6/7  – Alto Lima: Asias, uma freguesia em revista;

Pág. 10   – A Casa da Barca em Lisboa vai ser a embaixada da barca nas Festas da Cidade .

Julho        11             “               13             Pág. I/II   – Alto Lima: Capa e Pág. I/II: IC 28, uma obra merecida e necessária com um nome caricato.

– Lindoso na Rota do Tempo I.

Julho        25             “               14             Pág. 6/7  – Alto Lima: Lindoso na Rota do tempo II.

Agosto    8                “               15             Pág. 6/7  – Alto lima: Lindoso na Rota do Tempo III.

Agosto    19             “               16             Pág.12     – Romaria da Senhora da Penha (Festa da Adapenha).

Pág. 16    – Festa de S. Bartolomeu, advogado dos medos;

Pág. 16    – Diálogo da barca com os seus rios passa por….;

Pág. 16    – A construção da Capela da Senhora da Penha ocorreu depois de 1656 e antes de 1707;

Pág. 17    – Alto Lima: Lindoso na Rota do tempo IV.

Setemb.    12             “               17             Pág. 10    – Alto Lima. Lindoso na Rota do tempo V: – Festividades de Nossa Senhora da Penha

Outubro  5                “               18             Pág. 6/7  – Alto Lima: Lindoso na Rota do Tempo VI.

Novemb.18              “               21             Pág. 6/7  – Casa da Barca em Lisboa – Um ano de actividade.

Dezemb. 2                 “               22             Pág. 3      – Capa Comemorações centenárias do Povo da barca;

Pág. 3      – Caminhos de Santiago Jubileu do milénio;

Pág. 6/7  – Alto Lima: Lindoso na Rota do Tempo VI (Bis).

Dezemb.16               “               23             Pág. II      – Adapenha – Boas festas

Pág. 5      – Encontro de Associações no Lindoso

Pág. 6      – Adapenha – Festa da Associação

Pág. 7      – Alto Lima: Lindoso na Rota do tempo VII.

Pág. 10    – Falecimento do Tio António no Brasil.

Ano 2000               

Mês          Dia        Ano         Número  Página    – Assunto

Janeiro        13         2000        1                Pág. 7/8  – Alto Lima: Lindoso na Rota do Tempo.

Pág. 13    – Norte mais fraco Perde Poder

Janeiro     27             “               2                Pág. 6      – Norte mais fraco Perde poder II

Pág. 6/7  – Doença das vacas loucas

Pág. 7      – Transgénicos.

Fevereiro 10            “               3                Pág. I       – Comemorações centenárias do Povo da Barca.

Pág. II      – Ligação por estrada da Vila da Barca à fronteira da Madalena;

Pág. II,III,IV,V,VI e VII.- O Povo da Barca, paladino dos interesses locais.

Fevereiro 24            “               4                Pág. I/II   – Lindoso na Rota do tempo IX.

Pág. 7      – O Povo da Barca nas comemorações centenárias (História da inauguração da luz eléctrica);

Março      9                “               5                Pág. 6/II  – Intervenção na Assembleia Municipal sobre pólos

Pág. 8      – Livro da Conspiração Solar do Padre Himalaya.

Ano 2001               

Mês          Dia        Ano         Número  Página    – Assunto

Janeiro     25             2001        2                Pág. 4      – Alto Lima: Eleições, na minha opinião;

Pág. 5      – Ainda as Cheias da Barca;

Pág. 8      – A propósito do esclarecimento do Presidente da Câmara sobre as cheias.

Fevereiro 8               “               3                Pág. 13    – Alto Lima: Os perigos do Urânio (bombardeamentos do Kosovo – América .. América)

Fevereiro 22            “               4                Pág. 5      – Alto Lima: Executivos monocolores

Março      22             “               6                Pág. 2      – Adapenha – Dia Mundial da Árvore 2001;

Pág. 7      – Casa da Barca em Lisboa – Importante centro de confraternização em Lisboa;

Abril        8                “               7                Pág. 2      – A propósito de uma atoarda. Esclarecimento;

Abril        20             “               8                Pág. 2      – Notícia do IV Congresso Nacional de Colectividades de Cultura, Recreio e Desporto;

Pág. 7      – Das notícias dos jornais: Aplauso e reprovação;

Maio        18             “               10             Pág. 5      – Alto Lima: Feira Mostra de Ponte da Barca;

Pág. 5      – Associação concelhia das festas de São Bartolomeu;

Pág. 5/14- Desenvolvimento do vale do Lima:

Junho       1                “               11             Pág.          – Alto Lima: Carta aberta a Susana Braga;

Junho       15             “               12             Pág. 4      – Paradamonte Britelo: Casamento (Laranjeiro).

Pág. 8      – II Congresso do Vale do Lima (Importante).

Julho        13             “               14             Pág. 6      – Casa da Barca em Lisboa – Câmara um entrega cheque de 3 000 contos.

Pág. 9/10 – Alto Lima: Lindoso Medieval (Feira).

Agosto    16             “               16             Pág. 6/7  – Alto Lima: Ruído e outros Flagelos;

– O Cow boy à lusitana;

– Festas de S. Bartolomeu – festas concelhias;

– Saudação especial da Adapenha a todos os conterrâneos residentes e emigrantes;

Pág.6/10                   – O dia-a-dia do civismo sem carro.

Mudança da aspecto do Jornal e da paginação

Ano 2001

Mês          Dia        Ano         Número  Página    – Assunto

Setembro 30             CII            1                Pág. 3      – Obrigado meu Deus pelo país que me deste;

Pág. 5      – Reunião ensombrada pelo diferendo entre a Câmara e o Centro Cultural;

Pág. 8      – Britelo –Lindoso, uma casamento que vai deixar memória.

Outubro  10             “               2                Pág. 6/9  – Entrevista sobre a Adapenha – Assinada por Carlos Lourenço.

Pág. 7      – Missa Campal para inauguração do Palco da Adapenha;

Pág. 9      – Participação inesperada numa vindima minhota.

Novembro 20          “               6                Pág. 3      – Casa da Barca em Lisboa festeja 9º aniversário;

Pág. 5      – Bartolomeu dos Mártires, Homem de Deus e dos lugares por onde esteve (1514 – 1590).

Novembro 30          “               7                Pág. 3      – Novo código da estrada – Cuidado com as surpresas.

Dezembro 10           “               8                Pág. 3      – Adapenha: Assembleia Geral: Contas de 2000 e Actividades para 2001.

Pág. 7      – Campelo. Presidente da Câmara por lista independente.(Muito Ruído em tempo de votos).

Dezembro 20           “               9                Pág. 5      – Considerações em torno de um terramoto político.

Pág. 7      – Osama bin Laden

Dezembro 30           “               10             Pág. 2      – Solidariedade social – Rendimento mínimo garantido.

Pág. 7      – Osama bin Laden II

Pág. 8      – Autarquias. Considerações…

Pág. 8      – No Jobs for The boys

Pág. 8      – A propósito de “Porque devemos mudar de Presidente da Câmara” do D.r Eduardo Cruz.

 

Ano de 2002

Mês         Dia         Ano         Número  Página    Assunto

Janeiro     10             CII            11             pág.4        – Intervenção na Assembleia Municipal (28Dez2001)

Janeiro     20             “               12             Pág. 3      – O próximo governo deve resultar de uma maioria Inequívoca.

“               Pág. 5      – Osama Bin Laden II

Janeiro 30                 “               13             Pág. 7      – Plano de construção de um canal no Rio Lima desde o Carregadouro a Ponte da Barca.

“               Pág. 8      – Bin Laden IV

Fevereiro 10            CIII           14             Pág. 6      – A propósito das jornadas da Santa Casa da Misericórdia. (Revela-se um documento importante)

Fevereiro 20            “               15             Pág. 3      – Carta a um amiga que encontro por aí..

Fevereiro 28            “               16             Pág. 5      – Cheias do Rio Lima

“               Pág. 5      – Exposição humana às radiações electromagnéticas das comunicações móveis: – Perigo ou fantasia?

“               Pág. 8      – Finalmente Sabimbi morreu…

Março      10             “               17             Pág. 8      – Carta a um amigo que encontro por aí IV

Março      20             “               18             Pág. 1      – Dia mundial da Árvore 2002

“               Pág. 4      – Eleições – No rescaldo de umas memoráveis eleições

“               Pág. 5      – Casa da Barca em Lisboa – Almoço da Lampreia.

“               Pág. 5      – Se… (polémica do Centro Cultural)

Março      30             “               19             Pág.1/ 6  – Dia Mundial da Árvore 2002. Montes da Penha

Abril        10             “               20             Pág. 5      – Algo está a mexer no vetusto edifício dos Paços do Concelho                 .

Abril        20             “               21             Pág. 5      – Contribuição para o conhecimento da pequena história local (Britelo).

“               Pág. 6      – Défice português, um cavalo de Tróia laranja granjear o poder virou-se agora contra os seus promotores.

Abril        30             “               22             Pág. 7      – Casa da Barca em Lisboa intervém no desporto.

Maio        30             “               25             Pág. 8      – O Poder Local deu tolerância zero à ministra Ferreira

Junho       20             “               27             Pág.9       – Santo António do Buraquinho, faz milagre: – Traz o Centro Cultural de volta!

“               Pág. 9      – Casa da Barca em Lisboa realiza Assembleia Geral em fins do mês de Junho.

“               Pág. 9      – Justo, merecido, oportuno… (Elogio ao Cheninho).

Julho        30             “               31             Pág. 8      – Há muitas maneiras de fazer as contas para o estacionamento subterrâneo das Fontainhas

“               Pág. 8      – São Bartolomeu da Barca (Quadras).

“               Pág. 9      – Assembleia Geral da Casa da Barca em Lisboa 2002.

Agosto    15             “               32             Pág. 2      – São Bartolomeu da Barca (Quadras) – 2ª edição

“               Pág. 3      – A culpa, na Barca, Não! (Quadras).

“               Pág. 8      – Cada ano em Agosto todo o Minho está em festa.

“               Pág. 8      – Centro Cultural … E agora?

Agosto    30             “               33             Pág. 2      – São Bartolomeu (Versos)

“               Pág. 4      – São Bartolomeu. Participação da Casa da Barca em Lisboa com a Revista à Portuguesa.

“               Pág. 4      – No rescaldo de uma grande festividade

Setembro 20             “               34             Pág. 4/5  – América…América

“               Pág.5       – Quadras do meu Rio Lima.

Outubro                    10             “               35             Pág. 10   – Impressões de uma viagem à terra do Pau Brasil I

Outubro  20             “               36             Pág. 8      – Impressões de uma viagem à terra do Pau Brasil II

Outubro                    30             “               37             Pág. 13    – Impressões de uma viagem à terra do Pau Brasil II (bis)

Novembro 10          “               38             Pág. 8      – Impressões de uma viagem à terra do Pau Brasil III.

Novembro 20          “               39             Pág.11     – Impressões de uma viagem à terra do Pau Brasil III (bis)

Novembro 30          “               40             Pág.10     – Impressões de uma viagem à terra do Pau Brasil IV

Dezembro 10           “               41             Pág. 5      – As Fontainhas e as opiniões vindas a publico na imprensa local..

“               Pág. 13    – Impressões de uma viagem à terra do Pau Brasil IV(bis)

Dezembro 30           “               43             Pág. 9      – Impressões de uma viagem à terra do Pau Brasil V

 

Ano de 2003

Mês         dia         Ano, número, Pág. do Jornal              Nome do “Artigo”

Janeiro 10                 “               44             Pág.9       – Carta Aberta ao presidente Bush

Janeiro 20                 “               45             Pág. 9      – O Império tira a máscara. A Europa e o Mundo parecem anestesiados!

Fevereiro 10            “               47             Pág.9       – O Império tira a máscara III

Fevereiro 20            “               48             Pág. 12    – Respigos de imprensa

Março      20             “               51             Pág. 13    – Impressões de uma viagem à terra do Pau Brasil VIII

Março      30             “               52             Pág. 7     – Montes da Penha. Dia Mundial da Árvore. 6º Ano consecutivo.

“               Pág. 8      – Impressões de uma viagem à terra do Pau Brasil VIII(Bis).

Abril 10                    “               53             Pág. 6/7  – Caverna de Silêncios

“               Pág. 12    – Impressões de uma viagem à terra do Pau Brasil VIII (bis)/(Bis).

“               Pág. 12    – O fogo amigo.

“               Pág. 12    – Os Homens da aparelho (político).

Abril 20                    “               54             Pág. 9     – O Império tira a máscara (Continuação de 20 de Janeiro)

Abril 30                    “               55             Pág. 14    – O Império tira a máscara.

Maio 10                    “               56             Pág. 2      – Caverna de Silêncios II

Maio        20             “               57             Pág.2       – Lisboa da minha janela

“               Pág. 14    – Novo regime de tributação do património imobiliário.

Junho       20             “               60             Pág. 10    – Fronteiras do Brasil. Desde Alcáçovas até ao último tratado de Limites.

Junho       30             “               61             Pág. 8/12- Travessia da barca- Reconstituição histórica.

“               Pág. 13    – Britelo cumpre uma tradição milenar, tirando um dia para fazer as cabanas

“               Pág. 14    – Fronteiras do Brasil. Desde Alcáçovas até ao último tratado de Limites

Julho        10            “               62             Pág. 5      – Ponte da Barca, condoída e em recolhimento, prestou homenagem a Maria Júlia Machado de Sousa.

“               Pág. 8      – Fronteiras do Brasil. Desde Alcáçovas até ao último Tratado de Limites.

Julho        30            “               64             Pág. 9      – Fronteiras do Brasil. Desde Alcáçovas até ao último Tratado de limites

Agosto    20             “               65             Pág. 5      – Festas de São Bartolomeu. Festas do Concelho.

Setembro 30             “               67             Pág. 10    – A propósito da Reconstituição histórica da travessia de Ponte da Barca – Resposta ao Dr. Santa com outros dados para a história da Barca.

Outubro  20             “               69             Pág3        – Barca – Paraíso escondido ou tesouro revelado?

“               Pág. 5      – Um olhar sobre a Barca, ressaltando certos temas.

Outubro 30              “               70             Pág. 5      – Comunidade Urbana do Vale do Lima e o que está por trás das disputas que aí andam.

Novembro 20          “               72             Nada meu

Novembro 30          “               74?           Pág. 10    – Impressões de uma viagem por terras do Brasil cultural I

Dezembro 10           “               74             Pág. 9      – Impressões de uma viagem por terras do brasil cultural II

Dezembro 20           “               75             Pág. 11    – Impressões de uma viagem por terras do Brasil cultural

“               Pág. 5      – Saudações de Natal da Adapenha

Dezembro 30           “               76             Pág. 9      – Impressões de uma viagem por terras do Brasil cultural

Ano de 2004

Mês         dia         Ano, número, Pág. do Jornal              Nome do “Artigo”

Janeiro 10                 CIII           N.º 77      Pág.8       – Impressões de uma viagem por terras do Brasil Cultural

Janeiro 20                 “               78             Pág.8       – Mensagem de Natal da Adapenha

“               “               Pág.9       – Impressões de uma viagem por terras do Brasil Cultural

Janeiro 30                 “               79             Pág.6/7   – América, América

“               Pág. 7      – O burro do inglês ou a moral da história.

Fevereiro 10            “               80             Pág. 3      – Gente gorda ou mistura explosiva.

“               Pág.10     – Impressões de uma viagem por terras do Brasil cultural VI .

Fevereiro 20            “               81             Pág.12     – Impressões de uma viagem por terras do Brasil cultural

“               Pág. 13    – América – Liderança ou domínio?

Fevereiro 29            “               82             Pág. 4      – Adapenha – Dia Mundial da Árvore 2004

Março 10                  “               83             Pág. 4/5  – Adapenha – Dia Mundial da Árvore 2004

Março 20                  “               84             Pág. 8/9  – Dia Mundial da Árvore 2004 – Sétimo ano consecutivo.

Março 30                  “               85             Pág. 6      – Adapenha – Comemorações do Dia da Árvore

“               Pág. 12    – Adapenha – Dia da Árvore 2004.

Abril 10                    “               86             Pág. 10    – Adapenha – Dia Mundial da Árvore.

Abril 20                    “               87             Pág. 5      – Adapenha – Dia Mundial da Árvore 2004 – Trabalhos das

Abril 30                    “               88             Pág. 13    – As coisa que eu vejo acontecer na nossa terra.

Maio 10                    “               89             Pág. 9      – Impressões de uma viagem por terras do Brasil cultural

Maio            20         “               90             Nada meu

Maio 30                    “               91             Pág. 8      – Impressões de uma viagem por terras do Brasil cultural VIII (por erro este VIII está repetido. Devia se IX).

Junho 10                   “               92             Pág. 10    – Comemora-se no dia 5 de Junho o Dia Mundial do Ambiente. Esta data serve para reflectir sobre o modo como os autarcas têm servido as causas do Ambiente.

Junho 20                   “               93             Pág. 8      – Ambiente de festa numa manhã dedicada ao Ambiente

Junho 30                   “               94             Pág. 5      – Adapenha termina a sua campanha de sensibilização ambiental com a publicação na comunicação social dos trabalhos premiados.

Julho 20                    “               96             Pág. 9      – Direito à memória colectiva. O Conde da Barca

“               Pág. 10    – Impressões de uma viagem por terras do Brasil cultural

X:

Agosto 2                  “               97             Pág. 5      – Portugal à espera do fogo

“               Pág. 9      – Impressões de uma viagem por terras do Brasil cultural X.(Está errado. Devia ser XI).

Agosto 20                “               98             Pág.9       – Festa de São Bartolomeu. Semana Santa do Concelho.

Setembro 2               “               99             Pág.10     – Impressões de Uma viagem por terras do Brasil Cultural XI

Setembro 24             “               100           Nada meu

Outubro 10              “               101           Pág. 8      – Falhanço na colocação dos professores afundou ainda mais a já frágil credibilidade do governo de Santana Lopes.

“               Pág. 9      – Impressões de uma viagem por terras do Brasil cultural

Outubro 20              “               102           pág.4        – O peso dos media na divulgação da cultura e nos valores que criam a divulgam. Para uma cultura científica e para uma cultura das artes.

Outubro 30              “               103           Pág. 5      – Uma noite cultural no auditório da APRALIMA que merecia casa cheia.

Novembro 10          “               104           Pág. 7      – Ponte da Barca celebra o 491º aniversário do Foral Novo com uma noite cultural como há muito não se via.

Novembro 30          “               106           Nada meu

Dezembro 10           “               107           Pág. 8      – Em nome da divulgação científica. Contra os valores que os media criam e divulgam.

Dezembro 20           “               108           Pág. 13    – Pela ciência e pela divulgação científica. Rómulo de Carvalho um expoente de meados do século passado na divulgação científica.

Dezembro 30           “               109           Pág. 10    – Pela ciência e pela divulgação científica. António Gedeão um poeta da ciência.

Ano de 2005

Mês         dia         Ano, número, Pág. do Jornal              Nome do “Artigo”

Janeiro     10            CIII –   111             Pág. 7     – Sócrates Sim! Sócrates assim, assim!

“               “               “               – Desvios éticos. Choques necessários.

“               14            “               “               Pág.5       – Ser Poder na Hora que passa

Fevereiro 11            “               112           Pág.7       – Babilónia, cidade lendária, está a ser destruída por um exército bárbaro, em nome do Ocidente

112           Pág. 8      – O Povo da Barca faz 106 anos

112           Pág. 8      – Nestas eleições, perder já perdi. Preciso minimizar os danos. Por isso vou votar.

Fevereiro 25             “               113           Pág. 11    – Rancho folclórico de Ponte da Barca, um toque de cultura na festa do Fim de Semana da Lampreia.

Março      25             “               115           Pág. 8/13 –Dia Mundial da Árvore junta na Penha professores e alunos do 1º Ciclo de todo o Concelho . Infantários também lá estavam.

Abril        8                “               116           Pág.5       – Morreu João Paulo II

“               “               Pág.7       – Britelo tem mais um caminho rural em Paradamonte

“               “               Pág13      – A Terra não suportará muitas mais gerações de predadores como a nossa

Maio        6                “               118           Pág.12     – Adapenha – Educação Ambiental 2005 – Resíduos

“               Pág,17     – Habemus papam

Maio        20             “               119           Pág. 12/13-Transgénicos entre nós

“               “               “               Pág.13     – PS/CDS/PP preparam-se para ganhar o poder

“               “               “               “               – Se eu quiser, Se tu quiseres…

“               “               “               “   15      – Adapenha –Educação Ambiental 2005 – Resíduos

Junho       3                “               “               Pág.4       – Cabral de Oliveira recebe a Consagração

“               “               120           Pág.6       – Políticas Locais

“               “               “               Pág.11     – Adapenha Campanha de Educação Ambiental 2005

Junho       17             “               121           Pág.11     – Universidade do Saber

“               “               “               Pág.14     – Políticas Locais

Julho        15             “               123           Pág. 6      – Marques Mendes apresentou o seu candidato às autárquicas em Ponte da Barca

Julho        29             “               124           Pág. 10    – Adapenha – Educação Ambiental – Visita à Resulima

“               “               “               Pág. 12    – Políticas Locais – O Alto Minho é mais pequeno, Viana é logo ali.

“               “               “               Pág.14     – História local. O Último Alcaide-mor do Lindoso e morgadio de Britelo.

Agosto    17             “               125           Pág.9/11                   – Festa de São Bartolomeu : Faz 80 anos que a Barca inaugurou a Luz Eléctrica.

Setembro 1               “               126           Nada meu

Setembro28              “               127           Nada meu

Outubro 14              “               128           Pág.4       – Desfolhada de Lavradas, um cartaz turístico de tamanho Nacional

“               “               Pág. 5/6 – Vila Nova de Muía inaugura a Sede da Junta de Freguesia num espaço plurifuncional.

“               “               Pág. 6      – Políticas Locais

Outubro  28             “               129           Pág.7       – Políticas Locais

Novembro 25          “               131           Pág.8/9   – Mário Soares entre nós

Dezembro 9              “               132           Pág.8/9   – Viagem pelos caminhos de Portugal Histórico

Dezembro 24           “               133           Pág.13     – Viagem pelos caminhos de Portugal Histórico

 

No Noticias dos Arcos colaborei durante 11 anos, onde recolhi um naipe de leitores atentos a apreciadores.

Sócio do Club de Campismo de Lisboa (CCL) e membro do Conselho Consultivo durante vários mandatos.

Sócio fundador da Casa do Concelho de Ponte da Barca em Lisboa e presidente do Conselho Fiscal durante vários mandatos.

Membro efectivo da Ordem dos Engenheiros desde 1970, com o número 10328.

Sócio fundador e presidente da Direcção, desde a sua fundação, da Associação dos Amigos da Penha (Adapenha), onde com outros desenvolvo uma actividade de intervenção ambiental, cultural e patrimonial.

O tema dos RSU estendeu-se a dois anos escolares durante os quais promovi sob orientação da Agência Portuguesa do Ambiente e a colaboração do Agrupamento de Escolas e da Autarquia verdadeiras campanhas de educação ambiental e alguns concursos entre os quais o “O Limpião.”

O concurso “O Limpião” estendeu-se a todas as 23 escolas do 1.º Ciclo e infantários e foi assim concebido: Os RSU, vulgo Lixo é uma responsabilidade de todos e separá-lo é connosco, isto é, com aqueles que o fazem. Assim sendo vamos aprender a separá-lo.

Fig63 - ADAPENHA - Dia da àrvore na Adapenha

Fig63 – ADAPENHA – Dia da àrvore na Adapenha

Acordado o princípio, a Adapenha publicou nos jornais locais os textos de base que eram distribuídos às escolas. Os professores do Primeiro Ciclo do Ensino Básico baseavam-se neles para conduzir as suas aulas de Educação Ambiental.Na fase seguinte, a Adapenha, com um delegado da Resulima (empresa supra-municipal de tratamento de resíduos sólidos urbanos), Promoveu uma ronda pelas escolas onde projectou filmes e slides, fez perguntas e tirou dúvidas.

O Concurso incluiu o desenho de Limpiões (bonecos) e escrever frases referentes à protecção ambiental. As fases e os desenhos foram classificados. O melhor desenho e a melhor frase foram escolhidas para cobrirem as partes laterais dos camiões concelhios de recolha dos lixos. O primeiro prémio incluía uma colecção de livros de pintura e estojos de desenho. Além disso, os melhores dez tiveram uma viagem ao Porto com passeio no Douro e visita guiada à Casa da Música e outra à Resulima, onde puderam apreciar o tratamento posterior dos resíduos sólidos. Todos os trabalhos produzidos pelos alunos foram objecto de publicação na revista da Adapenha, cuja capa se reproduz neste trabalho.

Dentro do âmbito da Educação Ambiental, a Adapenha festeja desde a sua fundação, há 16 anos, o Dia Mundial da Árvore reunindo nos Montes da Penha junto à sua sede social largas centenas de crianças do Primeiro Ciclo do Ensino Básico do concelho de Ponte da Barca, com plantação de árvores, palestra alusiva ao tema e lanche oferecido pela Associação. Este evento já entrou para a Agenda Cultural do município.

Fig64 - ADAPENHA - Concurso "O Limpião" - Capa da Revista

Fig64 – ADAPENHA – Concurso “O Limpião” – Capa da Revista

Como responsável pala Adapenha produzi o Manual de Toponímia da Vila de Ponte da Barca do qual consta também uma resenha histórica de todas as personagens que aí têm referência toponímica. É talvez a única vila do país onde os cidadãos podem facilmente saber quem foram e porque se distinguiram aqueles que a vila honrou perpetuando o seu nome na sua toponímia.

Como deputado independente pelo PS, defendi na Assembleia Municipal temas que se revelaram da maior importância, alguns dos quais ainda estão hoje a atingir a sua realização, como a ponte de Lavradas.

Cap. VIII – Contributos escritos militares ao longo da minha carreira

Muita coisa do que se fez anda dispersa. Aqui apenas apresento trabalhos situados no tempo em que fui comandante e de que tenho lembrança:

IV Semanas da Arma – 1983 – Previsão e Provisão de Transmissões Seguras.

Este trabalho teve em vista alertar para o facto de a defesa da CHERET fora da AT perder credibilidade, com a integração que a tecnologia ia assegurando.

VI Semana da Arma – 1985 – Horizonte 2000 – Realidades Possíveis

Este trabalho, aliás muito contestado na altura, teve por finalidade alertar para que, por mais ambição que se quisesse ter, as tecnologias avançariam mais do que os nossos desejos. Por isso as TM deviam colocar-se na fronteira do possível.

VIII Semana da Arma – 1987 – O SITEP, inauguração do PTAP

Aqui se definem os requisitos, o cenário envolvente e as tecnologias do SITEP.

Técnicas de avaliação de Canal – Neste trabalho dá-se conhecimento da técnica de sondagem oblíqua da ionosfera, que viria a dar o Projecto HF – Tempo Real.

IX Semana da Arma – 1988 – Perspectivas de Integração da Informática na Transmissões.

Neste trabalho se recorre ao modelo OSI e à informática distribuída para demonstrar que uma central de comutação de serviços integrados é um computador específico e que o diálogo entre ela e um computador da informática, num ambiente digital, dependia apenas de protocolos, cada vez mais próximos, depois de implementado o modelo OSI ou equivalentes.

XII Semana da Arma – Exército 2000 – Que Guerra Electrónica

Já me referi ao conteúdo deste trabalho.

IV Encontro de Estudos Militares – 1984 – Reflexões sobre as estruturas das Transmissões do Exército.       

Este trabalho apresenta o cenário envolvente com as entidades exteriores ao Exército e caracteriza um sistema de transmissões que lhe dê resposta.

AFCEA – Portugal Chapter – Pré-requisitos for a communications System Concept

Trata-se de um trabalho que se destinou a satisfazer um compromisso em que o Exército tinha de apresentar um tema de comunicações. Tinha o desencanto de ter de ser escrito e lido em inglês. Em resumo, divulga o SITEP.

Cap. IX – Curriculum Vitae

Nome: Manuel da Cruz Fernandes

Data de nascimento: 02/03/1935

Situação Militar: coronel Eng.º Tm, Reforma

Funções Actuais: Jornalista e Director Adjunto de “O Povo da Barca”

Presidente da Adapenha, ONGA da área do Ambiente.

I – Carreira Militar

Academia Militar (1960/1964)

Curso de Oficial

BT – 1968/70

Cmdt CRE

Chefe Svc. TPF

Instrutor de GE

RMM – 1970/74

Cmdt CTm do CMD CHEFE

Cmdt CI

Chefe Gab. Estudos e Projectos

Of Tm do CMD CHEFE

Of Tm COFI

RMC – 1975/76

Chefe do Destacamento de Especialistas Politécnicos

Co-autor do Estudo: Quadro Humano da RMC

RTm – 1976

Projectista de Redes de Telecomunicações e Som de PU

EMGFA/DICE – 1977/80

Ch. Sec. Feixes e Linhas

Repres. Nacional na ALLA (ALLA Member)

Deleg. aos ALLA Working Groups

EMGFA/CEIOTAN 1978/80

Vogal Técnico e Fiscal de Telecomunicações, onde se destaca a instalação e o ensaio dos sistemas de comunicações para controlo da aproximação e de descolagem de aeronaves militares do aeroporto de Porto Santo.

DAT – 1980/82

Chefe Rep Estudos Gerais

Coord. do Exército das Agências ATCA, ALLA, ADSI e ARFSA

Membro e Representante Nacional na ATCA.

RTm – 1980/89

2.º Comandante (1982/84)

Comandante (1984/89)

Chefe do STM (1984/89)

Director do Programa ED – 01.1 da LPM (SITEP) (1984/1989)

DAT -1989/93

Adjunto do Director (1989/90)

Inspector Tm (1991/93)

Membro Nacional e Conselheiro Sénior de Guerra Electrónica do NAAG

Director do Programa 46.1 – GE

Representante da DAT na Reestruturação do Exército.

Participação na preparação da ONU MOZ PEACE KEEPING OPERATION.

Responsável pela limpeza electrónica do Centro Cultural de Belém (CCB) (construção e funcionamento)

Louvores e condecorações militares:

11 Louvores e 5 condecorações

II – Cursos e estágios

Militares

Ciências Militares da AM (1960/64)

Guerra Electrónica – Anzio (1968)

Material e Segurança Cripto

Aperfeiçoamento de Comando e Direcção (IAEM)

Civis

Engenharia Electrotécnica (IST) (1964/67)

Companhia Nacional de Electricidade (CNE) -1965

Sociedade Anónima de Transmissão (RARET) – 1966

III – Funções Civis e Governamentais

Direcção dos Serviços Radioeléctricos – CTT (1968/70)

Investigação de Propagação em HF

Instrutor de Aperfeiçoamento de Técnicas HF

Escola Comercial Neutel Abreu (1970/74)

Professor: Electricidade e Projecto

Câmara Municipal de António Enes (1971/74)

Consultor: Electricidade;

Fiscal: Remodelação Rede Eléctrica de AT e Central Geradora

Direcção Distrital de Obras de Moçambique (1972/74)

Fiscal: Obras de Electricidade

Governo de Macau (1982/89)

Consultor de Telecomunicações

Projecto, Responsabilidade Técnica e Fiscalização: Sistema de Comunicações Integrado do Governo e das Forças de Segurança de Macau

Gabinete da Área de Sines (1988/89)

Consultor de Telecomunicações

Projectista: Rede Radiotelefónica

Governo – Despacho conjunto do 1.º Ministro e do Ministro da Defesa Nacional.25/5/90

Estudo, configuração e segurança das comunicações contra radiações indesejáveis e fuga de informação electrónica.

1. Na construção do Centro Cultural de Belém: Consultor

2. Nas 15 reuniões de alto nível da Presidência Portuguesa da CEE: Definição das áreas de alta segurança e procedimentos de limpeza electrónica.

NAIPTEL – (1991)

Delegado do Exército

 

Cap. X – Agradecimentos

O que fica escrito não refere as relações que estabelecem a importância que a acção de muitos dos meus camaradas teve, quer no sucesso das acções do meu comando, quer do caminho que me conduziu à direcção do SITEP.

É precisamente desse aspecto que vou tratar a seguir. A sequência que uso não tem necessariamente que ver com a importância que teve cada um dos meus camaradas com o que acabou por acontecer. Está apenas aproximadamente ligada com o momento da intervenção de cada um deles e nada mais.

General Garcia dos Santos: Sempre colocou o meu nome entre os oficiais que em seu entender deveriam ser chamados aos Estudos das Transmissões. Por isso lhe devo o reconhecimento por essa confiança;

General Pereira Pinto: Que partilhou e manifestou de idêntica opinião e foi sob a sua direcção, como Director da Arma de Transmissões, que fui enviado à Alemanha e à Bélgica para avaliar as transmissões desses países, me enviou ao RTm para fazer os primeiros projectos de Rede Telefónica de PU, me encarregou dos Projectos de Cobertura dos arquipélagos dos Açores e da Madeira e me nomeou para fundar, com os outros Ramos das FA, a Divisão de Comunicações e Electrónica (DICE) do EMGFA.

General Pinto Correia: Desde que chefiou a DICE, onde me encontrava então, foi determinante no que aconteceu nas Transmissões Permanentes porque, apesar de ter estado nos CTT e ter encontrado instalada na AT, quando chegou à Direcção, a corrente de opinião que baseava nos CTT a parte principal das Transmissões Permanentes, apoiou a corrente contrária em que eu me incluía e fez o necessário para que a ideia vingasse. Nomeadamente escutando as teses que lhe foram presentes, facilitando a sua introdução na discussão do EME e promovendo a agilização das promoções de modo a colocar-me em lugar em que pudesse ser provado se as Transmissões eram ou não capazes de tomar o seu destino em suas próprias mãos. Logo que se deu a minha promoção a coronel colocou-me no comando de RTm e na Chefia do STM.

General Firmino Miguel: Teve a decisão fundamental para o arranque do SITEP, mesmo contrariando a opinião do seu Staff. A ele se deve também a ordem de inclusão do SITEP na LPM. A sua confiança na nossa capacidade acabou por contagiar o EME, nomeadamente com a entrada em funcionamento do PTAP. Foi por decisão sua que fui enviado à Itália para apreciar as técnicas de fabrico de feixes digitais neste país e, mais tarde, o acompanhei como convidado pessoal, na sua vista às estruturas da NATO do AFCENT.

General Almeida Viana, sob cuja direcção trabalhei repetidas vezes e que sempre me demonstrou plena confiança e rasgado apoio, quer nos CTT, quer em Macau, quer no Gabinete da Área de Sines, quer na DAT. Daqui, sob a sua Direcção me desloquei a Moçambique em missão de avaliação da capacidade das Transmissões sustentarem as ligações do processo de paz de Moçambique (ONUMOZ PEACE KEEPING OPERATION). Aqui recebi também o seu incentivo para o estudo e implementação da GE na EPT.

General Pedroso Lima: Foi um Director estimulante que conseguiu introduzir um certo estilo de Estado-Maior na forma de dirigir, pondo sempre a qualidade em destaque. Na peugada de anteriores directores na confiança que depositou nos seus servidores, seguiu regras lógicas e precisas de controlo e tomou a defesa frontal dos pareceres que do STM lhe chegavam, quando teve de intervir no processo de decisão.

General Góis Ferreira: Chefiando a DSIE e tendo ideias basicamente estruturadas de forma oposta às que eu defendia quanto à informática e ao seu papel, sempre esteve atento à evolução desta ciência a ponto de abraçar a causa das Transmissões Permanentes e da sua capacidade de integração de processos chegando até a eleger a Integração como tema da Semana da Arma de 1992, ano em que era seu Director.

General Fialho da Rosa: Absolutamente fundamental quando assumi o comando na consolidação do espírito de corpo do pessoal técnico do STM, com cujos jovens oficiais engenheiros mantinha uma relação extremamente rica e de que beneficiei quando este camarada foi movimentado a seu pedido. Deixou atrás de si um património humano que haveria de perdurar e que foi enriquecido com múltiplas experiências de trabalho e de convívio de que mutuamente todos beneficiámos. Este oficial acompanhou-me na apresentação do SITEP ao CEME e em missões de trabalho às RM, para preparação de projectos do SITEP.

General Edorindo Ferreira: Este camarada foi uma pedra fundamental no sucesso da missão do RTm/STM. Como chefe da DIRM e director-adjunto do Programa ED – 01.1 SITEP, foi capaz de dar seguimento ao espírito de corpo e liderança herdados do Fialho da Rosa, sendo ao mesmo tempo possuidor de uma aguda inteligência e de uma capacidade de entrega e resistência à fadiga que lhe permitiam dominar em grau muito elevado especialidades de áreas do conhecimento de outros camaradas. Da forma como aderiu ao meu método de liderança resultou a interpenetração colegial de saberes, geradora de sinergias que a todos enriqueceram. Acompanhou-me em várias missões, nomeadamente às RM/ZM.

Coronel Cordeiro (Verde): Foi o meu primeiro 2.º Comandante. Compreendeu e aderiu completamente ao meu estilo de comando e ocupou-se com zelo da vida da Unidade e dos serviços internos.

Coronel Ferreira da Silva: Foi o meu segundo 2º. Comandante, desempenhando nessa qualidade um trabalho notável. Foi também oficial encarregado de dar continuidade aos projectos de PU, técnica que passou a ser rotina no STM daí em diante. Mais tarde acompanhou-me aos Açores e à Madeira, quando fui encarregado de conduzir os projectos de cobertura daqueles arquipélagos. Também me acompanhou a Briton, à Universidade de Sussex, quando aí nos deslocamos no contexto do SITEP.

Coronel Oliveira Ferreira: Este oficial foi o motor da comutação de serviços integrados e o que melhor captou as minhas referências a esta área do conhecimento no tempo em que ainda muito pouco se falava das novas tecnologias. Foi nessa qualidade escolhido para liderar a equipa que se deslocou à Bélgica para tirar, nas fábricas produtoras do equipamento de comutação, o curso que lhe permitiu acompanhar o fabrico e a assemblagem e, mais tarde, tratar de igual para igual com os engenheiros de outras proveniências (fábrica, CTT, TLP), que melhor dominavam estas áreas do conhecimento. A comutação digital de serviços integrados, sinalização de comando e controlo e interligações entre sistemas de idades tecnológicas diferentes foram áreas em que o Oliveira Ferreira se tornou uma autoridade. Foi fundamental para o PTAP.

Coronel Carlos Rodrigues: Acompanhou o Cap. Oliveira Ferreira no Curso tirado na Bélgica e, mais tarde, na Califórnia para tirar o curso de Crossroads. Tornou-se um especialista na comutação de mensagens e um dos que mais se aproximaram do Oliveira Ferreira e mais de perto emparceirou com ele. O Rodrigues tinha especiais qualidades de trabalho e de resistência, tendo sido um dos oficiais a cujo esforço mais se deveu para que a inauguração do ARTEL se realizasse na data prevista e tivesse sido um sucesso. Já tinha sido fundamental para o PTAP.

Coronel Varela: O então Capitão Varela foi o oficial dos feixes. Primeiro dos analógicos e, depois, dos digitais. O Capitão Varela acompanhou-me em muitas das diligências no país e no estrangeiro, tendentes à escolha das tecnologias disponíveis e preparação dos projectos de implementação dos feixes ópticos no terreno. Pena foi que o trabalho deste oficial tivesse sido cortado a meio, altura em que foi nomeado para a DSIE.

Coronel Carvalheira Porfírio: Este oficial herdou, como capitão, a área de projecto de tecnologia tradicional das redes das PU, mas cedo se familiarizou com a comutação digital e com as fibras ópticas. Para se especializar nestas tecnologias foi enviado à Inglaterra para tirar um curso de Fibras Ópticas. Foi o primeiro oficial do Exército a dominar as técnicas laboratoriais e de campo de projectos englobando redes de fibras ópticas. A sua acção teve influência no aprovisionamento do laboratório de fibras ópticas do RTm. Foi fundamental para o PTAP.

Ten-Coronel Jorge Sales Golias: A sua permanente amizade e camaradagem e a sua honestidade moral e intelectual, intrínsecas, seriam mais do que bastantes para o considerar exemplo entre os pilares que orientaram os meus procedimentos. Ao seu incentivo devo também o ter escrito sobre mim mesmo, o que, para além do possível interesse para a história que isso possa representar, denota a seu favor mais uma prova de amizade desprendida que combina com a sua permanente atitude de leal camaradagem.

Coronel José Canavilhas: Pela sua amizade e pela iniciativa de criação e manutenção do Blogue, o que permite um sítio para publicação da nossa actividade e relato das nossas carreiras.

Major Pequeno: Radioamador e entusiasta do Som, o então capitão Pequeno esteve envolvido na transformação e montagem das viaturas de Som/TV. Para isso, o capitão Pequeno foi deslocado para as oficinas de montagem do estudo por nós executado no RTm, para que fosse obtida uma qualidade sem defeitos. Mais tarde, mercê dos seus conhecimentos de HF, este oficial foi envolvido no Projecto de HF – Tempo Real, ao qual dedicou tudo o que sabia com entusiasmo e bons resultados.

Capitão Félix: O Capitão Félix foi o oficial que detinha os conhecimentos dos sistemas de feixes hertzianos, de tecnologias analógicas. Nessa qualidade, o Capitão Félix foi de grande utilidade, pois permitiu a transferências para a nova geração de oficiais de todos os saberes acumulados na sua cabeça. O STM não tinha registos. Estes só começaram a ser feitos com a entrada em funcionamento da Base de Dados.

Capitão Carmo Domingues: Este oficial foi dedicado, incansável, sabedor e inteligente. Sem ele muitas das obras e transformações do quartel não teriam sido possíveis.

Mor Barroso: Este sargento foi o chefe da classe de Sargentos e um precioso auxiliar do comando. A classe tinha-lhe respeito e a sua disponibilidade para colaborar com o Comando era seguida por toda a classe.

Sargento-ajudante Simões: Notável artificie serralheiro, ao qual se devem muitos trabalhos em ferro forjado existentes na Unidade.

1.º Sargento Silva Pereira: Este sargento foi o representante da Unidade para o desalojamento dos clandestinos que se tinham instalado nos terrenos do Quartel. A forma como se saiu desta incumbência merece esta referência.

A menção a apenas estes camaradas não diminui em nada o muito que outros fizeram em prole da Unidade que todos tanto estimavam. Em trabalho mais desenvolvido, tenciono fazer referências a muitos mais.

Lisboa, 22 de Fevereiro de 2013.

Manuel da Cruz Fernandes
Coronel Engenheiro Transmissões, Ref.

Coronel Cruz Fernandes – Uma notável história de vida (6)

Cap. VI – Guerra Electrónica, Processo de Paz de Moçambique e Presidência Portuguesa da CEE

1. Guerra Electrónica

A minha ligação à GE é tão antiga como a carreira de oficial. Apresentei-me, vindo do IST, no fim de 1967 e, no início de 1968, parti para Anzio tirar o curso de GE. Sou, assim, o primeiro oficial engenheiro electrotécnico com este curso. No regresso, fui nomeado instrutor de GE e assim me mantive até partir para Moçambique. Foi nessa fase que escrevi os manuais de instrução que duraram até 1974.

A evolução da GE nunca mais deixou de me interessar e, durante o meu comando, fiz intervenções que apresentavam a minha perspectiva do sistema mínimo de GE necessária ao Exército e à justificação da mesma na Arma de Transmissões.

Atentos a esses sinais, os Directores da AT nomearam-me director do Programa ED – 46.1 – Guerra Electrónica e membro nacional ao ACP 225, Sub – Painel 5, Guerra Electrónica, qualidade com que tomei parte nos testes de campo dos equipamentos mais avançados de GE dos países da NATO, realizados em Feldafing, na German Army Signal and Technical School of Electrical Engineering. Foi também nessa qualidade que chefiei uma delegação à Alemanha, onde visitei fábricas da AEG – Telefunken, da Siemens e da Rohde and Schwarz, e à Inglaterra, onde visitei as fábricas e o Colégio de Electrónica da RACAL.

Fig59 - DAT - Guerra Electrónica Divisionária

Fig59 – DAT – Guerra Electrónica Divisionária

Consolidando intervenções anteriores, apresentei um Estudo, que acabou por publicado na Semana da Arma de 1992, que propunha a implementação da GE por fases, a começar pelo CIGE (Centro de Instrução de GE) na EPT, e foi publicado na Semana da Arma de 1992, que decorreu em Santa Margarida, onde dirigi os ensaios de campo de GE com os primeiros equipamentos adquiridos.

Fig60 - DAT - Centro de instrução de GE

Fig60 – DAT – Centro de instrução de GE

Do Estudo fazia parte a ampliação do CIGE para seis posições de aluno e o seu apetrechamento, servido por uma base de radiolocalização estratégica fixa (constituída por três PA 10, um dos quais ainda montados por mim na Apúlia e a o outro junto ao COMCHEFE dos Açores posterior à minha acção) e por duas bases tácticas móveis (constituídas por 3 PA – 1100, e um PA 2000, montados em shelters). Durante o processo, tinha sido proposta a aquisição do equipamento que permitia a representação dos dados de radiolocalização no VIGRESTE e mostrar as posições do IN no terreno, o que já se conseguiu mostrar em Santa Margarida.

Fig61 - DAT - Guerra Electrónica - Primeira fase

Fig61 – DAT – Guerra Electrónica – Primeira fase

Como director do Programa ED – 46.1, e na sequência do Estudo, elaborei o Caderno de Encargos para a GE, acompanhei a vinda dos engenheiros alemães à EPT para remodelação do CIGE, desloquei-me à Alemanha para receber o material em fábrica, (onde surgiu a proposta para montar os PA-1100 em shelters com antenas telescópicas), e aí deixar os oficiais da EPT que iam tirar o curso de GE e acompanhar a montagem do material e o seu envio para a EPT.

Fig62 - DAT - Guerra Electrónica - Primeira e segunda fases

Fig62 – DAT – Guerra Electrónica – Primeira e segunda fases

Assisti à montagem do material na EPT e dirigi a montagem do primeiro Radiogoniómetro da base estratégica, PA 10, na Estação Rádio Naval da Apúlia (por não haver espaço conveniente em nenhuma propriedade militar do Exército), e fiz a sua recepção.

O que se conseguiu, enquanto fui director do Programa ED-46.1, é tudo o que ainda hoje existe.

Seria interessante para a história reunir toda a acção protagonizada por cada um dos actores desta fase notável das Transmissões em vários domínios.

Os Rádios, o VIGRESTE, o SITEP, a GE e, se calhar, outros com menos visibilidade do que merecem, apareceriam e ficariam com as proporções justas.

Deixo a intenção de reformular este capítulo para ressaltar vários episódios deste desenvolvimento da GE nos meus dias porque os considero úteis para a História das Transmissões.

2.Processo de Paz de Moçambique (ONUMOZ PEACE KEEPING OPERATION)

Discutia-se o processo de paz de Moçambique na ONU. Pela primeira vez se punha o problema de Portugal, uma jovem democracia, se envolver numa operação deste tipo. Algumas nações, como a América e o Canadá, punham algumas objecções, devidas, segundo elas, a Portugal e ter estado envolvido nas guerras de libertação e a sua presença poder suscitar novos ódios ou pruridos de independência.

Resolvida esta parte a nível político, ficou decidido que Portugal poderia participar.  

Para assegurar o processo de paz era preciso guardar 49 locais de deposição de armas em áreas ora controladas ora pela RENAMO ora pela FRELIMO. Esses locais serviam também para dar meios de identificação às populações e a s primeiras sementes para que nas suas terras de destino pudessem fazer as primeiras sementeiras. Além disso, durante o processo era preciso manter a paz em todo o território e garantir corredores de segurança na Beira e em Nacala, que correspondiam às linhas férreas que drenavam o território. Estando os comandos e o Governo em Maputo, era preciso assegurar a estabilidade nesta área.

Posto o problema a Portugal o assunto passou do domínio político para o militar. Reunidos os Chefes dos Ramos no EMGFA, tanto a Marinha como a Força Aérea declinaram a sua participação. O assunto passou para o Exército e as Armas tiveram atitude semelhante à dos Ramos. O ónus passou para as Transmissões.

Foi aqui que Chefe do Estado-Maior do Exército, o general Firmino Miguel, convocou o general Almeida Viana, então director da Arma de Transmissões, onde eu estava colocado, determinando-lhe que apresentasse um relatório de possibilidades e meios para as Transmissões tomarem parte no Processo de Paz.

O general Almeida Viana, que me conhecia de outros desempenhos, deu-me a missão de me deslocar a Moçambique e fazer um reconhecimento da missão, dos meios, dos materiais e as nossas possibilidades de desempenhar a missão. Segui para Moçambique na equipa do general Gonçalves Ribeiro para no terreno dar conta da missão de modo a servir de auxiliar de Decisão para determinar se Portugal participaria ou não, no Processo de Paz.

No levantamento a que procedi verifiquei que Portugal tinha uma oportunidade, até aí única, de desempenhar uma missão com grande visibilidade, pois dispunha de meios e de pessoal qualificado para o seu desempenho. Essencialmente tratava-se de assegurar as Comunicações conjuntas do Comando-Chefe situado no Maputo e dos três comandos subordinados, situados respectivamente no Maputo, na Beira e em Nampula, assegurando ligações entre forças de nove países presentes no processo de paz.

Procedi ao levantamento dos locais de instalação viajando pelo território que eu bem conhecia da minha anterior permanência de quatro anos nele. Nestas viagens de reconhecimento os americanos e canadianos puderam ver que os comando militares e as populações do país davam trato de prioridade aos portugueses que antes haviam combatido.

Do relatório que então apresentei dava conhecimento da situação em geral, do acolhimento recebido pelos naturais, descrevia a missão e os meios para cumpri-la e alertava para a necessidade de quantificar em números os custos totais para que a ONU ressarcisse Portugal no caso de este tomar parte na ONUMOZ PEACE KEEPING OPERATION. Propunha finalmente que Portugal aproveitasse essa oportunidade de fazer e fazer bem.

De novo em Portugal, aceite a proposta e preparados os meios, voltei de novo a Moçambique com o Comandante da Força, ten-cor Pinto de Castro e com o seu segundo comandante major Stone para, in loco, os inteirar do que era referido no meu Relatório, para aferir os ajustes finais e para ajudar a aplanar dificuldades. Depois voltámos a Portugal e só os elementos da força regressaram a Moçambique.

A Operação foi coroada de êxito, tendo as nossas tropas e o seu comando recebido os mais rasgados elogios.

Nove nações contribuíram com tropas para esta operação tendo Portugal, pela sua missão, estabelecido os meios de ligação de comando e coordenação do esforço de todos eles na operação conjunta.

3. Centro Cultural de Belém – Despacho conjunto do 1.º Ministro e do Ministro da Defesa Nacional.25/5/90

Construía-se o Centro Cultural de Belém (CCB). Alguém a nível do Governo alertou para a necessidade de que os equipamentos e outros elementos electrónicos fossem construídos e instalados à prova de radiação electromagnética, dado que iam aí decorrer reuniões da máxima segurança, durante a Presidência Portuguesa da Comunidade Económica Europeia.

Consultada a DAT, esta indicou o meu nome, o que veio a merecer o Despacho conjunto do 1.º Ministro e do Ministro da Defesa Nacional.25/5/90, mediante o qual passei a responder, pelo estudo, configuração e segurança das comunicações contra radiações indesejáveis e fuga de informação electrónica, actuando na fase da construção do Centro Cultural de Belém como consultor, e nas 15 reuniões de alto nível da Presidência Portuguesa da CEE como responsável pela definição das áreas de alta segurança e procedimentos de limpeza electrónica correspondentes. Nessas funções estive em Guimarães, Porto, Curia, Algarve, Madeira, Estoril etc.

Coronel Cruz Fernandes – Uma notável história de vida (5)

Cap. V – O meu Comando

 A minha passagem pelo RTm como comandante

 1. Primórdios

Mesmo destinando-se este documento a dar testemunho, para memória futura, das memórias que retenho como comandante do RTm, não posso, devido às particulares condições do meu percurso militar, deixar de recuar um pouco no tempo para situar esse começo.

Assentei praça, como soldado, no então BT, nos finais dos anos 50, com apenas a instrução primária.

Nesta Unidade fui sargento miliciano, e já como sargento do quadro e com o curso geral dos liceus daqui concorri à Academia Militar, de onde regressei, quatro anos depois, com o curso de oficial, em trânsito para o IST, de onde haveria de regressar, três anos depois, licenciado em Engenharia Electrotécnica, com a melhor classificação do meu curso.

Período conturbado e decadente

No período a seguir ao 25 de Abril de 74, perdido o objectivo de África e quebrada a organização administrativa do Estado, foi a Instituição Militar objecto das mais diversas solicitações externas para suprir as lacunas de autoridade do Estado, com evidente perda de qualidade interna da própria instituição.

O RTm espelhava, anos depois, essa situação de degradação geral.

Estando eu próprio hipotecado numa missão dessas, numa visita que fiz à Unidade verifiquei que se cozinhava numa arrecadação e se fazia bicha única para o café, desde o soldado ao Comandante.

Preparação e comando

Cheguei à Unidade, desta vez, como 2.º comandante.

O Comandante, cor. eng.º Pinto dos Santos delegava a parte técnica no chefe da DIRM, sem qualquer interferência do 2.º Comandante nessa área.

Durante este período, as minhas obrigações limitavam-se ao Quartel, mas as preocupações estendiam-se a toda a organização e estrutura das Transmissões Permanentes, obsoletas e no fim da vida útil.

Reportando-me apenas à Unidade, recordo que:

As actuais cozinhas não funcionavam ainda;

Os Refeitórios eram de paredes nuas e amplos salões, sem divisória entre messes de oficiais e sargentos e a baixela de aço inoxidável;

O mobiliário era constituído por mesas quadradas e cadeiras metálicas;

Na Unidade havia uma cantina que vendia géneros da Manutenção Militar, ditas “sobras do rancho”;

Os depósitos da Unidade estavam transformados em arrecadações de sucata e materiais obsoletos;

O edifício das Transmissões não escapava ao estado geral de arrecadação de obsoletos;

A parada superior, sem urbanização, era um lamaçal quando chovia;

As instalações do pessoal, algum do qual vivia na Unidade, em muito mau estado;

A cobertura das casernas das praças, suportada em asnas de madeira de primorosa execução, a ameaçar ruína, em virtude do apodrecimento dos topos de apoio nas paredes;

A água que se infiltrada nos torrões ameaçava arruinar o tecto de estuque trabalhado do Gabinete do Comandante;

Os terrenos militares, fora dos muros do quartel, invadidos por ocupação selvagem, continham 16 barracas e alguns quintais de particulares.

A frota de viaturas da Unidade, constituída por grandes viaturas de campanha, era insuficiente e completamente desadequada para o serviço do STM.

Para além de se saber que provinha da Engenharia Militar, a Unidade não dispunha de um estudo que falasse das origens do quartel e da sua Evolução e Herança Histórica.

2. O meu comando

Com os antecedentes atrás referidos, no acto de posse do comando, nos finais de 1984, anunciei um Plano Director de Obras (um ano depois transcrito a páginas 48 e seguintes do Anuário da Unidade), que resumidamente tinha em vista os seguintes objectivos:

– Garantir maior funcionalidade e eficiência das instalações para o cumprimento da Missão;

– Contribuir para o bem-estar e formação do espírito de corpo do pessoal da Unidade;

– Obstar a que o património se degradasse.

Para não tornar extenso demais o meu depoimento, refiro que a transformação do que era a Unidade para o que está hoje à vista no RTm, se deu durante o meu comando. No entanto, chamarei a atenção para aspectos que não são do conhecimento geral, nomeadamente: Cozinhas e Refeitórios, Sala de Oficiais, trabalhos de azulejaria e casernas das praças.

Cozinhas

Incluo nesta designação a entrada em funcionamento das cozinhas e a preparação dos Refeitórios dos Oficiais, dos Sargentos e das Praças.
Nesta preparação se inclui a divisória amovível de separação do Refeitórios de Oficiais do de Sargentos, e o azulejamento destes refeitórios e do das Praças. E ainda o mobiliário e baixela novas.

Azulejos do refeitório, hierarquia

Fig42 - RTM - Azulejos do refeit¢rio - Brasão de Armas

Fig42 – RTM – Azulejos do refeit¢rio – Brasão de Armas

A este respeito ressalto que o revestimento em azulejo tem um sentido e uma intencionalidade e as cinco cadeiras mais notáveis do mobiliário foram as mesmas que serviram no Tribunal da Unidade desde a sua fundação (1907), revestindo-se portanto de um simbolismo especial.

Por sua vez, o significado dos azulejos, é o seguinte:

– O Brasão simboliza “Hierarquia”, o mural que contém os brasões das Unidades e Órgãos de Transmissões, simboliza o “Espírito de Corpo”, o Quartel da Cruz dos Quatro Caminhos, que está na origem do RTm, representa a “Herança Histórica”, a figuração do actual Edifício do Comando, representa o “Testemunho” e os diversos equipamentos de transmissões espalhados pelas paredes representam a “Missão”.

– Na sala de Sargentos e na das Praças há apenas Hierarquia e Missão.

Sala de Oficiais

A sala de Oficiais do Edifício do Comando era exígua e sem dignidade, ocupava apenas o que é hoje a sala de jogos (atravancada por um longo balcão coberto a napa) e a sala do café. Para ela se entrava pela porta lateral, a partir de um corredor que abria directamente para os quartos. Exigia-se coisa de maior dignidade.

Desde sempre tive orgulho de a Engenharia provir do Real Corpo de Engenheiros e aproveitei esta obra para deixar nela uma marca que lembrasse essa herança histórica.

Depois de reflectir, concluí que a melhor maneira de o conseguir seria representando oficiais do Real Corpo de Engenheiros, tal como fardaram ao longo dos tempos. É isso que se pode observar, do mais antigo para o mais moderno, começando na porta de entrada, sob o arco, e terminando no Salão Nobre.

Faço notar que a “figura de convite”, que se encontra ao lado da porta de entrada para o Bar, é uma evocação das que, nos palácios dos grandes senhores, davam as boas-vindas e encaminhavam os convivas para os salões.

Para executar a obra foi preciso cortar duas paredes, e construir dois pórticos sobre os quais descarregam as paredes mestras dos andares superiores do edifício. O piso da sala, que era de madeira, foi substituído por laje. De notar que toda obra, incluindo a entrada para a Parada Principal e as portadas foram executadas por pessoal do RTm.

Azulejos da entrada de sala de oficiais. Figura de convite

Fig43 - RTM - Azulejos da entrada de sala de oficiais - Figura de convite

Fig43 – RTM – Azulejos da entrada de sala de oficiais – Figura de convite

No passo seguinte foram azulejados os corredores de entrada da Sala e dos aposentos dos sargentos com idêntica figuração à que tinha sido utilizada para os Refeitórios.

Casernas de praças

A primeira pedra do Edifico do Comando foi lançada pelo rei D. Luís, cerca de 1905.

Nessa altura trabalhava-se com madeira de uma maneira primorosa. É esse primor que se observa nas asnas de sustentação das coberturas dos edifícios das casernas. Com o tempo, a humidade infiltrada corroeu as cabeças das asnas, algumas das quais tinham descaído tanto que a cobertura ameaçava desabar.

Concebeu-se e mandou-se executar um cachorro especial, do qual saía, depois de instalado, um perfil em U, com medida interna justa para receber a asna e longo o bastante para a acompanhar até à parte sã. Para executar a obra foi preciso elevar e nivelar as asnas das estruturas e mantê-las nessa posição até à consolidação das massas de assento dos cachorros. Diminuiu-se deste modo para um décimo o custo da obra e preservou-se um património muito raro.

Resenha Histórica da Unidade

Este estudo, publicado no Anuário da 1987, faz uma resenha histórica das vicissitudes porque passou a Unidade e o local em que hoje se encontra. Divide-se em duas partes, tratando a primeira da contribuição para a História das Transmissões e para a determinação da herança histórica do Regimento de Transmissões e a segunda de uma contribuição para a história do Quartel da Cruz dos Quatro Caminhos, onde, depois de muita evolução, nos encontramos.

O STM

Eu fui o primeiro comandante do RTm com formação em engenharia electrotécnica. Os comandantes antes de mim, alguns muito bons engenheiros, tinham formação de base e prática na área de engenharia civil.

Havia oficiais promissores, com formação em engenharia electrotécnica como eu, mas de escalões ainda muito baixos para influenciar a linha de comando.

Entretanto, as tecnologias estavam em ritmo acelerado de mudança e as exigências de comunicações dos vários comandos e órgãos em ritmo crescente. As velhas tecnologias da rede aérea e da central manual estavam no fim. O STM mantinha tudo isso, sem saber evoluir. Como exemplo, quando, em 1976, foi preciso projectar de raiz uma Rede Telefónica Interna de PU, não se encontrou neste Serviço quem fosse capaz de o fazer.

Foi por requisição temporária que fui colocado no STM, vindo de RMC, onde me encontrava, para elaborar os primeiros sete projectos de Rede Interna de Unidade e passar o Know-how ao capitão Ferreira da Silva. As primeiras PU a beneficiar foram o RC, o RAAQ, a EPAM, a EPC, o RIV, etc.

Quando assumi o comando, havia uma Directiva de há cinco anos atrás, que apontava para basear as Comunicações Militares Permanentes entre o EME e as RM em circuitos alugados aos CTT/TLP, forma implícita de reconhecer a incapacidade de a Instituição o fazer por si mesma. Escapava a este desígnio, a ligação Lisboa-Porto, suportada nos feixes da FAP.

A nível das RM, havia centrais telefónicas nos QG e algumas comunicações ponto-a-ponto, telefónicas e de telex, baseadas em tecnologias analógicas.

Certas PU dispunham de Redes Telefónicas Internas, lançadas a partir dos projectos referidos acima, algumas de comutação electrónica, mas todas de tecnologias analógicas.

No STM (RTm), a central telefónica de 700 direcções e a central de telex de 100 direcções, não fugiam à regra. Com excepção da rede de Lisboa, em que os circuitos de telex eram comutados, todos os outros eram ligações ponto-a-ponto.

A rede de cabos de Lisboa, parte em cabo de papel e parte em cabo PVC, estava numa fase embrionária e com montagem em estrela.

Em alguns comandos, EME incluído, havia duas ou mais redes internas independentes, uma dos CTT e outra militar, com fiarada pendurada pelas paredes, a entrar pelas janelas e a cruzar por todos os lados.

Havia um imbróglio de posse e propriedade entre os CTT e o STM, que só foi resolvido algum tempo mais tarde, mercê de um Protocolo que nasceu e foi acordado no tempo do meu comando e depois aproveitado pelo EMGFA para os outros Ramos.

A um deus desconhecido

Se, como 2.º Comandante, pude influenciar a vida da Unidade, o mesmo não acontecia em relação ao STM, porque, nesse domínio, o Comandante decidia com o chefe da DIRM.

Mesmo assim, foi como 2.º Comandante, ao arrepio da orientação e da prática então seguidas, que apresentei, numa reunião do RTm, a minha primeira visão idealizada do SITEP, potenciado pelo emprego das tecnologias emergentes. Dei-lhe o nome de “A um Deus desconhecido”, por duas razões: primeiro porque falava de conceitos totalmente desconhecidos para muitos dos presentes e, segundo, porque nunca acreditei que o Director da Arma, então presente, fosse atribuir mais importância ao meu trabalho do que a outros. Ou seja, não esperava convertê-lo a um deus digital que substituía as tecnologias analógicas pelas temporais.

Defendia aí a entrada directa nas tecnologias digitais (comutação, transporte e terminais), na integração de voz e dados, entrava pelos mecanismos burocráticos e técnicos de execução e gestão de projecto (de que trazia uma larga experiência pessoal), defendia a necessidade de incorporar o existente no que de novo fosse feito (a que chamava aceitar o cenário envolvente), defendia uma estrutura e um serviço de cobertura do território nacional, introduzia a noção de hierarquias no sistema e tratava o conjunto por SITEP (Sistema Integrado de Transmissões do Exército Português). No seu conjunto os requisitos são 18, de que só dou aqui alguns exemplos. E terminava dizendo que, apesar de longamente meditado, assumia arriscar que o que expunha não fosse tomado em consideração.

Enganei-me!

O General Pinto Coreia, então Director, escutou atentamente e, como o tempo fosse escasso, convocou-me para, nos dias seguintes, lhe expor na DAT, todo o meu Plano (Março de 1984). A partir daí, o Director da Arma, soube-o mais tarde, defendeu a minha promoção a coronel para assumir o comando do RTm, o que obrigou à promoção a coronel de cinco oficiais da Arma de uma só vez, para chegar até mim.

Enquanto isso, pela minha parte ainda me desloquei a Macau, onde decorria a construção de um sistema integrado de comunicações do Governo e Forças de Segurança da minha autoria e sob minha fiscalização. Em Macau enriqueci mais a minha experiência e fortaleci a convicção de que o caminho que defendia para o SITEP estava certo.

Um começo convencional

Com este cenário no STM e antes de o SITEP nascer como entidade, preparei um Plano Director do STM, que entreguei ao Director da Arma de Transmissões, no qual abrangia todos os aspectos (estruturas e pessoal) e propunha uma linha de acção. Esse trabalho é anterior às Directivas Técnicas da AT para o STM, que mais tarde serviram a toda a Arma.

O SITEP no EME – uma sessão especial

Assumido o comando, o Director da Arma autorizou-me, em nome da DAT, a ir apresentar o SITEP ao EME. Para o efeito, o Vice-CEME convocou todo o staff. Pela minha parte fiz-me acompanhar do major Fialho da Rosa e do capitão Edorindo Ferreira, meus íntimos colaboradores.

Ouvida a exposição, na qual já se destacava um Projecto Tipo de Área Piloto (PTAP), que serviria o Comando e faria o salto tecnológico para o SITEP, o general Firmino Miguel pediu pareceres aos presentes, que de um modo geral foram contra. Destacou-se o Director das Finanças, brig. Júlio Silva, argumentando com a falta de verbas, indisponibilidade para preparar o caderno de encargos e morosidade da sua aprovação.

Perante isto, o general Vice-CEME, depois de obter os esclarecimentos que pretendeu, perguntou: “Cruz Fernandes, garantes que és capaz?” A resposta foi sim. E acrescentei que, numa estimativa tipo A, o custo rondaria os 200.000 contos e que tinha uma exigência a fazer: Que a elaboração do Caderno de Encargos fosse da responsabilidade do STM, quer a parte administrativa quer a técnica. Que o Caderno de Encargos assim elaborado seria submetido a aprovação superior e que, uma vez aprovado, passaria a Caderno de Encargos-Tipo, o qual na parte administrativa vigoraria para todo o SITEP, sem posterior intervenção dos Serviços Financeiros.

Ouvida a resposta, o general Firmino Miguel propôs ao CEME a aprovação do SITEP e instruiu o chefe das Finanças para a necessidade de aprovar célere o Caderno de Encargos e para o informar que seriam postos à disposição os Fundos Privativos do EME, o que veio a concretizar-se meses mais tarde, quando o PTAP foi aprovado.

O SITEP e as RM/ZM

A segunda acção foi um ciclo de visitas às RM/ZM para:

– Divulgação do SITEP perante os Comandos e órgãos, estudos dos perfis, locais dos repetidores, de abertura dos anéis da hierarquia primária do SITEP aos Nodos Regionais e de ligação por feixes (drop insert) às PU ao longo dos percursos. São exemplos de (drop insert), na RMS, Arrábida, Mendro, Arraiolos, e São Mamede;

-Estudo de soluções regionais para a passagem da hierarquia primária à hierarquia secundária (regional) do SITEP (que nem sempre coincidem com o modelo de Nodo Regional Tipo), e de locais e espaços para Centros de Comunicações das RM/ZM;

-Estudo da situação das transmissões da RM/ZM e soluções de enquadramento no SITEP;

-Projectos de Redes de PU, de Redes de Guarnição e sua interligação por cabos e feixes regionais e zonais, etc.

Durante o meu comando foram visitadas com este propósito todas as RM e ZM, algumas delas várias vezes. As primeiras visitas foram para avaliação, estudo e projecto; as outras para as diferentes fases de execução.

Os trabalhos de Redes de PU, de Guarnição e Regionais que se realizaram em simultâneo com os grandes projectos da Hierarquia Primária do SITEP, permitiram preparar por antecipação diversas obras, sem as quais o SITEP teria sofrido bloqueios na sua implantação. Tratava-se de praticar no terreno o requisito de ir preparando os subsistemas para a integração. Torre de Santa Margarida e a migração do CORAFOME para Santa Margarida das ligações a Tomar, Tancos, Abrantes e Entroncamento.

A seu tempo tratarei deste assunto.

O PTAP e as Empresas

Nos primeiros tempos só eu tinha uma visão precisa do SITEP. Por isso foi preciso explicá-lo vezes sem conta, até para os colegas de profissão e divulgá-lo.

3. SITEP com nodos. Conceito global

Fig44 - RTM - SITEP com nodos (conceito global)

Fig44 – RTM – SITEP com nodos (conceito global)

Logo que assumi o comando, desencadeei dois tipos de acção:

Convoquei as firmas mais credenciadas na área das comunicações para, no RTm, lhes expor os requisitos operacionais e técnicos do SITEP e do PTAP e desafiá-las a apresentar, por si ou pelas suas representadas, no RTm, o melhor que eram capazes de fazer. Cerca de uma dezena de firmas respondeu a este desafio. Os trabalhos de apresentação decorreram nos últimos meses de 1984. Estas apresentações e discussão entre os requisitos do SITEP e o estado da arte apresentado pelas firmas permitiu refinar o projecto e aferir o caderno de encargos.

O PTAP, Execução

O PTAP foi o projecto de arranque do SITEP, que tinha como objectivo introduzir a comutação e a transmissão digital incluindo a comutação automática de mensagens por pacotes, a introdução da fibra óptica na transmissão, o comando e o controlo remoto e centralizado, a telessinalização de avarias.

O PTAP incluiu a digitalização completa de EME e do RTm e a ligação por fibra entre eles. No RTm, além da digitalização da rede interna, foram colocados no Edifício das Transmissões os principais órgãos do SITEP, destacando-se a central de alimentação do sistema (UPS), a central de comutação de serviços integrados, o comutador de mensagens (cross roads ou store and foreward), os bastidores do sistema e o comando centralizado de todo o SITEP.

Assinalou-se a entrada do Exército na era digital com painel evocativo de azulejos que se encontra na sala de comando e controlo do SITEP.

Dos Cadernos de Encargos fazia parte a inspecção e recepção em fábrica, bem como cursos no local de fabrico, de teste de cumprimento dos requisitos e das facilidades, concepção electrónica, assemblagem, detecção e reparação de avarias, comando e controlo. Chefiei para esse propósito a delegação à Bélgica para as centrais de comutação electrónica, onde deixei os oficiais destinados ao curso. Chefiei também a delegação à Califórnia, onde deixei para fins idênticos, os oficiais destinados ao Cross Roads (comutação de mensagens por pacotes). O calendário era feito de modo a que, acabados os cursos, seguiam para Portugal o material, os oficiais dos cursos e os engenheiros das firmas construtoras que vinham dirigir as montagens.

O Edifício das Transmissões

Para responder ao conceito do SITEP, o Edifício das Transmissões teve uma transformação completa. Este requisito, que era acompanhado da radical alteração da compartimentação interior, foi dos primeiros que apresentei quando assumi o comando. Como a DSFOE se tinha atrasado no projecto de refazer o edifício, foi o RTm a executar, com o seu pessoal, os trabalhos indispensáveis à instalação do PTAP.

Foi uma operação delicada e difícil, lançar o sistema digital e eliminar o analógico sem quebra de serviço.

O cross roads incluído no PTAP é o sistema que pela primeira permitiu realizar no Exército a comutação automática de mensagens, obedecendo às especificações do ACP 127 (NATO).

Rede do EME

O PTAP incluía a Rede Interna do EME, remodelação e ampliação do edifício da Central, repartidor, energia de recurso e entrada/saída de cabos. O edifício estava pejado de condutores militares e civis pendurados pelas paredes entrando e saindo pelas janelas.

A rede passou a enterrada sem condutores à vista. As entidades que tinham um telefone para cada rede passaram a ter apenas um para tudo, mas para isso foi preciso eliminar as duas centrais (uma da rede do Estado e outra da rede pública) dos CTT/TLP.

Protocolo

Para isso foi preciso negociar um protocolo com aquela entidade, o que resolveu, de uma só vez, a remoção de todos os seus pertences de todas as propriedades não do EME, mas de todas as propriedades do Exército e estabeleceu uma fronteira onde terminava a propriedade e as responsabilidades de cada um, mediante o pagamento, por uma só vez, de um montante irrisório, por aplicação de uma fórmula expressa no Protocolo.

Neste protocolo ficou propositadamente incluída também a utilização partilhada de património (nomeadamente condutas enterradas e repetidores), o que veio desde logo a ser utilizado na instalação dos repetidores do Link Sul do SITEP, condutas enterradas de Setúbal, Ponta Delgada e Angra do Heroísmo e passou a ser regra nos nossos trabalhos futuros.

Mais tarde este Protocolo foi aproveitado e ampliado aos Ramos pelo EMGFA.

Com a previsão do arranque do SITEP, o cabo óptico entrou em cena. Aproveitou-se este facto para lançar o desafio à indústria nacional para a sua produção. Respondeu a Cel Cat, aceitando o desafio. O primeiro quilómetro de cabo óptico fabricado em Portugal encontra-se no PTAP, no percurso entre o RTm e o EME.

Lista Telefónica

Um dos requisitos do SITEP é atingir uma numeração fechada, quando concluído. A numeração fechada é aquela que permite ligar sempre o mesmo número qualquer seja o lugar onde se encontra o destinatário e o iniciador da chamada dentro do Sistema.

Com a entrada em funcionamento do PTAP foi preciso proceder a uma numeração nova na rede do STM (EME/RM/ZM) e desta com o exterior (EMGFA, EMA, EMFA, GNR, PSP).

Fig45 - RTM - Lista telefónica n 13, que introduziu a nova numeração telefónica

Fig45 – RTM – Lista telefónica n 13, que introduziu a nova numeração telefónica

Reproduzem-se nessa lista mapas do território nacional, dividido em ZM e RM, cada uma com o seu indicativo e uma grelha que contém todos os indicativos de acesso de cada um para todos os outros locais. Não era ainda uma numeração fechada, que esta só se conseguia com a digitalização completa do SITEP. Isto introduziu um passo importante na facilidade de utilização e no sistema de numeração, abrindo vias e encurtando o tempo de acesso.

Sublinhando isso, na primeira página da Lista Telefónica, mandei escrever duas frases: “Abrimos os caminhos do diálogo” e “Encurtamos a distância do pensamento ao acto”.

Impostos alfandegários

Como o material era importado, o imposto de importação de 8% retirava ao financiamento do PTAP um montante suficiente para construir uma rede interna de PU.

Contactados os Serviços de Finanças da Exército para que reagissem, estas aceitaram o imposto como uma fatalidade. Perante isso, dirigi uma exposição ao Director Geral das Alfândegas, argumentando a favor da eliminação desse imposto, o que foi conseguido, não só para o PTAP como para todos os projectos de SITEP. Passámos a ter mais dinheiro.

Fig46 - RTM - Trabalhos na Rua da Verónica

Fig46 – RTM – Trabalhos na Rua da Verónica

Mais tarde, as empresas que apresentavam produtos nacionais passaram a ficar em desvantagem com as que os importavam, criando-se uma desvantagem em relação àquelas. Um documento idêntico, argumentando em favor da indústria nacional, deu-nos razão, passando o STM a beneficiar do montante correspondente do Imposto de Importação para investir em novas obras.

Laboratório de fibra óptica

Do caderno de Encargos fazia parte também o fornecimento de equipamentos, transferências de tecnologias e cursos de aquisição de know-how.

Neste contexto foram mandados dois oficiais tirar um curso de fibras ópticas para preparação para o PTAP.

Fig47 - RTM - Ensaios da Fibra óptica empregue no PTAP

Fig47 – RTM – Ensaios da Fibra óptica empregue no PTAP

Para complementar tudo isto, durante a preparação do Caderno de Encargos e da montagem do sistema, houve sessões regulares teóricas e práticas.

No final do PTAP o STM dispunha de uma equipa habilitada a saber responder pelo lançamento de redes de fibras ópticas.

Pressurização de cabos

Para o SITEP aceitar o cenário envolvente com garantia de qualidade de transmissão nas redes de cobre, havia necessidade de pressurizar os cabos de bainha de PVC. Os TLP já enfrentavam o mesmo problema e foi aí que se mandou uma equipa tirar um curso.

Com todas estas trocas de saberes resultou um enorme valor acrescentado nas carreiras dos meus oficiais, que os levou a serem reconhecidos entre os seus pares civis como profissionais de sólida formação.

Terminada a segunda fase do PTAP, o STM dominava perfeitamente a tecnologia digital de comutação integrada de voz e dados, da comutação de mensagens por pacotes obedecendo ao ACP 127 (NATO), da tecnologia das fibras ópticas, do controlo remoto centralizado e estava preparado para receber o correio de voz centralizado (terceira fase do PTAP).

Introdução da energia fotovoltaica

O SITEP serviu também para introduzir a energia fotovoltaica, especialmente para alimentação dos feixes hertzianos. A primeira instalação desta energia limpa foi feita no RTm e ainda se encontra no primeiro patamar da torre de feixes.

Escola de formação de Engenheiros de sistemas

O PTAP era um projecto complexo. Incluía realização de obras para redimensionar o edifício para as exigências do PTAP, o dimensionamento e instalação de sistemas de energia de recurso (no brake power) e respectivas terras de serviço, a 0,5 ohms na pior estação. A instalação, em várias salas, da central de comutação de serviços integrados, do comutador de mensagens, do comando e controlo do SITEP, dos interfaces digitais e analógicos, do repartidor, e por aí fora.

Nas especificações do PTAP fiz incluir a obrigação de a firma adjudicatária oferecer e custear estágios, no país de produção dos equipamentos, que incluíssem toda a fase de programação, testes, assemblagem e detecção e reparação de avarias a três oficiais engenheiros do STM. Esses estágios decorreram nas fábricas de produção do material e continuaram em Portugal durante todo o decurso da montagem no local da obra, conduzida por engenheiros enviados pelo fabricante e pelo fornecedor, a que juntei, além do pessoal já envolvido, outro que entendi conveniente. Considero que o modelo seguido serviu de escola de formação e de prestígio do pessoal envolvido e para elevar o nome da Unidade, última essência justificativa de todo o esforço.

Simbolismo da Sala de Controlo e Comando do Sistema

A assinalar esse facto, está uma alegoria em azulejo na Sala de Comando e Controle, que representa as comunicações da nova era. A bola luminosa central simboliza o PTAP, primeiro nodo do SITEP, e o raio branco num horizonte azul simboliza a fibra óptica e o ambiente digital. É por motivo deste simbolismo que a alegoria foi escolhida para capa do Anuário do RTm de 1987.

Fig48 - RTM - PTAP do SITEP

Fig48 – RTM – PTAP do SITEP

Semana da Arma de 1987

O general Pinto Correia, Director da Arma, determinou que se realizasse no RTm, antes da inauguração oficial do PTAP, a Semana da Arma de Transmissões, para o que foram convidados oradores de outros Ramos das FAA, da firma instaladora e do RTm.

Parte importante dos trabalhos versou sobre o SITEP e o PTAP. Aí se expôs a concepção e a cronologia de execução, descrição, funcionamento e novas tecnologias.

Fig49 - RTM - Alegoria ao SITEP por alturas da inauguração do PTAP

Fig49 – RTM – Alegoria ao SITEP por alturas da inauguração do PTAP

Programa ED-01.1

Com o PTAP encaminhado foi preciso prever uma fonte de receita permanente que alimentasse a capacidade de execução do STM/RTm. Apenas parte das redes de PU estava garantida pelos orçamentos da DAT. Impunha-se mudar o paradigma, fazendo que o SITEP tivesse elegibilidade na Lei de Programação Militar (LPM).

O STM foi o primeiro a apresentar a sua proposta de inclusão, acompanhada de uma estimativa de montante anual. Para a LPM, o SITEP passou a ser o Programa ED-01-1.

ARTEL – Primeira Área Telemática do Exército

O SITEP previu para Lisboa uma área nodal, com nodos no RTm, EME, DSIE e QG/RML.

Fig50 - RTM - Integração de Voz, Texto e Dados

Fig50 – RTM – Integração de Voz, Texto e Dados

Cada novo nodo incluiu a ligação por fibra óptica aos nodos já construídos, a passagem a digital de tudo que fosse feito de novo e a integração das partes analógicas existentes e em bom estado de funcionamento (aceitação do cenário envolvente).

No cenário envolvente do ARTEL estava a DSIE, que defendia a informática concentrada. Na defesa deste princípio, os terminais eram estúpidos, sem software distribuído e cada um deles exigia dois pares de linhas metálicas, a fornecer pelo STM, que ficavam hipotecadas 24 sobre 24 horas, por vezes com reduzido trabalho diário.

Fig51 - RTM - PTAP ARTEL - área Telemática do Exército

Fig51 – RTM – PTAP ARTEL – área Telemática do Exército

Ao contrário, o STM via na informática distribuída a única solução que permitia evoluir para terminais inteligentes e o trabalho de computadores em rede.

O STM defendia a saída para o futuro.

O ARTEL vem provar que respeitando o cenário envolvente, se possibilita a informática distribuída, a passagem a terminais inteligentes e a instalação de redes de computadores da DSIE trabalhando sobre o SITEP. Os computadores da DSIE passaram a ser apenas mais uma máquina ligada ao SITEP, através do Host de interface com a central digital de comutação de serviços aí instalada.

A partir daí, os terminais da DSIE espalhados por áreas onde a rede digital ia chegando passaram a ligar por simples marcação de dígitos.

Estava realizada a Primeira Rede Telemática do Exército.

Neste projecto incluíram-se também as redes internas da DSIE, do LMPF, dos SCE.

Fez-se ainda a Rede Interna da EPSM e ligou-se por fibra óptica a respectiva central digital à DSIE e, daqui, ao EME e STM..

A inauguração do ARTEL coincidiu como o dia do RTm e teve a presidi-lo o General Firmino Miguel, já na qualidade de CEME.

O ARTEL, juntamente com trabalhos que fui apresentando nas Semanas da Arma de Transmissões, para demonstrar as vantagens da integração da DSIE nas Transmissões, acabaram por criar uma corrente favorável a esse desígnio, que não vi concretizado no meu tempo.

O ARNOL – Área Nodal de Lisboa

Com o ARNOL terminava a construção da Área Nodal de Lisboa e é daí que vem o seu nome. Ainda se trabalhava no ARTEL e já se desenvolviam trabalhos para completar a Área Nodal de Lisboa, com o Nodo e a rede interna do QG/RML, ligados STM, ao EMGFA pelo Aqueduto das Águas Livres, ao Trem Auto, ao BST e à EPAM.

Os meios e as tecnologias deste projecto são essencialmente os mesmos dos PTAP e do ARTEL. Fibra óptica para ligar o Nodo do QG com o RTm, tubagens com cabos analógicos até ao Lumiar, preparados para receber fibras ópticas e para fechar o anel pelo aeroporto com a DSIE. Pressurização de cabos de cobre.

Fig52 - RTM - àrea nodal de Lisboa

Fig52 – RTM – àrea nodal de Lisboa

Meios de Produção

Quando assumi o comando, o RTm estava sem frota de viaturas e as poucas que tinha eram inadequadas para os serviços que prestava.

Compulsando os trabalhos que a Unidade já fazia com os acréscimos decorrentes do SITEP, foi feito um trabalho que conduzia à necessidade de 19 viaturas, especiais. 17 dessas viaturas eram de cabine dupla, sendo 11 de caixa fechada e 6 de caixa aberta. Destinavam-se à actividade execução de projectos e de actividade de manutenção.

As duas restantes são viaturas IVECO fechadas de capacidade de carga e volume interior adequados à instalação de sistemas de SOM/TV, para emprego em cerimónias militares, civis e religiosas. Todas elas sofreram processos de transformação da autoria e acompanhamento de oficiais da Unidade. Todas entraram ao serviço durante o meu comando.

Base de dados

Os projectos de Rede Interna de PU, a que acima me refiro, foram batidos à máquina, com os gráficos tirados a stencil, processo que se mantinha quando assumi o comando. Era pois urgente preparar uma base de dados para registo informático do património da STM e apoio à elaboração dos projectos do SITEP. Tratou-se de um meio de produção que muito valorizou, facilitou e acelerou o trabalho, além de ter contribuído para a introdução da informática de gestão nos hábitos do pessoal do STM. A Base de Dados foi a primeira ferramenta eficaz que se iniciou ainda antes do primeiro projecto do SITEP. O testemunho para a história da data de entrada em funcionamento da base de dados verifica-se nos documentos, que deixaram de apresentar emendas a verniz corrector, e passaram a documentos limpos.

RM/ZM

As RM/ZM contribuem para o SITEP com uma hierarquia intermédia e com um número variável de hierarquias básicas.

Em simultâneo com o desenvolvimento do SITEP, iniciei as visitas às RM/ZM para avaliar necessidades, apresentar o SITEP aos comandos, inspeccionar estruturas do STM existentes e elaborar projectos. Pode dizer-se que a meio do meu comando, não havia nenhuma unidade do Exército onde eu não tivesse estado. Com o desenvolvimento dos projectos voltei lá sempre que a situação o aconselhou.

Fig53 - RTM - Nodo-tipo

Fig53 – RTM – Nodo-tipo

Com o Protocolo com os CTT/TLP resolvido a nosso contento, o planeamento de redes de PU (hierarquia básica) passou a beneficiar de um modelo padronizado, pois que a entrada em funcionamento da rede militar da PU coincidia com o levantamento da rede civil.

Essas missões iniciavam-se com a apresentação da delegação ao Comandante da RM/ZM, seguindo-se um briefing no qual se falava do SITEP e se expunha a finalidade e funcionamento de cada estrutura de que o comando passava a dispor. Serviam também para avaliar da receptividade dos comandantes ao SITEP e da opinião sobre o pessoal do STM.

Também aproveitavam as visitas ao RTm do CEM, VICEME, DDO, DDI e reuniões de Comandante s da RML par divulgação do SITEP.

Visita à RMN – 1986

Esta visita destinou-se também a inspeccionar do sistema de Feixes de Cobertura Regional, que do Porto por Santa Marta, Marão e Minhéu, ligaram o Comando da RMN ao RCB (Braga), RIC (Chaves), RIVR (Vila Real) e CIPOE (Lamego). Todas as unidades do RMN ficaram ligadas por meios militares, excepto Penafiel. Essa visita abrangeu igualmente a Rede de Guarnição, onde se avaliou o estado do que havia, se equacionaram soluções e se decidiram prioridades de implementação. Foi nessa inspecção que se decidiu a passagem do cabo QG-EPT pela mina, das Rede Internas do REE (Espinho) e da EPAM (Póvoa de Varzim) e do lançamento do traçado em condutas para o RIP (hoje EPT). O exemplo para a RMN serve igualmente para as restantes RM.

Aproveitei, nesta visita à RMN e às unidades onde entrou em funcionamento a rede regional de feixes, para inspeccionar os equipamentos de transmissões e registar todos os defeitos de instalação, deficiências e faltas no material e para produzir NEPs que servissem de guia a futuras inspecções, feitas por oficiais do STM.

Houve uma fase de grande dificuldade em restaurar a credibilidade das Transmissões junto dos Comandos das Unidades e levá-los a aceitar que o pessoal que nelas trabalhava tinha de ter instrução e controlo exercidos pelas Transmissões, não sendo as suas funções compatíveis com o improviso. O problema estava em fase aguda na RMN, quando a visitei, devido a ter entrado em funcionamento o sistema de feixes regionais.

Desta visita saiu uma proposta para os operadores de transmissões serem preparados e geridos pelas Transmissões, que passou a ser norma de futuro.

Visita à RMC/Zona Norte – 1985

As primeira missões às RM destinavam-se a recolher um retrato da situação nos aspectos referentes às estruturas e ao funcionamento das Transmissões Permanentes nas unidades, estabelecimentos e órgãos das RM/ZM, bem como decidir em áreas da competência do STM ou propor soluções quando as decisões dependiam de outras entidades.

A missão à RMC incluiu deslocação à Lousã (Trevim), para inspecção da abertura (drop insert) do feixe da FAP e da ligação à RMC por Montes Claros (Coimbra), onde se situa o Nodo da RMC/Zona Norte.

Para inspecção ao edifício e aos equipamentos dos repetidores da rede de feixes de cobertura regional (também situados na Lousã), que ligam o QG/RM com o RIV (Viseu), o BIA (Aveiro), a EPST (Figueira da Foz), o RAL (Leiria) e o ISM (Águeda) e estas unidades entre si. Ficava apenas de fora o RICB (Castelo Branco).

Fig54 - RTM - Nodo Regional de Coimbra

Fig54 – RTM – Nodo Regional de Coimbra

A missão incluiu uma inspecção à EPST, onde entrara em funcionamento recente a Rede Interna e o terminal de feixes da Rede de cobertura regional.

Em Coimbra centrou-se no STM (Montes Claros), na mudança do QG para o BAS, nos requisitos do Centro de Comunicações do novo QG e nas suas ligações a Montes Claros e à Rede de Guarnição.

Foram anotadas muitas deficiências, a maioria resultante da falta de doutrina e de competência atribuída para utilização dos novos meios de comunicações. O Relatório aponta medidas correctivas.

Visita à RMC/Zona SUL

Esta missão, como outras, foi feita por uma delegação do STM, composta por mim e por oficiais da DIRM e da DIVEX.

Nela se incluíram inspecções aos equipamentos e pessoal de Transmissões Permanentes do ABSM (Santa Margarida), do RIT, unidade e rede de guarnição (Tomar), da EPE (Tancos) e Chorofome. Os principais objectivos foram:

Montagem da Torre de 94 m (auto de consignação, espaço para construção e estaleiro) e construção do edifício para alojamento dos equipamentos de retransmissão nodal e regional no espaço entre pernas da torre. A Torre foi construída para permitir a instalação, a 45m de altura, das antenas do repetidor de Santa Margarida do Anel Sul do SITEP e, nos andares superiores, as antenas dos repetidores da Rede Regional, que passariam a interligar o QG/ABSM com a EPT, o RIT, o BSM (Entroncamento), o RIA (Abrantes) e a dar a estas unidades acesso ao SITEP.

Fig55 - RTM - Nodo de Santa Margarida

Fig55 – RTM – Nodo de Santa Margarida

Mudança dos repetidores regionais do Chorofome para a Torre, depois da construção desta, com libertação do espaço no Chorofome para instalação do repetidor do fecho Anel Sul do SITEP e utilização dos canais libertados entre o ABSM e o Chorofome, para acesso de Santa Margarida ao exterior pelo feixe da FAP;

Fig56 - RTM - Torre de Santa Margarida

Fig56 – RTM – Torre de Santa Margarida

Estudo da rede de guarnição do ABSM e das redes internas de várias das suas unidades do Campo e apresentar ao comando a futura rede de cobertura nacional, o SITEP.

À semelhança de outras visitas, foi elaborado um anexo contendo todas as acções a desencadear e mencionadas as entidades a quem pertencia a iniciativa, quer dentro do STM, quer no exterior.

Visita à RMS – 1987

O Link Sul, o Centro de Comunicações do QG da RMS, o Nodo SUL e a Rede de Guarnição e do RIE foram o motivo desta missão.

Esta missão à RMS seguiu-se a outras anteriores, começadas três anos antes, nas quais foram estudados o percurso e os locais dos repetidores do Link Sul, o contacto com entidades de diversas tutelas, como a Câmara de Setúbal, a Direcção do Parque da Arrábida, a PSP, os CTT/TLP, o IPAAR e os Amigos dos Castelos.

Estiveram em estudo pontos de repetição da Arrábida, Serra Alta, Mendro, Arraiolos e São Mamede.

A instalação do Centro de Comunicações do QG/RMS foi estudado e definido nesta reunião com o Cmdt da RMS. Os trabalhos compreendem as obras de remodelação do edifício, a torre auto-suportada e a rede de guarnição de Évora.

Apresentou-se ao Comando uma explanação do SITEP e o Papel do Link Sul, servindo no seu percurso Vendas Novas, Setúbal e Oeiras (a partir da Arrábida), Beja (a partir do Mendro), a Guarnição de Évora (a partir do Nodo do QG), Estremoz (a partir de Arraiolos), Elvas (a partir de São Mamede) e, finalmente Santa Margarida, através da Torre auto suportada já atrás referida.

Deste modo, a RMS ficaria com dois acessos a Lisboa, um dos quais pela Zona Militar de Santa Margarida, além de comando directo a todas as unidades da RMS.

Na missão inclui-se a fiscalização dos trabalhos da rede de guarnição de Elvas e da Rede interna do RIE, com projectos elaborados a partir de visitas anteriores.

Link Sul

O Link Sul vai de Lisboa a Santa Margarida e foi objecto de negociações, longas e aturadas, quer com os proprietários dos terrenos onde se instalaram os Repetidores, quer para o fornecimento de energia, atribuição de frequências, etc.

Com excepção da Arrábida, que acabou por ser negociada com a PSP (depois de o Parque negar a cedência do local que se pretendia), e de Arraiolos, os Repetidores de Serra Alta, Mendro e São Mamede, ficaram em terrenos dos os CTT, com base no protocolo de utilização antes negociado.

No início de 1978, foi feita a última vistoria de acerto de pormenores, necessários para finalização dos Cadernos de Encargos, que já vinham a ser preparados no STM.

Fig57 - RTM - Link Sul

Fig57 – RTM – Link Sul

O Link Sul serve várias PU da RML e da RMS. Oeiras, Setúbal e Vendas Novas, a partir da Arrábida; Beja, sul do País e área de manobras, a partir de Mendro; Nodo Sul e Rede de Guarnição, a partir de Évora; Estremoz, a partir de Arraiolos e Guarnição de Elvas e PU, a partir de São Mamede.

À missão do STM juntou-se uma delegação dos CTT, composta por quatro engenheiros, que respondiam pelas várias especialidades.

O Link Sul deu origem a dois tipos de Projecto: Um para as infra estruturas de apoio (edifícios, terras e torres) e o outro para os meios de transmissão.

Um dos requisitos de SITEP é o de assegurar interligação a equipamentos tácticos.

Para seleccionar o melhor lote de firmas e apreciar as tecnologias empregues, chefiei uma delegação à SAT – Paris, e desloquei-me à Itália para visita idêntica, por determinação do CEME, a quem foi dirigido convite que mencionava o meu nome.

Os equipamentos de campanha, ao tempo existentes no Exército, eram os FM 200, que têm modulação e sinalização diferentes dos do SITEP.

No Projecto de Transmissão foi, por isso, necessário fazer a compatibilização do SITEP com o equipamento de campanha.

O Link Sul tem as qualidades técnicas dos feixes de transmissão digital, modulação PCM, sinalização por canal comum e comando, controlo e roteamento por comando remoto, localizado em Lisboa.

HF – Tempo Real – Justificação

As ligações aos Açores, ao tempo do estudo do SITEP, eram apenas possíveis por satélite ou HF. A ligação por satélite foi a primeira a estabelecer e era feita por um canal telefónico, ao qual se tinha aplicado S+Dx (speech plus data), permitindo assim um canal de voz e quatro telegráficos, a 50 Bauds.

Não havendo cabo submarino e sendo a distância a Lisboa demasiado grande para feixes hertzianos, optou-se pelo HF para ligação de recurso entre o Nodo de Ponta Delgada e o de Lisboa.

Fig58 - RTM - HF Tempo Real

Fig58 – RTM – HF Tempo Real

Fazendo uso da evolução tecnológica verificada nesta banda, o projecto foi elaborado para HF – Tempo Real, que é uma técnica que permite a sondagem oblíqua da ionosfera, a escolha da frequência óptima de trabalho (FOT) em tempo real e ligações com um BER (bit error rate) da ordem de 1 em 100.000.

Além disso, para as potências de emissão necessárias (cerca de 1kW), as tecnologias disponíveis já permitiam aproximar a antena de emissão da de recepção até cerca de 100 metros, situação determinante para a instalação da emissão e da recepção dentro do RTm, em Lisboa, tal como se encontra.

Incluiu esta missão o estudo das áreas necessárias à implantação do HF – Tempo Real (emissão e recepção), fornecimento de energia, interface com o Nodo do QG/ZMA.

Resolveu-se também o acesso Comando Chefe e ao Sistema de Cobertura do Arquipélago e das redes de guarnição Ponta Delgada e de Angra do Heroísmo.

O sistema de Cobertura, cujo projecto eu tinha elaborado algum tempo antes a solicitação da DAT (cujo Director, General Pereira Pinto aí se deslocou para in loco assistir à exposição das soluções ao General Oliveira Pinto, então Comandante da ZMA), partia do QG/ZMA, Pico da Barrosa (São Miguel), de onde partia para Santa Maria e Santa Babara (Terceira), de onde abria para Angra e para e para a Horta (Faial), com um salto na ilha do Pico.

A rede de guarnição de Angra e do RIAH, com interface aos CTT, tinham também projectos elaborados por mim e nesta data já executados.

O Sistema de Cobertura acabou por ser avocado pelo EMGFA, que me requisitou para acompanhar ao arquipélago o Cor. Cruzinha Soares e aí lhe transmitir os pormenores de execução do Projecto, para proceder à fiscalização da obra.

Aliás, o mesmo aconteceu com o Projecto de Cobertura do Arquipélago da Madeira, igualmente de minha autoria.

Coronel Cruz Fernandes – Uma notável história de vida (4)

Cap. IV – Missão em Macau

As minhas missões em Macau, começaram quando me encontrava colocado na DAT, prolongaram-se durante o tempo em que fui 2.º Comandante do RTm e terminaram com a minha nomeação para comandante desta Unidade. A duração de cada estadia variou entre um e cinco meses, sendo a última a mais extensa de todas. Macau foi para mim um frutuoso estágio para o SITEP, que foi, por assim dizer, o projecto da minha vida.

1. Ida a Macau

Estava eu colocado na Direcção da Arma de Transmissões, depois de terminadas as minhas funções na Divisão de Comunicações e Electrónica do EMGFA, quando na DAT surgiu um rumor de que seria preciso um engenheiro com experiência em Macau. Constava ainda que o trabalho tinha que ver com um sistema Radiotelefónico para o qual não haveria nas Forças de Macau, ninguém preparado para o fiscalizar e aceitar.

O Director da DAT consultou outro antes de mim, mas não acertou com ele. Quando chegou a minha vez, pedi para ser informado, através do Gabinete de Macau em Lisboa, ficando a saber que o sistema radiotelefónico se destinava às Forças e que o pedido era do Governador, Comandante Almeida e Costa.

Segui para Macau com um mínimo de informação disponível. Quando esperava que o aeroporto fosse em Honk Kong e que aí alguém me esperasse, afinal o aeroporto era em Kow Lun, devendo daí arranjar transporte para Hong Kong e daqui para Macau. Havia vários chineses oferecendo transporte para Hong Kong e aceitei o serviço de um deles, uma vez que, se alguém me tinha vindo esperar, ou não pôde chegar a tempo ou não me reconheceu.

Para meu espanto, o meu transportador chinês levou-me para bordo de um pequeno “san pan” e meteu-se às ondas. Mala a meu lado, um olho no chinês, lá me foi parecendo que ele rumava para o sítio certo, com a cidade de Hong Kong surgindo à nossa esquerda.

Não levava moeda local e foi preciso entregar-lhe uma nota que ultrapassava em muito o que tinha de pagar. Chegado ao destino, foi preciso que me deixasse com a mala e fosse à procura de um banco para trocar a nota por moeda local e me viesse entregar o troco. Por estranho que possa parecer a um ocidental, o chinês voltou com o troco, depois de se ter pago apenas do que lhe era devido. Estávamos nós a acertar contas por gestos, próximo do terminal do jet foil para Macau (o chinês sabia apenas algumas palavras em inglês), quando fui abeirado por um sujeito que suspeitou que eu fosse quem ele procurava. Apresentou-se como Comandante Monteiro, e disse ser o encarregado de me encontrar e levar a Macau. A partir dali a iniciativa ficou por conta dele.

2. Primeiro Projecto em Macau

Chegado a Macau deparei-me com um sistema de radiocomunicações para o CFSM, PSP, PMF e Bombeiros, em incipiente estado de instalação. O sistema estava a ser assistido pelo Cap. Ten Monteiro, oficial que, além de não ter habilitação específica sobre o assunto, não tinha participado na produção de Caderno de Encargos, que não existia. O sistema tinha sido adquirido pelo Conselho Administrativo através de trocas de notas de comprometimento.

Perante o facto, aconselhei o Comandante das Forças de Segurança de Macau que chamasse o empreiteiro para assinar um contrato que também não existia. Autorizado pelo Comando produzi uma peça que repunha em documento oficial todos os requisitos contratuais que defendiam a Fazenda e instituía normas de relacionamento entre o dono da obra e o empreiteiro. O contrato foi assinado, em representação do Governo de Macau pelo Secretário da Segurança, Cor. Inf. Manuel Maria Amaral de Freitas e, em representação da firma “Infa Corporation Limited”, pelo seu sócio-gerente Peter Cheung Tsang, em 2/4/1982.

O Contrato, no montante de 6.068.286HK dólares foi assinado pelas partes e, como o sistema estava já em instalação, pouco depois procedeu-se à recepção provisória, na qual foi possível recuperar 349.506,10HK dólares, resultantes do benefício que o empreiteiro obteve por receber 60% do montante do contrato, referente ao material dado como recebido provisoriamente.

Refiro que o sistema nunca ficou completamente a contento porque não tinha sido pensado em termos de futuro, de que resultou o emprego de material que ao tempo já estava tecnologicamente ultrapassado. Isso está na base do Projecto n.º cinco, referido no fim destas memórias.

Apesar disso, o resultado obtido foi tão a contento do Comando e tão badalado que, a partir dali, fui responsabilizado por outros projectos e chamado para dar pareceres sobre vários trabalhos, alguns dos quais fora do âmbito do próprio CFSM, como das Obras Públicas, p.e.

Os equipamentos do presente projecto abrangiam os seguintes locais e comandos:

Estação repetidora da Guia;

CFSM (Comando das Forças de Segurança de Macau);

PSP (Polícia de Segurança pública);

PMF (Polícia Marítima e Fiscal);

Bombeiros;

Estações Base:

PMF – 8

PSP – 9

Bombeiros – 2

O Material era constituído por uma estação repetidora, consolas nos comandos, móveis na Brigada de Trânsito da PSP, Vedetas da PMF, viaturas de comando das várias Forças e 620 E/R portáteis.

3. Segundo Projecto nas FSM – Polícia Judiciária

O segundo trabalho que executei em Macau foi a “Empreitada para o fornecimento e instalação do Sistema de Comunicações da Polícia Judiciária de Macau e da construção das Infra-estruturas de Apoio necessárias”.

Este trabalho englobou as fases de projecto, concurso público, apreciação das propostas, proposta de adjudicação, fiscalização e recepção.

As infra-estruturas deste sistema distribuíam-se pelo comando da Polícia Judiciária, pelos Comando das Forças de Segurança (CFSM), pelo morro da Guia, onde se situava o repetidor, e por Coloane Alto onde se situava um receptor para captar as estações móveis e os portáteis, cujo sinal não atingia a Guia ou a atingia em condições muito fracas. Para decidir quando dois sinais eram recebidos, qual deles, em cada momento, era o melhor para assegurar a comunicação, foi montado um equipamento (voter) que seleccionava o melhor de ambos,

O sistema de comunicações da PJ destinava-se a permitir:

(1) – Dispor de três equipas independentes no terreno, cada uma com a sua estação directora (Estação Móvel) e com os seus portáteis, de 1 a 4, agrupados sob o seu comando. Cada Estação Móvel podia trabalhar em coordenação com as restantes bem como com as consolas de base da CFSM e da PJ em canal próprio.
As Estações Móveis eram todas iguais em todas as viaturas. Nos canais 2 e 5 trabalhavam como PDR (Posto Director) com todos ou parte dos seus portáteis. Nos canais 6 a 8 assumem-se como portáteis para falar com os restantes.
Qualquer Estação Móvel pode trabalhar como PDR das restantes, nos canais 1 e 3.

(2) – Dispor de equipamentos VIP, equipamentos pessoais, destinados ao Comando da PJ. Constituídos por três equipamentos A,B,C, dos quais A pode comunicar com B ou C separadamente em privado, sem que o excluído possa intervir.

(3) – Dispor de equipamentos Portáteis, constantes de um naipe (extensível) de 12 equipamentos, destinados a formar as redes dos agentes.

(4) – Dispor de três consolas. Duas Consolas Principais, ou Stand Alone Consolas, das quais, uma no CFSM e outra no centro de operações da PJ. A terceira consola é uma consola remota destinada ao comando remoto do Comando da PJ.

Consolas

As consolas principais foram ligadas entre si por pares de linhas alugadas à CTM (Companhia de Telecomunicações de Macau), enquanto não foi executado o projecto de Rede de Cabos Enterrados em Tubagens, projecto que interligou por cabo todos os comandos e órgãos subordinados do CFSM. A consola da PJ tem comando do serviço sobre a do CFSM.

As consolas principais são geridas segundo os seguintes princípios:

(a)   Funcionam em paralelo ou em alternativa uma da outra, isto é, em simultâneo ou uma da cada vez.

(b)   Prioridade à Consola da PJ. Mesmo quando só a consola do CFSM estiver em funcionamento é possível à consola da PJ entrar em funcionamento sobrepondo-se àquela. Terminada a intervenção da consola da PJ o sistema regressa automaticamente à posição anterior (Take over command).

(c)   Intercomunicação. Ambas as consolas Principais têm possibilidade de comunicar à voz uma coma a outra.

(d)   Acessibilidades. Tanto a consola do CFSM como a da PJ podem fazer Cross Patch entre o sistema de UHF (da PJ) e VHF (da PSP) e receber chamadas das redes telefónicas das FSM e da CTM.

Sistema de feixes

O sistema de telecomunicações da PJ funciona em UHF, na banda dos 450 aos 462MHz, actuando dentro desta banda os Móveis, os Portáteis, os Repetidores da Guia e o Receptor/Retransmissor de Coloane Alto. Trabalha também nesta banda o Emissor/Receptor do CFSM, que faz a ligação com a Guia. O sistema de telessinalização de avarias trabalha em 171.050 MHz.

O sistema funciona da seguinte maneira: as Estações Móveis podem formar redes que não precisam de repetição de cobertura territorial. Esta situação também se repete com os VIP, mas tanto aos Portáteis como as Estações como os VIP dispõe de canais de cobertura. Quando trabalham num canal destes dá-se o seguinte: suponhamos que um destes equipamentos inicia uma chamada e esta é recebida tanto por Coloane Alto como pela Guia. Coloane Alto retransmite o sinal para a Guia que o envia, juntamente com o que ela própria recebe à consola do CFSM. Antes de atingir a consola os sinais passam ambos pelo Voter que decide qual deles é enviado à consola. A resposta da consola é enviada ao site o Emissor/Receptor do CFSM da Guia, que o repete. O sinal repetido pela Guia cobre o território e atinge também os elementos da rede a que o iniciador da conversa pertence. A resposta obtida segue os mesmos trâmites que a conversa inicial.

Trabalhos de Engenharia

Incluídos no projecto contavam-se os trabalhos de construção e adaptação dos locais de apoio, nomeadamente:

(1)   – Na Polícia Judiciária;

(2)   – CFSM;

(3)   – Guia;

(4)   – Coloane Alto;

(5)   – Coloane Vila.

Na Judiciária preparou-se o fornecimento de energia, com a colocação de quadro eléctrico, carregador de baterias, banco de baterias, repartidor de cabos, recepção dos pares telefónicos alugados, colocação da consola principale remota, local para o futuro PABX.

No CFSM foram executados os trabalhos para acomodação e fornecimento de energia para os futuros equipamentos de transmissões, câmara de visita permanente para recepção dos cabos do futuro projecto e do Gate Way (RLU= Remote line unit) para a CTM (Pares da rede civil).

Na Guia igualmente foi preciso criar espaço para a instalação do repetidor com fornecimento de energia.

Em Coloane Alto foi preciso construir um edifício de raiz, colocar uma torre auto-suportada de 18m, vedar o recinto, colocar terras de serviço e anel de equilíbrio estático, montar a energia solar para funcionamento normal e energia de recurso para 96 horas de serviço contínuo. O edifício foi construído com vista à expansão futura (Projecto Troncas) e com robustez bastante para suportar um reflector passivo de 3x4m para ventos de 180km/h para o sistema telefónico de cobertura.

Telessinalização de avarias

O sistema foi montado com um apertado sistema da telessinalização de avarias que reporta uma dúzia de anomalias do sistema desde a sinalização das antenas, até temperatura das baterias, integridade das vedações, etc.

4. Terceiro Projecto nas FSM – Rede Telefónica das FSM

“Empreitada para o fornecimento e instalação da Rede Telefónica das Forças de Segurança de Macau e construção das Infra-estruturas de Apoio necessárias”

Foi por mim elaborado um Caderno de Encargos contendo todos os passos das Condições Gerais do Concurso, Condições Jurídicas e Administrativas, Condições Técnicas Gerais e Condições Técnicas Especiais. Este trabalho de elaboração do Caderno de Encargos tão detalhado, tal como a da Rede Radiotelefónica da PJ, deveu-se a não haver uma doutrina de disciplina das aquisições e a colmatar a falta de domínio do português nos empreiteiros locais. Um caderno de encargos extensivamente detalhado permitia aos concorrentes, depois de traduzido para inglês, encontrarem lá tudo o que pretendiam, sem necessidade de andarem sempre a fazer perguntas, cujas respostas não havia a certeza que entendessem.

Basicamente o Concurso consistiu em construir redes telefónicas internas no QG/CFSM, PSP, PMF e Marinha, Bombeiros e na Polícia Judiciária. Cada uma destas redes foi dotada com um PABX (PPCA), com capacidade para 100 extensões (expansível) e 48 troncas da rede pública. Todos os PPCAs ficaram ligados entre si e ao PABX de CFSM, que funcionava como Tandem, por linhas alugadas à rede pública, permitindo uma rede privativa das FSM, com numeração própria. A estas unidades associou-se o palácio do Governo, que já tinha rede interna. Tal rede contou com o desenvolvimento tecnológico introduzido na rede pública pela da CTM (Companhia de Telecomunicações de Macau), com vista à introdução de soluções de interface e de serviço compatíveis e menciona já uma rede de cabos privativa do FSM, situação que veio a evoluir para ser a própria CTM a montar. Trata-se da rede de cabos privativa em conduta cedida pela CTM, que a própria companhia instalou, conforme consta de outro projecto.

Para não tornar demasiada pesada a descrição do trabalho transcreve-se uma parte das Condições Técnicas Especiais do Caderno de Encargos, supondo-se deixar uma ideia aproximada do que foi feito.

Locais e unidades a Ligar

A. Unidades e serviços das FS

a)  – QG/CFSM

O QG/CFSM encontra-se sediado no Quartel de São Francisco e requer uma rede telefónica interna, construída de raiz, um PABX que sirva a rede telefónica e de tandem para os restantes PABX das Forças. Deve ainda dispor de troncas à rede pública e dar acesso à rede da PJ e do Governo;

b) – Comando da Polícia de Segurança Pública (PSP)

O Comando da PSP encontra-se no Quartel da Flora e necessita de rede telefónica interna e de um PABX que assegurará as ligações internas e o acesso à tandem ao QG/CFSM por troncas, à rede pública e ainda às suas subunidades:

      Esquadra 1, na Calçada do Gamboa;

Esquadra 2, na Av. Almirante Lacerda;

Unidade Táctica de Intervenção da Polícia (UTIP), às Portas do Cerco;

Formação do Comando, no Ramal dos Louros;

Centro de Recuperação Social, na Ilha da Taipa;

Esquadra da Taipa;

Esquadra de Coloane.

Centro de Instrução Conjunta (CIC), em Coloane

Estima-se que o comando desta força (PSP), a médio prazo, será transferido para as novas instalações, sitas na área do Porto exterior.

c)  Corpo de Bombeiros (CB)

O comando do Corpo de Bombeiros situa-se na Estrada do Repouso e necessita de uma rede interna e de um PABX que assegure as ligações telefónicas internas e tenha acesso ao tandem para ligação às outras forças e acesso por troncas à rede pública.

d) – Comando da polícia Marítima e Fiscal (PMF)

O Comando da PMF encontra-se instalado no Quartel dos Mouros, na Caçada da Barra e precisa de uma rede telefónica interna servida por um PABX, que também assegure acesso ao tandem do QG/CFSM para interligação às restantes forças e troncas à rede pública. Além disso encontram-se juntamente instalados no mesmo edifício os Serviços de Marinha, que partilham as instalações telefónicas. Os serviços destes dois corpos desenvolvem-se maioritariamente na Doca de D. Carlos, pelo que é preciso assegurar uma rede que se estenda aos dois locais

e) – Centro de Instrução conjunta (CIC)

O CIC encontra-se instalado na Quartel do mesmo nome na Ilha de Coloane, e precisa de uma rede interna, um PABX com uma ligação por feixe hertziano entre essa central e a tandem do QG/CFSM. Além disso requer acesso à rede pública.

f) – Interligação às consolas dos sistemas de UHF/VHF

O Sistema radiotelefónico da PJ é operado na sua sede ou no QG/CFSM, utilizando linhas alugadas à CTM. Com a existência do Sistema Telefónico Privativo das FS, essas linhas serão transferidas para os cabos das FS. O sistema agora instalado deve poder receber chamadas Radiotelefónicas encaminhadas através das consolas.

B. Outras entidades

     a) – Governo

O palácio do Governo dispõe de um PPCA privativo, ligado à rede pública, e outras facilidades. Pretende-se a sua interligação, no futuro, à rede privativa das FSM/Governo/Polícia Judiciária.

       b) – Polícia Judiciária

A Polícia Judiciária encontra-se sediada na Rua Central e dispõe de uma central telefónica em razoável estado de conservação. Pretende-se que, quer seja substituída esta central nesta fase ou não, a PJ fique ligada à rede privativa das FS.

       c) – Entidades com cargos predominantes na governação.

As entidades que desempenham funções vitais para o Governo necessitam, por razões de Estado, de dispor de meios de comunicação que lhe permitam a troca de informação confidencial, quer às horas e nos locais onde normalmente exercem as suas funções, quer nas suas residências. Tem-se essa necessidade em consideração e apresentam-se soluções para englobar na rede privativa as residências de entidades especiais.

C. Algumas características técnicas

Não entro aqui nas especificações técnicas totais o que encheria algumas páginas (o Caderno de Encargos tem mais de 60 páginas e 15 figuras). Porém, destaco algumas porque elas já revelam que no meu subconsciente latejava o SITEP:

      a)    – O sistema terá possibilidade de tratar discriminadamente os seus utilizadores, ampliando, mantendo ou reduzindo as facilidades atribuídas por software a cada um, de modo a proporcioná-las às necessidades da função desempenhada.

      b)    – Deseja-se que a rede possa evoluir para rede integrada de dados e voz.

      c)    – Prefere-se que integre quando possível os meios existentes, nomeadamente os telefones de disco.

      d)    – Pretende-se que seja compatível e interoperável com a rede pública da CTM.

      e)    – Pretende-se que cada utilizador não necessite mais do que um telefone para executar todos os tipos de chamadas (Rede Interna, CTM e Internacional).      

Considerações finais

Este projecto foi por mim conduzido em todas as suas fases e entrou em funcionamento pleno depois do projecto de Rede de Cabos executado pela CTM. De facto, a partir desse momento o CFSM e o Governo passaram a dispor de um Sistema Privativo de redes, centrais e cabos que lhe permitia trocar informação de forma segura, sem passar pala rede pública.

5. Quarto Projecto nas FSM – Rede de Cabos

O quarto trabalho que levei a cabo em Macau foi adjudicado à Companhia de Telecomunicações de Macau (CTM), dado que ele se inseria nas suas próprias estruturas.

Tendo já sido executadas e postas em funcionamentos as redes telefónicas internas das FSM (Comando, PSP, PMF, PJ e Bombeiros), havia necessidade de as interligar, o que só precariamente era conseguido, dado que os CTT funcionavam de forma pouco eficiente e com tecnologias muito gastas.

Porém, por esta data (1982/1983) fundou-se a Companhia de Telecomunicações de Macau (CTM), que partiu para remodelação total da sua rede e para o emprego de tecnologias mais avançadas. Por conhecimento com o Director Paulo Alves, encetei negociações informais com vista à possibilidade de as Forças de Segurança estruturarem as suas comunicações numa rede de cabos que as interligassem e num conjunto de troncas de acesso das centrais telefónicas das Forças à rede pública. Isto possibilitaria a cada utilizador das FSM a ter acesso a toda a rede das Forças, sem passar pela rede pública e ainda ter acesso separado à rede pública local, e à rede pública internacional, passando para as FSM a limitação destes acessos. Dado conhecimento ao Comando e explicadas as vantagens de tal projecto, este não só apoiou a ideia como a incentivou.

As negociações prosseguiram sempre com aceitação favorável da CTM, o que me levou a fazer um projecto que englobasse:

– A aquisição de uma conduta enterrada da rede da CTM, servindo todas as unidades e órgãos das FSM e do Governo, na extensão de 7.590 metros;

– A aquisição de um cabo de 100 pares, da mesma extensão, preparado para veicular, sem repetidores, informação PCM até 2048 kbits, incluindo o seu lançamento, ensaio, pressurização e entrega às FSM;

– Pressurização da rede de cabos assim formada;

– Aquisição de um número de troncas para ligar os PPCAs (PABX) à rede pública no CFSM e em cada subunidade.

– Acrescentar outras necessidades como ligar ao Governo, à área residencial, à Marinha (Doca de D. Carlos), à Guia e ao futuro Comando da PSP.

Com a finalidade de abreviar e dar uma ideia resumida do projecto passo a transcrever algumas das 21 Cláusulas do Contrato que acabou por se estabelecer entre o CFSM e a CTM, respectivamente como primeiro e como segundo outorgantes. Salto as Cláusulas que não são essenciais como a que estabelece a minha presença na qualidade de autor do projecto.

Passo à transcrição:

“EMPREITADA PARA O FORNECIMENTO, INSTALAÇÃO E ENSAIO DOS MEIOS DE INTERLIGAÇÃO DA REDE DE COMUNICAÇÕES TELEFÓNICAS DAS FORÇAS DE SEGURANÇA DE MACAU, DAS TRONCAS DE ACESSO À REDE PÚBLICA E SINALIZAÇÃO DE ACESSO DE MARCAÇÃO. (28/5/84)

……………………………………………………………………………………………….

CLAÚSULA PRIMEIRA – (Tubagem): – O segundo outorgante obriga-se a ceder, a título perpétuo, a utilização de uma conduta da sua rede subterrânea de comunicações, para nele ser instalado um cabo de comunicações, propriedade do Comando das Forças de Segurança de Macau (CFSM), destinado ao uso que este comando entenda dar-lhe.

A conduta acima referida desenvolver-se-á segundo os percursos da rede da CTM, já existentes ou a concluir, na extensão de sete mil quinhentos e noventa metros, terá 10cm de diâmetro e ligará entre si os seguintes comandos e locais:

Do Comando das Forças de Segurança de Macau, sito no Quartel de São Francisco, para:

a) – Polícia de Segurança Pública, abreviadamente PSP, sita no Quartel da Flora, através da rua Nova à Guia/Estrada da Vitória;

b) – Sala de Repartidores do edifício da Guia, sita no Forte da Guia, através da Caçada do Paiol e, posteriormente, pela encosta da Guia entrando no forte pelo lado sudoeste;

c) – Comando do Corpo de Bombeiros, abreviadamente Bombeiros, sito na Rua Coelho da Amaral pela Rua Sacadura Cabral e Av. Sidónio Pais entre a PSP e os Bombeiros e segundo o percurso já descrito entre o CFSM e a PSP;

d) – Directoria da Polícia Judiciária, abreviadamente PJ, sita na Rua Central pelas Ruas da Praia Grande e Av. Almeida Ribeiro;

e) – Palácio do Governo de Macau, abreviadamente Palácio, sito na Rua da Praia Grande pelas ruas Central, S. Lourenço e Travessa do Paiva entre a PJ e o Palácio e segundo o percurso já descrito entre o CFSM e a PJ;

f) – Palácio e residência de S. Excelência o Governador e Comandante das Forças de Segurança de Macau, sitos respectivamente no Palácio de Santa Sancha e na Vivenda de Estrada de Santa Sancha, pelas Ruas da Penha, Boa Vista e Comendador Kou Ho Neng entre o cruzamento da Rua da Penha e Estrada de Santa Sancha e segundo o percurso já descrito entre aquele cruzamento e o CFSM;

g) – Comando da Polícia Marítima e Fiscal, abreviadamente PMF, sito na Caçada da Barra, pela Rua Padre António e entre aquele cruzamento e o CFSM, pelo percurso já descrito;

h) – Serviços de Marinha, sitos na Doca de D. Carlos, pela Rua da Barra e Caçada da Barra entre a PMF e a Doca de D. Carlos e pelo percurso já descrito entre a PMF e o CFSM.

CLASULA SEGUNDA- (Cabos): 1. O segundo outorgante obriga-se a fornecer a instalar no interior da conduta descrita na cláusula anterior, ligar nas juntas, ligar proteger e identificar nos repartidores e caixas terminais e pressurizar, uma rede de cabos de capacidade uniforme de cem pares de secção dos condutores de zero virgula nove milímetros quadrados, próprio para transmissão em PCM , sem necessidade de repetidores até à velocidade de transmissão de dois mil e quarenta e oito quilo bits por segundo, segundo o diagrama de encaminhamento e continuidade contido no anexo ao ofício n.º 2538 de 21 de Maio de 1984 do CFSM, documento considerado parte integrante deste contrato e se dá aqui por reproduzido, traduzindo a versão final e definitiva e anulando todas as anteriormente apresentadas;

Os Parágrafos 2, 3, 4, 5 e 6 não se transcrevem.

CLAUSULA TERCEIRA- (Tubagens para as entradas de Cabos):- O segundo outorgante obriga-se ainda a prover todos os ramais, que conduzem da sua rede de comunicações, até à parede exterior dos edifícios onde se encontram os repartidores e caixas de distribuição privativas com o número de tubos necessário e de diâmetro adequado para receberem folgadamente a quantidade de cabos descrita no paragrafo oito do ofício número 4626 de 12 de Dezembro de 1983, do CFSM, com exclusão dos troços do Bom Jesus e Hoover Court, documento considerado como parte integrante deste contrato e aqui se dá por reproduzido.

CLAUSULA QUARTA – (Acesso à rede pública – RLUS):- O segundo outorgante obriga-se a executar o trabalho de modo que os pares de linhas destinados a assegurar o acesso da Rede de Comunicações das FSM à rede pública (RLUS) quando incluídos em cabos gerais de distribuição não sejam acessíveis à intercepção por pessoas não autorizadas, ao longo do percurso entre os MDFs ( Repartidores e concentradores) e os RLUS e beneficiem de protecção física e visual em áreas públicas nas proximidades das entradas dos vários comandos que impeçam a sua referenciação.

CLAÚSULA QUINTA- (Número de linhas de acesso à rede pública):- O segundo outorgante obriga-se a garantir, até 30 de Maio de 1984, dezasseis troncas de acesso à rede pública no QG/CFSM e outras dezasseis na PSP e as restantes quarenta a curto prazo, com a distribuição descrita no parágrafo quarto de ofício 4626 de 12 de Novembro de 1983, do CFSM, que aqui se dá por reproduzido e fazendo parte integrante do presente contrato.

CLAÚSULA SEXTA- (Requisitos de acesso, por marcação à rede pública):- O segundo outorgante compromete-se e a garantir as seguintes características para as troncas referidas na cláusula quinta: 1. Ser possível, a partir de extensões da rede das FSM e das operadoras das consolas ter acesso a:

– Rede pública de Macau por marcação do zero (0);

– Rede pública de Hong Kong, por marcação do código zero, seguido de um (01), como segundo e terceiro dígitos;

– Rede pública internacional, por marcação do código zero, seguido de zero (00), como segundo e terceiro dígitos;

2. Aceitar para chamadas de saída de cada um dos PABXs das FSM, indistintamente qualquer das seguintes sinalizações de marcação: “Dual Pulse Signaling” ou “Dual Tone Multy Frequency Signaling”;

3. Garantir troncas de dois sentidos de tráfego para todos os PABXs, agrupadas em dois grupos iguais, A e B, sendo atribuído ao grupo A um número piloto com “ Hunting Facility” e ao grupo B um “Individual Number”, a cada tronca.

4. O Grupo A, a que se refere o parágrafo anterior, que ligará o PABX da PSP, deverá ser subdividido, reservando-se duas das suas oito troncas para encaminhar chamadas de socorro do serviço público cuja formação será nove, nove, nove (999).

5. Garantir o fornecimento de sinais longitudinais de 50Hz, 55V e duração de 100msON e 150msOFF que permitam a rede privativa fazer a fiscalização das chamadas de saída para Hong Kong e para a rede Internacional.

CLÁUSULA SÉTIMA- (Pressurizador de Cabos):- O segundo outorgante obriga-se a fornecer, montar, ensaiar e regular no CFSM, uma unidade de pressurização de cabos, de fabrico CENTREL, modelo 5510, de capacidade de pressurização até cinco cabos, bem como todos os seus comandos e acessórios, tubagens, válvulas e sensores, garantido a completa pressurização de toda a rede de cabos descrita na cláusula segunda.

As Claúsulas Oitava até à Décima Sétima não se transcrevem.

CLÁUSULA DÉCIMA OITAVA- (Pagamentos):- O primeiro outorgante pagará ao segundo outorgante pelos trabalhos e fornecimentos objecto do presente contrato a importância total de MOP $ 654.386,60 ( seiscentos e cinquenta e quatro mil, trezentas e oitenta e seis patacas e sessenta avos).”

Considerações finais

Deixo por fora várias cláusulas que não acrescentariam informação para o fim em vista.

Numa extensão ao contrato, adjudicou-se ainda à CTM o fornecimento, instalação e guarnição com blocos terminais de 10 Repartidores (Main Distribution Frames), de 400 pares, devidamente ligados, ensaiados e protegidos, nos seguintes locais:

Doca de D. Carlos;

Sala de equipamentos de VHF da Guia;

CFSM,

PSP;

PMF;

PJ;

Bombeiros;

CIC /ESFSM (CIC = Comando de Instrução Conjunta);

Jardim da Residência do CMDT das FSM (Zona Residencial)

Palácio do Governo

Estes repartidores, assim guarnecidos, continham as troncas da rede pública e as da rede interna das FSM.

O contrato concluiu-se durante o ano de 1984, garantindo em Macau, um sistema de comunicações, próprio das Forças, independente da rede pública, mas com acessos claros e cómodos à rede Publica. Acrescento que o próprio Governo beneficiou desta integração e passou a poder funcionar com todas as suas Forças, mesmo com quebra da rede pública

Juntam-se dois dos anexos referidos no contrato:

Fig37 - Diagrama da Rede de Cabos (clique para aumentar)

Fig37 – Diagrama da Rede de Cabos (clique para aumentar)

A fig mostra a rede de cabos, as juntas, PABXs, repartidores nos vários comandos e os RLU (que fornecem as troncas e os acessos à rede pública).

Fig38 - Diagrama de Juntas, Repartidores e RLU (clique para aumentar)

Fig38 – Diagrama de Juntas, Repartidores e RLU (clique para aumentar)

A fig mostra não só esses elementos como revela como correm os pares dentro dos cabos e como se distribuem nas emendas (Juntas).

6. Quinto Projecto do CFSM – Projecto Troncas

Este projecto foi realizado por mim já depois de ter comandado o RTm/STM. Depois regressei deixando em Macau o Cap. Eng. Tm Porfírio, entretanto aí colocado como oficial de Transmissões. Uma indisponibilidade minha levou a que as fases seguintes do Projecto fossem executadas pelo Cap. Porfírio.

Já se verificou (Primeiro Projecto) que o sistema radiotelefónico de VHF de cobertura do território (PSP e PMF) se revelou deficiente desde a sua montagem, por não se ter atendido aos requisitos que a tecnologia já podia satisfazer e que já se mostravam essenciais para o CFSM. Era pois necessário colmatar esta deficiência. Porém, como não havia doutrina no território nesta área, resolvi especificar um sistema de troncas (o mais avançado na altura) em todas as suas vertentes, não poupando esforços para deixar claro e em pormenor o que se pretendia.

A finalidade de produzir um projecto com este detalhe (mais de 200 páginas de texto e 45 desenhos) foi obrigar os fornecedores a uma disciplina firme e a limitar a necessidade de grande número de perguntas numa situação em que os fornecedores mal entendiam o português. Foi também facilitar o acompanhamento das obras por um oficial residente, uma vez que o autor do projecto só permanecia no território de forma intermitente. Foi ainda para estabelecer uma doutrina de liderança, que não havia, com projectos complexos como o Projecto Troncas.

O Projecto Troncas consiste num sistema de radiocomunicações, usando a filosofia de Troncas, suportado num feixe de microondas para suporte da comunicação e interligação entre as estações repetidoras e das infra-estruturas de apoio necessárias (edifícios, torres, terras, energia). As estações repetidoras situam-se na Guia, na Taipa e em Coloane Alto.

A filosofia de Troncas consiste em colocar todos os canais disponíveis à disposição de todos os utilizadores e prover o sistema com dispositivos que permitam disponibilizar um canal da “pool” (fundo comum) por cada chamada, canal que, terminada a chamada, regressa à “pool”.

a. Conceito de sistema de troncas básico.

Um sistema de troncas básico assenta numa única estação repetidora contendo:

– Um grupo de canais de RF para emissão e outro para recepção, com um repetidor por canal;

– Um canal de controlo dedicado, através do qual se dialoga com o controlador central do sistema de troncas;

– Um controlador central do sistema de troncas, o qual providencia inteligência para gerir todas as funções do sistema;

– As estações controladas por processadores, os radio-móveis e os portáteis.

b. Sistema de Troncas montado em Macau

Para cobertura do território de Macau, cidade e ilhas, não foi suficiente um sistema de troncas básico, tendo sido necessários três, assim distribuídos:

– Um em Macau (Guia), onde ficou o “Master Site Trunking Controler” (Estação directora – Master), com 20T/20R;

– Um na Taipa, onde ficou o “Local Site Trunking Controler 1”, (Estação dirigida 1 – Slave), com 20T/20R;

– Um em Coloane Alto, onde ficou o “Local Site Trunking Controler 2”, (Estação dirigida 2 – Slave), com 20T/20R. (T= transmissor; R= Receptor).

Para integrar num projecto só os três sites tem, como se disse, que se recorrer a um sistema de microondas que suporte a transmissão entre sites e assegure a gestão do sistema de troncas. Para ligar os três sistemas de troncas básicos é necessário ainda, que um dos sistemas básicos trabalhe como Master (Mestre), e que os restantes trabalhem como Slaves (Escravos).

c. Memória descritiva do projecto troncas

Para o projecto Troncas foi necessário:

1 – Construir um edifício na Taipa Grande, reconverter os edifícios terminais da Guia, de Coloane Alto e alterar as instalações do Comando, das Corporações e das subunidades destas;

2 – Fornecer e instalar em cada um dos locais (Guia, Taipa e Coloane Alto) uma torre auto-suportada para apoio das microondas e das antenas das Estações Repetidoras;

3 – Fornecer energia de recurso na Taipa e em Coloane Alto e adaptar a da Guia;

4 – Fornecer e instalar o sistema de microondas para ligar a Guia, a Taipa, Coloane Alto e Coloane Vila, onde funciona a Escola Superior da Forças de Segurança de Macau (ESFSM);

5 – Fornecer e instalar um sistema de telessinalização de avarias, comando e controlo remoto das infra-estruturas e do sistema de comunicações;

6 – Fornecer, instalar, ensaiar e pôr em funcionamento o sistema de radiocomunicações “Projecto Troncas”, com o seguinte equipamento:

1 – Equipamento fixo:

Guia;

Taipa;

Coloane Alto,

Coloane ESFSM;

Comando das Forças de Segurança de Macau (CFSM);

Comandos das Corporações PSP; PMF, Bombeiros;

Subunidades destas corporações;

2 – Equipamento Móvel:

Viaturas auto do CFSM;

Viaturas auto da PSP (Comando e unidades subordinadas);

Viaturas auto de PMF (Comando e unidades subordinados);

Motociclos da PSP;

Vedetas da PMF (Polícia Marítima e Fiscal);

3 – Equipamento Portátil

Viaturas dos Comandos, nas quais o Portátil é destacável do Móvel;

Pessoal do CFSM, PSP, PMF, ESFSM e Bombeiros

4 – Sistema de Rádio troncas – Trabalhando na banda dos 800MHZ.

O sistema de microondas é de baixa densidade, comportando 70 canais e trabalhando na banda dos 2GHz.

O sistema de microondas dá apoio ao sistema rádio troncas por interligação das estações repetidoras de Macau (Guia), Taipa e Coloane. Alem disso, ainda dá suporte a 6 canais telefónicos para interligar a central telefónica da ESFSM (Coloane) com a central telefónica do Quartel de São Francisco (CFSM).

5 – Telessinalização de avarias – O sistema assegura o envio para o Centro de Comando e Controlo dos alarmes e estados de operação a partir das estações remotas seguintes:

– Segurança física (Edifício, Torres, vedações);

– Sistemas de energia (Carregadores, rectificadores, baterias, tensão de alimentação, grupos geradores);

– Rádios (Emissores, receptores, banda base, sistema multiplex);

– Antenas e luz das torres.

d. Funcionamento e principais facilidades

O sistema rádio troncas (Trunking) trabalha na banda dos 800MHz e é um sistema de três Sites (Estações Repetidoras), com capacidade de total cobertura do território e apresenta duas soluções:

a) – 20 canais de voz em cada uma das Estações, todos de cobertura local;

b) – 20 canais na Guia (4C/16L); 12 na Taipa e Coloane (4C/8L), com L= Local e C= Cobertura).

Grupos de conversação

As FSM, pela sua organização precisam de um número elevado de grupos de conversação, configurações e reconfigurações frequentes de acordo com o tipo de missões. Por isso o sistema tem a possibilidade de gerar até 2.000 grupos de conversação.

Identificação: filiação e endereço

Todas as unidades são filiadas no sistema e nele dispõe de uma identificação própria. Cada Rádio que inicie uma chamada enviará a sua identificação e o seu endereço, isto é, dizendo quem é e onde está. Isto permite uma actualização permanente da base de dados do sistema.

Perda de contacto

Sempre que uma unidade se afaste da zona de cobertura ou entre em zona de silêncio e tente o acesso ao sistema recebe um sinal que a adverte dessa situação. Para a hipótese de extravio ou roubo é possível fazer a desactivação remota. A desactivação remota de uma unidade impede de se escutar quaisquer conversações através dela.

e. Consolas, Estações Base, Equipamentos radio-móveis e Portáteis

Consolas do sistema

As consolas do sistema estão situadas no CFSM, na PSP e na PMF, reportando estas últimas, de forma automática, a sua actividade para a do CFSM. Isto quer dizer que, seja qual for a consola que altere o estado do sistema, essa alteração é detectada pelo sistema central. No entanto as consolas “escravas” apenas podem produzir alterações nos estados dos equipamentos das suas próprias frotas.

Estações Base

São estações baseadas das subunidades da PSP (5), da PMF (8), UTIP (Unidade Territorial de Intervenção Pública) (1), BT (Brigada de Trânsito) (1), ESFSM (1), Bombeiros (1) e Bombeiros Ilhas (2).

Estas estações são do tipo “user friendly” e permitem ainda atribuir nomes às operações e às unidades e gerir os seus próprios grupos.

Equipamentos radio-móveis

Os equipamentos radio-móveis são os destinados a ser instalados em viaturas motorizadas e vedetas e trabalham numa pool de canais dentro dos 600 possíveis da banda de emissão de 806 a 821 MHz e na recepção entre os 850 e os 866 MHz, sendo separação entre a emissão e a recepção de 45MHz.

Portáteis

Os portáteis são equipamentos destinados a serem portados pelos agentes e são programáveis e reprogramáveis em campo por software, têm identificação própria, possibilitam chamadas de emergência, possuem “time-out-timer” (temporizador de emissão), sinalizador de descarga de bateria, possibilidade de conversação privada (envolver duas entidades), possibilidade de comunicar no local da acção (sem repetidor), têm acesso à rede telefónica do CFSM, permitem montagem veicular, trabalham em sistema de troncas multi-site e em sistema de troncas básico, etc.

f. Cobertura territorial (troncas multi-site) e cobertura local (tronca básica).

Os canais de cobertura do território são repetidos em todos os sites em simultâneo. Estes canais designam-se por canais de cobertura. Os canais de cobertura local são repetidos apenas nos respectivos sites de forma independente. O sistema usado neste projecto é designado por “selecção simultânea de sites”, situação em que o canal é repetido em cada site numa frequência diferente, para impedir áreas de sobreposição, isto é, para impedir que o rádio receba a mesma mensagem de mais de uma fonte. Cada controlador de cada site tem capacidade para controlar a estação repetidora do site quando em funcionamento local, isto é, separada do sistema multi-site, e para dialogar com o controlador central (Master) em troncas multi-site.

Fig39 - Chamada num sistema multi-site (clique para aumentar)

Fig39 – Chamada num sistema multi-site (clique para aumentar)

Chamadas locais: As chamadas locais são realizadas por canais de cobertura local. As chamadas locais são repetidas num único site, sem ocupação de recursos exteriores ao próprio site.

Chamadas de cobertura: Uma chamada de cobertura estende-se a todos os sites, ocupando em cada um deles um canal. Entende-se por canal um par de frequências de um determinado naipe. Uma chamada de cobertura não ocupa os recursos de qualquer site, destinados ao tráfego local.

g. Descrição de uma chamada de cobertura:

Ao Grupo A pertencem os rádios a1, a2,…a6.

O Rádio a1, situado em Coloane, p.e., inicia uma chamada de cobertura.

O canal de controlo do sistema de Coloane recebe o pedido de canal de voz de a1 e envia-o ao controlador local que o identifica como de cobertura e o envia pelo sistema de microondas ao Controlador Central do Sistema.

O Controlador Central de Sistema dispõe da identificação e da filiação de todos os rádios, interpreta o sinal e selecciona no site de Macau (Guia) um canal de frequência f1 e transmite ao seu canal de controlo local instruções para que os rádios do grupo A passem à frequência f1. Utiliza dois canais de cobertura, um para a Taipa e outro para Coloane. Ordena ao controlador local da Taipa que instrua o controlo local para possibilitar um canal de cobertura de voz, de frequência f2, e que ordene aos rádios do grupo A filiados na Taipa para passarem à recepção nessa frequência. Ordena ao Controlador Central de Coloane que instrua a o canal do controlo local para disponibilizar um canal de cobertura de voz na frequência f3 e que ordene aos rádios do grupo A filiados em Coloane (inclusive a1) para passarem à frequência de recepção f3.

Neste momento um sinal audível avisa o operador de a1 que pode transmitir.

A mensagem de a1 viaja até ao Controlador Central do Sistema que o reenvia a todos aos controladores locais pelo mesmo sistema de microondas através dos canais de cobertura de voz.

Os controladores locais repetem a mensagem pelo canal de cobertura, respectivamente nas frequências f1, f2, e f3, seleccionados localmente. O canal, em cada site, fica cativo enquanto durar a chamada; no fim da chamada o canal regressa à pool.

h. Redundância e avaria grave

O Controlador Central de Sistema é redundante, funcionando um como Master e outro com “Backup”. Na eventualidade de tanto o Master como o back up ficarem inoperativos, móveis, portáteis e estações de base revertem automaticamente para os seus canais de funcionamento predeterminados e continuam a trabalhar como se tratasse de um sistema de troncas por cada site (Básico). Logo que o sistema seja reparado estes rádios são reconduzidos automaticamente à sua condição de funcionamento em Trunking.

7. Projectos de valor acrescentado

Embora em rigor não estejam integrados no Projecto Troncas, decidiu-se avançar para estes projectos de modo a facilitar a sua integração futura no Projecto Troncas. São eles:

a) – Sistema de Atendimento Informatizado das chamadas de socorro, n.º 999;

b) – Projecto de Dados Móveis, em Tempo Real;

c) – Projecto de Controlo de Tráfego Rodoviário.

É sobre este projectos que a seguir me vou debruçar.

A. Atendimento informatizado do nº 999

O 999 é equivalente ao nosso 112, número que, em Macau seria completamente ignorado em situações de pedido de socorro. Os chineses acreditam que os números são portadores de sorte ou de azar. Com a sorte está associado o número 8 e o 9 é neutro. Em compensação a morte está associada ao número 1. Imagine-se um chinês em apuros a ligar para um número que lhe invoca a morte duas vezes seguidas, como é o 112! Daí o 999, contra o qual nada consta. Convém ainda lembrar que Hong Kong já tinha o 999 como número de socorro e que as populações circulando frequentemente de Hong Kong para Macau facilmente contribuiriam para o 999 entrar no uso comum de Macau.

Resolveu-se por isso juntar a informatização do atendimento ao lançamento do número de socorro 999.

A finalidade da informatização é a de agilizar a operação, melhorando o efeito dissuasor sobre a criminalidade, aumentar a protecção da vida e bens e ainda armazenar toda a informação recebida, facilitando o seu tratamento e posterior utilização.

O sistema permite receber pedidos de urgência da rede civil através do 999 (e da rede privativa das FSM) e proporcionar uma activação rápida e eficaz dos meios de socorro, usando o tratamento informático das operações de atendimento e de despacho dentro da sala de operações.

O sistema funciona no centro de operações da PSP e consta de posições de atendimento, posições de despacho e supervisão e base de dados e interligará com a rede pública e coma das FSM.

Para isso, o sistema permite:

– Atender ou responder com mensagens gravadas aos pedidos de socorro;

– Armazenar a informação que recebe, facilitando o seu posterior tratamento e recuperação;

– Aceder à base de dados que contém informação com interesse para a missão (base de dados relacionada com cadastro toponímico, de viaturas automóveis, de pessoas suspeitas, ou cadastradas), etc.

Atendimento automático de chamadas (CAD) = Call authomatic dispatch)

O CAD realiza as seguintes funções:

Recebe as chamadas do 999 e da FS (0999) de forma selectiva, envia cada chamada ao operador que se encontra livre há mais tempo, armazena os dados de cada chamada até à sua passagem ao Despacho, envia mensagens gravadas de resposta-tipo às chamadas que chegam ao sistema, enquanto esperam atendimento.

Despacho

Cada operador de despacho realiza, no mínimo, as seguintes funções: Recebe as chamadas que lhe são enviadas pelo CAD e introduz-lhes os seguintes dados, à medida que a chamada vai prosseguindo:

Activa a função que atribui número à chamada, pelo qual esta passará a ser identificada;

Introduz o tipo de incidente e o lugar onde ocorreu. A hora de atendimento é introduzida automaticamente pelo sistema;

O sistema grava as conversas, os esclarecimentos e as acções tomadas pelo operador de despacho. No fecho da ocorrência acrescenta a informação oportuna.

O atendimento dispõe de sistemas lógicos duplicados, nomeadamente os processadores e as unidades de disco, trabalhando em back up um da outra. O back up executa todos os programas em paralelo com o que está em serviço, de modo que cada um copia para o seu próprio disco tudo que tenha sido executado pelo outro (duplicação ou espelho), detecta quando o que está em serviço apresenta problemas de funcionamento e entra automaticamente ao activo, retribuindo-lhe a informação recolhida no período de pane de forma automática, tornando-se de novo iguais. Cada um destes sistemas é dimensionado para assegurar por si só toda a actividade, na hipótese de pane prolongada do outro.

Distribuição dos meios e cadastro de actuação

Para aumentar a rapidez de actuação, o território divide-se em zonas, quatro na cidade de Macau, uma na Taipa e outra em Coloane. As três primeiras zonas coincidem com as áreas atribuídas às esquadras 1, 2 e 3, respectivamente. A quarta zona fica de reserva. Cada Zona tem listagens de ruas e outros dados toponímicos, numerados do seguinte modo:

Macau Zona 1 Esquadra 1 Números de 1000 a 1999
Macau Zona 2 Esquadra 2 Números de 2000 a 2999
Macau Zona 3 Esquadra 3 Números de 3000 a 3999
Macau Zona 4 Reserva Números de 4000 a 4999
Taipa Zona 5 Esquadra da Taipa Números de 5000 a 5999
Coloane Zona 6 Esquadra de Coloane Números de 6000 a 6999

 

São exemplos de dados toponímicos cabines telefónicas, edifícios públicos, edifícios com segurança electrónica própria, pontes, edifícios de espectáculos públicos, locais de jogos, rua, praças, etc.

Fig40 - Implementação do sistema informatizado do 999 (clique para aumentar)

Fig40 – Implementação do sistema informatizado do 999 (clique para aumentar)

Tratamento de um incidente (ocorrência)

  1. Chega uma chamada do 999;
  2. O CAD envia-a ao Operador de Atendimento com mais folga, ou dá instruções ao computador que envie o anúncio gravado e coloque a chamada em fila de espera;
  3. O operador de atendimento regista a informação recebida, activa a função automática de número à chamada, introduz o tipo de acidente, lugar onde ocorreu, de preferência o número que corresponde ao código toponímico.

O operador é ajudado por terminais inteligentes e dispõe de e informação tabulada, da qual constam também todas as modalidades delitivas.

4. Feito isto, o incidente apresenta-se disponível ao operador de despacho.

Operador de despacho

  1. Atribui os meios para a resolução do incidente, contando com a lista dos meios disponíveis na zona onde o incidente ocorreu, com a lista de patrulhas a pé, sub-comando com responsabilidade directa onde o incidente ocorreu e conta ainda com os mesmos meios auxiliares de diagnóstico que o atendimento;
  2. Ao fim da operação e depois de indicar o responsável pela sua realização;
  3. Recolhe toda a informação dada pelo responsável pela intervenção, introduz esses dados no seu terminal, activa a função de “acidente encerrado” e activa as funções de “meios libertados”.

B. Sistema de Dados Móveis

O sistema de dados móveis é um subprojecto de valor acrescentado do Projecto Troncas, para funcionamento em todo o território da Macau e consiste essencialmente num sistema que permite que os móveis tenham acesso, recebam informação e reportem para uma base de dados de registo de cadastro automóvel em tempo real, a partir dos locais onde se encontrem a operar no terreno.

O Sistema de Dados Móveis destina-se essencialmente a receber, armazenar, ordenar, modificar e retribuir informação específica da actividade rodoviária controlada pela polícia.

O sistema permite dar acesso, a informação armazenada na base de dados próprias da polícia ou acedidas, pedido a partir dos locais de acção, de onde seja solicitada pelos agentes das FSM.

Permite inquéritos à base de dados sobre dados operacionais. Aceita dados produzidos pelos operadores dos terminais, troca de mensagens electrónicas e difusão de mensagens de alertas ou de alarme.

O seu computador central é dimensionado para suportar a actividade de um efectivo de 3.000 agentes operando no terreno (subunidades das corporações, móveis e portáteis).

C. Sistema de controlo de Tráfego

O sistema de controlo de tráfego destina-se a conseguir, à distância, e por meios electrónicos:

1. Exercer a televigilância de tráfego em pontos de excepcional importância ou de grande movimento;

2. Facilitar a acção dos meios de escoamento de tráfego, quer pela intervenção de agentes de trânsito, quer associado ao controlo de semáforos;

3. Seguir o movimento de viaturas suspeitas;

4. Detectar infracções ao código da estrada e ao uso indevido de viaturas;

5. Registar imagens de ocorrências para posterior consulta e prova.

Fig41 - Implementação do Sistema de Controle de Tráfego (clique para aumentar)

Fig41 – Implementação do Sistema de Controle de Tráfego (clique para aumentar)

O sistema é constituído por:

1. Um número de câmaras de captação de imagem superior a 10, instaladas em locais críticos, assinalados nos desenhos;

2. Uma rede de cabos coaxiais de transporte de imagem desde os locais de captação ao centro de controlo;

3. Uma rede de comando remoto das câmaras e controlo de imagem;

4. Um centro de controlo com monitores (um por câmara) para observação permanente;

5. Um grupo de microprocessadores de controlo para observação detalhada ou sequencial de cada uma das áreas exploradas pelas câmaras;

6. Um sistema de comando remoto, por linhas físicas, para comando das câmaras;

7. Um sistema de registo de imagem.

8. Considerações finais

Termino aqui em passo rápido o que foi o cerne da minha actividade em Macau, estendida por cerca de meia dúzia de idas e vindas. Ainda hoje recordo com saudade a muita e boa camaradagem que por lá encontrei e com uma réstia de angústia aqueles momentos em que é preciso saber fazer bem mas falta, à nossa volta, experiência e escola.
Macau foi talvez o período mais esforçado da minha vida, onde o meu tempo foi contado para tudo e onde me igualei aos chineses a trabalhar 24 horas por dia e algumas à noite. Ao referir as linhas mestras da minha actividade fica na sombra muita outra concorrente para os mesmos propósitos bem como actividades laterais em que a minha presença era chamada a opinar e intervir. Mas isso faz parte da história e não se coaduna com o propósito destas memórias.

Um episódio pouco conhecido

Quando foi para montar o serviço de televisão de Macau, o Governador, Comandante Almeida e Costa, convidou-me para liderar a operação com promessa de permanência em Macau. Desloquei-me a Lisboa e informei o CEME, General Garcia dos Santos, que, suponho, já tinha conhecimento.

Este perguntou-me do meu empenho em aceder ao lugar oferecido. Respondi-lhe que queria aceitar, se tal fosse considerado de interesse para o Exercito e me mantivesse ligado à instituição, condição que não foi aceite. Por essa razão não montei a televisão em Macau, mas fui o responsável pelo SITEP, dado que pouco depois fui promovido a coronel e comecei a comandar o RTm/STM.

Coronel Cruz Fernandes – Uma notável história de vida (3)

Cap. III – Dinamização cultural

Campanhas de Dinamização 1974-1976

1. Antecedentes

A acção de Castro Daire insere-se nas Campanhas de Dinamização Cultural, iniciadas no Verão de 1974, numa altura em que Portugal despontava para a democracia e em que os partidos emergentes começavam a procurar implantar-se por todo o país, lutando entre si e procurando uma aproximação ao MFA o qual, por sua vez, iriam progressivamente tentando influenciar.

As Campanhas tinham como órgão coordenador nacional a Comissão Dinamizadora Central (CODICE), à frente da qual se encontrava o Comandante Ramiro Correia.

A ideia das campanhas era, numa primeira fase, esclarecimento político das populações, que incluía a explicação do programa do MFA como preparação para as eleições à Constituinte. Levar a “cultura” às populações (grupos de teatro, bonecreiros, cantores de intervenção, projecções de cinema, pintura mural, etc.), fazer o reconhecimento das necessidades mais prementes do país profundo e real e também despertar e recolher elementos da cultura local.

Dentro desta orientação, impulsionadas pela CODICE, realizavam-se então inúmeras acções itinerantes e de relativamente pequena duração, com equipas envolvendo oficiais e civis, que iam percorrendo todo o país. Outras organizações o fizeram, nomeadamente as ligadas às artes e cultura.

As acções tiveram, de uma forma geral, um acolhimento inicial muito positivo e havia povoações que pediam a sua realização por se considerarem discriminadas ou, como diziam, “por o 25 de Abril ainda lá não ter chegado”.

A aceitação das campanhas foi, contudo, esmorecendo com o tempo. Por um lado, dada a sua descentralização, nem sempre os seus protagonistas respeitavam a regra de que as campanhas não deviam nem pretendiam ter orientação partidária, defender opções ideológicas ou empregar uma linguagem inadequada, que revelasse desconhecimento e desrespeito da cultura local. As campanhas teriam de ter em conta a resistência das populações a abandonar valores ancestrais pelos quais sempre se tinham guiado e a aceitar novos valores. Por outro, as forças políticas mais conservadoras cedo procuraram o descrédito da Dinamização, o que acabaria por vir a ter eco na opinião pública, acentuando os seus erros e apontando-as como um pretexto para o avanço do comunismo no país. Esta posição começou com o “sound bite” de “militares aos quartéis” de Sá Carneiro e foi-se acentuando com o avanço do processo, atingindo a radicalização no “Verão Quente”.

A derrota de Spínola, em 11 de Março, deu lugar a profundas transformações económicas e sociais no país, dando ao processo político um ritmo mais acelerado, o que também se reflectiu na prioridade que, nas Campanhas, a CODICE passou a dar ao esclarecimento das populações com ênfase no Programa do MFA, tendo em conta a eleição para a Assembleia Constituinte, a realizar no mês seguinte.

É dentro desta nova dinâmica da CODICE que o comandante Ramiro Correia, a 12 de Março, convida o capitão Cruz Fernandes, juntamente com outros oficiais, para dirigir uma campanha de cerca de um mês em Viseu, região considerada então prioritária, por ser a de mais difícil penetração.

Na altura desta nomeação, eu já me encontrava há cerca de um mês na CODICE, onde entrara também a convite de Ramiro Correia, tendo com ele participado em várias iniciativas da Comissão. No entanto, já tinha experiência deste género de actividades, iniciada em Moçambique, no Verão de 1974, em acções dirigidas à população e, depois do meu regresso, continuadas na Escola Militar de Electromecânica, em Paço de Arcos, onde participei, a partir de Janeiro de 1975, em várias acções realizadas pela unidade, nas quais continuei a ter boa aceitação por parte dos auditórios.

Ao aceitar a nomeação para a campanha de Viseu, sabia que a minha carreira técnica profissional seria interrompida numa altura crucial, e que a decisão envolvia certo risco.

Ao chegar a Portugal, relativamente jovem, com uma experiência técnica comprovada e não me faltando qualidades de trabalho, tinha as maiores facilidades em continuar a minha carreira técnica que vivera apaixonadamente, pois isso “Era o que sabia fazer melhor”.

A prioridade, porém, passou a ser outra. A carreira dera lugar à generosidade. Sentia que era a altura de fazer qualquer coisa pelo país numa perspectiva de mudança, em que me empenhei intensamente e para o que não são alheias as minhas origens. Mas houve outro factor que me marcou profundamente e que também influenciou essa decisão, que foi a de ter sido “ofendido na sua dignidade e lesado na sua progressão na carreira, sem que uma justificação alguma vez tivesse sido dada”.

Em face da minha nomeação pela CODICE, apresentei-me, com os outros oficiais das várias equipas, no Regimento de Infantaria de Viseu, onde o Cap. Gertrudes da Silva continuava a ser peça chave do MFA. O Cap. Mendonça da Luz, destacado local da CODICE orientou todo o processo.

Em Viseu, os concelhos problemáticos pelos antecedentes conhecidos, eram Castro Daire e Sernancelhe devido a um caciquismo duradoiro e arreigado. É no cumprimento desta complexa e difícil missão que tomo contacto com Castro Daire. A forma como decorreu a campanha que dirigi, que se descreverá a seguir, iria ter fortes repercussões quer em mim próprio, quer em Castro Daire e nas suas gentes.

Todo o tempo tem o seu tempo

A Democracia Representativa vinha a caminho, mas em 1975 o sistema continuava muito complexo. O MFA era solicitado em muitas frentes.

A mim coube-me a Dinamização em Castro Daire.

Fui alcunhado em Castro Daire de Capitão Dinâmico e de Capitão Povo, dois epítetos que talvez se me ajustassem, mas que acima de tudo retratavam a suas origens: Era Capitão Dinâmico na vila, que via a azáfama do dia-a-dia; era Capitão Povo nas aldeias, que me reconheciam como um dos seus.

A Dinamização era tida como símbolo da Democracia Directa, politicamente incompatível com a Democracia Representativa.

No vendaval de Novembro, Castro Daire ficou no terreno. A Inspecção que requeri, informou os novos poderes do que viu e foi vergada por evidências que não podia ocultar, entre elas a de muita obra feita e a de ter encontrado um padre de picareta na mão, a trabalhar na estrada da Gralhita entre os seus paroquianos e o MFA.

Após a Inspecção, Castro Daire permaneceu no terreno e só recolheu definitivamente quando a Democracia Representativa estabilizou e os eleitos locais entraram em funções. Mesmo assim trouxe consigo um extenso rol de pedidos das populações para que permanecesse.

Hoje, a 34 anos de distância, continuo a considerar que Castro Daire foi um tempo extremamente gratificante e profícuo na vida dos militares que fizeram parte da Equipa que aí permaneceu por um ano, um mês e um dia, conforme refere a maior estudiosa das Campanhas de Dinamização, Dr.ª Sónia de Almeida.

2. Castro Daire – Primeira fase

Chegámos a Castro Daire a 14 de Março de 1975 e instalámo-nos nos anexos do Tribunal. A alimentação era no Ciclo Preparatório, juntamente com as crianças. A finalidade principal desta fase era a explicação do Programa do MFA. Os lugares de actuação eram as escolas primárias e os lugares onde habitualmente se faziam reuniões.

Na vila, o local habitual era o pavilhão do Babeiros onde actuamos duas vezes com casa cheia. Além da Vila fizeram história as reuniões de Mezio, Cabril, Montemuro, Picão, Carvalhal-Mamouros, Reriz, Parada, Ciclo Preparatório e Almofala.

Fig12 - Castro Daire - Bombeiros - Juventude MFA

Fig12 – Castro Daire – Bombeiros – Juventude MFA

Na maioria destas reuniões a assembleia tornava-se muito participativa. Como ninguém gostava do ex-presidente da Câmara, um cidadão de baixa extracção moral mas muito inteligente, a população vinha-me contar as suas actuações – verdadeiramente diabólicas – o que por vezes acontecia em público e espicaçava logo os ânimos porque na realidade não encontrei pessoa nenhuma que de uma maneira ou de outra não tivesse queixas deste personagem.

Nestas reuniões, as pessoas corriam de lugar para lugar para nos ouvirem falar, muitas vezes organizando-se entre si, dando boleia uns aos outros.

Por sua vez os partidos (PS, PPD, CDS e MDPCDE) digladiavam-se para terem a nossa preferência para colar os cartazes do MFA e fazer o anúncio das nossas intervenções. Em alguns casos as reuniões ficaram memoráveis – 30 anos depois ainda encontrei pessoas que se recordavam de certas passagens – como sejam as dos Bombeiros, da Mezio, Carvalhal-Mamouros, e Almofala.

A organização nesta fase fez-se dividindo o território em áreas correspondentes às freguesias, falando no MFA, no seu programa e nas eleições para a Constituinte, a quem quer que se encontrasse e anunciando o local e a hora onde haveria reuniões. Os locais eram escolhos com o auxílio dos partidos e de outras pessoas que se nos juntaram em permanência, procurando que não ficasse muito fora de mão para facilitar as deslocações das pessoas.

Fig13 - Dinamização Cultural - MAMOUROS

Fig13 – Dinamização Cultural – MAMOUROS

A população mostrava particular interesse que fosse eu a falar. Além de ser o mais velho, tinha uma cultura eclética e sabia exprimir-me em alegorias que entendiam na sua linguagem, ferramentas que inspiravam confiança às populações.

Por exemplo comparava a Constituição a uma manta de retalhos feita por muitos tecelões (os deputados) representando os partidos.

Os tecelões sabiam o que os seus eleitores queriam e iriam tecer a manta do seu jeito. Outros tecelões escolhidos por outros (os mais ricos por exemplo) iriam fazer a mesma coisa mas do outro lado da manta. No fim, a manta seria maior para o lado de quem tivesse mais tecido mais e esse ficaria com manta para se cobrir, mas os que tecessem menos ficariam com os pés de fora. A forma de se ter muita manta era eleger muitos tecelões. Os tecelões saíam dos partidos políticos e assim era preciso escolher o partido que prometesse fazer mais coisas que se precisam como o caminho, a escola, a luz eléctrica, a água, a saúde das pessoas e dos animais, e por aí fora…

Foi nestas sessões que surgiu a pergunta que se tornou sacramental: Porque é que o MFA não concorre, se é que mais se interessa por nós e melhor nos explica tudo?

Registo de Pedidos

Nesta fase recebemos e registámos pedidos de várias populações, prevendo a hipótese de regresso ou para memória e arquivo. A maioria tinha que ver com as acessibilidades. Outra era a electricidade, sem a qual não poderia haver electrodomésticos, telefone ou até telescola, uma novidade criada justamente para ensinar à distância aqueles que por inúmeras razões não se podiam deslocar à escola.

Para ter uma panorâmica do que se passava no concelho pedimos aos professores que fizessem um inquérito aos alunos, sob a forma de redacção, propondo-lhes que dissessem o que queriam ver realizado na sua terra. Da leitura desses trabalhos resultaria um programa de governação. Dado o seu volume foi feito um apanhado ressaltando as preocupações que eram referidas mais vezes, resumo que se apresenta a seguir:

TEMAS DE REDACÇÃO, estendida a várias escolas do concelho

“ O que eu desejaria ver realizado no futuro em Portugal?”

Os resultados coligidos deram o que se segue:

– Que às pessoas que não têm nada lhes dessem alguma coisa para que possam viver o seu futuro melhor

– Que paguem melhores ordenados aos trabalhadores

– Que às pessoas velhinhas que já não podem trabalhar lhes dêem um subsídio, pois anda muita gente a trabalhar sem poder

– Que aumentem os abonos de família para o bem de todos nós

– Que Portugal não continuasse tão atrasado pois em algumas terras não há estradas, nem luz, nem outras coisas necessárias

– Gostava de ver em todas as povoações algumas máquinas para lavrar e para outros trabalhos para as pessoas não terem um trabalho tão custoso

– Queria que o Estado me pagasse os meus estudos porque o meu pai não tem posses para eu poder ir estudar

– Queria que o Estado desse uma reforma ao pobre que não pode trabalhar

– Que houvesse médicos em Portugal e que estes fossem consultar as pessoas de graça, pagos pelo Estado, pois levam 500 escudos por ir a casa do doente e muita gente não tem dinheiro para lhe pagar tanto

– Que os médicos fossem de graça a casa dos doentes pois os doentes não podem andar 4km a pé para irem ao médico

– Que Portugal fosse mais rico. Que o lavrador tivesse melhores produtos e que vendesse bem

– Que o Estado pagasse os estudos às pessoas pobres que quisessem estudar

– Que o estado ajudasse mais os pobres do que os ricos e que lhes construísse casas

– Eu desejaria ser lavrador mas queria que o estado me fornecesse de máquinas, tractores, charruas, etc.

– Que o estado fizesse fontanários e estradas em todas as aldeias

– Gostava que houvesse máquinas para a agricultura

– Que houvesse médicos nas aldeias porque quem está muito mal não pode andar 4km ou mais. E que não levasse tão caro porque há quem não possa pagar porque lhe falta para outras coisas.

Castro Daire, 19 de Abril, de 1975 – poucos dias antes da 1.ª eleição livre em Portugal, depois do 25 de Abril “.

Esta fase foi muito produtiva em documentação. Penso que, sem excepção, as professoras primárias do concelho aderiram fortemente ao MFA e elas próprias tomaram iniciativas muito louváveis e sem precedentes. Os trabalhos de alunos de várias escolas, referentes à forma como eles viam o MFA, foram reunidos em volume, que ficou em minha posse, volume que, mais tarde, numa altura em que muitas equipas de dinamização foram mandadas recolher, foi entregue ao Sr. Presidente da República, General Costa Gomes, numa convocação que me foi feita para ir acompanhar o Cap. Ten Begonha, que chefiava a CODICE, depois da morte de Ramiro Correia. Dessa entrega resultou o Presidente dizer-me que tinha sido mal informado e que a minha equipa continuaria.

3. O que encontrámos

A Vila era uma povoação normal. O concelho era muito acidentado, estando um grande número de povoações em lugares declivosos, onde a movimentação se fazia de uma forma penosa para as pessoas e para os gados. Dizia o Professor ten-cor Veterinário António Ribeiro que foi incorporado na equipe de Castro Daire, como chefe da secção de veterinária, que a Cachena era uma raça bovina de anca estreita por selecção natural, porque os espécimes de anca larga tinham tendência a não caber na estreitas veredas da serra e fraguar-se (isto é, a despenhar-se pelas fragas abaixo). As povoações dividiam-se, grosso modo, em dois grupos: as que tinham estrada a passar perto (cerca de 1/3) e as restantes. O concelho tinha 203 aglomerados urbanos, com tipo habitat disperso nas cotas mais baixas e aglomerados compactos os que se situavam na serra. Lugares como Faifa, Laboncinho, Picão, Carvalhosa, Vilar, Cujó, Monteiras, Colo de Pito, eram pontos compactos no meio da serrania. Os habitantes das povoações que não tinham estrada tinham de andar grandes distâncias a pé para saírem das suas povoações e dirigirem-se à vila, à feira, ao médico ou até enterrar, percursos que muitas vezes estavam cobertos de neve ou com frios intensos. Não havia abrigos junto às estradas onde as pessoas pudessem esperar o transporte e, pior, ainda só havia transporte numa única linha do concelho, estrada Viseu-Lamego. Para ir ao médico o doente tinha de fazer parte grande do percurso a pé ou ir de padiola.

Fig14 - Póvoa de Montemuro

Fig14 – Póvoa de Montemuro

Havia situações medievais como seja pagar à Câmara um imposto sobre os animais e outro imposto de um dia de trabalho, costume completamente feudal. Havia ainda o chamado médico do partido, uma espécie de avençado da Câmara que ninguém sabia para que servia mas que tinha de ser pago, instituição cujas origens no tempo, eu desconheço.

Fig15 - Póvoa de Montemuro - Aspecto da Aldeia

Fig15 – Póvoa de Montemuro – Aspecto da Aldeia

As queixas contra os regatões (feirantes de gado) eram constantes, constando que a equipa de sanidade estava feita com eles e atribuía brucelose a animais que estavam sãos para dividir o proveito entre uns e outros.

Fig16 - Dinamização Cultural - Bostelo

Fig16 – Dinamização Cultural – Bostelo

Na primeira fase os dias foram-se passando num crescendo entre 14 de Março e 23 de Abril de 1975. À medida que se aproximavam as eleições, os partidos começaram a digladiar-se pondo em dúvida a nossa isenção porque o programa do MFA dizia que Portugal queria evoluir para uma sociedade socialista. Ora Socialista era só um dos partidos. Portanto nós, dizendo isso, puxávamos para ele. Foi esta constatação, estendida ao País, que levou Sá Carneiro a tirar o popular (povo) do seu partido e a acrescentar Social à Democracia que lhe restava. E assim nasceu o PSD em substituição do PPD.

Fig17 - Castro Daire - Picão

Fig17 – Castro Daire – Picão

Feitas as eleições para a Constituinte, o PSD em Castro Daire ficou com cerca de 70% dos votos, o PS com 20% e tal e os restantes foram dispersos pelo PCP pela FSP e pelo CDS, partido a que pertencia o Dr. João “Saneado” (Dr. João de Oliveira).

Esta figura era ímpar. Tinha sido, a um só tempo, deputado, presidente da Câmara, comandante da Legião, dono de uma farmácia dentro do hospital da misericórdia, provedor da Santa Casa da Misericórdia, director da Sociedade Montemorense de Ensino, accionista principal da empresa Guedes, conservador de Registo Civil, causídico com escritório montado, etc. De tudo tinha sido saneado pela população antes da nossa chegada, mas não perdeu um momento que fosse antes de se pôr a maquinar como nos pôr de Castro Daire para fora. Entre outros mimos, tenho no meu arquivo duas cartas anónimas manuscritas pelo seu próprio punho, fazendo-se passar por um pacato cidadão de visita à sua terra, que relatava o que lhe contavam acerca do nosso comportamento, atribuindo-nos a nós o que ele fazia durante o seu consulado. Não tenho conhecimento que as cartas tivessem chegado a ser publicadas, penso que, por que elas me chegaram às mãos e eu o denunciar com base em que tinham sido fotocopiadas do original no seu escritório por alguém que me era mais fiel a mim do que a ele.

Fig18 - Carvalhosa - Rural com Caniças

Fig18 – Carvalhosa – Rural com Caniças

Tal com havíamos prometido, dois dias antes do acto eleitoral recolhemos às nossas origens e deixámos as populações entregues às suas reflexões, antes de decidir em quem votar. Ficámos depois a saber que o padre de Moura Morta convocava todas noites as beatas para a igreja, para lhes ensinar a escolher em quem votar.

Fig19 - Castro Daire - Equipa do MFA

Fig19 – Castro Daire – Equipa do MFA

Do PS dizia que uma mão fechada nunca deu nada a ninguém; do PCP dizia que o martelo que eles mostravam tinha servido para pregar os cravos na crucificação de Cristo no Calvário. Quanto ao CDS informava que as duas setas dirigidas para dentro, queria dizer partido do coração, partido que tinha a todos no coração. O método, nas suas povoações, teve efeitos. Em Picão e Moura Morta ganhou o CDS.

4. Período anterior às eleições de 1975 – Eleições para a Constituinte

A Dinamização deixou o aconchego do poder e da cidade e foi ao encontro do povo, ao encontro do Portugal do silêncio, do atraso e do esgotamento, do Portugal do “não é possível”.

Os partidos migraram para junto do Poder e deixaram o povo para trás, outra vez entregue a si mesmo.

Algumas forças políticas temeram que a Dinamização Cultural e Acção Cívica, se bem sucedida, acabasse por implantar o sistema de democracia directa, a qual iria gerar órgãos de poder, culminando num sistema de contra-poder, que mais cedo ou mais tarde se confrontaria com o sistema fundado na democracia representativa.

Fig20 - Castro Daire - Escola de Montemuro

Fig20 – Castro Daire – Escola de Montemuro

Se o povo aderisse em massa a essa organização de base conduzida pelo MFA, então o MFA era poder ou tornar-se-ia o Poder.

As populações já perguntavam repetidamente nas campanhas para a Constituinte se não se podia votar no MFA e porque não havia de se poder votar no MFA?

Fig21 - Castro Daire - Escola de Carvalhosa

Fig21 – Castro Daire – Escola de Carvalhosa

Em consequência disso as mesmas forças políticas, aliaram-se às posições mais retrógradas da sociedade e da igreja e ao caciquismo apeado do poder do regime anterior e começaram a minar a credibilidade da Dinamização, acusando-a de comunista, que era um rótulo que tinha ganhado ressonâncias temíveis nas populações rurais durante os anos do anterior regime.

É na sequência do que estava a acontecer no campo e na cidade que leva as mesmas forças políticas a reclamarem o regresso dos militares aos quartéis.

E é também na sequência de na Dinamização se insistir que “Portugal ia para uma sociedade socialista” que o PPD acusa o MFA de favorecer o PS (Partido Socialista) e apressa os seus líderes a incluir a componente social num partido que, na sua génese, não previa ir além de aceitar a democracia como limite, sem cuidar da parte social. Assim nasceu o PSD social-democrata.

Nesta fase é de realçar o trabalho das equipas de TV que acompanharam a Dinamização e desenterraram o Portugal esquecido, ignorado e insuspeitado dos meios urbanos e o serviram, muitas vezes em estado de choque, à contemplação de todo o povo português e do mundo. Portugal nem suspeitava desta parte de si próprio: o que foi encontrado, descoberto e mostrado catapultou inúmeras vontades para se envolverem na grande tarefa de levar a mensagem da liberdade e participar na reconstrução do país, tarefa imensa que ficou conhecida por “Dinamização Cultural e Acção Cívica”.

Dinamizar não era tarefa fácil

Porém, nem todos reuniam as qualidades requeridas para serem aceites pelas populações e fazerem obra útil e isso está na génese do fracasso quase completo das campanhas de dinamização.

Não se tratava de gente desqualificada, mas de pessoas que tinham qualificações que não tinham aplicação naquelas circunstâncias de tempo, de audiência e de lugar.

O que certa Dinamização Cultural letrada propunha às populações era uma mudança do sistema de vida que sempre foi o seu, com um discurso desconhecido para os auditórios, cheio de medos e de nomes assustadores, falando de coisas longínquas para as suas prementes necessidades e para a sua compreensão, como por exemplo a colectivização.

O colectivo no minifúndio

O pequeno proprietário de terras não tem vocação para a colectivização. O seu sentido de posse e de propriedade são tão arreigados e intensos quanto menor for o património e o tamanho das parcelas que possui.

A noção de “o meu” e “o do outro”, de limite e de extrema tem implicações psicológicas profundas e é um obstáculo à realização de trabalhos de interesse comum que impliquem a alienação de uma fracção, pequena que seja, do que é particular.

A propriedade tem ressonâncias telúricas, alguma é detida pelas mesmas famílias desde tempos imemoriais e tem uma dimensão imaterial como se fosse uma extensão da própria família.

Casos há em que o desejo de a possuir foi tão grande que se jogaram destinos e vidas inteiras para a conseguirem, como é o caso de pessoas que emigraram com a determinação de amealharem o bastante para virem a ser donos de propriedades que sempre cobiçaram.

É neste contexto que deve ser entendida a propriedade particular e a vulnerabilidade a que a nossa acção ficava sujeita se fôssemos acusados de não respeitar estas regras.

A mensagem

A mensagem levada pela dinamização foi a de informar a população de que aquela revolução não era como as outras. Não setratava de um golpe deEstado daqueles em que uns tantos tomam o poder e outros saem, enquanto para o povo nada muda. Desta vez tudo ia mudar. Cada um ia poder ser senhor do seu destino, porque que íamos dar a todos as mesmas oportunidades e os mesmos direitos de competir em pé de igualdade com os demais.

A grande novidade consistia em que, pela primeira vez, a população era convidada a tomar parte nessa transformação, a entrar nessa Revolução e a fazer parte dela. Para levar esta mensagem tinha de se ir ao encontro da população, procurá-la onde se encontrava, por mais remoto que o lugar fosse.

A dinamização foi a fórmula que se encontrou para ir ao encontro das populações, mas cedo se verificou que elas tinham prioridades mais prementes do que a liberdade e da democracia.

Foi para atender as essas prioridades que as equipas de dinamização foram incumbidas de outras funções além da de esclarecimento de como funcionava a democracia e como se participava no acto eleitoral mais recente – A eleição para a Constituinte.

5. Como entendi a Dinamização

Entendi desde muito cedo, nas intervenções que tive nas periferias de Lisboa, que a mudança teria de ser feita dentro do sistema em que os povos sempre viveram sem lhes contestar o valor, se não tivesse uma explicação clara para isso.

Era para mim uma luta leal no seu próprio terreno.

E o seu terreno passava por uma irrepreensível conduta moral e cívica de todos nós, por termos uma linguagem com as variantes e saberes locais e um respeito permanentemente praticado, segundo os rituais de uso onde quer fôssemos parar.

A nossa aceitação teria de começar por fazer coisas que lhes aumentassem a esperança e lhes tornassem o dia-a-dia mais simples e menos trabalhoso.

O caminho, a água, o telefone público, a luz eléctrica, o pontão, a estrada, a telescola, a saúde própria e dos animais, tudo bens que permitiam alguma melhoria, bem-estar e economia de tempo, para depois orientar esse tempo para desenvolver sentimentos de insatisfação, de não acomodação e desejo de fazer coisas novas e mais arrojadas.

Depois, e só depois, poderíamos falar de culturas de importação levadas pelos citadinos, embora também aí refeitas com os valores locais, como a peça “O Segredo de Montemuro” de Nery Paiva, em que o vilão era o cacique local, a heroína uma professora da terra e o agente que despoletou a reviravolta o chefe da dinamização.

Mas nem tudo correu assim por todo o lado!

Ele é nosso

Um dos erros da Dinamização foi o de se ter ido com a convicção de que quem sabia éramos nós. Tudo era posto em causa desde a forma de vida às convicções, se pertenciam aos costumes e às crenças do “outro”.

Em Castro Daire fugiu-se a esta concepção de Dinamização, procurando sempre aceitar que, para as gentes da terra, o “outro” éramos nós e que a grande vitória para a nossa missão consistia em sermos aceites como um dos deles, ou seja, deixarmos de ser o “outro” para eles.

Aprendemos com este “outro” que não há apenas uma verdade, uma razão e uma lógica. Há sempre a verdade do “outro” que é a Verdade como ele a vê.

Muitos de nós fomos fanáticos nos discursos que proferíamos, defendendo saberes académicos e teorias que além de serem incompreensíveis para o nosso “outro” semeavam a desconfiança e permitiam ataques de flanco pela reacção, que dominava a linguagem pela qual as populações entendiam as relações de poder e eram sensíveis a medos atávicos inspirados na linguagem eclesiástica e caciqueira.

A maioria das equipas falou, mas não dialogou. Encontrou-se com as populações em patamares diferentes, cada um com as suas convicções, com as suas suspeitas e com a sua dose de fanatismo.

Para muitos não houve tempo de penetrar no espírito do “outro”. Em caso nenhum, que eu saiba, a não ser em Castro Daire, as populações chegaram a dizer “ele é nosso, eles são dos nossos.

Tomar o destino entre as mãos  

Tomar o destino nas mãos para aquela gente era ter uma estrada onde só havia uma vereda, ter um tanque de rega onde antes a água se perdia na montanha, ter animais saudáveis certificados onde antes estavam nas mãos dos regatões, era não ter de levar mais um cabrito às costas uma dezena de quilómetros para não cair em desgraça com o cacique local, era ter um pontão para atravessar o rio sem ter de levar os mortos a vau, era ter um telefone para toda a aldeia de onde se pudesse transmitir uma aflição à família, era ter a esperança de um dia ver chegar a electricidade.

Em mais de 180 aldeias do concelho os electrodomésticos faziam parte de um mundo só conhecido por terem ouvido falar a algum emigrante ou às gentes da Vila.

Não se eleva a cultura com fome

O primeiro instinto é o de sobreviver. E sobreviver nas condições que testemunhei gastava o tempo todo e atava as pessoas de sol-a-sol ao seu destino de labuta para poder tirar da belga e da serra o que lhe permitisse de que ir vivendo. No ritual cíclico das estações e da adaptação por milénios àqueles lugares, este povo sábio aprendeu a tirar proveito de tudo que o podia ter, a não se permitir o mínimo de desperdício, a gastar com parcimónia até nos dias festivos do calendário litúrgico.

As suas crenças estavam tão profundamente arreigadas na alma como as doenças o estavam no seu corpo.

Umas e outras eram da vontade de Deus e não da responsabilidade dos homens.

É neste contexto que surge o “outro” que éramos nós, a afirmar que havia muitas coisas que os homens podiam e deviam ter feito com ao aplauso da vontade de Deus. E como perante Deus todos, mas todos mesmo, somos iguais, porque não experimentarmos todos fazer qualquer coisa em comum?

Essa coisa seria escolhida pelas gentes da aldeia de comum acordo. Da nossa parte avaliaríamos se o que escolhessem era para as nossas capacidades e, sendo-o, repartiríamos o trabalho para que cada um tivesse orgulho de ter contribuído com o melhor que sabia. E muitas vezes daí em diante testámos as nossas capacidades e juntos vencemos.

Trinta anos depois de Abril

Aquilo que a Revolução trouxe ultrapassou o que a pobreza dos campos poderia algum dia dar em instrução, em ambição e em mudança de paradigma.

Com Abril a juventude foi retirada dos campos para o ensino na idade em que tradicionalmente aprendia o manejo da vida com a família, mourejando nos campos e na serra. Como resultado disso, depois da aprendizagem escolar já não tinha préstimo para a agricultura de subsistência nem apetência por ela e operou-se a desertificação rural, procurando os descendentes dos que encontrei, agora mais instruídos, outros destinos onde se realizassem os seus sonhos.

O mundo hoje é outro. O mundo que se confinava com a linha do horizonte da última serrania estendeu-se hoje à Terra inteira. Nascer numa das aldeias isoladas que encontrámos e que pusemos em contacto com o mundo deixou de ser uma condenação ao isolamento para sempre. Já não há sapos do poço e cada vez será mais difícil a quem hoje por lá passe acreditar que falamos verdade (1).

Também a vida nas aldeias mudou drasticamente. Hoje cheias de conforto e pejadas de carros aos fins-de-semana, luz eléctrica, electrodomésticos, meios de comunicação individuais, água canalizada em casa e ruas pavimentadas sem estrumeiras nem lamas. Os que agora vêm de visita aos familiares ou passar o fim-de-semana na sua segunda habitação são os que sem Abril nunca teriam saído. É o Estado Social a estender a sua asa e as promessas de Abril a pouco e pouco a cumprirem-se.

É o povo a aproveitar as oportunidades que Abril lhes foi levar pela mão da Dinamização.

(1) – O Sapo do Poço é uma história de Nery Paiva sobre dois sapos nascidos no mesmo poço. Um acomodou-se e ficou; o outro decidiu viajar. Desceu o ribeiro, seguiu pelo rio e fez-se ao mar. Viajou muito, viu tudo que havia para ver e quando voltou, culto e esclarecido, resolveu ir abraçar o amigo ao poço. Descreveu o mar como o lugar onde havia tanta água que se podia nadar a vida inteira sem encontrar o fim. O sapo do poço riu do sapo viajado e disse-lhe que não acreditava que em nenhum sítio houvesse mais água do que havia no seu poço.

A moral da história é que a ignorância é desconfiada e soberba.

Quando contei a história numa escola, um menino pediu se podia falar e perguntou: Capitão, o que é mar?

Esse menino, que nem sabia o que era mar, cresceu, estudou e saiu do poço. Hoje sabe o que é o mar, é culto e sabedor. O capitão era sapo do mar e aconselhou todos os meninos a forçar o seu próprio destino. A irem ter com ele, a não ficarem no poço à espera que o destino passasse por ali, que ele não viria nunca.

6. Alguns dados sobre a nossa permanência

Alojamento:

Hospital da Misericórdia,

PSP

Dependências do Tribunal

Quartel da GNR

Alimentação

Comíamos no Ciclo Preparatório (Estabelecimento de Ensino)

No “Ivo” (Restaurante)

Comunicação com as populações

Na primeira fase: Os estudantes, professores e gente dos partidos anunciavam em nosso nome, colocavam de cartazes e faziam parte da audiência acompanhando-nos. Estava-se a preparar a população para a eleição para a Assembleia Constituinte.

Na segunda fase: Na segunda fase, começámos por abordar as populações que na primeira fase nos tinham encomendado trabalhos.

O rol de pedidos era maior que a capacidade de execução.

Avaliaram-se as prioridades.

No primeiro contacto aconselhávamos a que a população elegesse uma equipa que seria aquela que a representaria e trataria connosco ao longo da duração do trabalho.

Leva-se essa equipa a visitar um trabalho que já estivesse em execução apresentando-a à equipa acompanhante do trabalho visitado para trocarem impressões entre si e se entusiasmarem. Se os outros eram capazes, também eles tinham de ser.

Seguia-se uma reunião na aldeia aberta a toda a gente, onde descrevíamos como um trabalho se desenvolvia e o que era exigido a cada uma das partes.

O MFA dava conselho, organização do trabalho, máquinas e equipamentos (caterpillars, compressores, martelos pneumáticos, explosores, trotil-TNT, detonadores, etc.).

A Povoação organizava-se, garantia a equipa de coordenação, mão-de-obra diária e pagava combustíveis e lubrificantes para as máquinas.

Horário de serviço: Não havia. Era de sol-a-sol.

Reuniões de avaliação de trabalhos

As reuniões de avaliação faziam-se nas aldeias onde decorria o trabalho, normalmente nas Escolas, e a ela acorria toda a gente, inclusive as crianças.

Nesse tempo as crianças aprendiam a ser homens e mulheres assistindo, ao planear da vida junto com os mais velhos.

Ainda hoje ouço, 33 anos depois, dizer que a estrada foi a melhor coisa que aconteceu na aldeia desde sempre.

Secções da Equipa de Dinamização

– Secção de veterinária

– Secção de electrificação rural

– Secção de construções

– Secção de apoio agrícola

Apoios

– Cultura – Carlos Galiza da CODICE rotineiramente visitava a equipa, que abastecia de filmes e equipamentos,

– Grupos de teatro e agrupamentos musicais iam actuar lá, geridos pela

CODICE

– Figuras como Mário Branco, Barata Moura, Luís Cília, Carlos Paredes e muitos outros por lá passaram.

– Nery Paiva, de nacionalidade Brasileira, lá escreveu “O Segredo de Montemuro”, no qual o chefe da equipa, a professora Noémia e outras pessoas da vida real são personagens do enredo.

7. Algumas obras – secção de construção

Não é viável reportar o que foi este período de intensa actividade nem fazer referência a todas as obras que foram executadas e a todas as rezes que foram tratadas. Por isso resolvi recolher algumas ao acaso dando voz a certos episódios que ocorreram no decorrer dos trabalhos.

Estrada da Gralheira

A Gralheira é a povoação de cota mais alta da Serra de Montemuro e pertence ao concelho de Cinfães. Quando chegámos, a distância mais curta a fazer a pé para apanhar um transporte automóvel era 6 km. A Gralheira era a terra natal do padre Elídio, um cidadão exemplar e um bom cristão. Ainda a Máquina andava em Bustelo e fui abordado por dois homens à civil, um deles o padre Elídio, que queriam que os ajudasse a “levar a estrada” até Gralheira.

Ajustadas as datas, a máquina foi colocada no começo da estrada junto à aldeia de Picão, do concelho de Castro Daire. O padre andava entusiasmadíssimo e, sendo um homem do povo, queria dar o exemplo, ajudando com o que tivesse à mão. Por isso lembrou-se de ir pedir uma picareta emprestada a uma mulher do povo de Picão, mas veio de mãos a abanar. A mulher a quem se dirigiu recebeu-o assim:

“ Oh! Home, ponha-se daqui p`ra fora que o furo com a picareta. Você tem contrato com o diabo”.

De futuro o padre Elídio passou a aparecer sempre com uma peça de ferramenta de sua casa.

Quanto ao contrato com o diabo, convém lembrar que o diabo éramos nós, era o que vinha de fora, era a novidade, mas era também o trabalho do padre de Moura Morta e de Picão, que alinhava no caciquismo mais empedernido que encontrámos, apesar de talvez não ser má pessoa.

Fig22 - Castro Daire - Estrada da Gralheira

Fig22 – Castro Daire – Estrada da Gralheira

A estrada para a Gralheira arrancou de Picão, pela serra acima ainda longe do povoado e fora do concelho, mas o padre Elídio lá estava todos os dias. Um dia, à hora da refeição dirigia-me ao local e, ao saltar um muro, deparei com o padre Elídio sentado no chão cestita do farnel de um lado, picareta do outro e breviário em punho tratando das suas devoções. Quando a estrada arrancou as populações espalharam a notícia pelos seus ausentes e havia uma grande colónia de Gralheirenses em Lisboa. Tal era a ânsia de ter uma estrada ao pé da porta que os Gralheirenses se organizaram em Lisboa e, a 4 e 5 em cada carro, saíam de Lisboa na sexta-feira à tarde e rumavam à Gralheira. Trabalhavam sábado e domingo com todo o afã e regressavam domingo à noite para na segunda de manhã estarem de novo nos seus afazeres. A estrada da Gralheira teve duas fases, sendo a primeira de rasgá-la e a segunda a de prepará-la para o asfalto. Foi durante a segunda fase que recebi uma visita de inspecção da chefia da 5ª DIV/EMGFA, herdeira da CODICE, já depois do 25 de Novembro, para avaliar porque é que ainda havia no terreno uma equipa a trabalhar.

Planeei a visita de modo e passar por várias obras executadas por nós, e, entre elas, a da 2.ª fase da estrada da Gralheira. Quando nos aproximávamos avistei a brigada de trabalho junto à Cruz do Rossão, e informei a comitiva que entre as pessoas se encontrava o próprio padre. Quando chegámos e trocámos as primeiras palavras, o chefe da comitiva disse-me ao ouvido: mas aqui não está padre nenhum. Foi aí que me dirigi pessoalmente a ele e disse: Padre Elídio aqui o senhor Brigadeiro, quer conhecê-lo pessoalmente porque já ouviu muito falar de si. O ten Freitas, oficial do RIV e natural de Cinfães, fez o resto das apresentações, como chefe da brigada.

Estradas de Cetos e de Montemuro

Montemuro é uma povoação que fica à meia encosta entre o rio Paiva e as Portas de Montemuro. Tal como outras em redor vivia da pastorícia e de pequenas porções de terra arável encravadas na serra, serra a que Amorim Girão chamou a serra mais ignota de Portugal. A cota ligeiramente inferior tem a seu lado Cetos de um lado e Faifa do outro.

Fig23 - Castro Daire - Estrada de Montemuro

Fig23 – Castro Daire – Estrada de Montemuro

Cetos já tinha um caminho, ido de Pinheiro e Ermida para cima, por onde circulavam a custo automóveis, percurso que o colocava ao dobro da distância da Vila do que se se abrisse uma estrada por cima para a estrada de Cinfães. Montemuro e Faifa não tinham nenhum caminho. Cetos era uma povoação mais organizada em torno de uma figura, o Sr. Beleira, irmão do Malhadinhas, imortalizado por Aquilino Ribeiro.

Fig24 - Castro Daire - Estrada de Cetos

Fig24 – Castro Daire – Estrada de Cetos

Cetos chegou a nós primeiro, ainda a máquina trabalhava na estrada da Gralheira e queria meter uma estrada para o lugar entre Porto Penedo e Cetos, passando pela Cruz de Cetos. Parte do percurso cotejava uma vereda de saída da rês para a serra, mas a maior parte do traçado era completamente virgem e ocupado por bouças.

Logo no início, ajustada que ficou a data, era a vez de os de Cetos terem a máquina, mas surgiu um problema de transporte. A máquina, sendo de lagartas, não podia fazer os três quilómetros que separavam os dois trabalhos pela estrada de alcatrão que, pelas Portas de Montemuro, se dirige a Cinfães.

Feita uma reunião para resolver o problema de transporte da máquina levei ao conhecimento da população que aquelas máquinas são transportadas em plataformas e que colocavam alguns problemas, como sejam o custo da plataforma (30 contos) e a necessidade de fazer estaleiro para montar e para apear a máquina da plataforma, de maneira que estas operações fossem feitas de nível.

Caiu-se num impasse e foi então que eu disse que havia uma solução muito trabalhosa mas possível, que consistia no seguinte: se a estrada tivesse pranchas de madeira ao longo do percurso, a máquina poderia circular sem danificar o alcatrão. Ora isto podia fazer-se com muito menos pranchas, bastando as suficientes para o dobro do comprimento das lagartas, desde que um grupo de homens fosse tirando as pranchas de trás e pondo-as à frente do rodado de lagartas. Imediatamente esta solução foi discutida e acabou por ser adoptada. Depois de três horas de trabalho duro a tirar pranchas de trás da máquina e a colocá-las na frente, a máquina encostou a Porto Penedo e ficou pronta para começar o trabalho de que a população falava desde que se conhecia. A estrada de Cetos correu com boa organização e resolução da maioria dos problemas pelas próprias populações. Recebeu uma visita da TV Australiana e outra da TV Norueguesa e deve constar do espólio televisivo destas instituições. Eu próprio tenho uma cópia de uma bobina rodada noutro lugar na mesma altura.

Estrada da Póvoa de Montemuro e Faifa

A estrada da Póvoa de Montemuro foi a mais trabalhoso e a que foi levada desde o seu planeamento a uma fase mais avançada da sua conclusão. Talvez para o leitor seja interessante saber que a CODICE/MFA fornecia as máquinas e os operadores, promovia a organização e o planeamento, mas as populações forneciam a mão-de-obra e os consumíveis, como o combustível.

Fig25 - Castro Daire - Estrada de Montemuro - montagem das anilhas para travessia do ribeiro

Fig25 – Castro Daire – Estrada de Montemuro – montagem das anilhas para travessia do ribeiro

Todos os trabalhos pressupunham um trabalho que muitas vezes começava pelo organizar e convencer as populações, que muitas vezes estavam relutantes em acreditar que nós cumpriríamos a nossa parte. Por isso em muitas situações começávamos por avaliar o trabalho, formar uma comissão de aldeia e ensinar-lhes que o que lhes oferecíamos exigia um trabalho comunitário, no qual cada dia seriam precisas umas quantas pessoas, seguidas de outras tantas no dia seguinte e assim por diante até chegar de novo a vez das primeiras. Era pois preciso organizar com as populações muita actividade. Por vezes chegavam-nos pessoas de lugares que queriam trabalhos, mas não estavam muito confiantes. A esses levávamo-los a sítios onde estavam a decorrer trabalhos com outra população já envolvida e deixávamos que trocassem livremente impressões e conhecimentos de organização entre si.

Mas também havia o contrário disto e um exemplo foi o de Póvoa de Montemuro.

Fig26 - Castro Daire - Estrada de Montemuro - Compressor do Martelo Pneumático

Fig26 – Castro Daire – Estrada de Montemuro – Compressor do Martelo Pneumático

Montemuro beneficiava de ter uma professora, natural da terra que tinha um percurso de vida digno de uma heroína, tendo nascido de uma família pobre como todas as outras, mas sendo espertíssima. Passou fome para se formar obtendo a nota mais elevada que era concedida na sua licenciatura. Tinha as portas abertas para continuar a sua carreira onde quisesse, mas optou por voltar para Montemuro para que mais ninguém no seu torrão natal deixasse de aprender a ler por falta de meios. Foi como professora de Montemuro que a conheci.

Quando terminaram os trabalhos de máquina de Cetos, Montemuro estava à cabeça na fila de espera. Porém nesse fim-de-semana o operador da máquina, o Sr. Nogueira, foi a casa e a máquina ficou lá, na Cruz de Cetos, ponto onde devia começar a estrada de Montemuro. Estava pois tudo em ordem e debaixo de controlo. Porém, soube-o depois, receosos que a oportunidade se lhes escapasse e a máquina fosse desviada para outros trabalhos, organizaram piquetes e guardaram a máquina dia e noite durante o fim-de-semana.

Os trabalhos começaram e progrediram conforme estava planeado, com a diferença que surgiu rocha firme mais vezes do que o previsto, tendo sido preciso recorrer ao apoio de compressores e martelos de ar comprimido.

Eu tenho um tio na Alemanha

A certa altura a professora Noémia abordou-me e informou que a verba de que dispunham estava a esgotar-se e que se viam na iminência de perderem a vez por não terem dinheiro para pagar os combustíveis. Dei-lhe instruções para reunir a população na escola, único lugar possível. De notar que estas reuniões eram estendidas a todas as pessoas sem distinção de menores – era o costume da terra.

A reunião ia de correndo sem que ninguém tivesse ideia de como arranjar dinheiro. Por proposta inicial minha, a equipa de Castro Daire não lidava com dinheiro. As nossas despesas de alimentação eram directamente pagas aos fornecedores periodicamente por um delegado da CODICE, sem que eu entrasse no circuito a não ser para conferir os gastos.

Estava-se a cair no impasse quando uma criança pediu para falar, para dizer que tinha um tio na Alemanha e que ia escrever uma carta a falar-lhe da estrada e a pedir-lhe dinheiro para ela.

A proposta da criança trouxe luz à reunião: imediatamente me propus a tirar um bom número de fotografias sobre os trabalhos da estrada e a pô-las à disposição da professora que, por sua vez colocaria as crianças todas a mandar cartas aos seus ausentes, falhando-lhes de estrada que iam ter e da necessidade que tinham de dinheiro.

A professora Noémia organizou primorosamente o trabalho, propondo aos alunos um tema de redacção no qual se descrevia quem era o MFA, se dizia como ele ajudava as populações, em que ponto estava a estrada, se explicavam as fotos de prova, porque era preciso mais dinheiro e se acrescentava o número de conta aberta em Castro Daire para onde poderiam ser transferidos os donativos.

O trabalho resultou em pleno. Algum tempo depois começou a ser depositado dinheiro na conta e Montemuro nunca mais se viu em apuros para pagar as despesas com a estrada.

Um episódio de luto

Esta estrada teve troços muito trabalhosos que deram em rocha bruta. O Sr. Nogueira – operador da máquina – com o seu jeito e muita prática lá ia metendo o dente da scraper nas fendas, primeiro abalando, depois removendo os rochedos. Mas um dia o dente não resistiu e partiu.

Reuni a comissão e concluiu-se que dentes para a máquina só a Caterpillar em Lisboa é que tinha. Por acaso eu conhecia a Eng. Maria Villas, filha do dono da Caterpillar, e resolvi vir pessoalmente a Lisboa no meu carro fazer as diligências necessárias e levar o dente de volta. Cheguei num dia à noite a Castro Daire e logo no dia seguinte de manhã tinha uma delegação a contactar-me porque tinha havia uma coisa grave na minha ausência e o povo estava alvoroçado.

Um dos vizinhos que tinha prometido dar uma leira para a estrada passar por ela, recusava-se agora a fazê-lo, o que para os vizinhos era uma verdadeira heresia dos costumes. Até às crianças se ensina que “quem dá e tira, para o inferno gira”.

Informei a delegação que trazia o dente e, pelo caminho, fui-me inteirando do sucedido, mas só quando cheguei ao local percebi: um morro situado na embocadura da leira que antes aparentava ser rocha dura, revelou-se de saibro grosso, o que permitia ter inertes para a estrada passar a direito por fora da leira, poupando-a a ser sepultada sob o piso.

Pedi à delegação que reunisse o pessoal à noite na escola para discutirmos o assunto: os vizinhos não podiam ficar desavindos e tinha de resolver-se o problema para a estrada seguir.

À noite quando cheguei à escola esta estava literalmente cheia com toda a população presente, mas faltava o dono da terra. Pedi à professora que me dispensasse uma criança para guiar o aspirante Araújo e dei instruções a este para pedir da minha parte ao dono da terra o favor de chegar à escola, à reunião.

Acalmei alguns comentários ácidos e pedi paciência até ouvirmos o que o dono da terra, para mim pessoa séria e honrada, tinha para nos dizer. A temperatura amainou um pouco.

Quando o homem chegou pedi-lhe que tomasse um lugar a meu lado. Porém, antes de se mover o homem disse:

“Sr. capitão, eu não deveria vir porque estou de luto: morreu-me a minha netinha no Brasil. Mas, devido à consideração que tenho pelo senhor, aqui estou. A leira levou-me 60 dias a minar e tenho-a nos olhos da cara. Agora, com o morro que empurrava a estrada para cima dela a desfazer-se em saibro, pareceu-me que não precisaria de ser sacrificada. Mas, se o senhor Capitão achar que precisa, mantenho a minha palavra e a leira é sua”.

Só depois tomou assento ao meu lado.

Peguei na palavra e perguntei: os senhores ainda recordam o que combinámos quando nos conhecemos? Eu digo: foi fazer uma estrada da Cruz de Cetos a Montemuro. Pois bem é para isso que aqui estamos. Também eu, como o dono da leira, acho que a estrada melhora se for por fora da leira, devido à sorte que tivemos de o morro ser mole. Eu passei por lá, reparei bem e reconheci que era uma pena estragar a leira. Lembrem-se que queremos uma estrada e não uma leira. Porém não quero contrariar a vossa decisão qualquer que ela seja e, por isso, proponho a resolução em dois passos. O primeiro é sairmos daqui com o problema resolvido, deixando a leira em paz, reconhecendo que nos enganamos e dando uma prova de boa vizinhança. O dono, apesar das fortes razões que deu põe a leira à disposição. Cabe-nos agora a nós dar uma prova de amizade e não a sacrificar inutilmente.

Se acharem que ainda precisam de voltar ao local para se certificarem se a proposta anterior merece acolhimento elejam aqui uma representação que me acompanhará amanhã para essa avaliação. Vou pôr as propostas à apreciação e votação.

Votadas as propostas, venceu a primeira e ficou logo ali sanado o problema da leira. No dia seguinte os trabalhos prosseguiram como se não tivesse havido tempestade.

O Trotil (TNT)

À medida que os trabalhos avançavam em várias frentes, começou a aparecer rocha compacta, nomeadamente na frente de desmonte, impossibilitando a abertura de valetas e o nivelamento dos treineis.

Era preciso material de perfuração da rocha e explosivos. Contactado o RIV, que não tomou a iniciativa de pedir os materiais, resolvi fazer isso por mim mesmo. Calculei os materiais e cheguei a um compressor com martelo pneumático, 400kg de trotil, reóforos, 2000 detonadores e um explosor.

Desloquei-me a Lisboa e fui falar com o QMG, general Sanches da Gama que me ouviu e decidiu logo o pedido dando instruções para o fornecimento e o transporte dos materiais. Duas secções saíram do RIV para o transporte, sob escolta, do trotil e dos detonadores em viaturas separadas. Cumprindo-se assim a regra de impedir que uma possível detonação dos detonadores (fulminantes) induzisse por simpatia o trotil a explodir também. O material foi guardado, a meu pedido, no polvorinho do RIV e gasto em pequenas porções, segundo as necessidades e mediante requisições que certificavam em que tinha sido gasta a dose anterior. Os restantes materiais foram fornecidos pela Engenharia e pelos Serviços Agrários de Viseu e transportados pelos seus próprios meios. Os trabalhos passaram a decorrer com mais celeridade e onde surgisse pedra era deixada para trás até que lá fosse uma equipa que num único dia limpava uma distância considerável de estrada.

Por este meio se evitou que as chuvas de Inverno arruinassem os pisos e se prepararam algumas estradas para receber alcatrão. Estão entre elas um troço de estrada da Gralheira, a estrada de Cetos e a de Póvoa de Montemuro. Ficaram só rasgadas outras como Bustelo, Almofala, Cujó, Codeçal, Laboncinho, Mões e Ester que tiveram de esperar por anos posteriores para serem terminadas. Mesmo assim cabe-nos a satisfação de ver que nenhuma foi abandonada pelo traçado ter defeitos, mas todas foram completadas em cima do trabalho feito por nós.

Uma ponte para Vilar

A população desta aldeia tinha um problema antigo para resolver. Os campos principais da aldeia estavam do outro lado do ribeiro de Ermida. Sobre este ribeiro tinha havido um pontão de estrado de madeira, mas estava tão deteriorado que só restavam os encontros. Perante a insistência do povoado e da necessidade bem visível da falta da ponte resolvi tentar uma solução extraordinária. Na Engenharia, em Santa Margarida, estava a comandar o “ten- coronel Sardinha Dias, que tinha sido meu colega na Academia Militar. Viajei para Santa Margarida, expus-lhe o problema e desafiei-o a mandar tirar as medidas à ponte e, numa semana de campo, montar o pontão que já levaria pré-fabricado. Por estranho que pareça a unidade de Engenharia de Santa Margarida tem no seu activo a construção e montagem deste pontão. Trinta anos depois o pontão de madeira passou a laje de cimento, já com a democracia representativa a funcionar.

Uma Semana de Campo para a Escola de Recrutas do RIV

O povo de Montemuro começava a ficar esgotado. A estrada ia ficando “um brinquinho”, mas o trabalho era esgotante. Tratava-se de uma estrada aberta numa encosta de grande declive a maior parte do percurso através de terreno pedregoso e virgem onde aflorou rocha compacta em parte considerável da sua extensão. Com este cenário todas as ajudas eram bem-vindas, quer elas fossem em dinheiro que fossem em mão-de-obra.

Foi então que surgiu a ideia de convencer o Director de Instrução do RIV e também o comandante coronel Coelho da Silva para deixarem fazer a semana de campo de Escola de Recrutas na Serra de Montemuro. A maioria da recruta era de incorporação local e alguns dos militares conheciam os povoados e até alguns dos seus habitantes e por isso seria de certeza um contributo dado de boa vontade. Consultados os recrutas, a adesão foi total e entusiástica. Muitos dos mancebos eram tão rústicos como o pessoal das aldeias e durante uma semana deram um bom avanço em mão-de-obra à gente dos lugares.

Perante o sucedido resolvi tornar o momento inesquecível para todos. Movimentei as coisas para que no fim-de-semana se fizesse uma grande sardinhada que eu próprio ofereci e que viessem os tocadores de violino e rabeca de Tendais para animarem o baile.

Baile Comprado

A semana de campo tinha sido um sucesso mas todas as ajudas eram poucas. Aproximava-se o pino do Verão e, com ele, uma certa agitação das moçoilas da Póvoa, Faifa, Pereira e outras terras. Praticamente nestes povoados só havia mulheres, crianças e velhos. Os rapazes ou estavam na tropa ou tinham emigrado. A agitação, soube-o depois, devia-se à aproximação das festas dos oragos destes lugares e dos das vizinhanças, altura em os rapazes chegavam em bandos como os estorninhos. Nos dias de festa a liberdade profana contrapõe-se ao recato religioso e parece que anda Deus pelas capelas e o diabo pelos bailaricos.

Nos dias da festa lá estavam os tocadores de Tendais e lá se alinharam na escola da aldeia raparigas de um lado e rapazes do outro.

A dada altura pairava no ar uma espécie de anúncio que se referia à “compra do baile”.

A compra do baile foi mais um artifício para arranjar dinheiro para estrada. Foi imaginado pela professora Noémia, principal responsável pela estrada, e tinha as suas regras. Num baile normal uma rapariga convidada podia negar-se a dançar com convidante, sem que este se pudesse considerar ofendido, desde que não dançasse com mais ninguém naquela rodada. As raparigas aproveitavam esta facilidade para esperarem até que quem elas desejavam viesse buscá-las. Havia assim uma dupla discriminação, não só na escolha que os rapazes faziam, como nas negas que as raparigas davam a quem não lhes agradasse.

O baile comprado acabava com isso.

O baile (aquela rodada) punha-se a leilão. Comprava o baile quem pagasse mais por ele e tinha como contrapartida poder escolher a rapariga que mais lhe agradasse, sem que esta pudesse negar-se a aceitar.

O dinheiro das sucessivas compras ia para o fundo da estrada. Ora havia vários rapazes, quase todos emigrantes, que queriam fazer figura e entravam em despique oferecendo valores cada vez mais altos pelo baile comprado, com evidentes benefícios para o fundo da estrada.

8. Secção de Electrificação

Castro Daire tem 203 núcleos habitacionais dos quais apenas 13 estavam electrificados. Uma tal situação de abandono devia-se, segundo chegou ao nosso conhecimento, ao facto de o presidente da Câmara exigir que as populações se quotizassem para pagar os projectos, que ele entregava aos seus apaniguados. A propósito transcrevo alguns documentos de uma das histórias que chegou até mim e que ilustra a forma de actuar do ex-autarca João de Oliveira.

Como nasceu a Secção de Electrificação da Equipa de Dinamização

Certo dia apresentou-se-me o Sr. Aníbal Francisco Henriques a solicitar electrificação para Farejas, argumentando que o seu projecto já estava adiantado e que era só mais um jeitinho…

Para reforçar o que declarava, mostrou-me uma carta que lhe tinha sido enviada para o Brasil, onde então se encontrava, por um conterrâneo seu, o Sr. Carlos Duarte Macedo, com o pedido para que, ele Henriques, fizesse aí uma subscrição para angariar dinheiro para o projecto, sem o que perdiam uma oportunidade de se juntarem a outra aldeia, que já tinha angariado fundos.

O Sr. Henriques tinha feito a subscrição, no montante de 495.000,00 cruzeiros que, ao câmbio de então, rendera 7.710,00 escudos dinheiro com que regressou a Portugal para o referido projecto de electrificação.

Em abono do que declarava, apresentava os documentos.

Tomando como verdadeiras as suas palavras de acusação, o Presidente da Câmara ter-se-ia apoderado do dinheiro sem nada fazer. Dez anos se haviam passado. Era tempo de mais!

Foi nessa altura que desenvolvi as diligências que levaram à criação da Secção de Electrificação.

Segue-se a transcrição da carta, do peditório e dos recibos de entrega onde se menciona o Presidente da Câmara a intermediar o negócio

Nota: Respeita-se a ortografia mesmo que contenha erros.

Transcrição da Carta:

“Exmo. Sr.

Aníbal Francisco Henriques

Rua Júlio de Castilho, 3

Rio de Janeiro

Brasil

Fareja 1 de Janeiro de 1965

Primo e amigo Aníbal

…………………………. Assuntos familiares …………………………………………….

Outro assunto: Fareja, Baltar, Farejinhas e Folgosa vão ser electrificados, mas é preciso que cada povoação dê uma certa quantia de contos. As outras povoações já arranjaram o suficiente mas a nossa está muito em baixo, apenas o Sr. Albino e mais meia dúzia deles é que dão coisa que se conte, o restante é uma pobretanáje como tu sabes, e dão alguma coisa, mas sempre pouco para aquilo que temos que arranjar de 25 a 30 contos, e se perder-mos esta ocasião tarde virá outra.

Vê se arranjas aí tu e os outros uma meia dúzia de contos (mas se for mais melhor) é preciso agarar-mo-nos com vontade porque ele deve cá estar no praso de 2 anos, o engenheiro já vem fazer o estudo este mês, e logo que tenhamos o dinheiro vem logo a seguir a montagem dos postes e fazer a cabine, dizem-me que no prazo de 2 anos devem estar as 4 povoações iluminadas, mas deve ser antes.

Se nós não arranjar-mos esta quantia não vem para cá a luz, e tarde ou nunca para cá vem, e é uma vergonha a outras povoações terem e nós não.

…………………………… Assuntos familiares………………………………………

Abraços de nos todos para todos vós.

Teu primo e amigo Carlos Duarte Marcelo.”.

Transcrição da Subscrição, feita no Brasil

“Lista para a ajuda da electrificação da Folgosa de Castro Daire = Portugal

Aníbal Francisco Henriques                                    60.000,00

Carlos Lina da Rocha Souto Silva                          30.000,00

José da Justina                                                       20.000,00

Acácio Monteiro e António Duarte                         40.000,00

Manuel da Silva Mimoso                                        10.000,00

António Duarte Marcelino                                      30.000,00

Armando dos Santos                                                 2.000,00

Alcino Mário Marcelino                                          50.000,00

Hermínio Marcelino                                                20.000,00

José Lourenço                                                        10.000,00

Albano Lourenço                                                      5.000,00

Mercedes Felgueiras                                              20.000,00

José Claro Pinto                                                       1.000,00

Maria Rodrigues·                                                    30.000,00

Idalina Almeida Silva                                             20.000,00

A Pizarro                                                                 50.000,00

Aníbal Ferreira Caldeira                                           5.000,00

Joaquim Duarte Ângelo                                          26.000,00

Agostinho Jacinto Alves                                         20.000,00

Bernardino Duarte Pinto                                           6.000,00

Rogério de Almeida Montez?                                 30.000,00

Mário Duarte Caldeira                                            10.000,00

Soma                                                                    495.000,00

“Estes 495.000,00 cruzeiros, no dia 9 de Janeiro de 1965, ao câmbio de 64,200 cruzeiros, deram em escudos 7.710,00

Rio de Janeiro, 9 de Março de 1965

Aníbal Francisco Henriques “

Dinheiro que foi entregue na sua totalidade juntamente com outro angariado na aldeia.

Transcrição do Recibo do Engenheiro projectista da Câmara de Castro Daire, de nome António Fernandes Magalhães. Este dinheiro foi além do inicial que continha o do Brasil e o angariado localmente.

“Recebi do Sr. Aníbal Fernandes Henriques, a importância de 3.000$00 (três mil, escudos) por conta do projecto para electrificação da Folgosa – Castro Daire.

Castro Daire, 16 de Agosto de 1965

O Eng. El.º da C. M. de Castro Daire

# Assinado sobre selo de 3$00

Transcrição de um documento da Câmara para o Senhor Aníbal Francisco Henriques. Agora é o presidente em pessoa a pedir mais.

Exmo. Senhor

Aníbal Francisco Henriques

Data: 22/9/965

Assunto: Amigo e Senhor Aníbal

O senhor Presidente da Câmara encarregou-me de lhe pedir para o senhor Aníbal entrar com mais 3.500$00 do dinheiro da luz, a fim de completar uma conta que ele se comprometeu com o Engenheiro.
Logo que lhe seja possível, desde já em nome do senhor Presidente e meu os nossos agradecimentos.
Do amigo certo e obrigado

António Oliveira?

Perante esta forma tão visivelmente corrupta – o projecto em causa nunca tinha chegado a dar entrada nos Serviços Municipalizados de Viseu – decidi estabelecer uma ligação profissional com o Chefe dos Serviços para acertarmos o que era possível fazer e necessário que eu fizesse. Constatou-se que dos poucos projectos de electrificação de Castro Daire existentes nos Serviços, nenhum estava completo, faltando em quase todos os levantamentos topográficos, elemento fundamental para o prosseguimento do processo de execução e avaliação dos custos.

Fig27 - Avaliação da Rede Eléctrica de Mões

Fig27 – Avaliação da Rede Eléctrica de Mões

Acordei com os Serviços Municipalizados que essa parte ficava por nossa conta e, para resolver a questão enviei a Lisboa um oficial da FAP, natural da concelho de Castro Daire, com a especialidade de topógrafo, que estava sob o meu comando, para trazer o equipamento, o que este conseguiu com grande brevidade. Logo que ele chegou iniciaram-se os trabalhos de levantamento topográfico, que foram concluídos em 18 aldeias, a primeira das quais foi Carvalhosa. Uma electrificação há mais tempo reclamada era a de Cabril, freguesia que se situa nos confins do concelho, próximo de Alvarenga. A electrificação exigia linha de AT para o transporte, a qual passava por Pinheiro, Ermida e Parada de Ester.

Fig28 - Levantamento Topográfico de Carvalhosa

Fig28 – Levantamento Topográfico de Carvalhosa

Quando foi conhecida a decisão de levar a linha de AT até Cabril as populações de Parada de Ester movimentadas por uma facção direitista local que obedecia ao João de Oliveira tentou travar a passagem, organizando uma reunião onde se pretendiam lavrar um documento que se opunha à passagem.

Dirigi-me ao local e cheguei a meio da reunião. Tomei a palavra e ali mesmo decidi cortar a saída aos reaccionários, oferecendo à população uma de duas vias: a electricidade não passava e Cabril e Parada de Ester ficavam às escuras; a electricidade passava e Cabril e Parada de Ester ficariam iluminadas, uma vez que nos “meus estudos” Parada de Ester já estava incluída no projecto. Aproveitei para dispersar mais a reacção, dizendo-lhes que esta mesma informação a poderiam ter obtido de mim, se antes mo tivessem perguntado.

Fig29 - Levantamento Topográfico de Carvalhosa (continuação)

Fig29 – Levantamento Topográfico de Carvalhosa (continuação)

Terminada a reunião entrei em contacto com os Serviços Municipalizados de Federação combinando colocar em Parada de Ester um porte com um transformador para electrificação da aldeia. A linha tinha sido projectada para garantir a potência necessária a todas as aldeias ao longo da sua passagem, mas acontecia que este era um projecto retido na FMV que só tinha inicialmente contado com Cabril, facto que estava agora a tentar ser levantado contra nós.

Assim prosseguimos as nossas relações de trabalho e de amizade com a FMV durante todo o tempo da nossa permanência em Castro Daire. Ganhámos o respeito dos colegas da FMV e eles ganharam a minha estima. A coisa até aí parecia que tinha um nó que não desatava: quando havia verba faltava trabalho de campo para fazer; quando o trabalho de campo estava feito tinha-o sido por um interesse particular sem atender ao bem comum.

Comigo ainda em Castro Daire foi introduzida uma nova tecnologia nas redes de BT (baixa tensão). Refiro-me ao “torsadé”, tecnologia na qual os 4 cabos de BT (3 fases e um neutro), são enroladas numa torsada tornando-se o conjunto em auto-suportado, tornando a aplicação muito mais simplificada e aumentando a segurança contra a electrocussão.

Esta técnica tinha sido introduzida em São Romão de Seia, local onde eu e os engenheiros de FMV nos deslocamos antes de darmos a aprovação da nova tecnologia, que é a que ainda hoje se adopta.

9. Secção de Veterinária

Fui contactado pelo presidente de junta de Cabril para fazer uma sessão de esclarecimento numa data (16/471975) em que no local havia festa e feira do gado.

Uma vez chegado notava-se um certo mal-estar no ambiente. Passeando pela feira apercebi-me de um truque que também os regatões da minha terra usavam nas feiras. Quando lhe agradava um animal ou uma junta e se aproximava um concorrente, batiam com o cajado no chão como se fizesse parte da conversa. Este sinal dava para alertar os outros para não fazerem lançamentos ou até dizerem coisas como: lindo animal, pena é ter brucelose!

Esta actuação combinada dos regatões para comprarem o gado por baixo preço era responsável pelo ambiente anuviado que encontrei.

Alguns animais pareciam perfeitamente saudáveis. Eles diziam que tinham brucelose e mesmo assim compravam desde que o preço fosse baixo!

Os lavradores acusavam os regatões e o veterinário de Lamego, responsável pelo rastreio, de estarem conluiados por este atestar que os animais saudáveis estavam doentes.

A situação era grave! A doença, a ser verdadeira, era transmissível às pessoas através da carne e do leite. Ali ao lado era Alvarenga e o distrito de Aveiro, uma das zonas de maior produção de leite do País. Se a doença se estendesse a Aveiro transformava-se num caso de grande gravidade.

Auscultado o presidente da junta, este concordou em toda a linha que a situação podia ser muito grave.

Subi ao estrado da festa que havia na praça pública e o presidente da junta pediu atenção para o que eu ia comunicar.

Informei que ia falar da brucelose, da equipa de veterinária e do que eu próprio sabia, caso todo o mundo estivesse de acordo que eu expressasse o que tinha a dizer.

Com o povo do meu lado, descrevi o que sabia da brucelose, por acaso estudada nas aulas de higiene da Academia Militar com o Dr. Buceta Martins, da família do comandante.

Fig30 - Castro Daire - Dinamização Cultural - Cabril

Fig30 – Castro Daire – Dinamização Cultural – Cabril

Perante o perigo que a doença representava e os prejuízos que as avaliações mal feitas poderiam ter para os agricultores, propus logo ali uma série de medidas destinadas a parar com as avaliações e a circunscrever o foco de doença.

Foram elas: parar com o processo de rastreio da equipa de Lamego, cujos resultados deixavam dúvidas aos agricultores, rejeitar os resultados obtidos e não entregar a ninguém nenhum gado declarado doente ou não, nem o movimentar para feiras ou vender aos regatões. Em resumo, parar tudo como estava.

Exigir que a equipa que viesse substituir a que estava envolvida no processo fosse da confiança do MFA e da população:

Pedir actuação imediata ao MFA para que providenciasse uma nova equipa, diligência que me propus que ficasse ao meu encargo.

Depois de aprovado prometi que na minha próxima deslocação a Lisboa trataria do assunto, de modo a trazer uma nova equipa de veterinária para fazer o rastreio, tirar as dúvidas e ver quem tinha razão nesta contenda.

Nove dias depois terminou a primeira fase da campanha e fiz o que prometi. Desloquei-me a Lisboa, bati a algumas portas, falei com o secretário de Estado, falei com o grande amigo, Prof. Dr. António Ribeiro professor de Escola de Agronomia e pus a CODICE ao corrente das diligências, pedindo-lhe que actuasse junto do Secretário de Estado e incentivasse o professor a aceitar, dizendo-lhe que o meu convite tinha a cobertura da CODICE.

Quando chegaram as eleições já tudo estava preparado e assente. A nova secção de veterinária avançou comigo para Castro Daire a instalou-se no Hospital da Misericórdia que se encontrava praticamente devoluto.

A equipa do Prof. António Ribeiro levava na bagagem não só a suma sabedoria do seu chefe como um laboratório portátil de análise de sangue, que permitia tirar a limpo 98% dos casos. Só os 2% restantes é que tinham de baixar a Lisboa.

Todo o trabalho da equipa foi organizado de forma científica. Para cada animal foi criada uma ficha sanitária que o identificava e onde eram lançados os seus dados próprios, morfológicos e sanitários.

De cada animal era recolhida uma certa porção de sangue que era analisado no laboratório, para despistagem da doença. Se o animal se encontrava são era-lhe colocado um brinco na orelha com o número que correspondia à sua ficha. Eram criadas três fichas: uma para o serviço local, outra para os serviços de veterinária de Viseu e outra para o dono do animal, para o acompanhar como elemento de prova da sua sanidade.

O ten-cor Prof. António Ribeiro, logo que chegou a Castro Daire, comprou uns tamancos que mandou ferrar e passou a usar nas suas andanças pelos estábulos do concelho.

Organização do trabalho

Foi feita a divulgação pelos dois concelhos de Castro Daire e de Vila Nova de Paiva que a equipa de rastreio tinha chegado.

Produziram-se sessões de esclarecimento que incluíam uma palestra, seguida de um filme didáctico e das intervenções dos presentes para tirar dúvidas. Anúncio, na mesma sessão, do dia, hora e local de apresentação dos animais para os aderentes voluntários. Anúncio de que se ia colher uma pequena quantidade de sangue de cada animal para análise e despistagem, isto é, para ver se o animal tinha ou não tinha brucelose. Informar que, para se tornar mais curto o tempo de resposta, a equipa tinha trazido e montado em Castro Daire um laboratório de análises, suficiente para despistar 98% dos casos e decidir se os respectivos animais estavam ou não contaminados.

Anunciar aos donos dos animais saudáveis que lhes seria entregue um documento de sanidade garantido pelo Estado que podia ser exibido em qualquer feira ou perante qualquer comprador. Informar que o próprio animal seria portador de um brinco de identificação na orelha como forma visível do seu estado de saúde.

A adesão foi imediata e quase generalizada. À sessão de esclarecimento seguia-se a apresentação dos animais no dia imediato para recolha do sangue e identificação dos donos.

Fig31 - Castro Daire - Secção de Veterinária - Extração de Secundinas

Fig31 – Castro Daire – Secção de Veterinária – Extração de Secundinas

Depois do rastreio dos animais dos concelhos de Castro Daire e do de Vila Nova de Paiva a equipa passou a dar apoio sanitário, De facto muitas vezes apareciam donos de animais doentes que pediam a intervenção do Prof. António Ribeiro, em coisas tão variadas como uma cesariana a uma porca com 10 bácoros, salvando a mãe e os filhos, ajudas a vacas a parir orientando-lhes o feto dentro do útero, extracção de secundinas em partos mal resolvidos, etc.

O Prof. ten-cor António Ribeiro merecia de facto o epíteto de cidadão honorário de Castro Daire e Vila Nova de Paiva.

De todo este trabalho da veterinária, a equipa de dinamização ganhou a gratidão da população dos concelhos e a inimizade dos regatões de Vila Pouca. Esta aldeia era uma terra de regatões que viram o seu lucro emagrecer com a sanidade dos animais. De facto um brinco numa orelha de uma vaca era um sinal de derrota destes intermediários e um escudo de defesa para os donos das rezes.

Um episódio sangrento em Laboncinho

Um proprietário que não levou o seu gado no primeiro dia ao rastreio, armou zaragata com outro que o levou e deu-lhe uma sacholada no crânio, cortando-lhe a orelha esquerda e tirando-lhe uma lasca de osso da parietal. O episódio foi assistido pelo pessoal militar que trouxe o doente para Castro Daire. Porém o ferimento inspirava cuidados especiais, o que levou a que a vítima baixasse ao hospital de Viseu. Estava-se num tempo em que tudo caía em cima do MFA, porque ninguém obedecia às autoridades. Perante o perigo de vida do agredido, e tendo o acto sido testemunhado, estava-se perante flagrante delito que impõe prisão e apresentação às autoridades. Enquanto participei a Viseu e o RIV mandou alguém para me acompanhar fez-se noite. Chegámos a casa do arguido às 23 horas, hora imprópria para prender alguém em sua casa.

Assim batemos e esperámos que aparecesse alguém. Apareceu a esposa muito chorosa. Dei-lhe a palavra de honra que ninguém iria preso naquela noite e pedi-lhe que o marido chegasse à porta, ao cimo de escada. Quando ele veio intimei-o a apresentar-se no posto da PSP de Castro Daire às oito horas da manhã do dia seguinte. Prometeu que o faria, e assim viemos embora.

Pelo caminho, o cap. Gertrudes da Silva mostrou descrença de que o homem comparecesse. Porém, compareceu. E aí lhe expliquei porque o tinha mandado comparecer e teria de o entregar ao Delegado do Ministério Público para que procedesse de acordo com a lei.

10. Carreira pelas Portas de Montemuro e desvio de Mamouros-Carvalhal

Castro Daire vivia praticamente isolado. As carreiras que havia eram Castro Daire – Régua e Castro Daire – Viseu. Menos de 10% da população beneficiava destes percursos por viver perto deles. Todo o resto – 90% – tinha de andar grandes distâncias a pé antes de chegar à estrada.

Só se podia ir ao Porto por um destes itinerários e não se conseguia ir e vir no mesmo dia. Porém, se houvesse uma carreira pelas Portas de Montemuro isso seria perfeitamente viável. Havia ainda o caso de Carvalhal – Mamouros que tinham tido carreira a passar pelos seus lugares, mas tinha sido desviada para outro percurso, por onde não servia ninguém, mas era mais curto para a empresa de camionagem.

Ambos os casos eram muito lesivos para as populações, mas não havia força para levar a todo-poderosa empresa Guedes a mexer uma palha para facilitar a vida aos seus clientes, que eram as populações do seu concelho. Isto devia-se ao cacique local ser o dono maioritário da empresa e não estar para aí virado. As primeiras populações a reagir foram as de Carvalhal – Mamouros, dirigidas pelo Sr. Ferreira que, em nome dos seus fregueses fez chegar ao nosso conhecimento a anomalia de as populações estarem num lado e a carreira passar pelo outro, com a agravante de ainda até há pouco tempo o itinerário ser pelo meio das povoações que agora o viam desviado para uma estrada onde não servia ninguém, a cerca de um a dois km de distância, que tinham de percorrer a pé de trouxas às costas.

Resolveu-se abordar o assunto planeando uma ida do MFA a uma sessão de esclarecimento a Mamouros – Carvalhal, sessão onde seria publicamente apresentado o problema e pedido o nosso apoio para repor as camionetas a passar pelo seu anterior itinerário.

Feita a reunião ficou decidido o seguinte andamento com a apresentação de um documento assim redigido, seguido das assinaturas:

“A Junta de freguesia de Mamouros-Carvalhal, do Concelho de Castro Daire, atendendo ao pedido dos moradores das povoações desta freguesia de Carvalhal, Termas do Carvalhal, Casal, Moinho Velho, e Mamouros para que esta junta rogue à representação das Forças Armadas que se encontram neste concelho em dinamização e esclarecimento que apoie a reposição do transporte colectivo da empresa Guedes pelo percurso que sempre foi o seu.”

Paralelamente compunha-se a estrada antiga e preparava-se a população para o trabalho e fazia-se circular o abaixo-assinado como prova explícita da vontade do povo.

Fig32 - Castro Daire - Transportes Públicos - desvio por Mamouros e Carvalhal

Fig32 – Castro Daire – Transportes Públicos – desvio por Mamouros e Carvalhal

Esta acção recebeu o apoio do MFA e de gente que foi de fora (como professores primários e alunos do Ciclo Preparatório), quer para compor a estrada, quer para participar na festa da reposição do itinerário, quando chegou o dia.

Estes actos entravam na gesta e no património dos povos como dias abertos, claros e inteiros, onde cada um se integrava na vontade colectiva para erguer um marco à memória futura.

Fig33 - Castro Daire - Transportes Públicos - festa do desvio por Mamouros e Carvalhal

Fig33 – Castro Daire – Transportes Públicos – festa do desvio por Mamouros e Carvalhal

Chegado o dia, todas estas populações e aqueles que a eles se associaram esperaram e fizeram alta à camioneta da carreira, entraram, em festa, a bordo e indicaram ao condutor por onde de futuro seria o caminho a percorrer todos os dias. Depois fizeram uma festa de arromba. Onde não faltaram o vinho, os salpicões, a música, os cantares e os discursos. Previamente tinha sido informada toda a comunicação social de Viseu que registou para a história destas aldeias aquilo que ainda hoje é por eles considerado um grande acontecimento.

Fig34 - Castro Daire - Transportes Públicos - arranjo do percurso Mamouros e Carvalhal

Fig34 – Castro Daire – Transportes Públicos – arranjo do percurso Mamouros e Carvalhal

Uma carreira pelas Porta de Montemuro

Este episódio começou pelas repetidas queixas das populações pela recusa da empresa local de camionagem – empresa Guedes – de fazer o percurso de carreiras pelas Portas de Montemuro em direcção a Cinfães e Porto, o qual encurtaria cerca de três horas de duração e permitiria ir e vir ao Porto no mesmo dia.

As populações afectadas de Vilar, Picão, Carvalhos, Rossão, Campo Bem Feito, Pereira, Cetos, Póvoa de Montemuro, Faifa, Laboncinho Começais, Alhões e Gralheira eram as directamente atingidas porque tinham de se deslocar à Vila a pé antes de aqui tomar a carreira que as levasse para fora do concelho, quando, a carreira, a existir, passaria perto destas povoações.

Estudou-se a legislação e a tramitação legal para se iniciar uma nova carreira, onde têm de constar, entre outros requisitos, os mapas do percurso, os pontos de paragem e horários a praticar (dias e horas).

Fig35 - Castro Daire - Transportes Públicos - director da empresa SOARES combina com Cap Cruz Fernandes o início das carreiras da empresa pelas portas de Montemuro

Fig35 – Castro Daire – Transportes Públicos – director da empresa SOARES combina com Cap Cruz Fernandes o início das carreiras da empresa pelas portas de Montemuro

Elaborada toda a documentação e juntado o pedido sob a forma de abaixo-assinado de todas as populações dos lugares mencionados submeteu-se um requerimento segundo os conformes ao Ministro dos Transportes.

Paralelamente contactei a empresa Soares, do Porto, que fazia o percurso até Cinfães, para o estender até à Vila de Castro Daire, no caso da empresa Guedes não aderir de moto próprio, ficando nesse caso a linha entregue à empresa Soares.

Fig36 - Castro Daire - Transportes Públicos - início da carreira de autocarros pelas Portas de Montemuro

Fig36 – Castro Daire – Transportes Públicos – início da carreira de autocarros pelas Portas de Montemuro

O documento enviado ao Ministro dos Transportes contendo o estudo preparado e completo, feito nos termos do D.L. aplicável para este efeito, foi mostrado por mim ao gerente da empresa de transportes Guedes, que disse que ia falar com o Dr. João de Oliveira, sócio maioritário.

Informei-o de que isso pouco importava para o caso, pois, no dia mencionado no documento, o transporte começaria a ser feito. Se a empresa Guedes entretanto não acordasse com a empresa Soares como fazer as carreiras de Castro Daire – Cinfães – Entre-os-Rios – Porto e Porto Castro Daire, o serviço passaria a ser feito pela empresa Soares do Porto, com a qual já tinha tudo acertado.

De facto tinha chegado a acordo com a empresa Soares e no dia aprazado houve concentração de povo nas Portas de Montemuro para festejar a inauguração da primeira carreira Castro Daire – Porto pelas Portas de Montemuro.

À hora aprazada chegou a camioneta com pessoal do abaixo-assinado, que a tinha tomado, de forma gratuita, na sua viagem inaugural. Mais uma vez este acontecimento foi idêntico a um dia santo,pois ali apareceu muita gente da Vila e de outros lugares. As encostas da serra encheram-se de merendeiros e de tocadores. Havia felicidade e sorrisos rasgados em todos os rostos.

11. Uma carta para o capitão

Durante o tempo em que estive internado no Hospital Militar em Coimbra recebi inúmera correspondência, a maioria das vezes de pessoas que nem conhecia, dos amigos, das pessoas que me visitavam (alugaram-se transportes colectivos para me ir visitar). O caso que vou citar corresponde a uma entre tantas cartas, das que guardo no meu arquivo particular. A professora Conceição, de Cujó, tinha ido visitar-me e contou aos seus alunos como a visita tinha corrido. O Resto está na carta que transcrevo

Cujó, 19 de Maio, de 1975

Amigo

Parece-me que estou a ficar maçadora, mas tenho de lhe contar o que aconteceu hoje aqui na minha escola.
Quando cheguei disse aos alunos que o tinha ido ver a Coimbra e contei-lhes o passeio. Surgiram imediatamente perguntas, mas, entre tantas, houve uma, tanto da parte dos meus alunos como das empregadas da escola, que me comoveu muito.

A pergunta foi esta:
Podemos escrever ao Sr. Capitão?
A minha resposta foi sim e, quanto a mim, não poderia ser outra.

Sugeri ainda que os alunos da 2.ª Classe escrevessem uma carta e os da 3.ª outra, mas não quiseram assim. Preferiram fazer grupos e escrevê-las.
Ficaram loucos de alegria e as cartas aí vão.
Todas elas foram feitas sem qualquer ajuda da minha parte, ensinei apenas a escrever algumas palavras que eles não sabiam.
Todos os dias quando as aulas terminam cantamos a canção: A Gaivota, e tudo canta muito afinadinho; Saem da Escola e vão pelo caminho a cantá-la até chegarem a casa.

É já tarde.

Hoje não quero maçá-lo mais

Ção”

12. Considerações finais

Por necessidade de contenção termino aqui a menção a episódios da minha estadia em Castro Daire, deixando na penumbra outros que possivelmente mereceram ser registados neste documento, como o do padre que não queria que a irmã se socorresse dos nossos veterinários para lhe curar os animais mas comia-lhe os presuntos, como o professor que agrediu um casal de idosos e onde eu intervim para garantir a indemnização pelos danos, sem que o assunto transpirasse para os tribunais, como o corrupio de visitas ao hospital de Coimbra quando tive o acidente ou como classificar o acto de a população se ter quotizado na minha ausência para angariar dinheiro para o conserto do meu automóvel nos Janeiros da Régua.

A quantidade de episódios que me prendem a Castro Daire faz que ainda hoje tenha pessoas com quem me corresponda e sinta profunda mágoa de cada vez que recebo a notícia de que um dos meus amigos morreu.

Saí de Castro Daire, não porque a minha missão fosse considerada acabada, mas porque o Comandante da Região Militar Centro, general Charais, quis beneficiar dos meus serviços a nível regional, isto já em 1976.

As coisas evoluíam então muito rapidamente e pouco depois o Director da Arma de Transmissões, brigadeiro Pereira Pinto, requisitou-me para ir para o Regimento de Transmissões fazer os primeiros projectos de redes telefónicas de Pequenas Unidades, porque esta unidade se declarara sem experiência para fazer este trabalho.

Coronel Cruz Fernandes – Uma notável história de vida (2)

Cap. II – Missão em Moçambique (Junho de 1970 a Setembro de 1974)

1. Viagem

O ano de 1970 foi aquele em que o Comando das Transmissões passou de Lourenço Marques para Nampula. Isto deu-se por arrastamento do Comando-Chefe das Forças de Moçambique que, na mesma época, se transferiu para Nampula.

As nomeações de pessoal graduado de transmissões eram individuais, feitas rendição homem a homem e os transportes quase sempre feitos de navio. Embarquei no paquete Angola, o qual cruzou no Golfo da Guiné, sob uma diluviana tempestade tropical, com o paquete Infante D. Henrique, no qual viajava de regresso de uma comissão a Angola, o ten-cor Vargas.

Algum tempo antes de mim tinha embarcado o capitão Fernando Homero Cardoso Figueira, também com destino a Nampula para rendição individual, destinado à companhia de transmissões de campanha, enquanto que eu saí de Lisboa com destino ao STM.

Desembarque em Lourenço Marques

Desembarquei em Lourenço Marques pelos fins de Junho de 1970. Aguardou-me e orientou-me o capitão Oliveira Pinto, enquanto não recebi guia de Marcha para Nampula.

Apercebi-me que se efectuavam preparativos de mudanças de material nas quais estava envolvido o capitão Cruzinha Soares.

Nampula

Desembarcado em Nampula, de avião, fui colocado no Batalhão de Transmissões 2, comandado pelo ten-coronel Simões (Bifuca), tendo como 2.º Comandante o major Garrido Baptista, que dividia as suas funções entre o Comando das Transmissões no QG/RMM e o Batalhão. No QG/RMM estava ainda o coronel João do Rio, que regressou passado pouco tempo à Metrópole.

Fig4 - Assim era eu

Fig4 – Assim era eu

Nesta data, Jun/Jul de 1970, Nampula estava serena, mas em Cabo Delgado decorria a maior operação militar conjunta levada a cabo em Moçambique, durante todo o período de guerra de libertação.

Poucos dias depois da minha chegada houve reunião de comando de Batalhão. Aí se ficou a saber que enquanto percorríamos a distância Lisboa-Nampula, o meu destino e o do capitão Figueira tinham sido trocados. O major Garrido Baptista, que nos conhecia a ambos de Lisboa onde tinha sido Director de Instrução do nosso estágio pós-graduação, entendeu que as minhas características pessoais apontavam mais no sentido operacional, enquanto que as do capitão Figueira apontavam mais para as Transmissões Permanentes.

Eu, que saíra de Lisboa para o STM, vi-me comandante da Companhia de Transmissões, da Companhia de Instrução e, de vez em quando, da CCS também. Além disso, depois do regresso do major Falcão à Metrópole, também passou para mim a chefia da Secção Técnica da unidade. Por sua vez, o capitão Figueira ficou com o STM.

No Batalhão, mas com funções de Presidente do Conselho Administrativo e chefe da Secção Técnica estava o major Falcão.

Na Companhia de Reabastecimento e Manutenção de Material de Transmissões estava o major Carvalho, que comandava, e o capitão Birrento?

Enquanto o Batalhão ainda estava a assentar arraiais, tive contacto, pela primeira vez, com o major Pereira Pinto, chegado da Operação “Nó Górdio”, que decorrera em Cabo Delgado, mas que estava em retirada. O major Pereira Pinto, conforme apareceu assim desapareceu, por ter terminado a sua missão. Lembro-me que exibia e manipulava um documento “Normas Técnicas de Transmissões” por ele elaboradas para suporte e orientação doutrinária na grande operação de onde chegara.

2. Situação no BTm2 na segunda metade de 1970

O BTm não tinha ainda Porta de Armas, nem arranjos internos de paradas e passeios. Era constituído por quatro terraplenos e algumas rampas de passagem de uns para os outros.

A Porte de Armas estava no terrapleno que continha o edifício da Casa da Guarda, da Companhia de Instrução e da Secção técnica. Entrando, logo à direita uma rampa dava para a plataforma do Edifício do Comando.

Da Porta de Armas, seguindo em frente, outra rampa dava acesso à parada principal. Esta tinha, à esquerda, no primeiro bloco, a Companhia de Transmissões e o STM. No mesmo alinhamento, mas distanciado deste bloco, encontrava-se o edifício do Centro Receptor.

Do lado direito, logo ao cimo da rampa e fazendo ângulo recto com o alinhamento do bloco de Transmissões, situava-se a Companhia CCS. Ao fundo do terrapleno face a face com a CCS situava-se o Refeitório.

Externamente, o BTm2 tinha vedação com a CRMMTm e pelo lado da Porta de Armas. Tudo o resto era aberto para as machambas e para o mato.

Perante a situação, cada um começou a orientar as suas actividades conforme podia, para o desempenho de funções e melhoria das condições de internas do BTm2.

Um oficial que deixou uma marca de qualidade

Havia entre nós um oficial muito rigoroso e exigente, em termos de qualidade de execução. Era o major Garrido Baptista. Com o seu ar de gozo e atitude grande senhor, este oficial tinha de facto uma escola única em termos de padrão de qualidade, que exigia em tudo em que punha as mãos. Devo-lhe nesta fase muita orientação, mas acima de tudo a escola de saber fazer bem.

Deve-se-lhe, entre muitas coisas, a concepção de moldes para a execução dos lancis de separação dos passeios das paradas, com a criação de faixas relvadas para absorção das poeiras. Estes moldes estavam feitos de modo que apenas dois soldados eram suficientes para fazer todo o trabalho, ficando este com um aspecto final como se o lancil completo tivesse sido feito de uma única betonagem.

Deve-se-lhe ainda a transformação de uma sala vazia e desprovida de qualquer conforto, no bar de oficiais mais badalado de Nampula.

Este oficial, a quem nunca foi feita justiça e teve o azar de comandar para fim da sua comissão alguns oficiais medíocres que, depois, foram ouvidos numa fase paranóica pós 25 de Abril, era considerado em Nampula e na “Província” como um engenheiro competente e muito solicitado. Das suas mãos saíram vários trabalhos, nos quais colaborei a seu pedido, alguns deles ordenados pelo Comando-Chefe, como o Centro de TV para propaganda e expansão da APSIC no Norte de Moçambique “Operação Fronteira”, a passagem de nível da linha de caminho-de-ferro junto ao aeroporto de Nampula e muitos outros para os quais era ouvido pelo Secretário Provincial das Obras Públicas, de quem era conselheiro.

Enquanto que Garrido Baptista cuidava, no part-time que passava no Batalhão, no seu arranjo interno, o major Falcão foi encarregado de prover à vedação pelo Sul, Nascente e Poente, uma vez que apenas pelo Norte confinava com a CRMMTm.

Ao capitão Figueira, como já disse, foi-lhe entregue o STM, de que me ocuparei depois.

Quanto a mim foi-me entregue a Companhia de Transmissões e a Companhia de Instrução, logo desde início. Depois acumulei com a CCS, quando o alferes Santana, que a comandava, foi nomeado para a operação de Tete. Com o regresso da major Falcão à Metrópole, passei a chefiar a Secção Técnica.

3. Companhia de Transmissões

A CTm, não existia como tal, porque parte do material estava ainda em Lourenço Marques e a outra parte estava envolvida no “Nó Górdio”.

O pessoal foi entretanto chegando e começou a formação da companhia.

A disciplina era muito difícil de manter, não digo a disciplina militar nas relações de comando, mas a disciplina de controlo de movimentos. Com a unidade escancarada por três lados, quem podia garantir que a seguir ao recolher a nossa tropa não se espraiasse pelas machambas, onde o aconchego das nativas sempre ajudava a esquecer as saudades das noivas que esperavam na Metrópole? Uma vez, numa ronda de improviso pela machamba dentro, foi possível recuperar meia dúzia de beliches militares que para aí tinham sido carregados em operações silenciosas nocturnas.

Lidando com estas contingências lá se foi formando a Unidade que dois anos depois se orgulhava de ser a mais aprumada da guarnição e que contava com um dos recordes mais baixo de castigos, praticamente nenhuns.

Com um comandante, general Kaúlza de Arriaga, que privilegiava as operações e os exercícios de Estado-Maior e com um segundo comandante de Batalhão – major Garrido Baptista – a sobrevivência do comandante da CTm do Comando dependia da prontidão operacional, predicado que em Moçambique era por esta altura levado ao extremo.

Havia três elementos mágicos a que o comandante da CTm tinha de responder, nos briefings do QG/RMM, aos quais Kaúlza de Arriaga presidia:

– Dimensão máxima da maior carga individual a transportar;

– Peso da maior carga, não desmontável;

– Peso total da carga a transportar e resposta na hora.

O general Kaúlza de Arriaga podia mandar planear uma operação que não tinha intenção de executar ou uma operação para Cabo Delgado hoje e outra para Tete amanhã, a mais de mil quilómetros de distância da primeira.

Era preciso responder com que frequências, com que antenas, com que baterias, com que rádios, com que mastros, mas tudo isto durante os briefings, aos quais assistia o major Garrido Baptista. Este oficial fazia gala de na frente de todos a partir de dada altura ter saídas destas: Meu general, as Transmissões respondem dentro de 15 minutos e, pelo telefone, ordenar que lhe desse resposta.

Um percurso trabalhoso

Respostas como a que se requeria acima não podiam ser dadas logo no início porque trabalhos preparatórios nos aguardavam.

Ao tomar o comando da CTm, apercebi-me que em Moçambique não havia partilha civil/militar de frequências. A banda militar, que em Portugal era respeitada, estava em Moçambique pejada das mais variadas actividades. Era terrivelmente arriscado planear uma operação e, ao entrar em acção, verificar que as frequências escolhidas estavam activas, muitas vezes por sinais mais fortes do que os nossos.

Como se não bastasse, algumas unidades a quem era distribuído o AN/GRC-9 com determinados naipes de cristais, queixavam-se de que os mesmos não trabalhavam nas frequências que os cristais indicavam e, portanto, não faziam rede entre si. Em consequência disso muitas vezes ficavam por fazer ligações vitais, tais como eram as de socorro e salvamento de baixas em combate.

Havia, pois, que resolver previamente estes dois problemas, vitais para a operacionalidade da CTm, antes de a poder considerar em condições de cumprir bem a sua missão.

Varrimento do espectro

Descobrir na banda de trabalho (3 a 30 MHz) frequências disponíveis, isto é, desocupadas, só seria possível montando um processo de busca e varrimento continuo de modo a verificar estatisticamente quais as frequências disponíveis e em que percentagem de tempo.

Para o conseguir, promovi a montagem de um Centro de Escuta 24/24 horas, com varrimento de toda a banda de frequências e passagem pela mesma frequência de 15 em 15 minutos, com registo de ocupado ou desocupado. Antes disso, a banda de 3 a 30 MHz foi dividida em intervalos de 3KHz e inscrita em folhas que no seu conjunto cobriam a banda.

Ao fim de algumas semanas já se dispunha de uma imagem muito aproximada de ocupação do espectro e consequentemente das zonas onde podíamos encaixar as frequências das nossas redes.

As folhas eram incluídas num manual que ficava disponível no Centro de Escuta. De posse do manual e sabida a distância de Nampula à zona onde a operação teria lugar fácil era, por simples consulta, escolher as frequências desocupadas e os naipes de cristais que se lhes ajustavam.

Cristais

Com a idade os cristais envelhecem e a frequência de oscilação aumenta. Cristais com a mesma frequência de ressonâncias mas com idades diferentes oscilam em frequências diferentes. Assim sendo, cristais com a mesma frequência nominal de trabalho podem não entram em rede entre si. Era o que nos estava a acontecer.

Para remediar este percalço, foi preciso testar todos os cristais existentes em stock, distribuí-los na frente de combate, escolher os que aí estavam e testá-los também, reagrupando uns e outros segundo as actuais frequências de ressonância e não segundo aquelas que neles vinham indicadas.

Neste trabalho contei com a ajuda de um colega do IST, que na altura cumpria serviço militar em Nampula – o alferes Themudo de Castro, o qual por razões psíquicas, foi recolhido passado algum tempo. É justo porém, destacar o seu trabalho enquanto esteve presente. Voltarei a falar dele.

Para as escutas contei com os Receptores Plessey, de sintonia contínua entre 300 Kc/s e 30 Mc/s, aparelhos que fizeram um excelente trabalho e já tinham sido empregues com sucesso na GE em Lisboa.

As praças de Transmissões foram divididas em turnos, chefiadas por sargentos e posicionadas em operações de escuta em turnos contínuos de três posições.

O trabalho de reagrupamento dos cristais beneficiou de uma montagem que incluía um osciloscópio para leitura directa da frequência de saída do AN/GRC-9 e portanto a de oscilação do cristal. Colocado o cristal no equipamento esperava-se que a frequência medida fosse a que o cristal indicava. Quando o não era o cristal era reclassificado na frequência em que realmente oscilava.

Pesagens e medidas

Para responder por completo à questão da carga total, peso e dimensões do material de cada missão exigidas pelos planeadores de transportes do EM/QG/RMM, foi preciso medir e pesar os equipamentos de transmissões.

Fez-se depois um Manual de Operação do qual constavam por ordem alfabética todos os itens com as suas características físicas (peso, dimensão, volume).

Chegado aqui, estava em condições de responder em 15 minutos ao major Garrido Baptista como era seu compromisso perante o comando, com destaque para compromisso de assegurar a ligação à retaguarda.

Assim:» Missão» Distância a Nampula» Frequências» Equipamentos» Mastros» Antenas» Baterias/Geradores» Maior dimensão» Maior carga individual» Carga Total.

Com a entrada ao serviço do RF-301 de sintonia contínua e cobrindo a banda entre os 3 e os 30 Mc/s, as condições operacionais melhoraram grandemente.

4. Um local para o centro de Transmissões de Nampula

Dada a experiência que tinha adquirido no Centro receptor do CTT, em Barcarena, onde por requisição dos CTT trabalhei em parte-time entre 1967, ano da minha licenciatura, e 1970, ano da mobilização, foi possível aperceber-me que o local do COFI-Nampula era pouco adequado para Centro Receptor/Transmissor de ligação ao Comando Avançado das Forças de Intervenção.

Fig5 - Posto Dardo ou "Vietname"

Fig5 – Posto Dardo ou “Vietname”

Procedi, com equipamentos emprestados pelos CTT, onde o eng.º Guimarães era o chefe, à medição de recepção de sinais em vários pontos de Nampula para emissões de Vila Cabral, Mueda e Tete. Verifiquei que havia uma melhoria de mais de 6 db em relação ao COFI, justamente nuns terrenos devolutos existentes fora do Regimento de Serviço de Material, nas traseiras do QG/RMM.

Por proposta minha foi decidido montar aí o Centro de transmissões de Campanha o qual, em pouco tempo permitia a escuta de todas as nossas comunicações de HF (das tropas portuguesas), onde quer que actuassem em território de Moçambique.

RF-301 e o apoio anónimo

Com uma potência de saída de 100W, em toda a banda entre os 3 e os 30 Mc/s era possível socorrer companhias e pelotões em aflição nas diversas linhas da frente que, embora relativamente perto das suas unidades de apoio, estas os não podiam ouvir por estarem aquém da distância de salto e, portanto, na zona de silêncio (skip zone).

Nós, que estávamos longe, podíamos ouvir uns e outros. Ao ouvirmos os apelos, fazíamos de relé e chamando os destinatários e informando-os do que se estava a passar. Recebíamos as respostas e repetíamo-las para o remetente, acompanhando ainda algumas vezes o diálogo de socorro até à entrada em contacto do socorrista com o socorrido. Muitos de nós salvamos situações difíceis e nem sequer sabemos a quem o fizemos.

Nos primeiros tempos e devido à inexistência do material adequado para o que pretendíamos fazer, tive de ser eu a operar os meios e a ensinar aos furriéis os truques que permitiam mesmo assim garantir as comunicações de interligação entre entidades servidas pelos meios fixos (telefones da rede de Nampula e outras) e pelas móveis (servidas pelos meios rádio das unidades da frente). Mesmo sem equipamentos de comunicações adequados conseguia-se estabelecer ligações e garantir comunicação entre entidades destas diferentes redes, quase sem que estas se apercebessem de que estavam a ser servidas por meios tão rudimentares como aqueles de que dispúnhamos.

A coisa ganhou tal eficiência que o Comandante do BTm2 baptizou as instalações de “Vietname do Cruz Fernandes” e fazia gala de espalhar pela oficialidade da guarnição que já não havia no território de Moçambique sítio onde “ele” não chegasse.

E o nome deste Posto de Comando chegou de facto tão longe e a ser tão conhecido que quatro anos depois, quando um delegado da Frelimo foi recebido em Nampula, um dos primeiros pedidos que fez foi se podia saber onde era o Centro de Operações DARDO. Dardo era o indicativo deste Posto Director e Macaco Velho o meu próprio indicativo.

Vinte anos depois voltei a Nampula na missão de Paz ONUMOZ e quis visitar em romagem de saudade este local de onde partiu tanta ajuda a camaradas em aflições, mas toda a área é hoje de acesso expressamente proibido.

Como funcionava o Vietname

Os equipamentos estavam encerrados em três viaturas cobertas e o pessoal dormia em tendas de campanha. O Posto estava guarnecido 24 horas por dia todos os dias do ano.

Cobria duas faixas de frequências, uma que ia dos 3 aos 30 Mc/s com o RF-301 e outra para meios aéreos, que se estendia para lá dos 300Mc/s

Para a faixa dos 3 aos 30Mc/s foi montado um sistema constituído por Três Dipolos Dobrados de 600 Ohms de impedância de carga, montados em triângulo equilátero, radiando de modo que os eixos dos lobos de maior potência passavam respectivamente por Cabo Delgado (Mueda), Tete e Lourenço Marques.

A distância de salto podia variar-se fazendo variar a distância dos dipolos ao solo e a frequência de modo que conforme a hora assim se podia garantir haver sempre uma conjugação óptima para cada ligação.

Convém notar que para estas distâncias havia todos os dias 15 minutos de manhã e outros 15 à noite durante nos quais não era possível qualquer ligação, devido à transição brusca da ionização da ionosfera nos momentos do nascer e do pôr-do-sol.

As baixadas dos dipolos terminavam em fichas num painel no interior da viatura de operação, a qualquer das quais podia ser ligado o equipamento RF-301. Tornavam-se assim intermutáveis e permitiam com a simples troca de ficha passar para uma ligação de Cabo Delgado para Lourenço Marques ou Tete e vice-versa.

Ao fim de algum tempo todo o espaço de Moçambique estava aferido e em condições de cobertura e vigilância.

Um conjunto de antenas funcionando acima dos 30Mc/s foram montadas de modo semelhante e permitiam também transpor o sinal de uma rede de campanha para a outra ou fazer a integração rádio-fio, como os operacionais das armas gostavam de dizer.

Dentro do mesmo espaço existiam ainda geradores de campanha adaptados a arrancar automaticamente por falta de corrente da rede e tomar a carga do centro.

Existia também uma pequena central telefónica militar-civil que permitia tornar mais fácil a integração rádio-fio. O Comandante-Chefe serviu-se dela para se ligar para diferentes locais dentro de Moçambique com entidades de uma lista selecta, quer estivesse em Nampula e o correspondente fora, quer ao contrário.

Os Híbridos

Nos primeiros tempos só se conseguiam chamadas telefónicas através deste posto usando um truque de operação ou artifício técnico. O artifício resultava da necessidade de passar as ligações a quatro fios para ligações a dois fios e não se dispor de equipamento adequado que tornasse a operação automática.

Quando se fala ao telefone o par que leva o que se diz é o mesmo que traz o que se escuta.

No telefone esta dificuldade está resolvida tecnicamente porque os telefones têm uma ponte de Wheatstone que realiza esta operação sem darmos por isso.

Numa comunicação rádio é preciso carregar na palheta do microfone para emitir e libertá-la para receber.

Esta operação era conseguida sem híbrido entre um utente em Nampula e outro em Mueda, por exemplo, utilizando o alto-falante monitor do RF-301 e proceder do seguinte modo:

– Chamava-se pela rádio o destinatário e punha-se em linha;

– Chamava-se Nampula pelo telefone, punha-se em linha também, e dizendo: “Nampula pode falar”. Nesse momento premia-se a palheta do microfone e punha-se Nampula em emissão, monitorando a conversa pelo alto-falante do rádio de modo que, quando Nampula terminasse, libertava-se a palheta, o rádio passava a recepção e dava-se a vez à resposta de Mueda.

Por estranho que possa parecer, este foi modo como muitas mães ouviram os seus filhos espalhados pelas terras distantes de Moçambique, no Batalhão de Telegrafistas em Lisboa, naquilo que ficou para a História como ”Hora da Saudade”. Isto já aconteceu em 1971, depois de interligados o Centro Emissor na Represa com o Centro Receptor no BTm2. Voltarei a falar desta ligação.

A forma artesanal aqui descrita, que resulta de numa tremenda escassez de material suprida por uma boa formação técnica dos quadros de transmissões, foi posteriormente eliminada.

Numa das reuniões matinais com o comandante, Francisco Simões, referi os malabarismos a que era preciso recorrer para suprir com Saber o que faltava em meios técnicos “ híbridos” para cumprir a missão. O Comandante piscou um olho, arregalou o outro e disse: “Espera aí, híbridos há-os em Lourenço Marques”. Havia de facto híbridos, eram onze equipamentos, e serviam perfeitamente. A partir daí deixou de ser preciso assistir às chamadas para carregar na palheta.

5. Ligação a Lisboa

Anda me encontrava em Portugal a comandar a companhia TPF quando surgiu de Moçambique o pedido de aquisição e envio de um cabo telefónico de 25 quadras, 0,9mm2, blindado e auto-suportado. Feita a aquisição, o mesmo foi enviado para o destino na segunda metade de 1968.

Ao chegar a Nampula reconheci as onze bobinas amontoadas na parada principal do quartel, cuja madeira tinha já quase desaparecido, devorada pela formiga salalé. Felizmente os bichos não apreciam o plástico e por isso os cabos estavam intactos.

O capitão Alcides de Oliveira, rendido pelo capitão Figueira, tinha-se declarado impreparado para levar por diante o trabalho que faltava fazer, que era a ligação entre o Centro Receptor (BTm2) e o Centro Emissor (Represa), distanciados um do outro de 11 quilómetros.

Percurso

Em abono da verdade a obra era própria para uma empresa especializada, luxo a que não podíamos aspirar.

O cabo tinha de atravessar toda a cidade por cima da rede de baixa tensão. Esta rede de energia era em fio nu e estava à cota mínima exigida por lei. Logo, tudo que cruzasse com ela tinha de passar por cima. Além disso o seu percurso tinha de ser obrigatoriamente feito com travessia da estação de caminho-de-ferro, num ponto em o número de linhas obrigava a ter apoios dentro da própria estação, onde havia sempre movimentos de composições.

Fig6 - Emenda do cabo autosuportado

Fig6 – Emenda do cabo autosuportado

A somar a esta complicação, o percurso em campo aberto tinha de ser obrigatoriamente feito bordejando a picada que de Nampula conduzia à Represa. Ora, também se sabia que esta era a berma onde corria enterrada a tubagem, de material frágil, que trazia a água da Represa para a cidade e que qualquer dano nesta estrutura tinha consequências dramáticas. Pela outra berma corria a linha de alta tensão que alimentava os motores de bombagem de água da Represa para a cidade.

Estava fora de questão cortar árvores para alinhamentos dos postes, porque o assunto se tinha tornado de grande sensibilidade social. Manobrar com um cabo pesado para o fazer passar por cima da rede de baixa tensão, com esta em carga era demasiado arriscado. Cortar a energia para fazer os trabalhos era inaceitável.

Dados técnicos

Do ponto de vista técnico, a situação era a seguinte:

– Cada suspensor do cabo auto-suportado era constituído por um conjunto de 21 peças (porcas, placas, parafusos e anilhas) que não havia à venda em Moçambique;

– Postes de apoio em betão não se fabricavam para venda em Moçambique. Os que havia eram de casuarina e só uma empresa da Beira os fornecia, à razão de 6 por mês: como eram precisos 210 postes, estava fora de questão optar por esta solução.

Do ponto de vista técnico, o afastamento de 11km entre o Centro Emissor e o Centro Receptor justifica-se, para que não se forme loop magnético durante a transmissão (diversidade de espaço). Em Lisboa este assunto tinha sido resolvido pela colocação do Centro Emissor na Encarnação e o Centro Receptor em Alcochete, mas em Nampula estava por resolver.

Do ponto de vista orgânico este assunto era do STM, visto que o cabo se destinava ao suporte do sinal na sua transmissão para Lisboa, Lourenço Marques etc.

Os Briefings matinais

Num dos briefings matinais, estando presentes o Comandante, o capitão Figueira e eu próprio, o Comandante Simões trouxe à baila o cabo auto- suportado porque de Lisboa cresciam as insistências, e, em Moçambique, Kaúlza de Arriaga não queria ficar atrás de Spínola que, na Guiné, já tinha ligação a Lisboa.

Analisada a questão, o capitão Figueira – penso que baseado nos dados que expus -, terá analisado as dificuldades e concluiu que as Transmissões não dispunham de meios para, de per si, resolver o problema.

O Comandante descartou a resposta, virou-se para mim e perguntou o que pensava eu.

Tomando a pergunta como apenas destinada a obter um parecer, respondi que era um trabalho difícil, no limite do possível, mas possível. O Comandante calou-se.

No dia seguinte, no briefing da manhã, o olho aberto do Comandante denunciava que ali havia coisa.

No final do café com amendoim torrado à Macua, o Comandante rodou a cadeira do estirador e olhando da CCS por cima do edifício do comando, disse: “ Cruz Fernandes, se tu fosses eu e eu tivesse respondido como tu o fizeste, o que é que tu farias?”

Respondi: “ O mesmo que o meu Comandante vai fazer: – Ordenar-me que faça!”.

E assim nasceu a minha ligação ao cabo auto-suportado. Estava-se em Outubro de 1970. Desejava-se a inauguração para o início de Março de 1971, então data festiva das Transmissões.

Foi uma obra de muitas delicadezas e de uma enorme quantidade de trabalho, especialmente tendo em conta os escassíssimos meios técnicos de que as Transmissões dispunham e os limitados meios humanos nesta fase do processo.

6. Obra do cabo auto-suportado

Os ferros foram desenhados por nós e mandados fundir e metalizar (galvanização a quente) em Lourenço Marques.

Os postes, que eram de 10,50m, 440 kg de esforço à cabeça, foram calculados por nós, armadura e molde para o seu fabrico.

Com a Câmara Municipal de Nampula, que já tinha estaleiro, procedeu-se a negociações para que ela fabricasse 220 postes para o STM, mediante contrapartida da entrega pelo BTm2 de cimento e aço em quantidades negociadas entre a Câmara e o BTm2 (major Falcão).

Neste trabalho parte da mão-de-obra foi militar.

Para identificação futura cada poste foi marcado a três metros da base, com o emblema do STM, previamente mergulhado num recipiente de óleo queimado para impedir a aderência de emblema à massa. O resultado era ficar, em cada poste em obra, a cerca de 1,10 metros acima do solo, a aranha das transmissões gravada como sinal distintivo que permanecia 20 anos depois, quando voltei a Moçambique.

O transporte foi outra operação para a qual não havia nas transmissões viatura capaz. Resolveu-se, fixando dois pneus usados, de grandes dimensões, fornecidos pela engenharia, ao estrado da viatura. A parte pesada dos postes balouçava, no transporte, em cima desses pneus e compensava o peso que se descarregava sobre a cabine.

Fig7 - Lançamento do Cabo Auto suportado

Fig7 – Lançamento do Cabo Auto suportado

Ao chegar à obra, cada poste deslizava sobre a travessa que fixava os pneus e a sua base entrava directamente na cova que lhe era destinada. Quatro cordas previamente passadas pela cabeça do poste permitiam de imediato colocá-lo ao alto e escorá-lo, ficando apenas o alinhamento fino para depois.

Alinhamentos

Para o alinhamento das covas e depois dos postes foi preciso um teodolito, que não havia nas transmissões.

Para suprir essa falta foi fabricado, com base num simples esticador, uma mesa articulada para apoio de um binóculo, cujo conjunto desempenhou a função satisfatoriamente. A mesa tinha de um lado um espigão que se enterrava no solo e no outro terminava num apoio para o binóculo. A articulação era dada pelo esticador.

Para proceder aos alinhamentos escolheram-se pontos altos, a partir dos quais eram visíveis os troços entre eles. No ponto alto colocava-se quem procedia ao alinhamento, munido do teodolito (binóculo) e de um rádio. No extremo afastado fixava uma bandeirola branca verticalmente no solo.

Partindo deste extremo, uma terceira equipa, com um rádio, uma bandeirola branca e munida de estacas ia avançando no terreno por lanços de 50 metros, que eram os vãos entre postes.

Do ponto alto, o operador do teodolito orientava o alinhamento, dando instruções pelo rádio.

Por cada 50 metros alinhados, era enterrada uma estaca no solo a indicar o centro da futura cova. A operação continuava até esta equipa chegar junto do teodolito.

Nessa altura seguia-se a escolha de nova troço e a repetição das operações.

O trabalho de abertura das covas foi penoso. O solo encontrava-se laterizado e não havia máquinas que ajudassem. Eu próprio, algumas vezes de tronco nu brandi a picareta, gestos que permitiam, sem quebra de autoridade incutir no pessoal a ideia da importância e da urgência da obra.

Para o fabrico das espias, que eram feitas de cinco fios de arame de nº 11 torcidos, fabriquei também um aparelho que permitia multiplicar por 20 o trabalho de torcedura do fio. Esse aparelho foi colocado a uma distância de quatro vezes o comprimento de uma espia para permitir melhor torcedura e rendimento do trabalho. Num extremo foi fixada uma argola e no outro uma estrutura rígida, fixa ao solo, com uma manivela que rodava num rolamento aproveitado da sucata. Essa manivela passava por dentro do rolamento e terminava num gancho. Os cinco fios de arame eram passados, bem esticados, pela argola e pelo gancho. Depois, enquanto um militar rodava a manivela outro batia no chão o cordão que se ia formando, para evitar os encavalitamentos dos fios. Ao fim de alguns minutos estava pronto um cabo (estropo) de cinco fios de 60 metros de comprimento.

Para o lançamento das diferentes bobinas de cabo foi inventado outro processo que simplificou o trabalho de um modo radical. As bobinas, de mais de uma tonelada, seguiam montadas num cavalete que permitia que rodassem em torno do seu eixo. À cabeça do cabo era ligada, em “rabo de porco”, uma corda de 100m de comprimento, que cobria a distância de dois vãos. O pessoal foi dividido em quatro equipas. Duas equipas de “trepa” e duas de “puxa” (*).

O tripé com a bobina de cabo era levado até junto do primeiro poste. A primeira equipa do puxa levava a ponta do cabo até à base do mesmo, onde lhe era feita a ligação em rabo de porco. Um homem da equipa do trepa subia ao cimo do poste, à unha, levando a ponta da corda. Aí chegado, passava a corda por cima do rolete, previamente montado no parafuso de suporte do cabo, e fazia-a avançar até a ponta desta ser agarrada pela equipa do puxa que esperava no solo. Esta apanhava a ponta da corda e seguia com ela para o segundo poste. Uma vez aí, um segundo elemento do trepa pegava a corda, subia com ela o poste e procedia de igual modo que o anterior. Quando a corda se encontrava a meio do segundo vão começava a ficar esticada e a trazer o cabo com ela, fazendo desenrolar a bobina cerca de 100 metros atrás. Colocado em posição onde observasse toda a manobra bastavam poucas vozes de comando para que este pessoal actuasse como uma máquina perfeitamente afinada.

Por este processo o cabo de uma bobina de 1000m punha-se em cima em algumas horas, fixo aos postes e pronto a ser estabilizado. De notar que, como o cabo não foi de Portugal com folga, houve necessidade de fazer emendas nos pontos onde as bobines acabavam, o que levou a ter de fazer emenda a meio dos vãos para poupar cabo.

(*) Nota: Devo aqui distinguir nestas equipas o cabo Bernardo que trinta anos depois encontrei em Coimbra no Convívio das Transmissões. O condutor Constantino, landim de nação, e o 1.º cabo Bié, possante condutor, filho de régulo da Gaza, que um dia pegou uma serpente, mamba, à mão, quando me viu na iminência de a pisar e ser mordido. Na parte técnica contei com o furriel Abel Pereira Delgado, de Campo de Jales, Vila Pouca de Aguiar, que mais tarde empreguei na Refinaria de Sines, onde veio a fazer a sua carreira profissional, apesar de me ter enfrentado em Nampula, já na disponibilidade, na Revolta de 7 de Setembro, quando com outros se apoderou do Rádio Clube de Nampula e eu silenciei o emissor, cortando a energia no posto de transformação de onde era alimentado.

Emendas, terras e ensaios

Lançado o cabo, executaram-se as emendas e procedeu-se a ensaios. Fizeram-se ensaios de atenuação e de diafonia.

A atenuação era de facto bastante acentuada, cerca de 13 db. As disfonias eram muito fracas.

Durante os ensaios fez-se uma experiência muito importante: Com o tensor (cabo de suspensão) ligado à terra do lado do Receptor, mediu-se a tensão em vazio na ponta de chegada ao Emissor, com um voltímetro electrónico, que não tem consumo. Obteve-se uma tensão de 2.500Volt.

Demonstrou-se como as tensões induzidas podem ser perigosas, o que foi aproveitado com finalidades pedagógicas.

Depois ligou-se o tensor ao solo em vários pontos, cumprindo o que estava inicialmente previsto no projecto.

As ferragens metálicas de todos os postes ficaram também ligadas a terras de protecção ao longo do percurso.

Fig8 - Viatura com o pessoal do Cabo Auto suportado

Fig8 – Viatura com o pessoal do Cabo Auto suportado

Na inauguração o Comandante da Região Militar de Moçambique, general Kaúlza de Arriaga, foi o convidado de honra do comando do BTm2, a quem o major Garrido Baptista me apresentou e teceu um elogio, o qual transferi para o pessoal que esteve comigo, quando foi a minha vez de falar.

Para quem conheceu a fama das características inimitáveis de Kaúlza de Arriaga, impressionou-me bastante que tivesse ouvido sem um comentário toda a exposição e que, no fim, pelas perguntas que fez, também tivesse entendido tudo que tinha sido dito.

Desde esse dia Moçambique ficou ligada a Lisboa a partir de Nampula para tráfego radiotelefónico e radiotelegráfico.

A partir de Nampula ainda se podiam estender as chamadas a quase qualquer ponto de Moçambique de onde houvesse ligação ao Vietname do Cruz Fernandes, através da integração rádio-fio de que já me ocupei anteriormente.

Montado o cabo auto-suportado, este passou para o STM, inserindo-se nas Transmissões Permanentes.

7. Frentes de Operações

Operação Tete.

Entre as operações mais volumosas, ocorridas durante o tempo em que permaneci na Província de Moçambique, destaco duas, ambas na região de Tete.

A primeira foi desencadeada quando, com a dispersão dos guerrilheiros provocada pelo Nó Górdio, Samora Machel conseguiu convencer os Macondes a deslocarem-se de Cabo Delgado para outras frentes. Isso deu origem ao atravessamento do Malawi e à sua entrada em Tete.

A operação que se lhe opôs cobriu, entre outras, as áreas de Chipera, Chipeda e Chicoa, na bacia carbonífera de Cahora Bassa, hoje sob o lago com o mesmo nome formado pelo aproveitamento hidroeléctrico do Rio Zambeze.

O Vietname do Cruz Fernandes foi inaugurado, ainda de uma forma incipiente, com esta operação e permitiu provar a qualidade do local escolhido. No início, tropas do COFI ainda tentaram ligações a partir do Comando do COFI em Nampula, mas logo se reconheceu que não era preciso. Nós servíamos a todos com economia de meios de forma eficaz.

Nesta operação deslocaram-se para Chicoa, como oficiais do escalão avançado da Companhia de Transmissões do Comando, o capitão Veríssimo da Cruz e o alferes Santana. Tivemos uma baixa de transmissões nesta operação, uma praça.

Operação Carga Críticas    

Nos finais do ano de 1972, princípio de 1973, foi montada, no maior secretismo, a operação “cargas críticas”.

Uma parte do COFI foi deslocada para a Beira. Para que o segredo não se espalhasse, eu mesmo fui encarregado de fazer o estudo dos meios e deslocar-me à Beira para montar aí um pequeno Centro para servir o comando formado para o efeito e um posto a bordo de um vagão que se destinava a acompanhar as Cargas Críticas.

A operação foi montada debaixo de um sigilo absoluto e foi determinado o silêncio rádio rigoroso, salvo se houvesse um ataque. Mesmo neste caso a comunicação não seria feita em claro.

As cargas críticas foram disfarçadas num vagão do caminho-de-ferro, juntamente com outros similares. A bordo ia um posto rádio guarnecido e em silêncio, que daria conta apenas se houvesse, não podendo relatar qualquer outro facto. O conjunto tinha de atravessar pontos críticos, o principal era a ponte de Mutarara, sobre o Zambeze, guardada por forças especiais com alguma antecedência. A bordo ia também uma força de reacção rápida.

Cargas Críticas eram Transformadores, Válvulas de Segurança, Turbinas e Grupos Geradores. Uma carga destas que se perdesse atrasaria a linha de montagem de pelos menos dois anos, porque estas peças são feitas por encomenda e caso a caso. Não as há em stock.

Foi chefe do COFI avançado para esta operação o Coronel Craveiro Lopes.

Enquanto estive ligado à operação não aconteceu nenhum incidente com os guerrilheiros, mas houve um incidente grave.

Ataque à Messe de Oficiais da Beira

Foi justamente quando me encontrava na Beira, em cumprimento desta missão, que a messe de oficiais foi assediada por civis, o que levou dois oficiais, no limite da tolerância que era possível a reagirem com vigor para suster o que estava na iminência de ser um assalto.

Esses oficiais, o capitão Luciano Garcia Lopes, de Infantaria, natural dos Açores e meu camarada na AM (à data comando), e eu próprio, estavam simplesmente armados de varais tirados dos vasos que suportavam as plantas no interior da Messe. Levámos connosco uma minúscula força militar de uma secção que aí se encontrava com o seu graduado. Combinada a sortida, depois de nos assegurarmos que apenas haveria tiros para o ar, arremetemos sobre a turbamulta em direcção ao mar, desancando tudo que se apresentasse à nossa frente. Apanhados de surpresa os valentões correram por tudo que era lado, deixando no local os carros, que só vieram buscar no dia seguinte.

Pela minha parte assentei umas ripadas num PIDE que me tinham indicado no meio da malta e mais uns quantos machambeiros. Algumas capotas de carro tiveram os seus danos também.

Quando chegámos à borda de água estava só com dois valentes soldados atrás de mim. A malta, que antes tinha crescido contra nós, maltratado o governador (que foi preciso ir buscar ao meio da rua para dentro da Messe), apedrejado e partido os vidros da Messe (Bar de Oficiais), ter posto todas as crianças e senhoras a gritar de medo no andar de cima para onde foram levadas, ter-nos chamado todos os nomes que havia, estes valentões estavam todos a mais de 100 metros de nós, de onde continuavam ainda de forma mais atenuada a dirigir-nos chufas.

Virei-me e não vi o Luciano. Com o pessoal que me seguia busquei-o e fui encontrá-lo dentro de uma cova de um pilar de uma construção começada, mas incapaz de se guindar e subir só por si. Tinha uma clavícula partida em resultado do que ele pensa ter sido um calhau que lhe arremessaram. Seguiu dali para Lisboa.

Passado o perigo, todos lamentaram o governador civil (qualquer coisa como Telo ou Melo), ter ido lá, quando os machambeiros picados pela PIDE exigiram a sua presença. Quase foi linchado pelos machambeiros que o rodearam e acotovelaram na rua em frente à Messe. Exigiam que o governador lhes dissesse o que estavam ali a afazer tantos madraços que deviam estar a combater lá na linha da frente e não a passar férias.

Eles que tinham de suportar uma guerra que era da Metrópole e com a qual não tinham nada, já estavam a perder a sua sagrada segurança de que havia décadas desfrutavam, pois que até já tinha havido um assassinato ali em Vila Peri, a Sintra da Beira, coisa que a gente de bem lá do sítio não estava disposta a tolerar.

De nada tinha servido um alferes, à porta da Messe, preso de emoção, quando lhe perguntaram da rua o que é que, ele, um gajo novo, estava ali a fazer e, ele respondeu que vinha embarcar a urna de um colega morto em combate.

Destacou-se no fim, já com tudo em ordem, um tenente-coronel de Administração Militar, que atingiu o posto de general, e cujo nome não me recordo, tomou a iniciativa de fazer um relatório do que se passou. Penso que foi esse documento ou cópia dele que mais tarde chegou ao conhecimento do MFA.

Pela minha parte fiz o mesmo mas, com o regresso precipitado, este como outros documentos perderam-se.

8. Companhia de Instrução (CI)

A escassez de tropas idas da metrópole e a existência de bastante juventude local, branca, indiana e africana levou os comandos superiores a recorrer a incorporações da Província em escala considerável.

Foi portanto tornado urgente pôr a Companhia de Instrução a Funcionar.

Nomeado comandante da CI, em acumulação com as funções que já tinha, logo em 1970, dei início aos trabalhos para a instalação e funcionamento da CI.

Fig9 - CI - Exercícios

Fig9 – CI – Exercícios

A Companhia de Transmissões tinha duas salas reservadas no pavilhão da esquerda da Porta de Armas, entre a Casa da Guarda e a Secção Técnica.

Não tinha equipamentos. Umas mesitas e umas fichas no chão provaram ser inadequadas, além de estarem já todas partidas e cheias de lixo.

A CI tinha como missão preparar pessoal telefonista, radiotelefonista e radiotelegrafista, além da segurança das transmissões.

Apetrechamento das Salas

Para conseguir boa preparação e aproveitamento foram desenhados quatro módulos de seis lugares cada um, separados por tabiques e tendo cada um chave de morse, auscultadores e telefone (*). Estes módulos, incluindo cadeiras ergonómicas, foram idealizados por mim, desenhados pela Secção Técnica e executados na Engenharia.

Foi desenhado e construído por mim e por um sargento (Graça?) um equipamento de instrutor que consistia num rádio receptor, num gerador de sinais e num misturador que combinados permitiam simular todas as situações passíveis de serem encontrados nas mais diversas situações operacionais. Sinais fracos, sinais sobrepostos, interferências, morse e voz misturados, ruídos sobre sinais fracos, etc. O aparelho permitia receber e/ou gerar e misturar todas as combinações possíveis. A saída deste equipamento estava ligada a todas as posições de operador e permitia que o instrutor fizesse mais da uma rede de cada vez, escutasse ou interviesse em redes em funcionamento.

Fig10 - CI - Exercícios

Fig10 – CI – Exercícios

Além disso no lugar do instrutor foi instalada uma central telefónica, semiautomática que permitia fazer redes telefónicas e radiotelefónicas com as extensões que terminavam na posição dos operadores. Isto permitia ao instrutor fazer e controlar as redes à vista, corrigir exploração incorrecta e envolver todos em tudo o que se passava na aula. Ou fazer redes privadas entre as posições e pô-las a praticar morse, sem que isso interferisse com a aula. O instrutor tinha acesso a todas as redes e podia monitorar o que em cada uma se estava a passar. Este sistema revelou-se de uma eficiência inusitada. A ponto de ser preciso autorizar os alunos a irem para a as salas treinar à noite a seu pedido.

Exercícios de Campo

No final de cada instrução sempre se desenvolveram exercícios de campo para os lados do Rio Monapo. Aproveitava-se o ensejo para fazer confraternização com os naturais, situação que os régulos tomavam como uma notável distinção que cunhava o nosso reconhecimento da sua autoridade perante o seu povo.

Chegou a haver torneio de futebol com taça e tudo. Aliás, ganha por eles e, diga-se, com muito mérito porque, jogando eles descalços e os militares calçados, queixavam-se mais estes do que eles.

No ano seguinte guarneceu-se uma segunda aula no mesmo estilo e com os mesmos meios que a primeira.

Nos anos 71 a 73 ainda ganhava a convicção de continuidade e de utilidade da nossa missão em Moçambique.

(*) O projecto do sistema instalado extraviou-se-me já depois de regressado de Moçambique. Emprestei-o a alguém que mo não devolveu.

Rômbicas – ensaios

Foi por essa altura que se ensaiaram equipamentos de transmissões, idos da Africa do Sul e até da Rodésia. Entre esses destaco uma antena rômbica que radiava verticalmente na banda dos 3 aos 30Mc/s, apresentava um ganho de alguns db e tinha a particularidade de não ter zona de silêncio, o que a tornava muito adequada para emprego pelotão-companhia no mato.

E portanto adequada para uma Companhia de Instrução de Transmissões, de onde se esperava saíssem com o tempo todas as praças de transmissões.

Pesava apenas 4 kg, embalada media pouco mais de 60cm e montada media pouco mais de 4x4metros por três de altura.

Em teoria, esta antena radiava verticalmente em ondas toroidais, que se reflectiam a partir a vertical do lugar e, portanto, atingiam o solo sem zona de silêncio.

Durante as experiências pude verificar que o alcance era regulado variando a distância da rômbica ao solo, o que se conseguia por meios de 4 espias verticais que guarneciam os quatro pequenos mastros. Quanto mais próximo do solo mais o ângulo de ataque se afastava da vertical e maior era o alcance da antena, dentro dos seus limites de operação.

Toda esta actividade concorria com a ideia que ganhava força de criar quadros provinciais que suprissem as necessidades de especialistas de transmissões idos da metrópole. Daí também a ênfase colocada na Instrução e na preparação de meios adequados para garantir uma tropa eficaz e operativa.

O “on job training” que nos anos 85-87 foi a coqueluche da instrução de transmissões em Portugal (nomeadamente na segunda parte da preparação que se dava no RTm/Lisboa aos operadores de Tm), foi aí, nas aulas do BTm2 de Nampula, que teve a sua génese.

9. O Batalhão de Transmissões de Nampula

Numa avaliação a trinta anos de vista não é fácil reproduzir com exactidão a área desta unidade de Transmissões, mas avalio-a em cerca de oito campos de futebol, ou 8 ha.

O BTm2 era o último de uma correnteza de unidades a caminho do vale.

Começando de cima encontrava-se, ainda na plataforma, o Hospital. Depois a Engenharia, seguindo-se a CRMMTm e, finalmente, o BTm2. Estava situado no declive suave do terreno, em solo vermelho de granito alterado, com uma componente férrea acentuada e facilmente erodível. Estando situado num declive, os terraplenos foram feitos em vários patamares.

Fig11 - BTm2 - Casernas da CTm e STM

Fig11 – BTm2 – Casernas da CTm e STM

Começando pela Porta de Armas, que faceava com o alinhamento geral dos quartéis, tinha-se à direita uma plataforma elevada, na qual se situava o Edifício do Comando, o CA e a Sala de Oficiais.

À Porta de Armas, e ao mesmo nível, seguia-se uma plataforma que tinha à esquerda a Casa da Guarda, a Companhia de Instrução e a Secção Técnica.

A esta plataforma seguia-se uma rampa que dava para a Parada Principal, um espaço aberto de grandes dimensões que tinha ao fundo e em frente, cruzada como sentido da progressão, o Refeitório, as Cozinhas e as Instalações do Vagomestre.

À direita da entrada na Parada Principal, faceando com o Refeitório encontrava-se a Caserna da CCS e o Gabinete do Oficial de Serviço.

À esquerda e no alinhamento da progressão da Secção Técnica, a Companhia de Transmissões e a do STM. Separado por um intervalo considerável, mas alinhado com o CTm e o STM, situava-se o Centro Receptor. Para trás deste edifício situava-se o campo de antenas do Centro Receptor. As oficinas auto eram a céu-aberto, nas traseiras do STM.

Foi no Centro Receptor que foram testados os cristais do AN/GRC -9 e feitas as escutas de varrimento de frequências.

10. Serviço de Telecomunicações Militares – STM

Desenvolvimento do STM

O STM foi quase sempre comandado por outros oficiais, nomeadamente pelo capitão Figueira e, depois, com o seu regresso a Lisboa, pelo capitão Bastos Moreira.

É por isso possível que, num aspecto ou noutro, estes oficiais tenham coisas a acrescentar, que eu desconheço.

Porém, na minha segunda comissão passei para o Comando das Transmissões e procedi a muitos trabalhos, alguns dos quais se destinavam ao STM. Falarei disso depois.

Com o Centro Emissor ligado ao QG/RMM, pelo Cabo auto-suportado e com a pequena distância entre o QG e o Centro Receptor ligado por um cabo de menor capacidade, mas que foi suficiente nos primeiros tempos, iniciaram-se as comunicações a longa distância a partir de Nampula.

O número de circuitos ponto-a-ponto cobertos pelo STM começou a aumentar, um pouco à imagem do que se tinha passado na Metrópole.

Principais ligações depois da montagem do cabo auto-suportado

Nampula – Lisboa

Nampula – Lourenço Marques

Nampula – Beira

Nampula – Mueda

Nampula – Tete

Nampula – Vila Cabral

Estas ligações estavam a funcionar já no fim de 1970, princípio de 1971.

As antenas de recepção eram essencialmente cortinas “lasy” de grande altura e extensão, situadas no Campo de Antenas, anexo ao Centro Receptor, dentro de BTm2.

Em Nampula, o STM dispunha, além do Campo de Antenas do Centro Receptor, o Campo de Antenas do Centro Emissor, a 11 km da cidade, junto à Represa do Rio Monapo que abastecia a cidade de água.

Além das Transmissões, outras forças, como a Engenharia, dispunham de redes próprias de comando e logística.

O Centro Emissor (edifício) já existia quando chegámos. Faltava instalar as antenas e fazer a ligação entre o Centro Emissor e o Centro Receptor.

As antenas de emissão eram logarítmicas periódicas verticais e horizontais, orientadas segundo as ortodrómicas que, partindo de Nampula, passavam por Lisboa, Lourenço Marques, Beira/Tete.

No QG/RMM, o STM tinha a sua própria estação, onde funcionava o CMsg, a Central Telefónica e a Central Telegráfica.

A CHERET funcionava à parte.

No QG/RMM funcionava também o comando das Transmissões o qual, com a chegada do coronel Fernandes Basto, passou a exigir o despacho de STM consigo.

Nesta altura, fins de 1972, chegou para comandar o BTm2 o ten-coronel Pinto Correia, passando o capitão bastos Moreira a ter despacho com o Cmdt das Transmissões e com o Cmdt do Batalhão, situação de que repetidamente se queixava aquele oficial.

É nesta altura que, sendo decidido o lançamento de um cabo de grande capacidade entre o Centro Receptor e o QG/RMM e declarando-se o capitão Bastos Moreira impreparado para isso, o Comando mais uma vez me encarregou de fazer o trabalho, argumentando-se então que o único com preparação para construir “terras de serviço” muito exigentes era eu. Como de costume, o trabalho foi executado em sobreposição dos afazeres que eu e o meu pessoal tínhamos atribuídos e com a costumada falta de meios. O cabo foi lançado sem grandes obstáculos.

De facto, a “recepção” andava fraca devido ao elevado nível de ruído parasita (capacitivo), de que não conseguiam libertar-se. Quanto à terra de serviço, também se teve de recorrer ao improviso, porque o sistema de estacas, que era o consagrado na altura, não funcionava devido à rapidez com que o terreno perdia a humidade e se tornava isolante.

A construção da terra exigia uma grande superfície de contacto com o solo, humidade garantida, um sistema de soldadura que não gerasse correntes nem aumentasse a resistência ohmica e um terminal de terra acessível e com materiais não oxidantes e bons condutores. Para o efeito servi-me de quatro radiadores enterrados a três metros de fundo, dispostos em X, ligados entre si por um cabo de cobre de 30mm2 de secção. Partindo do centro da ligação um cabo da mesma secção ligava o conjunto à superfície e constituía o terminal de terra.

Com os radiadores foi montado um sistema de tubagens que permitia rega periódica. Um linguete amovível permitia a medição periódica da terra de serviço. Este trabalho acabou com os ruídos parasitas. Aresistência de terra obtida foi inferior a meio ohm na pior estação e o ruído de recepção desapareceu. Isto permitiu elevar o nível do sinal na recepção para o fazer chegar aos operadores de rádio do Centro Receptor ou até ao QG/RMM.

Desenvolvimento do STM

Para os fins de 1970 já havia ligações do STM seguintes, a partir do Centro Receptor de Nampula:

Nampula – Porto Amélia

Nampula – Marrupa

Nampula – Mueda

Nampula – Mocuba

Nampula – Nacala

Nampula – Montepuez

Como se vê, a maior densidade de redes situava-se nos distritos do Norte, por ser aí que as acções de “libertação” se desencadearam.

Equipamentos do STM e serviços mais comuns

Serviços:

  • Radiotelefonia e radiotelegrafia

Materiais:

  • Mastros triangulares, de secções de 3 m de comprimento, montados topo-a-topo com base de betão e espiados segundo as direcções das diagonais da secção recta dos mastros. As alturas dos mastros variavam entre 45 e 60 metros, com sinalização e terras.
  • Antenas YAGUI, de 11 db de ganho, alimentadas por cabo coaxial RG-218/U, com terminais de feixes de cinco 5, duas e uma via.
  • Comutadores telefónicos (centrais) BC/BL de (20+5) e (30+10), sendo 20 e 30 as extensões e 5 e 10 as linhas de rede (estas para os feixes e para a rede pública local).
  • Redes de unidade, de cabo telefónico aéreo (PET -10 pares) ou mais.
  • Telefones BC, em número variável, conforme a unidade.
  • Central telegráfica, ou teleimpressor SAGEM
  • Rádios: TRT, Marconi ou Standard.

Com o tempo e com o amortecimento das operações de grande escala, a actividade da companhia de Transmissões foi desviada pelo comando para outras áreas. Refiro-me concretamente à “OPERAÇÃO FRONTEIRA”, para a qual havia uma grande esperança de Kaúlza de Arriaga que se deslocou a Lisboa com o estudo da OPERAÇÃO FRONTEIRA, para convencer o poder político a garantir-lhe os meios adequados para a pôr em funcionamento, mas foi mal sucedido.

É nessa fase que se reforça e se desenvolve toda a montagem da técnica da Companhia de Instrução, se alargaram as funções da Secção Técnica, isto dentro de BTm2.

11. Comando das Transmissões

Por seu lado o coronel Basto, com quem já tinha trabalhado algum tempo na Metrópole, chamou-me ao Comando das Transmissões e deu-me o encargo de projectar redes telefónicas internas de unidades, maioritariamente enterradas.

Assim, comecei a percorrer várias unidades para avaliar os meios necessários e proceder ao planeamento e a projectos de cariz moderno, com introdução de centrais automáticas e semi-automáticas, ligação à rede pública local e ao STM a Nampula.

Era para operar estes meios que, aliás, já vinha a preparar as praças de transmissões na CI do BTm2.

Foram feitos por mim projectos de redes internas de unidades para Tete, Mueda, Montepuez, Marrupa, Vila Cabral e Porto Amélia, além da de Nampula, onde existiam vários órgãos militares, não só na zona dos quartéis como na civil.

Com excepção e Mueda e Tete e talvez Marrupa, poucas chegariam a ser feitas. Em Nampula todos os estabelecimentos militares chegaram a estar ligados pela rede militar e muitos dos oficiais vivendo em casas civis tinham rede militar em casa.

Operações avulsas

As Transmissões em Moçambique eram pau para toda a colher e o coronel Fernandes Basto foi-se apoderando das actividades dos oficiais de Transmissões a pouco e pouco.

No que me diz respeito, quando chegou a segunda leva de oficiais, Campos Soares e Gardete, o coronel Basto solicitou e obteve a passagem do comando da CTm para um destes oficiais, o da CI para outro e a minha passagem para o Comando das Transmissões/QG. Foi aí que foi projectada a maioria das redes internas de transmissões de unidades a que já me referi e a partir de onde tomei parte ou dirigi outros trabalhos.

APSIC

Desenvolveu-se um projecto pedido pela APSIC, que consistia em estudar uma instalação sonora, a montar a bordo de um helicóptero ou de um avião, que sobrevoasse locais onde existia ou supunha existir população concentrada, para se lhe debitar lá de cima informações e palavras de ordem convenientes para os nossos propósitos.

Para um trabalho destes era preciso, além do estudo teórico, dispor da fonte sonora, da fonte de alimentação e de fazer ensaios.

Os ensaios eram precisos porque se sabia que a mensagem só teria utilidade se o nível com que chegasse às populações não fosse abafado pelo ruído da aeronave que transportava a fonte sonora. Além disso o meio aéreo, para ser eficaz, teria de ser lento e fazer mais do que uma passagem, o que poderia expor a nave e operadores a grave risco.

Estes e outros considerandos que expus num relatório prévio que apresentei, não tiveram peso para deter que o estudo e o ensaio fossem mandados prosseguir.

Feito o estudo, prosseguiram os ensaios no aeroporto de Nampula, assessorado por um técnico da FAP, por um piloto e por um helicóptero.

A fonte sonora foi uma corneta da UNIVERSITY, de elevado ganho, de 1800Watts de potência sonora de saída, trabalhando a 12 Volt DC. Isto levou à determinação da carga (peso) de baterias a transportar a bordo para um determinado tempo de operação sem interrupção.

Para confirmação experimental dos cálculos a que cheguei, procedeu-se a ensaios que tiveram lugar no próprio aeroporto.

O equipamento, como não havia ainda condições de o montar a bordo de uma aeronave, foi colocado no cimo da construção mais alta do aeroporto. Com ele a trabalhar na máxima potência (a transmitir um texto), verifiquei até onde, no solo, o som chegava perceptível. Depois mandei colocar um helicóptero em funcionamento uns metros acima da instalação e reverifiquei os resultados.

Os resultados confirmaram os cálculos e, entrando em consideração com a necessidade de introduzir alterações na aeronave para instalação da alimentação e fixação no exterior de fonte sonora, a APSIC viu abortada a sua pretensão.

Instalação de antenas de Homing (*) em meios aéreos

Os heli, penso que Allouettes, permitiam aos pilotos fazer homing. Homing é a operação de radiolocalização inversa. Faz-se homing escutando uma estação que sabemos onde fica e fazemos o aparelho caminhar na sua direcção.

Certo fim-de-semana, uma das muitas vezes que o fazia, o coronel Basto telefonou-me para casa e, apesar de ser domingo, “propôs-me” que às duas da tarde estivesse no aeroporto de Nampula e que levasse uma muda de roupa.

Seguimos para Mueda, que na altura já tinha uma certa má fama.

Aí, durante um briefing, foi-me “pedido” que explicasse como funcionava essa coisa do homing. Com o tempo fiquei a pensar que era para isso mesmo que o coronel Basto me tinha levado, mesmo sem mo dizer.

A explicação convenceu os comandos presentes e ficou assente que eu iria montar as antenas (no caso antenas Adkock) e explicar ao piloto como operar o equipamento para fazer o homing. Faço notar que a aeronave já tinha radiogoniómetros.

Da equipa de furriéis que pilotavam helicópteros, um era filho do general Neto e outro sobrinho do general Costa Gomes, personagens que dispensam mais referências. Já não sei qual deles saiu comigo. Mas quando, já no ar, lhe disse para traçar uma rota e se afastar para, no regresso, poder dar-lhe as instruções que precisava, calou-se e sobrevoou apenas a área do quartel.

Interrogado por que o fazia, respondeu: capitão, a teoria é lá em baixo. Aqui tudo é real, tanto a vida como a morte. Se me afastar como pretende é a morte que nos espera. Daqui só se sai pelo vale de Miteda, onde é possível anular a eficácia do tiro do IN.

Então os equipamentos podem nunca lhe chegarem a ser úteis, disse-lhe eu. Não sei se chegaram a ser úteis mas, daquela vez, não nos afastamos do perímetro do quartel.

O coronel Basto regressou a Nampula. Eu continuei o trabalho.

À noite fiquei a saber que à volta do Campo estava tudo artilhado e minado e que o furriel não actuou por medo mas por segurança, em cumprimento de normas de execução permanente dos pilotos.

Naquela noite de Mueda toda a gente esperava um ataque. Os mais treinados passavam a noite no bar, prontos para qualquer eventualidade, ou arrastavam as camas para os ângulos mais resistentes das paredes, protegendo-se do lado de onde era suposto ser atacado.

Na noite do meu regresso a Nampula, Mueda foi atacada.

(*) Homing – Palavra inglesa que significa “ir para casa”.

“OPERAÇÃO FRONTEIRA”

A operação Fronteira foi principalmente um Plano de Telecomunicações, Radiodifusão e Televisão. Já me referi a este projecto quando falei do capitão Figueira o do major Garrido Baptista. Este trabalho ocupou muito do nosso tempo durante a primeira comissão em Moçambique.

Tratava-se de um Trabalho, pedido pelo próprio Comandante-Chefe às Transmissões e destinava-se à recuperação das populações de toda a área que Kaúlza pensava que tinha sido ganha com o “Nó Górdio”, sendo apenas preciso, no seu entender, mantê-la sob controlo e trazê-la mais para o lado das nossas pretensões.

Kaúlza queria vir a Lisboa apresentar a sua teoria, mas não queria chegar aos centros de decisão de mãos a abanar.

Nesta fase da OPERAÇÃO FRONTEIRA, ele queria abarcar NANGADE-PUNDANHAR-TARTIBO-NHICA-PALMA-MOCIMBOA DA PRAIA-DIACA E MUEDA.O Projecto foi desenvolvido no Comando, sob a orientação do major Garrido Baptista, mas com forte contributo do Figueira e, em menor grau, meu também. Na sua vinda a Lisboa Kaúlza não se saiu bem e o projecto OPERAÇÃO FRONTEIRA não arrancou mais, apesar de estar em estado de poder avançar. Constituiu no entanto um projecto importante de capacidade de afirmação e de realização das transmissões em Moçambique.

12. Contribuição para o desenvolvimento fora do meio militar.

Muitos foram os oficiais que desempenharam funções no meio civil em Moçambique.

Escola Técnica Neutel de Abreu

A maioria dos da minha geração e de gerações mais jovens desempenharam funções, principalmente na Escola Técnica Neutel de Abreu de Nampula. Esta escola tinha um regime de funcionamento diário, que se iniciava às 07h30 da manhã e só terminava às 11h30 de noite, sem interrupção.

Pela minha parte também aí leccionei Electricidade (teoria e prática) durante quatro períodos, chegando a ser convidado para Vice-Reitor, função incompatível com a minha condição militar. Mas, pela parte que me cabe acabei por ser envolvido noutras funções, fora da Escola.

Câmara Municipal de António Enes

Tinha chegado havia poucas semanas e fui procurado na unidade por um civil, que vim a saber mais tarde tratar-se de Alfaro Cardoso, Administrador de António Enes (Angoche), que me convidou para lhe assegurar a consultoria da Câmara para pelouro da electricidade.

Tentei explicar-lhe que o meio militar não funcionava com essa facilidade e que, por maior que fosse o meu desejo e preparação para assumir o cargo e fácil compatibilizar isso com as minhas funções militares, tal aceitação dependia ainda de dois escalões: do Comando da minha unidade e do Comando da RMM. O meu interlocutor não se convenceu e, em resposta, informou-me ser cunhado do CEM do QG/RMM, que mais tarde veio a ser o general Menezes (açoriano), e que o assunto por essa parte já estava tratado. O meu comandante, através do major Garrido Baptista, já o sabia também. Bastava eu aceitar e concretizar isso com um requerimento apenas para formalizar o assunto. De facto assim era.

Em António Enes sou autor do Projecto de Iluminação do Museu das Conchas, da Central de Geração de Energia e do estudo das Tarifas de Electricidade.

Havendo geração autónoma e consumo próprio da autarquia (bombagem da água de consumo, iluminação pública e consumos dos órgãos autárquicos), a determinação das tarifas era uma operação trabalhosa e complexa. Isto, é claro, para além da consultoria e da fiscalização das obras de electricidade de que a Câmara era dona.

Fiscalização de Obras Públicas

Um pouco mais tarde, o Director Provincial das Obras Públicas, convidou-me, penso que indicado pelo Prof. Eng.º Telles, sócio fundador da Sociedade Técnica de Obras e Projectos (STOP), para fiscal das obras públicas (electricidade) do Distrito de Moçambique, entre as quais teve especial relevo o Complexo Prisional do Norte, situado em Nampula.

Peritagens para o Tribunal

A certa altura deu-se um incêndio numa garagem de oficinas de reparação automóvel em Nampula, questão que foi resolvida no litigioso. Porém, o tribunal ficou manietado por contradições insanáveis entre testemunhas das partes, o que o levou a requerer peritagens.

Nomeado chefe de equipa, de que também fazia parte o alferes Mendes, colega no IST e na altura a cumprir serviço militar em Transmissões, postulamos determinadas hipóteses que a verificarem-se determinariam a inequívoca responsabilidade de apenas uma das partes.

Feitos os ensaios e entregue a peritagem técnica no Tribunal, esta foi posteriormente explicada em sessão pública e claramente definida a responsabilidade das oficinas. Isto levou o tribunal a requisitar-me em permanência como perito para litígios que envolvessem conhecimentos especiais no domínio da electricidade.

Acabei por ser consultado ainda algumas vezes mais.

Gestão em engenharia electrotécnica – STOP

Em António Enes desempenhei, em nome da Câmara, funções de fiscalização de obras de electricidade ganhas pela firma STOP, a que já me referi.

Durante a execução da obra tive contactos com o Prof. Eng.º Telles, o qual, no fim me convidou para lhe fazer a fiscalização de vários trabalhos que a STOP tinha no Norte, fora da jurisdição de António Enes. Havia incompatibilidade, nomeadamente se a STOP vencesse outros trabalhos dependentes da Câmara de António Enes.

Posto o problema ao Administrador, este fez questão que eu aceitasse porque, segundo ele, até via vantagens nisso. Sendo por ele já conhecidas as exigências que tinha feito em trabalhos anteriores, esse padrão não se ia alterar por passar a haver essa relação.

Mesmo assim, fiz que fosse aceite que, se a STOP ganhasse mais obras em António Enes, elas teriam uma fiscalização escolhida pela Câmara e paga pela STOP, ficando eu livre para fazer a refiscalização por parte da Câmara.

Frente Norte

Posteriormente a empresa abriu uma frente de trabalho no Norte, com sede em Nampula e tornou-se em breve a empresa mais forte no ramo de obras de electricidade em Moçambique, passando em pouco mais de ano e meio de 3.000 para 54.000 contos de obras em carteira.

A STOP entregou-me a responsabilidade máxima a seguir ao Eng.º Telles por essa frente.

Automação

A STOP era a primeira empresa de Moçambique em automação.

Fábricas de descasque de algodão, como a da Companhia de Algodão de Moçambique (CAM) e a do Monapo, as empresas de Sisal, como as da João Ferreira dos Santos (J.F.S.) ou de descasque de caju, como a Antenes, que são unidades completamente automatizadas, foram projectadas e montadas, do ponto de vista do comando e controle, pela STOP. Além do projecto, da montagem e do arranque, a STOP assegurava o regular funcionamento destas unidades.

Nesta empresa enriqueci a minha vida profissional em áreas que nunca poderia ter feito no Exército. Também lhe levei métodos de rigor e de brio profissional que foram absorvidos por todos os que dependiam da minha orientação.

Os meus melhores alunos da Escola Neutel de Abreu tiveram na STOP o seu primeiro emprego e aí se fizeram profissionais briosos e competentes.

Militar que passasse à disponibilidade na “Província” e se tivesse distinguido no serviço pela competência e pelo aprumo, também podia ter aí uma colocação. O furriel Abel Pereira Delgado, meu braço direito nas ligações do cabo auto-suportado, o qual tinha ido dos Correios de Portugal para a tropa, foi um deles. Já na disponibilidade, tomou partido pelos revoltosos do 7 de Setembro de 1974 que tomaram de assalto o Centro Emissor de Radiodifusão de Nampula e que eu silenciei numa operação relâmpago, cortando-lhe a energia no Posto de transformação de BT, de onde se alimentava.

Beneficiei de conhecer a rede eléctrica de Nampula, desde quando fiz trabalhos de passagem de cabos ao longo da cidade e ter de memória de onde eram alimentados os órgãos principais da cidade.

Já em plena Campanha de Dinamização apareceram-me, em Castro Daire, o Pereira Delgado e o Silva, que queriam entrar para a manutenção eléctrica da Refinaria de Sines, mas não tinham quem os abonasse.

Desloquei-me com eles ao local, fiz as minhas recomendações por escrito e verbais, declarando que a empresa só teria vantagens em admiti-los. Desde esse dia até ao fim das suas carreiras nunca mais nenhum deles mudou de empresa. Até passaram a viver na cidade de Santo André. O Silva era um profissional de alto gabarito, que já encontrei na STOP.

Outro profissional que fez parte da sua carreira na STOP foi o primeiro-sargento Pires. Este homem, sendo meu sargento, quis sair da tropa para ir para DETA, a ganhar 7 000 escudos mensais.

Convenci-o a meter licença ilimitada, em vez de sair, e a ir para a STOP em vez da DETA, oferecendo-lhe 11 000 escudos mensais, devido à sua qualidade profissional. Aceitou e, depois de o seu trabalho ter sido apreciado pelo Eng.º Telles, foi movimentado para Lourenço Marques, a ganhar 14 000 escudos.

O sargento Pires retornou ao serviço e veio a falecer como Ajudante, em Lisboa, ao serviço da Academia Militar, quando era comandante o senhor general Pereira Pinto. A sua morte deu origem a um drama familiar, que felizmente o Comandante da Academia resolveu sem grandes sequelas. A família vivia em casa militar e, com a morte do titular, perdia direito a ela. A esposa foi admitida como funcionária da Academia, de modo a passar para ela a titularidade por morte do marido, salvando a família do despejo.

Profissão livre

Com idade de trinta e poucos anos, o ritmo de trabalho e a capacidade de resistência estão no seu auge. Por isso ainda me sobrava tempo para exercer profissão livre. Depois que o meu nome foi conhecido na praça, a dificuldade estava em responder a todas as solicitações.

Uma dessas solicitações foi o projecto de electricidade do Complexo Habitacional e Desportivo da Juventude de Nampula, que não chegou a ser construído, embora o fossem os projectos.

Outro foi o do Mini-Golfe do Sporting Clube de Nampula.

Este foi um trabalho delicado em termos de luminotecnia, dado que o campo de golfe se destinava à exploração nocturna, situação em que os jogadores de uma dada estação têm de ver os buracos da estação que desejam atingir com iluminação suficiente, mas sem encandeamento.

Tudo neste trabalho teve de ser desenhado e ensaiado de raiz, porque o mercado não tinha luminárias nem postes adequados para o fim em vista.

Cerca de 24 anos depois da inauguração voltei a Moçambique para avaliar a possibilidade de Portugal participar no processo de paz, fornecendo as Transmissões que iriam ligar os diferentes órgãos de comando dispersos pelo país.

Em Nampula pude verificar que o Mini-Golfe do Sporting de Nampula é das poucas coisas que continua a funcionar.

 

Coronel Cruz Fernandes – Uma notável história de vida (1)

Cap. I – Infância, adolescência e início de carreira

Nasci numa aldeia da Serra Amarela, no coração do Parque Nacional da Peneda-Gerês (PNPG).

Serra Amarela (PNPG)

Serra Amarela (PNPG)

Em 1935, vésperas da Guerra civil Espanhola, a vida era precária e a fome grassava entre as famílias da minha aldeia, algumas vivendo do contrabando.

Com dois anos de idade, o meu pai emigrou para a América, de onde tinha vindo para casar com minha mãe. Meu irmão criou-se com a minha avó até aos sete anos. A minha mãe tinha de fazer face à vida de casa e à lavoura de subsistência e eu, desde que me lembro, ficava sozinho manhãs e tardes inteiras, perguntando à vizinhança que passava pela minha mãe, vizinhança que me dava uma explicação bondosa e prometia que ela vinha já.

Antes de ir para a escola aprendi a ler com uma senhora que sabia umas letras e me ensinou tudo que sabia, que pouco era.

Paradamonte, freguesia de Britelo (foto Google)

Paradamonte, freguesia de Britelo (foto Google)

A freguesia de Britelo tem três aldeias, distanciadas umas das outras de 6km, havendo então escola apenas no lugar da Igreja. Da minha aldeia, Paradamonte, para lá, o caminho fazia-se ou pelo meio de pinhais ou pela montanha, tendo, por qualquer deles, de atravessar dois ribeiros pelas poldras, o que tornava o percurso impraticável para crianças.

Porém, minha mãe, que tinha um desgosto profundo por não saber ler, prometeu a si própria que os seus filhos não ficariam sem escola. Pegou em não sei quantos cabritos e presenteou com eles o Sr. Américo – espécie de encarregado dos bens imóveis da empresa Electra del Lima – e pediu-lhe que, por favor, deixasse os seus filhos frequentarem a escola reservada aos filhos dos funcionários da empresa. Assim se introduziu uma exceção à regra e começámos a ir à escola.

Os anos iam passando sem que nenhum aluno fosse proposto a exame, coisa que não afectava muito nem os empregados nem os seus filhos, pois nunca me constou que alguém reclamasse. Mas um dia chegou Aurora Pires Soares, uma professora excepcional e tudo mudou. Em menos de um ano fez de mim o primeiro aluno saído daquela escola a fazer a 4ª classe, ficando-lhe para sempre grato, por ser a pessoa que mais me ensinou e a levou a ela a declarar, já reformada, que eu tinha sido o aluno que mais a marcou na sua carreira.

Adolescência

De muito novo sobrava-me tempo para tudo e, depois de aprender tudo que havia para aprender na lavoura, fiz a minha primeira espingarda e o meu primeiro banco, que ainda hoje existe. Depois dei comigo em pedreiro e com tanto sucesso que o Sr. Palhares, o capataz, me pôs logo a ganhar tanto como os homens adultos (29$00 por dia). Tomei parte numas teatradas de aldeia e quando dei por mim estava a namorar e em vias de as famílias de parte a parte comentarem que seria um belo destino para uma menina prendada como aquela que eu tinha escolhido.

Só que, ao mesmo tempo que aos olhos dos vizinhos eu ia ser um lavrador desembaraçado e de sucesso, ia-se criando dentro de mim uma nostalgia do mundo, do desconhecido e do imprevisto. Estava entre os meus 14 e os 15 anos e o meu pai tinha regressado havia três da América, sem que tivesse havido um rasgo que desenhasse um futuro para mim. Decidi por isso, pôr a descoberto a pressão que então me abafava, e pedi-lhes para termos uma conversa muito séria, na qual disse mais ou menos o seguinte: “ Meu pai, o senhor que andou pelo mundo, vai compreender o que vou dizer; a minha mãe, acho que nunca o compreenderá, mas estou decidido: Quero ir embora! Se me deixarem partir, eu escrevo, digo onde estou e podem mandar-me as vossas bênçãos nas cartas que me escreverem. Se não me deixarem partir, eu fujo e não digo onde estou, porque sou menor e sei que me podem ir buscar”.

Perante isto, a minha mãe chorou e o meu pai tomou outras medidas: Arranjou que eu fizesse a viagem para Lisboa com um vizinho que estava de férias e combinou com outros dois que “fizessem a favor de adiantar o que o rapaz precisasse, que ele se responsabilizava de imediato pelo pagamento”.

Parti para Lisboa, onde cheguei um dia e uma noite depois. Aqui peguei num jornal e li um anúncio pouco comum: A Exma. condessa de Farrobo, Rua da Escola Politécnica, n.º 47 R/C precisava de uma acompanhante, uma espécie de pagem para quando saía, como nas suas idas à missa, apresentar cartões de cumprimentos a Salazar e coisas assim.

E lá fui eu! Aí fiquei, mas a permanência foi de pouco mais de um mês, porque na casa havia um criado mais velho cujo comportamento não era o meu género.

Daí transferi-me para o aeroporto de Lisboa, onde aprendi a ser empregado de mesa, com carteira profissional e tudo.

Logo que assentei no meu emprego, comecei a fazer contas à vida, não só à económica como à cultural, frequentando como estudante trabalhador (o termo só mais tarde seria inventado), várias escolas e explicadores em Lisboa. Mas a minha idade não me permitia fazer exames até ser maior, altura em que podia propor-me a mim próprio.

Vida Militar

Quando chegou o momento de assentar praça, em 1956, no BT, encontrava-me apenas habilitado com a 4.ª classe.

A recruta foi dada no Casal de Pote, em Tancos, finda a qual regressei a Lisboa para tirar a especialidade de Centro de Mensagens, num período do ano em que começavam a decorrer os exames para a primeiro ciclo Liceal, aos quais concorri e fiquei aprovado com média de 17 valores.

Terminada a especialidade, regressámos a Tancos para um exercício com o BTm 3, sendo o chefe do CMsg e meu chefe imediato o então sargento David. Do Casal do Pote avançámos para Santa Margarida, indo acampar num pequeno pinhal em frente de onde hoje se situa a torre do SITEP.

Acabado o exercício, o “Glorioso” ficou de castigo, acampado em Santa Margarida até (penso eu) Novembro. Um dia chegou uma praça ao acampamento de perguntou por mim. Era portador de uma ordem que me fazia marchar para Lisboa, agora para frequentar o curso de sargentos milicianos, na especialidade de Centro de Mensagens, devido à mudança das minhas habilitações literárias.

De novo no BT, o curso correu às mil maravilhas, dando a minha classificação para escolher unidade, o que fiz, preferindo Lisboa. Fui parar a o Reg. Eng. N.º 1 – Campo Grande, sendo ao tempo a recruta na Pontinha. No Campo Grande foi-nos dada uma preparação primorosa para habilitação como monitores da próxima escola de recrutas. Destaco aqui e na Pontinha três oficiais: Capitães Pacheco (dois irmãos) e Alferes Maia e Costa. Na Pontinha passei belíssimos momentos de camaradagem e recebi conselhos avisados do Cap. Fernando Pacheco. Aí me apercebi que a vida militar era o último reduto onde se podiam afirmar valores pessoais e intrínsecos, sem trazer atrás a estirpe e o parentesco. Aqui cada um revelava-se como era sem subterfúgios e era avaliado pelo fazia e valia. A vida ensinou-me mais tarde que nem sempre é assim. Mas se a um jovem não o movem ideais, o que pode esperar deixar de lembrança da sua passagem pela vida?

Feitas as contas, e como não tinha esquecido de estudar, uma secção do 5.º ano do Liceu foi vencida no meio de toda esta atividade e ainda sobrou tempo para concorrer ao pentatlo militar do Governo Militar de Lisboa, onde fiquei em segundo lugar.

É na Pontinha que encontrei a mulher que veio a ser a mãe dos meus filhos e que ainda faz caminho a meu lado. E foi aí que decidi entre medicina e a carreira das armas. Seguir a carreira exigia, para a minha ambição, concorrer à Academia Militar e isso exigia por sua vez ser sargento do QP pelo menos há dois antes da entrada.

Acabada a recruta, feitos os exercícios finais (em Alcabideche), estava na hora de regressar ao BT e de aí iniciar uma nova fase: Tirar o curso de sargentos do QP e continuar os estudos liceais, o que fiz com a mesma boa disposição e tempo para tudo. Finalizei o 5.º ano do Liceu mais ou menos na mesma altura em que fui promovido a 2.º sargento de QP.

Imediatamente a seguir inscrevi-me no curso de Material e Segurança Cripto, dado pela CHECIE, entidade que ao tempo tinha uma conotação quase mítica e suscitava pensamentos de mistério. Terminado o curso que fiz com o Nunes (que terminou a carreira em Major), a minha classificação deu para ficar no próprio Serviço, onde permaneci enquanto acabava o 6.º e o 7.º anos liceais e concorria à Academia Militar (AM).

No meu ano de entrada, 1960, concorreram 930 candidatos à AM, dos quais, 29 eram sargentos do QP. No conjunto entraram 103, dos quais apenas um sargento, que fui eu.

Fig1 - Equipa da AM - Campeã Universitária 63-64

Fig1 – Equipa da AM – Campeã Universitária 63-64

E, assim, 4 anos depois de ter começado os meus exames para tirar os sete anos de Liceu, eu tinha concluído os meus estudos secundários e ganho o acesso ao curso superior que eu sempre quis.

A medicina tinha ficado pelo caminho porque na Academia eu podia estudar a tempo inteiro e em Medicina teria de ser em part-time, pois aí, tinha de fazer face à minha vida económica. Também, sempre me orientei para não precisar das garantias de financiamento que o meu pai me havia assegurado em Lisboa.

Apesar da forma ligeira como trato as dificuldades que passei, confesso que tive momentos difíceis na minha carreira de estudante, sendo o pior o segundo ano da AM, no qual, além das atividades escolares, tinha a conferência de S. Vicente de Paula, com três doentes distribuídas, uma das quais tão fora de mão como o Sanatório da Parede. Em cima de tudo isto, iniciava-me no Rugby da AM, batendo-me nos anos seguintes na equipa, conduzida pelo Rocha Vieira, que ganhou o campeonato universitário (1964).

Fig2 - Rugby - Em ação

Fig2 – Rugby – Em ação

Terminado o 2.º ano, na Amadora, deu-se a passagem para Gomes Freire, onde só se entrava com uma praxe em forma. A Academia Militar tinha sido criada recentemente, assim como os cursos de electrotecnia, havendo apenas um antes do meu. Dele faziam parte o Cunha Lima, o Figueira, o Saraiva Mendes, o Carvalho Gomes, o Frade, o Louro, o Cordeiro (Verde), o Cruzinha Soares, etc..

Nesse ano, os cadetes deste primeiro curso resolveram preparar uma espécie de cerimónia, onde se contavam peripécias da vida académica em versão teatral e se impunha aos “caloiros” a invenção do grito da Arma de Transmissões. Na distribuição do trabalho, a invenção do grito coube-me a mim, porque era o único que tinha passado pelas Transmissões e tinha umas luzes do que isso era. Conjecturando sobre o que tinha de fazer, pressentia que um grito, para funcionar, tinha de ser uma coisa simples e curta, para que saísse limpo, uníssono e possante. E passei ao ataque.

Fig3 - Praxe - Nasce o Grito da Arma

Fig3 – Praxe – Nasce o Grito da Arma

Pelos antecedentes que ficam descritos, eu levava já uma grande sensibilidade para a necessidade do segredo em transmissões e tinha a convicção de que, já que estávamos a fazer tudo de novo, porque não trazer o segredo e a CHECIE para a Nova Arma?

Daí saiu “O Segredo – Guardamos”

Sabia também, por já ter participado em manobras e exercícios, que as Transmissões avançam em primeiro escalão para estabelecer as pontes de Comando. Isto, aliado à ideia de terem as melhores tecnologias sempre subjacentes nos equipamentos com que lidavam. Dois elementos determinantes da ideia de vanguarda.

Daí saiu “Na Vanguarda – Avançamos”

Pouco mais de um ano antestinha-se dado o assombro do mundo ocidental, ao acordar uma manhã com o Pássaro Madrugador (Sputnik I), lançado pela Rússia, a fazer bip-bip sobre as suas cabeças, visível a olho nu. Dessa imagem e do carácter universal da missão das Transmissões que já tinha presenciado por experiência própria, surgiu a ideia de encerrar no Grito esse sonho de grandeza, essa chama de utopia.

Daí Saiu “O Mundo – Informamos”

A própria AM tinha dado o seu contributo, ao introduzir no conhecimento dos alunos o universo das novas partículas que, com os velhos electrões, vieram enriquecer o campo dos nossos obreiros electrónicos.

Daí saiu: “ Alfa, Beta – Radiações”

Faltava identificar numa espécie de apoteose quem era esta entidade que tinha tais atributos numa alegoria um pouco camoniana, entrelaçando código morse com sinais de sputnik.

Daí saiu “Bip bip – Transmissões”

Faço notar que as alterações tardias, introduzidas no Grito, uma pelo General Pinto Correia “As Transmissões – Mantemos” e “Alfa, Bravo – Radiações”, por confusão da noção da partícula Beta, com o som da letra B no Alfabeto fonético, são espúrios relativamente ao grito original.

Terminei a AM nos 4 anos previstos, saindo daí para o Técnico, em 1964, ano em que casei. Quando passámos da AM para o IST, havia um aluno do meu Curso, o Rodrigo Leitão, que levava nota superior à minha. Chegados ao IST, estudei o primeiro e o segundo anos (3.º e 4.º dos internos), com grande seriedade e afinco, tornando-me até explicador de certas cadeiras para colegas civis que não tinham alcançado aprovação em anos anteriores.

O último ano foi de consagração, sentindo-me dominar completamente a situação, a ponto de a minha mulher se assustar com receio que eu perdesse o ano. Sosseguei-a e terminei na primeira época (Junho/Julho) com a obtenção da minha licenciatura. Só eu, do meu curso, terminei na primeira época, com nota superior à do Rodrigo Leitão. Refiro esta passagem porque vai ter reflexos no futuro.

Além de terminar o Curso na primeira época, tinha, durante o mesmo, feito dois estágios, um na CNE (Companhia Nacional de Electricidade), em Sacavém, e outro na RARET, em Glória do Ribatejo. Desta última apresentei um relatório escrito e publicado em livro.

Terminei o curso de IST colocado em 1.º do meu curso e tendo ultrapassado cerca de 1/3 do curso anterior ao meu. Os camaradas do 1,º curso que ficaram depois de mim foram, entre outros, o Cordeiro Verde, o Cruzinha Soares, o Frade, o Louro, o Honrado Gomes, etc. Estávamos em 1967.

Outra vez no BT (1968)

Acabado o curso no IST, procedeu-se ao Estágio no BT, onde, entre outros, foram nossos professores o Garcia dos Santos, Garrido Baptista, Saraiva Mendes e Carlos Alves Inácio. Terminada a primeira parte do Estágio no BT, seguia-se a segunda parte no Porto, para parte do efectivo. Terminei no BT mais uma vez à frente do Leitão e, por isso, era a ele que competia deslocar-se para o Porto, mas acabei por ser eu, já casado e com filhos.

Depois de 17 dias de Porto (já eu tinha a minha tese pronta), quando marchei do novo para Lisboa para ser enviado para Ânzio (Itália) para um curso de guerra electrónica, entregando a minha tese ao Louro que a publicou no livro de estágio.

No regresso de Itália entreguei o Relatório na 5.ª de EME, cujo chefe me identificou pelo nome e me compeliu a que eu contasse o que se tinha passado no BT com as nossas classificações finais do curso.

Daí, e talvez de outros testemunhos que já haviam sido acumulados na Repartição, resultou que retomei a minha posição de 1º classificado no curso.

Logo que me apresentei no BT fui nomeado instrutor de Guerra Electrónica, seguindo nessa função ao cap. Garcia dos Santos (1968).

Os CTT

Quando era aluno do IST, passou-me pelas mãos um livro sobre antenas de HF que deveras me impressionou. Quis comprar a obra mas não estava à venda. Em contrapartida descobri quem era e onde trabalhava o seu autor. Tratava-se do eng. Amaro Vieira, chefe dos Serviços Radioeléctricos dos CTT e também Chairman de um Grupo de Trabalho da UIT (União Internacional das Telecomunicações). Dirigi-me ao local de trabalho do eng. Amaro Vieira, informando a secretária de quem eu era e o que pretendia.

Amaro Vieira quis conhecer-me, talvez pelo apreço que demonstrei pela sua obra, e, no fim da nossa conversa, ofereceu-me o livro e quis saber outras referências minhas, que eu lhe forneci.

Algum tempo depois do meu regresso de Itália fui informado que teria de ir (devidamente fardado de n.º1) à Rep. Gab. M E. Lá me fardei e fui, sendo aí recebido pelo coronel Catela, que me informou que eu iria trabalhar em part-time nos CTT, que S. Ex.ª o Senhor Ministro de Exército já havia decidido. Depois de algumas perguntas do Coronel Catela, mal acreditava ele que eu não soubesse o nome do santo de tal cunha, mas, de facto, não sabia. Porém, fiquei sem dúvidas de que teria sido Amaro Vieira, a quem eu tinha contado algumas restrições do meu início de vida. A normalização da situação fez-se com um requerimento posterior meu, a solicitar a benesse que já me tinha sido concedida.

E lá fui eu para Barcarena, onde colaborei até embarcar para Moçambique e onde tive alguma sorte no desempenho de missões, nem sempre fáceis, uma das quais já contei ao referir-me ao HF Tempo Real.

O Trabalho nos CTT não diminuiu em nada as minhas responsabilidades no BT. Aqui, além de Instrutor de GE, era também comandante da Companhia TPF. Nesta qualidade visitei todas as Unidades das Regiões Norte e Centro, ficando-me desse tempo uma panorâmica do País e do Exército a servir que viriam a ser muito úteis quando, mais tarde, desenvolvi a questão do SITEP. Foi ainda na qualidade de comandante da Companhia TPF que elaborei o caderno de encargos e fiz a aquisição do cabo auto suportado para o Comando das FA de Moçambique, o mesmo que, mais tarde, eu mesmo viria a instalar.

Coronel Cruz Fernandes – Uma notável história de vida

38.º Almoço Convívio Tm - Quinta do Lago Alferrarede 1Este blogue tem a responsabilidade e o prazer de, a partir de hoje, começar a publicar uma extraordinária história de vida – a do Cor Engº Tm Manuel Cruz Fernandes, membro da CHT, hoje na reforma, mas conhecido e respeitado por muitos dos milhares de homens que passaram pela Arma de Transmissões nos últimos 50 anos e recordado por muitas gentes do nosso interior mais desfavorecido.

A propósito, consultar uma interessante reportagem recente da LUSA, no endereço:
http://www.25deabril.lusa.sapo.pt/capitao-cruz-fernandes-revisita-obras-do-mfa-em-montemuro/

A sua história, que ele dividiu em capítulos, desde um início desfavorável numa aldeola perdida do Alto Minho, na Serra Amarela, sistema montanhoso da Penêda-Gerês, até à sua notabilização como engenheiro militar competente e muito produtivo, será apresentada em postais sucessivos, excepto no que se refere aos últimos 4 capítulos, que serão agrupados, quer por terem menor extensão, quer por em conjunto versarem sobretudo dados curriculares ou mais pessoais.

Índice

Cap. I – Infância, adolescência e início de carreira

Cap. II – Missão em Moçambique

Cap. III – Dinamização cultural 

Cap. IV – Missão em Macau

Cap. V – O meu Comando no RTm

Cap. VI – Guerra Electrónica, Processo de Paz de Moçambique e Presidência Portuguesa das CEE

Cap. VII – Cidadania

Cap. VIII – Contributos escritos ao longo da carreira

Cap. IX – Curriculum Vitae

Cap. X – Agradecimentos

P.S. Está também em preparação a história de vida de um outro bem conhecido militar de Tm, o Cor Man e Prof António Pena, que será apresentada depois do verão.

Contribuição para uma Breve história da evolução das Transmissões do Exército (4)

Post do MGen Pedroso Lima, recebido por msg:

4º Período (1914 – 1939) A Grande Guerra e o pós-guerra

As transmissões do Exército, durante a Grande Guerra, estiveram representadas nas expedições enviadas para Angola e Moçambique, logo no início da Guerra e, mais tarde, na Frente Europeia, integradas no Corpo Expedicionário Português (CEP) que atuou na Flandres.

Os combates das forças portuguesas começaram em Àfrica, logo em 1914, contra as tropas alemãs das suas colónias contíguas a Angola e Moçambique, embora Portugal estivesse neutral.

A entrada do CEP em setor da frente europeia só se deu em 1917, depois de a Alemanha no ano anterior ter declarado guerra a Portugal, na sequência do apresamento, realizado a pedido britânico, dos navios alemães fundeados em portos portugueses.

Enquanto que em África as nossas tropas foram equipadas com o material existente em Portugal, na frente Europeia as tropas do CEP utilizaram material inglês e os militares portugueses, antes de entrarem em setor, foram instruído pelos ingleses e “herdaram” os  seus sistemas montados de redes telegráficas e telefónicas.

No teatro europeu, onde as transmissões portuguesas  se integraram no sistema  inglês, dos mais evoluídos da época, o conflito teve muito maior intensidade e envolveu efetivos muito superiores aos que combateram no teatro africano.

Em Angola o conflito terminou em 1915 com a rendição das forças alemãs da Africa Ocidental Alemã às tropas sul-africanas. Em Moçambique a guerra só terminou com o armistício, dado que houve que enfrentar forças alemãs, embora de efetivos reduzidos, mas superiormente conduzidas, que usaram uma técnica de guerra de guerrilha para a qual os portugueses não conseguiram encontra resposta adequada.

O sistema, no CEP, baseava-se no princípio da sobreposição de meios, traduzido na aplicação de telégrafos elétricos, telefones, meios óticos, pombos correios e meios rádio, usado sobretudo nos escalões mais elevados.

No início do conflito, o telégrafo era o meio dominante mas, com o decorrer do conflito, o telefone ultrapassou-o claramente.

Dependendo os meios de comunicações de redes filares e sendo a maioria com traçados não enterrados, o sistema de transmissões tornava-se extremamente vulnerável  aos poderosos fogos de artilharia utilizados.

Em situações de média ou baixa atividade operacional na frente, o sistema de transmissões era sustentável, permitindo a recuperação  das linhas avariadas pelos fogos de artilharia, graças ao meritório e arriscado esforço dos guarda fios.

No entanto, nas preparações de artilharia que precediam as grandes ofensivas na Grande Guerra, as transmissões desapareciam completamente ao fim de pouco tempo, como sucedeu na Batalha de La Lys.

Outras inovações introduzidas na Grande Guerra e na área das transmissões foram o fullerfone, para maior segurança nas comunicações telefónicas ou telegráficas e a telegrafia pelo solo, para comunicações seguras na linha da frente.

A participação no CEP das transmissões portuguesas dirigidas pelo capitão de Engenharia  Soares Branco, foi prestigiante.  No louvor que lhe foi concedido pelo general Comandante do CEP afirma-se que “o serviço telegráfico foi o que melhor funcionou no CEP”.

Terminada a guerra a situação no país era de grandes dificuldades económicas,  verificaram-se grandes convulsões  políticas e sociais, que deram lugar ao 28 de maio de 1926 e ao estabelecimento do regime ditatorial do Estado Novo.

Esta situação do país permite explicar que no pós-guerra não tivessem sido as transmissões de campanha que se desenvolveram, como seria de prever, mas sim as transmissões Permanentes, como meio que interessava desenvolver face à situação do país.

Com o material rádio existente e com o que veio da Flandres, foi criada rapidamente uma rede radiotelegráfica e que na gíria corrente se costuma designar por “transmissões de vão de escada”.

Apesar de tudo, a rede radiotelegráfica atingiu um certa importância e atuou eficazmente em situações de emergência, chegando a fazer, em casos de greves dos correios civis, serviço de telegrafia aberto ao público em geral.

Em contrapartida, no final do período, em vésperas de eclodir a II Guerra Mundial, as transmissões de campanha em Portugal praticamente não tinham evoluído em relação à Grande Guerra.

Fotos 1a GG

Reparação das linhas nas trincheiras da Flandres

SIF

Equipamentos rádio SIF usado nas redes permanentes no final dos anos 30

Contribuição para uma Breve história da evolução das Transmissões do Exército (3)

Post do MGen Pedroso Lima, recebido por msg:

3º Período (1880 – 1914) A sobreposição de meios nas Transmissões Permanentes

O major de Infantaria Bon de Sousa foi a figura de maior destaque neste período.

Nomeado Diretor do Serviço Telegráfico de Guarnição e Pombais Militares, em 1880, cargo que exerceu até 1901, promoveu uma expansão significativa das transmissões militares.

Da sua ação resultou o apreciável desenvolvimento da telegrafia elétrica, com a colaboração e apoio dos Telégrafos do Reino, com os quais acordou o aproveitamento das linhas civis nos períodos disponíveis; a introdução dos pombos correios e a reintrodução de meios óticos como semáforos e heliógrafos, utilizando o código Morse e ainda as lanternas de sinais que permitiam fazer serviço ótico de noite.

A explicação para a uso de novos meios, claramente menos evoluídos que a telegrafia elétrica, resultou da aplicação nas Transmissões Permanentes do princípio da sobreposição de meios usado, na época, nas transmissões de campanha pelos exércitos mais evoluídos.

Através da multiplicidade de meios criada, procurava-se suprir a fraca fiabilidade de cada um no sentido que a mensagem pudesse chegar ao seu destino, como é timbre das transmissões.

Outra justificação, é que a primeira unidade de transmissões de campanha só foi criada em Portugal em 1885, e o pessoal das transmissões permanentes, em caso de guerra, pela sua preparação no serviço das redes permanentes, permitiria suportar o primeiro embate com o inimigo com pessoal devidamente treinado.

O sistema montado por Bon de Sousa foi baseado em estudos aprofundados, que teve o mérito de fazer, dos sistemas de transmissões de campanha usados nos outros Exércitos.

Este sistema perdurou, nas transmissões Permanentes do Exército, até meados do século XX e, nas Transmissões de Campanha, foi o sistema dominante na Primeira Guerra Mundial.

Ainda no tempo de Bom de Sousa fizeram-se, no Exército, as primeiras experiências com telefones.

Em 1901 fizeram-se as primeiras experiências com rádio em Portugal, na orientação das quais esteve o capitão de Engenharia Severo da Cunha.

Rede de pombais militares em 1989

Rede de pombais militares em 1889

Heliógrafo Martins

Heliógrafo Martins