Memórias do Museu das Transmissões

Post do Maj Carlos Rosado, recebido por msg:

Foi há tanto tempo que nem tenho já memória muito clara desses tempos idos do arranque do Museu das Transmissões (Tm). Recordemos a aventura…

Em Março de 1971, na viagem de curso pela Europa, descobri que afinal gostava de ver museus. Eram museus com vida e nada que se parecesse com salas cheias de peças ‘esquecidas’ dentro de quatro paredes. Falo das visitas aos museus da Grundig, na Alemanha, e da Philips na Holanda. Neles, cada sala dispunha de expositores por vezes com peças que nós podíamos accionar com botões ou até directamente. Havia vida!

Ao chegar a Portugal, guardei sempre boa memória dessas visitas e pude saber que nada havia em Portugal que se assemelhasse.

Acabada a formação no Instituto Superior Técnico, realizei um estágio curricular e, ó surpresa, eis que inesperadamente sou ‘convidado’ a realizar um tirocínio militar de seis meses, para ganhar algum calo no contacto com África.

Algumas experiências me marcaram em Angola, para onde fui destacado. Talvez uma das mais importantes foi a noção do experimentalismo com que se lidava com as comunicações, deveras fundamentais para manter uma coesão das nossas forças. Regressámos em Março de 1973 e já se notava a fermentação do que veio a ser a Revolução dos Cravos.

Regressando à Escola Prática, recordei-me da saga angolana como Oficial de Tm, acabando por ligar duas experiências tão vívidas – os Museus que me ‘falavam’ e as dificuldades experimentadas em diversas instalações militares de Angola, onde cada problema alimentava a intuição e a capacidade inventiva do português típico. Com efeito, encontrei em Angola oficiais milicianos de Tm que penavam na incapacidade de sequer entender como funcionava um telefone ou um rádio de campanha. Por exemplo, um deles, com formação de psicologia, encontrava-se perdido em Sanza Pombo, inabilitado para fazer ‘mexer’ o equipamento a seu cargo, quase todo inoperacional.

O futuro desenhava-se no germinar lento da necessidade de se acabar depressa com uma guerra progressivamente injustificável diante das arenas internacionais. De qualquer modo, e voltando ao Museu que nem sequer existia na minha cabeça, ao falar sobretudo com Sargentos da então Escola Prática em Sapadores, apercebi-me que muito equipamento era pura e simplesmente deixado à sua sorte, sofrendo de ‘reumático’ devido às humidades e aos safanões em teatro de guerra. Tudo a monte por baixo do Serviço de Instrução. Fui ver o referido técnico-cemitério.

Juntei as peças como que por acaso, se é que existem acasos alguma vez…

Museus vivos, peças para abater aos quilos. Daí a descobrir como aproveitar salas do Serviço de Instrução inúteis foi um passo simples.

MuseuIdealizei então um Museu que servisse de apoio aos muitos militares que tanto precisavam de instrução prática, capacitando-os a poderem olhar para um rádio como um rádio imprescindível e um telefone como um telefone que tinha muito mais do que um enigmático discador.

Propus a constituição do dito Museu de Tm. Chamei-lhe Museu porque se daria vazão a peças que oscilavam entre o lixo e o eventual aproveitamento de peças. No entanto, tal Museu seria apenas aberto ao grande público militar que aterrava regularmente na Escola Prática para obter alguma formação que os habilitasse a seguir para os teatros de operações.

Apresentei a proposta superiormente, tendo-me confrontado com uma certa e compreensível oposição, ao se admitir que o referido Museu só talvez fizesse sentido se e quando aberto ao público em geral.

Como tinha no Serviço de Instrução um Cabo que desenhava e pintava bastante bem, pedi-lhe que me preparasse a primeira peça para o Museu, uma placa de madeira, com a palavra «Museu» nela inscrita. E coloquei-a sobre a porta de entrada da sala vazia mesmo defronte da entrada, a maior, com fraco uso porque raramente era preciso juntar muita gente ao mesmo tempo para a instrução.

Com o apoio de pessoal do STM (Serviço de Telecomunicações Militares), fui obtendo peças funcionais e aptas para instrução viva nas prateleiras do idealizado Museu. Difícil foi escolher entre tanto amontoado aquilo que fosse operacional para formar e adestrar o pessoal. O objectivo principal era apenas apresentar equipamento que funcionasse, desejavelmente dois de cada tipo porque na comunicação – como sabemos – há um emissor, um receptor e um canal de transmissão. Merecem ainda destaque os meus dois braços direitos em todas as acções do Serviço de Instrução, o Asp. Milº Orlando Letras Pomares e o 1º Sargº Mário de Jesus Nunes.

Entretanto, venho a saber que existiria um outro espaço com funções museológicas na Direcção da Arma de Tm, perto de Santa Clara. Tentei chegar à fala com o responsável – Cor. Bastos Moreira – e estabelecer eventuais pontes, mas isso nunca aconteceu. A preparação do que se tornou no 25 de Abril ganhou absoluta prioridade.

De qualquer forma, o primeiro dia de glória do Museu foi uma visita realizada pelo General Altino Magalhães, a quem cabia inspeccionar aquartelamentos. Na sala, a tal grande, encontrávamos telefones ligados por cabo telefónico e rádios de campanha revelavam as suas virtualidades, tudo peças que ‘mexiam’, todas estavam operacionais. Ainda me recordo da alegria do General Altino, que sabia comunicar por morse (tinha o curso de Tm das Armas, que no seu tempo incluía aquisição de competências em grafia), quando estabeleceu ligação com o Oficial responsável pela disciplina de morse, Cap. Morais, usando-se para o efeito as duas chaves colocadas em diagonal na sala. Nesse dia, o Museu ganhou vida e outra vida…

Termino com um agradecimento aos camaradas da Comissão de História das Tm que me ajudaram – numa demonstração de uma das mais belas características da vida militar, o espírito de corpo – a enriquecer este testemunho com contribuições que esclareceram pequenos detalhes que aprimoraram o rigor de apresentação dos factos descritos.

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Os heliógrafos portugueses

O heliógrafo, ou telégrafo óptico, é um aparelho que utiliza o reflexo dos raios solares num espelho para transmitir um código. Em dias de excepcional visibilidade, pode transmitir uma mensagem a dezenas de quilómetros.
Vários foram os heliógrafos utilizados em Portugal ao longo dos séc XIX e XX. Todos eles já aqui foram referidos e tiveram alguma informação disponibilizada neste blogue, nomeadamente o Martins, o Mance, o OMI e o mod/938.

Devemos hoje considerar portugueses dois desses heliógrafos (o primeiro, sem dúvida, mas também o último), sucessivamente utilizados no passado pelo Exército português:

– O primeiro foi inventado pelo então sargento Manuel Martins na década de oitenta do séc XIX (1884) e consistia de dois modelos, o grande, de espelho rectangular, para estações fixas/de guarnição, e o portátil, de espelho redondo e de menores dimensões, para utilizações móveis/táticas. Com o modelo grande foi montada pelo Exército uma rede heliográfica que previa, em 1889, cobrir mais de dois terços do território continental, com 58 estações militares, mas que ficou aquém do pretendido.
Em 1898, quando era já instrutor do serviço telegráfico na Direcção dos Telégraphos de Guarnição e Pombaes Militares, Martins publicou um livro sobre “Telegrafia óptica e acústica” onde estas suas invenções (e outras, como por exemplo o phanógrapho Martins, para comunicação de noite, com luz artificial) foram apresentadas, descritas e tratadas, e de que apresento aqui alguns elementos de interesse, relevantes para este postal:

Livro MartinsMartins heliogLivro Martins pag 15Livro Martins pag 16Livro Martins pag 17Livro Martins pag 18O modelo grande, sobretudo, foi largamente utilizado no País e durante algumas dezenas de anos.
Nas figuras seguintes podem ver-se:
– estação de Palmela, instalada junto ao castelo, nos inícios do séc XX, podendo observar-se o heliógrafo Martins grande em operação, aqui com recurso a um espelho auxiliar (para situações com o sol por trás);
– heliógrafo Martins grande modelo, montado em tripé;
– a rede heliográfica militar em 1889, no seu auge, tal como consta do livro “As comunicações militares de relação em Portugal”, de 1938, de Afonso do Paço;
– a rede heliográfica militar efetivamente existente em 1899 (ter em atenção que a rede telegráfica eléctrica já vinha sendo instalada desde 1855 pelo Corpo Telegráfico);

3 - Heliog Martins in station

Estação heliográfica de Palmela

Heliógrafo Martins grande, com espelho auxiliar, montado em tripé

Heliógrafo Martins grande, com espelho auxiliar e tripé

RedeHelio

A Rede heliográfica em 1889

CHT Mapa de heliografos 1899

A rede heliográfica em 1899

Já no séc XX, apesar de o heliógrafo Martins continuar a ser usado pelos especialistas de Transmissões (então ainda integrados na Arma de Engenharia) até aos anos trinta (bem como o aparelho óptico Mangin, para uso noturno, entretanto introduzido, também para uso exclusivo destes especialistas), o principal heliógrafo utilizado pelas restantes Armas do Exército foi, sobretudo a partir da participação na Grande Guerra e até finais da década de 30, o heliógrafo Mance.

Do livro Sinaleiros - programa de instrução, Ten Inf Guedes Pinto

Do livro Sinaleiros – programa de instrução, Ten Inf Guedes Pinto

Heliógrafo Mance

Heliógrafo Mance com bolsa de transporte, montado em tripé

Aparelho óptico Mangin

Aparelho óptico Mangin em exercícios (Tancos)

Nas imagens seguintes, e a este propósito, podem também aqui ser consultadas as instruções sobre o heliógrafo Mance, para os Sinaleiros da Arma de Infantaria, retiradas do livro Sinaleiros, de 1926, da autoria do ten Infª Rodrigo Guedes Pinto:

Sinaleiros Inf 1Sinaleiros Inf 2– Mais tarde, na sequência da aquisição, cerca de 1930, de um heliógrafo italiano (OMI – Ottico Meccanica Italiana) que utilizava um manobrador e palhetas móveis para cobrir ou descobrir a reflexão do sol, mantendo fixos os espelhos, o que era vantajoso para uma mais fácil transmissão dos sinais Morse, este aparelho veio a ser alterado e largamente melhorado, primeiro pelas Oficinas Gerais de Engenharia (OGME) e mais tarde pela fábrica militar de Braço de Prata, constituindo verdadeiramente um novo modelo de heliógrafo, que mereceu a designação de heliógrafo português mod/938 e teve larga divulgação e utilização.
Duas imagens do heliógrafo OMI pertencente à coleção visitável do RTm (Lisboa), hoje DCSI:

Heliógrafo italiano OMI

Heliógrafo italiano OMI

Heliógrafo italiano OMI

Heliógrafo italiano OMI

E três imagens do mod/938 pertencente à mesma coleção:

Heliógrafo português mod/938

Heliógrafo português mod/938

mod 1938_2

Heliógrafo português mod/938

mod 1938_3

Heliógrafo português mod/938

As instruções para este heliógrafo português mod/938 já anteriormente foram publicadas neste blogue, podendo ser consultadas clicando aqui.

Os AN/PRC-10 e 10A

Post do nosso leitor e colaborador Sr. João Freitas, recebido por msg:

No final da Segunda Guerra Mundial e tendo em conta o êxito do “SCR-300“, os EUA começam a pensar na sua substituição. O rápido avanço da técnica assim o exigia. Após a apreciação de alguns projectos, ficou decidido o início da produção de um dos mais emblemáticos rádios de transporte ao dorso (Walkie-Talkie).

Um conjunto completo AN/PRC-8, 9 ou 10. (foto do manual TM11-612)

Um conjunto completo AN/PRC-8, 9 ou 10.
(foto do manual TM11-612)

Esta nascença não foi singular, mas sim de quadrigémeos que recebem o nome oficial de AN/PRC-8, AN/PRC-9, AN/PRC-10 e AN/PRC-28. Posteriormente os três primeiros modelos tiveram uma pequena alteração a nível electrónico e cosmético, adoptando então respectivamente a designação 8A, 9A, 10A. Toda esta serie de seis aparelhos (exceptuando o PRC-28) foram fabricados sob licença em diversas partes do mundo, nomeadamente em França, Alemanha, Japão, e Israel. Convém precisar que em termos de frequências, somente o PRC-10, e 10A substituem o SCR-300, sendo os restantes modelos destinados a outras armas dentro das forças armadas dos EUA.

O AN/PRC-28 é um infeliz nesta notável família, é o irmão que nasce torto e que nunca vingará, acabando por falecer prematuramente. Este curioso rádio, exteriormente idêntico, perde a sintonia corrida (tem o botão de sintonia substituído por um tampão, nem tem a pequena alavanca de fixação da frequência escolhida) e apenas tem um canal comandado a cristal. A sua produção limitada, não fez história. Estes factos tornaram o PRC-28 uma peça cobiçada por coleccionadores.

O conjunto transportado ao dorso. (foto do manual TM11-612)

O conjunto transportado ao dorso.
(foto do manual TM11-612)

Ainda hoje se discute a utilização do PRC-8, 9 e 10 de forma operacional nos últimos dias do conflito coreano. Registos de ordens e contra-ordens e todo um secretismo, envolvem os seus primeiros passos em combate, apenas se sabe que chegam á Coreia nas últimas horas da guerra, o mesmo se passaria com o AN/PRC-6. Os seis modelos são praticamente iguais, interior e exteriormente, diferindo nas frequências abrangidas (*) e em pequenas modificações a nível electrónico. Como só tivemos nas nossas F. A. o PRC-10 e 10ª (oriundos de vários fabricantes), falaremos deles como de um só se tratasse.

Como é habitual dividem-se em duas partes, uma superiora destinada ao radio e seus comandos (**) em liga leve moldada e uma inferior (em aço ou alumínio), servindo de caixa para a bateria. Tinha esta caixa na sua base um compasso que uma vez aberto permitia que o aparelho ficasse na posição vertical no solo (ver foto). Além do R/T, o conjunto completava-se com um arnês “ST-120” e um pequeno saco “CW-216” onde eram colocadas as duas antenas os seus suportes elásticos e o microauscultador. Este saco era uma evolução estilizada do encontrado no “SCR-300“.

Com o PRC-10 foi introduzido um tipo totalmente novo de antena que veio revolucionar estes imprescindíveis acessórios – a antena de fita de aço “AT-272/PRC“, sendo rapidamente aplicada em modelos posteriores, não só nos EUA, mas por todo o mundo. Inquebrável e totalmente flexível, era o máximo que se podia esperar de um sistema irradiante portátil que estivesse sujeito a uma situação de combate. Alem da antena de fita o AN/PRC-10 podia usar quando utilizado em fixo (preferencialmente), a antena “AT-271/PRC“, com cerca de três metros de altura. Cada uma das antenas tinha um elemento flexível e alvéolos próprios. Apenas como curiosidade, podemos dizer que ela será suplantada pela antena “Kulikova” de origem soviética, mas isso é uma outra história…

Também estava prevista e recebemos antenas de quadro “AT-339“, para fins goniométricos. Como micro auscultador usava o nosso conhecido “H-33/PT“.

Totalmente a válvulas, pode-se dizer que é um dos primeiros rádios a utilizar, no seu bloco electrónico, uma forma verdadeiramente modular e padronização NATO ao nível das tomadas exteriores. Operando em FM e em banda corrida, possuía um cristal para calibração autónoma.

Painel de um PRC-8, 9 ou 10. (foto do manual TM11-612)

Painel de um PRC-8, 9 ou 10.
(foto do manual TM11-612)

O seu painel de comandos estava equipado de uma luz interior para o quadrante, de limitador de ruído e do respectivo botão de volume. Já que estamos a falar do volume de som, podemos dizer que de certa forma, foi o seu calcanhar de Aquiles, pois mesmo no seu máximo e em condições de algum ruído exterior, era por vezes complicado estabelecer uma comunicação eficaz.. Outro elemento que geralmente dava problema, era o pequeno cabo de ligação á pilha. Fino e extremamente flexível, não admitia “violências”, devendo ser tratado com cuidado.

Inicialmente era alimentado por uma grande pilha “BA-279/U” com as tensões de 1,5v, 67.5v e 135v. Posteriormente aparecem inúmeros conversores de cc/cc, que uma vez ligados a uma baixa tensão (geralmente 6 ou 12v), fornecem as mesmas tensões da mencionada pilha (BA-279/U).

Esta forma de obter a energia necessária, era em termos gerais mais económica, pois numa pilha de uma única baixa tensão era muito mais barata e diminuía o problema da deterioração em armazém, como sucedia nas BA-279/U. Para uso veicular, em aeronaves, ou em fixo, realçamos três meios também utilizados em Portugal. Os dois primeiros substituíam totalmente a caixa da bateria, são eles: O alimentador/amplificador de áudio “AM-598/U” (USA), equipado de base elástica e previsto para ser ligado a 24v; o “PP 8910/PRC” com a mesma origem, e feito na firma “Codeco Inc.” similar á caixa original da pilha e com possibilidade de ser ligado a 6, 12, 24v c/c, 110, ou 220v c/a. Usámos também um alimentador feito pela “ACEC” (francês?) com a designação “PP. GI 1178” que para alimentar o conversor, levava 24 pilhas de 1,5v.

Em Julho de 1967 foi testado em Linda-a-Velha (DGMT), com aparente sucesso, um outro conversor substituto da pilha BA-279/U, com a designação “ATR-137”. Não conseguimos saber se este famoso conversor francês, oriundo da firma “Soc. Quartz et Electronique”, foi de facto alguma vez utilizado pelo nosso exército.

O alimentador feito em Portugal e referenciado no texto, junto da sua embalagem original (lado onde o rádio é ligado). (foto do autor)

O alimentador feito em Portugal e referenciado no texto, junto da sua embalagem original (lado onde o rádio é ligado).
(foto do autor)

O mesmo conversor visto do lado oposto (lado das ligações às pilhas). (foto do autor)

O mesmo conversor visto do lado oposto (lado das ligações às pilhas).
(foto do autor)

Portugal não ficará de fora na historia dos acessórios para o PRC-10. Apesar da comprovada operacionalidade de todos os referidos alimentadores é desenvolvido e fabricado no nosso País, em quantidade apreciável (pelo menos 40/50 unidades), um curioso conversor com a designação CTH-5001-BM. Fabricado no “Centro Técnico Hospitalar” (dados fornecidos na embalagem de origem e razão da sua nomenclatura). Apesar de termos visto dezenas de unidades novas, tivemos muita dificuldade em obter informações adicionais sobre o tipo de pilhas usadas e se estaria contemplado um suporte específico para as mesmas. Acrescentamos ainda que, após alguns testes feitos por nós, e contrariamente aos conversores anteriormente apontados, o CTH-5001-BM necessitaria de uma tensão de 6v para fornecer os tais altas voltagens (67.5v + 135v) sendo os 1.5v fornecidos separadamente por uma pilha individual. Apesar de tudo o que sabemos sobre este aparelho, muito gostaríamos de ouvir, da vossa parte, sobre o seu desenvolvimento e verdadeira forma de alimentação, assim como do real número de unidades fabricadas e se houve ou não um manual de fábrica.

Apesar de já vir referenciado no curso de transmissões para oficiais do exército de 1959/60, mas sendo realçado que naquela data ainda não estava ao serviço do exército, vamos encontrar o PRC-10 a caminho dos Dembos, em Angola, em 1961. Deixará o serviço activo nos três ramos das nossas Forças Armadas durante os finais de setenta, princípio de oitenta.

Notas :

(*) AN/PRC-8 e 8A       de 20 a 27.9 Mcs   (para blindados) não usado em Portugal

AN/PRC-9 e 9A       de 27 a 38.9 Mcs   (para artilharia)   não usado em Portugal

AN/PRC-10 e 10A   de 38 a 54.9 Mcs   (para infantaria)

AN/PRC-28             de uma única frequência , não usado em Portugal

(As designações das armas onde seriam usados, apenas se aplicam aos EUA)

 

(**)Designações dos blocos electrónicos:

RT-174 no PRC-8

RT-175 no PRC-9

RT-176 no PRC-10

RT-399/PRC no PRC-28

Quando se trata de uma versão com o prefixo “A”, ao numero do RT é-lhe acrescentado o mesmo prefixo, o mesmo se passa com diversos acessórios e componentes

Ex.: RT-176A corresponde ao bloco electrónico encontrado no AN/PRC-10A

Apêndice 6 (Autenticação) ao Anexo de Tm à Oop 25 Abril

 

1) Para utilização nas Redes FOXTROT
2) Para utilização nas Redes LIMA

A autenticação consiste num procedimento obrigatório que visa garantir que a entrada de um posto na rede seja uma unidade das nossas forças. Os sistemas de autenticação mais simples, são os constituídos por tabelas com duas entradas. Normalmente o conteúdo das tabelas muda a intervalos de tempo relativamente curtos e previamente combinados, a fim de evitar que o IN consiga decifrar a autenticação. No 25 de Abril foram utilizadas sempre as mesmas tabelas, porque foi assumido que o IN não teria capacidade de as decifrar em tempo oportuno para se introduzir nas redes e tentar prejudicar as operações.

Apendice 6 pg1 de 1 001

 

Apêndice 5 (Lista de códigos de frequências) ao Anexo Tm à OOp 25 Abril

Descrição:

1) Frequências
2) Canais do E/R Racal TR-28
3) Mudanças de canal

Este Apêndice é muito interessante de ler, uma vez que nos permite conhecer a forma expedita, engenhosa e aparentemente simples, utilizada na codificação e descodificação dos requisitos 1), 2) e 3) que constam da Descrição acima. De sublinhar que a matéria deste Apêndice, também se enquadra no princípio de evitar referências em claro a elementos que, se forem detectados pela escuta IN, poderão comprometer o êxito da manobra das Forças Amigas.

Apendice 5 pg 1 de 1

Apêndice 4 (Lista de códigos de Entidades) ao Anexo de Tm à OOp 25 Abril

Codificação e Descodificação de entidades

As observações e recomendações a fazer relativamente a esta lista de códigos, são as mesmas que constam do apêndice 3. Em todo o caso, reafirma-se a proibição de referências em claro a entidades ou outros elementos susceptíveis de fácil identificação pela escuta do IN. De referir que apesar de serem códigos relativamente simples, a sua utilização, prevista para um intervalo de tempo tão curto, não tornava previsível que o IN efectuasse a eventual descodificação em tempo oportuno.

Apendice 4 pg1 de 2

Apendice 4 pg2 de 2 

Apêndice 3 (Lista de códigos de objectivos e locais) ao Anexo de Tm à OOp 25 Abril

Codificação e Descodificação de objectivos e locais

A utilização de códigos destina-se a evitar, senão mesmo a proibir, referências em claro, de objectivos, entidades ou outros elementos susceptíveis de fácil identificação pela escuta do inimigo. Nas Instruções de Coordenação do Anexo de Transmissões, deve constar a forma correcta de como utilizar os códigos em vigor, seja qual for o meio de transmissão utilizado.

Apendice 3 pg1 001

Apendice 3 pg1 001

Apêndice 2 (Lista de códigos/indicativos das unidades) ao Anexo de Tm à OOp 25 Abril

Descrição:

1) Sector Norte – Agrupamento November

2) Sector Centro – Agrupamento Charlie

3) Sector Sul – Agrupamento Sierra

4) Sector de Lisboa – Agrupamento Lima

Durante as conversações via rádio era proíbido identificar as unidades pela sua sigla em claro. Sempre que houvesse necessidade de referir uma qualquer unidade, era obrigatório utilizar o código/indicativo correspondente. Todas as unidades que participaram no MFA em 25ABR, tinham um código atribuido, do qual só tomaram conhecimento através do conteúdo deste apêndice.

Notas:

1. As unidades estão agrupadas por sectores, correspondente à implantação territorial do Exército, que na altura era constituida por quatro Regiões Militares: Norte, Centro, Sul e Lisboa.

2. As redes foram constituidas em função da missão das unidades, conforme determinado na Ordem de Operações; as redes FOXTROT foram constituídas nessa base, mantendo os indicativos dos sectores a que pertenciam, por isso apresentarem a heterogeneidade de indicativos.

3. A rede LIMA apresenta um conjunto de indicativos homogéneo, porque só é constituida por unidades da RML e no cumprimento de missões dentro desta região militar.

 

 

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Apêndice 1 (Esquema das Redes Rádio) ao Anexo de Tm à OOp 25 de Abril

As redes Foxtrot 1 e 2 destinaram-se à ligação do Posto de Comando com as unidades não pertencentes à RML e que actuaram fora de Lisboa. As redes Lima foram destinadas à ligação do PC com todas as unidades que actuaram na região de Lisboa. De referir que as redes foram constituídas com base nas dotações das unidades, a saber: – E/R Racal TR28 para as ligações a distância; – E/R AVP-1, ou do mesmo tipo, para as ligações locais; – E/R das viaturas de Cavalaria. Deve entender-se por ligações locais, as respeitantes ao comando e controlo do movimento e da actividade operacional das sub-unidades dentro de cada unidade.

Notas:

a. Considerando que o TR28, bom para o Teatro de Operações africano, em Portugal não garantia a fiabilidade das comunicações, considerando a distância entre o PC e a maioria das unidades durante o seu deslocamento (inferior a 100Km), as unidades cujo movimento foi na direcção de Lisboa, foram discretamente seguidas por uma viatura civil com 1 ou 2 militares à paisana, que através do telefone civil e a intervalos regulares, foi informando o PC da forma como foi decorrendo o movimento da respectiva unidade.

b. Todas as redes rádio funcionaram em regime de rede dirigida, sendo o posto director o PC do MFA. À hora H, o PC entrou em escuta permanente em todas as redes. Os postos dirigidos só podiam contactar entre si mediante autorização do posto director.

 

2.1 APENDICE 1 ao Anexo A( TRANSMISSÕES)

2.2--APENDICE 1 ao Anexo A( TRANSMISSÕES

Mala-estojo de campanha para Centro de mensagens (1885)

Mala do Serviço telegráfico de campanha utilizada pelo Exército português nos finais do séc XIX (fornecida pela casa Herrmann), fechada para transporte, com dois compartimentos assimétricos no interior, garantindo quando aberta uma inclinação adequada à escrita:

IMG_0810Conteúdo da mala estojo, tal como inscrito no interior de um dos compartimentos:

No exemplar existente na CV do RTm faltam o canivete, folhas de papel mataborrão e a régua originais

No exemplar existente na CV do RTm faltam o canivete, folhas de papel mataborrão e a régua originais

Distribuição de alguns dos artigos necessários à escrita, quando aberta:

IMG_0806Interior de um dos dois compartimentos (o outro, mais fino, contém os 6 cadernos de papel para escrituração das msgs):

Do lado esquerdo, a palmatória em latão e do lado direito, o tinteiro, também em latão, além de diversos artigos arrumados para o transporte

Do lado esquerdo, a palmatória em latão e do lado direito, o tinteiro, também em latão, além de diversos artigos arrumados para o transporte

Impressos de mensagens:

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E/R PRC 239-6X (IRET) e Amplificador de potência PA 21

E/R VHF FM, completamente transistorizado, o IRET era um pequeno rádio (6x14x20 cm), pesando cerca de 2 kg, que, por meio de dois seletores instalados no painel frontal, permitia selecionar um de 100 canais, controlados por um jogo de 20 cristais internos, na banda dos 47 aos 57 MHz (espaçamento de 50 KHz entre canais).

IRET (PRC 239 + PA 21) da CV do RTm

IRET (PRC 239 + PA 21) da CV do RTm

O IRET com o seu saco de transporte (BAG 55)

O IRET com o seu saco de transporte (BAG 55)

O IRET com os acessórios standard

O IRET com os acessórios standard

Era alimentado, ou por um jogo de 4 pilhas secas de 4,5 V (BA 9), ou por um acumulador de Cd/Ni de 18 V (AL 18/1). A antena habitual era uma antena de fita flexível, cortada para os 52 MHz (meio da gama), mas podia ser ligado a uma antena exterior de 50 Ohm, através de um adaptador (AA-2), quando inserido no amplificador de potência. Como acessórios standard, trazia um saco de transporte (BAG 55), duas correias de transporte (ST 43 e 44), um microtelefone com interruptor “premir para falar” (MT 10A), uma antena de fita em aço (AT 32) e um manual de instruções. O microtelefone, à prova de água, era em alumínio injectado, com uma pastilha do tipo dinâmico, que trabalhava como microfone quando em emissão (quando era premida a patilha) e como um pequeno altifalante quando em recepção, a situação normal. Como carregadores de bateria, podia usar ou o CA-29, para tensões de 11-32 V DC (em viatura), ou o CA-32, para 220 V AC (fixo). Em Africa foi sobretudo usado na Guiné.

O IRET com o carregador de baterias CA-29 instalado

O IRET com o carregador de baterias CA-29 instalado

Fixação das correias para operação a dorso

Fixação das correias para operação a dorso

Com 2 W de saída quando em tensão máxima da alimentação, concebido para trabalhar em pequenas distâncias, o IRET podia contudo ser dotado de um amplificador de potência de 30W (PA 21), igualmente transistorizado, o que lhe aumentava bastante o alcance e permitia instalá-lo, quer como equipamento móvel, em viatura, quer como fixo. Nestes casos, a tensão da fonte de alimentação para o PA 21 era obtida a partir de uma bateria de 12 ou 24 V, sendo que no caso dos 12 V estes eram automaticamente elevados para os 24 através de um conversor DC-DC. Esta unidade de potência (PU 9) era ligada ao PA 21 por meio de 4 fechos de mola. A antena veicular era de chicote, de 1/4 de comprimento de onda (142 cm). O peso deste conjunto, incluindo o suporte anti-vibratório para instalações veiculares (SA 26), era de 8,5 Kg.

PA 21 com o PRC 239-6X introduzido

PA 21 com o PRC 239-6X introduzido

PA 21 com o PRC 239-6X retirado

PA 21 com o PRC 239-6X retirado

Manipulador do Emissor Ducretet

Em 1901 o Exército Português realizou as primeiras experiências de rádio (TSF) com material encomendado ao conhecido e especializado fabricante francês E. Ducretet.
O material em questão referia-se a:

-um EMISSOR DUCRETET constituído por um manipulador, um oscilador, uma antena e uma ligação à terra. Este emissor era idêntico aos empregues por Hertz nas suas célebres experiências.

-um RECEPTOR pelo som, que era um aparelho portátil designado por RECEPTOR RÁDIO TELEFÓNICO POPOV-DUCRETET, onde em lugar do tubo de Branly era empregue um revelador de agulhas.

Em relação ao receptor, do qual existem dois exemplares, um na Colecção/Visitável (C/V) do RTm e outro no Museu Militar de Elvas, existem vários textos sobre ele neste site.

Do emissor tudo nos leva a crer que o único vestígio é uma peça que existe na C/V e que identificámos como sendo o manipulador.

manipulador morse
O contacto eléctrico era obtido pressionando o manípulo

DSC06784

que provocava no contacto saliente do copo de protecção, o encosto da agulha.

DSC06787copo de faísca
Para justificar esta identificação junta-se gravura do emissor Ducrete de 1901 em que se pode ver no lado esquerdo da imagem, o manipulador assinalado com a letra M.

Diapositivo1Junta-se o esquema do emissor em que também está representado o manipulador.

Diapositivo2

As figuras do emissor Ducrete constam do livro

Diapositivo3

Receptor Ducretet e existentes na CV do RTm

Receptor Ducretet e manipulador existentes na CV do RTm

Inventores portugueses na Telegrafia eléctrica

Post do MGen Pedroso Lima, recebido por msg:

Na telegrafia ótica, verificou-se uma grande participação nacional  no sistema  montado pois, como se sabe, foi concebido e desenvolvido por um português, Francisco António Ciera[1] e manteve-se ao  serviço durante mais de meio século.

Em relação à telegrafia elétrica que, a partir de 1855  passou a substituir a telegrafia ótica, tínhamos uma ideia diferente pois, para além do sargento Martins[2] não conhecíamos qualquer outra intervenção portuguesa na nova tecnologia adotada.

Um artigo da revista Códice da Fundação Portuguesa da Comunicações[3], da autoria de Alfredo Anciâes, vem mostrar claramente a existência de  contributos portugueses na telegrafia elétrica.

Este post, baseado nesse artigo, apresenta as três inovações portuguesas, referidas pelo autor do artigo e introduzidas no sistema de telegrafia elétrica  nos finais do século XIX e princípios do século XX:

  • Uma melhoria do sistema de escrita dos telégrafos Morse, e a construção de um telégrafo de campanha da autoria de Maximiliano Augusto Herrmann.
  • Um sistema novo de telegrafia elétrica inventado por Cristiano Bramão.
  • Modificações do telégrafo Hughes e Baudot iniciada por Augusto dos Santos e que viria a agregar outros contributos.

Vejamos em que consistiram estas inovações, aproveitando para referir algumas breves notas sobre os seus autores.

* A melhoria do sistema de escrita e o telégrafo de campanha, da autoria de Maximiliano Augusto Herrmann:[4]

herrmanHerrmann, com a sua intervenção, pretendeu resolver o seguinte problema  de escrita nos recetores  telegráficos de Morse:

“Os recetores Morse que então existiam – da primeira aquisição – eram de ponta seca ou de tinteiro com tira – linhas, uns e outros de fracos resultados práticos. Nos primeiros: os sinais, marcados no papel por um ponteiro de aço, eram de difícil perceção e desapareciam com facilidade. Nos segundos, a tinta secava a miúde nos tira – linhas, ou, quando este estava mal graduado, transbordava e alastrava no papel, tornando impossível a leitura da fita” (Barros, Ferreira, 1943, pág.52).[5]

As modificações introduzidas por Herrmann consistiram em:

“Na parte respeitante ao registo de sinais, Herrmann construiu uma tina ou tinteiro de utilidade inequívoca e documentada. Adaptou-o com uma armadura flexível e regulável com um fino estilete, como se de uma pena ou estilete se tratasse, deixando apenas escorrer a tinta necessária para os registos das mensagens serem legíveis.”[6]

Esta modificação foi dada a conhecer às administrações telegráficas estrangeiras e foi apresentada por Vitorino José Damásio, diretor dos Telégrafos Portugueses[7] na conferência Telegráfica Internacional de Paris em 1865, no ano seguinte à extinção do Corpo Telegráfico.

Herrmann também criou o telégrafo de campanha de 1897, que se mostra na figura.

herrmann 2Para este telégrafo de campanha, Alfredo Anciâes aponta, no artigo citado, as seguintes melhorias:

  • Um sistema de dar corda, com alavanca, dispensando a chave;
  • Um tinteiro regulável em altura  e  com uma fina agulha de saída de tinta;
  • Uma chave de morse muito funcional;
  • Bobinas de fita facilmente destacáveis e com um sistema muito prático de fixação para efeitos de transporte;
  • Uma caixa com tampas articuláveis;
  • Um despertador, uma bússola e outras componentes devidamente alojadas/articuladas dentro de uma caixa portátil.[8]

* O sistema Telegráfico de Cristiano Augusto Bramão:[9]

Bramão apresentou 3 versões de um telégrafo inovador, a última das quais foi “o aparelho tipo 1874”, que se mostra na figura.

bramaoA  inovação de Cristiano Bramão consistiu na  adaptação do aparelho para trabalhar com corrente alterna. As correntes positivas transmitiam os pontos e as negativas os traços, o que permitia aumentar a rapidez de comunicação, tornando o aparelho particularmente apto para estações de elevado tráfego.

O autor do artigo refere ainda a utilização do telégrafo-telefone de Bramão nas comunicações para sul do Tejo:

“As comunicações entre o Norte e o Sul do Tejo do território continental português passam pelo cabo subfluvial… os edifícios de acolhimento do cabo telegráfico foram inaugurados em 1871. Por eles passaram as primeiras transmissões telegráfico-telefónicas.

As primeiras transmissões telegráfico-telefónicas foram realizadas com o telefone/telégrafo (um clássico e inovador) de Cristiano Augusto Bramão. Segundo tudo indica, através da documentação reunida, podemos afirmar que este tipo de aparelho realizou a primeira fonoconferência do mundo com interlocutores situados em simultâneo e, Lisboa e nas seguintes localidades: Bom Sucesso, Barreiro e Setúbal. O sucesso das experiências foi brilhante e a notícia saiu publicada na Revista das Obras Públicas e Minas da época. “[10]

* Melhoramentos introduzidos por inventores portugueses nos telégrafos Hughes e Baudot:[11]

O telégrafo Hughes (conhecido na gíria técnica por “piano”) teria sido adotado em Portugal  em 1885 e o de Baudot  a partir de 1920.

HughesAntónio dos Santos[12] foi o autor do livro “Telégrafo Hughes Duplo” que visava a transformação do telégrafo do modo simples para o modo duplo. [13] No modo duplo o telégrafo podia “enviar duas mensagens no mesmo espaço de tempo e no mesmo circuito de fios.”

Este projeto para o telégrafo Hughes acabou por não ir para a frente, o que não aconteceu com a criação de um regulador fiável, que o projeto contemplava e era aplicável tanto para o telégrafo Hughes como para o Baudot.

Este regulador viria a surgir com a designação de DMO o que significa Doignon, Mendonça e Oliveira. Pretendia ser uma homenagem ao construtor e aos dois principais autores do projeto,[14] ambos inspetores dos Correios e Telégrafos.[15] A construção deste regulador de tensão foi inicialmente feita nas Oficinas Gerais dos CTT e numa fase posterior também na casa Doignon.

“O regulador destinava-se a colmatar os problemas provocados pela variação de tensão da energia elétrica (funcionando, grosso modo, como uma embraiagem) … com consequências gravosas na transmissão e receção de mensagens.

A aplicação portuguesa dos reguladores dos telégrafos Hughes e Baudot tornou-se um invento de interesse para todo o mundo.


[1] Este ano de 2013 verifica-se o bicentenário da sua morte. Ver Biografia pág 25 e seguintes do livro da CHT  Bicentenário do Corpo Telegráfico

[2] Autor de vários aperfeiçoamento na área da telegrafia elétrica, como coadjuvante dedicado de Bon de Sousa, destinados a facilitar a ligação das estações telegráficas militares com as civis, no período noturno, em que estas se encontravam encerradas. Ver PAÇO, Afonso do, Comunicações Militares de Relação, 1938

[3] Revista Códice  nº2 do ano 2005

[4] Herrmann não é um desconhecido para a CHT.  Ver Transmissões Militares da Guerra Peninsular ao 25 de Abril, pág.20, onde se refere que as primeiras experiências de telegrafia elétrica no Exército foram realizadas em 1866, em Tancos, com telégrafos construídos pela casa Herrmann.

Maximiliano Augusto Herrmann (1838-1913) nasceu em Lisboa. Frequentou o Instituto Industrial de Lisboa. Ingressou na Companhia de Caminhos de Ferro de Norte e Leste, chegando a Inspetor. Criou em Lisboa uma oficina e instrumentos de precisão. Teve um papel importante na construção de aparelhos telegráficos

[5] Revista  Códice citada, pág.85.

[6] Idem, Idem

[7] Depois de extinto o Corpo Telegráfico em 1864

[8] Revista Códice citada. Pág. 86.

[9] Cristiano Augusto Bramão (1840-1881), natural de Elvas. É considerado por Fernanda Rollo, História das Telecomunicações em Portugal, pág 107,como  “uma das maiores figuras no campo das telecomunicações em Portugal”. Alistou-se aos 15 anos no 2º Regimento de Artilharia e em 1859 foi transferido para o Corpo Telegráfico onde prestou serviço como telegrafista. Depois da extinção do Corpo Telegráfico em 1864, passou a pertencer aos Telégrafos do Reino, ao serviço dos quais veio a chefiar as estações de Setúbal, Coimbra, Elvas e Estação principal de Lisboa.
bramao 2Além das invenções que descrevemos  no campo da telegrafia, inventou o telefone de mesa Bramão, juntando numa única peça microfone e auscultador, muito antes de outros.

[10] Ver Códice citada pág. 89

[11] Nem do telégrafo Hughes nem do telégrafo Baudot se conhece notícia de que tenham tido utilização nas redes militares.

[12] Na pág 95 da Códice refere que “foi aluno e colaborador da Casa Pia de Lisboa no alvor do século XX. Posteriormente ingressou nos Correios e Telégrafos onde foi 3º oficial”.

[13] Alfredo Anciães refere que se trata de um “manuscrito profusamente decorado e primorosamente organizado”

[14] Augusto Anciães defende que António dos Santos deveria ser referido porque concebera em linhas muito gerais o projeto

[15] Francisco Mendonça e Cassiano Maria de Oliveira

Os primeiros Radiotelegrafistas em Cabo Verde durante a II G M

Post do TCor ManTm António Maria Viegas de Carvalho, recebido por msg:

Se a II guerra mundial não chegou a ultrapassar o fundeadouro do porto de Sal-Rei da ilha da Boa Vista, onde um ou outro vaso de guerra alemão, italiano ou inglês terá fundeado ao largo da ilha em observações provocatórias, no que se refere à ilha de São Vicente a coisa atingiu volumes expressivos.

E nem é de estranhar que tenha sido assim. A posse da baía do Porto Grande devia ser uma tentação para qualquer chefe militar conhecedor do mundo.

Dizem que é tão profunda e limpa de recifes, que por diversas vezes, submarinos alemães e ingleses conseguiram iludir os canhões de Monte Branco e João Ribeiro, penetrando na enseada e emergindo dentro dela, sem que os defensores tivessem coragem para os atacar.

Mapa das ilhas de Cabo Verde

Estes episódios frequentes alertaram as autoridades portuguesas que sentiram a necessidade de defender não só a baía do Porto Grande, mas também o próprio arquipélago de Cabo Verde.

Apesar do governo das ilhas estar oficialmente instalado na cidade da Praia (ilha de Santiago), a cidade do Mindelo (ilha de São Vicente) é o centro nevrálgico do arquipélago que é preciso defender a todo o custo.

Face a este perigo as autoridades portuguesas fizeram instalar nas ilhas um vasto reforço militar constituído por um corpo de tropas expedicionárias.

A missão das tropas expedicionárias tinha por base a previsão de que a acção de um possível inimigo fosse inicialmente exercida por meios navais e aéreos, seguidos de uma ou mais tentativas de desembarque de forças terrestres. Competia às tropas estacionadas nas ilhas, defender a integridade do território contra essas forças estrangeiras, beligerantes ou não.

O conceito de defesa da ilha de São Vicente consistia essencialmente numa sólida ocupação e, em caso de emergência, manter a todo o custo a posse das regiões de Monte Branco, João Ribeiro, cidade do Mindelo e do ponto de amarração do cabo telegráfico submarino “Italcable”.

“Italcable” (servizi cablografici radiotelegrafia e radioelettrici SpA) era uma empresa inglesa/italiana que operava diversos cabos submarinos transatlânticos, que ligavam cidades da costa sul da Europa às Américas e que foram cortados ou quebrados durante a II Guerra Mundial, excepto no Mindelo”.

A defesa da ilha do Sal consistia na defesa do seu já importante aeródromo.

A defesa da ilha de Santo Antão consistia em defender as suas reservas de água potável que abasteciam a ilha de São Vicente ali em frente.

O corpo de tropas expedicionárias era inicialmente constituído por várias unidades de Infantaria, agrupadas sob o comando do Regimento de Infantaria 23, Artilharia de Costa e de Contra Aeronaves e da 2ª Companhia de Sapadores Mineiros do Regimento de Engenharia 2, de entre outras.

Três meses depois do reforço das tropas expedicionárias combatentes chegarem à ilha de São Vicente, concentraram-se no Batalhão de Telegrafistas em Lisboa (Sapadores), uma secção de transmissões constituída por dezasseis radiotelegrafistas recrutados por escolha em diversas unidades do país.

Formaram-se quatro equipas de radiotelegrafistas.

Cada uma das equipas era constituída por um 1º Cabo, um 2º Cabo e 2 Soldados. Chefiavam estas quatro equipas os 1º Cabos Armindo Carvalho, António Freitas, Oliveira David e Ferreira da Silva.

Dez dias depois, em 15Ago41, sob o comando do 2º Sargento Telegrafista António Maria da Silva, estes dezasseis radiotelegrafistas formaram na parada do Batalhão de Telegrafistas, onde ouviram palavras encorajadoras do comandante TCor (Eng.º) João dos Santos Calado.

Nesta cerimónia os Soldados foram promovidos a 2º Cabos.

15Ago1941 – Partida do cais de Alcantara do Vapor Colonial

Nesse mesmo dia embarcaram no vapor “Colonial” com destino à ilha de São Vicente com paragem na ilha da Madeira. A bordo seguia um conjunto de caixotes com material de transmissões que eles não chegaram a ver durante os dez dias de estadia no Batalhão de Telegrafistas.

No vapor “Colonial” seguiam também várias famílias de civis com destino a São Tomé, Angola e Moçambique dentro do programa que foi criado pelo governo de “povoamento das colónias”.

18Ago1941 - Radiotelegrafistas a bordo do Vapor Colonial

18Ago1941 – Radiotelegrafistas a bordo do Vapor Colonial

Chegaram ao seu destino em 21Ago41, depois de uma viagem difícil devido ao péssimo alojamento e deficiente alimentação a bordo.

Sendo os únicos militares a bordo tiveram a seu cargo o transporte diário do carvão do porão para alimentar as fornalhas do vapor.

Como não havia porto para atracar, o vapor “Colonial” ficou ao largo. O desembarque é feito em botes com remadores locais. Na recepção a estes telegrafistas está o Cap (Eng.º) Guardiola, comandante da 2ª companhia de sapadores mineiros do regimento de engenharia 2. É nesta unidade que ficam adidos e aquartelados, em péssimas condições, no chamado “Parque da Engenharia”.

Dias depois reuniram os caixotes com os materiais e ao abri-los aperceberam-se das grandes dificuldades que iam ter nesta missão.

02Dez1941 - Um dos tipos de receptores-transmissores de Trincheira instalados

02Dez1941 – Um dos tipos de receptores-transmissores de Trincheira instalados

O material de telegrafia sem fios (TSF) era de fraco rendimento, constituído em parte por estações receptoras/transmissoras de “Trincheira” de origem inglesa, excepto um equipamento construído nas Oficinas de Material de Engenharia (OGME), que se previa ser o equipamento para guarnecer o Quartel-General (QG) do comando militar como posto director.

02Dez1941- Aerodinamo de electro-imanes, 52 polos, 13V - 5Amp - 60 rpm

02Dez1941- Aerodinamo de electro-imanes, 52 polos, 13V – 5Amp – 60 rpm

Antenas, baterias e aerodinamos para o carregamento das baterias completavam o material de (TSF).

O 2º Sargento António Maria informou estes radiotelegrafistas que estava previsto na Primavera de 1942 a chegada de mais pessoal e com eles material novo de origem inglesa e portuguesa.

O material de telegrafia por fios (TPF) era constituído por telefones construídos nas Oficinas Gerais de Material de Engenharia (OGME) e os S33 de origem alemã, enquanto as centrais telefónicas eram do tipo Ericssom de origem sueca.

Foi por aqui que começou a actividade dos telegrafistas.

Nov1941 - Lançamento das linhas telefónicas

Nov1941 – Lançamento das linhas telefónicas

Lançamento de linhas telefónicas de campanha com cabo simples e duplo tipo D-8, entre as diversas unidades e comandos aquarteladas na cidade do Mindelo e instalação dos telefones e centrais telefónicas.

Foram necessários quase quatro meses para instalar as linhas, telefones e centrais telefónicas e ainda instruir os soldados cedidos pelas unidades e comandos para a sua operacionalidade.

Só em Dezembro de 1941 começaram a instalar e a operar o material de TSF.

Quatro estações receptoras/transmissoras foram instaladas na cidade do Mindelo, ficando de reserva duas estações, para serem instaladas nas ilhas do Sal e Santo Antão quando fosse possível o seu transporte.

02Jan1942 - Guarnição da estação directora do QG do comando militar. (em pé) 2º cabo Magro, 1º cabo Armindo Carvalho e 2º cabo Pereira, (sentado) 2º cabo Mourão

02Jan1942 – Guarnição da estação directora do QG do comando militar.
(em pé) 2º cabo Magro, 1º cabo Armindo Carvalho e 2º cabo Pereira,
(sentado) 2º cabo Mourão

A estação directora (P1) chefiada pelo 1º cabo Armindo Carvalho foi guarnecida por um receptor/transmissor de 10 Watts, operando no comprimento de onda dos 15 metros e instalada no quartel-general do comando militar.

As estações (P2) chefiada pelo 1º cabo António Freitas e a (P3) chefiada pelo 2º cabo Martins foram guarnecidas com receptores/transmissores de 1,5 Watts, operando no comprimento de onda dos 15 metros e instaladas em posições da artilharia em João Ribeiro e Monte Branco.

A estação (P4) chefiada pelo 2º cabo Silva foi guarnecida com um receptor/transmissor de 1,5 Watts e instalada numa viatura.

Como as distâncias entre as estações eram curtas as comunicações revelaram-se eficazes em todos os períodos do dia e da noite.

A grande decepção dos radiotelegrafistas era a falta de uma estação receptora/transmissora que permitisse fazer ligações com Lisboa (posto de rádio da Ajuda).

Em Janeiro de 1942 como estava previsto, deu-se o embarque de duas estações de 2,5 Watts operando no comprimento de onda dos 15 metros destinadas às ilhas de Santo Antão e do Sal.

Para a ilha de Santo Antão seguiu a estação (P5) chefiada pelo 1º cabo Oliveira David e para a ilha do Sal seguiu a estação (P6) chefiada pelo 1º cabo Ferreira da Silva.

Ficava assim concluída a primeira rede de seis estações radiotelegráficas com um número reduzido de operadores.

03Junho de 1942 - Posto rádio do QG do comando militar. Em pé, 1º cabo Armindo Carvalho

03Junho de 1942 – Posto rádio do QG do comando militar.
Em pé, 1º cabo Armindo Carvalho

As comunicações com as ilhas de Santo Antão e do Sal, apesar de algumas dificuldades, principalmente nos períodos da noite, onde era necessário ter os ouvidos muito apurados para receber o serviço, cumpriam a missão.

Em Janeiro de 1942, as estações a operarem no Mindelo, começaram a notar interferências na recepção dos sinais.

Como a situação se agravou principalmente no receptor da estação directora instalada no QG do comando militar, o chefe da estação 1º cabo Armindo Carvalho informou o 2º sargento António Maria da situação.

O 2º sargento António Maria, depois de ouvir durante três dias essas interferências, concluiu da possível existência de um emissor clandestino na ilha, informando de imediato o Cap (Eng.º) Guardiola.

O Cap (Eng.º) Guardiola deu conhecimento da situação a um inspector da Policia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE).

A (PVDE) iniciou de imediato a procura desse possível emissor, sem resultados imediatos.

Duas semanas depois destes acontecimentos o 1º cabo Armindo Carvalho e o 2º cabo Santos, radiotelegrafistas no posto director do QG do comando militar, num passeio pela ilha descobriram uma antena estendida no telhado de uma casa.

18Jan1942 - Porto e cidade do Mindelo com localização da casa do espião

18Jan1942 – Porto e cidade do Mindelo com localização da casa do espião

Enquanto o 1º cabo Armindo Carvalho ficou de vigia à casa o 2º cabo Santos procurou o Cap (Eng.º) Guardiola e o 2º Sargento Telegrafista António Maria.

Com a chegada destes militares acompanhados por um inspector da (PVDE) e um graduado da legião portuguesa (LP), a porta da casa foi arrombada no preciso momento em que um civil de auscultadores nos ouvidos e chave de morse na mesa iniciava uma transmissão, enquanto uma mulher segurava uns papéis.

Os civis, foram identificados como sendo o comerciante Mário Ribeiro e sua mulher Isaura, chegados ao Mindelo dois meses antes destes acontecimentos, vindos da cidade da Praia (ilha de Santiago).

Foram levados presos para o forte onde estavam instalados os três elementos da (PVDE) e meia dúzia de indivíduos da legião portuguesa (LP).

Um moderno receptor/transmissor instalado numa mala, outra mala com acessórios radioeléctricos, uma bateria e um aerodinamo foram recolhidos e levados para as instalações da (PVDE).

Os Cabos radiotelegrafistas presentes nesta apreensão verificaram de imediato da excelente qualidade do receptor/transmissor.

Dias depois, os radiotelegrafistas convenceram o 2º sargento Telegrafista António Maria para falar com o Cap (Eng.º) Guardiola para este tentar a cedência do receptor/transmissor para ser instalado no QG do comando militar.

Havia possibilidades técnicas do receptor/transmissor servir para as comunicações com Lisboa (Ajuda), que era um desejo de todo o pessoal radiotelegrafista.

O Cap (Eng.º) Guardiola não conseguiu demover os homens da (PVDE) e da (LP) para estes entregarem o receptor/transmissor aos militares.

Disseram-lhe que todo o material capturado teria de acompanhar os presos quando estes fossem enviado para Lisboa.

Perante esta informação, o Cap (Eng.º) Guardiola sabendo da presença no Mindelo em visita oficial do governador Dr. José Diogo Ferreira Martins, vindo da cidade da Praia, pediu-lhe uma audiência para expor a situação.

O governador ouviu o Cap (Eng.º) Guardiola e no fim disse-lhe:

Está com sorte senhor Capitão.

Tenho aqui nos meus documentos uma comunicação do senhor ministro das colónias datada de 3 de Junho de 1940 para todos os governadores-gerais que lhe vou ler:

“Proíbo terminantemente em todas as colónias o funcionamento de postos emissores particulares, devendo os aparelhos serem apreendidos e depositados em local do Estado que VExas entenderem”.

No final da leitura o governador limitou-se a dizer ao Capitão:

Hoje mesmo vou dar ordens para que esses aparelhos sejam depositados à guarda do QG do comando militar.

E assim sucedeu, apesar da resistência dos homens da (PVDE) e da (LP).

Com a mala receptora/transmissora em seu poder a guarnição do posto de rádio do QG do comando militar, pediu ao Cap (Eng.º) Guardiola para traduzir o pequeno manual em inglês que acompanhava o receptor/transmissor.

Lido o manual, verificaram da excelente qualidade deste material nomeadamente os 60 Watts do transmissor.

Em 18 de Fevereiro de 1942, o Cap (Eng.º) Guardiola enviou, via correios, um telegrama ao Major (Eng.º) Quaresma que no Batalhão de Telegrafistas (Sapadores) chefiava o Serviço Rádio Militar do Continente, indicando que no dia 22 de Fevereiro entre as 20H00 e as 21H30 hora de Lisboa, o posto de rádio militar da Ajuda devia estar em escuta em onda-curta no comprimento de onda dos 35 metros.

O resultado desta experiência era aguardado pelos radiotelegrafistas com grande ansiedade. Manter as comunicações radiotelegráficas com Lisboa, significava poderem receber informações regulares dos seus familiares, numa altura em que os “vapores” só traziam correspondência e encomendas de dois em dois meses e, provavelmente, mais apoio por parte do Batalhão de Telegrafistas.

Quando o 1º cabo Armindo Carvalho manipulou a chave de morse chamando o posto de rádio em Lisboa (Ajuda), este respondeu de imediato.

Durante cerca de cinco minutos trocaram sinais. No final, o 1º cabo Armindo Carvalho informou o Cap (Eng.º) Guardiola, o 2º Sargento António Maria e os outros dois operadores que os sinais chegavam a Lisboa em boas condições, o mesmo sucedendo com os sinais recebidos no posto de rádio do Mindelo.

Foi uma alegria entre todos aqueles homens. Esta ligação com Lisboa ia permitir avanços nos apoios aos militares expedicionários.

Nos dias seguintes em novos horários, voltaram a fazer experiências com o receptor/transmissor capturado ao espião cujos sinais continuavam a ser muito bem recebido em Lisboa (Ajuda) e no Mindelo.

Numa destas comunicações, o 1º cabo Armindo Carvalho recebeu uma boa notícia do operador do posto de rádio em Lisboa (Ajuda), o seu amigo 1º cabo Liberal. Tinha recebido uma comunicação do posto de rádio da Escola Prática de Artilharia (EPA) em Vendas Novas, informando que ele era pai de um rapaz nascido em Janeiro e que tudo estava bem.

O 2º sargento Telegrafista António Maria da Silva que comandava a secção dos radiotelegrafistas ofereceu-se de imediato para ser o padrinho.

Em Março de 1942 o espião Mário Ribeiro e a mulher Isaura embarcaram no navio “Guiné” com destino a Lisboa. Foram acompanhados por um homem da (PVDE) e outro da (LP).

Notas Finais:

– Em Abril de 1942 chegou a São Vicente um contingente de 12 cabos e 12 soldados radiotelegrafistas, comandados pelo furriel Cassio para reforço das redes de TPF e TSF.

11Mai1942 - (da esquerda para a direita) 2º Sarg António Maria, Capº (Engº) Guardiola, Cap (Engº) Costa Pereira, 1º cabo Armindo Carvalho, 1º cabo Ferreira da Silva e 2º cabo Silva, com população local

11Mai1942 – (da esquerda para a direita) 2º Sarg António Maria, Capº (Engº) Guardiola, Cap (Engº) Costa Pereira, 1º cabo Armindo Carvalho, 1º cabo Ferreira da Silva e 2º cabo Silva, com população local

– Em Maio de 1942 chegou a São Vicente mais um contingente de 12 furriéis, 8 cabos e 10 soldados radiotelegrafistas, comandados pelo Alferes Alvarez para reforço das redes de TPF e TSF.

11Mai1942 Cap (Engº) Costa Pereira e Ten (Engº) Abel Cardoso, primeiros comandantes das transmissões no Mindelo

11Mai1942 Cap (Engº) Costa Pereira e Ten (Engº) Abel Cardoso, primeiros comandantes das transmissões no Mindelo

– Em Maio de 1942 chegaram a São Vicente o Cap (Eng.º) Costa Pereira para comandar as transmissões e o Ten (Eng.º) Abel Cardoso como seu adjunto.

Estes dois oficiais organizaram, enquadraram o pessoal e criaram as condições para o sucesso desta missão nas ilhas de Cabo Verde.

03Junho de 1942 - Militares do comando das transmissões (em cima, Cap (Engº) Costa Pereira e Ten (Engº) Abel Cardoso ladeados pelo 1º cabo Armindo Carvalho e 2º sarg António Maria

03Junho de 1942 – Militares do comando das transmissões
em cima, Cap (Engº) Costa Pereira e Ten (Engº) Abel Cardoso, ladeados pelo 1º cabo Armindo Carvalho e 2º sarg António Maria

– Com estes dois oficiais chegaram receptores/transmissores ingleses e outros construídos nas (OGME) e no (BT) que reforçaram e aumentaram a qualidade técnica das redes radiotelegráficas nas ilhas de Cabo Verde.

– O fim da II guerra mundial fez regressar ao Continente os efectivos expedicionários. Ao mesmo tempo, foram sendo extintas as unidades, comandos e serviços ali criados. O regresso do comandante militar, Brigadeiro Nogueira Soares, em Janeiro de 1945, e sobretudo a extinção do comando militar em Novembro de 1946, marcaram o final do reforço militar às ilhas de Cabo Verde.

A verdadeira mala do espião identificada em 1963 através de revistas militares

A verdadeira mala do espião identificada em 1963 através de revistas militares

– A mala com o receptor/transmissor capturada ao espião Mário Ribeiro que nunca deixou de estar controlada pelos homens da (PVDE), foi recuperada por estes no final da expedição militar e trazida para Lisboa tendo sido depositada no quartel da Legião Portuguesa (LP) no edifício da Penha de França.

– Segundo informações de um sargento radiomontador do Batalhão de Telegrafistas que prestava assistência técnica na (LP) para ganhar mais alguns tostões, este receptor/transmissor esteve pelo menos até finais dos anos sessenta, depositado no armazém de material apreendido no edifício da (LP) na Penha de França.

– Depois do 25 de Abril de 1974, o Cor (Eng.º) Bastos Moreira que sabia deste acontecimento e já tinha na ideia a criação do Museu das Transmissões, pediu ao TCor ManTm Armindo Carvalho (ex: 1º cabo radiotelegrafista do posto de rádio do QG do comando militar do Mindelo) para identificar algumas malas de comunicações recuperadas do edifício da (LP).

– Analisadas essas malas contendo receptores/transmissores nenhuma delas foi identificada como a mala capturada ao espião Mário Ribeiro. A mala utilizada pelo espião foi identificada em 1963 através de revistas militares como sendo a “mala de rádio britânica MkII” muito utilizada pelos agentes britânicos do SOE (Special Operations Executive).

Mala receptora-transmissora existente no museu das trasmissões que simboliza a mala capturada ao espião

Mala receptora-transmissora existente no museu das trasmissões que simboliza a mala capturada ao espião

– Por iniciativa do Cor (Eng.º) Bastos Moreira, foi recuperada uma dessas malas do edifício da (LP) contendo um receptor/transmissor. Foi colocada no museu das transmissões para simbolizar e prestar homenagem a um conjunto de militares radiotelegrafistas que pela sua tenacidade, abnegação e dedicação, mantiveram as ligações entre a ilha de São Vicente (Mindelo) em Cabo Verde e Lisboa (Ajuda), através dos sinais de morse durante parte do período que durou o reforço militar.

– Quando os Britânicos declararam o bloqueio económico aos países ibéricos, o governo de Lisboa resiste tenazmente às imposições do cerco económico, gravemente lesivos dos fornecimentos essenciais à economia portuguesa e das relações comerciais com a Alemanha (que considera mesmo essenciais à manutenção da neutralidade de Portugal), mesmo quando se vê obrigado a aceitar formalmente, os princípios e instrumentos do bloqueio, unilateralmente definidos e impostos por Londres.

– Todas as mercadorias destinadas a Portugal ou delas originárias ficavam sob a fiscalização do consulado Britânico, que montou pela simpatia política, pela concessão de facilidades e pelo suborno, uma vasta rede de informadores, nas alfândegas, nos portos, na polícia marítima, no exército, na marinha, nas empresas de navegação e de transportes terrestres e em todos os portos das colónias.

– Mário Ribeiro o espião capturado na cidade do Mindelo que tinha sido quatro anos antes, furriel radiotelegrafista no Batalhão de Telegrafistas, não era mais do que uma “antena informativa” dessa vasta e complexa rede de espionagem implementada pelos Britânicos e treinada pelos (SOE) que operavam em todo o território português.

– Os radiotelegrafistas formados no exército eram detentores de qualidades técnicas invulgares. Durante a guerra, alguns foram recrutados para as redes de espionagem alemãs e britânicas. No final da guerra alguns ficaram no exército mas a grande maioria foi para a marinha mercante em Portugal, EUA, Canadá, França e Inglaterra.

– O autor desta narrativa é o filho do 1º cabo radiotelegrafista Armindo Carvalho, operador da estação directora do (QG) do comando militar do Mindelo, que teve a notícia do meu nascimento pelo 1º cabo radiotelegrafista Liberal, operador na estação em Lisboa (Ajuda) durante a experiência com o receptor/transmissor capturado ao espião.

Nota:

Parte desta descrição “os primeiros radiotelegrafistas na II guerra mundial em Cabo Verde” só foi possível através dos apontamentos deixados pelo meu pai, TCor ManTm Armindo Teixeira de Carvalho (1913 – 1982).

Rede telegráfica militar – fim Séc. XIX – 2ªparte

Na continuação do artigo “Rede telegráfica militar – fim séc. XIX – 1ªparte” dá-se a conhecer os materiais utilizados, na época, nas redes telegráficas militares pela publicação de extrato do livro já referido.
Da leitura deste documento salienta-se que se utilizava nas linhas telegráficas fio de ferro galvanizado de 2 a 3 mm de diâmetro e nas linhas telefónicas fio de bronze silicioso 11/10 de milímetro.
É de salientar que os despertadores e os comutadores utilizados na rede militar foram desenvolvido pelo Alf. Martins



A45 001

telrgra web  b fig 2 3

 

telegrafia  web B fig 7 8 10 11 001

telegra web a fig 9

linhas telegráficas 46  001linhas telegráficas 47 001

telA  web 13 14, 15 001

linhas telegráficas 48  001

 

telegra web a fig 16