As TRANSMISSÕES na GRANDE GUERRA – Relatório de Soares Branco (14)


Post do Cor Aniceto Afonso, recebido por msg:

9 DE ABRIL: A PREPARAÇÃO PARA O COMBATE

Introdução

O capitão de artilharia António Miranda, chefe interino da Repartição de Informações do CEP, assinou o seu relatório final em 11 de Agosto de 1918, tendo oportunidade de explicar o desempenho da sua Repartição ao longo dos meses de presença das tropas portuguesas na frente, incluindo o 9 de Abril e as suas consequências.

A parte final do seu relatório é muito interessante para podermos ajuizar hoje das circunstâncias em que os comandos portugueses viveram aqueles primeiros dias de abril de 1918.

Eis algumas passagens:

“Vejamos, primeiramente, quais as opiniões que, em 1 de abril, os Quartéis-Generais do 1º Exército e de alguns dos seus Corpos tinham sobre a atitude do inimigo.

O boletim quinzenal de informações do 1º Exército datado de 31 de março dizia, sob a rubrica “General situation in the Army Front”: “… It is possible that an attack may be in preparation in the La Bassée area, but the evidence at present is not sufficient to enable a definitive deduction to be drawn…”

O boletim quinzenal do XI Corpo, referido também a 31 de março, dizia que se confirmava a opinião de que era de esperar um ataque a N de Lens, mas que o insucesso do ataque a N do Scarpe (28 de março) contra a direita do 1º Exército deveria ter determinado o adiamento ou a desistência dessa operação. Se, porém, o inimigo conseguisse dispor das tropas necessárias, tudo indicava que esse ataque se realizaria. (…)

Em 31 de março também a Repartição de Informações não julgava ainda provável que o inimigo efetuasse em breve, na frente do CEP, uma operação ofensiva de importância. No boletim quinzenal de informações do CEP dizia-se, com efeito (…): “O inimigo continua os seus trabalhos de reparação ao longo de toda a frente, tendo sido notada uma particular intensidade nestes trabalhos nos últimos dias da quinzena” (…) “Vêem-se novas camouflages, debaixo das quais há, provavelmente, construções em progresso (…) Nos últimos dias da quinzena foi notado grande movimento de grupos de trabalhadores…”

E nas conclusões: “Foi notado um grande número de crateras de granadas artificiais, principalmente em frente à nossa esquerda. Estas crateras podem ser posições alternativas de morteiros, ou pontos de reunião de tropas destinadas ao ataque ou defesa. Como um ataque não parece provável atualmente, o aparecimento destas crateras e a grande intensidade de trabalhos notada nos últimos dias devem relacionar-se com o aumento da já considerável organização defensiva inimiga na nossa frente” (…)

Posteriormente a 31 de março eram colhidas informações que modificaram pouco a pouco a opinião da R.I. relativamente aos intuitos do inimigo, até que, em 4 de abril, as declarações categóricas de dois alemães aprisionados pelas nossas tropas vieram fixar definitivamente a convicção de que estava eminente um ataque importante do inimigo.

No seu boletim semanal de informações referido a 6 de abril, o GHQ, porém, embora conhecendo as declarações dos referidos prisioneiros (…) tinha ainda uma opinião mal orientada sobre a situação, pois dizia: “It seems likely that a subsidiar attack north of La Bassée Canal may be made before the main attack with the object of drawing reserves away from the main battle front”.

Esta opinião, naturalmente perfilhada pelo Exército e pelos Corpos ingleses, foi fatal ao CEP, visto que conduziu a disposições que enfraqueceram, como nunca o tinha sido, a defesa da frente sobre a qual o inimigo atacava pouco depois…”

No relatório que vimos seguindo, cuja análise alargada não cabe nestes textos, enumera depois os indícios que poderiam ter conduzido a conclusões diferentes, confirmando o ataque alemão. Vamos apenas enumerá-los:

– A colocação de numerosas cortinas de camouflage e a produção repetida de nuvens de fumo;

– A grande quantidade de munições transportadas para a área inimiga na nossa frente;

– O intenso movimento de tropas;

– A evacuação da população civil de muitas localidades da área inimiga;

– O aparecimento desusado de oficiais alemães examinando por meio de binóculos as nossas linhas (…);

– O incremento dos trabalhos de reparação de estradas, caminhos, etc., e de trabalhos novos;

– A colocação de fios telefónicos;

– A preparação de numerosas passadeiras (pontões) em vários pontos da área inimiga;

– O aumento do número de aeroplanos inimigos na nossa frente;

– O aparecimento de mais um distintivo de hospital;

– A colocação de tabuletas nas trincheiras.

Contudo, o autor tem uma explicação para o facto de todos estes indícios não terem dado origem a uma forte convicção da eminência de um ataque alemão:

“É que o estudo que acabamos de fazer é à posteriori, levando por isso vantagens incalculáveis ao estudo que à priori se poderia ter feito das informações colhidas. É que também, juntas com as informações que selecionámos, milhares delas vinham, de nenhuma ou pouquíssima importância, contribuindo para a diluição das que mais tarde se verificou terem real valor; e outras ainda, contradizendo francamente estas últimas, produziam, em parte, a sua neutralização”.

É por isso que os atores da história devem sempre ser colocados no seu tempo e na sua hora, sendo que qualquer análise carece desse princípio. Contudo, neste caso, existem outras componentes que devem ser também trazidas à explicação necessária.

O relatório de Soares Branco, embora preocupado sobretudo com o apoio concedido às suas unidades, não deixa de refletir também esta perplexidade perante a iminência de um ataque, que ninguém parece ter antecipado.

As mudanças antes do combate de 9 de abril

Entre 23 de março e 3 de abril foram publicadas três ordens de operações do 1º Exército, com os números 21, 22 e 23. As alterações orgânicas e de dispositivo das forças, transmitidas pelas ordens de operações, têm a ver com muitos fatores, de entre os quais não é dos menos importantes, o conjunto de operações ofensivas de primavera realizadas pelas forças alemãs na frente ocupada pelas forças britânicas. Desenvolveremos este assunto um pouco mais à frente, mas o conjunto de grandes operações das forças alemãs obriga a vários movimentos de grandes unidades britânicas, refletindo-se portanto na ação do Corpo de Exército Português e também nos seus serviços de apoio, em especial nas comunicações.

Segundo nos diz Soares Branco, a Ordem nº 21 de 23 de março:

previa a rendição da 1ª Divisão Portuguesa pela 55ª Britânica passando a 2ª Divisão Portuguesa desde então a ser incorporada no XI Corpo Britânico (…) Nessa conformidade se haviam preparado as novas ligações dos sectores”.

Mas as mudanças não tardaram. Logo a 29 de março era recebida a ordem de operações nº 22, “antes mesmo de serem experimentadas as novas disposições tomadas”, no sentido de o Corpo Português continuar na linha da frente.

Soares Branco justifica a alteração de planos com a ofensiva do Somme iniciada a 21 de março, o que fazia retirar aos Corpos as Divisões de reserva.

Poucos dias depois, a situação evoluía e novas mudanças eram comunicadas:

Estudava-se o projeto de ligações por linhas enterradas do Corpo Português e do XV Corpo para o comando do sector Nº 2 da linha de defesa e verificava-se a possibilidade de, no caso de retirada, obter ligações entre QGC no Aire e as suas Divisões respetivamente em Pecqueur e Molinguem, quando a ordem Nº 23 de 3 de abril me foi entregue.

Determinava ela a retirada do Corpo Português e da sua 1ª Divisão da linha às sete horas do dia 6.

Tendo informado do seu conteúdo o Chefe do Serviço Inglês com quem estava tratando das questões acima referidas não pôde ele furtar-se e dizer-me: “C’est bien une guerre de mouvement, on change toujours”, a verdade era que estas mudanças contínuas podiam pertencer às exigências de uma guerra de movimento mas, para o Serviço Telegráfico essas exigências em ligações eram superiores às pedidas numa guerra de sítio em regra e sem sortidas do inimigo.

Soares Branco não deixa de fazer referência, embora curta e discreta, a um acontecimento que marcou estes primeiros dias de abril nas linhas portuguesas, que foi a recusa do Batalhão de Infantaria 7 da 2ª Brigada em marchar para a frente, assunto que trataremos mais adiante:

Os tristes acontecimentos ocorridos à entrada da 2ª Brigada na linha, epílogo do abatimento moral em que se encontravam as tropas, desorientadas por promessas que melhor fora nunca fazer e muito menos alimentar, talvez tivessem concorrido para uma tão próxima e apressada rendição.

Contudo, esta não foi a razão principal para as mudanças tão frequentes na frente portuguesa e finalmente para a retirada da 1ª Divisão e a extinção do Corpo de Exército Português, como bem assinala Soares Branco:

Por outro lado, razões de ordem bem diferente podiam conduzir ao mesmo fim.

Era o caso que desde 19 de março o XI Corpo estava na linha com uma só Divisão desde o canal de La Bassee até Shetlend Road, com a sua artilharia pesada dividida em duas Brigadas, para o Corpo Português e uma só à sua disposição direta.

Resultava de tudo isto existirem lado a lado dois Corpos um a que faltava Artilharia Pesada e uma Divisão, outro que tinha Artilharia Pesada de sobra, e duas Divisões a menos.

Fosse pelo que fosse, o que é certo é que as rendições se sucediam umas às outras todas elas denunciadas ao inimigo pela mudança que anteriormente se ordenara das posições “Call” pelas “Stations Code Calls” as quais, sendo privativas das unidades, com elas mudavam também.

Para se fazer ideia da velocidade destas rendições basta citar o exemplo da 5ª Brigada que desde 1 de abril ao dia 8 esteve destinada e recebeu os sectores de Fauquissant, linha das aldeias, Ferme du Bois acrescido do antigo subsector de New Chapelle e, por último, o antigo sector de Ferme du Bois.

O problema dos códigos a usar nas comunicações (Call e Stations Code Calls), que o comando inglês tinha alterado recentemente, levou Soares Branco a enviar uma extensa nota ao Chefe do Estado-Maior do CEP, em razão de ele considerar ter sido um caso de “funestíssimas consequências”. O problema era muito simples: as posições Call identificavam os locais nas respetivas zonas de ação e por isso se mantinham para um determinado lugar, fosse qual fosse a unidade a ocupá-lo; as Stations Code Calls eram privativas das unidades e acompanhavam estas nas suas mudanças. Para as comunicações, usar um sistema ou outro tinha uma grande importância, como nessa nota revela Soares Branco: “Agravam-se cada vez mais as confusões provenientes das mudanças das posições de chamada para as “Stations code calls”.

O dispositivo e os seus problemas

Como refere Soares Branco, entre 20 de março e 6 de abril, o dispositivo das unidades portuguesas passou por quatro fases distintas, com todas as consequências que tais mudanças acabaram por provocar no sistema de comunicações. A situação final, em 6 de abril, ficou assim:

E assim, em virtude das circunstâncias já referidas, desde as 7 horas do dia 6 de abril a frente portuguesa na linha A e na linha B, desde Shetland até Picadilly era defendida por três brigadas a 5ª, a 6ª e a 4ª das quais só esta última conhecia o sector; na linha C uma Brigada apenas, a 3ª, estava postada, tendo talvez segundo a ordem de operações Nº 22 como atribuições dividir igualmente os seus Batalhões pela defesa de Village Line e pela linha do Corpo.

A 1ª e a 2ª Brigada encontravam-se já em marcha de Querbeque para a área de Samer. (…)

Observando a situação a 6 de abril, reconhece-se que exatamente a Brigada que naquela data tinha a seu cargo esta defesa (Village Line), era a que não tinha nenhum conhecimento dessa linha, e que as Brigadas que nesse caso não estavam, e cujas secções de sinaleiros de Brigada e Batalhão haviam recebido conveniente instrução de transmissão de despachos por estafetas, ou tinham retirado para repouso ou ocupavam um sector na frente.

 As alterações não tinham contudo terminado. Por razões conhecidas, que mais à frente abordaremos, os comandos britânico e português tinham chegado à conclusão que todas as unidades portuguesas deviam ser imediatamente substituídas. É dessa decisão que Soares Branco nos dá conta:

Inesperadamente, às 23 horas do dia 8, teve-se conhecimento de que a Divisão Portuguesa começaria a ser rendida na manhã do dia seguinte pela 55ª Divisão Britânica no sector da direita, e pela 50ª Divisão no centro e esquerda.

Ao mesmo tempo, era-me solicitado que as tropas portuguesas deixassem na linha parte do seu material telefónico por empréstimo.

O QG do Corpo, que só a 11 devia marchar para Samer, era ao mesmo tempo obrigado a abandonar St Venant que pertencia já à área de reserva do XI Corpo, para ali ser instalado o QG 2 desde as 10 horas do dia 10.

À 3ª Brigada em reserva em La Gorgue era dada ordem para, no dia seguinte 9, iniciar a marcha para a retaguarda indo reunir-se à sua Divisão já em caminho para a área de Samer.

Dispositivo do CEP na noite de 8/9 Abril (clique na imagem e depois, em baixo e à direita, volte a clicar em “View full size”, para a aumentar, e de novo na imagem, para ver em grande detalhe)

Estas mudanças, contudo, não chegariam a ocorrer. O ataque alemão, operação Georgette, iniciou-se na madrugada do dia 9 de abril, como a segunda vaga da grande ofensiva germânica da primavera, e exatamente contra o sector ocupado pela Divisão Portuguesa:

Às 4 horas e 15 minutos do dia 9 começava o bombardeamento inimigo e granadas de 30,5 atingiram St Venant.

Notícias da frente em Lestrem para onde ainda a Missão Britânica conseguira que o XI Corpo lhe conservasse uma linha das que em QGC davam entrada, anunciavam que o QG da 1ª Divisão tinha sido também atingido.

Todas as comunicações em seguida com esta Divisão cessaram, mas outro tanto não sucedia ao bombardeamento que, com diferentes intervalos, ia atingindo além de St Venant, Merville, Hazebrouque, Aire, etc.. Ao mesmo tempo um rolar constante de artilharia de menor calibre dava a perceber que uma operação de grande envergadura se estaria desenvolvendo.

Conclusão

Não bastava ao Corpo Português a precária situação psicológica das suas tropas, depois de um excessivo tempo de permanência nas linhas da frente, ainda acabou por ser vítima de muitas hesitações dos comandos britânico e português que originaram as constantes alterações do dispositivo operacional e das movimentações das respetivas unidades. As dúvidas sobre a iminência do ataque alemão e sobre o verdadeiro estado anímico dos soldados portugueses acabaram por levar as decisões fundamentais para o limite do prazo disponível, acabando por coincidir com o ataque alemão, no dia 9 de abril. As consequências dificilmente não seriam as que vieram a ocorrer, como veremos na sequência da análise do relatório do capitão Soares Branco, chefe do Serviço Telegráfico do CEP.

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