As TRANSMISSÕES na GRANDE GUERRA – Relatório de Soares Branco (11)


Post do Cor Aniceto Afonso, recebido por msg:

  1. ANTECEDENTES DO 9 DE ABRIL   (I)

Introdução

O capítulo V do relatório do capitão Soares Branco é dedicado ao 9 de Abril. É o mais extenso capítulo do relatório, estendendo-se por 47 páginas. Por comparação, os quatro capítulos anteriores ocupam apenas 20 páginas no seu conjunto.

As primeiras 16 páginas são dedicadas aos antecedentes do 9 de Abril, fazendo um ponto de situação entre os finais de março e o início da ofensiva alemã. Dividem-se por uma parte inicial sobre a situação geral e o “Dispositivo das Forças”, continuada por uma informação detalhada das questões respeitantes às comunicações, assim distribuídas:

– Estações e postos existentes no Corpo e Divisões

– Linhas aéreas existentes

– Linhas de cabo enterrado

– Linhas de cabo isolado

– Comunicações óticas

– Comunicações pela Telegrafia Sem Fios (TSF) e pela Telegrafia Pelo Solo (TPS)

– Comunicações por pombos correios

O capítulo segue com uma longa referência ao combate do 9 de Abril, em que, além das considerações feitas por Soares Branco, este transcreve na íntegra o longo relatório feito pelo chefe do Serviço Telegráfico da 2ª Divisão, completado com um resumo do próprio Soares Branco.

Finalmente, o capítulo V encerra com umas “Conclusões e ensinamentos”, procurando o autor retirar dos acontecimentos as lições que se impõem para o futuro, em especial em tudo que respeita às comunicações na frente de combate.

É ao conteúdo deste capítulo V que dedicaremos os próximos textos.

 

A situação em março de 1918

Entre novembro de 1917 e março de 1918 as tropas portuguesas conheceram um período relativamente calmo em relação à ação operacional, mas muito duro em relação às condições climáticas.

Podemos socorrer-nos de um relatório do comandante do Batalhão de Infantaria 10, major António José Teixeira, para nos apercebermos do que foi, por exemplo, o Natal de 1917 nas trincheiras:

Chegou o Natal de 1917!… Dia tétrico esse, passado sob a inclemência do frio, com uma noite escura como breu.

A guerra parecia mais feroz.

Havia dois anos que os ingleses tinham fraternizado com o inimigo, nesse dia de Paz Universal (…)

Uma ordem do comando britânico, transmitida pelos comandos das Brigadas, fez enviar aos alemães um cartão de boas festas…

Partiram toneladas de granadas de todos os calibres, rajadas de metralhadoras e ainda granadas de espingarda e morteiros, às 17 horas e vinte minutos, produzindo o seu ribombar um formidável abalo em todas as edificações e um ruído ensurdecedor!

Os canhões abrem as suas fauces deixando-nos ouvir esses sons anunciadores da ruína e da destruição!

Enterrados na lama, fatigados, os nossos serranos viam passar, ébria de sangue e ódio, essa avalanche de metralha, contemplando, ao mesmo tempo, estupefactos, os fantásticos clarões dessas dezenas de bocas-de-fogo, que pareciam entoar sarcástica e demoniacamente, uma nova canção do Natal, sinistra e cheia de imprecações.

Horrível Natal! Todos, neste dia, cismaram na família, no seu país…

O jantar é triste… nem luzes, nem acepipes, a recordar vagamente a lenda do Natal!…

A neve cai nos campos e nas nossas almas. A bruma da noite envolve-nos, e as sentinelas embuçam-se, transidas, ao longo da linha que, serpenteando, segue pela nossa frente (…)

Era o Natal nas trincheiras. Triste Natal este de 1917 para os que ouviam o estrondear dos morteiros, os estalidos secos dos snipers, os estilhaços enervantes da metralha e o chac-chac estrídulo da Maxim!…

Os batalhões de apoio e reserva formavam pelos campos, à espera da terrível resposta…

Nos quartéis-generais de Brigada, a todo o momento, se esperava pelo ‘mercie’…

O inimigo, porém, não respondeu à nossa artilharia, mas arremessou sobre a 1ª linha algumas dezenas de morteiros, mantendo as guarnições numa contínua agitação.

Seguindo o mesmo relatório, sabemos que logo em janeiro, os Batalhões receberam ordem para se fazerem as rendições de quatro em quatro dias, em vez dos habituais seis dias, o que causou bastantes transtornos pela frequência de mudanças nas trincheiras, mas se justificava por parecer médico que atribuía à permanência nas trincheiras:

as doenças dos olhos que intensamente se manifestavam, causadas pelas reverberações dos campos nevados e pela atenção que a sentinela necessitava ter, de dia e de noite, sobre a terra alva que dia a dia, hora a hora se disputava.

Observando-se um grande descontentamento entre as tropas portuguesas, que comentavam não terem os alemães declarado guerra ao CEP, mas sim a Portugal, o martirizado Corpo Português atingiu o mês de março muito depauperado, à beira de um completo esgotamento.

Se retomarmos o relatório do capitão Soares Branco, ele nos dirá que:

O mês de março decorrera sem desusada atividade de artilharia e os vários “raids” levados a efeito, quer pelas Divisões portuguesas quer pelo inimigo, faziam prever operações futuras de maior amplitude.

Ao mesmo tempo uma série de informações chegadas aos Comandos igualmente tinham como consequências o fazer ativar todos os trabalhos de defesa. (…)

Infelizmente, porém, a ofensiva alemã de 21 de março, a entrada em linha à nossa direita do XI Corpo, a rendição da Artilharia Pesada do X Corpo pela do XI Corpo e várias circunstâncias de ordem moral resultantes dos acontecimentos políticos em Portugal e de novas convenções militares firmadas, vêm poderosamente contribuir para o enfraquecimento do poder defensivo das nossas tropas.

 

Um novo dispositivo das forças

Para as comunicações é essencial ter em conta o dispositivo das forças. Por isso Soares Branco dedica a este assunto um apontamento não muito longo, embora muito preciso, em que procura fazer um ponto de situação sobre a localização das unidades principais e da sua disposição no terreno.

No essencial, diz o seguinte:

Sem nos querermos alongar em considerações que a outros pertencerá fazer, indispensável se torna referir quais as disposições gerais que haviam sido tomadas pelo Comando do Corpo e das Divisões para o caso de um ataque inimigo entre o período decorrido de 29 de março a 6 de abril de 1918.

Os Quartéis-Generais do Corpo e das Divisões haviam sido fixados respetivamente em St Venant, Lestrem e La Gorgue (…)

A linha A e a linha B eram defendidas em cada Divisão por duas Brigadas com dois batalhões na linha, um em apoio e outro em reserva (…)

Uma Brigada de Infantaria em reserva por Divisão ocupava a linha das aldeias. A linha do Corpo, dividida em dois setores, devia ser defendida por forças de Artilharia Pesada empregadas como infantaria, companhias de Pioneiros, metralhadoras dos Grupos em repouso, companhias de ciclistas e um Batalhão de Infantaria de cada Brigada de reserva (…)

Desta forma o Corpo Português com a mesma área e a mesma frente prescrita na Ordem de Operações Nº 11 de 17 de dezembro ficava responsável pela defesa do seu setor sem nenhum dos elementos das unidades inglesas dos Corpos dos flancos e do reforço de Artilharia de Campanha e Pesada que o Plano de Defesa considerava. A nossa Artilharia constituída por quatro Grupos a quatro Baterias a seis peças encontrava-se distribuída por diferentes posições a coberto da linha das aldeias.

Nem uma só bateria era destinada a, coberta pela linha do Corpo, poder cooperar na defesa desta. Tal não permitia certamente a escassez dos nossos recursos e tal não fora suprido por Grupos ingleses de reforço que o Exército tivesse podido afetar, como fizera em janeiro ao Corpo Português.

Para dar apoio de comunicações a este dispositivo do Corpo de Exército Português, o capitão Soares Branco, responsável maior do Serviço Telegráfico, dispunha dos seguintes meios, como consta do seu relatório:

As tropas de telegrafistas consistiam em uma Companhia de Telegrafistas por Divisão, uma Companhia de Telegrafistas no Corpo, uma Secção de Cabo que o 1º Exército mantivera ao nosso dispor, uma Secção de guarda-fios de área, duas Secções de TSF, uma Secção de TSF no Corpo, além das Secções de Sinaleiros correspondentes a cada Grupo de Artilharia, Batalhão de Infantaria e Grupo de Ciclistas.

 

As comunicações no Corpo Português

O próprio Soares Branco anuncia a sua intenção de explicar tão demoradamente quanto lho permite a natureza do relatório, os sistemas de comunicações existentes até à véspera da Batalha de La Lys, realçando as condições em que os vários trabalhos efetuadas pelas suas unidades e por todos os seus elementos tiveram que ser feitos. São neste sentido as suas primeiras palavras:

Sem querermos precipitar as descrições dos acontecimentos que remataram, pelo menos o primeiro período da nossa participação militar com grandes unidades constituídas, procurarei descrever, embora sumariamente os sistemas de comunicações existentes até à data de 8 de abril p.p., as perturbações causadas nas ligações estabelecidas pelas sucessivas Ordens que o Comando do Corpo era forçado a transmitir, para que se possa, com pleno conhecimento de causa, avaliar dentro da esfera de ação do Serviço Telegráfico a batalha de 9 de abril, e as consequências e ensinamentos que dela se devem deduzir.

O primeiro assunto que o relatório aborda com algum pormenor são as Estações e Postos existentes no Corpo e Divisões. Mas antes de descrever concretamente as várias estações e postos, as suas ligações e posições e o uso tático desses meios, Soares Branco transmite-nos a sua visão da situação, com considerações muito pertinentes:

O caráter de estacionária guerra de sítio que as operações até então tinham tido nesta parte da frente ocidental, havia conduzido a um sistema de comunicações extraordinariamente complexo e que, se satisfazia plenamente todas as ligações necessárias aos comandos para períodos de relativa acalmia, estava naturalmente condenado a ser impotente diante de qualquer sério bombardeamento em profundidade, numa zona não inferior a seis quilómetros.

Quando a 1ª Divisão Portuguesa entrou na linha pela 1ª vez, a rendição da 49ª Divisão Britânica foi executada por diferentes fases caraterizadas por Batalhões incorporados em Brigadas Inglesas, por Brigadas incorporadas em Divisões Inglesas e finalmente, depois de substituídas totalmente duas Brigadas Inglesas por duas Brigadas Portuguesas, foi entregue ao Serviço Telegráfico da Divisão Portuguesa todo o serviço de sinais da Divisão Britânica.

A 1ª Divisão Portuguesa encontrava-se desde 16 de junho na 1ª linha com o seu Serviço Telegráfico sob a superintendência técnica do AD Signals do XI Corpo quando a 5 de novembro de 1917 a 2ª Divisão e o Corpo Português entraram na linha com a responsabilidade do respetivo setor.

Foi em março de 1915 que se dera a batalha de Neuve Chapelle e desde então para cá, a linha tendo-se estabilizado bem poderia ter permitido o estabelecimento de comunicações oferecendo maior caráter de segurança do que aquele que se encontrou montado e que forçoso era explorar e manter.

Soares Branco expõe então as razões técnicas que sustentaram as suas opções, enumerando as ligações que se tornaram necessárias e a forma com deu solução às missões que estavam a seu cargo. Dá conta das ligações da estação principal do Corpo e também do desenho e das características das restantes estações e das ligações secundárias. E como planeou e os seus serviços executaram um conjunto de trabalhos indispensáveis ao bom funcionamento das comunicações no seio do Corpo Português.

Para além das estações e postos existentes tanto no Corpo como nas Divisões, Soares Branco aborda depois as linhas aéreas existentes, distinguindo os traçados principais (entre quartéis-generais) e os traçados complementares, que serviam de transversais às primeiras. Contudo, Soares Branco não se mostra satisfeito com os traçados que foi encontrar, comentando a situação desta forma:

Olhando para uma carta que tenha em planta as linhas já referidas fácil é reconhecer-se a defeituosa implantação do sistema.

Assim, ao contrário do que se procurou conseguir para os traçados construídos pelo Corpo Português, todos os principais feixes de linhas já existentes acompanham as principais vias de comunicação e têm postes de junção em cruzamentos notáveis de vias de comunicação. (…)

E se era assim e assim sucedia para as comunicações gerais dos comandos o sistema particular montado para a Artilharia Pesada em piores condições deveria funcionar. Com efeito traçados de feixes triplos e entrelaçando-se constantemente em postes de junção envolviam todas as posições de artilharia a cerca de quatro quilómetros do front e três ramais principais desse feixe envolvente estabeleciam as ligações dele com as baterias e centrais dos postos de observação de artilharia.

Os bombardeamentos inimigos durante o mês de março e a ação da própria Artilharia Pesada amiga, que para nada se importava estabelecer as posições das suas peças a algumas dezenas de metros dos nossos traçados aéreos e até mesmo de postes de cruzamento, danificaram poderosamente as linhas existentes e acarretaram para o pessoal telegrafista das companhias divisionárias e da secção do Corpo que tinham que ser enviadas em reforço das primeiras, um considerável e improfícuo excesso de trabalho de guarda-fios.

Comunicações que deveriam ser estabelecidas a muitas dezenas de quilómetros, como as de defesa antiaérea, era quase impossível mantê-las em bom estado de serviço.

Atravessando as áreas do 1º Corpo, do Corpo Português e do XV Corpo raras vezes a simultaneidade de esforços permitia o restabelecimento das comunicações.

Para obviar a este estado de coisas foi que no fim de dezembro se procedeu ao estudo do sistema de cabos enterrados de múltiplos condutores de que trataremos no capítulo seguinte.

Mas com este sistema, com os recursos de pessoal que foram fornecidos, não era possível ser executado em pouco tempo, vários expedientes tiveram que adotar-se para evitar frequentes cortes nas ligações. (…)

O complicado sistema de feixes triplos da Artilharia Pesada praticamente estava substituído por linhas de cabo desde a segunda quinzena de março.

Era este o quadro bastante precário com que Soares Branco teve de contar para cumprir as missões que lhe estavam atribuídas. No seguimento do relatório vai ainda dar uma ideia das linhas enterradas e de outros meios de comunicações existentes e usados na zona de ação do Corpo Português, mas o panorama não se mostrará muito diferente das linhas principais.

 

Conclusão

Apesar do carácter estacionário do teatro de operações da frente ocidental, com as tropas dos dois lados enfrentando-se ao longo de uma longa linha de contacto, fortemente organizada e separada pela chamada “terra de ninguém”, nunca houve a ideia de definir um dispositivo permanente que facilitasse o apoio dos vários serviços. As necessidades táticas, como deve ser, sobrepuseram-se sempre às considerações logísticas. O que ressalta do relatório de Soares Branco não é a aceitação inevitável desse princípio, mas sim o desconhecimento e o descuido sobre as comunicações que parecia acompanhar muitas das mudanças operacionais que constantemente eram decididas e que só confundiam os serviços de apoio, em especial as comunicações.

Este período, em que esteve em linha o Corpo de Exército Português, foi particularmente agitado na recomposição do dispositivo, culminando com as profundas mudanças ordenadas nos dias que antecederam a ofensiva alemã de 9 de Abril, como veremos através do minucioso relatório que Soares Branco nos deixou.

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