As TRANSMISSÕES na GRANDE GUERRA – Relatório de Soares Branco (3)


Post do Cor Aniceto Afonso, recebido por msg:

  1. AS COMUNICAÇÕES DA ARTILHARIA

O papel da Artilharia

Na frente ocidental, a guerra de movimento foi posta em causa logo nos primeiros confrontos, em especial pela eficácia da metralhadora e da artilharia. As tentativas de ultrapassar o impasse ligado à supremacia do fogo que levou à construção de um intrincado sistema de trincheiras, não conduziram a resultados concludentes. De facto, nem os gases, nem a concentração de forças no ataque em frentes estreitas, nem as primeiras experiências com viaturas blindadas, resolveram o problema da guerra estática. Mas acabaram por ficar na memória da guerra, as longas preparações e contra-preparações, barragens e flagelações, em que eram consumidos milhões de granadas de todos os calibres pelos mais variados modelos de bocas-de-fogo da artilharia.

Embora a artilharia fosse usada desde há longo tempo, a verdade é que as condições proporcionadas pela forma como se desenrolaram as operações na frente ocidental favoreceu o seu papel, podendo dizer-se que se constituiu numa guerra feita à sua medida. A modificação mais marcante foi a ênfase dado aos obuses, de tiro mais curvo, em detrimento das peças, de tiro mais tenso, já que estas não permitiam bater eficazmente as trincheiras.

Houve inovações não só nas armas propriamente ditas, nas munições e nas cargas propulsoras, mas também na condução do tiro, no sentido da sua eficácia progressiva. Outras inovações vieram também contribuir para o emprego da artilharia, como o telefone, a TSF, o balão cativo e o avião, permitindo a observação e aperfeiçoamento do tiro, assim como a transmissão das respetivas informações entre a observação da frente de combate e as posições dos meios de lançamento.

Balão de observação

A impressionante quantidade de munições, assim como a sua variedade, criou muitos problemas logísticos de fabrico, reabastecimento e transporte, que todos os contendores foram solucionando, com recurso a todos os meios disponíveis. Exemplo desta situação foi a chamada das mulheres às fábricas de munições de artilharia, produzidas aos milhões por qualquer dos lados.

Relativamente à artilharia do CEP, toda a organização foi modificada em França, acabando constituída por seis Grupos de Baterias de Artilharia (GBA) tendo cada um três Baterias de peças 75 mm e uma Bateria de Obuses de 114 mm. Foram também constituídos seis baterias de morteiros médios de 152 mm e duas baterias de morteiros pesados de 236 mm. Quando se constituiu o Corpo de Exército, em Novembro de 1917, os 1º, 4º e 5º GBA foram integrados na 1ª Divisão e os 2º, 3º e 6º na 2ª Divisão.

Desembarque de artilharia portuguesa em Brest (Biblioteca Nacional de França)

No início de 1918 foi ainda constituído um Corpo de Artilharia Pesada (CAP), com dois Grupos de três baterias cada, o 1º em janeiro e o 2º em março de 1918.

Posição de Artilharia (Liga Combatentes)

Finalmente, Portugal constituiu também um Corpo de Artilharia Pesada Independente (CAPI), com três Baterias, que ainda atuou em França e que era constituído por um efetivo de 1328 homens, 70 dos quais oficiais.

As ligações da Artilharia

Soares Branco, quando fez a primeira visita às unidades britânicas no terreno, tinha a ideia da organização da artilharia utilizada nas manobras de Tancos. Constatou que tudo era diferente e que a artilharia portuguesa seria organizada de outra maneira para se integrar no comando inglês. Esteve por isso atento à forma como as unidades de artilharia se articulavam com as unidades apoiadas e qual era o papel das comunicações e quais as suas necessidades.

Verificou assim que ao nível da artilharia do Corpo de Exército, todas as ligações eram feitas por um telégrafo acústico para o QG do Corpo e por “dois indicadores telefónicos magnéticos de dez direções para comunicar com os Comandos do Corpo de Exército, com os Comandos de Artilharia das Divisões, com os Comandos Divisionários laterais da Artilharia, chefe do Estado-Maior do Corpo, Depósito de Munições, elementos de observação, etc.”. Havia também um quadro de entrada de linhas e um quadro de ensaio de linhas.

Soares Branco constatou também que junto da artilharia do Corpo deveria sempre “haver guarda-fios e material para reparação das linhas, sendo estas de ordinário sempre aéreas”. Para além disso, o pessoal deveria “ser fornecido pelas unidades telegrafistas do Corpo, sob a direção de um oficial telegrafista”.

Por seu lado, tanto na Divisão, como na Artilharia pesada, as ligações eram muito semelhantes às do Corpo, sendo dispensável o telégrafo acústico.

Grupo de Sinaleiros do CAP

Já no comando de um Grupo de Artilharia, o material existente constava de um “indicador telefónico magnético de dez linhas para as comunicações com o Comando da Divisão, os Grupos laterais, a Brigada e o Comando da Artilharia Divisionária”. Havia também “vários telefones para um ou dois indicadores telefónicos acústicos, que faziam a ligação com as baterias do Grupo, e os postos centrais dos postos de observação ou mesmo diretamente com aqueles postos de observação”. Na artilharia, “não se empregava nunca o fullerfone”.

Obus 114mm

Ao nível do Grupo havia ainda “estações recetoras de TSF a cargo da Royal Corps Flying para as ligações com os aeroplanos, tendo três telegrafistas de serviço aos aparelhos”.

Dada a relativa complexidade destas comunicações, constatava Soares Branco que, ao nível do Grupo se tornava necessário um oficial telegrafista.

Quanto ao posto de uma Bateria, existia um comutador de sete direções telefónico acústico e vários telefones. Embora as comunicações das baterias “com os batalhões ou unidades a que estão adstritas” se fizessem por intermédio da estação do Grupo”, isso “não era para recomendar”.

Abrigo de uma peça 75mm (coleção Garcês, AHM)

Soares Branco constatou ainda que “normalmente à frente das Baterias e à retaguarda dos postos de observação havia um Posto Central de Postos de Observação, aonde iam ter todas as linhas destes, e por onde passavam as linhas das baterias e dos Grupos”. E que “como nova precaução contra o frequente corte das comunicações, e em regiões onde o bombardeamento era usual, um novo posto como o acima indicado, mas mais avançado, era estabelecido junto dalgum dos postos de observação das baterias”.

Em suma, Soares Branco, visitando as unidades de artilharia da frente inglesa, acabou por reunir um conjunto precioso de informações que em muito vieram a contribuir para o desempenho da sua missão de responsável pelo Serviço Telegráfico do CEP. Contribuíram também para a sua compreensão da dependência que a artilharia ia criando em relações às comunicações, tanto para as unidades apoiadas como para a observação e condução do tiro.

Depois desta apreciação de Soares Branco sobre a Artilharia, o seu relatório contém um primeiro apêndice, que respeita ao memorando que ficou de apresentar ao responsável do Signal Corps do 1º Exército inglês, e que abordaremos no próximo texto.

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