Grande Guerra -IV- Divisão de Instrução, manobras de 1916 – Iª parte



As comunicações na Divisão de Instrução, nas manobras de 1916 

Aniceto Afonso
Jorge Costa Dias

 

I- As comunicações no exército britânico na Frente Ocidental, onde as tropas portuguesas seriam integradas
1. Introdução
A nossa comunicação vai abordar os seguintes aspetos:
– As comunicações no exército britânico na Frente Ocidental, onde as tropas portuguesas seriam integradas.
– Ideia geral dos exercícios efetuados pela Divisão de Instrução
– Breve história das transmissões no Exército Português
– As comunicações na Divisão de Instrução
– Balanço dos exercícios militares efetuados pela Divisão de Instrução, há cem anos.
Em primeiro lugar gostávamos de vos dizer que vamos apresentar um estudo incompleto, pois estamos a meio de uma investigação sobre “As Transmissões na Grande Guerra”. Selecionámos para este encontro, como nos foi pedido, a apresentação de um ponto de situação sobre a Divisão de Instrução e as suas unidades de telegrafistas, que aqui estiveram em 1916, em manobras.
Hoje passam 98 anos sobre a Batalha de La Lys, travada no dia 9 de Abril de 1918. Associamo-nos à homenagem que aqui está a ser prestada a todos os portugueses, nossos avós, que nela participaram.
Também passam 100 anos sobre a mobilização, concentração e instrução de uma Divisão militar (chamada Divisão de Instrução, com cerca de 20.000 homens) que aqui, bem próximo, se empenhou em exercícios militares, com vista à sua preparação para participar na guerra europeia, ao lado das tropas da Grã-Bretanha.
As razões que levaram Portugal a entrar na guerra têm sido muito discutidas, mas o que nos interessa hoje é dar-vos uma ideia sobre a forma como se comunicava no campo de batalha de então, tanto do ponto de vista territorial (comunicações para fora da zona de operações), como do ponto de vista tático, ou seja, no interior dessa zona.
De qualquer forma interessa acentuar que se tratava de preparar os militares para irem integrar unidades inglesas na frente europeia. Por isso, julgamos que, em primeiro lugar, vale a pena lançar um olhar sobre as comunicações que no início de 1916 eram usadas em França pelas forças britânicas aí presentes, e nas quais as unidades portuguesas se iriam integrar.
2. As comunicações no exército britânico
Quando a guerra começou, no início de Agosto de 1914, todos esperavam que ela fosse de curta duração. Houve mesmo os que pensaram ser possível passar o Natal em casa!
Mas essas esperanças foram destruídas logo nas primeiras batalhas, tanto pelo poder de fogo da artilharia e das metralhadoras, como pelos imensos efetivos mobilizados e participantes dessas primeiras batalhas. A resposta ao poder de fogo foi materializada pela construção da imensa linha de trincheiras da frente ocidental, o que acabou por paralisar as movimentações táticas nas frentes de combate. As tropas entrincheiradas, contrariando o pensamento militar prévio sobre o valor da ofensiva, acabaram por privilegiar as suas posições defensivas, o que levou a quatro anos de guerra sem grandes alterações estratégicas de posicionamento no terreno.
Foram estas condições que impulsionaram os esforços de desenvolvimento de novas técnicas, com o fim último de quebrar o impasse no terreno, onde se contam evidentemente o desenvolvimento de novas armas, como os gases, a aviação e o carro de combate, ou de novas táticas, como o ataque concentrado.
Linha de trincheiras 

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Aspetos de trincheiras

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Resolução do impasse

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Sem tanta evidência e muito menos conhecidos são os esforços para a implementação de comunicações capazes de responderem às exigências da nova forma de fazer a guerra. Mas esse desenvolvimento foi um facto, e nada ficou igual neste domínio, quando a guerra finalmente terminou em 1918.

 

Comunicação no Exército Britânico – Situação inicial

 

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Em 1914, os principais meios de comunicação nas unidades britânicas, eram, por um lado, os sinaleiros (nos batalhões de infantaria e nas baterias de artilharia) que se deslocavam a pé, a cavalo, em bicicletas ou motocicletas, e por outro, os telégrafos e telefones por fio, que só funcionavam depois da instalação e lançamento das redes.
Estava em uso também a sinalização visual, como bandeiras, sinais e heliógrafos, que prestavam serviço especialmente durante o dia.
Quanto aos equipamentos sem fios, com o uso do código Morse, eles estavam disponíveis, mas eram ainda muito pesados. As suas redes foram especialmente dirigidas ao suporte de ligações especiais, como as redes de informações, o uso da artilharia de ação conjunta, a defesa e a observação aérea, e sobretudo as relações de comando e controle nas grandes unidades.

Nesta altura, o sistema de segurança britânico nas ligações telefónicas e telegráficas era muito fraco. Por exemplo, muitos planos táticos eram lidos em claro através do telefone e escutados pelos alemães.
As mudanças na forma de atuar dos sistemas de transmissões britânicos foram inevitáveis, à medida que a estrutura de trincheiras se foi estabilizando até ao fim de 1914.

 

Comunicações no Exército Britânico – Novos meios

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Ao longo dos anos da guerra, apareceram no campo de batalha novos e muito mais desenvolvidos meios de comunicação, por fio e sem fio, por terra ou pelo ar, complementando e sendo complementados pelos métodos clássicos da transmissão visual, por estafeta ou pombos-correio. Mas, no final, podemos dizer que os métodos prevalecentes e amplamente usados foram o telefone e o telégrafo, a que se juntou crescentemente e em especial no final da guerra, a telegrafia sem fios.
Entretanto, como continuassem a crescer as preocupações com a capacidade de os alemães intercetarem as comunicações telegráficas e telefónicas perto da linha da frente, surgiram alguns dispositivos que, apesar de tudo, não estavam à prova de interceção, incluindo transmissores que utilizavam a terra como condutor, sem necessidade de fios ou cabos (buzzer – telegrafia pelo solo).
Quando se iniciou o ano de 1916, os serviços de telegrafia esforçaram-se por aumentar a duração das linhas do telégrafo e do telefone, assim como os níveis de segurança.
Foi por esta altura que, fruto das experiências levadas a cabo na própria frente, surgiu um novo equipamento de telegrafia – o fullerphone (projetado pelo Capitão A. C. Fuller), com muito bons resultados. Quase todas as unidades britânicas na frente ocidental passaram a usar estes equipamentos. Embora outros sistemas ainda tivessem sido experimentados, o fullerphone acabou por sobrepor-se a todos os outros. Este sistema usava a transmissão de impulsos de corrente contínua, que não eram detetados.
Era esta a situação das comunicações na frente ocidental, no seio das forças britânicas, quando se iniciaram, em Portugal, os exercícios de uma Divisão de Instrução destinada a ocupar um lugar na frente de combate, juntamente com estas forças.
É evidente que nem tudo poderia ser do conhecimento dos estados-maiores portugueses, mas grande parte dos exercícios efetuados em Tancos não refletia ainda os ensinamentos que depois vieram a ser adotados, não apenas pelas comunicações no C.E.P., mas também na restante atividade das unidades mobilizadas e integradas nas forças britânicas.

 

 

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Um comentário a “Grande Guerra -IV- Divisão de Instrução, manobras de 1916 – Iª parte

  1. Tive muita pena de não ter tido o gosto de assistir á palestra dos camaradas e amigos Costa Dias e Aniceto Afonso feita na Barquinha sobre a participação das Transmissões nas manobras de Tancos, em 1916, e que a sua publicação, vem, felizmente, colmatar.
    Os autores referem que se baseiam num estudo ainda incompleto, por a CHT ainda estar a meio de uma investigação histórica sobre as transmissões na Grande Guerra. Isso não invalida o interesse e mérito deste primeiro post onde, pela primeira vez, se comparam os equipamentos de transmissões usados pelos ingleses na Flandres e os usados na DI em Tancos.
    De facto, trata-se de um enquadramento indispensável da atuação das Transmissões nas manobras de Tancos, numa tentativa de procurar seguir, tanto quanto possível, o modelo inglês, visto que o CEP iria atuar na Flandres integrado nas forças britânicas.
    Estão assim de parabéns os dois autores e amigos tanto mais que a palestra que fizeram foi muito apreciada.
    Permito-me apresentar algumas dúvidas que tenho sobre esta matéria e que certamente serão esclarecidas com o prosseguir dos trabalhos da CHT.
    No que respeita a pessoal de transmissões na DI, pela análise dos dois posts publicados neste Blogue (sobre a DI planeada e a mobilizada) verifica-se que a DI mobilizada apresenta, no que respeita a Transmissões, uma diminuição de sinaleiros nas companhias de Infantaria o que dá lugar, no total na DI mobilizada. a uma perda de mais de quatro centenas de elementos de Tm em relação à DI planeada.
    • Essa diminuição teria sido feita para corresponder melhor ao modelo inglês?
    • A capacidade das Tm numa Divisão Inglesa seria substancialmente superior à da DI?
    • Os quantitativos de pessoal eram equivalentes?
    • Seria a qualidade dos operadores britânicos que fazia a diferença?
    Estas dúvidas não serão difíceis de esclarecer numa análise cuidada do QO das unidades de Tm da Divisão inglesa da época.

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