A evolução do conhecimento da Telegrafia ótica na última década


Post do MGen Pedroso Lima, recebido por msg:

Ao passar num alfarrabista encontrei, a preço de saldo, o livro, em 2 volumes, de mais de 1000 páginas, “XV COLÓQUIO DE HISTÓRIA MILITAR,” dedicado ao tema PORTUGAL MILITAR NOS SÉCULOS XVII e XVIII ATÉ ÀS VÉSPERAS DAS INVASÕES FRANCESAS. O colóquio foi organizado pela Comissão Portuguesa de História Militar e realizado no Palácio da Independência em 2005.

Pt militarAo folhear o volume 2, deparei com uma comunicação da Dr.ª Ana Mateus Cardoso intitulada “Meios de comunicação e transmissão do Exército português na Beira nos séculos XVII e XVIII”.

Esta comunicação continha uma fotografia, tirada pela autora, do modelo do telégrafo de bolas britânico usado nas Linhas de Torres e que, na altura, constituía a peça que julgo ser então a mais emblemática do Museu das Transmissões, no Regimento de Transmissões. A fotografia tinha a particularidade de apresentar os fios verticais de suspensão das bolas emaranhados uns nos outros o que dava ao modelo um aspeto ainda mais bizarro.

Também despertou o meu interesse a comunicação terminar com a autora a afirmar não poder “deixar de expressar a nossa gratidão ao Museu das Transmissões em Lisboa, onde temos uma visão da panóplia técnica dos nossos antepassados que muito contribuíram para o êxito de muitas missões de caracter militar.”

Tinha a expetativa de encontrar, na comunicação, uma referência detalhada ao sistema português de telegrafia ótica desenvolvida por Ciera , continuada pelo Corpo Telegráfico até meados do século XIX, tanto mais que em 1993 tinha sido publicado, pela Comissão Portuguesa de História Militar, o livro de Raeuber Les Reinsignements, La Reconnaissance et Les Transmissions Militaires du Temps de Napoleon.

A comunicação, era dedicada sobretudo às comunicações através de mensageiros ou dos serviços postais e da influência da rede estradal nessas comunicações e muito pouco referia acerca da telegrafia ótica, parecendo mostrar a pouca importância que se lhes atribuía.

Nestas condições pareceu-me que a forma como era vista a telegrafia ótica nessa altura era substancialmente diferente da visão atual, pelo que se justifica uma breve reflexão sobre o assunto.

Em 1905 era dado um grande relevo ao telégrafo de bolas, guarnecido por marinheiros ingleses, enquanto que o sistema português, criado por Ciera, era quase um ilustre desconhecido, assim como o Corpo Telegráfico, que prolongou a sua obra,

O relevo dado ao telégrafo de bolas em Portugal, em detrimento do sistema português, não me parece ter qualquer justificação. Este telégrafo teve em Portugal uma utilização que se reduziu apenas à sua aplicação nas linhas de Torres Verdes, da ordem de alguns meses, e depois da retirada de Massena não foi mais aplicado em Portugal, enquanto que o sistema português foi utilizado durante mais de quatro décadas, até o aparecimento da telegrafia ótica.

A figura de Ciera quer como ilustre cartógrafo português, quer como pioneiro das telecomunicações em Portugal é hoje muito mais reconhecida em Portugal. Para mim a sua obra, nas telecomunicações, não é menos relevante (embora muito menos reconhecida internacionalmente ) que a de outros pioneiros como Edelcrantz e de Murray, o que justifica que tanto a Arma de Transmissões como os CTT – Correios de Portugal se considerem como herdeiros históricos de Francisco António Ciera.

Ao Corpo Telegráfico é reconhecida hoje a sua importância na constituição, operação e manutenção da rede de telegrafia ótica até à sua substituição pela telegrafia elétrica, em meados do século XIX , no cumprimento da missão que lhe foi atribuída de operação da rede nacional de telegrafia elétrica, que se manteve durante nove anos quando a rede foi aberta ao público e finalmente. na passagem do pessoal do Corpo Telegráfico a organização civil, antecessora dos atuais CTT-Correios de Portugal, em 1864 quando foi extinto.

Estas mudanças de perspetiva com que assinalámos parecem resultar do seguinte conjunto de ações levadas a efeito depois de 2005:

  • A publicação de várias obras, das quais destaco o trabalho de Isabel Luna, Ana Catarina de Sousa e Rui Sá Leal “Telegrafia Visual na Guerra Peninsular”, a magistral obra coordenada por Maria Fernanda Rollo “A história das Telecomunicações em Portugal”, os dois livros da Comissão de História das Transmissões e o trabalho do académico espanhol, da universidade Complutense de Madrid, prof Giles Mutinger, “Subrevuelo da de la telagrafia óptica en lusitanea“
  • A Exposição “Telecomunicações Militares” em 2008
  • A comemoração do Bicentenário do Corpo Telegráfico em 2010
  • A comemoração dos 250 anos do nascimento de Francisco António Ciera em 2014
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