Grande Guerra – Um Raid Português – 2 relatório


 

O raid de 9 de março de 1918 deu origem ao relatório elaborado pelo Comandante da 1º Divisão, General Gomes da Costa,(AHM /Div 1/Sec 35/Cx 144), que a seguir se transcreve.

RELARÓRIO SOBRE O RAID DE 8/9 CORRENTE SOBRE O BOAR’S HEAD

Com o fim de manter elevado o moral das tropas e obrigar o inimigo a temê-las ordenei à 1ª Brigada de Infantaria a execução de um raid, que preparei sobre o BOAR’S HEAD.
O raid foi executado na manhã de 9 do corrente pela 1º companhia de Infantaria 21, com um grupo da 3º companhia de sapadores mineiros e coadjuvado pela artilharia da Divisão.
Pelas 4 a.m. a artilharia da Divisão bombardeou a frente inimiga auxiliada pela Artilharia Pesada do X Corpo que bateu vários pontos importantes à rectaguarda.
A partir das 4.55 a.m. o fogo da artilharia incidiu principalmente sobre a 2ª e 3ª linhas do inimigo à rectaguarda do Boar’s Head e acabou por fixar a barragem na Mitzi e Salad Trenchs, formando a caixa onde o raid se executou.
A artilharia como é costume desempenhou-se perfeitamente bem do seu trabalho coadjuvada também pelos morteiros da Divisão que fizeram magnífico serviço .
Às 4.30 a.m. a força encarregada do raid saiu dos entrincheiramentos e foi colocar-se na frente da nossa rede de arame esperando que terminasse a preparação de artilharia.
Às 5 horas a.m., os 3 pelotões da companhia de infantaria avançaram cada qual na sua direcção sobre a frente a atacar, acompanhados pelos sapadores mineiros.
Cortado o arame que a artilharia não conseguira destruir de todo, toda a força penetrou na 1ª linha inimiga sendo recebida com fogo de fuzilaria e metralhadoras.
O pelotão do centro avistou uns 30 alemães sobre os quais avançou decididamente, mas eles abandonaram a posição, fugindo, perseguidos pelo nosso fogo de infantaria que lhe provocou grandes baixas.
Fraccionou-se então o pelotão em três grupos que passaram a revistar os abrigos encontrando em dois deles alguns soldados alemães que foram mortos apoz curta rezistencia.
O pelotão da esquerda procedeu analogamente conseguindo apoderar-se de uma metralhadora com que o inimigo o tentava deter, apoz violento combate em que foram gravemente feridos o seu comandante Alferes Alipio e o Tenente Gonzaga.
O pelotão da direita comandado pelo alferes Henrique Augusto caiu sobre um abrigo fortemente guarnecido donde lhe feriram 11 homens: os soldados alemães foram todos mortos, menos um que ficou prisioneiro.
Os sapadores mineiros divididos em dois grupos acompanharam os pelotões dos flancos e destruíram dois abrigos de cimento e o Decauville.
XXXXXX ao Comandante do raid António Germano Guedes Ribeiro de Carvalho que não nada mais havia a fazer deu o sinal de retirar.
Resultados positivos deste raid:
Cinco prisioneiros
Número grande de inimigos morto
Destruição de dois abrigos de cimento e dum Decauville.
Aprezamento de uma metralhadora, algumas espingardas, equipamentos, capacetes ,etc.
E, sobre tudo, grande elevação moral do moral das tropas da Divisão.
Tivemos 3 oficiais, 2 sargentos, 1 cabo e 14 soldados feridos, sendo de grande gravidade, o do ten. Gonzaga, que recebeu 3 ferimentos, e o 2º sargento Couto.
Oficiais e praças demonstraram a maior bravura: o capitão Carvalho, comandante do raid, foi verdadeiramente a alma da operação, atendendo a tudo, procedendo com inteligência, comportando-se com serenidade e valor.

raid 9 março rel 001
É este o primeiro raid victorioso e completo que se executa no Corpo Expedicionário Portuguez, e tanto mais importante quanto é sabido que ultimamente o inimigo demonstra grande actividade e energia tentando vários raids na frente que teem sido repelidos.
Graças ao valor e disciplina dos oficiais e praças da Divisão, o raid teve completo sucesso e veio levantar mais ainda, se é possível o moral das tropas, manifestando já outros batalhões grande vontade de também executarem qualquer ofensiva.
Dos oficiais e praças que se distinguiram vou louva-los na Ordem da Divisão, o que para alguns é pouco, pelo que submeto à apreciação de Sua Exª o General Comandante do C.E.P. as propostas que seguem:
1º.- Capitão António Germano Guedes Ribeiro de Carvalho, comandou o raid com grande inteligência e acerto; revelou grandes qualidades de comando; dirigiu perfeitamente toda a operação; expoz-se constantemente com grande bravura e serenidade.
Proponho a sua promoção a major e para ser louvado em Ordem do Exército- Cruz de Guerra de 1ª classe.
2º.- Tenente Luis de Sousa Gonzaga: grande coragem e bravura; avançou ao assalto com grande galhardia; atacou o inimigo à frente do seu pelotão com denodo, pondo-o em fuga, recebendo 3 ferimentos muito graves.
Proponho para louvar em ordem em Ordem do Exército: Cruz de Guerra de 1ª classe. Proponho-o para ser promovido a capitão.
3º.- Tenente Henrique Augusto e alferes Alipio Cruz d`Oliveira:
Coragem e bravura com que atacaram o inimigo à frente dos seus pelotões, recebendo cada um seu ferimento, demonstrando ambos qualidades de comando excepcionaes, e valor.
Proponho-os para louvar em Ordem do Corpo; cruz de guerra de 2ª. Classe e proponho-os para promoção ao posto imediato.
4º.- Alferes Victorino Rodrigues: atacou o inimigo com bravura, contribuindo para o bom resultado da operação.
Louvo-o na Ordem da Divisão. Cruz de Guerra de 3ª Classe.
5º.- Alferes Miliciano de Engenharia António Nunes Correia de 3ª. Compª. de sapadores mineiros , tomou parte neste raid demonstrando coragem e valor, tomando parte no assalto e destruindo 2 abrigos de cimento e um Decauville.
Louvo-o em Ordem da Divisão – Cruz de Guerra de 3ª. Classe.
6º.- 2º sargento 721 Albano Joaquim do Couto conduziu com grande valor e acerto uma fracção do seu pelotão, carregando com coragem e recebendo vários ferimentos.
Louvo-o na Ordem da Divisão. Cruz de Guerra de 3ª Classe e proponho-o para ser promovido a 1º.sargento.
7º.- Soldado 538 José Faustino: valente soldado; perseguiu sosinho um oficial alemão que fugia acompanhado por um soldado conseguindo aprisionar este.
Louvo-o em Ordem da Divisão : Cruz de Guerra de 3ª. Classe; promovo-o a 1º. cabo.
8º.- Soldado 348 Sebastião Pinto: entrou num abrigo prendendo 2 alemães.
Louvo-o em Ordem da Divisão : Cruz de Guerra de 3ª. Classe; promovo-o a 1º. cabo.
9º.- Soldado 620 João Correia: atacou um alemão que manejava uma metralhadora e apoderou-se dela.
Louvo-o em Ordem da Divisão : Cruz de Guerra de 3ª. Classe.
Promovo-o a 1º. cabo.
10º.- Soldado 249 Francisco da Silva Garrido: atacou, feriu e prendeu um soldado alemão que atacava o tenente Gonzaga ;
Louvo-o na Ordem da Divisão: Cruz de Guerra de 3ª. Classe.
Promovo-o a 1º. cabo.
11º.- Soldado 642 António Leitão: atacou e abateu uma sentinela alemã dum posto de metralhadoras;
Louvo-o na Ordem da Divisão: Cruz de Guerra de 3ª. Classe.
Promovo-o a 1º. cabo.
12º.- Soldado 242 Valentim Dias Loureiro: aprisionou um soldado alemão tendo que lutar com ele;
Louvo-o na Ordem da Divisão: Cruz de Guerra de 3ª. Classe.
Promovo-o a 1º. cabo.

O Comandante da Divisão
Gomes da Costa
General

raid 9 março rel 002

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Um comentário a “Grande Guerra – Um Raid Português – 2 relatório

  1. A respeito do raid de 9 de Março de 1918 já apresentei um comentário, ao post do coronel Costa Dias de 6 de Maio de 2015 ao qual pretendo acrescentar breves considerações acerca do moral das nossas tropas na altura em que se realizou este raid com sucesso.
    Para o efeito, continuo a basear-me no texto do coronel Luís Alves de Fraga que referi no comentário de Maio.
    A ideia que tinha é que, em Março de 1918, a um mês da batalha de La Lys, o moral das tropas do CEP era muito baixo.
    No relatório do raid, o general Gomes da Costa, parece afirmar o contrário, ao referir que a finalidade do raid era “manter elevado o moral das tropas e obrigar o inimigo a temê-las”.
    Alves de Fraga parece também não estar de acordo com esta visão otimista do moral das tropas, nesta altura, ao afirmar que:: “Parece que o comando, na impossibilidade de resolver a situação da falta de repouso, que era geral nas tropas das duas Divisões, tentou arrancar delas os últimos fiapos de vontade coragem e valor. No mínimo, Gomes da Costa era um dos oficiais que mais consciência tinha da situação crítica do CEP e da possibilidade que havia de os alemães quererem explorar uma fragilidade da frente aliada”

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