Notas sobre a Grande Guerra nas colónias portuguesas (3)


Post do MGen Pedroso Lima, recebido por msg:

Este post é baseado numa carta, escrita pelo tenente de Infantaria Manuel Almeida de Oliveira, que pertenceu à 3ª expedição a Moçambique, comandada pelo general Gil e que complementa o post anterior sobre a Grande Guerra em Moçambique.

A carta foi-me facultada pela filha do seu autor, uma vizinha e amiga, a D. Clélia Morujão, parente do Cor de Transmissões José Eduardo R. Morujão.

A carta foi escrita em Mocímboa da Praia em 12 de dezembro de 1916 e era destinada à mulher, D. Branca, e na qual procura relatar a sua experiência de meados de Outubro a a dezembro de 1916.

A carta é um documento que me impressionou e vem confirmar o sofrimento que a Grande Guerra provocou aos expedicionários em Moçambique[1], em especial no período em causa, com a efémera conquista de Nevala e as consequências do contra-ataque alemão.

Limitamo-nos aqui a transcrever, na parte que interessa, este relato do tenente Almeida de Oliveira

N Moç…. “Depois que se atravessou o rio em Namoto, tendo os alemães abandonado as suas posições, foi organizada uma coluna com destino a Massassi, ponto de concentração das forças alemãs. A comandar essa coluna vai o nosso major Pires, mas sem praças nem oficiais de Infantaria 24. Algum tempo depois da partida dessa coluna foram requisitados 4 oficias de Infantaria 24 e um deles, a quem coube a sorte, foi a mim. Fui ao encontro dessa coluna que se encontrava bivacada na margem do rio, a 120 km do ponto de partida, à espera de reforços e muito desalentada.

Era a fadiga das marchas, era a forma porque tinha passado e muitas outras causas que contribuíam para este abatimento moral. Este local, onde se encontrava bivacada a coluna, chamava-se Sicumbibira e foi neste local que a coluna me deixou, a 17 de outubro, e onde permaneci até 1 de dezembro. Fiquei naquele local sozinho tendo por fim providenciar para que a coluna fosse fornecida por meio de carregadores. Os trabalhos que tive durante a minha estadia foram muitos e variados. Mas podem resumir nas obras de misericórdia. Estava no meu papel. À noite deitava-me tranquilo e agradecido a Deus por me te proporcionado ocasião de fazer alguma coisa de útil ao meu semelhante.

Como, por certo, deves saber, essa coluna ocupou Newala, que fica a meio caminho de Massassi, e chegou até Lilindi, onde se travou um combate com forças alemãs durante 5 horas, ficando estas derrotadas, mas tendo, poucas semanas depois, de regressar a Newala por não se encontrar com forças para prosseguir até mais longe. Entretanto o inimigo concentrava as suas forças e, pressentindo a nossa fraqueza, resolveu-se a atacar-nos. Cercou Newala, tomou a água donde a coluna se reabastecia e as nossas forças, dento do forte de Newala, ficaram sem terem água e sem terem alimentação e sem forças para se defrontar com o inimigo assim estiveram desde 20 a 28 de Novembro.

Organizou-se uma coluna de socorro que saiu de Palma em camiões, tendo como comandante o capitão Azevedo de Infantaria 24, indo também o capitão Sena Lopes e o tenente Carvalhais, todos de Infantaria 24.

Passaram por Sicumbibira, onde eu estava, e compenetrando-me que tinha o dever de socorrer os meus camaradas cercados, fui também. Pedi ao general licença para ir morrer a Newala e enviei-te uma carta que te seria entregue, caso Deus quisesse que eu lá ficasse.

Lá fui e não me portei mal no combate.

Fui o último a retirar depois de estar entre as nossas metralhadoras e as inimigas a uma distância inferior a 100 metros, fazendo fogo umas contra as outras.

Não conseguimos entrar em Newala, mas os nossos aproveitaram esse dia para sair do forte sem combate e seguindo por entre o mato, salvando-se mesmo os doentes. Como era de prever, perderam-se uns dos outros e foram alguns perseguidos pelo inimigo. O que passaram alguns deles não te devo contar.

Principiou aqui o nosso desastre. Os alemães vieram logo em nossa perseguição.

Os oficiais que passavam pela coluna de socorro davam todos parte de doente. Eu vim para o meu posto de Sricumbibira.

Os postos de Manta e Chinchira, que ficavam na estrada que de Lucumbiliso e se dirigia a Nissala foram abandonados pelas nossas forças e queimados à medida que o inimigo se aproximava. Chegou a vir também a Sicumbibira. Já tinha passado todo o material de guerra para o outro lado do rio e estavam a passar o rio as forças que tinham vindo de Chinchira, quando uma força alemã rompeu fogo. Ao mesmo tempo e a um sinal dado se incendiaram todas as palhotas que tinha mandado construir e a coberto do fogo e fumo se passou o rio sem perigo algum. Depois da passagem do rio ainda fomos incomodados por alguns tiros de patrulhas alemãs que tinham passado o rio e que pretendiam cortar-nos a retirada para Nangadi, o nosso principal posto em nosso território e a 8 quilómetros do rio. Rapidamente avisei este posto do que se estava passando e volto a escolher posição para resistir ao inimigo. Nessa altura começa o forte de Nangadi a ser bombardeado por um peça alemã posta em Chinchira e todos os praças e oficiais que nestes posto se encontravam… fugiram a caminho de Palma, acometidos de um pavor terrível. Tudo desmoronava. Eu encontrava-me a alguns quilómetro para além do posto, com algumas cem praças e mais 3 oficiais à espera do inimigo.

O Chefe do E. Maior que se encontrava também comigo vai ao posto para nos mandar reforços e alimentação e não encontra ninguém. Pouco depois mandou-nos retirar para o forte com toda aquela gente. Ao chegar ali vem mais uma dúzia de granadas e fugiu quase tudo, ficando apenas algumas praças de Infantaria 28, o Chefe EM, eu e mais dois oficiais. Estivemos ali algumas horas e depois de ter passado um automóvel que conduzia um grande número de oficiais vindos de Newala. Era meia-noite quando deixámos o forte e assim queimámos uma dezena de contos.

Retirámos para o alto da serra de Nangadi e ali fiquei com alguns oficiais e algumas praças à espera dos acontecimentos e à espera dos retardatários fugitivos de Newala que ali iam chegando. Tudo procurava escapar-se. E eu, que não tinha comando de tropas por ali fui ficando.

Em 7 de Dezembro fomos informados que o inimigo se preparava para atacar o posto de Matchemba e ficaríamos assim com a retirada cortada e sem possibilidades de nos salvarmos. Resolvemos ir sobre Matchemba e, de qualquer forma, auscultar a guarnição daquele posto. Só depois de 11 hora de marcha sem descanso chegámos perto daquele posto e verificámos que este estava a arder e tinha sido abandonado pelas nossas forças, mas não conseguimos saber notícias do inimigo.

Descansámos ali um pouco e prosseguimos a marcha para Pundanhare já de noite quando inesperadamente rompeu o fogo do inimigo que se encontrava emboscado no mato e que tinha presenciado todos os nossos movimentos. Deu-se então a confusão e tudo se espalhou pelo mato, indo um para um lado e outro para outro. E eu confesso agora a minha fraqueza. Não quis morrer ali ou ficar prisioneiro e fugi também.[2]

Por fim conseguimos dar com um caminho que nos conduziu a Mocímboa da Praia, onde estou há três dias e donde te escrevo. Esperamos amanhã umas lanchas que nos conduzirão para Palma.

As praças que aqui chegavam e os oficiais vinham num estado de fadiga e cansaço horrível e não admirava, atendendo à grande distância que percorremos e cerca de dois dias e duas noites e a quase absoluta falta de alimentação. Só eu vinha com a mesma saúde e sem cansaço algum. Devo-o a um burro que me apareceu e que pareceu se oferecer para eu o montar. Não comeu e caía para o chão logo que eu o desmontava.

O meu cavalo, o único dos de Infantaria 24 que tinha escapado à morte e que estava forte e bonito lá ficou com o tratador e ainda não sei o que foi feito deles…[3]

Apenas duas coisas tenho pena: do cavalo e do tratador e de um frasco de mel que eu, com tanto cuidado, conservei para levar para aí. É uma especialidade.

De tanta coisa que podia contar-te as deixarei para quando aí chegar.

As doenças, a nossa incompetência e sobretudo a nossa falta de caracter de sentimento pátrio foram e hão de ser a causa deste nosso desastre e de outros futuros. É uma pátria em ruínas.
……..

[1] Sobre este assunto ver o livro “Epopeia Maldita”, a que se refere o post de 21 de março de 2014

[2] Nota posterior do autor: Ainda nesta última tragédia fui o último e o único a ficar e só quando não vi outro recurso que não fosse escapar-me do inimigo. E chamo-lhe fraqueza! E digo que fugi!

[3]Nota posterior do autor: Ainda voltei a ver o meu cavalo. Estava em Palma quando lá cheguei, mas já atacado de doença que matara todos os outros. O meu foi o último, ficando ainda vivo quando baixei ao hospital.

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