Grande Guerra – Um Raid Português – 1projecto


De uma forma geral a Frente Ocidental, após a estabilização das forças em confronto, tornou-se  numa guerra de trincheiras. No conflito, para além dos grandes ataques procurando romper a linha de defesa adversária, como o ataque a que o CEP e os Corpos de Exército Ingleses adjacentes foram sujeitos a 9 de Abril, verificavam-se confrontos de dimensão reduzida com o objectivo de provocar destruição nas linhas inimigas e produzir baixas  e elevar o moral das tropas.

Transcrevemos o plano do raid para uma companhia elaborado pela 1ª secção da 1ª Rep. do Q.G. da 1ª Div do CEP(AHM/DIV 1/35/492), elaborado em 6/3/1918

“Projecto de raid de companhia para 9/10

1º.-O Comando da 1ª Brigada de Infantaria mandará executar um raid sobre a linha inimiga na noite de 9 de corrente.

2º.-OBJECTIVOS -a)- A 1ª linha inimiga , e Decauville e a linha de apoio ( 2ª linha) no quadrante S.10.d.,limitadas a Norte pela Mitz Trench.

b)-Destruir o Decauville e produzir baixas.

3º.-EFECTIVOS- Uma companhia de infantaria e um oficial e 24 praças da 3ª companhia de Sapadores Mineiros especialmente  encarregados da destruição de Decauville e abrigos em cimento.

4º.-Artilharia – O Comando de Artilharia da Divisão ordenará que desde já se comecem  batendo o arame e a 1ª linha inimigos entre S.11.a.00 e a Nora Trench; ao mesmo tempo, fará bater outros pontos da frente inimiga para deixar este na incerteza do nosso objectivo.

5º.- HORA –  O Comandante da Brigada fixará os limites em que o raid se efectua e o  Comandante do raid fixará a hora zero.

O comandante da Brigada fará as comunicações necessárias com a precisa antecedência  ao Comandante da Divisão, ao Comando de Artilharia e aos das Brigadas dos flancos.

6º.-a)- À hora zero menos 15 minutos a Artilharia Divisionária rompe fogo sobre a 1ª linha inimiga entre S.11.a.00.00 e Nora Trench.

b)- À hora zero a barragem alonga-se lentamente fixando-se às zero mais 5 minutos na Salad Trench e fechando a caixa pela Stephene Walk  até à 1ª linha.

7º.- MORTEIROS- O Comandante dos Morteiros da Divisão empregará os morteiros  pesados, médios e ligeiros do sub-sector esquerdo de Ferme du Bois em cooperação com a artilharia seguindo a sua marcha e ajudando a fechar a caixa.

8º.- Às zero horas a força de Infantaria do nº 3, avança dirigindo um pelotão  sobre A, outro sobre B e o terceiro sobre C.

O grupo de sapadores acompanhará o pelotão que entra por C (Mitz Trench).

O Comandante de Companhia fixará os efctivos das patrulhas  de protecção dos flancos.

Os 3 pelotões avançarão decididamente conduzidos pelos respectivos oficiais, todos com o firme propósito de atingir a 2ª linha que ocuparão dando tempo a que os sapadores efectuem o seu trabalho.

Ao sinal de retirar dado pelo Comandante de Companhia, o pelotão do centro retira para a 1ª linha inimiga e aí  estabelece-se para proteger a retirada dos outros dois, estes retiram-se ao sinal que fixar o Comandante da Companhia. Recolhidos os três pelotões à 1ª linha, a retirada prosseguirá por forma análoga, sempre dirigida pelo Comandante de Companhia.

9º.-Acção das outras forças do sector- a)Às zero horas toda a frente do Neb ao Cour d`Avoué estará guarnecido e baterá com morteiros de trincheira a frente inimiga correspondente para auxiliar a ilusão do inimigo sobre o ponto de ataque.

b)-O Comandante de Batalhão fará aproximar as companhias de apoio e reserva para poderem ocupar rapidamente posições prevendo o caso de contra ataque inimigo.

c).- O Comandante da Brigada fará deslocar para a posição de espera o batalhão de apoio afim de parar a qualquer eventualidade.

10º.-MISSÔES- O Comandante de Batalhão verificará que o Comandante de Companhia tenha previamente fixado a missão a cada homem, a saber:

Para corte de arames;

Limpadores de trincheiras;

Limpadores de dugouts;

Fracções para fechar as entradas das trincheiras;

Espingardeiros e granadeiros;

Metralhadoras;

Flanqueadores;

Ligações telefónicas para a rectaguarda;

Maqueiros;

Escolta de prisioneiros.

11º.- Comando do Batalhão- O comandante do Batalhão fixará além do que já especificado:

Acção da 1ª linha para auxiliar o raid com fogo sobre os flancos;

Maneira de apoiar o raid sendo preciso;

Maneira de proteger a retirada Prevenção aos batalhões contíguos;

Sinal de retirada.”

Em relação às ligações telefónicas para a retaguarda, a missão estava prevista no plano e era um dos pontos que o comandante de Batalhão devia verificar junto do respectivo comandante do raid.

O raid  executou-se na data prevista, com exito, e foi feita referência pelo General Gomes da Costa, Comandante da 1ª Divisão, no seu relatório.

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Um comentário a “Grande Guerra – Um Raid Português – 1projecto

  1. Em relação a este post, relativo ao raid de 9 de Março de 1918, de iniciativa portuguesa,permito-me apresentar algumas considerações, baseadas no único texto que conheço sobre esta matéria, da autoria de Manuel Alves de Fraga.(1)
    Neste texto indica-se que os combates entre a infantaria alemã e a portuguesa se intensificaram a partir de março de 1918, tendo-se verificado que “se levaram a efeito mais confrontos entre a infantaria alemã e portuguesa, do que durante o quatro meses de 1917.”
    Refere ainda que se verificaram 6 confrontos. Quatro dos quais de iniciativa alemã (a 2, 7, 12 e 14 de março) e dois de iniciativa portuguesa (a 9 de março, a que se refere o post e a 2 de Abril). Os raids de iniciativa alemã teriam sido uma preparação alemã para a ofensiva que se desencadearia em 9 de Abril.
    O raid português de 9 de março teria sido a mais importante ação ofensiva realizada pelo CEP, teve sucesso e deu lugar a que fossem distinguidos 12 militares, “dos quais 10 foram promovidos ao posto imediato e também foi proposta, para a totalidade, a condecoração com a cruz de guerra, nas diferentes classes.”
    O raid de 2 de Abril não teve o mesmo resultado, porque, explica Fraga, os cerca de 120 homens que atacaram as trincheiras alemãs “as encontraram desguarnecidas, indício de que estes haviam desconfiado da operação que se preparava. Ao retirarem, as tropas portuguesas foram bombardeadas pela artilharia adversária, sofrendo doze feridos e 11 desaparecidos.”
    Em relação ao raid de 9 de Março, o plano do raid publicado no post indica que a finalidade da operação era “A 1ª linha inimiga, e Decauville e a linha de apoio (2ª linha)“, pelo que as forças incluíam elementos de sapadores mineiros.
    Ao indicar a finalidade desta operação, Fraga cita o general Gomes da Costa que no seu relatório escreveu que a finalidade do raid era “manter elevado o moral das tropas e obrigar o inimigo a temê-las”. Nada a respeito do Decauville, pelo que fiquei com dúvidas se esse objetivo teria sido alcançado, o que a descrição de Fraga não refere. No entanto, julgo que teria acontecido, pois indica o oficial miliciano de Engenharia da 3ª Companhia de Sapadores Mineiros como um dos propostos para cruz de guerra.
    De assinalar que este post tem a virtude de assinalar a presença das transmissões (telefónicas) neste raid de 9 de março de 1018.
    (1) Publicado na obra “Portugal na Grande Guerra”, coordenada por Aniceto Afonso e Carlos Matos Gomes, Ed Diário de Notícias, 2003, págs. 404 a 410.

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