História das Transmissões Militares

Cor António Pena – uma notável história de vida (1)

Anúncios

INTRODUÇÃO

         Na quinta-feira 28 de junho de 2012 estive ausente da reunião semanal da Comissão da História das Transmissões (CHT) realizada, como habitualmente, no Regimento de Transmissões. Nesse dia à noite, por e-mail, recebi convite do TCor Tm (engenheiro eletrotécnico) Jorge Golias para preparar a minha história de vida na sequência de aprovação, por unanimidade, da Comissão da História das Transmissões (CHT), estando nessa manhã presentes doze elementos. O e-mail explicava que, “tinha uma história de vida extremamente interessante e digna de ser contada e conhecida”. Agora, quando a atenção é um bem escasso, embora se considere que a história de vida pouca curiosidade possa despertar, aceita-se o convite pela consideração que se tem pelos membros da CHT e respeito pelo arcanjo que anunciou a decisão.

     A história articula-se em nove números (capítulos), pistas designadas a seguir, hipoteticamente justificadoras de buscas que possam demonstrar o interesse dos camaradas da CHT pela sua apresentação e divulgação.

Cap 1. Origens e vivência pilónica (Instituto Militar dos Pupilos do Exército – IPE)

Em 1947, a família, pai, mãe e duas irmãs mais novas, morava em Vargos, pequena aldeia do concelho de Torres Novas. O pai era sargento do Exército e prestava serviço na Escola Prática de Cavalaria, tendo ficado satisfeito quando tomou conhecimento da passagem do filho no exame de admissão aos Pupilos, embora tenha gostado, em alternativa, que tenha sido aprovado no exame de admissão ao liceu de Santarém (ano de elevada quantidade de reprovações).

Na altura o curso dos Pupilos para que se sentia vocacionado (curso médio – bacharelato de engenharia) era afamado em preparação académica e profissional, havia oferta de trabalho bem remunerado e prestigiado, e ainda proporcionava poder simbólico nos meios industriais do Estado e das empresas, ser antigo estudante dos Pupilos do Exército. Entretanto o regime ditatorial constrói o Decreto-Lei nº 37136, publicado na OE, 1ªSérie, nº7 de 15 de novembro de 1948, que altera o plano de estudos do Instituto Profissional dos Pupilos do Exército.

Publique-se e cumpra-se como nele se contém.

Paços do Governo da República, 5 de Novembro de 1948. António Óscar de Fragoso Carmona – António de Oliveira Salazar – Manuel Gonçalves Cavaleiro de Ferreira – João Pinto da Costa Leite – Fernando dos Santos Costa – Américo Deus Rodrigues Thomaz – José Caeiro da Matta– (…).”

Ainda hoje alguns oficiais engenheiros da Arma, oriundos da Engenharia (engenheiros civis), por terem em concreto apreciado o trabalho dos jovens sargentos radiomontadores oriundos dos Pupilos, procuram conhecer o ambiente que orientou a construção do DL nº 37136 de 1948, pelo que se transcrevem algumas partes, como apetência para se estudar a totalidade:

A recente reforma do ensino profissional e técnico, preenchendo uma das mais instantes necessidades do ensino em Portugal, permite refundir o regime de estudos do Instituto Profissional dos Pupilos do Exército, transformando-o em escola de recrutamento de artífices e técnicos indispensáveis à vida e eficiência da força armada, segundo a modalidade orgânica que lhe é imprimida pelo desenvolvimento da ciência e pelo progresso da técnica e da indústria.

Art1º.A partir do ano lectivo de 1948-1949, o plano de estudos do Instituto Profissional dos Pupilos do Exército comporta:

  1. a) Um ciclo geral preparatório de dois anos, comum a todos os cursos ministrados no Instituto;
  2. b) Um segundo ciclo de estudos, abrangendo os quatro cursos de formação profissional seguintes:

3) Cursos de montador-electricista e de radiomontador, com a duração de quatro anos, sendo os três primeiros anos dedicados à formação de montadores-electricistas e o último destinado à especialização de radiomontadores;

Art2º. Conjuntamente com os estudos literários e profissionais será ministrada aos alunos instrução militar, que abrangerá os programas dos cursos de sargentos milicianos de infantaria, a fim de que, terminados os cursos os alunos possam ingressar directamente no quadro dos serviços especiais do Exército, na categoria correspondente à sua especialização, como sargentos ou furriéis do quadro permanente.

Art6º. Terminados os exames, no final de cada ano os alunos farão estágios nos estabelecimentos do Ministério da Guerra durante os meses de Julho e Agosto. O mês de Setembro será exclusivamente destinado a férias.

Art7º. Os estágios a que se refere o artigo anterior serão realizados:

c)Nas Oficinas gerais de material de Engenharia, para os alunos do curso de mecânica de automóveis, de montador-electricista e de radiomontadores;

Art18º. O número de alunos a matricular anualmente em cada curso ou ciclo é limitado e fixado pelo Ministério da Guerra, conforme as conveniências de recrutamento dos quadros. Em regra, os candidatos filhos de oficiais são destinados ao curso médio de comércio para futuro ingresso no curso de administração militar da Escola do Exército. Além destes, podem, dentro do número estabelecido, matricular-se outros alunos que tenham terminado o curso de formação com classificação geral igual ou superior a 12 valores.

Paços do Governo da República, 5 de Novembro de 1948.

Nunca o meu pai e outros encarregados de educação se conformaram com a aplicação do DL a quem já estava a estudar nos Pupilos e também nunca aceitaram a passividade da direção, professores e antigos estudantes do Instituto. Este DL que provocou o ingresso de 2ºsarg radiomontadores na Arma de Engenharia a partir de 1952, a maioria com 18 anos e bem qualificados, merece que se saliente, pelo menos, o seguinte:

– O DL atingiu os estudantes que já frequentavam o Instituto desde o ano letivo 1944/1945 (saída em 1952), 1945/1946 (saída em 1953) e 1947/48 (saída em 1954), ou seja, aplicou-se a quem estava no Instituto a frequentar cursos muito diferentes e de outro futuro.

– No conjunto que ingressou em 1954 (18 de maio), estavam incluídos: Rui Dias (primeiro do curso por ter tido 14 valores na classificação de Instrução Militar, cuja nota tinha o mesmo coeficiente que o conjunto formado por todas as outras unidades curriculares, tendo todos os colegas de curso obtido 11 valores); Américo Lourenço (passou à disponibilidade logo que lhe foi possível não tendo prestado serviço no Ultramar); António Pena [único que acedeu ao posto de coronel e prestou o máximo de serviço ativo (18 aos 60 anos)]; Artur Cunha [único oficial da Arma de Transmissões graduado no “Processo do 25 de abril de 1974” (graduado em tenente-coronel)] e outros de mérito reconhecido em funções desempenhadas na Metrópole e no Ultramar.

– A partir de 1954, BTm3 (Tancos), Escolas Práticas das Armas e algumas unidades de Infantaria, Artilharia e Cavalaria, Estado da Índia (na Engenharia, Comp e Dest e nos Batalhões de Caçadores) os jovens 2ºsarg radiomontadores foram importantes para a Manutenção dos Sistemas de Transmissões, havendo ainda alguns que se envolveram na Exploração. A maioria interligou-se técnica e socialmente com os oficiais, quer da Arma de Engenharia (engenheiros civis) quer das outras Armas (Inf/Art/Cav/Eng) das unidades utilizadoras onde estavam integrados.

– Pelos afazeres (missões/tarefas), pelas promoções (ingresso na carreira de oficial) e saídas para a vida civil, grande parte destes jovens foi esquecendo a contrariedade sofrida no Pilão.

Na sequência desta injustiça e por ter sido, nos últimos dois anos de curso, agredido por um colega ligeiramente mais velho, deixei o Instituto na primeira data possível, 31 de março de 1954 [apenas o mesmo aconteceu ao colega de curso, Sebastião Rego de Almeida, ambos não aguardaram a colocação nas unidades (18 de maio) no Instituto]. Apenas entrei de novo no IPE depois do “25 de abril de 1974”. Esta entrada concretizou-se por influência de dois excelentes funcionários civis do Colégio Militar que eram antigos estudantes e a quem custava compreender que o prestigiado major de transmissões, professor de matemática, da atividade circum-escolar de eletrónica e da parte militar relacionada com a sua Arma, que também era antigo estudante, não falasse/gostasse do Pilão.

Durante uma visita ao IPE do Presidente da República, Gen Ramalho Eanes

Desde o início da vida profissional, aos 18 anos, senti respeito e consideração por parte de camaradas e superiores por ser antigo estudante dos Pupilos. Essa assunção resultava da fama do Instituto e da postura revelar humildade, espírito de sacrifício, lealdade, iniciativa, disciplina e, sobretudo, “Querer é Poder”.

Cap 2. Carreira militar normal (1954 a 1996)

– EPI, Mafra (maio de 1954, 2ºSarg).

– BCVG, Índia Portuguesa, Goa (1954/57).

– Escola Prática de Cavalaria, Santarém (1957/63, 1ºSarg e SargAjd).

– Curso para Oficial (ECS, Águeda, 1960/62).

– Campo de Tiro de Alcochete [1962/63, SargAjd (funções de oficial)].

– Escola Militar de Electromecânica, Paço de Arcos (1963/1974).

– Curso para Oficial Superior (EPT, Sapadores – Lisboa)

[SargAjd (funções de oficial), alferes, tenente, capitão e major]:

* BTm361 (CRMMTm), Luanda/Angola (1966/68).

* PelTm, depois CompRMMTm, Bissau/Guiné (1970/72).

* OfTm da Região Militar do Sul (Évora), PREC (1974/1975).

– Colégio Militar (1974/79) – major e tenente-coronel

– Of Comunicações/Tm do Comando Operacional do Continente (COPCON), PREC (1974/1975)

– Direção da Arma de Transmissões e Direção dos Serviços de Transmissões (1979/96).

[tenente-coronel e coronel – de 1996 até à passagem à situação de reserva (60 anos)].

Após a passagem à reserva, sócio efetivo da Revista Militar (1993), diretor-gerente do executivo da direção, de 01 de janeiro de 2001 a 31 de dezembro de 2008.

Condecorado com a Medalha de Dom Afonso Henriques – Patrono do Exército, 2ª classe (Último ato do General Salazar Braga como CEME, por passagem à reserva por limite de idade).

No Exército fui distinguido com 21 louvores e 12 condecorações:
Nos postos de tcor/coronel foram-me concedidos nove louvores (três de general Chefe de Estado-Maior do Exército, quatro de tenente-general e dois de major-general) e sete condecorações [duas medalhas de prata de serviços distintos, medalha de mérito militar/1ª classe (esta 03mar2009), medalha de mérito militar/2ª classe, Cavaleiro da Ordem Militar de Avis, medalha de ouro de comportamento exemplar e a medalha de D. Afonso Henriques – Patrono do Exército/2ª classe].

Anúncios

Anúncios