Coronel Cruz Fernandes – Uma notável história de vida (3)


Cap. III – Dinamização cultural

Campanhas de Dinamização 1974-1976

1. Antecedentes

A acção de Castro Daire insere-se nas Campanhas de Dinamização Cultural, iniciadas no Verão de 1974, numa altura em que Portugal despontava para a democracia e em que os partidos emergentes começavam a procurar implantar-se por todo o país, lutando entre si e procurando uma aproximação ao MFA o qual, por sua vez, iriam progressivamente tentando influenciar.

As Campanhas tinham como órgão coordenador nacional a Comissão Dinamizadora Central (CODICE), à frente da qual se encontrava o Comandante Ramiro Correia.

A ideia das campanhas era, numa primeira fase, esclarecimento político das populações, que incluía a explicação do programa do MFA como preparação para as eleições à Constituinte. Levar a “cultura” às populações (grupos de teatro, bonecreiros, cantores de intervenção, projecções de cinema, pintura mural, etc.), fazer o reconhecimento das necessidades mais prementes do país profundo e real e também despertar e recolher elementos da cultura local.

Dentro desta orientação, impulsionadas pela CODICE, realizavam-se então inúmeras acções itinerantes e de relativamente pequena duração, com equipas envolvendo oficiais e civis, que iam percorrendo todo o país. Outras organizações o fizeram, nomeadamente as ligadas às artes e cultura.

As acções tiveram, de uma forma geral, um acolhimento inicial muito positivo e havia povoações que pediam a sua realização por se considerarem discriminadas ou, como diziam, “por o 25 de Abril ainda lá não ter chegado”.

A aceitação das campanhas foi, contudo, esmorecendo com o tempo. Por um lado, dada a sua descentralização, nem sempre os seus protagonistas respeitavam a regra de que as campanhas não deviam nem pretendiam ter orientação partidária, defender opções ideológicas ou empregar uma linguagem inadequada, que revelasse desconhecimento e desrespeito da cultura local. As campanhas teriam de ter em conta a resistência das populações a abandonar valores ancestrais pelos quais sempre se tinham guiado e a aceitar novos valores. Por outro, as forças políticas mais conservadoras cedo procuraram o descrédito da Dinamização, o que acabaria por vir a ter eco na opinião pública, acentuando os seus erros e apontando-as como um pretexto para o avanço do comunismo no país. Esta posição começou com o “sound bite” de “militares aos quartéis” de Sá Carneiro e foi-se acentuando com o avanço do processo, atingindo a radicalização no “Verão Quente”.

A derrota de Spínola, em 11 de Março, deu lugar a profundas transformações económicas e sociais no país, dando ao processo político um ritmo mais acelerado, o que também se reflectiu na prioridade que, nas Campanhas, a CODICE passou a dar ao esclarecimento das populações com ênfase no Programa do MFA, tendo em conta a eleição para a Assembleia Constituinte, a realizar no mês seguinte.

É dentro desta nova dinâmica da CODICE que o comandante Ramiro Correia, a 12 de Março, convida o capitão Cruz Fernandes, juntamente com outros oficiais, para dirigir uma campanha de cerca de um mês em Viseu, região considerada então prioritária, por ser a de mais difícil penetração.

Na altura desta nomeação, eu já me encontrava há cerca de um mês na CODICE, onde entrara também a convite de Ramiro Correia, tendo com ele participado em várias iniciativas da Comissão. No entanto, já tinha experiência deste género de actividades, iniciada em Moçambique, no Verão de 1974, em acções dirigidas à população e, depois do meu regresso, continuadas na Escola Militar de Electromecânica, em Paço de Arcos, onde participei, a partir de Janeiro de 1975, em várias acções realizadas pela unidade, nas quais continuei a ter boa aceitação por parte dos auditórios.

Ao aceitar a nomeação para a campanha de Viseu, sabia que a minha carreira técnica profissional seria interrompida numa altura crucial, e que a decisão envolvia certo risco.

Ao chegar a Portugal, relativamente jovem, com uma experiência técnica comprovada e não me faltando qualidades de trabalho, tinha as maiores facilidades em continuar a minha carreira técnica que vivera apaixonadamente, pois isso “Era o que sabia fazer melhor”.

A prioridade, porém, passou a ser outra. A carreira dera lugar à generosidade. Sentia que era a altura de fazer qualquer coisa pelo país numa perspectiva de mudança, em que me empenhei intensamente e para o que não são alheias as minhas origens. Mas houve outro factor que me marcou profundamente e que também influenciou essa decisão, que foi a de ter sido “ofendido na sua dignidade e lesado na sua progressão na carreira, sem que uma justificação alguma vez tivesse sido dada”.

Em face da minha nomeação pela CODICE, apresentei-me, com os outros oficiais das várias equipas, no Regimento de Infantaria de Viseu, onde o Cap. Gertrudes da Silva continuava a ser peça chave do MFA. O Cap. Mendonça da Luz, destacado local da CODICE orientou todo o processo.

Em Viseu, os concelhos problemáticos pelos antecedentes conhecidos, eram Castro Daire e Sernancelhe devido a um caciquismo duradoiro e arreigado. É no cumprimento desta complexa e difícil missão que tomo contacto com Castro Daire. A forma como decorreu a campanha que dirigi, que se descreverá a seguir, iria ter fortes repercussões quer em mim próprio, quer em Castro Daire e nas suas gentes.

Todo o tempo tem o seu tempo

A Democracia Representativa vinha a caminho, mas em 1975 o sistema continuava muito complexo. O MFA era solicitado em muitas frentes.

A mim coube-me a Dinamização em Castro Daire.

Fui alcunhado em Castro Daire de Capitão Dinâmico e de Capitão Povo, dois epítetos que talvez se me ajustassem, mas que acima de tudo retratavam a suas origens: Era Capitão Dinâmico na vila, que via a azáfama do dia-a-dia; era Capitão Povo nas aldeias, que me reconheciam como um dos seus.

A Dinamização era tida como símbolo da Democracia Directa, politicamente incompatível com a Democracia Representativa.

No vendaval de Novembro, Castro Daire ficou no terreno. A Inspecção que requeri, informou os novos poderes do que viu e foi vergada por evidências que não podia ocultar, entre elas a de muita obra feita e a de ter encontrado um padre de picareta na mão, a trabalhar na estrada da Gralhita entre os seus paroquianos e o MFA.

Após a Inspecção, Castro Daire permaneceu no terreno e só recolheu definitivamente quando a Democracia Representativa estabilizou e os eleitos locais entraram em funções. Mesmo assim trouxe consigo um extenso rol de pedidos das populações para que permanecesse.

Hoje, a 34 anos de distância, continuo a considerar que Castro Daire foi um tempo extremamente gratificante e profícuo na vida dos militares que fizeram parte da Equipa que aí permaneceu por um ano, um mês e um dia, conforme refere a maior estudiosa das Campanhas de Dinamização, Dr.ª Sónia de Almeida.

2. Castro Daire – Primeira fase

Chegámos a Castro Daire a 14 de Março de 1975 e instalámo-nos nos anexos do Tribunal. A alimentação era no Ciclo Preparatório, juntamente com as crianças. A finalidade principal desta fase era a explicação do Programa do MFA. Os lugares de actuação eram as escolas primárias e os lugares onde habitualmente se faziam reuniões.

Na vila, o local habitual era o pavilhão do Babeiros onde actuamos duas vezes com casa cheia. Além da Vila fizeram história as reuniões de Mezio, Cabril, Montemuro, Picão, Carvalhal-Mamouros, Reriz, Parada, Ciclo Preparatório e Almofala.

Fig12 - Castro Daire - Bombeiros - Juventude MFA

Fig12 – Castro Daire – Bombeiros – Juventude MFA

Na maioria destas reuniões a assembleia tornava-se muito participativa. Como ninguém gostava do ex-presidente da Câmara, um cidadão de baixa extracção moral mas muito inteligente, a população vinha-me contar as suas actuações – verdadeiramente diabólicas – o que por vezes acontecia em público e espicaçava logo os ânimos porque na realidade não encontrei pessoa nenhuma que de uma maneira ou de outra não tivesse queixas deste personagem.

Nestas reuniões, as pessoas corriam de lugar para lugar para nos ouvirem falar, muitas vezes organizando-se entre si, dando boleia uns aos outros.

Por sua vez os partidos (PS, PPD, CDS e MDPCDE) digladiavam-se para terem a nossa preferência para colar os cartazes do MFA e fazer o anúncio das nossas intervenções. Em alguns casos as reuniões ficaram memoráveis – 30 anos depois ainda encontrei pessoas que se recordavam de certas passagens – como sejam as dos Bombeiros, da Mezio, Carvalhal-Mamouros, e Almofala.

A organização nesta fase fez-se dividindo o território em áreas correspondentes às freguesias, falando no MFA, no seu programa e nas eleições para a Constituinte, a quem quer que se encontrasse e anunciando o local e a hora onde haveria reuniões. Os locais eram escolhos com o auxílio dos partidos e de outras pessoas que se nos juntaram em permanência, procurando que não ficasse muito fora de mão para facilitar as deslocações das pessoas.

Fig13 - Dinamização Cultural - MAMOUROS

Fig13 – Dinamização Cultural – MAMOUROS

A população mostrava particular interesse que fosse eu a falar. Além de ser o mais velho, tinha uma cultura eclética e sabia exprimir-me em alegorias que entendiam na sua linguagem, ferramentas que inspiravam confiança às populações.

Por exemplo comparava a Constituição a uma manta de retalhos feita por muitos tecelões (os deputados) representando os partidos.

Os tecelões sabiam o que os seus eleitores queriam e iriam tecer a manta do seu jeito. Outros tecelões escolhidos por outros (os mais ricos por exemplo) iriam fazer a mesma coisa mas do outro lado da manta. No fim, a manta seria maior para o lado de quem tivesse mais tecido mais e esse ficaria com manta para se cobrir, mas os que tecessem menos ficariam com os pés de fora. A forma de se ter muita manta era eleger muitos tecelões. Os tecelões saíam dos partidos políticos e assim era preciso escolher o partido que prometesse fazer mais coisas que se precisam como o caminho, a escola, a luz eléctrica, a água, a saúde das pessoas e dos animais, e por aí fora…

Foi nestas sessões que surgiu a pergunta que se tornou sacramental: Porque é que o MFA não concorre, se é que mais se interessa por nós e melhor nos explica tudo?

Registo de Pedidos

Nesta fase recebemos e registámos pedidos de várias populações, prevendo a hipótese de regresso ou para memória e arquivo. A maioria tinha que ver com as acessibilidades. Outra era a electricidade, sem a qual não poderia haver electrodomésticos, telefone ou até telescola, uma novidade criada justamente para ensinar à distância aqueles que por inúmeras razões não se podiam deslocar à escola.

Para ter uma panorâmica do que se passava no concelho pedimos aos professores que fizessem um inquérito aos alunos, sob a forma de redacção, propondo-lhes que dissessem o que queriam ver realizado na sua terra. Da leitura desses trabalhos resultaria um programa de governação. Dado o seu volume foi feito um apanhado ressaltando as preocupações que eram referidas mais vezes, resumo que se apresenta a seguir:

TEMAS DE REDACÇÃO, estendida a várias escolas do concelho

“ O que eu desejaria ver realizado no futuro em Portugal?”

Os resultados coligidos deram o que se segue:

– Que às pessoas que não têm nada lhes dessem alguma coisa para que possam viver o seu futuro melhor

– Que paguem melhores ordenados aos trabalhadores

– Que às pessoas velhinhas que já não podem trabalhar lhes dêem um subsídio, pois anda muita gente a trabalhar sem poder

– Que aumentem os abonos de família para o bem de todos nós

– Que Portugal não continuasse tão atrasado pois em algumas terras não há estradas, nem luz, nem outras coisas necessárias

– Gostava de ver em todas as povoações algumas máquinas para lavrar e para outros trabalhos para as pessoas não terem um trabalho tão custoso

– Queria que o Estado me pagasse os meus estudos porque o meu pai não tem posses para eu poder ir estudar

– Queria que o Estado desse uma reforma ao pobre que não pode trabalhar

– Que houvesse médicos em Portugal e que estes fossem consultar as pessoas de graça, pagos pelo Estado, pois levam 500 escudos por ir a casa do doente e muita gente não tem dinheiro para lhe pagar tanto

– Que os médicos fossem de graça a casa dos doentes pois os doentes não podem andar 4km a pé para irem ao médico

– Que Portugal fosse mais rico. Que o lavrador tivesse melhores produtos e que vendesse bem

– Que o Estado pagasse os estudos às pessoas pobres que quisessem estudar

– Que o estado ajudasse mais os pobres do que os ricos e que lhes construísse casas

– Eu desejaria ser lavrador mas queria que o estado me fornecesse de máquinas, tractores, charruas, etc.

– Que o estado fizesse fontanários e estradas em todas as aldeias

– Gostava que houvesse máquinas para a agricultura

– Que houvesse médicos nas aldeias porque quem está muito mal não pode andar 4km ou mais. E que não levasse tão caro porque há quem não possa pagar porque lhe falta para outras coisas.

Castro Daire, 19 de Abril, de 1975 – poucos dias antes da 1.ª eleição livre em Portugal, depois do 25 de Abril “.

Esta fase foi muito produtiva em documentação. Penso que, sem excepção, as professoras primárias do concelho aderiram fortemente ao MFA e elas próprias tomaram iniciativas muito louváveis e sem precedentes. Os trabalhos de alunos de várias escolas, referentes à forma como eles viam o MFA, foram reunidos em volume, que ficou em minha posse, volume que, mais tarde, numa altura em que muitas equipas de dinamização foram mandadas recolher, foi entregue ao Sr. Presidente da República, General Costa Gomes, numa convocação que me foi feita para ir acompanhar o Cap. Ten Begonha, que chefiava a CODICE, depois da morte de Ramiro Correia. Dessa entrega resultou o Presidente dizer-me que tinha sido mal informado e que a minha equipa continuaria.

3. O que encontrámos

A Vila era uma povoação normal. O concelho era muito acidentado, estando um grande número de povoações em lugares declivosos, onde a movimentação se fazia de uma forma penosa para as pessoas e para os gados. Dizia o Professor ten-cor Veterinário António Ribeiro que foi incorporado na equipe de Castro Daire, como chefe da secção de veterinária, que a Cachena era uma raça bovina de anca estreita por selecção natural, porque os espécimes de anca larga tinham tendência a não caber na estreitas veredas da serra e fraguar-se (isto é, a despenhar-se pelas fragas abaixo). As povoações dividiam-se, grosso modo, em dois grupos: as que tinham estrada a passar perto (cerca de 1/3) e as restantes. O concelho tinha 203 aglomerados urbanos, com tipo habitat disperso nas cotas mais baixas e aglomerados compactos os que se situavam na serra. Lugares como Faifa, Laboncinho, Picão, Carvalhosa, Vilar, Cujó, Monteiras, Colo de Pito, eram pontos compactos no meio da serrania. Os habitantes das povoações que não tinham estrada tinham de andar grandes distâncias a pé para saírem das suas povoações e dirigirem-se à vila, à feira, ao médico ou até enterrar, percursos que muitas vezes estavam cobertos de neve ou com frios intensos. Não havia abrigos junto às estradas onde as pessoas pudessem esperar o transporte e, pior, ainda só havia transporte numa única linha do concelho, estrada Viseu-Lamego. Para ir ao médico o doente tinha de fazer parte grande do percurso a pé ou ir de padiola.

Fig14 - Póvoa de Montemuro

Fig14 – Póvoa de Montemuro

Havia situações medievais como seja pagar à Câmara um imposto sobre os animais e outro imposto de um dia de trabalho, costume completamente feudal. Havia ainda o chamado médico do partido, uma espécie de avençado da Câmara que ninguém sabia para que servia mas que tinha de ser pago, instituição cujas origens no tempo, eu desconheço.

Fig15 - Póvoa de Montemuro - Aspecto da Aldeia

Fig15 – Póvoa de Montemuro – Aspecto da Aldeia

As queixas contra os regatões (feirantes de gado) eram constantes, constando que a equipa de sanidade estava feita com eles e atribuía brucelose a animais que estavam sãos para dividir o proveito entre uns e outros.

Fig16 - Dinamização Cultural - Bostelo

Fig16 – Dinamização Cultural – Bostelo

Na primeira fase os dias foram-se passando num crescendo entre 14 de Março e 23 de Abril de 1975. À medida que se aproximavam as eleições, os partidos começaram a digladiar-se pondo em dúvida a nossa isenção porque o programa do MFA dizia que Portugal queria evoluir para uma sociedade socialista. Ora Socialista era só um dos partidos. Portanto nós, dizendo isso, puxávamos para ele. Foi esta constatação, estendida ao País, que levou Sá Carneiro a tirar o popular (povo) do seu partido e a acrescentar Social à Democracia que lhe restava. E assim nasceu o PSD em substituição do PPD.

Fig17 - Castro Daire - Picão

Fig17 – Castro Daire – Picão

Feitas as eleições para a Constituinte, o PSD em Castro Daire ficou com cerca de 70% dos votos, o PS com 20% e tal e os restantes foram dispersos pelo PCP pela FSP e pelo CDS, partido a que pertencia o Dr. João “Saneado” (Dr. João de Oliveira).

Esta figura era ímpar. Tinha sido, a um só tempo, deputado, presidente da Câmara, comandante da Legião, dono de uma farmácia dentro do hospital da misericórdia, provedor da Santa Casa da Misericórdia, director da Sociedade Montemorense de Ensino, accionista principal da empresa Guedes, conservador de Registo Civil, causídico com escritório montado, etc. De tudo tinha sido saneado pela população antes da nossa chegada, mas não perdeu um momento que fosse antes de se pôr a maquinar como nos pôr de Castro Daire para fora. Entre outros mimos, tenho no meu arquivo duas cartas anónimas manuscritas pelo seu próprio punho, fazendo-se passar por um pacato cidadão de visita à sua terra, que relatava o que lhe contavam acerca do nosso comportamento, atribuindo-nos a nós o que ele fazia durante o seu consulado. Não tenho conhecimento que as cartas tivessem chegado a ser publicadas, penso que, por que elas me chegaram às mãos e eu o denunciar com base em que tinham sido fotocopiadas do original no seu escritório por alguém que me era mais fiel a mim do que a ele.

Fig18 - Carvalhosa - Rural com Caniças

Fig18 – Carvalhosa – Rural com Caniças

Tal com havíamos prometido, dois dias antes do acto eleitoral recolhemos às nossas origens e deixámos as populações entregues às suas reflexões, antes de decidir em quem votar. Ficámos depois a saber que o padre de Moura Morta convocava todas noites as beatas para a igreja, para lhes ensinar a escolher em quem votar.

Fig19 - Castro Daire - Equipa do MFA

Fig19 – Castro Daire – Equipa do MFA

Do PS dizia que uma mão fechada nunca deu nada a ninguém; do PCP dizia que o martelo que eles mostravam tinha servido para pregar os cravos na crucificação de Cristo no Calvário. Quanto ao CDS informava que as duas setas dirigidas para dentro, queria dizer partido do coração, partido que tinha a todos no coração. O método, nas suas povoações, teve efeitos. Em Picão e Moura Morta ganhou o CDS.

4. Período anterior às eleições de 1975 – Eleições para a Constituinte

A Dinamização deixou o aconchego do poder e da cidade e foi ao encontro do povo, ao encontro do Portugal do silêncio, do atraso e do esgotamento, do Portugal do “não é possível”.

Os partidos migraram para junto do Poder e deixaram o povo para trás, outra vez entregue a si mesmo.

Algumas forças políticas temeram que a Dinamização Cultural e Acção Cívica, se bem sucedida, acabasse por implantar o sistema de democracia directa, a qual iria gerar órgãos de poder, culminando num sistema de contra-poder, que mais cedo ou mais tarde se confrontaria com o sistema fundado na democracia representativa.

Fig20 - Castro Daire - Escola de Montemuro

Fig20 – Castro Daire – Escola de Montemuro

Se o povo aderisse em massa a essa organização de base conduzida pelo MFA, então o MFA era poder ou tornar-se-ia o Poder.

As populações já perguntavam repetidamente nas campanhas para a Constituinte se não se podia votar no MFA e porque não havia de se poder votar no MFA?

Fig21 - Castro Daire - Escola de Carvalhosa

Fig21 – Castro Daire – Escola de Carvalhosa

Em consequência disso as mesmas forças políticas, aliaram-se às posições mais retrógradas da sociedade e da igreja e ao caciquismo apeado do poder do regime anterior e começaram a minar a credibilidade da Dinamização, acusando-a de comunista, que era um rótulo que tinha ganhado ressonâncias temíveis nas populações rurais durante os anos do anterior regime.

É na sequência do que estava a acontecer no campo e na cidade que leva as mesmas forças políticas a reclamarem o regresso dos militares aos quartéis.

E é também na sequência de na Dinamização se insistir que “Portugal ia para uma sociedade socialista” que o PPD acusa o MFA de favorecer o PS (Partido Socialista) e apressa os seus líderes a incluir a componente social num partido que, na sua génese, não previa ir além de aceitar a democracia como limite, sem cuidar da parte social. Assim nasceu o PSD social-democrata.

Nesta fase é de realçar o trabalho das equipas de TV que acompanharam a Dinamização e desenterraram o Portugal esquecido, ignorado e insuspeitado dos meios urbanos e o serviram, muitas vezes em estado de choque, à contemplação de todo o povo português e do mundo. Portugal nem suspeitava desta parte de si próprio: o que foi encontrado, descoberto e mostrado catapultou inúmeras vontades para se envolverem na grande tarefa de levar a mensagem da liberdade e participar na reconstrução do país, tarefa imensa que ficou conhecida por “Dinamização Cultural e Acção Cívica”.

Dinamizar não era tarefa fácil

Porém, nem todos reuniam as qualidades requeridas para serem aceites pelas populações e fazerem obra útil e isso está na génese do fracasso quase completo das campanhas de dinamização.

Não se tratava de gente desqualificada, mas de pessoas que tinham qualificações que não tinham aplicação naquelas circunstâncias de tempo, de audiência e de lugar.

O que certa Dinamização Cultural letrada propunha às populações era uma mudança do sistema de vida que sempre foi o seu, com um discurso desconhecido para os auditórios, cheio de medos e de nomes assustadores, falando de coisas longínquas para as suas prementes necessidades e para a sua compreensão, como por exemplo a colectivização.

O colectivo no minifúndio

O pequeno proprietário de terras não tem vocação para a colectivização. O seu sentido de posse e de propriedade são tão arreigados e intensos quanto menor for o património e o tamanho das parcelas que possui.

A noção de “o meu” e “o do outro”, de limite e de extrema tem implicações psicológicas profundas e é um obstáculo à realização de trabalhos de interesse comum que impliquem a alienação de uma fracção, pequena que seja, do que é particular.

A propriedade tem ressonâncias telúricas, alguma é detida pelas mesmas famílias desde tempos imemoriais e tem uma dimensão imaterial como se fosse uma extensão da própria família.

Casos há em que o desejo de a possuir foi tão grande que se jogaram destinos e vidas inteiras para a conseguirem, como é o caso de pessoas que emigraram com a determinação de amealharem o bastante para virem a ser donos de propriedades que sempre cobiçaram.

É neste contexto que deve ser entendida a propriedade particular e a vulnerabilidade a que a nossa acção ficava sujeita se fôssemos acusados de não respeitar estas regras.

A mensagem

A mensagem levada pela dinamização foi a de informar a população de que aquela revolução não era como as outras. Não setratava de um golpe deEstado daqueles em que uns tantos tomam o poder e outros saem, enquanto para o povo nada muda. Desta vez tudo ia mudar. Cada um ia poder ser senhor do seu destino, porque que íamos dar a todos as mesmas oportunidades e os mesmos direitos de competir em pé de igualdade com os demais.

A grande novidade consistia em que, pela primeira vez, a população era convidada a tomar parte nessa transformação, a entrar nessa Revolução e a fazer parte dela. Para levar esta mensagem tinha de se ir ao encontro da população, procurá-la onde se encontrava, por mais remoto que o lugar fosse.

A dinamização foi a fórmula que se encontrou para ir ao encontro das populações, mas cedo se verificou que elas tinham prioridades mais prementes do que a liberdade e da democracia.

Foi para atender as essas prioridades que as equipas de dinamização foram incumbidas de outras funções além da de esclarecimento de como funcionava a democracia e como se participava no acto eleitoral mais recente – A eleição para a Constituinte.

5. Como entendi a Dinamização

Entendi desde muito cedo, nas intervenções que tive nas periferias de Lisboa, que a mudança teria de ser feita dentro do sistema em que os povos sempre viveram sem lhes contestar o valor, se não tivesse uma explicação clara para isso.

Era para mim uma luta leal no seu próprio terreno.

E o seu terreno passava por uma irrepreensível conduta moral e cívica de todos nós, por termos uma linguagem com as variantes e saberes locais e um respeito permanentemente praticado, segundo os rituais de uso onde quer fôssemos parar.

A nossa aceitação teria de começar por fazer coisas que lhes aumentassem a esperança e lhes tornassem o dia-a-dia mais simples e menos trabalhoso.

O caminho, a água, o telefone público, a luz eléctrica, o pontão, a estrada, a telescola, a saúde própria e dos animais, tudo bens que permitiam alguma melhoria, bem-estar e economia de tempo, para depois orientar esse tempo para desenvolver sentimentos de insatisfação, de não acomodação e desejo de fazer coisas novas e mais arrojadas.

Depois, e só depois, poderíamos falar de culturas de importação levadas pelos citadinos, embora também aí refeitas com os valores locais, como a peça “O Segredo de Montemuro” de Nery Paiva, em que o vilão era o cacique local, a heroína uma professora da terra e o agente que despoletou a reviravolta o chefe da dinamização.

Mas nem tudo correu assim por todo o lado!

Ele é nosso

Um dos erros da Dinamização foi o de se ter ido com a convicção de que quem sabia éramos nós. Tudo era posto em causa desde a forma de vida às convicções, se pertenciam aos costumes e às crenças do “outro”.

Em Castro Daire fugiu-se a esta concepção de Dinamização, procurando sempre aceitar que, para as gentes da terra, o “outro” éramos nós e que a grande vitória para a nossa missão consistia em sermos aceites como um dos deles, ou seja, deixarmos de ser o “outro” para eles.

Aprendemos com este “outro” que não há apenas uma verdade, uma razão e uma lógica. Há sempre a verdade do “outro” que é a Verdade como ele a vê.

Muitos de nós fomos fanáticos nos discursos que proferíamos, defendendo saberes académicos e teorias que além de serem incompreensíveis para o nosso “outro” semeavam a desconfiança e permitiam ataques de flanco pela reacção, que dominava a linguagem pela qual as populações entendiam as relações de poder e eram sensíveis a medos atávicos inspirados na linguagem eclesiástica e caciqueira.

A maioria das equipas falou, mas não dialogou. Encontrou-se com as populações em patamares diferentes, cada um com as suas convicções, com as suas suspeitas e com a sua dose de fanatismo.

Para muitos não houve tempo de penetrar no espírito do “outro”. Em caso nenhum, que eu saiba, a não ser em Castro Daire, as populações chegaram a dizer “ele é nosso, eles são dos nossos.

Tomar o destino entre as mãos  

Tomar o destino nas mãos para aquela gente era ter uma estrada onde só havia uma vereda, ter um tanque de rega onde antes a água se perdia na montanha, ter animais saudáveis certificados onde antes estavam nas mãos dos regatões, era não ter de levar mais um cabrito às costas uma dezena de quilómetros para não cair em desgraça com o cacique local, era ter um pontão para atravessar o rio sem ter de levar os mortos a vau, era ter um telefone para toda a aldeia de onde se pudesse transmitir uma aflição à família, era ter a esperança de um dia ver chegar a electricidade.

Em mais de 180 aldeias do concelho os electrodomésticos faziam parte de um mundo só conhecido por terem ouvido falar a algum emigrante ou às gentes da Vila.

Não se eleva a cultura com fome

O primeiro instinto é o de sobreviver. E sobreviver nas condições que testemunhei gastava o tempo todo e atava as pessoas de sol-a-sol ao seu destino de labuta para poder tirar da belga e da serra o que lhe permitisse de que ir vivendo. No ritual cíclico das estações e da adaptação por milénios àqueles lugares, este povo sábio aprendeu a tirar proveito de tudo que o podia ter, a não se permitir o mínimo de desperdício, a gastar com parcimónia até nos dias festivos do calendário litúrgico.

As suas crenças estavam tão profundamente arreigadas na alma como as doenças o estavam no seu corpo.

Umas e outras eram da vontade de Deus e não da responsabilidade dos homens.

É neste contexto que surge o “outro” que éramos nós, a afirmar que havia muitas coisas que os homens podiam e deviam ter feito com ao aplauso da vontade de Deus. E como perante Deus todos, mas todos mesmo, somos iguais, porque não experimentarmos todos fazer qualquer coisa em comum?

Essa coisa seria escolhida pelas gentes da aldeia de comum acordo. Da nossa parte avaliaríamos se o que escolhessem era para as nossas capacidades e, sendo-o, repartiríamos o trabalho para que cada um tivesse orgulho de ter contribuído com o melhor que sabia. E muitas vezes daí em diante testámos as nossas capacidades e juntos vencemos.

Trinta anos depois de Abril

Aquilo que a Revolução trouxe ultrapassou o que a pobreza dos campos poderia algum dia dar em instrução, em ambição e em mudança de paradigma.

Com Abril a juventude foi retirada dos campos para o ensino na idade em que tradicionalmente aprendia o manejo da vida com a família, mourejando nos campos e na serra. Como resultado disso, depois da aprendizagem escolar já não tinha préstimo para a agricultura de subsistência nem apetência por ela e operou-se a desertificação rural, procurando os descendentes dos que encontrei, agora mais instruídos, outros destinos onde se realizassem os seus sonhos.

O mundo hoje é outro. O mundo que se confinava com a linha do horizonte da última serrania estendeu-se hoje à Terra inteira. Nascer numa das aldeias isoladas que encontrámos e que pusemos em contacto com o mundo deixou de ser uma condenação ao isolamento para sempre. Já não há sapos do poço e cada vez será mais difícil a quem hoje por lá passe acreditar que falamos verdade (1).

Também a vida nas aldeias mudou drasticamente. Hoje cheias de conforto e pejadas de carros aos fins-de-semana, luz eléctrica, electrodomésticos, meios de comunicação individuais, água canalizada em casa e ruas pavimentadas sem estrumeiras nem lamas. Os que agora vêm de visita aos familiares ou passar o fim-de-semana na sua segunda habitação são os que sem Abril nunca teriam saído. É o Estado Social a estender a sua asa e as promessas de Abril a pouco e pouco a cumprirem-se.

É o povo a aproveitar as oportunidades que Abril lhes foi levar pela mão da Dinamização.

(1) – O Sapo do Poço é uma história de Nery Paiva sobre dois sapos nascidos no mesmo poço. Um acomodou-se e ficou; o outro decidiu viajar. Desceu o ribeiro, seguiu pelo rio e fez-se ao mar. Viajou muito, viu tudo que havia para ver e quando voltou, culto e esclarecido, resolveu ir abraçar o amigo ao poço. Descreveu o mar como o lugar onde havia tanta água que se podia nadar a vida inteira sem encontrar o fim. O sapo do poço riu do sapo viajado e disse-lhe que não acreditava que em nenhum sítio houvesse mais água do que havia no seu poço.

A moral da história é que a ignorância é desconfiada e soberba.

Quando contei a história numa escola, um menino pediu se podia falar e perguntou: Capitão, o que é mar?

Esse menino, que nem sabia o que era mar, cresceu, estudou e saiu do poço. Hoje sabe o que é o mar, é culto e sabedor. O capitão era sapo do mar e aconselhou todos os meninos a forçar o seu próprio destino. A irem ter com ele, a não ficarem no poço à espera que o destino passasse por ali, que ele não viria nunca.

6. Alguns dados sobre a nossa permanência

Alojamento:

Hospital da Misericórdia,

PSP

Dependências do Tribunal

Quartel da GNR

Alimentação

Comíamos no Ciclo Preparatório (Estabelecimento de Ensino)

No “Ivo” (Restaurante)

Comunicação com as populações

Na primeira fase: Os estudantes, professores e gente dos partidos anunciavam em nosso nome, colocavam de cartazes e faziam parte da audiência acompanhando-nos. Estava-se a preparar a população para a eleição para a Assembleia Constituinte.

Na segunda fase: Na segunda fase, começámos por abordar as populações que na primeira fase nos tinham encomendado trabalhos.

O rol de pedidos era maior que a capacidade de execução.

Avaliaram-se as prioridades.

No primeiro contacto aconselhávamos a que a população elegesse uma equipa que seria aquela que a representaria e trataria connosco ao longo da duração do trabalho.

Leva-se essa equipa a visitar um trabalho que já estivesse em execução apresentando-a à equipa acompanhante do trabalho visitado para trocarem impressões entre si e se entusiasmarem. Se os outros eram capazes, também eles tinham de ser.

Seguia-se uma reunião na aldeia aberta a toda a gente, onde descrevíamos como um trabalho se desenvolvia e o que era exigido a cada uma das partes.

O MFA dava conselho, organização do trabalho, máquinas e equipamentos (caterpillars, compressores, martelos pneumáticos, explosores, trotil-TNT, detonadores, etc.).

A Povoação organizava-se, garantia a equipa de coordenação, mão-de-obra diária e pagava combustíveis e lubrificantes para as máquinas.

Horário de serviço: Não havia. Era de sol-a-sol.

Reuniões de avaliação de trabalhos

As reuniões de avaliação faziam-se nas aldeias onde decorria o trabalho, normalmente nas Escolas, e a ela acorria toda a gente, inclusive as crianças.

Nesse tempo as crianças aprendiam a ser homens e mulheres assistindo, ao planear da vida junto com os mais velhos.

Ainda hoje ouço, 33 anos depois, dizer que a estrada foi a melhor coisa que aconteceu na aldeia desde sempre.

Secções da Equipa de Dinamização

– Secção de veterinária

– Secção de electrificação rural

– Secção de construções

– Secção de apoio agrícola

Apoios

– Cultura – Carlos Galiza da CODICE rotineiramente visitava a equipa, que abastecia de filmes e equipamentos,

– Grupos de teatro e agrupamentos musicais iam actuar lá, geridos pela

CODICE

– Figuras como Mário Branco, Barata Moura, Luís Cília, Carlos Paredes e muitos outros por lá passaram.

– Nery Paiva, de nacionalidade Brasileira, lá escreveu “O Segredo de Montemuro”, no qual o chefe da equipa, a professora Noémia e outras pessoas da vida real são personagens do enredo.

7. Algumas obras – secção de construção

Não é viável reportar o que foi este período de intensa actividade nem fazer referência a todas as obras que foram executadas e a todas as rezes que foram tratadas. Por isso resolvi recolher algumas ao acaso dando voz a certos episódios que ocorreram no decorrer dos trabalhos.

Estrada da Gralheira

A Gralheira é a povoação de cota mais alta da Serra de Montemuro e pertence ao concelho de Cinfães. Quando chegámos, a distância mais curta a fazer a pé para apanhar um transporte automóvel era 6 km. A Gralheira era a terra natal do padre Elídio, um cidadão exemplar e um bom cristão. Ainda a Máquina andava em Bustelo e fui abordado por dois homens à civil, um deles o padre Elídio, que queriam que os ajudasse a “levar a estrada” até Gralheira.

Ajustadas as datas, a máquina foi colocada no começo da estrada junto à aldeia de Picão, do concelho de Castro Daire. O padre andava entusiasmadíssimo e, sendo um homem do povo, queria dar o exemplo, ajudando com o que tivesse à mão. Por isso lembrou-se de ir pedir uma picareta emprestada a uma mulher do povo de Picão, mas veio de mãos a abanar. A mulher a quem se dirigiu recebeu-o assim:

“ Oh! Home, ponha-se daqui p`ra fora que o furo com a picareta. Você tem contrato com o diabo”.

De futuro o padre Elídio passou a aparecer sempre com uma peça de ferramenta de sua casa.

Quanto ao contrato com o diabo, convém lembrar que o diabo éramos nós, era o que vinha de fora, era a novidade, mas era também o trabalho do padre de Moura Morta e de Picão, que alinhava no caciquismo mais empedernido que encontrámos, apesar de talvez não ser má pessoa.

Fig22 - Castro Daire - Estrada da Gralheira

Fig22 – Castro Daire – Estrada da Gralheira

A estrada para a Gralheira arrancou de Picão, pela serra acima ainda longe do povoado e fora do concelho, mas o padre Elídio lá estava todos os dias. Um dia, à hora da refeição dirigia-me ao local e, ao saltar um muro, deparei com o padre Elídio sentado no chão cestita do farnel de um lado, picareta do outro e breviário em punho tratando das suas devoções. Quando a estrada arrancou as populações espalharam a notícia pelos seus ausentes e havia uma grande colónia de Gralheirenses em Lisboa. Tal era a ânsia de ter uma estrada ao pé da porta que os Gralheirenses se organizaram em Lisboa e, a 4 e 5 em cada carro, saíam de Lisboa na sexta-feira à tarde e rumavam à Gralheira. Trabalhavam sábado e domingo com todo o afã e regressavam domingo à noite para na segunda de manhã estarem de novo nos seus afazeres. A estrada da Gralheira teve duas fases, sendo a primeira de rasgá-la e a segunda a de prepará-la para o asfalto. Foi durante a segunda fase que recebi uma visita de inspecção da chefia da 5ª DIV/EMGFA, herdeira da CODICE, já depois do 25 de Novembro, para avaliar porque é que ainda havia no terreno uma equipa a trabalhar.

Planeei a visita de modo e passar por várias obras executadas por nós, e, entre elas, a da 2.ª fase da estrada da Gralheira. Quando nos aproximávamos avistei a brigada de trabalho junto à Cruz do Rossão, e informei a comitiva que entre as pessoas se encontrava o próprio padre. Quando chegámos e trocámos as primeiras palavras, o chefe da comitiva disse-me ao ouvido: mas aqui não está padre nenhum. Foi aí que me dirigi pessoalmente a ele e disse: Padre Elídio aqui o senhor Brigadeiro, quer conhecê-lo pessoalmente porque já ouviu muito falar de si. O ten Freitas, oficial do RIV e natural de Cinfães, fez o resto das apresentações, como chefe da brigada.

Estradas de Cetos e de Montemuro

Montemuro é uma povoação que fica à meia encosta entre o rio Paiva e as Portas de Montemuro. Tal como outras em redor vivia da pastorícia e de pequenas porções de terra arável encravadas na serra, serra a que Amorim Girão chamou a serra mais ignota de Portugal. A cota ligeiramente inferior tem a seu lado Cetos de um lado e Faifa do outro.

Fig23 - Castro Daire - Estrada de Montemuro

Fig23 – Castro Daire – Estrada de Montemuro

Cetos já tinha um caminho, ido de Pinheiro e Ermida para cima, por onde circulavam a custo automóveis, percurso que o colocava ao dobro da distância da Vila do que se se abrisse uma estrada por cima para a estrada de Cinfães. Montemuro e Faifa não tinham nenhum caminho. Cetos era uma povoação mais organizada em torno de uma figura, o Sr. Beleira, irmão do Malhadinhas, imortalizado por Aquilino Ribeiro.

Fig24 - Castro Daire - Estrada de Cetos

Fig24 – Castro Daire – Estrada de Cetos

Cetos chegou a nós primeiro, ainda a máquina trabalhava na estrada da Gralheira e queria meter uma estrada para o lugar entre Porto Penedo e Cetos, passando pela Cruz de Cetos. Parte do percurso cotejava uma vereda de saída da rês para a serra, mas a maior parte do traçado era completamente virgem e ocupado por bouças.

Logo no início, ajustada que ficou a data, era a vez de os de Cetos terem a máquina, mas surgiu um problema de transporte. A máquina, sendo de lagartas, não podia fazer os três quilómetros que separavam os dois trabalhos pela estrada de alcatrão que, pelas Portas de Montemuro, se dirige a Cinfães.

Feita uma reunião para resolver o problema de transporte da máquina levei ao conhecimento da população que aquelas máquinas são transportadas em plataformas e que colocavam alguns problemas, como sejam o custo da plataforma (30 contos) e a necessidade de fazer estaleiro para montar e para apear a máquina da plataforma, de maneira que estas operações fossem feitas de nível.

Caiu-se num impasse e foi então que eu disse que havia uma solução muito trabalhosa mas possível, que consistia no seguinte: se a estrada tivesse pranchas de madeira ao longo do percurso, a máquina poderia circular sem danificar o alcatrão. Ora isto podia fazer-se com muito menos pranchas, bastando as suficientes para o dobro do comprimento das lagartas, desde que um grupo de homens fosse tirando as pranchas de trás e pondo-as à frente do rodado de lagartas. Imediatamente esta solução foi discutida e acabou por ser adoptada. Depois de três horas de trabalho duro a tirar pranchas de trás da máquina e a colocá-las na frente, a máquina encostou a Porto Penedo e ficou pronta para começar o trabalho de que a população falava desde que se conhecia. A estrada de Cetos correu com boa organização e resolução da maioria dos problemas pelas próprias populações. Recebeu uma visita da TV Australiana e outra da TV Norueguesa e deve constar do espólio televisivo destas instituições. Eu próprio tenho uma cópia de uma bobina rodada noutro lugar na mesma altura.

Estrada da Póvoa de Montemuro e Faifa

A estrada da Póvoa de Montemuro foi a mais trabalhoso e a que foi levada desde o seu planeamento a uma fase mais avançada da sua conclusão. Talvez para o leitor seja interessante saber que a CODICE/MFA fornecia as máquinas e os operadores, promovia a organização e o planeamento, mas as populações forneciam a mão-de-obra e os consumíveis, como o combustível.

Fig25 - Castro Daire - Estrada de Montemuro - montagem das anilhas para travessia do ribeiro

Fig25 – Castro Daire – Estrada de Montemuro – montagem das anilhas para travessia do ribeiro

Todos os trabalhos pressupunham um trabalho que muitas vezes começava pelo organizar e convencer as populações, que muitas vezes estavam relutantes em acreditar que nós cumpriríamos a nossa parte. Por isso em muitas situações começávamos por avaliar o trabalho, formar uma comissão de aldeia e ensinar-lhes que o que lhes oferecíamos exigia um trabalho comunitário, no qual cada dia seriam precisas umas quantas pessoas, seguidas de outras tantas no dia seguinte e assim por diante até chegar de novo a vez das primeiras. Era pois preciso organizar com as populações muita actividade. Por vezes chegavam-nos pessoas de lugares que queriam trabalhos, mas não estavam muito confiantes. A esses levávamo-los a sítios onde estavam a decorrer trabalhos com outra população já envolvida e deixávamos que trocassem livremente impressões e conhecimentos de organização entre si.

Mas também havia o contrário disto e um exemplo foi o de Póvoa de Montemuro.

Fig26 - Castro Daire - Estrada de Montemuro - Compressor do Martelo Pneumático

Fig26 – Castro Daire – Estrada de Montemuro – Compressor do Martelo Pneumático

Montemuro beneficiava de ter uma professora, natural da terra que tinha um percurso de vida digno de uma heroína, tendo nascido de uma família pobre como todas as outras, mas sendo espertíssima. Passou fome para se formar obtendo a nota mais elevada que era concedida na sua licenciatura. Tinha as portas abertas para continuar a sua carreira onde quisesse, mas optou por voltar para Montemuro para que mais ninguém no seu torrão natal deixasse de aprender a ler por falta de meios. Foi como professora de Montemuro que a conheci.

Quando terminaram os trabalhos de máquina de Cetos, Montemuro estava à cabeça na fila de espera. Porém nesse fim-de-semana o operador da máquina, o Sr. Nogueira, foi a casa e a máquina ficou lá, na Cruz de Cetos, ponto onde devia começar a estrada de Montemuro. Estava pois tudo em ordem e debaixo de controlo. Porém, soube-o depois, receosos que a oportunidade se lhes escapasse e a máquina fosse desviada para outros trabalhos, organizaram piquetes e guardaram a máquina dia e noite durante o fim-de-semana.

Os trabalhos começaram e progrediram conforme estava planeado, com a diferença que surgiu rocha firme mais vezes do que o previsto, tendo sido preciso recorrer ao apoio de compressores e martelos de ar comprimido.

Eu tenho um tio na Alemanha

A certa altura a professora Noémia abordou-me e informou que a verba de que dispunham estava a esgotar-se e que se viam na iminência de perderem a vez por não terem dinheiro para pagar os combustíveis. Dei-lhe instruções para reunir a população na escola, único lugar possível. De notar que estas reuniões eram estendidas a todas as pessoas sem distinção de menores – era o costume da terra.

A reunião ia de correndo sem que ninguém tivesse ideia de como arranjar dinheiro. Por proposta inicial minha, a equipa de Castro Daire não lidava com dinheiro. As nossas despesas de alimentação eram directamente pagas aos fornecedores periodicamente por um delegado da CODICE, sem que eu entrasse no circuito a não ser para conferir os gastos.

Estava-se a cair no impasse quando uma criança pediu para falar, para dizer que tinha um tio na Alemanha e que ia escrever uma carta a falar-lhe da estrada e a pedir-lhe dinheiro para ela.

A proposta da criança trouxe luz à reunião: imediatamente me propus a tirar um bom número de fotografias sobre os trabalhos da estrada e a pô-las à disposição da professora que, por sua vez colocaria as crianças todas a mandar cartas aos seus ausentes, falhando-lhes de estrada que iam ter e da necessidade que tinham de dinheiro.

A professora Noémia organizou primorosamente o trabalho, propondo aos alunos um tema de redacção no qual se descrevia quem era o MFA, se dizia como ele ajudava as populações, em que ponto estava a estrada, se explicavam as fotos de prova, porque era preciso mais dinheiro e se acrescentava o número de conta aberta em Castro Daire para onde poderiam ser transferidos os donativos.

O trabalho resultou em pleno. Algum tempo depois começou a ser depositado dinheiro na conta e Montemuro nunca mais se viu em apuros para pagar as despesas com a estrada.

Um episódio de luto

Esta estrada teve troços muito trabalhosos que deram em rocha bruta. O Sr. Nogueira – operador da máquina – com o seu jeito e muita prática lá ia metendo o dente da scraper nas fendas, primeiro abalando, depois removendo os rochedos. Mas um dia o dente não resistiu e partiu.

Reuni a comissão e concluiu-se que dentes para a máquina só a Caterpillar em Lisboa é que tinha. Por acaso eu conhecia a Eng. Maria Villas, filha do dono da Caterpillar, e resolvi vir pessoalmente a Lisboa no meu carro fazer as diligências necessárias e levar o dente de volta. Cheguei num dia à noite a Castro Daire e logo no dia seguinte de manhã tinha uma delegação a contactar-me porque tinha havia uma coisa grave na minha ausência e o povo estava alvoroçado.

Um dos vizinhos que tinha prometido dar uma leira para a estrada passar por ela, recusava-se agora a fazê-lo, o que para os vizinhos era uma verdadeira heresia dos costumes. Até às crianças se ensina que “quem dá e tira, para o inferno gira”.

Informei a delegação que trazia o dente e, pelo caminho, fui-me inteirando do sucedido, mas só quando cheguei ao local percebi: um morro situado na embocadura da leira que antes aparentava ser rocha dura, revelou-se de saibro grosso, o que permitia ter inertes para a estrada passar a direito por fora da leira, poupando-a a ser sepultada sob o piso.

Pedi à delegação que reunisse o pessoal à noite na escola para discutirmos o assunto: os vizinhos não podiam ficar desavindos e tinha de resolver-se o problema para a estrada seguir.

À noite quando cheguei à escola esta estava literalmente cheia com toda a população presente, mas faltava o dono da terra. Pedi à professora que me dispensasse uma criança para guiar o aspirante Araújo e dei instruções a este para pedir da minha parte ao dono da terra o favor de chegar à escola, à reunião.

Acalmei alguns comentários ácidos e pedi paciência até ouvirmos o que o dono da terra, para mim pessoa séria e honrada, tinha para nos dizer. A temperatura amainou um pouco.

Quando o homem chegou pedi-lhe que tomasse um lugar a meu lado. Porém, antes de se mover o homem disse:

“Sr. capitão, eu não deveria vir porque estou de luto: morreu-me a minha netinha no Brasil. Mas, devido à consideração que tenho pelo senhor, aqui estou. A leira levou-me 60 dias a minar e tenho-a nos olhos da cara. Agora, com o morro que empurrava a estrada para cima dela a desfazer-se em saibro, pareceu-me que não precisaria de ser sacrificada. Mas, se o senhor Capitão achar que precisa, mantenho a minha palavra e a leira é sua”.

Só depois tomou assento ao meu lado.

Peguei na palavra e perguntei: os senhores ainda recordam o que combinámos quando nos conhecemos? Eu digo: foi fazer uma estrada da Cruz de Cetos a Montemuro. Pois bem é para isso que aqui estamos. Também eu, como o dono da leira, acho que a estrada melhora se for por fora da leira, devido à sorte que tivemos de o morro ser mole. Eu passei por lá, reparei bem e reconheci que era uma pena estragar a leira. Lembrem-se que queremos uma estrada e não uma leira. Porém não quero contrariar a vossa decisão qualquer que ela seja e, por isso, proponho a resolução em dois passos. O primeiro é sairmos daqui com o problema resolvido, deixando a leira em paz, reconhecendo que nos enganamos e dando uma prova de boa vizinhança. O dono, apesar das fortes razões que deu põe a leira à disposição. Cabe-nos agora a nós dar uma prova de amizade e não a sacrificar inutilmente.

Se acharem que ainda precisam de voltar ao local para se certificarem se a proposta anterior merece acolhimento elejam aqui uma representação que me acompanhará amanhã para essa avaliação. Vou pôr as propostas à apreciação e votação.

Votadas as propostas, venceu a primeira e ficou logo ali sanado o problema da leira. No dia seguinte os trabalhos prosseguiram como se não tivesse havido tempestade.

O Trotil (TNT)

À medida que os trabalhos avançavam em várias frentes, começou a aparecer rocha compacta, nomeadamente na frente de desmonte, impossibilitando a abertura de valetas e o nivelamento dos treineis.

Era preciso material de perfuração da rocha e explosivos. Contactado o RIV, que não tomou a iniciativa de pedir os materiais, resolvi fazer isso por mim mesmo. Calculei os materiais e cheguei a um compressor com martelo pneumático, 400kg de trotil, reóforos, 2000 detonadores e um explosor.

Desloquei-me a Lisboa e fui falar com o QMG, general Sanches da Gama que me ouviu e decidiu logo o pedido dando instruções para o fornecimento e o transporte dos materiais. Duas secções saíram do RIV para o transporte, sob escolta, do trotil e dos detonadores em viaturas separadas. Cumprindo-se assim a regra de impedir que uma possível detonação dos detonadores (fulminantes) induzisse por simpatia o trotil a explodir também. O material foi guardado, a meu pedido, no polvorinho do RIV e gasto em pequenas porções, segundo as necessidades e mediante requisições que certificavam em que tinha sido gasta a dose anterior. Os restantes materiais foram fornecidos pela Engenharia e pelos Serviços Agrários de Viseu e transportados pelos seus próprios meios. Os trabalhos passaram a decorrer com mais celeridade e onde surgisse pedra era deixada para trás até que lá fosse uma equipa que num único dia limpava uma distância considerável de estrada.

Por este meio se evitou que as chuvas de Inverno arruinassem os pisos e se prepararam algumas estradas para receber alcatrão. Estão entre elas um troço de estrada da Gralheira, a estrada de Cetos e a de Póvoa de Montemuro. Ficaram só rasgadas outras como Bustelo, Almofala, Cujó, Codeçal, Laboncinho, Mões e Ester que tiveram de esperar por anos posteriores para serem terminadas. Mesmo assim cabe-nos a satisfação de ver que nenhuma foi abandonada pelo traçado ter defeitos, mas todas foram completadas em cima do trabalho feito por nós.

Uma ponte para Vilar

A população desta aldeia tinha um problema antigo para resolver. Os campos principais da aldeia estavam do outro lado do ribeiro de Ermida. Sobre este ribeiro tinha havido um pontão de estrado de madeira, mas estava tão deteriorado que só restavam os encontros. Perante a insistência do povoado e da necessidade bem visível da falta da ponte resolvi tentar uma solução extraordinária. Na Engenharia, em Santa Margarida, estava a comandar o “ten- coronel Sardinha Dias, que tinha sido meu colega na Academia Militar. Viajei para Santa Margarida, expus-lhe o problema e desafiei-o a mandar tirar as medidas à ponte e, numa semana de campo, montar o pontão que já levaria pré-fabricado. Por estranho que pareça a unidade de Engenharia de Santa Margarida tem no seu activo a construção e montagem deste pontão. Trinta anos depois o pontão de madeira passou a laje de cimento, já com a democracia representativa a funcionar.

Uma Semana de Campo para a Escola de Recrutas do RIV

O povo de Montemuro começava a ficar esgotado. A estrada ia ficando “um brinquinho”, mas o trabalho era esgotante. Tratava-se de uma estrada aberta numa encosta de grande declive a maior parte do percurso através de terreno pedregoso e virgem onde aflorou rocha compacta em parte considerável da sua extensão. Com este cenário todas as ajudas eram bem-vindas, quer elas fossem em dinheiro que fossem em mão-de-obra.

Foi então que surgiu a ideia de convencer o Director de Instrução do RIV e também o comandante coronel Coelho da Silva para deixarem fazer a semana de campo de Escola de Recrutas na Serra de Montemuro. A maioria da recruta era de incorporação local e alguns dos militares conheciam os povoados e até alguns dos seus habitantes e por isso seria de certeza um contributo dado de boa vontade. Consultados os recrutas, a adesão foi total e entusiástica. Muitos dos mancebos eram tão rústicos como o pessoal das aldeias e durante uma semana deram um bom avanço em mão-de-obra à gente dos lugares.

Perante o sucedido resolvi tornar o momento inesquecível para todos. Movimentei as coisas para que no fim-de-semana se fizesse uma grande sardinhada que eu próprio ofereci e que viessem os tocadores de violino e rabeca de Tendais para animarem o baile.

Baile Comprado

A semana de campo tinha sido um sucesso mas todas as ajudas eram poucas. Aproximava-se o pino do Verão e, com ele, uma certa agitação das moçoilas da Póvoa, Faifa, Pereira e outras terras. Praticamente nestes povoados só havia mulheres, crianças e velhos. Os rapazes ou estavam na tropa ou tinham emigrado. A agitação, soube-o depois, devia-se à aproximação das festas dos oragos destes lugares e dos das vizinhanças, altura em os rapazes chegavam em bandos como os estorninhos. Nos dias de festa a liberdade profana contrapõe-se ao recato religioso e parece que anda Deus pelas capelas e o diabo pelos bailaricos.

Nos dias da festa lá estavam os tocadores de Tendais e lá se alinharam na escola da aldeia raparigas de um lado e rapazes do outro.

A dada altura pairava no ar uma espécie de anúncio que se referia à “compra do baile”.

A compra do baile foi mais um artifício para arranjar dinheiro para estrada. Foi imaginado pela professora Noémia, principal responsável pela estrada, e tinha as suas regras. Num baile normal uma rapariga convidada podia negar-se a dançar com convidante, sem que este se pudesse considerar ofendido, desde que não dançasse com mais ninguém naquela rodada. As raparigas aproveitavam esta facilidade para esperarem até que quem elas desejavam viesse buscá-las. Havia assim uma dupla discriminação, não só na escolha que os rapazes faziam, como nas negas que as raparigas davam a quem não lhes agradasse.

O baile comprado acabava com isso.

O baile (aquela rodada) punha-se a leilão. Comprava o baile quem pagasse mais por ele e tinha como contrapartida poder escolher a rapariga que mais lhe agradasse, sem que esta pudesse negar-se a aceitar.

O dinheiro das sucessivas compras ia para o fundo da estrada. Ora havia vários rapazes, quase todos emigrantes, que queriam fazer figura e entravam em despique oferecendo valores cada vez mais altos pelo baile comprado, com evidentes benefícios para o fundo da estrada.

8. Secção de Electrificação

Castro Daire tem 203 núcleos habitacionais dos quais apenas 13 estavam electrificados. Uma tal situação de abandono devia-se, segundo chegou ao nosso conhecimento, ao facto de o presidente da Câmara exigir que as populações se quotizassem para pagar os projectos, que ele entregava aos seus apaniguados. A propósito transcrevo alguns documentos de uma das histórias que chegou até mim e que ilustra a forma de actuar do ex-autarca João de Oliveira.

Como nasceu a Secção de Electrificação da Equipa de Dinamização

Certo dia apresentou-se-me o Sr. Aníbal Francisco Henriques a solicitar electrificação para Farejas, argumentando que o seu projecto já estava adiantado e que era só mais um jeitinho…

Para reforçar o que declarava, mostrou-me uma carta que lhe tinha sido enviada para o Brasil, onde então se encontrava, por um conterrâneo seu, o Sr. Carlos Duarte Macedo, com o pedido para que, ele Henriques, fizesse aí uma subscrição para angariar dinheiro para o projecto, sem o que perdiam uma oportunidade de se juntarem a outra aldeia, que já tinha angariado fundos.

O Sr. Henriques tinha feito a subscrição, no montante de 495.000,00 cruzeiros que, ao câmbio de então, rendera 7.710,00 escudos dinheiro com que regressou a Portugal para o referido projecto de electrificação.

Em abono do que declarava, apresentava os documentos.

Tomando como verdadeiras as suas palavras de acusação, o Presidente da Câmara ter-se-ia apoderado do dinheiro sem nada fazer. Dez anos se haviam passado. Era tempo de mais!

Foi nessa altura que desenvolvi as diligências que levaram à criação da Secção de Electrificação.

Segue-se a transcrição da carta, do peditório e dos recibos de entrega onde se menciona o Presidente da Câmara a intermediar o negócio

Nota: Respeita-se a ortografia mesmo que contenha erros.

Transcrição da Carta:

“Exmo. Sr.

Aníbal Francisco Henriques

Rua Júlio de Castilho, 3

Rio de Janeiro

Brasil

Fareja 1 de Janeiro de 1965

Primo e amigo Aníbal

…………………………. Assuntos familiares …………………………………………….

Outro assunto: Fareja, Baltar, Farejinhas e Folgosa vão ser electrificados, mas é preciso que cada povoação dê uma certa quantia de contos. As outras povoações já arranjaram o suficiente mas a nossa está muito em baixo, apenas o Sr. Albino e mais meia dúzia deles é que dão coisa que se conte, o restante é uma pobretanáje como tu sabes, e dão alguma coisa, mas sempre pouco para aquilo que temos que arranjar de 25 a 30 contos, e se perder-mos esta ocasião tarde virá outra.

Vê se arranjas aí tu e os outros uma meia dúzia de contos (mas se for mais melhor) é preciso agarar-mo-nos com vontade porque ele deve cá estar no praso de 2 anos, o engenheiro já vem fazer o estudo este mês, e logo que tenhamos o dinheiro vem logo a seguir a montagem dos postes e fazer a cabine, dizem-me que no prazo de 2 anos devem estar as 4 povoações iluminadas, mas deve ser antes.

Se nós não arranjar-mos esta quantia não vem para cá a luz, e tarde ou nunca para cá vem, e é uma vergonha a outras povoações terem e nós não.

…………………………… Assuntos familiares………………………………………

Abraços de nos todos para todos vós.

Teu primo e amigo Carlos Duarte Marcelo.”.

Transcrição da Subscrição, feita no Brasil

“Lista para a ajuda da electrificação da Folgosa de Castro Daire = Portugal

Aníbal Francisco Henriques                                    60.000,00

Carlos Lina da Rocha Souto Silva                          30.000,00

José da Justina                                                       20.000,00

Acácio Monteiro e António Duarte                         40.000,00

Manuel da Silva Mimoso                                        10.000,00

António Duarte Marcelino                                      30.000,00

Armando dos Santos                                                 2.000,00

Alcino Mário Marcelino                                          50.000,00

Hermínio Marcelino                                                20.000,00

José Lourenço                                                        10.000,00

Albano Lourenço                                                      5.000,00

Mercedes Felgueiras                                              20.000,00

José Claro Pinto                                                       1.000,00

Maria Rodrigues·                                                    30.000,00

Idalina Almeida Silva                                             20.000,00

A Pizarro                                                                 50.000,00

Aníbal Ferreira Caldeira                                           5.000,00

Joaquim Duarte Ângelo                                          26.000,00

Agostinho Jacinto Alves                                         20.000,00

Bernardino Duarte Pinto                                           6.000,00

Rogério de Almeida Montez?                                 30.000,00

Mário Duarte Caldeira                                            10.000,00

Soma                                                                    495.000,00

“Estes 495.000,00 cruzeiros, no dia 9 de Janeiro de 1965, ao câmbio de 64,200 cruzeiros, deram em escudos 7.710,00

Rio de Janeiro, 9 de Março de 1965

Aníbal Francisco Henriques “

Dinheiro que foi entregue na sua totalidade juntamente com outro angariado na aldeia.

Transcrição do Recibo do Engenheiro projectista da Câmara de Castro Daire, de nome António Fernandes Magalhães. Este dinheiro foi além do inicial que continha o do Brasil e o angariado localmente.

“Recebi do Sr. Aníbal Fernandes Henriques, a importância de 3.000$00 (três mil, escudos) por conta do projecto para electrificação da Folgosa – Castro Daire.

Castro Daire, 16 de Agosto de 1965

O Eng. El.º da C. M. de Castro Daire

# Assinado sobre selo de 3$00

Transcrição de um documento da Câmara para o Senhor Aníbal Francisco Henriques. Agora é o presidente em pessoa a pedir mais.

Exmo. Senhor

Aníbal Francisco Henriques

Data: 22/9/965

Assunto: Amigo e Senhor Aníbal

O senhor Presidente da Câmara encarregou-me de lhe pedir para o senhor Aníbal entrar com mais 3.500$00 do dinheiro da luz, a fim de completar uma conta que ele se comprometeu com o Engenheiro.
Logo que lhe seja possível, desde já em nome do senhor Presidente e meu os nossos agradecimentos.
Do amigo certo e obrigado

António Oliveira?

Perante esta forma tão visivelmente corrupta – o projecto em causa nunca tinha chegado a dar entrada nos Serviços Municipalizados de Viseu – decidi estabelecer uma ligação profissional com o Chefe dos Serviços para acertarmos o que era possível fazer e necessário que eu fizesse. Constatou-se que dos poucos projectos de electrificação de Castro Daire existentes nos Serviços, nenhum estava completo, faltando em quase todos os levantamentos topográficos, elemento fundamental para o prosseguimento do processo de execução e avaliação dos custos.

Fig27 - Avaliação da Rede Eléctrica de Mões

Fig27 – Avaliação da Rede Eléctrica de Mões

Acordei com os Serviços Municipalizados que essa parte ficava por nossa conta e, para resolver a questão enviei a Lisboa um oficial da FAP, natural da concelho de Castro Daire, com a especialidade de topógrafo, que estava sob o meu comando, para trazer o equipamento, o que este conseguiu com grande brevidade. Logo que ele chegou iniciaram-se os trabalhos de levantamento topográfico, que foram concluídos em 18 aldeias, a primeira das quais foi Carvalhosa. Uma electrificação há mais tempo reclamada era a de Cabril, freguesia que se situa nos confins do concelho, próximo de Alvarenga. A electrificação exigia linha de AT para o transporte, a qual passava por Pinheiro, Ermida e Parada de Ester.

Fig28 - Levantamento Topográfico de Carvalhosa

Fig28 – Levantamento Topográfico de Carvalhosa

Quando foi conhecida a decisão de levar a linha de AT até Cabril as populações de Parada de Ester movimentadas por uma facção direitista local que obedecia ao João de Oliveira tentou travar a passagem, organizando uma reunião onde se pretendiam lavrar um documento que se opunha à passagem.

Dirigi-me ao local e cheguei a meio da reunião. Tomei a palavra e ali mesmo decidi cortar a saída aos reaccionários, oferecendo à população uma de duas vias: a electricidade não passava e Cabril e Parada de Ester ficavam às escuras; a electricidade passava e Cabril e Parada de Ester ficariam iluminadas, uma vez que nos “meus estudos” Parada de Ester já estava incluída no projecto. Aproveitei para dispersar mais a reacção, dizendo-lhes que esta mesma informação a poderiam ter obtido de mim, se antes mo tivessem perguntado.

Fig29 - Levantamento Topográfico de Carvalhosa (continuação)

Fig29 – Levantamento Topográfico de Carvalhosa (continuação)

Terminada a reunião entrei em contacto com os Serviços Municipalizados de Federação combinando colocar em Parada de Ester um porte com um transformador para electrificação da aldeia. A linha tinha sido projectada para garantir a potência necessária a todas as aldeias ao longo da sua passagem, mas acontecia que este era um projecto retido na FMV que só tinha inicialmente contado com Cabril, facto que estava agora a tentar ser levantado contra nós.

Assim prosseguimos as nossas relações de trabalho e de amizade com a FMV durante todo o tempo da nossa permanência em Castro Daire. Ganhámos o respeito dos colegas da FMV e eles ganharam a minha estima. A coisa até aí parecia que tinha um nó que não desatava: quando havia verba faltava trabalho de campo para fazer; quando o trabalho de campo estava feito tinha-o sido por um interesse particular sem atender ao bem comum.

Comigo ainda em Castro Daire foi introduzida uma nova tecnologia nas redes de BT (baixa tensão). Refiro-me ao “torsadé”, tecnologia na qual os 4 cabos de BT (3 fases e um neutro), são enroladas numa torsada tornando-se o conjunto em auto-suportado, tornando a aplicação muito mais simplificada e aumentando a segurança contra a electrocussão.

Esta técnica tinha sido introduzida em São Romão de Seia, local onde eu e os engenheiros de FMV nos deslocamos antes de darmos a aprovação da nova tecnologia, que é a que ainda hoje se adopta.

9. Secção de Veterinária

Fui contactado pelo presidente de junta de Cabril para fazer uma sessão de esclarecimento numa data (16/471975) em que no local havia festa e feira do gado.

Uma vez chegado notava-se um certo mal-estar no ambiente. Passeando pela feira apercebi-me de um truque que também os regatões da minha terra usavam nas feiras. Quando lhe agradava um animal ou uma junta e se aproximava um concorrente, batiam com o cajado no chão como se fizesse parte da conversa. Este sinal dava para alertar os outros para não fazerem lançamentos ou até dizerem coisas como: lindo animal, pena é ter brucelose!

Esta actuação combinada dos regatões para comprarem o gado por baixo preço era responsável pelo ambiente anuviado que encontrei.

Alguns animais pareciam perfeitamente saudáveis. Eles diziam que tinham brucelose e mesmo assim compravam desde que o preço fosse baixo!

Os lavradores acusavam os regatões e o veterinário de Lamego, responsável pelo rastreio, de estarem conluiados por este atestar que os animais saudáveis estavam doentes.

A situação era grave! A doença, a ser verdadeira, era transmissível às pessoas através da carne e do leite. Ali ao lado era Alvarenga e o distrito de Aveiro, uma das zonas de maior produção de leite do País. Se a doença se estendesse a Aveiro transformava-se num caso de grande gravidade.

Auscultado o presidente da junta, este concordou em toda a linha que a situação podia ser muito grave.

Subi ao estrado da festa que havia na praça pública e o presidente da junta pediu atenção para o que eu ia comunicar.

Informei que ia falar da brucelose, da equipa de veterinária e do que eu próprio sabia, caso todo o mundo estivesse de acordo que eu expressasse o que tinha a dizer.

Com o povo do meu lado, descrevi o que sabia da brucelose, por acaso estudada nas aulas de higiene da Academia Militar com o Dr. Buceta Martins, da família do comandante.

Fig30 - Castro Daire - Dinamização Cultural - Cabril

Fig30 – Castro Daire – Dinamização Cultural – Cabril

Perante o perigo que a doença representava e os prejuízos que as avaliações mal feitas poderiam ter para os agricultores, propus logo ali uma série de medidas destinadas a parar com as avaliações e a circunscrever o foco de doença.

Foram elas: parar com o processo de rastreio da equipa de Lamego, cujos resultados deixavam dúvidas aos agricultores, rejeitar os resultados obtidos e não entregar a ninguém nenhum gado declarado doente ou não, nem o movimentar para feiras ou vender aos regatões. Em resumo, parar tudo como estava.

Exigir que a equipa que viesse substituir a que estava envolvida no processo fosse da confiança do MFA e da população:

Pedir actuação imediata ao MFA para que providenciasse uma nova equipa, diligência que me propus que ficasse ao meu encargo.

Depois de aprovado prometi que na minha próxima deslocação a Lisboa trataria do assunto, de modo a trazer uma nova equipa de veterinária para fazer o rastreio, tirar as dúvidas e ver quem tinha razão nesta contenda.

Nove dias depois terminou a primeira fase da campanha e fiz o que prometi. Desloquei-me a Lisboa, bati a algumas portas, falei com o secretário de Estado, falei com o grande amigo, Prof. Dr. António Ribeiro professor de Escola de Agronomia e pus a CODICE ao corrente das diligências, pedindo-lhe que actuasse junto do Secretário de Estado e incentivasse o professor a aceitar, dizendo-lhe que o meu convite tinha a cobertura da CODICE.

Quando chegaram as eleições já tudo estava preparado e assente. A nova secção de veterinária avançou comigo para Castro Daire a instalou-se no Hospital da Misericórdia que se encontrava praticamente devoluto.

A equipa do Prof. António Ribeiro levava na bagagem não só a suma sabedoria do seu chefe como um laboratório portátil de análise de sangue, que permitia tirar a limpo 98% dos casos. Só os 2% restantes é que tinham de baixar a Lisboa.

Todo o trabalho da equipa foi organizado de forma científica. Para cada animal foi criada uma ficha sanitária que o identificava e onde eram lançados os seus dados próprios, morfológicos e sanitários.

De cada animal era recolhida uma certa porção de sangue que era analisado no laboratório, para despistagem da doença. Se o animal se encontrava são era-lhe colocado um brinco na orelha com o número que correspondia à sua ficha. Eram criadas três fichas: uma para o serviço local, outra para os serviços de veterinária de Viseu e outra para o dono do animal, para o acompanhar como elemento de prova da sua sanidade.

O ten-cor Prof. António Ribeiro, logo que chegou a Castro Daire, comprou uns tamancos que mandou ferrar e passou a usar nas suas andanças pelos estábulos do concelho.

Organização do trabalho

Foi feita a divulgação pelos dois concelhos de Castro Daire e de Vila Nova de Paiva que a equipa de rastreio tinha chegado.

Produziram-se sessões de esclarecimento que incluíam uma palestra, seguida de um filme didáctico e das intervenções dos presentes para tirar dúvidas. Anúncio, na mesma sessão, do dia, hora e local de apresentação dos animais para os aderentes voluntários. Anúncio de que se ia colher uma pequena quantidade de sangue de cada animal para análise e despistagem, isto é, para ver se o animal tinha ou não tinha brucelose. Informar que, para se tornar mais curto o tempo de resposta, a equipa tinha trazido e montado em Castro Daire um laboratório de análises, suficiente para despistar 98% dos casos e decidir se os respectivos animais estavam ou não contaminados.

Anunciar aos donos dos animais saudáveis que lhes seria entregue um documento de sanidade garantido pelo Estado que podia ser exibido em qualquer feira ou perante qualquer comprador. Informar que o próprio animal seria portador de um brinco de identificação na orelha como forma visível do seu estado de saúde.

A adesão foi imediata e quase generalizada. À sessão de esclarecimento seguia-se a apresentação dos animais no dia imediato para recolha do sangue e identificação dos donos.

Fig31 - Castro Daire - Secção de Veterinária - Extração de Secundinas

Fig31 – Castro Daire – Secção de Veterinária – Extração de Secundinas

Depois do rastreio dos animais dos concelhos de Castro Daire e do de Vila Nova de Paiva a equipa passou a dar apoio sanitário, De facto muitas vezes apareciam donos de animais doentes que pediam a intervenção do Prof. António Ribeiro, em coisas tão variadas como uma cesariana a uma porca com 10 bácoros, salvando a mãe e os filhos, ajudas a vacas a parir orientando-lhes o feto dentro do útero, extracção de secundinas em partos mal resolvidos, etc.

O Prof. ten-cor António Ribeiro merecia de facto o epíteto de cidadão honorário de Castro Daire e Vila Nova de Paiva.

De todo este trabalho da veterinária, a equipa de dinamização ganhou a gratidão da população dos concelhos e a inimizade dos regatões de Vila Pouca. Esta aldeia era uma terra de regatões que viram o seu lucro emagrecer com a sanidade dos animais. De facto um brinco numa orelha de uma vaca era um sinal de derrota destes intermediários e um escudo de defesa para os donos das rezes.

Um episódio sangrento em Laboncinho

Um proprietário que não levou o seu gado no primeiro dia ao rastreio, armou zaragata com outro que o levou e deu-lhe uma sacholada no crânio, cortando-lhe a orelha esquerda e tirando-lhe uma lasca de osso da parietal. O episódio foi assistido pelo pessoal militar que trouxe o doente para Castro Daire. Porém o ferimento inspirava cuidados especiais, o que levou a que a vítima baixasse ao hospital de Viseu. Estava-se num tempo em que tudo caía em cima do MFA, porque ninguém obedecia às autoridades. Perante o perigo de vida do agredido, e tendo o acto sido testemunhado, estava-se perante flagrante delito que impõe prisão e apresentação às autoridades. Enquanto participei a Viseu e o RIV mandou alguém para me acompanhar fez-se noite. Chegámos a casa do arguido às 23 horas, hora imprópria para prender alguém em sua casa.

Assim batemos e esperámos que aparecesse alguém. Apareceu a esposa muito chorosa. Dei-lhe a palavra de honra que ninguém iria preso naquela noite e pedi-lhe que o marido chegasse à porta, ao cimo de escada. Quando ele veio intimei-o a apresentar-se no posto da PSP de Castro Daire às oito horas da manhã do dia seguinte. Prometeu que o faria, e assim viemos embora.

Pelo caminho, o cap. Gertrudes da Silva mostrou descrença de que o homem comparecesse. Porém, compareceu. E aí lhe expliquei porque o tinha mandado comparecer e teria de o entregar ao Delegado do Ministério Público para que procedesse de acordo com a lei.

10. Carreira pelas Portas de Montemuro e desvio de Mamouros-Carvalhal

Castro Daire vivia praticamente isolado. As carreiras que havia eram Castro Daire – Régua e Castro Daire – Viseu. Menos de 10% da população beneficiava destes percursos por viver perto deles. Todo o resto – 90% – tinha de andar grandes distâncias a pé antes de chegar à estrada.

Só se podia ir ao Porto por um destes itinerários e não se conseguia ir e vir no mesmo dia. Porém, se houvesse uma carreira pelas Portas de Montemuro isso seria perfeitamente viável. Havia ainda o caso de Carvalhal – Mamouros que tinham tido carreira a passar pelos seus lugares, mas tinha sido desviada para outro percurso, por onde não servia ninguém, mas era mais curto para a empresa de camionagem.

Ambos os casos eram muito lesivos para as populações, mas não havia força para levar a todo-poderosa empresa Guedes a mexer uma palha para facilitar a vida aos seus clientes, que eram as populações do seu concelho. Isto devia-se ao cacique local ser o dono maioritário da empresa e não estar para aí virado. As primeiras populações a reagir foram as de Carvalhal – Mamouros, dirigidas pelo Sr. Ferreira que, em nome dos seus fregueses fez chegar ao nosso conhecimento a anomalia de as populações estarem num lado e a carreira passar pelo outro, com a agravante de ainda até há pouco tempo o itinerário ser pelo meio das povoações que agora o viam desviado para uma estrada onde não servia ninguém, a cerca de um a dois km de distância, que tinham de percorrer a pé de trouxas às costas.

Resolveu-se abordar o assunto planeando uma ida do MFA a uma sessão de esclarecimento a Mamouros – Carvalhal, sessão onde seria publicamente apresentado o problema e pedido o nosso apoio para repor as camionetas a passar pelo seu anterior itinerário.

Feita a reunião ficou decidido o seguinte andamento com a apresentação de um documento assim redigido, seguido das assinaturas:

“A Junta de freguesia de Mamouros-Carvalhal, do Concelho de Castro Daire, atendendo ao pedido dos moradores das povoações desta freguesia de Carvalhal, Termas do Carvalhal, Casal, Moinho Velho, e Mamouros para que esta junta rogue à representação das Forças Armadas que se encontram neste concelho em dinamização e esclarecimento que apoie a reposição do transporte colectivo da empresa Guedes pelo percurso que sempre foi o seu.”

Paralelamente compunha-se a estrada antiga e preparava-se a população para o trabalho e fazia-se circular o abaixo-assinado como prova explícita da vontade do povo.

Fig32 - Castro Daire - Transportes Públicos - desvio por Mamouros e Carvalhal

Fig32 – Castro Daire – Transportes Públicos – desvio por Mamouros e Carvalhal

Esta acção recebeu o apoio do MFA e de gente que foi de fora (como professores primários e alunos do Ciclo Preparatório), quer para compor a estrada, quer para participar na festa da reposição do itinerário, quando chegou o dia.

Estes actos entravam na gesta e no património dos povos como dias abertos, claros e inteiros, onde cada um se integrava na vontade colectiva para erguer um marco à memória futura.

Fig33 - Castro Daire - Transportes Públicos - festa do desvio por Mamouros e Carvalhal

Fig33 – Castro Daire – Transportes Públicos – festa do desvio por Mamouros e Carvalhal

Chegado o dia, todas estas populações e aqueles que a eles se associaram esperaram e fizeram alta à camioneta da carreira, entraram, em festa, a bordo e indicaram ao condutor por onde de futuro seria o caminho a percorrer todos os dias. Depois fizeram uma festa de arromba. Onde não faltaram o vinho, os salpicões, a música, os cantares e os discursos. Previamente tinha sido informada toda a comunicação social de Viseu que registou para a história destas aldeias aquilo que ainda hoje é por eles considerado um grande acontecimento.

Fig34 - Castro Daire - Transportes Públicos - arranjo do percurso Mamouros e Carvalhal

Fig34 – Castro Daire – Transportes Públicos – arranjo do percurso Mamouros e Carvalhal

Uma carreira pelas Porta de Montemuro

Este episódio começou pelas repetidas queixas das populações pela recusa da empresa local de camionagem – empresa Guedes – de fazer o percurso de carreiras pelas Portas de Montemuro em direcção a Cinfães e Porto, o qual encurtaria cerca de três horas de duração e permitiria ir e vir ao Porto no mesmo dia.

As populações afectadas de Vilar, Picão, Carvalhos, Rossão, Campo Bem Feito, Pereira, Cetos, Póvoa de Montemuro, Faifa, Laboncinho Começais, Alhões e Gralheira eram as directamente atingidas porque tinham de se deslocar à Vila a pé antes de aqui tomar a carreira que as levasse para fora do concelho, quando, a carreira, a existir, passaria perto destas povoações.

Estudou-se a legislação e a tramitação legal para se iniciar uma nova carreira, onde têm de constar, entre outros requisitos, os mapas do percurso, os pontos de paragem e horários a praticar (dias e horas).

Fig35 - Castro Daire - Transportes Públicos - director da empresa SOARES combina com Cap Cruz Fernandes o início das carreiras da empresa pelas portas de Montemuro

Fig35 – Castro Daire – Transportes Públicos – director da empresa SOARES combina com Cap Cruz Fernandes o início das carreiras da empresa pelas portas de Montemuro

Elaborada toda a documentação e juntado o pedido sob a forma de abaixo-assinado de todas as populações dos lugares mencionados submeteu-se um requerimento segundo os conformes ao Ministro dos Transportes.

Paralelamente contactei a empresa Soares, do Porto, que fazia o percurso até Cinfães, para o estender até à Vila de Castro Daire, no caso da empresa Guedes não aderir de moto próprio, ficando nesse caso a linha entregue à empresa Soares.

Fig36 - Castro Daire - Transportes Públicos - início da carreira de autocarros pelas Portas de Montemuro

Fig36 – Castro Daire – Transportes Públicos – início da carreira de autocarros pelas Portas de Montemuro

O documento enviado ao Ministro dos Transportes contendo o estudo preparado e completo, feito nos termos do D.L. aplicável para este efeito, foi mostrado por mim ao gerente da empresa de transportes Guedes, que disse que ia falar com o Dr. João de Oliveira, sócio maioritário.

Informei-o de que isso pouco importava para o caso, pois, no dia mencionado no documento, o transporte começaria a ser feito. Se a empresa Guedes entretanto não acordasse com a empresa Soares como fazer as carreiras de Castro Daire – Cinfães – Entre-os-Rios – Porto e Porto Castro Daire, o serviço passaria a ser feito pela empresa Soares do Porto, com a qual já tinha tudo acertado.

De facto tinha chegado a acordo com a empresa Soares e no dia aprazado houve concentração de povo nas Portas de Montemuro para festejar a inauguração da primeira carreira Castro Daire – Porto pelas Portas de Montemuro.

À hora aprazada chegou a camioneta com pessoal do abaixo-assinado, que a tinha tomado, de forma gratuita, na sua viagem inaugural. Mais uma vez este acontecimento foi idêntico a um dia santo,pois ali apareceu muita gente da Vila e de outros lugares. As encostas da serra encheram-se de merendeiros e de tocadores. Havia felicidade e sorrisos rasgados em todos os rostos.

11. Uma carta para o capitão

Durante o tempo em que estive internado no Hospital Militar em Coimbra recebi inúmera correspondência, a maioria das vezes de pessoas que nem conhecia, dos amigos, das pessoas que me visitavam (alugaram-se transportes colectivos para me ir visitar). O caso que vou citar corresponde a uma entre tantas cartas, das que guardo no meu arquivo particular. A professora Conceição, de Cujó, tinha ido visitar-me e contou aos seus alunos como a visita tinha corrido. O Resto está na carta que transcrevo

Cujó, 19 de Maio, de 1975

Amigo

Parece-me que estou a ficar maçadora, mas tenho de lhe contar o que aconteceu hoje aqui na minha escola.
Quando cheguei disse aos alunos que o tinha ido ver a Coimbra e contei-lhes o passeio. Surgiram imediatamente perguntas, mas, entre tantas, houve uma, tanto da parte dos meus alunos como das empregadas da escola, que me comoveu muito.

A pergunta foi esta:
Podemos escrever ao Sr. Capitão?
A minha resposta foi sim e, quanto a mim, não poderia ser outra.

Sugeri ainda que os alunos da 2.ª Classe escrevessem uma carta e os da 3.ª outra, mas não quiseram assim. Preferiram fazer grupos e escrevê-las.
Ficaram loucos de alegria e as cartas aí vão.
Todas elas foram feitas sem qualquer ajuda da minha parte, ensinei apenas a escrever algumas palavras que eles não sabiam.
Todos os dias quando as aulas terminam cantamos a canção: A Gaivota, e tudo canta muito afinadinho; Saem da Escola e vão pelo caminho a cantá-la até chegarem a casa.

É já tarde.

Hoje não quero maçá-lo mais

Ção”

12. Considerações finais

Por necessidade de contenção termino aqui a menção a episódios da minha estadia em Castro Daire, deixando na penumbra outros que possivelmente mereceram ser registados neste documento, como o do padre que não queria que a irmã se socorresse dos nossos veterinários para lhe curar os animais mas comia-lhe os presuntos, como o professor que agrediu um casal de idosos e onde eu intervim para garantir a indemnização pelos danos, sem que o assunto transpirasse para os tribunais, como o corrupio de visitas ao hospital de Coimbra quando tive o acidente ou como classificar o acto de a população se ter quotizado na minha ausência para angariar dinheiro para o conserto do meu automóvel nos Janeiros da Régua.

A quantidade de episódios que me prendem a Castro Daire faz que ainda hoje tenha pessoas com quem me corresponda e sinta profunda mágoa de cada vez que recebo a notícia de que um dos meus amigos morreu.

Saí de Castro Daire, não porque a minha missão fosse considerada acabada, mas porque o Comandante da Região Militar Centro, general Charais, quis beneficiar dos meus serviços a nível regional, isto já em 1976.

As coisas evoluíam então muito rapidamente e pouco depois o Director da Arma de Transmissões, brigadeiro Pereira Pinto, requisitou-me para ir para o Regimento de Transmissões fazer os primeiros projectos de redes telefónicas de Pequenas Unidades, porque esta unidade se declarara sem experiência para fazer este trabalho.

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Um comentário a “Coronel Cruz Fernandes – Uma notável história de vida (3)

  1. Há muito que conheço e admiro as notáveis realizações levadas a cabo pela equipe chefiada pelo coronel Cruz Fernandes em proveito de Castro de Aire e da sua população, no âmbito de uma Campanha de Dinamização Cultural do MFA, iniciada em 1975, se desenvolveu durante o “Verão Quente” e, por decisão das forças moderadas do MFA vencedoras do 25 de Novembro se prolongou em 1976 mais de quatro meses, para permitir a conclusão dos trabalhos em curso.
    Uma das vantagens, para mim, da leitura deste post é a de convencer qualquer leitor, mesmo os mais críticos em relação às Campanhas de Dinamização, do acerto desta decisão.
    Permito-me recordar que no “ Verão Quente” , outros oficiais da Arma de grande valia técnica, foram colocados em missões diversas fora da Arma, para acorrer a conflitos em empresas fundamentais para o funcionamento do país (CTT, RTP, RDP. Rádio Renascença), para as quais o recurso ao MFA era a única solução possível

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