Contribuição para uma Breve história da evolução das Transmissões do Exército (1)


Post do MGen Pedroso Lima, recebido por msg:

Pretendemos abordar aqui, de forma abreviada, a evolução das Transmissões do Exército desde a sua criação, em 1810, até 1985, ano a partir do qual nos faltam elementos suficientes consistentes para prosseguir.

Procuraremos realçar as grandes mudanças que se verificaram nos sistemas de Transmissões, as causas que as provocaram, os seus protagonistas bem como as suas consequências.

Para o efeito consideraremos a seguinte articulação :

  • 1º Período (1810 – 1855) A telegrafia ótica
  • 2º Período (1855 -1880) A telegrafia elétrica
  • 3º Período (1880 – 1914) A sobreposição de meios nas Transmissões Permanentes
  • 4º Período (1914 – 1939) A Grande Guerra e o pós-guerra
  • 5º Período (!939 -1961) A II Guerra Mundial e o pós-guerra
  • 6º Período (1961 -1974) A Guerra Colonial
  • 7º Período (1974 -1985) 25 de Abril e o Portugal Democrático

Cada período corresponde a uma mudança significativa no sistema utilizado pelas transmissões do Exército.

Os dois primeiros a mudanças resultou de um esforço de modernização do país, a exemplo do que se passava na Europa e tiveram reflexos significativos na sociedade civil, sobretudo no segundo.

O 3º período tem apenas objetivos militares no sentido de preparar as Transmissões Permanentes do Exército para permitirem criar, rapidamente, as transmissões de campanha necessárias, em situações de guerra.

No 4º e 5º Períodos a modernização das transmissões resultou de se adotar o sistemas de transmissões inglês, no caso da I GM na frente europeia, ou ao americano, já no período pós-IIGM.

A Guerra Colonial procurou-se adotar um sistema de transmissões que teve o mérito de se adaptar ao tipo de conflito, o que não foi fácil, dado o isolamento internacional de Portugal .

O último período, provocado pelo 25 de Abril, é uma consequência direta da guerra Colonial, dado que os sistemas de transmissões necessitarem de ser completamente remodelado para a nova situação criada.

Neste primeiro post abordaremos apenas o primeiro período.

1º Período (1810 – 1855) A telegrafia ótica

A introdução da telegrafia ótica correspondeu, na época, a um enorme avanço para as comunicações, do antecedente baseadas no uso de mensageiros.

O sistema de telegrafia ótica, usado na Europa desde finais do século XIX consistia num conjunto de estações, a distancias que podiam ir a dezenas de quilómetros, situadas em pontos elevados, onde se instalavam os telégrafos óticos e lunetas que permitiam visualizar os sinais das estações contíguas. O sistema incluía um código que permitia decifrar os sinais transmitidos. Cada mensagem era transmitida de cada estação à estação seguinte, atá à estação terminal-

A telegrafia ótica foi introduzida em Portugal por D. João VI, com vista a tomar conhecimento, o mais rapidamente possível, do tráfego no porto de Lisboa, quando o príncipe regente se encontrava fora de Lisboa nas suas residências em Mafra, Queluz ou Salvaterra de Magos.

A grande figura da telegrafia ótica em Portugal foi Francisco António Ciera, lente da Academia de Marinha, que desenvolveu um sistema original que foi chamado o sistema telegráfico português.

Para assegurar o funcionamento da telegrafia ótica foi criado, em 1810 o Corpo Telegráfico, dirigido, nos seus primeiros anos, por Francisco António Ciera (1764-2013)

A rede de telegrafia ótica expandiu-se de Norte a Sul do país chegando a ter 85 estações e um efetivo de mais de 480 homens

O sistema servia, em tempo de paz e de guerra o Exército e a Administração do reino mas não chegou a fazer serviço para o público em geral.

Participou na Guerra Peninsular, nomeadamente nas Linhas de Torres Vedras e nas lutas liberais, onde absolutista e liberais usaram a telegrafia ótica.

A Telegrafia ótica, o sistema pioneiro das telecomunicações em Portugal, dominou as comunicações no país até 1855.

Nas figuras seguintes apresentam-se dois modelos dos telégrafos de ponteiro e de postigos desenvolvidos por Ciera:

Telégrafo de ponteiro

Telégrafo de ponteiro

Telégrafo de postigos

    Telégrafo de postigos

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2 comentários a “Contribuição para uma Breve história da evolução das Transmissões do Exército (1)

  1. Em primeiro lugar quero agradecer ao sr. João Freitas o comentário que teve a amabilidade de apresentar com o intuito de provocar “uma salutar troca de ideias sobre uma matéria que nos apaixona”.
    Tenho o maior gosto em corresponder a este estimulante apelo que o Blogue propicia.
    Acentuo que ao designar o post por “Contribuição” queria afirmar que o texto não pretendia ser a última palavra na matéria mas sobretudo que era desejável que outras contribuições aparecessem para o valorizar e aperfeiçoar. Ou seja era uma contribuição entre outras que viessem a aparecer.
    Assim sendo o sr. João Freitas não tem que se penitenciar por ter “invadido o meu espaço”, pois além de considerar o seu comentário muito interessante e inovador, pois não conheço nada escrito sobre esta matéria, reconheço-lhe o mérito de incentivar outras contribuições, como é desejável.
    Perante isto é evidente que não posso deixar de lhe apresentar , com todo o gosto, algumas ideias suscitadas pelo o seu comentário
    Tenho porem a limitações por, até agora , só terem sido publicados no Blogue dois posts que abrangendo apenas a telegrafia ótica e a elétrica, pelo que me limitarei a tratar aqui de dois pontos que naturalmente não abrangem períodos posteriores , como o seu comentário.
    O primeiro diz respeito à finalidade do meu trabalho, pois permite compará-la com a finalidade do texto que adaptou no seu comentário.
    O segundo pretende abordar as soluções que adotámos na subdivisão em períodos.
    As Finalidades
    Como foi publicado no Blogue (no post de 16 de maio deste ano) realizou-se uma visita da CHT à Escola das Arnas, a convite do Comando e do pessoal da Arma em serviço na Escola. Infelizmente não tive possibilidade de participar, como desejava, tanto mais que um dos aspetos da visita dizia respeito ao “ Museu que a Escola está a instalar e onde pretende contar cronologicamente o evoluir das Armas, nomeadamente o das Transmissões “.
    Pensei que apesar de não ter estado na visita talvez pudesse dar alguma colaboração útil , tanto mais que sempre tenho defendido que um Museu (ou coleção visitável) deve sobretudo “contar uma história” que o visitante consiga ter gosto em perceber. O material exposto serviria para ilustrar essa história.
    O meu trabalho tem o objetivo de contar a história da evolução das transmissões (que é muito mais interessante do que eu consigo contar) e tem algumas figuras (propositadamente poucas) para ilustrar. porque pretendi valorizar a simplicidade e percetibilidade do texto. É como se fosse um museu com diminutos objetos expostos.
    Em relação ao texto que serviu de base ao seu comentário ele também representa o enquadramento de um conjunto de fotografias, que no entanto, tanto quanto me apercebi eram o aspeto essencial do livro. A diferença essencial é que, no meu caso, procurei valorizar o texto e só apresento um conjunto muito reduzido de imagens.

    Divisão em períodos
    Os períodos que considerámos são diferentes. Não seria de esperar outra coisa.
    As finalidade dos textos é diferente, como vimos e o seu trabalho diz respeito apenas a equipamentos de campanha, com especial incidência nos equipamentos rádio, enquanto que o meu texto incluí também as transmissões permanentes. Tive a preocupação de associar , a cada período, as figuras de destaque
    No seu texto a preocupação que dá à ligação das transmissões com a Industria nacional leva-me a considerar que esse aspeto deverá ser contemplado no meu texto, visto que, por exemplo na telegrafia ótica todos os equipamentos eram fabricados em Portugal, no Arsenal do Exército…
    Mas julgo que em qualquer caso em ambas as divisões ficou patente a influência da guerra :IGM, IIGM (embora nela não tenhamos participado) e Guerra Colonial como essenciais nos grandes saltos tecnológicos que se verificaram na área das Transmissões

  2. Para que da comparação das ideias se comece a chegar a consensos próximos de uma verdade histórica aceite e como está (estamos!?) a desbravar terreno virgem, permita-me, Senhor MGen. Pedroso Lima, que “invada o seu espaço” e lhe apresente uma pequena parte de um texto de nossa autoria sobre este mesmo assunto.
    Escrito há mais de dez anos, pensávamos nós que seria integrado num futuro livro fotográfico sobre transmissões militares tácticas. Factores vários fizeram com que nunca passasse de um projecto. O referido texto é apresentado como foi escrito e não tem qualquer revisão.
    Creia-me, Senhor MGen. que o meu único intento será o de uma salutar troca de ideias sobre uma matéria que, permita-me, nos apaixona…

    Tambores na Selva

    Que estranho titulo ao falarmos de rádios, quando o que nos vem à cabeça são complexos e diminutos integrados ou mais quentes e singelas válvulas. Então qual a razão de semelhante anacronismo? Onde estarão os tambores e onde ficará a selva?

    O nosso Exército, em cem anos de história de comunicações militares tácticas via rádio, tem um percurso singular. Talvez não sejamos únicos, somos sem dúvida alguma singulares. Isso basta para que torne toda essa história num mundo com bons e maus passos, remedeios, paixões e interesses. Ficámos irremediavelmente ligados a ela.

    Contrariamente ao que se passa com armamento ou uniformes, nesse espaço histórico, muito pouco foi feito para passar a papel todos os aparelhos que ingressaram nas nossas fileiras. Obras muito pontuais e desgarradas, opúsculos imprecisos, livros ou revistas generalistas, nunca traduziram a total realidade dos materiais. Esta que agora vos apresentamos, provavelmente terá, também, lacunas. Uma consciência tranquila, e perto de trinta anos de trabalho, indica-nos que a busca foi levada á exaustão. Poucos elementos faltarão.

    Antes de passarmos às fotografias, pois este é um livro baseado nesse meio de registo, convirá recordar que Portugal, para além de receber aparelhos de todo o mundo, foi desde o início participante activo na sua manufactura. A indústria nacional militar e particular foram intervenientes activas na concepção e manufactura de muitos aparelhos e seus mais diversos acessórios, uns totalmente originais, outros executados sobre patente, outros ainda montados de forma híbrida.

    Para além da novidade que foram os primeiros anos, são as duas Guerras Mundiais, a NATO, e a Guerra Colonial a marcarem espaços temporais importantes nesta história. Portanto dividimos esses cem anos em seis períodos, que são na nossa óptica:

    1º Período, de 1810 a 1901 – “Telegrafias”

    2º Período, de 1901 a 1918 – “Inicio da rádio”
    (Do inicio (1901) ao final de 1ª Guerra Mundial)
    Comprados os primeiros aparelhos é a época das experiências, de alguns sucessos e muitas frustrações.

    3º Período, de 1918 a 1945 – “Período de consolidação”
    (Do final da 1ª Guerra Mundial ao final da 2ª Guerra)
    Para além de uma significativa manufactura Nacional, é a época em que, de facto, se começa a “comunicar via rádio” seguramente e sem percalços.
    Alguns anos deste período são de extrema dificuldade na determinação correcta dos aparelhos utilizados.

    4º Período, de 1946 a 1960 – “Período NATO”
    (Do final de 2ª Guerra Mundial ao inicio da Guerra Colonial)
    Época de abastança e de uma certa uniformidade. O material recebido, nomeadamente dos EUA e de Inglaterra, é moderno q/b, coerente entre si (dentro de uma mesma origem) e relativamente eficaz.

    5º Período, de 1961 a 1974 – “Guerra Colonial”
    (Toda a Guerra Colonial 61/74)
    Tempo de grande confusão motivada pela utilização de material díspar e pela guerra de interesses.
    Participação muito activa da industria Nacional nas múltiplas vertentes deste campo, muito especialmente fazendo aparelhos sob patentes estrangeiras.

    6º Período, de 1975 a 2000 – “A modernidade”
    Inicia-se a maior “limpeza” de tudo o que era antiquado e excedente, não se protegendo um património excepcional, que outros países receberam de braços abertos.
    Retoma-se a ideia, nem sempre concretizada, de uniformizar os equipamentos. De novo a indústria portuguesa irá ter uma palavra a dizer.

    Como facilmente se entenderá estes cem anos não foram fáceis, muito menos foram lineares., pelo menos até 1974. A angustia permanentemente motivada por aparelhos que funcionavam mal, por rádios que se sabiam existir e que escolhas mal feitas relegavam para o esquecimento, complexos canais de abastecimento de sobressalentes e o entendimento que sempre se teve de que “as transmissões eram muito necessárias, mas que haviam sempre outras prioridades”, levaram a esse caminho conturbado. Isto é bem patente em muitos textos de época contemporâneos e em resenhas históricas oriundas do próprio exército que de tempo a tempo aparecem ao publico.

    Nem tudo, longe disso, foi “coisa ruim”, alguns oficiais com responsabilidade na condução das transmissões, foram, na sua época, activos e conhecedores, fazendo provir, in extremis as gritantes necessidades. Outros, com menos poderes, conseguiram fazer passar nas entrelinhas de muitos textos, por exemplo, a amargura de trabalhar em 1930 com aparelhos comprados em 1911.

    No campo humano, não nos podíamos esquecer dos antigos rádio montadores militares. Em aparente via de extinção, foram eles, especialmente a sua magia e conhecimento, a razão de muitos aparelhos continuarem a trabalhar passados 30 anos da data de fabricação.

    Também neste campo, etc. etc.

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