Aspetos da Grande Guerra (1914-18) em Moçambique


Post do MGen Pedroso Lima, recebido por msg:

Recentemente tive oportunidade de ler o livro “A Epopeia Maldita”, escrito em 1924, por António de Cértima,[1] que uma pessoa amiga teve a amabilidade de me emprestar.

Pareceu-nos ter cabimento apresentar, neste Blogue, alguns trechos desta obra,  por três razões fundamentais:

  • A CHT andar a investigar a participação das Transmissões (então na Arma de Engenharia) na Grande Guerra;
  • A 3ª expedição a Moçambique – o livro é a sua epopeia – incluí tropas de transmissões que se distinguiram, nomeadamente, no cerco alemão a Nevala[2]
  • A participação militar portuguesa na Grande Guerra em Moçambique, apesar de ter exigido sacrifícios enormes, é pouco difundida em comparação com a atuação portuguesa na Flandres.

Epopeia maldita, livro de 1924

Mas sobre o interesse do livro parece mais que suficiente recordar o que escreveu, sobre ele, o general Gomes da Costa:

(…) O livro “A EPOPEIA MALDITA” é a reacção salutar contra a mentira de África, é um livro de coragem absoluta, é um livro de Verdade! Porque, os que, como eu, viram em Mocímboa da Praia, ao terminar a guerra, as montanhas de pneus, os centos de automóveis, os rios de águas minerais e de vinho, as máquinas de toda a espécie, algumas das quais nem tinham quem delas se soubessem servir; os refrigeradores, as toneladas de víveres que, estragados pelo tempo, tiveram de ser atirados ao mar, indo envenenar o peixe da baía; as cruzes de pau dos cemitérios, abandonados, dos nossos soldados; quem viu tudo isto, é que pode compreender bem o que é “A EPOPEIA MALDITA”, e revoltar-se contra a inépcia, incapacidade, incúria, desleixo, estupidez e desumanidade dos que, com os meios de acção mais poderosos que nenhuma outra expedição portuguesa teve em África, deixaram devastar e destroçar à fome e à sede, esses pobres soldados de Portugal! (…)[3]

No livro, o autor indica as enormes dificuldades por que passaram as tropas da 3ª  expedição, em que participou, enviada para Moçambique em 1916, e que ilustram bem a severa apreciação desta expedição, que transcrevemos.

Não pretendemos, de forma alguma, aqui apresentar uma síntese do livro mas apenas alguns trechos relativos à parte inicial da expedição e à forma como o autor sentiu, na sua pele, o funcionamento do serviço de saúde.

Comecemos pela narrativa do desembarque do navio “Zaire”, em 25 de Julho de 1916, em que o pessoal era desembarcado em barcaças que levavam 20 a 50 homens que eram “depostos ainda em água alta e eram carregados para terra sobre os ombros nus de uma legião algarreante de pretalhões… Demorou horas este desembarque grotesco mil vezes deprimente”[4]

No que respeita á instalação do pessoal, nada estava previsto, como sucedera nas duas expedições anteriores[5]:

… “ Parece que o QG ignorava a viagem que há um longo mês vínhamos fazendo em direção a estas paragens. Daqui o à última hora dos serviços de preparação para o recebimento em terras do cabo Delgado do nosso contingente. Daqui o desconchavo desta noite mal prevista, desgarrada, à matroca, num bivaque improvisado, sem senso comum, em que as companhias não sabiam onde alinhar, onde pernoitar…”[6]

Mas, se o desembarque do pessoal e a sua instalação foram desastrosos, o que se verificou com o material e o gado, não foi diferente:

….“O “Amarante” e o “Machico” tinham chegado tarde e a más horas. O armamento, que deveria vir antes da expedição, só veio depois, muito depois, dando motivo a estas cenas de alto burlesco: nos bivaques a guarda era feita de cacete. Os soldados com uma cartucheira à vista e um grosso cacete ao ombro… uma chuchadeira intolerável, tudo isto…” [7]

…”Depois, o material naufragado à descarga: o gado que era lançado a nado para terra e que se internava no mato para nunca mais aparecer; os desaparecimentos, os incêndios, os múltiplos desleixos e incompetências, tudo isto originou, duma maneira condenável, precisar a expedição de iniciar a primeira marcha e não ter o material respetivo para a praticar…” [8]

A expedição estava condenada uma longa estadia em Palma. Vejamos como autor nos conta a instrução que se dava na base, antes de se poder fazer a primeira marcha:

…“Todos os dias se assistia a uma escola de recrutas. Parece que às cegas tinham trazido esta gente do continente, como se fossem agarrados de surrelfa pelos campos e trazidos clandestinamente para os aquartelamentos destas regiões…”

“Fazia-se a “escola de pelotão”, estabelecia-se o “serviço de segurança em estação”, simulavam-se pequenos combates e, a fechar esta obra grandiosa de técnica e estratégia, havia o já famoso “exercício de sacos” que era o que mais horripilava o soldado, devido ao penoso cansaço que infligia. Esta especialidade era executada por uma linha de atiradores postados no chão, de ventre para baixo, e protegidos por um saco cheio de terra que tinham à frente da cabeça e que eles eram obrigados a deslocar com a mão esquerda e sem se levantar quando houvesse necessidade de avançar.” [9]

Mais de um mês depois  “ao mesmo tempo que o tédio – essa flor do mal – ia dilacerando o coração da malta…”[10], verificou-se em 16 de setembro a saída para a primeira marcha.

Estava-se em Kionga, após uma marcha aniquiladora de 10 horas horríveis…

“É certo que o meu batalhão tinha chegado a Kionga, mas só o Comandante e o resto da oficialidade que tinham feito a marcha de Palma a esta povoação choutando sobre o dorso das “montadas”. De resto , sob os palmeirais do burgo  apenas se encontravam meia dúzia de praças e alguns sargentos, verdadeiras exceções de energia nesta derrocada avassaladora e barbaríssima a que o batalhão acabava de ser submetido. Um fiasco!

Os outros… jaziam espalhados pela floresta, caídos de cansaço ao longo do caminho durante o inferno de fadiga desta horrível marcha tão mal orientada…

A dois quilómetros de Kionga, quando o Major-Comandante se lembrou de olhar para a retaguarda encontrou apenas oitenta homens no seu séquito.  Ficou fulo! E acima do seu folgado rocinante, exorcismou o batalhão, apodou de cobarde e desonrosa a malta…”[11]

O conhecido ditado “quem torto nasce, tarde ou nunca se endireita” aplica-se cabalmente a esta 3ª expedição a Moçambique que teve este triste começo. As coisas continuaram a correr mal em combate contra o inimigo, superiormente comandado por Von Letow e sobretudo no combate à doença, provocada pela insalubridade do clima, deficiências da alimentação e pelas insuficiências do serviço de saúde, causadoras do elevadíssimo número  de baixas.

Vejamos, para terminar, a forma dramática como o tenente autor do livro relata a sua dolorosa experiência pessoal com o serviço de saúde, no hospital de M´lamba.

“O sargento enfermeiro e o capitão-médico, quando de raro apareciam a fazer inspeção sanitária, tinham o cuidado de se munir de desinfetante enérgico e polvilhar o caki do uniforme contra a matacanha que pululava aos milhões na poeira negra do chão …

Com mil razões, pois, é de crer que o desgosto causado pela vileza do tratamento a que votavam estes pobres párias, provocasse mais baixas que a púa dos vermes que os trucidava.”[12]

Oh mulheres de Portugal, que aqui perdestes os noivos belos! Oh mães enternecidas que tendes aqui sepultadas as caveiras frias dos vossos filhos, todas vós que generosamente, enviaste a estas terras malditas os frutos sadios da vossa carne, levantai-vos a protestar, gritai quanto puderes contra os matadores dos vossos noivos, filhos, que eu vo-los aponto: foram os homens de M`lamba!”[13]


[1] António de Cértima é o nome literário que António Augusto Gomes Cruzeiro (1894-1983) adotou. Publicou 34 livros de 1914 a 1970; Licenciou-se em direito e ingressou na carreira diplomática em 1925, tendo sido cônsul em Dacar e Sevilha. Participou como subalterno na 3ª expedição portuguesa a Moçambique, tendo participado na ocupação de Nevala e na posterior retirada, face à reação alemã.

[2] Ver o 3º Volume das “Notas sobre Transmissões militares em Portugal”, pag 71 e 72  do Cor Bastos Moreira onde descreve a notável ação do tenente Moreira de Sá em Nevala.

[4] Livro citado pág 45

[5] Se é grave nada estar preparado para receber a  3ª expedição muito mais grave é verificar que o mesmo já sucedera nas duas expedições anteriores, revelando inadmissível incapacidade de corrigir os erros.

[6] Idem, pág. 47

[7] Idem, pág. 76

[8] Idem, pág. 77

[9] Livro citado pág. 55

[10] Idem pág. 56

[11] Livro citado pág. 68

[12] Idem , pág. 94

[13] Idem, pág. 96

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