O levantamento da participação das Transmissões na Grande Guerra


Um Dia de Investigação no Arquivo Histórico Militar.

Atravessamos o pátio dos canhões e o nosso relógio biológico logo nos transporta para outras épocas, outras paragens. Passamos a fazer parte da história.

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Antes de começar este dia de investigação impõe-se fazer uma pergunta. Para que serve este nosso trabalho? A pergunta foi feita e respondida pelo nosso coordenador:

“Primeiro – para nos apercebermos da documentação que temos para explorar e quais os assuntos que iremos encontrar.

Segundo – para reunir as primeiras informações sobre o nosso tema.

Terceiro – para podermos elaborar pequenos textos, sem preocupação da sua prévia integração no trabalho final, que poderão constituir-se em contributos para o Blogue.

Quarto – para nos apercebermos de dificuldades na recolha de informação.

Quinto – para irmos criando um acervo de informação, com apontamentos, fotocópias e fotografias dos documentos.

Ou seja, para conseguirmos só precisamos persistência, sem deixarmos de ser um grupo de amigos que se encontra, almoça, discute os problemas do país e do mundo e confraterniza…”

O Objetivo principal da nossa investigação é fazer o levantamento do envolvimento das Transmissões na I Guerra.

Quando chegamos já tudo está preparado para o início do trabalho. Secretárias vazias á espera da distribuição das caixas, fazia lembrar uma sala de aulas  no momento da distribuição das provas.

Depois a distribuição aleatória ou especifica se algum tema nos atrai mais que outros.

…Divisão 1/Secção 35/CX 551/ Pasta 1-Guias de marcha….Pasta 5 Boletins de passagem, Livro de doentes..

Cada pedaço de papel que passava pelas nossas mãos trazia-nos a sequência de imagens da ordem de trabalho, da punição, a admoestação do soldado por atravessar uma horta plantada pelos franceses, do louvor.

Impressionou-nos o pormenor, muitas vezes a caligrafia impecável, a presença da hierarquia, a disciplina refletida nos milhares de ordens ou aspetos administrativos assinados pelo comandante (confirmámos que não era assinatura digital).

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“Ordem de trabalho de 1-XI-918

I-1º cabo 82- {15 homens+5Ingleses}…….

II- Sargtº Gonçalves {10 carpinteiros e 10 ajudantes} 1 camion….colocar as barretas na 5ª travessa *não há parafusos, que só mais tarde chegarão, de modo que só prendem a barreta na 4ª travessa com o parafuso que nela existe, colocando-se mais tarde o parafuso na 5ª travessa…

III- Sargtº Barreira…recolher as duas ultimas travessas de qualquer traçado boche que tenha mais de quatro travessas, e todos os ferros em J e isoladores que encontrar no chão….

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Algumas caixas impressionam mais do que outras. A caixa 89 só tratava dos bombardeamentos por gazes. Tipo de gazes, Máscaras…etc

Não resisto a transcrever parte de um relatório….

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“RELATÓRIO DO BOMBARDEAMENTO A GRANADAS DE GAZES NA FRENTE DO Iº CORPO EM 17/18 DE AGOSTO DE 1917”

1.O TEMPO:- Fez bom tempo no dia precedente ao bombardeamento. Durante a noite uma brisa variante entre 2 a 6 m.p.h cuja direcção era mais ou menos S.O. Temperatura mais ou menos 60ºFarhrenheit (15,5 Cent.)

…..

3.NATUREZA E DURAÇÃO DOS BOMBARDEAMENTOS. O bombardeamento começou com granadas explosivas de todos os calibres e quando este fogo chegou à devida intensidade para amortecer o som das granadas de gazes, começou o bombardeamento com estas. Durante períodos de meia hora foram batidos vários alvos na área, com fogo concentrado; nos intervalosfoi mantido um fogo lento tanto de granadas explosivas como de gaz.

O bombardeamento durou das23 horas em 17-8-17 até às5 horas em 18-8-17com intervalos de socego a variados intervalos.

….

6.EFEITOS PRODUZIDOS. Houve uma grande semelhança em todos os sintomas. Não houve mal estar pulmonar nem dos brônquios, tal como se sente com os gazes Cloripierine e  Difosgeneo. Umas 6 horas depois do bombardeamento houve sofrimentos de náuseas e vómitos, e passadas 8 a 10 horas, dores agudas nos olhos. A ordem por que apareceram os vários sintomas não variam dos relatos nas previas descrições dos efeitos do gaz “Cruz amarela”. Só numa bataria é que o pessoal sofreu de bolhas nas pernas.

…….

9.CONDIÇÕES QUE PREVALECIAM ANTES DO BOMBARDEAMENTO. Durante os dois dias precedentes, durante o bombardeamento mutuo e o período dos contra-ataques, a artilharia divisionária de tal maneira trabalhou que o pessoal só conseguiu comer a horas muito incertas. Na noite 17/18, antes do bombardeamento a gazes, os homens caiam de cansaço e em muitos casos desmaiavam com o fumo e o cheiro da pólvora N.C.T. nos abrigos das peças. A sua resistência física estava muito esgotada sendo difícil resistir aos gazes ou fazerem o maior esforço físico para respirar, que o respirador colocado exige.

10. CAUSAS DAS BAIXAS

…….Os homens com os respiradores colocados tiveram grande dificuldade em ver, para carregar munições, apontar as peças, ajustar as espoletas e fazer fogo vivo. Depreende-se disto tudo que o pessoal preferia ser atingido pelos gazes do que não responder às chamadas feitas pela infantaria….os artilheiros aceitaram a probabilidade de serem atingidos para melhor cumprirem o seu dever.

(Confesso que via em cada trabalho em cada descrição o nome do meu avô que embarcou a 30 de Janeiro de 1917, na primeira leva)

O dia chegou ao fim, com algumas emoções próprias de um “aprendiz de investigador” e com a vontade de conhecer mais… quando partiram, onde estiveram, que material utilizaram, quantos voltaram. ……

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3 comentários a “O levantamento da participação das Transmissões na Grande Guerra

  1. A CHT, impulsionada pelo coronel Aniceto Afonso, tem vindo ultimamente a desenvolver um louvável esforço de pesquisa no AHM sobre a participação das Transmissões no Corpo Expedicionário Português, durante a Grande Guerra, no qual, contrariamente ao que desejava, não tenho podido participar, nem prevejo que o possa fazer nos tempos mais próximos.
    Há alguns anos também andei a investigar, no AHM, a atuação das Transmissões no CEP, dentro de um programa orientado pelo coronel Aniceto Afonso. Dessa atuação resultaram alguns textos que lhe enviei e que presentemente, dada a avaria do disco do meu computador, não tenho (e possivelmente não virei a ter) possibilidade de recuperar.
    Dessa experiência julgo que talvez possa ter alguma utilidade para os trabalhos da CHT em curso no AHM o seguinte:
    • A lição inaugural do ano letivo de 1929-1930 da Escola do Exército (1)apresentada pelo Gen Soares Branco, que como capitão, chefiou o Serviço Telegráfico do CEP, foi para mim, extremamente importante pois deu-me uma visão integrada da atuação das transmissões no CEP. Este trabalho poderá ser útil para enquadrar a leitura dos documentos do AHM investigados. Ao coronel Pena devo a amabilidade de me ter oferecido fotocópias desta lição inaugural que julgo existir também no Arquivo da CHT e que poderá ser consultada.
    • Se o coronel Aniceto Afonso considerar que alguns dos trabalhos que apresentei possam ter utilidade para os trabalhos em curso está perfeitamente à vontade para os dar a conhecer aos elementos da CHT que neles possam estar interessados.

    (1) Publicada na íntegra pela Revista de Artilharia, em 1930 (de Janeiro a Dezembro)

    • Caro Gen Pedroso de Lima, camarada CHT
      O seu alerta vem no momento próprio e estou certo que o Aniceto Afonso(AA), que tem recolhido toda a informação, também lá tem o seu valioso contributo. O plano de trabalhos prevê que a reunião da próxima semana seja dedicada à elaboração do esquema geral e análise dos dados recolhidos. A sua colaboração vem colorir o que eu transcrevi acima como resposta do AA à pergunta “para que serve o trabalho que andamos a fazer no AH…” para conseguirmos (os 5 objectivos ) só precisamos de persistência, sem deixarmos de ser um grupo de amigos…”. Obrigado pela sua persistência e amizade.

    • Fico muito sensibilizado pelas vossas palavras. O trabalho de investigação é assim mesmo: primeiro achamos que é cansativo, de pouco interesse, quase inútil; depois vamos ligando, compreendendo, contactando com quem por cá passou antes de nós; finalmente, reconhecemos o quanto fazemos parte de um processo que vem de trás, como tudo se transforma numa atividade aliciante e compensadora. Espero que pelo menos alguns dos membros da nossa Comissão sintam isso, e se achem recompensados. Quanto aos textos do general Pedroso de Lima estão todos em meu poder, desde há muito que me habituei a guardar tudo. Se os quiseres de volta, envio-os com todo o gosto. Eles fazem parte do nosso trabalho comum e serão, sem qualquer dúvida, muito úteis.

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