História das Transmissões Militares

A Escola Militar de Electromecânica

A Escola Militar de Electromecânica


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Post do Cor António Pena, recebido por msg:

ESCOLA MILITAR DE ELECTROMECÂNICA

(1952 a 2006)

Bateria de Especialistas (1911) – Grupo de Especialistas (1937) –

[Escola de Mecânicos Electricistas do Exército (1944)] 

CENTRO MILITAR DE ELETRÓNICA (2006)

Paço de Arcos – Oeiras

A Escola Militar de Eletromecânica (EMElm) foi criada em 11 de outubro de 1952 (DL nº38945), sendo Ministro da Defesa Nacional o tenente-coronel do Corpo de Estado-Maior (oriundo da Arma de Infantaria), Fernando dos Santos Costa.[1] Naquela época a transformação do Grupo de Especialistas, verdadeira Escola de Mecânicos Electricistas do Exército, na EMElm, resultou do elevado prestígio técnico dos mecânicos eletricistas (sargentos e praças) no Exército e na vida civil. Os militares e antigos militares formados/qualificados na EMElm eram técnicos competentes (sabiam fazer), disponíveis para o serviço e possuidores de vontade de aprender. A missão principal da EMElm consistia em ministrar conhecimentos e práticas de utilização e manutenção sobre equipamentos elétricos, radioelétricos e eletrónicos, necessários à formação e qualificação de ajudantes de mecânicos (praças do Exército) e de mecânicos (sargentos do Exército e cabos especialistas da Aeronáutica) nas áreas elétrica (frio e calor), radioelétrica (comunicações) e eletrónica (radar).

O DL que criou a EMElm mencionava, como seu fim, no artigo 2º, c) “Ministrar a instrução geral e técnica necessária à formação de operadores de radar para os três ramos das forças armadas.”, e em f) Manter organizados os serviços de pequena manutenção e assistência electromecânica à aparelhagem da especialidade distribuída às forças armadas e elaborar as instruções necessárias ao serviço de manutenção das unidades.”. No quadro orgânico constavam, em secções de instrução, um primeiro-tenente (Armada), um sargento-ajudante e um 1ºsargento (Armada ou Aeronáutica) e três segundos-sargentos (Armada ou Aeronáutica). A letra do DL não se cumpriu em relação à Armada, que nunca se integrou na EMElm, mas a Aeronáutica, depois Força Aérea (FA), foi sempre parceira relevante no cumprimento da missão da Escola havendo perfeita interligação, a todos os níveis, com o Exército, tendo sido perda de vulto a sua saída durante a reestruturação das Forças Armadas na sequência do 25 de Abril quando se devia antes ter integrado a Armada.

O livro “As Transmissões Militares – da Guerra Peninsular ao 25 de Abril” refere-se à EMElm em três períodos:

– Da entrada na NATO à Guerra Colonial [Outros aspetos relevantes do período – Criação da Escola (Pag104)];

– As Transmissões Militares do 25 de Abril ao 25 de Novembro [Notas sobre as alterações nas unidades da Arma – EMEl (Pag228)];

– As Transmissões Militares no período de 1976 a 2000 [EMEl (Pag254)].

Este post tem como objetivo provocar comentários e respostas para se ir construindo a verdade técnica e humana, emergente deste belo espaço de Paço de Arcos, onde durante mais de cinquenta anos a Escola Militar de Eletromecânica contribuiu para que as adaptações técnicas das áreas elétricas e eletrónicas exigidas pela Instituição Militar se realizassem com sucesso. Ao mesmo tempo os especialistas qualificados na EMElm, depois da passagem pelo Exército ou Força Aérea, trabalhavam com agrado geral, eram disputados pelos empresários, no ambiente industrial português das áreas da eletricidade, da eletrónica e das telecomunicações.

No ano de 2005, antes de se transformar no Centro Militar de Eletrónica (CME) em 2006 ficando a depender do Comando da Logística, a EMElm ministrou cursos (formação e qualificação), tirocínios e estágios de manutenção nas áreas de eletricidade, eletrónica, telecomunicações e sistemas de informação, termodinâmica, optrónica, mecânica de instrumentos de precisão, radares, mísseis e aviónicos, em diversas especialidades do Exército. No âmbito da formação os cursos destinaram-se a sargentos [Tm, Serviço de Material (SM) e Tm/GNR] e tirocínios para oficial [estudantes da Academia Militar (Tm e SM/Eletrónica)]. Nesse ano a EMElm colaborou na formação profissional de nível não superior ministrada a militares em regímen de voluntariado e contrato, forças de segurança e entidades da administração pública. Neste último ano da EMElm desenvolvia-se, no âmbito das Transmissões, o SIC-T (Projeto Inicial de Implementação do Sistema de Informação e Comunicações Tático), destinado à infraestrutura de apoio de Transmissões para as Forças Operacionais do Exército e o acompanhamento e fiscalização do Contrato de Fornecimento do Sistema de Comunicações Tático Móvel P-525, ambos realizados por grupos de trabalho constituídos por militares de Transmissões prestando serviço na EMElm. Na sequência da passagem da maior parte da missão do DGMT (Linda-a-Velha) para a EMElm aqui se continuou a cooperação técnica militar luso-guineense, assumida por uma equipa de Transmissões (um oficial e dois sargentos). Em 2005 o quadro orgânico da EMElm era constituído por 73 oficiais, 97 sargentos, 136 praças e 47 civis, existindo 40/83/92/19, respetivamente.

Agora, 2013, o quadro orgânico do CME dispõe de 19 oficiais, 58 sargentos, 87 praças e 9 civis, existindo 15/46/71/10. A missão do Centro compreende: “Garantir o apoio geral de manutenção ao Exército, nas áreas dos equipamentos elétricos, eletrónicos, ópticos, optrónicos e de sistemas de comunicações”.

A partir da missão assumem-se tarefas, segundo as possibilidades do Centro, salientando-se no respeitante a Transmissões:

– Assegurar o apoio geral ao Exército e o apoio direto ás unidades, no âmbito da manutenção dos seus equipamentos;

– Colaborar com a EPT na formação da componente prática da área eletrónica de oficiais e sargentos;

– Colaborar com a Direção de Comunicações e Sistemas de Informação (DCSI) na disponibilidade de instalações e apoio técnico à equipa do projeto para implementação do SIC-T;

– Realizar a manutenção intermédia de apoio geral de equipamentos de TSF e TPF;

– Assegurar a constituição de equipas de manutenção para satisfazer necessidades das missões de apoio à paz, tendo em 2011 cumprido deslocações aos teatros de operações do Afeganistão (ISAF), Kosovo (KFOR) e Líbano (UNIFIL).

A longa vivência no mundo da EMElm, passagens na frequência de cursos e colocação efetiva, desde 1957 a 1975, começando com curso e concurso para 1ºSarg radiomontador, imediatamente a seguir ao regresso da primeira comissão no Ultramar (Índia Portuguesa 1954/1957) e terminando (1975/major), colocação no Colégio Militar (instrução de Transmissões e criação da atividade circum-escolar de Eletrónica), permite apresentar duas considerações para análise face à construção da História das Transmissões.

         Desde 1952 à atualidade comandaram a EMElm e o CME 6 coronéis no âmbito das Transmissões no conjunto de 20 comandantes. Ainda com a Manutenção (oficiais técnicos; sargentos e praças, radiomontadores) incluída no SM, comandou de 01fev67 a 30out72, o coronel Eng do SM, oriundo da Arma de Engenharia (engenheiro civil), Carlos Ferraz. A seguir, já depois do 25 de abril de 1974, comandaram os coronéis de Transmissões (engenheiros eletrotécnicos) Honrado Gomes, Cruzinha Soares, Miguel Leitão e Santos Pinto. Atualmente o CME tem como comandante e 2ºcmdt oficiais da Arma de Transmissões, condição que se verifica pela primeira vez desde 1952 (ambos do mesmo Ramo, Arma ou Serviço), sendo comandante o coronel de Transmissões Laço Jeca e segundo comandante o tenente-coronel de Transmissões (engenharia eletrotécnica e computadores) Carlos Simões. Este quadro de comandantes realça a existência de apenas um antes do 25 de Abril (período de 22 anos), situação que justifica a reduzida permanência de oficiais engenheiros (âmbito das Transmissões) no mundo da formação geral dos especialistas de manutenção e da sua qualificação em material das Transmissões de Campanha. Esta realidade é importante para compreender como durante o processo de ajustamentos na Arma, na sequência do 25 de Abril de 1974, foi possível não se ter acompanhado a Arma de Engenharia na continuação da qualificação dos seus oficiais oriundos da Academia Militar com o curso de licenciatura em engenharia eletrotécnica, ou seus derivados nos âmbitos da eletrónica, dos computadores e da informática.

         A segunda consideração consiste na importância da EMElm na formação e qualificação dos técnicos de manutenção das Transmissões (radiomontadores), primeiro pertencentes à Arma de Engenharia, depois ao Serviço de Material (1956) e por fim à Arma de Transmissões (1970). Estas aprendizagens orientadas em especial para material das Transmissões de Campanha foram da maior importância na Guerra do Ultramar vivida em África de 1961 a 1974. Recorda-se que todos os batalhões das tropas combatentes (Inf, Art e Cav) tinham no seu efetivo sargento radiomontador e praças ajudantes de radiomontador, técnicos indispensáveis nas operações e no apoio geral de bem-estar às tropas. Os sargentos do QP, oriundos dos Pupilos e da EMElm, e os furriéis/sargentos milicianos formados em Paço de Arcos, realizaram ao longo daqueles 13 anos trabalho técnico altamente meritório nos batalhões operacionais e nas companhias de reabastecimento e manutenção de material de Transmissões (CRMMTm) de Angola, Moçambique e Guiné-Bissau. Nestas últimas unidades, para além de sargentos e praças de manutenção, também se salientaram oficiais da Escola de Paço de Arcos do ramo de manutenção. A exigente preparação deste conjunto de especialistas, oficiais, sargentos e praças do ramo de manutenção das Transmissões, só foi possível fazer-se pela existência de invulgar sabedoria teórica e inovadora metodologia na forma de interligar teoria e prática no estudo dos equipamentos. Este sucesso foi protagonizado pela perfeita e permanente conjugação de esforços entre oficiais dos QP, engenheiros eletrotécnicos do Serviço de Material e da Força Aérea; oficiais milicianos, engenheiros do Exército e da FA, de excelência – os melhores ficavam a prestar serviço na EMElm – e ainda, como da maior importância, oficiais e sargentos de manutenção das Transmissões com Cultura Eletromecânica. Este último conjunto, cujos membros durante a sua carreira ou prestavam serviço em Paço de Arcos ou no Ultramar, levando competências teóricas e trazendo boas práticas, foram instrutores e monitores competentes e motivados, respeitados por estudantes, comando, direções e oficiais engenheiros, tendo sido decisivos para o sucesso da EMElm na preparação dos radiomontadores das Transmissões.

A terminar salienta-se:

– Em 1982 a Direção da Arma de Transmissões envolveu-se, com sucesso, no processo (proposta e acompanhamento) da condecoração da EMElm com a Medalha de Ouro de Serviços Distintos;

– Anualmente, primeiro sábado de junho, realiza-se o concorrido Almoço do Eletromecânico, evento aberto à participação de atuais ou antigos militares e civis que de alguma forma prestam ou prestaram serviço na EMElm/CME ou foram seus alunos (estudantes), sendo o próximo convívio, o 61º, por certo na sequência dos anteriores, no primeiro sábado de junho (dia 01).

– A partir da palavra do atual comandante, coronel de Transmissões Alexandre Manuel Macareno Laço Jeca, escrita no anuário de 2011, “Certamente que o acréscimo de produtividade só poderá ser alcançado com recurso à implementação de novos procedimentos ou à optimização das existentes e, em última instância, na certificação e acreditação de todo o processo, que permita o reconhecimento e a exploração dos serviços numa perspectiva mais alargada”, seja permitido desejar que se instale neste histórico espaço técnico ocupado pelo CME a Escola de Sistemas de Comunicação e Informações (Escola de Comunicações da NATO) a transferir de Itália para Portugal.


[1] Na altura, 1952, o tenente-general  Santos Costa era tenente-coronel embora no ano seguinte, ao ser promovido a coronel, lhe tivesse sido considerada antiguidade de 1948.

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