A introdução do TR-28 em Angola


Post do MGen Pedroso Lima, recebido por msg:

O TR-28 encontra-se incluído, e em lugar de destaque, no grupo dos “8 magníficos” da Guerra de África,  designação criada neste Blogue.[1]

TR-28 peqAlguma coisa se tem escrito no Blogue sobre este excelente equipamento. Aproveito para transcrever aqui dois textos que julgo constituírem novidade para a maioria dos visitantes.

O primeiro é de autoria do tenente-coronel Costa Matos[2], e está publicado no livro de José Freire Antunes, “A guerra de África – 1961-1974”[3]:

“… Em 1963 ou 1964 fez-se em Angola uma operação muito grande e muito estúpida, chamada Operação Quissonde,… A meu ver esta operação foi muito estúpida porque envolvia muita mão-de-obra para aniquilar as machambas de mandioca, para os deixar morrer à fome. Mas em África toda a gente sabe que basta espetar um pau de mandioca num monte de terra para, daí a três semanas estar florindo.[4] Dessa operação sobrou muito dinheiro.[5]… Um dia, o chefe de Estado-Maior, então coronel Nunes da Silva, pediu para fazermos uma reunião para ver o que é que se ia fazer ao dinheiro que tinha sobrado da Operação Quissonde, uns trinta ou quarenta mil contos. A ideia de Nunes da Silva era comprar uma série de tractores com esse dinheiro e equipar os batalhões com um pelotão de sapadores para ajudar a melhorar os caminhos, estradas, etc. Eu disse que era prioritário ter boas comunicações, ter bons meios de transporte e bons meios logísticos. Uns dias antes tinha lá estado uma missão sul-africana que me tinha falado na possibilidade de nos venderem umas coisas. Até aí tínhamos uns rádios feitos na General Electric[6] que eram uma porcaria, funcionavam com umas baterias enormes que tinham que ser levados por dois ou três soldados.[7] Os sul-africanos tinham um rádio que era fabuloso, o TR-28, que se punha às costas e tinha uma frequência com cristais.[8] Nós perguntámos se eles nos podiam vender uma quantidade apreciável de rádios e de material de acampamento: barracas de campanha, cozinhas (as nossas eram muito antigas). O Exército sul-africano vendeu-nos um extraordinário material de acampamento e esses rádios”.

Nas suas “Memórias” o coronel Engenheiro Silva Ramos conta-nos o seguinte:

1967 – Nos primeiros meses apareceram em Luanda dois indivíduos, um mais velho, devia ser antigo militar e com experiência de mato e outro mais novo engenheiro electrotécnico chamado Larsen. Traziam dois protótipos de rádios de campanha em HF que pretendiam ensaiar em Angola. Era um rádio totalmente transistorizado que podia atingir os 100 watts em Banda Lateral Única. A alimentação era através de uma bateria Cd-Ni recarregável. Tinha obtido os transístores para 25 watts cada na América, dando os 100 w com os quatro em paralelo. O consumo era muito menor que os de campanha existentes mas o alcance era muito maior. Ouvidas as suas explicações e dadas as nossas opiniões segui com eles para as matas da zona de Salazar em duas viaturas. As experiências foram positivas, havia que desenvolver o aparelho. Eles trabalhavam para a Racal Sul-Africana que era independente da Racal inglesa a que já tínhamos comprado equipamentos para o STM.

Voltaram para a África do Sul para produzirem o equipamento mantendo as ligações connosco. Nesse ano as Transmissões de Angola foram visitadas pelo novo Director da Arma, Brigadeiro Câncio Martins acompanhado pelo capitão Simões, a quem foram expostas as possibilidades de uma transformação profunda nas transmissões de campanha com o aparecimento dos rádios de HF-100 watts de BLU que foram designados por TR-28.

Estes rádios tinham 30 canais fixos com cristais, o que obrigava a definir as suas frequências quando da encomenda. Assim, ao preparar-se a encomenda dos primeiros 100 tivemos de fazer um planeamento da sua possível utilização: para ligações de carácter fixo, para ligações de tropas no exterior e estas entre si, canais para ligação à Força Aérea e pedidos de socorro, além de canais de comunicação geral e de emergência. Isto fez-se dentro das faixas de frequência que estavam atribuídas em Angola para ligações militares.

1968 – …. As tentativas para melhorar as comunicações de campanha prosseguiram e surgiram os primeiros TR – 28 para utilizar.”


[1] Ver aqui o post do cor José Canavilhas de 23 de Dezembro de 2011

[2] Era chefe da 3ª Rep do QG da RMA. Em 1967 e 1968 tive a honra de ser seu adjunto  e tenho por ele grande consideração. È inteligente, culto e com enorme capacidade de chefia. Aprendi muito com ele.

[3] II Volume, página 189

[4] Costa Matos conhecia África pois esteve antes em Moçambique, numa comissão onde foi chefe da 2ª Rep/QG e montou um serviço de informações militares de certo prestígio e posteriormente como Governador do Niassa.

[5] De notar que a operação Quissonde se realizou em 1964 e só em 1967 é que se estava a procurar o dinheiro que sobrava dessa operação.

[6] Deveria ter dito Standard Eléctrica

[7] Penso que se referia aos CHP-1 e DHS-1

[8] Queria dizer que as frequências eram controladas a cristal

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3 comentários a “A introdução do TR-28 em Angola

  1. O comentário do coronel Pena constituiu, para mim, uma agradável surpresa e que muito agradeço. Permitiu-me, finalmente, verificar que não era impossível que um post da minha autoria neste Blogue despertasse um comentário interessante, oportuno, com indiscutível nível e sobretudo sentido. (o coronel Pena afirma que o “comentário ainda mexe connosco”).

    Julgo que este comentário, pode constituir um exemplo a seguir, para que este Blogue consiga, cada vez maior participação e melhor trabalho em equipe.

    Apenas duas observações em relação ao conteúdo do comentário do coronel Pena relativo ao RACAL TR-28:

    O primeiro é para afirmar a minha concordância com a referência que faz sobre o problema da manutenção do equipamento. Para além de a manutenção dos equipamentos de Transmissões ser um tema praticamente ignorado, também neste Blogue, julgo que no caso do TR-28 houve a preocupação de tomar medidas no sentido de assegurar a eficiência da sua manutenção, o que foi facilitado por a Arma estar envolvida, juntamente com a RACAL, no desenvolvimento do equipamento. Talvez a experiência tenha servido de exemplo ao que, mais tarde sucedeu, exemplarmente, com o P/PRC-425 a respeito da manutenção.

    Outra é relativamente à ligação do militar ao TR-28. Não há dúvidas que as caraterísticas francamente melhores do TR-28, facilitaram muito a operacionalidade das nossas tropas. e possivelmente salvaram muitas vidas.
    Porém não conheço qualquer testemunho, vindo de operacionais. que testemunhem estas vantagens do equipamento.
    Uma esperança que ainda não vi concretizada neste Blogue é a de aparecerem relatos de operacionais que marquem claramente a diferença do TR-28 no sucesso das operações em que participaram, na eficiência do apoio logístico, na evacuação de feridos graves etc.

  2. Este post do excelentíssimo major-general Pedroso de Lima, oriundo da Arma de Transmissões (engenheiro civil), sobre o E/R TR-28 parece-me muito oportuno pelo que procuro esclarecer alguns pontos e acrescentar aspetos do âmbito da manutenção, isto por ter estado no BTm361 (Angola) no período referido (1966/1968) como comandante do pelotão de manutenção (tenente do ramo elétrico, radioelétrico e eletrónico do Serviço de Material) da CRMMTm.
    A passagem das “Memórias” do coronel Tm (engenheiro civil) Silva Ramos referentes a 1967 e 1968, com exceção de se dizer (duas vezes) que o TR-28 era de 100 watts de banda lateral única, quando a sua potência de HF é de 25 watts e dispunha de baixa potência, que a dorso se utilizava com elevado rendimento. Também nos parece importante a referência que sobre o assunto se faz (Pag142) no livro, “As Transmissões Militares – da Guerra Peninsular ao 25 de Abril”, editado pela Comissão Portuguesa de História Militar Lisboa, 2008).
    Como contribuição para a história da entrada regular do TR-28 ao serviço do Exército Português em 1967/1968 salienta-se que para além do contributo eficaz e decisivo do major (engenheiro civil) Silva Ramos, o “processo de desenvolvimento e de fabrico do equipamento feito pela firma sul-africana” motivou frequentes visitas de técnicos e engenheiros da empresa sul-africana ao BTm, havendo trocas de impressões técnicas proporcionadoras de melhorias com a equipa técnica constituída no pelotão de manutenção da CRMMTm. Em outubro de 1967 a Região Militar de Angola recebeu 50 E/R TR-28, tendo havido por iniciativa do PelMan cuidada instrução sobre o seu manuseamento e registos da opinião dos oficiais de Transmissões das Armas o que permitiu considerar o TR-28 bom, não só sobre o aspeto de transporte e autonomia, na altura indiscutível tal performance, como de fácil operação e extraordinário alcance [aqui jogava-se com alta/baixa potência e cuidada escolha de frequências (nesta escolha foi relevante a ação do major Silva Ramos no CmdTm da RMA)]. Os problemas técnicos mais complicados no início, quando se fizeram ajustamentos com base na troca de impressões com os técnicos sul-africanos, ocorreram nos transistores finais do emissor (houve necessidade de interligar no sistema condensadores e resistências) e no primeiro transistor do recetor (amplificador de HF) afetado pelas trovoadas angolanas.
    Enfim, foi o equipamento onde mais me envolvi tecnicamente, desde o seu início (1966/68 em Angola), depois na sua manutenção no âmbito da instrução (EMElm em Paço de Arcos) e por fim na Guiné-Bissau (1970/72), havendo sempre, Angola (pelotão) e Guiné (pelotão/companhia) uma bancada reservada ao comandante onde se estudava e reparava o TR-28 com tal satisfação que ainda mexe connosco ao fazer este comentário.
    Coronel TecnManTm (SitRef – 76 anos), António Pena.

  3. Recebi o TR-28 já no fim da comissão na Guiné, pelo que na prática não o cheguei a testar.
    No entanto, o artigo é interessantíssimo.
    Gostaria de fazer um pequeno comentário à nota # 7: Se eram os CHP/DHS-1, de acordo. No comentário que deixei nos “8 magníficos” já os deitei abaixo…
    Novidade para mim são “as baterias enormes levadas por dois ou três soldados”. Seriam baterias de automóvel?
    Como na altura escrevi, os acumuladores de nic-cad eram de uma baixa qualidade impressionante, razão porque eu mandava as baterias secas dos AVP-1 para os alimentar numa situação de emergência…(nunca mandei os DHS-1 para o mato). Em Angola, onde as operações eram mais demoradas, seria obrigatório o recurso a baterias mais duradouras…

    Cumprimentos

    João Firmino/Ex-Furriel milº TRMS

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