Os telégrafos ópticos nas comunicações com Almeida durante a 3ª invasão francesa


Quer neste blogue, quer nos livros publicados pela CHT, já foi amplamente descrita a génese das comunicações telegráficas militares no período das invasões francesas, quer nacionais, quer de origem inglesa (procurar, por exemplo, por uma das tags no final deste artigo, ou pesquisar na side bar do blogue).

Diversos foram os sistemas então testados e usados. Os telégrafos portugueses eram de 3 postigos, de 1 ponteiro, ou de 3 balões. O sistema inglês, mais pesado, moroso e complexo, que mais tarde veio a ser usado nas Linhas de Torres, recorria a um mastro com uma verga, donde pendiam 5 prumadas de balões. Usava balões e bandeirolas para a codificação dos sinais.

Quando da 3ª invasão, em JUL1810, estava já em funcionamento a Linha de Lisboa a Almeida, com ramais para Elvas (a partir de Santarém, por Almeirim) e para Abrantes (a partir da Atalaia, pela Barquinha), usando os telégrafos portugueses inventados por Francisco António Ciera, operados pelo Corpo Telegráfico do Exército português.

Mas além destes e do inglês das linhas de Torres, outros sistemas foram também usados durante as campanhas militares, pelo menos para a comunicação com a praça de Almeida, antes e durante o breve cerco e até à rendição formal (às 10 h da noite de 27AGO1810, pelo governador, o Brigadeiro General William Cox, na sequência da explosão fortuita do principal paiol, que ocorreu cerca das 19 h do dia 26). Infelizmente, um denso nevoeiro cobriu a zona nesses dois dias, impedindo quer as comunicações, quer mesmo a visualização à distância das explosões, apenas havendo notícia da sua frequência e da intensidade do som do bombardeamento de parte a parte.

Na realidade, antes da Batalha do Buçaco (27SET1810) e da retirada para as Linhas de Torres, já o TGen Arthur Wellesley (mais tarde duque de Wellington, Marquês do Douro, Marquês de Torres Vedras, Conde do Vimeiro, cavaleiro da Ordem militar da Torre e Espada, entre dezenas de títulos) mandara montar um sistema expedito de vigilância entre Celorico da Beira, Guarda e Almeida, para poder ser informado dos movimentos dos franceses naquele eixo de penetração, após a conquista de Ciudad Rodrigo, e para a comunicação com essas praças.

São desse tempo os documentos do AHM a seguir apresentados, em inglês, onde se descreve um tipo de telégrafo formado por um mastro e uma verga móvel basculante onde se podiam colocar até 4 balões, em duas prumadas, para representar as letras do alfabeto, e que, com mais um balão no topo do mastro, permitia transmitir algarismos.
PT/AHM/DIV/1/14/270/01 (imagens 33 e seguintes)

Note-se os 4 códigos de serviço na linha superior, o 1º para anteceder nova transmissão, sinalizando o final da palavra anterior, o 2º para transmitir “afirmativo” (recebido), o 3º para “negativo” (não entendido) e o 4º para pedir a anulação do sinal anteriormente transmitido. Na linha de baixo pode ler-se que “Com a adição de um balão no topo do mastro, os sinais acima representam números, de 1 até 24, que correspondem às frases no verso da página”. Estas frases, previamente definidas, foram mudando com o evoluir das situações tácticas, e representavam os assuntos de maior pertinência para o momento:

Na iminência do cerco, as frases acima, destinadas ao BGen Cox, referem-se sobretudo a obter informações sobre o In, localização e numero das suas unidades, baterias, comboios, depósitos, etc, e sobre reforços, aprovisionamentos, munições, etc.
Outro exemplo de frases codificadas previamente acordadas, certamente posterior, pois já contemplam a eventualidade e as zonas de ataques, minagens, possibilidade de capitulações, morte ou ferimento grave do governador, dos comandantes da Engª ou Artª, etc:

Continuação do documento anterior, especificando no verso as 6 possíveis zonas do ataque (ou da sua iminência), ou a minagem, entre os diversos bastiões, que deveriam ser imediatamente comunicadas de seguida à transmissão dos sinais 5 ou 6:
E ainda mais um exemplo de um documento do AHM, reflectindo as diversas cópias então efectuadas para distribuição das instruções para a codificação das letras e algarismos para utilização deste diferente tipo de telégrafo:

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Um comentário a “Os telégrafos ópticos nas comunicações com Almeida durante a 3ª invasão francesa

  1. Em relação a este sistema de telegrafia visual, relativamente simples, usado pelos ingleses, na região de Guarda- Almeida, antes da Batalha do Buçaco, apenas pretendo apresentar duas observações:
    A primeira para referir que a simplicidade deste sistema inglês resulta muito menos do telégrafo (indiscutivelmente mais complexo do que os de Ciera) do que do código utilizado que se resumia a 24 frases.
    Não temos qualquer notícia que na utilização do telégrafo português tenha havido códigos simplificados o que, a verificar-se, tornaria a operação mais rápida e fácil.
    A segunda para assinalar que, por ordem de Wellington, os telégrafos ingleses referidos no post foram destruídos, depois da queda de Almeida, bem como os telégrafos portugueses nontados na zona, para evitar que caíssem nas mãos dos franceses.

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