Os 20TPL (2)


Post do MGen Edorindo Ferreira, recebido por msg:

Algumas razões do insucesso do rádio 20 TPL da Standard Eléctrica

Julgo poder afirmar que a “ideia luminosa”, mas arriscada, do TCor Rodrigo Leitão de projecto e fabrico de um rádio táctico português, não teve de início aceitação geral. Embora corajosamente apadrinhada de imediato pelo Director da Arma de Transmissões, Brigadeiro Pereira Pinto, houve vozes discordantes no Exército e mesmo dentro da Arma. Estávamos no Verão de 77, com Forças Armadas ainda não estabilizadas e sem rumo bem definido, pelo que, como seria de esperar, os obstáculos a vencer foram mais que muitos.

No entanto, a “grande aventura” chegou a bom porto depois de algumas tormentas, com a produção do P/PRC-425, que nos primeiros anos da década de 80 começou a ser distribuído a todo o Exército, tendo-se revelado um sucesso.

O mesmo não se pode dizer do sucedido no início da década de 70 com a iniciativa da Standard Eléctrica (SE) de concepção e produção do equipamento rádio de HF denominado 20 TPL, na sua óptica visando satisfazer as necessidades das Forças Armadas nas guerras africanas, e transferir para a indústria nacional de telecomunicações as aquisições efectuadas no estrangeiro. É importante referir que a SE, com o seu equipamento, tinha em mente substituir o TR 28, em serviço desde 68 com boa aceitação, depois de várias tentativas frustradas de equipar as tropas em campanha com um rádio táctico de qualidade.

O Sr. João Freitas, num post sobre o 20 TPL, já aflorou as razões para o fracasso do projecto da SE. Com este artigo pretende-se aprofundar o sucedido e, quiçá, “espicaçar” os que viveram esse tempo, para um saudável debate sobre os motivos que inviabilizaram o negócio da SE.

Vejamos a cronologia do processo:

Julho de 70 – Apresentação do 1.º protótipo à Direcção da Arma de Transmissões (DAT), por iniciativa da SE. De imediato foram sugeridas diversas alterações, de modo a melhorar as características técnicas e operacionais do equipamento, manifestamente insuficientes. Os representantes da SE foram também informados da metodologia para aprovação de novos rádios para o Exército: entrega de 3 exemplares para ensaios prévios em laboratório, a que se seguiria, após provas satisfatórias, a aquisição de 50 para ensaios em campanha durante 6 meses.

Outubro de 70 – A SE propôs que a DAT adquirisse uma ou duas centenas de rádios, que já estariam em produção, sem ter ainda fornecido os três equipamentos para os ensaios prévios!

Abril de 71 – Finalmente entregues três equipamentos para ensaios.

Outubro de 71 – Ensaios laboratoriais concluídos. A DAT informa superiormente que o 20TPL não satisfaz como equipamento para o Exército, pelo que não recomenda a sua aquisição para ensaios de campanha. O Brigadeiro DAT, para dissipar quaisquer dúvidas, determina a realização de um estudo comparativo com o TR 28, identificando as vantagens e os inconvenientes de cada um, o qual poderia ser acompanhado pelos engenheiros da SE.

Não obstante o parecer da DAT, um despacho ministerial determinou a aquisição de 50 rádios, após carta da SE em que solicitou protecção para a sua fabricação nacional. Simultaneamente, a firma tentou que fosse suspenso o processo de aquisição de 500 TR 28, com o argumento de que o seu equipamento era o substituto adequado, de fabrico nacional.

Novembro/Dezembro de 72 – Mais de um ano depois do despacho ministerial e mais de dois após a SE ter anunciado que já tinha os equipamentos em produção, a firma entregou os 50 rádios. Apenas 5 ficaram em Lisboa e os restantes foram entregues directamente em Angola, Moçambique e Guiné (15 para cada), para os tão desejados ensaios em campanha.

De acordo com os ensaios sumários de imediato efectuados, o rádio continuava a não servir. Para a DAT, a SE não tinha melhorado suficientemente o equipamento, pois não havia efectuado as alterações consideradas essenciais, sucessivamente transmitidas verbalmente e por escrito.

Apesar de continuar a não recomendar o equipamento, a DAT ter-se-á resignado a que os ensaios em campanha fossem iniciados, os quais viriam a ter os resultados esperados. Ordens superiores?

Janeiro de 73 – Para grande desconforto da DAT, a SE continuou a tentar influenciar os decisores políticos e militares, com afirmações e insinuações consideradas não verdadeiras e mesmo ofensivas, para que o Exército lhe adquirisse uma quantidade significativa de 20 TPL. A posição da DAT foi irredutível e mesmo algo agressiva, ao informar do descrédito em que era tido em todo o Exército, e em especial nas tropas em campanha, o material de HF da SE, com as inerentes consequências para a Arma. Em vez de manobras para conseguir aquisições, melhor seria a produção de equipamentos que honrassem a firma e que prestigiassem a DAT. Acrescentou ainda que teria sido aconselhável acolher a experiência que o Exército em campanha representa, de modo a resolver os problemas sem procurar impor soluções unilaterais, cuja eventual aceitação iria fazer retroceder o Exército para antes do TR28, quando estava equipado com material HF da SE.

E assim foi ditada a “sentença de morte” ao 20 TPL.

Mas o que terá levado a SE a lançar-se na aventura de conceber e construir, a partir do zero, um rádio completamente novo? Motivos patrióticos, ou comerciais numa tentativa de sobrevivência da empresa?

A SE sabia do sucesso do TR 28, de que já tinha produzido e fornecido algumas centenas, sob licença da RACAL, e que, para o substituir, o rádio a fabricar teria que superar as suas capacidades operacionais e técnicas.

Também era conhecida a desconfiança da Direcção da Arma de Transmissões em relação à Standard Eléctrica, motivada pela recordação do que se havia passado com a aquisição dos rádios de HF CHP-1 e DHS-1, que custaram 140 000 contos (um valor elevado para a época) e que não deram provas cabais em campanha, por serem de operação complicada e de manutenção difícil e dispendiosa. Não terão valido o que custaram, causaram alguns dissabores à Arma e às tropas e, com a chegada do TR28 (em 1968), foram de imediato para a prateleira.

Estavam assim reunidas as condições para a lei de Murphy se aplicar. Mas algo mais não terá corrido bem.

Como já referido, a iniciativa de projecto e fabrico foi da SE e não do Exército, numa atitude meritória mas muito arriscada. Com o P/PRC 425 sucedeu o oposto, com a iniciativa e o empenhamento decisivo da Arma de Transmissões em todas as fases do processo. Salvo melhor opinião, foi esta a razão primeira para o sucesso de um caso e o fracasso do outro.

Por outro lado, julgamos que os engenheiros da SE, alguns deles também professores do Instituto Superior Técnico, teriam boa formação teórica, mas faltava-lhes experiência técnica e militar para o projecto e fabrico de um rádio de campanha. Além disso, não terão sabido acolher as opiniões e sugestões ditadas pelos conhecimentos teóricos e práticos dos engenheiros da Arma.

E, finalmente, será que a SE teve apoio da “casa-mãe”, a americana ITT? Possivelmente não, por questões de âmbito político.

Eventualmente outras razões haverá. Aqui fica o meu contributo para início de debate.

NOTA: artigo escrito essencialmente com base em correspondência trocada entre a Direcção da Arma de Transmissões, a Standard Eléctrica e a Comissão de Reequipamento Extraordinário do Exército e da Força Aérea (CREEFA), de Outubro de 70 a Janeiro de 73.

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2 comentários a “Os 20TPL (2)

  1. Agradeço ao MGen Edorindo Ferreira as informações complementares sobre os 20 TPL, tão preciosas neste tema que nos ocupa todo o tempo livre.
    Gostaria de saber se tem alguma informação certa sobre a sigla “20 TPL”, especialmente sobre o “TPL.
    João Freitas

  2. Concordo inteiramente com a conclusão do TGen Edorindo Ferreira ao explicar o sucesso do posto de rádio P/PRC-425 pela cooperação que existiu entre DAT e a indústria nacional (liderada pela DAT, acrescento eu), e o insucesso do rádio 20 TPL pela falta de cooperação no processo de produção do equipamento.

    No entanto parece-me de salientar o espírito empreendedor da idústria nacional na área de eletrónica que a levou a optar pela construção de um rádio alternativo ao TR-28 que estava a provar muito bem.

    A fasquia era alta, e o risco muito grande. Os prejuizos económicos deveriam ter sido consideráveis. No entanto acreditaram que poderiam ter ganho.

    Nesta história da produção do 20 TPL falta a continuação que foi 30 TPL a nova produção da SE. Era um aperfeiçoamento do anteror, já dispunha de sintetizador. Provavelmente teria sucesso, que o 25 de Abril interrompeu.
    De qualquer maneira a indústria depois do fracasso do 20 TPL voltou á luta, com nova iniciativa…

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