História das Transmissões Militares

Distúrbios da Beira – Janeiro de 1974

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Relato dos factos servindo-me apenas da memória, como suporte do que então vivi.

Eu estava lá!

Até ao “Nó Górdio – operação de Cabo Delgado”, a Frelimo não tinha convencido os Macondes a combaterem fora do seu território. A progressão da guerrilha, de Cabo Delgado para sul, estava vedada com o dispositivo militar português e os Macuas eram pouco permeáveis a infiltrações de guerrilha. Findo o Nó Górdio, Machel resolveu contornar o nosso dispositivo militar, fazer um envolvimento lateral e abrir a frente de Tete, convencendo para o efeito os Chefes Macondes a segui-lo para fora do seu próprio território.

Independentemente da relação que possa ter havido entre o assassino e a vítima que foi a causa próxima dos distúrbios da Beira, a verdade é que a história englobou o acontecido nas acções de guerrilha que a seguir se generalizaram à zona e que tiveram implicações em Cahora Bassa.

Em Janeiro de 1974 iniciou-se a operação secreta que consistia em garantir a protecção das Cargas Críticas para Cahora Bassa (transformadores de potência, geradores, alternadores e válvulas de segurança) de que, eu, como oficial de transmissões de Kaúlza de Arriaga, fui incumbido de projectar, de instalar no terreno e de acompanhar. Dadas as características da missão, a minha presença não convinha ter muita visibilidade e, por isso, me encontrava na Messe, como qualquer passante.

É então que se tem conhecimento, com grande convulsão da população civil (quanto a mim, manipulada), de que um mainato teria assassinado a patroa e fugido de seguida para o mato. À boca pequena falava-se de uma relação de proximidade excessiva entre ambos. Porém, para a manifestação tudo se passava como se a guerra tivesse chegado a Vila Pery – centro de recreação de gente da Beira e local de passagem dos machambeiros ricos da Rodésia a caminho da Beira e do mar.

Ainda nessa altura, para muitos portugueses incultos radicados no território, a guerra era um assunto da Metrópole, para ser resolvido por gente ida da Metrópole, sem que os locais tivessem de ser perturbados no seu dia-a-dia. Para esta gente, a guerra era entre a Metrópole e a guerrilha e era lá para o Norte. Mas, a partir daquele dia, ela saltava-lhes para o pé da porta e disso tinha de prestar contas quem estava mais à mão, como era o caso daquela cambada de calaceiros que estava na Messe, enquanto devia andar a catar terroristas e a eliminá-los, para impedir que perturbassem a vida de gente pacata e trabalhadora.

Por isso, fácil foi atear uma centelha, parece que soprada pela própria PIDE, com o fim de, posteriormente, ter parte grande no apaziguamento e na primazia na detecção de novos focos de guerrilha. Fosse como fosse os acontecimentos ganharam um volume que ultrapassou o que eventualmente tivessem previsto.

Era pelas primeiras horas da tarde e começaram a chegar bons carros, que iam estacionando na berma da rua, oposta à Messe, dos quais saíam os ocupantes que ficavam por ali, em grupos. À medida que iam chegando mais carros, iam estacionando mais perto da messe, saindo os seus ocupantes e ficando eles também no mesmo ritual. Por esta via foram sendo cada vez mais os carros e cada vez mais pessoas na rua, acabando por obstruí-la completamente.

Dentro da Messe observava-se e faziam-se comentários. Alguns diziam reconhecer PIDES entre os presentes na rua. Quando o ajuntamento tomou proporções de largas centenas começaram a ouvir-se alguns insultos como, “vão trabalhar”,”vão para a guerra”, “não vieram cá para férias…”

A Messe que guardo na memória

A Messe era um edifício amplo, de dois ou três pisos, que no R/C á esquerda da entrada tinha a Sala de Refeições e à Direita o Bar. Saindo do Hall, que os separava, subia uma escada para o piso superior, onde existiam os quartos. Do Hall havia ainda uma porta para as traseiras. A rua que faceava com a frente da Messe (a rua dos distúrbios), separava esta do mar. Em frente à Messe, do outro lado dessa rua, havia um edifício em construção, que apenas tinham as fundações e, saindo destas, a dois metros de profundidade, erguiam-se as armaduras metálicas que viriam a ser os pilares do novo edifício. Para lá disso era areia inclinada até à linha de água com algumas árvores dispersas aqui e ali.

A evolução do distúrbio

Muita gente junta afoita-se uma à outra e foi isso que aconteceu. Os mais novos costumam tomar a dianteira e também aqui não se fugiu à regra. Uma das primeiras manifestações hostis deu-se, quando um rapazote em idade de inspecção militar, se virou para um alferes, fardado, com ar triste a meu lado nos degraus de entrada para o Hall e lhe pergunta por que estava no bem-bom em vez de estar no mato. O alferes respondeu, com grande dignidade e até cortesia, que do mato viera ele dois dias antes para embarcar o corpo de um colega morto em combate e para lá voltava no dia seguinte. Este episódio retrata mais ou menos o cariz de outros que se estavam a passar cá fora, entre os diálogos possíveis.

Confrangedor era o que se passava dentro do Bar, onde se revelou a incapacidade dos militares agirem quando desinseridos das suas cadeias de comando: Ou se tornam caudilhos com os riscos que isso representa para as suas carreiras, ou ficam paralisados, com aconteceu na Beira.

A dada altura alguém se lembrou de chamar o governador civil, na lógica de que se a agitação era civil, deveria entrar em acção a autoridade civil. Veio o governador, que cometeu o erro de não ter avaliado que a situação não era normal e que a ordem pública estava posta em causa. Em vez de mandar chamar quem representasse os manifestantes, saiu para a rua, deixando-se envolver por eles, criando um novo problema e não resolvendo aquele para que tinha sido chamado. Foi preciso um grupo de nós ir-se aproximando até lhe servir de couraça e trazê-lo de volta, numa altura em que já recebia encontrões, não directamente contra a sua pessoa, mas contra aqueles com os quais tentava manter o diálogo.

Com o Governador recolhido para o Bar, a turba, no exterior viu nisso uma espécie de fuga e medo, mostrando-se mais afoita. Foi aí que começaram a cair as primeiras pedras contra os vidros do Bar.

Ao contrário do que foi deixado entender no Post não houve nenhum acto destacado de heroicidade. Tal como os militares graduados estavam paralisados antes, sem ter de quem receber ordens, também o ficaram agora, dado que a autoridade máxima presente passou a ser o governador, de nome Teles ou Melo ?.

Na confusão que aumentava, começaram a ouvir-se, no andar de cima, os gritos de esposas e filhos de militares, os quais não estavam presentes. E uma das vozes, quase em pânico, perguntava: “Ninguém faz nada?”.

Os militares mais novos estavam em efervescência, mas a presença dos mais antigos bloqueava as suas iniciativas.

Houve alguém que tomou a palavra e falou bem. Penso que era um ten-cor de Administração Militar, cujo nome não fixei, mas penso que foi o primeiro of da AM a chegar a general.

A partir dessa palavra, as coisas tornaram-se imparáveis. Fala-se de uma companhia armada, mas, se existia eu não a vi. A única força que actuou, comandada por um miliciano e guiada por dois oficiais do quadro foi um pelotão (penso que da PM), que estava nas traseiras da Messe.

As coisas que registei passaram-se assim: Do hall para as traseiras havia uma porta através da qual vi alguns militares fardados. Fui lá! A força era diminuta (uma secção ou um pelotão menos).

Perguntei ao alferes se ele estava disposto a agir. Disse que sim. Na escada havia uma árvore-da-borracha, dentro de um grande vaso, escorada por um caibro. Parti o caibro ao meio e ofereci metade ao Cap. Luciano Garcia Lopes, então Cmdt dos GEE, que o não quis, preferindo sair a peito descoberto.

Perguntei ao alferes se tinha munições e tinha. Combinei que saíamos de rompante eu e o Luciano na frente, seguidos pelas força, que logo que atingisse a rua faria uma rajada para o ar e correria sobre a multidão seguindo-nos.

Assim fizemos e alguns momentos depois, com muitos danos nos carros, atingíamos a borda de água, com tudo limpo à nossa volta e com pessoal ainda a fugir pelo rua fora a uma centena de metros, tendo desaparecido todo o mundo até ao dia seguinte, quando a pouco e pouco foram sorrateiramente aparecendo condutores para levar os carros, alguns bem danificados.

Junto à água perguntei ao grupo do pelotão pelo Luciano. Ninguém o tinha visto, depois da saída connosco. Regressámos procurando em volta e fomos encontrá-lo no fundo de uma das covas das fundações do edifício em construção, sem conseguir sair. Uma pedra tinha-lhe esfacelado a clavícula.

Regressámos à Messe, agora com o campo livre, mas sem alardes nem aplausos.

Não vi o relatório que foi feito disto tudo, mas pelo Post parece-me enaltecer uma pessoa.

Não devia! Ninguém foi herói na Messe da Beira nesse dia, a não ser o Luciano Garcia Lopes que poderia lá ter deixado a vida.

Também, por aqui, se verifica que as Transmissões entraram neste episódio mais cedo do que os anais registam.

Sobre estes acontecimentos, ver post anterior aqui.

Manuel da Cruz Fernandes

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