O Pombo correio (2)


Post do MGen Pedroso Lima, recebido por msg:

Neste post pretendem-se apresentar alguns elementos sobre a utilização de pombos correios na antiguidade e sobretudo nas guerras dos séculos XIX e XX, nas quais o pombo-correio, com a sua enorme capacidade de “voltar para sua casa” prestou serviços inestimáveis ao esforço de guerra.

A primeira referência à utilização de pombos correios[1] aparece em 2900 AC, no tempo dos faraós do Egito, relatando a sua utilização por personalidades importantes, quando se deslocavam em embarcações, par anunciarem, a sua chegada  ao  porto de destino.

Os mensageiros do rei Sargão da cidade de Acade (Mesopotâmia), em 2350 AC, levavam consigo pombos-correios. que largavam, no caso de serem atacados, para pedir socorro.

Gengis Kan (1167 -1267) usou os pombos para montar um sistema de comunicações através da Ásia e Europa.

Na Guerra Franco-Prussiana, (1870-1871) os pombos correios tiveram um papel fundamental permitindo assegurar, conjuntamente com a utilização de balões e o emprego da microfotografia as comunicações de Paris, cercada pelos alemães, para o exterior. A criação de pombais militares em Portugal, como noutros países, poucos anos depois, resulta de importância atribuída a este meio que permitia superar as falhas do telégrafo elétrico.

Durante a Primeira Guerra Mundial os pombos tiveram larga aplicação. sendo destacar o pombo “Cher Ami” que foi criado e treinado numa base americana em França e que salvou o chamado “Batalhão Perdido” da 77ª  Divisão Americana, a quem o pombo tinha sido doado e que se encontrava nesse Batalhão quando, foi cercado por forças alemãs e que corria riscos de ser bombardeado pelas próprias forças americanas. Os rádios falharam e o Cher Ami foi enviado, como única solução possível. Após ter percorrido 40 quilômetros em 25 minutos, atravessando a região ocupada pelos alemães, o pombo chegou à artilharia americana gravemente ferido, mas entregou a mensagem. O texto indicava a localização do batalhão e pedia que cessassem o fogo. Os 194 soldados do Batalhão Perdido comemoraram, aliviados. O pombo  ganhou a Cruz de Guerra  em homenagem ao seu heroísmo.[2]

Na Segunda Guerra Mundial merecem  destaque dois pombos-correios  também condecorados (entre cerca de 3 dezenas):

– O pombo “G.I. Joe” que salvou milhares de vidas civis e militares na vila Italiana de Calvi Vecchia,  ao entregar a mensagem para as forças aliadas não bombardearem esta vila como estava programado, desconhecendo que a vila tinha sido tomada por um batalhão inglês.

– O pombo “Guilherme de Orange”  que salvou a vida a 2000 soldados durante a batalha de Arnhem em 19 de Setembro de 1944. Devido a um problema de comunicações (perda de sinal) as tropas,  cercadas pelo exército alemão,  não conseguiam pedir auxílio. “Guilherme de Orange”  foi enviado com a mensagem que informava a localização e a situação. Voou 250 milhas até à sua base em Inglaterra com muito mau tempo durante mais de quatro horas.[3]

Muitas outras aplicações tiveram na guerra os pombos correios como por exemplo os bombardeiros ingleses levarem pares de pombos-correios para facilitar a sua localização no caso de serem abatidos, o uso em vez do rádio em situações de “silêncio rádio” ou para evitar a radiolocalização, como nos submarinos.

Há uma aplicação curiosa foi a de procurar obter informações da resistência francesa sobre o dispositivo e a situação das forças alemãs através da utilização de “Kit-espiões” que incluíam pombos-correios, instruções para o envio de mensagens e que eram lançados de paraquedas.

A resposta alemã teve duas vertentes. Por um lado, através de snipers ou da utilização de “falcões peregrinos” (os mais eficazes a caçar pombos) procuravam eliminar os pombos quando largados. Por outro lançaram os seus próprios pombos, pedindo as mesmas indicações aos resistentes franceses mas solicitando a sua identificação que explicavam ser para efeitos de serem condecorados no fim da guerra. Para tornarem o kit mais apelativo juntavam cigarros ingleses.

A reação inglesa tem alguma coisa a ver com o humor britânico pois aconselhou os resistentes a, quando no kit lhe pediam para se identificar o melhor que  tinham a fazer era fumar os cigarros que lhe ofereciam e aproveitar os pombos como reforço alimentar.

Convém acrescentar que o destino de pombos como reforço alimentar não é nenhum exclusivo do Exército português.

Para terminar queria só acrescentar que a “guerra dos pássaros” não se limitou ao que descrevemos em relação à resistência francesa. Os ingleses também tiveram a precaução de intercetar os pombos correios usados pelos espiões ao serviço dos alemães em Inglaterra com o uso de falcões peregrinos.


[1] PEHRSON, J Holzmann Bjoorn, The Early History of Data Networks, 1994, pág 14 e 15, bem como os outros exemplos de aplicações antigas

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