Wireless Set 19, Posto 19, ou P. 19


Post do nosso leitor Sr. João Freitas, recebido por msg:

Da mais elevada linhagem inglesa, com três modelos principais (Mk I, II e III), pertence a uma longa família de rádios com a designação geral de WIRELESS SET (WS) (*)

O P.19 MKIII com os seus diversos acessórios. Note-se o suporte do relógio entre as 2 tomadas do rádio.

O WS19 é concebido pela “PYE” e começa a ser produzido em 1942. Com inúmeros problemas iniciais, rapidamente resolvidos, chegou ao descalabro de apenas 30% de todas as unidades enviadas para a campanha do Norte de África estarem em estado de funcionamento! Serve as tropas aliadas desde a referida campanha, até ao fim da guerra, sendo fabricado em alguns membros da Commonwealth e sob patente nos EUA (ZENIT). De referir que grande parte daqueles que vieram para Portugal (Mk II e III) serem de fabricação canadiana e americana, facilmente distinguíveis pelas indicações em inglês e russo nos painéis frontais. O cirílico explica-se porque parte da sua produção estava destinada aos aliados soviéticos, através dos tratados de “Empréstimo e Cedência”. Resolvidos que foram todos os defeitos, tornou-se um dos melhores e mais conhecidos aparelhos dos tristes anos de 1939 a 1945.

No caso que nos diz respeito recebemos estes equipamentos nos finais de 40, encontramos referência sobre este importante radio no “Boletim de Material de Engenharia” de 1950. Esteve em serviço até meio da década de sessenta. Entre várias menções á utilização deste excelente aparelho pelo nosso exército, salientamos a que referencia o seu uso na povoação de Mucaba em 1961, para estabelecer contacto rádio com um avião “PV-2” que, de noite, sobrevoava a referida zona (**). Sobre ele existiu, também, um manual de operador feito em Portugal.

Conjunto de cabos do WS-19

Especialmente destinado a ser um rádio veicular, também será aplicado inúmeras vezes em “fixo” seguro ou não numa grande caixa de madeira (a sua caixa de transporte). Geralmente quando aplicado num veículo militar toda a sua parte frontal (rádio e PSU) podiam ser protegidas por duas grelhas de ferro, similares às aplicadas no AN/GRC-9. O avanço tecnológico, impulsionado pela guerra, determina o fim da sua produção no início de cinquenta.

WS-19 MkII equipado com amplificador de RF

Os elementos principais que constituíam este interessante aparelho eram os recetores/transmissores/amplificador de voz numa mesma unidade, uma fonte de alimentação separada com dínamo, ou dínamo e vibrador (“PSU”- POWER SUPPLY UNIT), uma unidade de acoplamento de antena (VARIOMETER), geralmente colocada perto da antena do tanque, ou quando em fixo segura sobre o “PSU” e diversas caixas de controlo veicular e respetivos cabos de interligação. Ainda sobre a unidade de sintonia de antena convém dizer que o seu tamanho era impressionante e sem duvida nenhuma uma peça característica do radio, devido á sua forma cilíndrica com um grande botão de manobra.

PSU, onde se podem ver a indicações em inglês e russo

Alguns dos modelos intermédios estavam equipados de um relógio de bolso na parte frontal (do rádio, ou do PSU). Hoje em dia são peças raras, pois “perdiam-se” com relativa facilidade. Estes relógios, iguais entre si, mas oriundos de diversos fabricantes (por ex. “DAMAS”), tinham marcas distintas gravadas na tampa ou no mostrador, tais como: o eterno símbolo do material militar inglês, a “seta”*** e as letras “T.P.” (Time Piece).

Voltando às características técnicas principais, e como acima dissemos o POSTO 19 dividia-se, interiormente, em dois rádios R/T de banda corrida, em amplitude modelada, o “A” e o “B” com as respetivas frequências de 230mcs a 240mcs, e de 4 mcs a 8 mcs em duas bandas. Não nos podemos esquecer da hipótese de pré fixar quatro frequências (duas por banda) no radio “B”, sistema que tomou a designação “PISCA” nos nossos manuais (originalmente apelidado de “flick system”). A alimentação primordial deste aparelho era de 12 ou 24 v.

Não temos conhecimento de que, em Portugal, tenha sido usado um amplificador de “RF” especificamente destinado a este aparelho.

João Freitas

(Adaptado de um artigo publicado originalmente na revista “QSP”)

Notas:

(*) Um dos primeiros sistemas identificativos e sequenciais ingleses, tem a designação, não oficial de “WIRELESS SET” (WS). Esta designação não passa de uma espécie de “nome de família” composta por mais de sessenta rádios. Diferenciados apenas pelos seus números próprios, a sequência numérica desta série, nem sempre uniforme (do “1” ao “88”, há números que faltam), nada nos diz sobre a sua utilização, nem do fim a que se destinam, sendo por exemplo, dois números consecutivos, identificativos de rádios completamente diferentes e tendo fabricantes diversos. Dela continuaremos a falar em outros artigos, pois foi extremamente importante para o nosso país, estando intrinsecamente ligada ás comunicações militares em Portugal entre os finais de década de trinta aos finais de sessenta.

Ainda falando da tendência, de resto muito britânica, de juntar os seus aparelhos de comunicações militares por grupos, aos quais é atribuído um nome, podemos adicionar que, dentro dessa família, os seus elementos são diferenciados por letras e números. Durante alguns anos é essa “família de rádios” que predomina, embora a que antecedeu ainda esteja em utilização e a que lhe vai suceder já esteja em plena distribuição. Como exemplo, podemos colocar no tempo e de forma sucessiva, o sistema “WIRELESS SET” e o sistema “LARKSPUR” (nome de um famoso cavalo de corridas!).

Contrariamente ao que sucede no sistema “WIRELESS SET”, no sistema “LARKSPUR”, de que Portugal também viria a receber largas quantidades de aparelhos, a codificação de cada aparelho, já obedece a uma identificação coerente, segundo tabelas fixas.

(**) General Silva Cardoso, em “Angola anatomia de uma tragédia”

(***) A “seta” (uma ponta de seta estilizada, símbolo do monarca George I e do Império Britânico) é utilizada para identificar, a tinta ou em baixo relevo, algum material de guerra de origem inglesa (Commonwealth) desta altura.

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4 comentários a “Wireless Set 19, Posto 19, ou P. 19

  1. Na Índia Portuguesa, 1954/1957, embora mobilizado e prestando serviço [2ºSarg Eng (radiomontador)] no Batalhão de Caçadores Vasco de Gama, aquartelado em Alparqueiros (Vasco da Gama), fui destacado, em acumulação, para a Companhia de Engenharia na altura ocupando as instalações do Hospital Mental [Altinho (Pangim)]. Grande parte do meu trabalho ao serviço da CompEng, juntamente como o camarada de curso Francisco Morais Assis, hoje TCor TecnManTm (SitRef), desenvolveu-se em unidades da Cavalaria equipadas com P-19 nos mais diversos locais do território. O equipamento era muito apreciado na Arma de Cavalaria exigindo cuidados especiais na sua manutenção e operação, mas correspondia em termos operacionais. Em nenhuma ocasião encontrei o amplificador de RF.

  2. Junto duas observações a mais este excelente post do Senhor João Freitas.

    Em primeiro lugar para acentuar o interese que têm estes posts sobre os equipamentos rádio utilizados no Exérecito. Trazem muirta novidade constituindo excelente contributo para os trabaçlhos de investigação necessários à história e museologia ligadas às Tramsmissões

    Em segundo lugar para referir que lidei com o P 19, tive que dar instrução sobre ele e com ele por os instruendos a trabalhar . Na Ìndia estava distribuído ao esquadrão de cavalaria comandado pelo meu amigo capitão Pereira Coutinho, um apaixonado pelas transmissões. Foi ele que me aconselhou, em 1961. a não propor a substituição do P 19 nas Humber pelo AN/GRC-9. em virtude de o P 19 garantir a interrcomunicação ente a guarnição da auto metralhadora,

    Na 3ª Divisão., newsta altura,, já existia a solução americana para os rádios dos carros de combate, francamente superior à utilização do P 19 que era o uso de equipamentos FM, controlados a cristal e com 2 recetores, os SCR 508, .

    • O Senhor General Pedroso Lima deve ter tido, naturalmente, problemas com a instrução que deu sobre estes aparelhos. Eles não eram (nem são!) fáceis na sua operação, outros tempos, outras tecnologias…
      Pergunto se o Senhor se lembra de ter trabalhado com o tal amplificador de “RF”, referido no texto e que aparece na foto, ou de ter tido conhecimento da sua existencia em Portugal?

  3. Pedindo desculpa pelo lapso, onde se lê “patente nos EUA (ZENIT).”, leia-se “patente nos EUA (ZENITH).”

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