HF-156


Post do nosso leitor Sr. João Freitas, recebido por msg:

Iremos relembrar um transmissor-recetor usado pelas nossas forças armadas, fundamentalmente pelo exército e marinha (Fuzileiros) durante a Guerra Colonial de 1961/74. Hoje em dia, apesar de várias referências e dos dois manuais em português, já poucas pessoas se lembram do “HF-156”, um dos últimos aparelhos da família inglesa “Larkspur” (*), do qual recebe os botões de comando, tão característicos desta série de rádios.

Este aparelho é importante, não só por ter passado pelas costas dos nossos militares, mas porque é considerado como o ultimo rádio, totalmente a válvulas** (15) de transporte ao dorso, produzido no Ocidente. Extremamente robusto, totalmente feito em liga leve, é de imediato reconhecido pela enorme bobine de acoplamento de antena exterior, fixada num dos seus lados. Como inconvenientes principais, temos o seu volume e peso (perto dos 16Kg).

Equipado com um “miolo” eletrónico simples e clássico, estamos tentados a advogar a ideia de um historiador das comunicações militares na “ilha de sua majestade”, que nos diz que o “HF-156” estava destinado a exércitos de 2ª escolha. Realmente todos os exemplares que vimos, não primam por um acabamento de base esmerado. A liga da caixa exterior, geralmente mal fundida e em maus moldes, era corrigida com soldadura posterior e rebarbadora, havendo também pouca qualidade nos componentes eletrónicos (ex. condensadores e resistências).

O peso deste “guarda-fato” advém não só da sua caixa exterior, tão forte e de paredes tão grossas que a tornava pesada. Como veremos, também as duas fontes de alimentação, possíveis, contribuíam para o peso final. Para fornecer as diversas tensões, necessárias a um rádio a válvulas, estavam previstos dois sistemas, um, com base numa pilha de várias tensões (com um adaptador) e um outro com base em duas baterias ácido/chumbo ligadas a um conversor. Será desnecessário referir que as duas soluções não eram leves, com a agravante da versão com baterias, ser penalizada pela possibilidade do ácido se libertar sobre os componentes eletrónicos, a liga do rádio e as costas do utilizador! É esta a razão, pela qual raros são os modelos que chegaram aos nossos dias sem terem a sua parte inferior em muito mau estado, devido a corrosão profunda.

O “HF-156” funcionava em amplitude modelada com seis frequências fixadas por cristal, na gama compreendida entre os 2,5 Mc/s e os 7,5 Mc/s . Equipado com o seu saco de lona verde e vários sistemas de antena, tinha como periféricos auscultadores e microfone (integrados numa mesma armação), ou micro auscultador, elementos que encontramos adotados pela quase totalidade dos rádios de origem Britânica dos anos 50/60. Será curioso referir a fraquíssima qualidade dos vários tipos de borracha empregue na manufatura deste tipo de acessórios e na generalidade dos isolamentos dos cabos elétricos. Hoje em dia a reconstrução de um rádio militar (a válvulas) de origem inglesa, impõe o uso de cuidados acrescidos, só sendo possível a recuperação de periféricos, com a aplicação de cabos novos. O mesmo se passa com a generalidade de toda a cablagem interna.

Portugal recebeu para o Exército conjuntos de “HF-156” no ano de 1962, que se devem ter mantido em utilização até ao final dessa década sem reparos de maior. Um ou dois anos mais tarde, os nossos Fuzileiros vêm também a utilizar este tipo de rádio. De facto são os aparelhos oriundos da Marinha de Guerra os que, exteriormente, encontrámos em pior estado com enormíssimos sinais de corrosão motivada, como referimos, pelo ácido das baterias, mas também pela água salgada e consequentes anos de armazenamento como sucata.

No nosso país, para além dos manuais originais, foram editados pelo menos mais dois em português, um dirigido á sua operação e outro dedicado á manutenção e reparação técnica.

João Freitas

(artigo adaptado de um original publicado na revista “QSP”)

(*)   Em Inglaterra os rádios militares são identificados, ao longo dos anos e sucessivamente, por grandes “famílias” e dentro desses grupos por números. Poderemos considerar isto uma regra. Assim, os aparelhos feitos durante os anos 30 e 40 (Segunda Guerra Mundial) pertencem ao grupo “Wireless Set”. A esta série segue-se o grupo “Larkspur” que estaria em vigor durante as décadas de 50 e 60. É a esta série que pertence o aparelho de que falamos. Posteriormente e até aos nossos dias outros grupos têm aparecido.

(**) Apenas a unidade osciladora para a alimentação (versão utilizando 2 baterias de ácido/chumbo), utilizava dois transístores “OC35”

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9 comentários a “HF-156

  1. Tenho um HF 156 MK2 em estado de novo,só possui a chave de MORSE,
    não tem o MICROAUSCULTADOR, claro… para mim é uma relíquia.
    RADIOMONTADOR 2º TURNO 1969, serviço em CABINDA no BC 11 em 70 71 e
    parte de 72 (ANGOLA).

  2. O E/R HF-156 foi para mim um excelente equipamento.
    Em 1963/64 como radiomontador do BCaç460 em Angola (Nambuangongo) utilizei o HF-156 como posto fixo. Uma rede fixa entre Nambuangongo, Beira Baixa, Quixito e fazenda do Onzo com sucesso. Ainda foi utilizado em viatura. Esta utilização do HF-156 poupou-me o desgaste do AN/GRC-9 e AN/PRC-10 . No trabalho que estou a elaborar sobre a actividade de um radiomontador num batalhão operacional na guerra colonial irá esclarecer melhor a excelência do HF-156 que naturalmente tinha limitações técnicas. Em 1962 fui instrutor deste equipamento na EMElm aos cursos de radiomontadores.

  3. Agradeço sinceramente ao senhor João Freitas as informações relativamente aos pesos dos equipamentos em causa, Uma das vantagens deste Blogue é precisamente permitir resolver com prontidão um problema que doutra forma levaria imenso tempo.

    Em relação a este problema verifica-se que as comunicações dos grupos de combate na Guerra Colonial foram durante praticamente metade do período da guerra resolvidas com o AN/GRC-9. O equipamento tinha inconvenientes graves, dividido em 3 partes para ser transportado. Era fiável e a tropa combatentem apesar disso, não deixava de o levar.

    Atrevo-me aqui a sugerir que alguém que tenha utilizado o AN/GRC-9 nos transmita aqui no Blogue a sua experiência.

  4. Na última reuniâo da CHT tivemos o gosto de encontrar o sr. João Freitas e ficar a saber que em breve teríamos, de novo o prazer de ler um post seu, com a qualidade habitual, como foi o caso.

    A respeito do HF 156 queria apenas acrescentar que julgo que antes da entrega em Portugal de vários conjuntos, em 1962, que o sr. João Freitas refere, penso que já havia em Portugal desses rádios.(1)

    Quanto ao peso quase 16 quilos é muito para andar a dorso..Um dado que eu não consigo encontrar e que me atrevo a solicitar a quem tenha é o peso do AN/GRC-9 e do RACAL TR-28, para permitir a comparação.Os outros inconvenientes eram o fraco alcance e o derramar o àcido da bateria.

    Por isso o HF 156 não chegou a ser a alternativa para o AN/GRC 9 que desesperadamente se procurava encontrar, os utentes desejavam e os comandos militares insistentemente siolicitavam e que só anos mais tarde o RACALTR 28 veio resolver

    (1) Talvez desde o ano anterior. Digo isto porque fui para a Ìndia em 1961 e já conhecia esse rádio, que no entanto não é mencionado na publicação do Curso de Transwmissões para oficiais das Armas em 1960/61.

    • Senhor Pedroso de Lima
      Mais uma vez começo por lhe pedir desculpa pela falta que cometo ao não referir o seu posto. Como não tenho a certeza, não quero cometer uma gafe.
      Nem na publicação a que se refere, nem no Boletim da Arma de Engenharia, muito menos nas ordens de serviço a que tive acesso relativas a esses anos existe menção ao “HF-156”. As informações, vindas de outros militares, apontavam os anos de 1961/62 como datas prováveis do seu aparecimento no nosso Exército. Por esses motivos cingimo-nos à data dos manuais em português. Infelizmente não falámos nós com a pessoa certa…
      De facto o “HF 156” não podia competir com “AN/GRC-9”, também este último seria um aparelho diferente. Dizer que o “GRC-9” poderá ser um rádio de transporte ao dorso (o que é uma realidade!) é obrigar a um esforço enorme um grupo de três homens, que para além dele (e dos seus pesados acessórios) tinham que transportar a “G-3”, quatro carregadores e a ração de combate. Como diz, e muito bem, o problema só viria a ser resolvido com o aparecimento dos diversos (!) “Racal TR-28”.
      Peso do “TR-28” cerca de 11 quilos em “ordem de marcha”.
      Peso do “AN/GRC-9” na versão de transporte ao dorso (expedita) que compreenderia: o rádio+saco de transporte, o gerador manual “GN-58”+saco de transporte e com as três pernas de suporte (uma com banco), antenas c/ isolador ou antena de fio, cabo de ligação do gerador ao rádio, altifalante e/ou auscultadores, micro e chave de morse, rondaria os 28/30 quilos.
      Agradeço-lhe as informações prestadas.
      João Freitas

  5. Muito interessante este artigo sobre o HF 156-MK2.

    Partilho totalmente os pontos de vista do autor: era pesado, mal acabado, com duas baterias que se “babavam” e, conforme já aqui tinha comentado anteriormente, de fraco alcance.

    Trabalhei com este E/R só na Metrópole (felizmente!), na especialidade e depois na instrução, e não no Ultramar.

    Num ferro velho lá para as bandas da Base Aérea de Sintra, após o 25 de Abril, consegui, entre outras coisas, um HF 156 MK-2 nº de série 1915 (mas sem a caixa respectiva), em estado razoável, e ainda o respectivo conversor transistorizado. Tenho ainda o Manual de capa castanha, “INSTRUÇÕES DO POSTO RÀDIO HF 156 – MK 2 1ª PARTE – Descrição Geral e Operação”, de 1962.

    (Está por cima de um Wireless Set n.11, nº 23388, LKC, que faz a delícia dos meus netos, por causa dos inúmeros botões).

    PS. Como deve ser do vosso conhecimento, algum tempo depois do 25 de Abril, foi descarregado no tal ferro muito material de transmissões (!), de um modo geral intencionalmente danificado (na altura em que lá fui, este HF era o único que tinha o aparelho de medida inteiro. Os outros tinham sido quebrados).

    João Ramiro C. Firmino
    Ex- Furriel Milº de TRMS de Infantaria

    • Obrigado pelo seu comentário e pelas informações adicionais. Embora tal tenha podido chocar alguns, a destruição/inibição de material de guerra, como era e é o caso dos rádios “militares”, antes de enviado para a sucata, era uma imposição legal, que visava impedir a sua utilização ilegal, nomeadamente para escutas não autorizadas de comunicações militares. É pena contudo que não tenha sido possível preservar mais alguns exemplares. Deste e doutros rádios.

    • Boa tarde João Ramiro S.Caldeira Firmino!
      … Porque não vais ao Almoço da malta do Blogue do Luís Graça no próximo dia 8, em Monte Real ?
      … Gostava de te rever, após cerca de 50 anos … Estudámos algum tempo juntos …
      De qualquer modo envio-te um GRANDE ABRAÇO!

      José Rocha

      • Boa tarde!
        Estive fora. É claro que os encontros da Guiné são sempre um acontecimento…principalmente para rever velhos amigos. Mas é-me impossível!
        Um abraço!
        João Firmino
        PS. O meu neto no carnaval foi fardado à maneira…e levava o meu THC-736! O HF-156-MK2 (que também tenho) era muito pesado para ele…

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