Os 30STPL


Post do nosso leitor Sr. João Freitas, recebido por msg:

Quando relembrámos o rádio “20 TPL” (ver aqui), deixámos antever que o seu imediato sucessor, o “30 STPL”, também pouco traria de bom, nem alteraria a impressão medíocre deixada pelo primeiro.

Um 30STPL no seu saco de transporte

Projetado e fabricado na Standard Electrica (de seu nome completo “30STPL”), pensamos que deverá a nomenclatura “STPL” à evolução da sigla do seu antecessor “20 TPL”. Por ser um aparelho sintetizado, é acrescida a letra “S” ao grupo “TPL” que por si só será a abreviação de Transistorized Portable. Numa leitura final, “STPL” será a redução de Synthesized Transistorized Portable, No entanto (e para não tornar este texto longo demais) pedimos aos interessados que leiam as “Notas” do artigo anterior (sobre o 20TPL), pois poderá haver outra explicação válida para esta sigla. Nunca encontrámos enquadramento cabal para os números 20 e 30. Alguém, de vós, poderá dar uma ajuda?

Em catálogos e manuais diversos, a essa sigla pouco ortodoxa junta-se uma confusão de definições gerais relativas tanto ao 20TPL, como ao 30STPL. Por exemplo, nos catálogos do “20” ele é apresentado na capa como sendo “20TPL HF SSB Transceiver Packset”, na folha seguinte diz-se que é “Model 20 TPL Transistorized Portable Combat Set”, para além de outras encontradas em diversa propaganda. Relativamente ao rádio de que hoje tratamos, a capa do manual original refere-se-lhe destacadamente como sendo “30STPL  SSB Transmitter-Receiver”, para de imediato o definir na segunda folha como “30STPL Synthesized Packset”.

Estas incoerências na apresentação de um produto deste tipo, que queremos lançar num mercado externo muito aguerrido, geralmente pagam-se caro. Assim como se paga cara a escolha de uma nomenclatura identificativa que pouco ou nada tem em termos de leitura universal convencionada. Já que a Standard, nessa altura, não escolheu o sistema “JAN” (1), ainda bem que adotou as mencionadas siglas, pior seria se os tivessem chamado de “Amália”, “Eusébio” ou “Saudade”…

Como se passou com o “20”, o desenvolvimento do “30” está ligado á Guerra Ultramarina, ao desejo de em breve substituir o “velho” TR-28, a possibilidade de exportação mantendo em laboração um número apreciável de funcionários qualificados. No caso do “30” estaria em jogo a viabilidade da própria empresa. Nada disso veio a acontecer.

Por que razão é que, depois do relativo fracasso do 20 TPL, se incorre nos mesmos erros e se agravam outros? Por que motivo, a um rádio temperamental e incómodo de transportar, se segue outro, dito “mais avançado tecnicamente”, mas maior, muito mais pesado e também problemático? Por que é que, na manufatura dos sacos de transporte (mal dimensionados) se continuou a utilizar lona de fraca qualidade que ao fim de duas chuvadas já não permitia que se fechassem convenientemente, ou com alças que não suportariam o enormíssimo peso?

Assim como sucedeu com o “20” e antes de chegar à forma definitiva (até hoje em dia apenas encontrámos uma versão final), sofre muitas alterações, sendo diversos os protótipos ensaiados, nomeadamente com alterações a nível do painel de comando. Um amplificador de áudio (acessório) recebe também diversas modificações (2). Logo após Abril de 74 recolhem à caserna, de onde quase nunca saíram. Algumas unidades serão oferecidas à CVP. Pouco tempo depois todas estarão na sucata, transformadas em reluzentes lingotes.

Ao perscrutarmos o interior, apercebemo-nos das razões do seu desmedido peso e tamanho. Peças grossas de alumínio, e módulos eletrónicos enormes com diversas blindagens elétricas, onde a palavra miniaturização não teve cabimento, para além de um pack de baterias muito grande e pesadíssimo (deverá ter sido dimensionado tendo em vista o grande tamanho do bloco rádio). Até a estaca do plano de terra era enorme e pesada, mais parecendo uma arma medieval de último recurso. Habituados a ver outros “interiores” de diversos aparelhos congéneres, parece-nos que a palavra de ordem foi “forte e feio, que quem vai carregar não sou eu”. Infelizmente assim nos parece.

Os engenheiros da Standard apercebendo-se tardiamente do peso desmesurado, tentam duplicar algumas peças em resina e fibra de vidro. Tal não vem a resultar, como provam diversas caixas exteriores do pack de baterias feitas nesse composto. Por serem finas demais, não aguentavam os fechos de fixação nem os impactes no solo, tendo sido encontradas em estado lastimoso.

Cerca de 40 anos depois do SCR-300/BC-1000 (2ª Guerra Mundial), com 18 válvulas e uma pilha gigante (ocupando mais de metade do rádio), conseguimos fazer um aparelho totalmente transistorizado, mais pesado e problemático.

Pormenor da fixação da antena

Mas nem tudo era “coisa ruim”. Apesar de parecer que entramos em contradição, tal não acontece quando falamos sobre o desenho do painel de comandos, simples e totalmente original, dos soberbos manuais técnicos; o esmerado planeamento interno, tornando a substituição e reparação de qualquer dos seus cinco módulos principais extremamente fácil; o cuidado em todos os acabamentos e componentes empregues e o excelente tipo de pintura utilizada (electroestática). Com o bloco eletrónico no exterior, todo o painel frontal podia rodar 90º para facilitar o acesso a zonas geralmente difíceis de alcançar. Estando o aparelho montado no seu suporte para utilização fixa/veicular, a base onde era atarraxada a antena tinha a particularidade de poder rodar cerca de setenta graus, permitindo a verticalidade da mesma. O manuseamento operacional sem instruções prévias seria muito fácil para qualquer militar, mesmo que não fosse de transmissões.

Articulação da antena referida no texto acima

Os seus periféricos imediatos (microtelefones, auscultadores) eram do tipo inglês clássico, amplamente difundidos nas nossas Forças Armadas e que encontramos em inúmeros aparelhos (ex. TR28).

João Freitas

(Adaptado de um artigo original publicado na revista “QSP”)

Características principais do 30 STPL

Rádio recetor/transmissor de transporte ao dorso, sintetizado. Dotando-o de suporte especial pode ter utilização fixa ou veicular. Estavam previstos vários modos de carregamento das dez baterias de Ni-Cd, incluindo um gerador manual (igual ao do 20 TPL e cópia de um modelo inglês). Estava contemplada uma alimentação de 220vca/12vcc para utilização em posto fixo (igual à do 20 TPL). A grande maioria dos seus acessórios também tinha aí a sua origem.

Frequências       2Mhz  aos  12Mhz (11.999Mhz)

Canais               10,000, c/ possibilidade de sintonia entre canais

Modelação         AM; USB; CW,  todas em BP ou AP

Potência             30W em SSB; 15W em CW

Alimentação      12V

Peso                   Mais de 17 quilos (reais) c/ acessórios.

Notas

1-    Em anteriores artigos foi esclarecido que “JAN” ou apenas “AN”, é a abreviatura de “Joint Army Navy”, designação de um código identificativo americano (de 1943) universalmente aceite ou adaptado para identificar diverso tipo de material militar. Quando este código é aplicado nos EUA em material seu, a sigla começa sempre por AN sendo seguida por um travessão e posteriores letras e números (ex. AN/PRC-10). Quando esse material é feito noutros países, são adicionadas no seu final as letras identificativas desse país ex. AN/PRC-10Gy (Gy/Germany/Alemanha). Fora dos EUA e mais recentemente, simplifica-se o código, substituindo as letras “AN” pelo indicativo do país fabricante (ex. P/PRC-425, aqui o 1º “P” identifica Portugal), mantendo, o conjunto de três letras posteriores, o significado que já tinha anteriormente e que devido às inúmeras conjugações pode ser, quase, interminável.

2-    Este curioso amplificador de áudio (para utilização em fixo) substituía o pack de baterias (era idêntico em dimensões). Quando aplicado ao rádio, estava previsto que a alimentação fosse feita por um cabo exterior ligado a 12Vcc. Também, neste caso, o microtelefone era ligado ao amplificador.

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4 comentários a “Os 30STPL

  1. Meu caro senhor João de Freitas só tenho a dizer-lhe que não considero que tenha cometido qualquer falta por não referir o meu posto, pois o que interessa aqui é a troca salutar de conhecimentos que se tem verificado e em que eu tenho sido largamente beneficiado. Em consequência e se procurássemos que o posto, aqui no Blogue, refletsse o mérito, o sr João Freitas graças ao conhecimento e paixão pelas transmissões que tem revelado até deveria ter um posto superior ao meu. No Exército atingi o posto de major general que antigamente se designava por brigadeiro.

    Quanto à divulgação do preço julgo que seria vantajoso que, semore que poissível, divulgássemos os preços dos equipamentos. No caso do P/PRC-425 já vi publicados textos em que se demonstrava o enorme benefício que representou o fabrico do equipamento em Portugal e que deveriam ser difundidos neste blogue.

  2. Em relação a este novo excelente post do sr. João Freitas queria acrescentar o seguinte

    Em primeiro lugar para assinalar a atitude da indústria nacional que se arrisca a apresentar, por sua iniciativa, um produto novo, tecnicamente avançado, utilizando sintetizador. A fasquia estava alta pois tratava-se de substituir o RACAL TR 28, altamente prestigiado entre os combatentes. Claro que o projeto de um novo rádio que apresenta um peso ainda maior que o HF 156 dificilmente poderia ser aceite para substituir o TR 28.

    Permito.me apresentar aqui o extrato de uma informação manuscrita, encontrada no espólio do MGen Sales Grade,(1) para a qual o coronel Costa Dias me chamou a atenção(2) A Informação é de fins de 1973 e diz o seguinte:

    “…Relativamete aos equipamentos com sintetizador cuja técnica ainda está incipiente deve dizer-se que têm menor autonomia ou para a mesma autonomia maioer peso, são mais complexos no seu manejo e sobretudo na sua manutençãoç. Com efeito o preço dos equipamentoscom sintetizador deve ser supewrior a 110 contos enquanto que os equipamentos a cristal custam cerca de 50 contos. Apesar de tudo isto e para se ganhar tempo está a DAT a tratar da abertura de um concurso para 30 destes equipamentos para serem ensaiados e se fixar uma base de preço.”

    Ou seja apesar de todos os inconvenientes a DAT dispunha-se a adquirir 30 equipamentos, para os testar nos TO,o que parece dmonstrar o seu interesse em não cortar a iniciativa da indústria nacional.

    (1) Na altura Diretor da Arma de Transmissões
    (2) A informação está no Arquivio da CHT

    • Senhor Pedroso de Lima
      Começo por lhe pedir desculpa pela falta que cometo ao não referir o seu posto. Como não tenho a certeza, não quero cometer uma gafe.
      Para além das suas amáveis palavras, que agradeço, acho extremamente curioso a menção, de que nos dá conhecimento, do preço de um aparelho destes. Isso é um facto raro.
      Atenciosamente
      João Freitas

      • “Big Brother” do 30STPL?
        Eu fiz recentemente uma pesquisa que diz respeito ao Tr28 e tropecei no 30STPL e seus esforços para contar sua história. Muito obrigado por todos os seus fatos interessantes. E agora a minha pergunta: Na minha posse tenho um rádio que se parece muito com um irmão mais velho do 30STPL com uma gama de 1,6 a 30 MHz de frequência, caso contrário, ele é idêntico do lado de fora. Foi feito por “Le Materiel Telefonique” (L.M.T.) na França e é chamado de “ER 243A”. A semelhança é tão grande que não pode ser desenvolvido a partir do 30STPL independentemente, ou vice-versa. Eu assumo que o 30STPL era uma cópia tardia, mais ou menos com base no ER-243A e não é um desenvolvimento português. Você sabe sobre este tipo de rádio e você tem informação de fundo como este dois tipos de rádio estão relacionados? A pedido posso enviar algumas fotos.

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