As Transmissões Permanentes do Exército (1951 a 1977)


Post da CHT, coordenado pelo MGen Pedroso Lima:

No período de 1951 a 1977, a ação mais relevante das Transmissões do Exército foi o apoio à Guerra Colonial entre 1961 e 1974, tanto no que respeita às comunicações permanentes, como às transmissões de campanha. Desenvolveremos aqui apenas o que respeita às transmissões permanentes, mas devemos sempre salientar o papel decisivo das Transmissões nas duas vertentes da sua missão.

Antes porém de nos debruçarmos sobre a Guerra Colonial, convém analisar o período que a precedeu, onde constataremos, com alguma surpresa, que na sua parte final, entre 1959 e 1961, se deram passos importantes no planeamento e preparação das transmissões permanentes para a previsível evolução da situação nas colónias.

As Transmissões Permanentes antes da Guerra Colonial (1951-1961)

No início deste período, como missão que já vinha do antededente, a Marinha tinha o exclusivo das ligações entre Portugal e as colónias, e os outros Ramos só tinham ligações dentro de cada colónia.

Por outro lado, foi criado, em 1951, o Serviço de Telecomunicações Militares (STM), que ficou na dependência do ministro do Exército, de quem o Chefe do STM passou a depender e com quem despachava diretamente.

Esta subordinação do STM ao poder político inseria-se na preocupação do regime de Salazar pela Segurança Interna[1], dada a vantagem que representava ter o controlo das comunicações militares para superar situações de alteração da ordem pública.

O investimento feito no STM permitiu, nos anos seguintes, melhorar de forma significativa o equipamento e as infra-estruturas das redes militares do Continente e Ilhas[2], sendo de realçar o aparecimento dos primeiros teleimpressores na rede permanente, a partir de 1956[3], e a intervenção do serviço de som em cerimónias públicas de vulto[4].

Em 1959, quando se inicia a preparação para a Guerra Colonial, o Batalhão de Telegrafistas (BT) passou a exercer, por acumulação, as funções de Escola Prática, cometidas até aí à Escola Prática de Engenharia. No entanto, só muito tarde, já em 1970, é que foi extinto o BT e criada, em sua substituição, a Escola Prática de Transmissões[5].

Se considerarmos as duas missões que então ficaram a cargo do BT (Ensino, relativo à função de Escola Prática, e preparação e apoio do STM à Guerra Colonial), podemos concluir que elas eram dificilmente compatíveis, dada a escassez de quadros.

Concretamente, a preparação das Transmissões para a Guerra Colonial começou em 1959[6],[7], com a nomeação do major Costa Paiva, então subchefe do STM, para uma missão às colónias. Pretendia-se que, depois de uma viagem aos territórios coloniais, fosse apresentado um Relatório em que se definissem, para cada um, o sistema de comunicações permanentes e de ligações de campanha.

Apresentado o Relatório, verificou-se que se tornava essencial, por um lado, prever locais para instalação das novas estações, assim como considerar as necessidades de equipamentos adequados de transmissões e pessoal devidamente treinado.

O trabalho de organização das Delegações do STM a enviar para as antigas colónias, na sequência do referido Relatório, foi executado com eficiência e rapidez, para o que muito contribuiu a experiência colhida na remodelação feita nas redes do STM desde 1951 e sobretudo a ação do tenente-coronel Mário Leitão, subdiretor do STM e do seu adjunto, capitão Silva Ramos[8].

Como fruto desde trabalho de preparação, a primeira delegação do STM, chefiada pelo capitão Pinto Correia, veio a instalar-se em Angola antes do início das hostilidades, o que não aconteceu com outros serviços do Exército[9].

As Transmissões Permanentes durante a Guerra Colonial

No período da Guerra Colonial o Exército dotou-se de um eficiente sistema de comunicações telegráficas e telefónicas que asseguraram, por um lado, a ligação de Lisboa a cada uma das colónias, e, por outro e em cada teatro de operações, a operacionalidade de redes de transmissões permanentes e de campanha que, interligadas, acompanharam o dispositivo militar.

Logo em 1961, foi criado, em Lisboa, o conjunto central do sistema de comunicações permanentes, constituído por um Centro Emissor, situado no Bairro da Encarnação, um Centro Recetor, instalado no Campo de Tiro de Alcochete e o Centro Nacional de Transmissões (CNT), que ficou no quartel do BT em Sapadores (hoje, Regimento de Transmissões). O CNT ficou ligado por feixes hertzianos ao Centro Recetor e por cabo enterrado ao Centro Emissor.

É de acentuar que não houve dificuldades na aquisição dos equipamentos necessários à montagem da rede permanente de transmissões, contrariamente ao que aconteceu com outros materiais militares[10], fundamentalmente por se tratar de equipamentos iguais aos das redes civis.

Em 1962, iniciou-se a automatização da rede telefónica de Lisboa, com centrais no Quartel-General (S. Sebastião da Pedreira) e BT (Sapadores), ficando esta com 400 direções, sistema Strogger, e com ligações a Vendas Novas e Évora por cabo hertziano[11].

No prosseguimento da instalação da rede permanente de transmissões, foram estabelecidas, em 1963, as primeiras ligações entre Lisboa e o Porto por fac-simile e fotografia; e logo em 1964 foi instalada a rede telefónica automática do Campo Militar de Santa Margarida.

Em 1966, por impulso do capitão Garcia dos Santos, foi criado no BT, o Centro de Instrução de Guerra Eletrónica (CIGE)[12]

Em 1970 (ano em foi criada, finalmente, a Arma de Transmissões), montou-se, no CNT, um laboratório sob a direção do capitão Alcide de Oliveira, que chegou a ser local de estágio universitário e onde veio a funcionar um aparelho de laser, que foi o primeiro em Portugal, motivo pelo qual veio mais tarde a figurar na 27ª Exposição Europeia de Ciência, realizada na Casa dos Bicos.

Ainda antes do final da guerra, em 1973, o controlo das transmissões permanentes do Exército passou para a Direção da Arma das Transmissões, na dependência do Estado-Maior do Exército, acabando a subordinação direta ao ministro do Exército.

Período de transição (1974-1977)

O aspeto essencial nos três anos que se seguiram ao 25 de Abril e terminaram em 1977, com a criação do RTm, foi a enorme retração que se deu no STM, em consequência da descolonização. O Serviço voltou a ter a dimensão que tinha antes da guerra, confinando-se ao triângulo estratégico português – Continente, Açores e Madeira.

Deve destacar-se o papel de relevo que a Escola Prática de Transmissões (EPT) teve no 25 de Abril, na coordenação do sistema de transmissões durante a execução da operação militar que derrubou o anterior regime, cuja atuação viria a ser reconhecida pela atribuição à unidade da Ordem da Liberdade.

A partir de 1975 foi cometida ao Exército a honrosa missão de montar um sistema alternativo de confirmação da contagem dos votos[13], que foi executada pelo STM, apoiado na rede de telecomunicações militares.

Em 1976 foi aprovada pelo EME a reorganização da Arma, sob proposta do general Pereira Pinto, sendo criado o Regimento de Transmissões, com a responsabilidade das transmissões permanentes, primeiro passo do novo caminho que se tornava necessário seguir.

Bibliografia e Fontes 

  • Comissão de História das Transmissões, As Transmissões Militares da Guerra Peninsular ao 25 de Abril. Lisboa, 2008.
  • MACEDO, Coronel Henrique José da Silva Castanheira, 30 Anos de Serviços Distintos (1977-2007). Lisboa: RTm, 2007.
  • MOREIRA, coronel Guilherme Bastos, Notas sobre as Transmissões Militares em Portugal. Lisboa: RTm, 1980.
  • PINTO, tenente-general António Avelino Pereira, Contribuição para a elaboração da História das Transmissões Militares em Portugal apontamentos e memórias entre 1950/1983, 2003.
  • PINTO, tenente-general António Avelino Pereira, Contributos para a elaboração da História das Transmissões Militares em Portugal. Memórias e Testemunhos,2005.
  • PINTO, tenente-general António Avelino Pereira, Das Minhas Memórias Militares (Entre 1970 e 1983), 2009.

[1] No livro da CHT As Transmissões Militares – da Guerra Peninsular ao 25 de Abril”, pág. 87, refere-se a fraca capacidade operacional do Exército que só servia para ações de segurança interna, situação que só a ajuda militar americana viria a alterar.
[2] De acentuar  que a extensão do sistema de transmissões não envolvia as colónias.
[3] Obra da CHT citada, pág.99.
[4] Idem , Idem.
[5]  Como em 1970 foi criada, finalmente, a Arma de Transmissões, não fazia sentido existir uma Arma sem Escola Prática e com as suas funções exercidas por um Batalhão!
[6] Até essa altura as prioridades nacionais eram para a frente europeia, para fazer frente à ameaça das forças do Pacto de Varsóvia. As colónias eram vistas como fonte de recrutamento para a guerra europeia, como acontecera na IIGM com as colónias inglesas e francesas, pág. 100 da obra da CHT citada.
[7] Nesse mesmo ano de 1959 foi criada a DAT e organizado na CHT o Curso de Engenharia Eletrotécnica Militar, obra citada do coronel Bastos Moreira, I Vol, pág. 4.
[8] Obra citada da CHT, pág. 102.
[9] Sobre a ação desta Delegação ver PINTO, general Pereira, Contribuição…2003, pág. 8 e 9.
[10] entre os quais equipamentos rádio de campanha
[11] MOREIRA, coronel Guilherme Bastos, Notas sobre as Transmissões Militares em Portugal. Lisboa: RTm, 1980, 1º Vol, pág 71; e também, sobre a evolução da rede de feixes, ver a mesma obra, 2º vol., pág. 35.
[12] CHT, Obra citada, pág. 112.
[13] Esta missão começou com as primeiras eleições democráticas para a Assembleia Constituinte em 1975, em que a representação do Exérito foi dirigida pelo Tenente-coronel José Maria Marques (pintor José de Guimarães) e durou  até 1979. Ver livro da CHT: As Transmissões Militares da Guerra Pennsular….pág.212 e 213

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Um comentário a “As Transmissões Permanentes do Exército (1951 a 1977)

  1. Enquanto não é escrita a história da participação da EPTm/RTm nos processos eleitorais, aqui deixo algumas precisões relativamente ao texto deste post.
    Essa participação iniciou-se em 1975, com a seguinte missão:
    – transmissão dos resultados de cada uma das freguesias do país, da respectiva capital de distrito para Lisboa, utilizando a rede telegráfica do STM (uma mensagem por freguesia), em alternativa à rede telex dos CTT e dos TLP;
    – colaboração com o STAPE (Secretariado Técnico para os Assuntos do Processo Eleitoral) no planeamento, montagem e funcionamento do centro de escrutínio e divulgação pública dos resultados, instalado na Gulbenkian.
    Desta tarefa foi incumbido o Major José Maria Marques, coadjuvado pelos Tenentes Tirocinantes Edorindo Ferreira, Melo Azevedo, Oliveira Ferreira e Sousa Maia.
    Nos anos seguintes a participação foi similar, tendo adicionalmente sido também efectuada a contagem alternativa dos resultados.
    A última participação, em 1979, foi coordenada pelo Capitão Edorindo Ferreira.

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