Paris, 1958


Post do Cor António Pena, recebido por msg:

Autometralhadora de reconhecimento Panhard EBR.
Instalação, operação e manutenção do rádio Teleco ERM-212.
Intercomunicação e antiparasitagem.

Na continuação do post respeitante à Guiné-Bissau, A preservação da memória é um dever cívico exercido no respeito pelos outros e por nós próprios”, apresento uma peça propiciadora de mais envolvimento, melhor investigação, pelo menos, em três aspetos:

– Preparação do Exército para a Guerra de África, antes de 1961;
– Competências técnicas e culturais dos sargentos radiomontadores formados nos Pupilos do Exército;
– Ausência de oficiais da Arma de Engenharia (na altura engenheiros militares) no corpo de instrutores da Escola Militar de Eletromecânica (EMElm).

A seguir ao regresso do Estado Português da Índia, no fim da primeira comissão de serviço no ultramar (1954/1957), fui colocado na Escola Prática de Cavalaria. O trabalho na EPC (1957/1962) foi importante pelo contacto com militares disponíveis e competentes, destacando-se os sargentos e oficiais de Cavalaria com a especialidade de Transmissões das Armas em especial os “Oficiais de Transmissões”; capitães, Santos Leite (coronel, falecido), Branco Ló (coronel) e Pereira Coutinho (major-general). Na altura a minha carreira militar teve rápido andamento: 2ºSarg/1ºSarg radiomontador (Arma de Engenharia e depois Serviço de Material); sargento-ajudante do ramo elétrico, radioelétrico e eletrónico do SM; SargAjd do ramo mencionado do SM a desempenhar funções de subalterno desde janeiro de 1962 na sequência do curso para oficial obtido na Escola Central de Sargentos (ECS). Neste período, para além da frequência dos cursos para 1ºSarg, para SargAjd (ambos na EMElm) e para oficial (ECS), participei no primeiro curso de televisão (teórico/prático) realizado em Portugal pela Siemens e fiz parte da equipa de três sargentos radiomontadores [destinados à metrópole, eu próprio, Angola e Moçambique (todos ex-alunos dos Pupilos do Exército)] que, durante três meses, participaram num estágio em Paris.

O estágio destinou-se à construção do sistema de comunicações da autometralhadora de reconhecimento, Panhard EBR, em paralelo com as questões técnicas relacionadas com a parte mecânica assumidas por outra equipa constituída por oficiais e sargentos do ramo automóvel do SM.

O objeto principal deste post consiste em dar a conhecer o trabalho realizado em França e a sua oportunidade. A compra das EBR (Engin Blindé de Reconnaissance) antes de 1961 demonstra que o Exército alguma coisa estava a fazer em termos de se preparar para a Guerra de África. A EBR, veículo blindado, 8×8 rodas, embora projetada durante a II Guerra Mundial, só foi produzida em quantidade depois de 1954 tendo sido muito utilizada pelos franceses na Guerra da Argélia.

A equipa constituiu-se na EMElm (Paço de Arcos) sendo a delegação (material auto e material de rádio) chefiada pelo capitão Silveira, da Arma de Cavalaria, que prestava serviço na EMElm. Os trabalhos decorreram de 03 de outubro a 26 de dezembro de 1958, realizaram-se em Paris e instalações fabris da Panhard e da Teleco localizadas nos arredores, sendo relacionados com a instalação, operação e manutenção do material de rádio (Teleco, E/R ERM-212) e com os sistemas de intercomunicação e anti-parasitagem da Panhard EBR (autometralhadora de reconhecimento).

A designação portuguesa da viatura é Auto Blindado TP14 ETT, Panhard 8×8 m/1959, sendo a tripulação constituída por quatro militares, chefe de carro, apontador/radiotelefonista e dois condutores, um em cada extremidade da viatura.

O material de rádio, de fabricação Teleco, constava do E/R ERM-212, AM (normal), banda 2 a 12 MHz, seis canais pré-sintonizados e trabalhava em fonia e grafia. O sistema de intercomunicação, Teleco, estava interligado com o E/R.

A equipa de três jovens sargentos radiomontadores envolveu-se com sucesso no ambiente fabril da Panhard (motores, sistemas elétricos e eletrónicos, viaturas, antiparasitagem) e da Teleco (antenas, rádios e sistemas de intercomunicação) nas respetivas instalações em Paris e arredores.

A experiência de trabalho em viaturas blindadas equipadas com material de rádio e intercomunicação adquirida na Índia Portuguesa quando ao serviço da CompEng, juntamente com o camarada de curso Francisco Morais Assis, era responsável pela manutenção do material de transmissões das unidades de cavalaria equipadas com E/R P-19; a minha idade, embora com 22 anos era o mais velho, antiguidade e posto (fui promovido a 1ºSarg em Paris) e o domínio da língua francesa; por certo aconselharam o chefe da delegação a escolher-me para acompanhar os ensaios de campo das viaturas e participar em reuniões de alguma reserva com engenheiros das empresas, militares franceses e o oficial português responsável pela aquisição das viaturas quando se deslocava a Paris. Destas missões mais especiais recordo o conselho do oficial português responsável pela missão (coronel do CEM), para se falar inglês e não francês, explicando que em Inglaterra em missões semelhantes falava francês. Esta lição de 1958 ainda me serve de apoio junto de estudantes de ciências da comunicação em termos de práticas para obter sucesso em determinadas aplicações da comunicabilidade, face a negócios.

Em termos de novas aprendizagens e obtenção de competências recordo o aprendido no âmbito da antiparasitagem (Panhard), daqui as duas fotografias da EBR na fase do trabalho relacionado com essa parte do estágio, ligação entre mecânica e eletricidade, para lembrar a exigência dos inspetores, militares franceses (oficiais e sargentos), nesse âmbito técnico. Importa ter em consideração que naquela altura, anos 50 do século passado, os E/R instalados em viatura eram de HF pelo que os ruídos eletromagnéticos produzidos no motor, e noutras partes da viatura, afetavam muito os recetores, sendo difícil ouvir em presença desse ruído. No respeitante ao E/R ERM-212 posso afirmar que os três jovens sargentos (Silva, Vaz e Pena) causaram a melhor das impressões junto de técnicos e engenheiros da Teleco, não só cumprindo facilmente o programa estabelecido para operação e manutenção dos sistemas rádio e intercomunicação, como sugerindo ajustamentos técnicos na parte emissora do ERM-212. Para este post não se conseguiram fotografias do rádio, mas em breve essa falta vai ser resolvida através de diligências junto da EPC.

A terminar, com inspiração na fotografia da Ópera de Paris, saliento o aspeto mundano e a envolvente cultural vividos naquela estadia de 80 dias – outono de 1958 em Paris – havendo espetáculos de tudo em abundância e variedade, desde o futebol, França/Alemanha (25Out), ciclismo, seis dias de Paris (09Nov), ópera, com Maria Calas, (19Dez) aos espantosos mundos do cinema, teatro, museus e danças para todos os gostos e carteiras.

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2 comentários a “Paris, 1958

  1. Concordando plenamente com a oportunidade deste post do coronel António Pena, referida pelo maj gen Bento Soares, pretendo acentuar a sua qualidade, que era indispensável manter, neste Blogue, na sequência da excelente visita que a AM proporcionou à CHT.

    Em relação ao conteúdo lembro que a EBR Panhard foi utilizada no 25 de Abril e que os equipamentos rádio com que vinham equipadas eram fornecidos pela fábrica. Quem conhecia estes equipamentos era o pessoal de Transmissões de cavalaria e os sargentos radiomontadores.

    O coronel Pena relata uma interessante história da sua experiêncoia pessoal, há mais de 50 anos quando era sargento..

    Os sargentos sempre foram elementos essenciais no funcionamento das Transmissões. Muitos deles foram excelentes sargentos e depois mais tarde excelentes oficiais dos quadros técnicos de Exploração e Manutenção.

    Para além deste post “dar gosto ler” muito gostaria que constituisse também um exemplo mobilizador para muita gente que, como o autor, tanto tem para contar…

  2. Assim se faz historia. Oportuno registo de lembrança.
    Gostei imenso de ler.
    Um abraço de Parabéns
    J A Bento Soares

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