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A Primeira Delegação do Serviço de Telecomunicações Militares (STM) na GUINÉ


Post do General Garcia dos Santos, recebido por msg:

Terminei o Curso de Engenharia Militar em 1960 na Academia Militar. Como era norma, apresentei-me de seguida na Escola Prática de Engenharia, em Tancos, para frequentar o respectivo tirocínio. Ao tempo ainda não existia a Arma de Transmissões embora já existissem Unidades desta Arma e a nomeação para servir nestas Unidades fosse efectuada indiscriminadamente entre os Oficiais de Engenharia. Isto porque, durante a frequência do curso de Engenharia na Escola do Exército/Academia Militar, nos era ministrada uma Cadeira de Transmissões (teórica e prática) que nos habilitava minimamente para o desempenho das respectivas funções. Mais ainda, durante os anos que durasse a nossa permanência ao serviço na Arma de Engenharia tanto podíamos funcionar, quer como “sapadores”, quer como “transmissões, na Metrópole ou nas ex-Colónias, consoante as necessidades.

Foi assim que, em Agosto de 1961, em Tancos, recebi a informação que tinha sido mobilizado para Chefe da Delegação do STM, na Guiné, e que deveria embarcar de imediato. A minha surpresa, como seria inevitável, foi enorme, não só porque ainda não tinha terminado o tirocínio, como porque nem sequer fazia a mais pálida idéia do que era o STM. Resolvi por isso conversar com o então Major de Engenharia Gabriel Constante Júnior que tinha sido meu professor de Transmissões na Academia Militar, não só para lhe perguntar o que era o STM como também para que ele me informasse sobre o que deveria ler e estudar para me preparar para aquela minha primeira comissão. A pergunta que aquele Oficial me fez de imediato foi a de saber se eu tinha passado pelo então Batalhão de Telegrafistas (BT), Unidade onde funcionava a Direcção do STM. Disse-lhe que não e daí resultou que eu me tivesse ido apresentar naquela Unidade, onde nem sequer sabiam não só da minha existência como da minha mobilização.

No BT recebi das mãos do então Capitão Silva Ramos o projecto do que seria a Delegação do STM no Comando Territorial Independente (CTI) da Guiné e contactei detalhadamente com toda a aparelhagem que iria equipar essa Delegação. Acabei por embarcar para Bissau em Fevereiro de 1962.

Mas, entretanto, como em 18 de Dezembro de 1961 a União Indiana tinha invadido os territórios de Goa, Damão e Diu, recebi a missão de, antes de marchar para Bissau, ir instalar na Ilha do Sal, em Cabo Verde, todo o equipamento que permitisse (em 48 horas após a minha chegada àquela Ilha) estabelecer ligações permanentes com Lisboa. Acompanhado dos Segundos Sargentos Amador (radiomontador) e Lopes (radiotelegrafista), lá fomos e nos ligámos com Lisboa ao fim de, apenas, 24 horas. Este encurtamento para metade, do tempo que nos fora imposto, obrigou-nos a ter de informar o STM, em Lisboa, através da Aeronáutica Civil, que já estávamos “no ar”.

Depois de voltar a Lisboa, de regresso desta primeira missão em Cabo Verde, parti para Bissau definitivamente, como já atrás referi, em Fevereiro de 1962. Entretanto, todo o pessoal (cerca de 70 homens) e todo o equipamento já tinham chegado àquela Cidade. E eu, que cheguei alguns dias depois, vim a deparar com uma situação deveras singular: o pessoal tinha-se apresentado no QG/CTI da Guiné e estava a “viver” numa Companhia de Infantaria comandada pelo meu “velho” conhecido e instrutor de esgrima na Academia Militar Capitão Sardinha, e fazia todos os serviços da Companhia inerentes a esta situação: guardas, reforços, faxinas, etc., etc.. É claro que me insurgi vivamente contra estes factos e o Capitão  Sardinha “ameaçou-me” logo com uma “porrada”. A minha única reacção e resposta foi recordar-lhe que eu já não era seu instruendo e que era Capitão tal como ele. Ficou tudo resolvido e iniciámos de imediato a preparação das instalações e dos equipamentos para arrancar com a abertura e a entrada em funcionamento dos postos da rede do STM.

Em Bissau, a Delegação do STM ficou instalada junto do Quartel General do CTIG e, no respectivo edifício ficaram: a chefia da Delegação, o posto de rádio, o centro de mensagens, a central telefónica, as oficinas e uma pequena sala de convívio. Os outros postos de rádio foram instalados nos Comandos dos Batalhões que estavam aquartelados em Bula, Tite e Bafatá. Cada um deles dispunha de um Emissor/Receptor Kaar com antena dipolo e de uma guarnição de 5 radiotelegrafistas. Fazia serviço permanente em grafia e, se necessário, em fonia. Algum tempo depois instalámos, a cerca de 5 Km do QG, um centro-emissor com antena rômbica para as ligações com Lisboa e um emissor Marconi de 10 kw.

Pouco a pouco fomos montando a rede telefónica militar automática, por cabo enterrado, em Bissau, interligada por feixes hertzianos aos Comandos dos Batalhões.

Incluo algumas fotos como ilustração do que foi esta nossa vida.

O desembarque em Bissau

A instalação e a montagem dos equipamentos no Centro Emissor pelo pessoal radiomontador e…
O edificio pré-fabricado do Centro Emissor, em Antula, a cerca de 3 km do QG do CTI da Guiné.

O técnico inglês da MARCONI a proceder à sintonia dos equipamentos daquela marca no Centro Emissor e…
O Posto de Rádio da Delegação vendo-se, em primeiro plano, o E/R Kaar que equipava a rede de interligação do QG do CTIG aos Comandos dos Batalhões em Bula, Tite e Bafatá.

O edificio da Delegação do STM no QG do CTIG e…
A segurança do Centro Emissor em Antula

A montagem das torres de suporte da antena rômbica, no Centro Emissor, para a ligação à Metrópole,
A montagem do cabo telefónico de ligação ao Centro Emissor e…
A montagem das torres de suporte da antena rômbica no Centro Emissor (militares no alto, procedendo às ligações)

A montagem das torres de suporte da antena rômbica no Centro Emissor e…
A montagem das torres de suporte das antenas dos feixes de cabo hertziano para interligação telefónica do QG aos Comandos dos Batalhões

A montagem das torres de suporte da antena rômbica no Centro Emissor

A montagem das torres de suporte das antenas dos feixes de cabo hertziano para interligação telefónica do QG aos Comandos dos Batalhões e…
A montagem das torres de suporte da antena rômbica no Centro Emissor

O pessoal do Posto de Rádio e do Centro de Mensagens, em Bissau e…
O pessoal radiotelegrafista do Posto de Rádio, em Bissau

Uma confraternização, em Bissau

Para terminar lanço um apelo a todos os que serviram nesta Delegação do STM no CTI da Guiné e que se vão juntando todos os anos num almoço de convívio e de recordação daqueles tempos, como aconteceu no passado dia 26 de Maio em Beja, para que participem neste blog e lhe acrescentem tudo aquilo de que se recordarem dos dois anos que vivemos na Guiné, na Delegação do STM, e/ou, se fôr caso disso, nas transmissões militares ou mesmo na CHERET.

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16 comentários a “A Primeira Delegação do Serviço de Telecomunicações Militares (STM) na GUINÉ

  1. Júlio Domingues Faitão 1º Cabo Radiotelegrafista. Depois de prestar Serviço nos Batalhões das Regiões de Piche, Nova Lamego e (Geba)-Bafatá, regressei a Bissau onde prestei Serviço na Estação de Rádio Escuta da P.I.D.E. no Q.G. em Bissau no ano de 1970. Abraço

  2. Gostei do blog. Pertenci ao CCp do QG do CTI Guiné, entre 1962-1964. Embarquei em Lisboa juntamente com o pessoal do STM. O então Capitão Garcia dos Santos foi o expoente máximo nas transmissões da Guiné. Estive com ele e os camaradas da época por duas vezes em almoço de convívio. Ao General Garcia dos Santos, parabéns pelo excelente trabalho no STM e pela boa relação com os seus dependentes, conforme observado por mim e, também, contado por muitos deles.
    1º Cabo Operador Cripto 25/61 – Serafim Soares Ferreira

  3. boa tarde eu chamo-me Ramalho e gostava de voltar a encontrar o pessoal que esteve comigo nos anos 1969/1971 em Tite e no quartel general rede sul. um abraço a tdos os companheiros incluindo as outras redes.

  4. Não estou nestas fotografias. Estive na Guiné nos anos de 1970 a 1972, mas queria deixar aqui registada a minha experiência como 1º Sargento Radiomontador durante esse periodo.
    Sempre trabalhei com o material de Transmissões de Campanha, nomeadamente na Escola Militar de Electromecânica e no BCaç 460 em Nambuangongo (Angola) em 1963, até ao dia em que fui mobilizado para o STM na Guiné. Não tive qualquer formação antes do embarque, tive que me desenrascar.
    Durante a comissão estive um ano na manutenção do Centro Emissor (Antula) e Centro Receptor no AgrTm.
    Recordo os Emissores Marconi de 3,5Kw e de 1Kw e ainda o TMS inglês de 1Kw e os Racais de 500W.
    No meu segundo ano fui desviado para os feixes hertezianos, recordo os ATE900 e 800, o Marelli e os novos monocanais franceses CSF911 que instalei em Bissau, Teixeira Pinto (Canchungo) Mansoa, Bafatá, Nova Lamego (Quebo), Piche e no centro de instrução do Cumuré.
    Foram dois anos de muito trabalho mas cumpri a missão com sucesso.
    No periodo de 1995 a 2001 voltei à Guiné-Bissau como director técnico do Projecto de Transmissões e voltei a estar nestas localidades e outras mais, já que o projecto cobria todo território.
    Num futuro próximo deixarei o registo deste trabalho fantástico em conjunto com os meus colaboradores.
    Nunca trabalhei com o General Garcia dos Santos mas reconheço o seu “amor” às nossas Transmissões.
    Aqui deixo as minhas saudações a um homem do 25 Abril.

  5. Fui o Chefe das oficinas de Transmissões de Campanha do CTmG do CTIG em Bissau, (1966/67) colaborei, sempre que necessário com o STM, onde julgo que deixei amigos. O nosso General,então Capitão, era já recordado com muita saudade, devido á sua elevada competencia e excelente relacionamento com toda a gente!

    Abraços para todos.
    Sarg-Ajd. António Caldeira

  6. Até que enfim.
    depois de tantos anos, meu filho encotra este Blog, nunca imaginei tornar a ver meus colegas da Guiné.
    Imigrei para a Alemanha em 1968 e nunca tive a possiblidade de participar aos encontros.
    Gostaria de me ajuntar ao convívio de recordaçao 2013.

    Feliz ano Novo para todos

    Joaquim Dias Pereira Dos Santos —–apelido: “Armado”
    Figurado na Foto Gs63 do lado direito.

  7. Joaquim Dias Pereira Dos Santos (apelido: Armado), figurado na foto GS6 3 do lado direito.
    Fiquei muito feliz depois de tantos anos ver e reconhecer meus colegas..
    Nunca tive a oportunidade de assistir aos encontros.

    Para entrar em contacto usem por favor o adress quim.santos@online.de

    Feliz Natal e prospero ano novo a todos os Colégas.

  8. Bom dia a todos.
    Faltam dados que, julgo eu, seriam importantes! Tais como Nomes dos Militares envolvidos na Instalação do Equipamento de Transmissões, tal como datas e locais das Fotografias!

    • Meu caro Faitão
      Todas estas fotos foram tiradas por mim em 1962/1963/1964. Como é natural conheço todos os que nelas figuram mas não me recordo da maioria dos seus nomes (a idade não perdoa!!!). Fazemos todos os anos um almoço de “recordação”. Este ano isso aconteceu em Beja e eu pedi aos que estiveram no almoço que viessem ao blog, o que ainda não aconteceu. Vou-me “esforçar” por que isso aconteça.
      Garcia dos Santos

  9. Verifico com surpresa (e tristeza…..) que, até hoje e apesar de eu o ter pedido ao pessoal que esteve comigo no STM na Guiné e que confraternizou no nosso habitual almoço anual há cerca de um mês, verifico, dizia eu, que NINGUEM entrou neste blog!!! Vou “chateá-los” !!
    Garcia dos Santos

  10. Aqui deixo uma msg como mera curiosidade, fiz a minha comissão em Moçambique no STM, mas a curiosidade é que estive na Guiné-Bissau em 1991 e 1992 em desempenho ligado á minha profissão e para espanto meu frente ás instalações da empresa onde estive havia um depósito de água – estou a falar de Santa Luzia – com o emblema das Transmissões e a inscrição STM isto cerca de 15 anos após a nossa saida.

  11. O Senhor Gen. Garcia dos Santos deixa-nos, para além do texto, um importante conjunto de documentos fotográficos. A sua cuidada sequência é, por si só, uma história bem contada.

  12. Este primeiro post do General Garcia dos Santos é importante para este Blogue, pelo seu efeito mobilizador, que o próprio autor utiliza em relação ao pessoal da Primeira Delegação do STM da Guiné.

    Em relação ao tema gostaria de recordar que a primeira Delegação do STM na Guiné foi constituida, em 1961 antes do início das hostilidades no território, como já acontecera em Angola e viria a acontecer em Moçambique, É de acentuar que o STM foi dos poucos serviços do Exército que não foi surpreendido, tendo o seu dispositivo montado antes do início da guerra em cada um dos teatros.

    Pessoalmente tambèm faço votos para que para além dos depoimentos do pessoal da Delegação da Guiné apareçam também os da Delegação de Angola e Moçambique,

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