Guiné-Bissau 1968/1969/1970/1972


Post do Cor António Pena, recebido por msg:

No prólogo do livro “AS TRANSMISSÕES MILITARES – DA GUERRA PENINSULAR AO 25 DE ABRIL”, editado pela Comissão Portuguesa de História Militar em 2008, diz-se: “A preservação da memória é um dever cívico. Exercido no respeito pelos outros e por nós próprios”. Nesta conformidade volto à Guiné-Bissau para dar a conhecer o resultado da interligação de três percursos técnicos exercidos no âmbito nas Transmissões de Campanha, vividos durante o período da ação de comando do comandante-chefe, tenente-general, oriundo da Arma de Cavalaria, António de Spínola.

A dinâmica da guerra de guerrilha praticada pelo PAIGC e as novas ideias de gestão dos conflitos militar, social e cultural, obrigaram o general Spínola, comandante-chefe a partir de 1968, a dedicar particular atenção às Transmissões de Campanha da província. A prioridade concretizou-se ainda naquele ano quando, em vinda a Lisboa, exigiu ao Chefe do Estado-Maior do Exército que o diretor da Arma de Transmissões (na altura já germinava a nova Arma que foi efetivamente criada em janeiro de 1971) fizesse de imediato uma visita de inspeção ao Comando Territorial Independente da Guiné (CTIG) o que se concretizou em dezembro.

Havendo boa impressão do funcionamento das Transmissões Permanentes, o diretor da Arma foi aconselhado a fazer-se acompanhar por um oficial técnico de manutenção com experiência na operação (exploração) e manutenção do material de campanha em outros teatros de operações. A escolha recaiu num tenente do ramo elétrico, radioelétrico e eletrónico, do Serviço de Material que prestava serviço na EMElm (Paço de Arcos) e tinha regressado em agosto de Angola, onde foi comandante do PelMan da CRMMTm/BTm361 de 1966 a 1968.

Na sequência da proposta do relatório da visita que mencionava; “(,,,) uma equipa, com a colaboração de elementos do Cmd das Tm do CTIG devia percorrer todas as unidades, verificando  o estado dos equipamentos e das instalações de Tm, realizando ou preconizando trabalhos de reparação e beneficiação das mesmas e demais medidas atinentes a um cabal funcionamento das mesmas e, bem assim, verificar, orientar e preconizar as medidas necessárias para que a operação dos equipamentos e a exploração dos sistemas se processe de acordo com os Regulamentos e NEPs existentes.”; uma equipa composta pelo tenente António Pena, que tinha acompanhado o diretor da Arma na visita de inspeção, e pelos 2ºSarg radiotelegrafista Veloso Júnior e 2ºSarg radiomontador Simão Antunes, deslocou-se ao CTIG tendo permanecido de 09 de abril a 23 de maio de 1969.

O trabalho realizado em todas as localidades (unidades) visitadas constou de instrução ao pessoal de Tm disponível corrigindo pontos fracos observados na passagem prévia pelos locais afetos às Tm, gravação de uma exploração radiotelefónica na respetiva estação para se estudarem eventuais erros e, na hora, se indicar a correção. No âmbito da transmissão em grafia surgiu surpresa com a reduzida utilização do pessoal radiotelegrafista, embora se verificasse seu elevado desejo em trabalhar em grafia e se confirmasse que estavam bem habilitados. A experiência de Angola permitiu compreender a razão pela qual os Oficiais de Transmissões das unidades não impunham a grafia nas suas redes ao chegar ao CTIG mesmo tendo-se verificado que os radiotelegrafistas no início da comissão estavam aptos a fazer serviço radiotelegráfico. No âmbito da grafia e procedimento radiotelegráfico o trabalho do 2ºSarg Veloso Júnior foi de excelência tendo havido profunda alteração em relação ao que se praticava. Nas primeiras três localidades visitadas, Bula, Teixeira Pinto e Tite, deixou-se um vibrador na estação de rádio do STM com o fim do chefe da central (sargento radiotelegrafista) dar instrução a todo o pessoal dos batalhões. Um dos batalhões visitados já fazia o serviço em grafia com todas as estações, empregando até, pelo menos numa companhia, a grafia nas ligações operacionais. A equipa assistiu à rendição de um batalhão que iniciou imediatamente o serviço em grafia tendo-se confirmado, ao longo da permanência no CTIG, que mantinha a exploração radiotelegráfica em seis estações.

Outro âmbito relevante de atuação da equipa refere-se ao material onde se provocou, de imediato, melhoria na operação dos equipamentos de rádio e na instalação de antenas. Neste comentário de pouco espaço apenas se refere o principal sendo de lembrar os equipamentos utilizados na altura: AN/GRC-9; DHS-1; CHP-1; AN/PRC-10; THC-736 e AVP-1 (THC-766).

Em relação ao material de HF, o problema estava na dificuldade em operar o DHS-1, de um modo geral ajustavam o amplificador de potência sem obter previamente o máximo rendimento do amplificador de baixa potência através dos comandos da unidade de sintonia de antena e do trimer de RF. A passagem da equipa provocou melhoria nítida na ligação à Base Aérea (apoio aéreo em HF) com os equipamentos DHS-1 e CHP-1, não só devido a correta operação do material como ajuste de antenas.

No respeitante às ligações em VHF (FM), em especial ar/terra, as falhas foram remediadas a partir da verificação de quase todos os operadores, na ligação com as aeronaves, se preocuparem em ouvir forte não pensando se o avião ouvia bem ou mal. Em todos os locais visitados se demonstrou que o AN/PRC-10, por ser de sintonia variável, precisava de, após ouvir a estação que pedia o contacto, reduzir o volume e sintonizar novamente (agora com todo o cuidado) procedimento que passou a ser seguido obtendo-se ligações bom e claro com as aeronaves. Para além da ligação ar/terra, o VHF (FM) utilizava-se em operações e, sempre que as distâncias o permitiam, nas ligações entre locais que faziam parte do dinâmico dispositivo que servia “um conceito operacional de extrema flexibilidade”. Neste aspeto da ligação ponto a ponto a melhoria consistiu em utilizar corretamente as antenas RC-292, havendo necessidade de ajustar para a frequência de trabalho (gama do AN/PRC-10) em quase todas as antenas instaladas.

Como se disse no início, volto à Guiné-Bissau para dar a conhecer o resultado da interligação de três percursos exercidos nas Transmissões de Campanha, vividos durante a ação de comando do general (tenente-general) António Spínola. Após os dois referidos; uns dias em dezembro de 1968 como ajudante de campo do brigadeiro (major-general) diretor da Arma; 09 de abril a 23 de maio de 1969, chefiando uma pequena equipa; surge, como terceira mobilização para o ultramar, a comissão de serviço na Guiné cumprida de 15 de maio de 1970 a 17 de junho de 1972, como comandante do PelReabManMatTm, unidade independente que passou a companhia em março de 1972, nos postos de tenente do SM e capitão TecnManTm.

Interligação exploração/manutenção:

O material exigia constantes cuidados, mas o mais importante ficou a dever-se ao esforço prioritário na exploração, evitando desculpas sobre deficiências do material, sendo a interligação exploração/manutenção assumida pelo comandante do órgão de “reabastecimento e manutenção” da maior importância, juntamente com a preparação e difusão, nos primeiros meses da comissão, de pormenorizada e pedagógica NEP, sobre o Sistema das Transmissões de Campanha do CTIG.

O reabastecimento e manutenção do material de Transmissões de Campanha e a exploração correta dos equipamentos eram indispensáveis ao funcionamento das Transmissões, meio indispensável ao desenrolar da atividade operacional e ao bem-estar das tropas combatentes. A preocupação em manter o sistema do CTIG em perfeito funcionamento era generalizada aos oficiais, sargentos e praças do pelotão/companhia, havendo dinâmica e inovação na aprendizagem e nas práticas laborais, esforço permanente e motivação para tudo se fazer bem e a tempo.

Ligação ar/terra (ajuste do desvio no AN/ARC-44):

Em termos especiais, ainda destacamos, o impulso dado ao procedimento radiotelegráfico e a preocupação com a ligação ar/terra.

Para se usar a grafia na ligação terra/terra (estações fixas em HF) podendo neste tipo de comunicação usar o AN/GRC-9 em baixa potência e melhorar a ligação uma vez que em fonia, devido ao forte ruído atmosférico existente naquela zona, as comunicações durante a noite eram muito difíceis. Para além dos radiotelegrafistas das unidades utilizadoras se empenharem na sua especialidade realizava-se salutar colaboração técnica com as centrais do STM existentes nas localidades principais assumindo os seus chefes a instrução de morse não só dos radiotelegrafistas como dos oficiais e sargentos de Transmissões das Armas tendo como objetivo a sua motivação para a divulgação do uso da grafia nas redes de companhia.

No respeitante à ligação ar/terra, o esforço de esclarecimento junto dos operadores e utilizadores dos E/R do Exército, AN/PRC-10, THC-736 e AVP-1 (THC-766) continuava em permanência, mas ainda havia queixas dos pilotos quando sobrevoavam certas localidades. As ligações através do AVP-1 eram em geral piores comparadas com AN/PRC-10 e THC-736 o que nos alertou para a hipótese de se poder melhorar atuando no E/R das aeronaves que era o AN/ARC-44 (Ver aqui o Manual).

AN/ARC-44 (aqui a Un de Cmd em cima do rádio)

Atendendo ao excelente relacionamento com os oficiais e sargentos técnicos de rádio da Força Aérea, éramos todos formados na EMElm (Paço de Arcos) foi fácil estudar o ARC-44 [280 canais separados de 100 KHz; banda de frequência 24,00 a 51,90 MHz; desvio de frequência 20 KHz (nominal) e 35 KHz (máximo)] desvio nominal aproximado do AN/PRC-10 e THC-736, mas muito superior aos 10 KHz do AVP-1. Com surpresa verificou-se que facilmente se podia ajustar o desvio para o mínimo o que se fez nos equipamentos instalados nas aeronaves tendo havido nítida melhoria nas ligações ar/terra.

Na comissão, e duas visitas anteriores, muito de inovador se realizou nas Transmissões de Campanha do CTIG, mas se o trabalho se realizou com sucesso isso se deve à conjugação de esforços de muitos, podendo destacar-se, naquela época de forte empenhamento operacional, quase todos os militares com quem tivemos a honra de trabalhar, aqui ficando a promessa de se continuar a estudar aquele invulgar laboratório sobre o emprego das Transmissões de Campanha na Guerra do Ultramar.

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Um comentário a “Guiné-Bissau 1968/1969/1970/1972

  1. Este trabalho do coronel António Pena, dedicado às Transmissões na Guiné, é um testemunho importante, com a qualidade a que nos habituou e que apresenta vários aspetos, que, até ao presente, não foram abordados pela CHT, entre os quais destaco:
    – a utilização de equipas técnicas de fiscalização (com elementos dos quadros técnicos de exploração e manutenção) para valorização da Exploração, manutenção dos equipamentos e sistemas de antenas:
    – incremento da utilização da grafia em HF, aproveitando a qualidade dos radiotelegrafistas existentes
    -utilização do CHP-1 e DHS-1 com sucesso na ligação à Base Aérea, pois a indicação que tinha era que na Guiné estes rádios tinham sido um fracasso total;
    -A adaptação do AN/GRC-44 pela Força ASérea no sentido de facilitar a ligação terra-ar.

    Penso que trabalhos como este contribuem para valorizar o Blogue , e um exemplo a seguir .

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