As Transmissões Permanentes do Exército (1901 a 1951)


Post do MGen Pedroso Lima, recebido por msg:

A Arma de Engenharia, a 9 de Janeiro de 1901, viu satisfeita a aspiração, que tinha há  mais de duas décadas, de assumir o controlo das Transmissões Permanentes do Exército que, como vimos, dependia do Ministério da Guerra e era exercido por oficiais de outras Armas.

Esta data foi considerada marcante pela Engenharia que, a partir  do tricentenário da desta Arma em 1947), a distinguiu atribuindo-a  ao dia do Batalhão de Telegrafistas, o que se manteve até 1977

O novo Inspetor do Serviço Telegráfico Militar, coronel Gouveia Prego, impulsionou o esforço que a Engenharia caprichou em fazer nas Transmissões Permanentes, conseguindo, nos princípios do século XX uma melhoria do sistema herdado de Bon de Sousa, por forma a “manter as comunicações telegráficas e telefónicas com tal primor que e nunca mais foi igualado”[1] segundo um dos seus subordinados afirmou, anos mais tarde,

No ano de 1901 viriam a dar-se dois acontecimentos marcantes:

  •  a Engenharia ter promovido as primeiras experiências de TSF em Portugal, através do capitão de Engenharia Severo da Cunha, comandante da Companhia de Telegrafistas do Regimento de Engenharia e pelo tenente Sá Carneiro[2]
  • a criação da Companhia de Telegrafistas de Praça (CTP), que ficou sedeada na Penha de França, no quartel da Inspeção do Serviço Telegráfico.

Introduziu-se assim a TSF como novo meio de transmissões no Exército (e no país) e o pessoal das Transmissões Permanentes, antes disperso passou a estar reunido na Companhia de Telegrafistas de Praça, o que lhe deu, naturalmente, maior operacionalidade.

A partir de 1904 passaram a funcionar redes telefónicas militares nas principais cidades do país.

Só em 1909 foi adquirido material rádio, da marca Telefunken, que foi utilizado, a partir de 1912, para guarnecer estações em Paço de Arcos e Trafaria. Destinavam-se ao estabelecimento de comunicações entre as duas margens do Tejo, em proveito do Campo Entrincheirado de Lisboa. Nunca fizeram trabalho útil.[3]

pela reorganização de 1911 foi criado o Batalhão de Telegrafistas de Campanha que, além de uma companhia de Telegrafistas  dispunha da primeira Companhia de TSF criada em Portugal.

Em 1915 adquiriram-se 11 estações Marconi (5 a dorso, 3 hipomóveis e 3 automóveis, algumas das quais foram mobilizadas para Angola e Moçambique.

A participação de Portugal na Primeira Guerra Mundial teve efeitos nas Transmissões Permanentes que se traduziram na qualidade do serviço telegráfico:

  • No Continente, o serviço nas redes permanentes militares foi fortemente afetado pela carência de pessoal, resultante da mobilização para a guerra do pessoal da Companhia de Telegrafistas de Praça (juntamente com o do Batalhão de Telegrafistas de Campanha).
  • Na Guerra, principalmente na frente europeia, o pessoal da CTP distribuído para reforço dos centros de Transmissões dos Grupos e Batalhões, demonstrou a sua excelente preparação profissional, contribuindo para o brilhante comportamento do Serviço Telegráfico no CEP, destacado pelo general Comandante do CEP que, no louvor que lhe concedeu o considera como “o serviço que melhor funcionou”. (O que de facto é notável e invulgar se nos lembrarmos que havia 17 serviços no CEP. a maioria encabeçados por oficiais superiores, enquanto que o “nosso ” era chefiado por um capitão relativamente moderno)

Em 1919, logo a seguir à primeira guerra mundial verificou-se, no país uma acentuada agitação social, que levou à mobilização pelo governo da  Companhia de TSF. “Com o pessoal e material disponível – que agora era mais avultado visto ter recolhido o que estava em França e algum do de África – estabeleceram-se um pouco secretamente postos de rádio em diferentes localidades do país, que assegurando as comunicações do governo, fizeram abortar as referidas greves. Estes postos, que a princípio foram em parte provisórios, começaram a ter carater permanente”[4]

Esta rede pode ser considerada o embrião da rede radiotelegráfica fixa do Exército e foi sucessivamente aumentada, para o que contribuiu o facto de, a partir de 1924, ter sido aberta ao publico, permitindo estabelecer gratificações para os operadores e obter verbas para o desenvolvimento da rede,

No 28 de Maio de 1926 sabemos que, segundo Afonso do Paço, “os postos de TSF desempenharam um papel importante a favor dos revoltosos.“,[5] o mesmo sucedendo  como no Porto, na revolta de 3 de Fevereiro de 1927, desta vez a favor das forças governamentais. A rede igualmente prestou serviço público e de apoio em situação de catástrofe (como o ciclone de 1941) ou alterações de ordem pública.

“Quando eclodiu o movimento militar , a antiga estação de faísca PFL (Marconi americana) estava desmontada para montagem da nova SIF… Para restabelecer a ligação de Lisboa com o resto do país, por motivo da revolução teve que lançar-se mão de uma velha estação Telefunken… E assim uma decrépita esta acoionada com Bobina de Rumkorf  fez o seu derradeiro serviço…[6]

Em 1928 foi criada em Coimbra uma oficina do Batalhão de Telegrafistas, dirigida pelo major de Engenharia Virgílio Quaresma, destinada à construção e reparação de equipamentos rádio e das torres metálicas para as antenas das estações. A oficina permitiu viabilizar a expansão da rede, construindo os equipamentos, a um custo muito inferior ao dos equipamentos importados, e teve um papel fundamental na transformação da tecnologia de faisca na de onda contínua, como as convenções internacionais exigiam.

Em 1938[7]  a rede tinha 31 postos dos quais  14 foram construídos naquelas oficinas.

Dentro do período que estamos a tratar, que  termina em 1951, verificaram-se a Guerra Civil de Espanha (1936-1939) e a II  Guerra Mundial (1939-1915) nas quais Portugal não participou como beligerante.

No que respeita à Guerra Civil de Espanha apenas recolhemos, no que respeita às Transmissões  que “ em 1936 foi construído na Ajuda um posto para empastelamento das redes rádio da guerra civil de Espanha,”[8]

Em relação á II Guerra Mundial, em que Portugal não participou como beligerante, há que referir o reforço com tropas a Madeira, os Açores (onde foi estabelecia a base das Lajes) e Cabo Verde. Nestas forças foram integradas unidades de Transmissões que realizaram os seguintes trabalhos:

  • Na Madeira, em 1943 foi estabelecida a ligação entre o Funchal e Lisboa.
  • Para os Açores foi mobilizada uma Companhia que montou redes telefónicas militares nas ilhas de S.Miguel, Terceira e Faial e a ligação rádio com Lisboa. Após o Acordo das Lajes com os EUA as transmissões militares portuguesas tiveram um papel importante no controlo do silêncio rádio e escuta de postos pirata.[9]
  • Em Cabo Verde foram estabelecidas estações rádio nas ilhas de S. Vicente e S. Antão (2 em cada) e a ligação com Lisboa.[10] Nas instalações da Ajuda foram fabricados os postos de 0.5 Watt usados na ligação entre ilhas.[11]

Em 1943 as Transmissões participaram no sistema de Defesa anti-aérea da cidade de Lisboa, na ligação dos Grupos de Artilharia Ligeira e Pesada, Baterias de Referenciação e Postos de Vigilância. Utilizado inicialmente material de TSF de campanha, bem como traçados telefónicos com cabo de campanha que foram depois substituídos por traçados permanentes. Este serviço não dependia do Serviço Telegráfico Militar, embora se possa considerar um serviço de guarnição que estava a cargo de 3 oficiais de Engenharia (transmissões):[12]

O sistema de transmissões Permanentes do início do período, caraterizado pela aplicação do princípio da sobreposição de meios (telegrafia elétrica, meios óticos e pombos-correios) que acompanhava o sistema de transmissões de campanha, herdado de Bom de Sousa, foi usado até à primeira guerra mundial.

Na primeira guerra mundial, o sistema utilizado foi o inglês. começou e com o telégrafo elétrico como o meio dominante mas ao longo da própria guerra o telefone passou a ser o meio de maior utilização, Os meios óticos e pombos correios acabaram por ter um papel relativamente secundário e o rádio estava, durante a guerra, no seu começo.

A evolução das Transmissões Permanentes durante o Período pode ser caraterizada, de uma forma genérica pelo seguinte:

  • Declínio progressivo dos meios óticos e pombos correios que desaparecem praticamente no fim do período
  • Declínio da utilização partilhada de linhas telegráficas civis
  • Progressão das redes telefónicas militares (filares) nas cidades:
  • Expansão da rede radiotelegráfica Militar, com finalidade de garantir a segurança interna do país em caso de alteração da ordem pública ou catástrofe.

De assinalar que a melhoria da rede radiotelegráfica era considerada pelo governo como um elemento importante da segurança nacional, o que conduzia a que as Transmissões estivessem muito melhor preparadas para ações de segurança interna do que para enfrentar situações de campanha, como aliás acontecia com o Exército, sem qualquer capacidade operacional em termos modernos.

No entanto seria dessa preocupação governamental de melhoria da da rede radiotelegráfica que surgiu o STM que trataremos no período seguinte.

Antes de terminar queria salientar ainda dois pontos relevantes neste período:

  • O primeiro corresponde à produção de obras importantes  relativas a Transmissões; das quais se destacam o livro do tenente Afonso do Paço, “As Comunicações Militares de Relação em Portugal”, publicado em 1938[13], outra do mesmo ano, do tenente Câmara Pina e que foi a sua tese do Curso de Estado Maior: “A TSF e as Transmissões” e finalmente o livro do capitão Brito Aranha  de 1935 “ Instruções Técnicas do Pessoal de Telegrafistas”.

O primeiro é um livro de referência da história das Transmissões Permanentes, o segundo um importante contributo para  a evolução da TSF no Exército e o terceiro um notável trabalho no campo da Instrução de praças.

De notar que  estes trabalhos excecionais foram executados por tenentes e um capitão, o que a juntar aos do capitão Severo da Cunha, Tenente Sá Carneiro e capitão Soares Branco mostram que a pujança  da juventude nas Transmissões teve uma expressão neste Período como talvez nunca tenha sucedido até hoje…

O segundo é para afirmar que a eficiência e a importância das transmissões nesta altura estava dependente da capacidade dos seus radiotelegrafistas. A perícia na utilização do código Morse continuava a ser um fator fundamental que só começaria a perder peso no período seguinte. Mas em 1951 os radiotelegrafistas ainda eram o pilar das Transmissões.


[1] CHT; As Transmissões Militares da Guera Peninsular ao 25 de Abil. Lisboa, 2008, pág.48

[2] Ver post do coronel Canavilhas “Ainda a 1ª experiência de TSF em Portugal” .

[3] RODRIGUES, Maj do QAEng JOSÈ. Origens do Sreciço de Telecomunicações Militares. Lisboa, BT, 1982 pág. 21

[4] PAÇO,  Tenente AFONSO do, As Comunicações Militares dee Realação em Portugal, Lisboa, 1938 pág. 143

[5] PAÇO, AFONSO, Obra citada,, pág. 163.

[6] RODRIGUES, Maj do QAEng JOSÈ, obra citada, pág. 30.

[7] CHT, Obra citada.  quadro da pág. 177.

[8] MOREIRA; Cor. BASTOS; Notas sobre as Transmissões Militares em Por5tugal, 1º Volume,  RTm. Lisboa, 1980,  pág, 64.

[9] Idem,

[10] MOREIRA, Cor BASTOS, “º Vol 2,  pág.73 a 76 (adaptdo)

[11] Idem, Vol 1 pág. 66

[12] Idem , Idem

[13] O major do QA de Eng José Rodrigues na obra citada afirma que se trata de valiosa publicação que todos os telegrafistas deviam ler…

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