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As primeiras experiências de TSF móvel


Depois de em 1901 terem sido efetuadas com aparelhos emissores e receptores Ducretet-Popov as primeiras experiências de TSF em Portugal, primeiro no quartel dos 4 caminhos (hoje RTm) e nas suas redondezas, e depois entre as duas margens do Tejo (Forte do Alto do Duque e  Bateria da Raposeira), já referidas aqui neste blog, foi decidido adquirir equipamentos de telegrafia sem fios para dotar não só duas estações fixas (F.T.), como também dois conjuntos móveis (M.T.), destinados às Tm de campanha, o que viria a acontecer também pela primeira vez no nosso País, e ainda uma pequena estação ligeira, transportável a dorso (L.M.T.).

Assim, em 24ABR1909, a Inspecção dos Telegraphos Militares celebrou um contrato com a sociedade A.E.G. Thomson Houston Iberica, para o fornecimento de equipamentos da marca Telefunken, que foram recebidos em finais desse ano. Além da Alemanha (desde 1903) e de Portugal, possuíram estes equipamentos os EUA, Austria, Russia, Suécia, Bélgica, Espanha e Inglaterra.

Os testes de recepção e conformidade das estações fixas e dos dois conjuntos de campanha tiveram lugar entre 15DEZ1909 e 7FEV1910. No relatório final dos testes do material de campanha, assinado pelo responsável, Cap Engº Henrique Jacinto Ferreira de Carvalho, constam a descrição do material, princípios de funcionamento, diversos esquemas, perfis de terreno, fotografias, atividades desenvolvidas no período e um curioso mapa da época (Mappa Excursionista de Portugal, 1907, da Sociedade Propaganda de Portugal).

As estações fixas, que tinham alcances da ordem dos 30 Km para recepção gráfica e dos 60 Km para recepção telefónica (áudio), foram instaladas em Paço d’ Arcos (Serviço de torpedos fixos, hoje Direção de faróis, ao tempo dependente da Engenharia) e de novo na Trafaria (Bateria Infante D. Manuel, rebatizada de 1ª Bateria da Raposeira com a República).  O Capitão de Engenharia Pompeu de Meireles Garrido foi o comandante da companhia de TSF que teve a seu cargo a montagem e o serviço destas duas primeiras estações fixas.

Para os testes das estações móveis FK3 (designação de origem), que eram constituídas, cada uma, por três carros de varais e duas rodas puxados por muares (carros Estação, de Energia e de Utensílios), foram constituídas duas secções, chefiadas pelos tenentes Pompeu de Meirelles Garrido e Fernando Ennes Ulrich e formadas cada uma por 1 oficial, 2 segundos- sargentos, 9 cabos e soldados de Tm, 7 cabos e soldados condutores, 3 viaturas, 1 cavalo e 6 muares. Os alcances eram da ordem dos 100 Km em terra e dos 200 Km sobre o mar, o que se pretendia testar.

Carro Estação – vista anterior

Carro Estação – vista posterior

Carro Estação – vista posterior (pormenor)

Carro Estação – Dividido em duas partes, a anterior transporta os aparelhos de transmissão (com exceção do manipulador Morse, que estava alojado na parte posterior), enquanto a posterior transporta os de recepção, montados numa base amovível assente no leito do carro por meio de molas, e incluindo um comutador que impedia a transmissão e recepção em simultâneo. Do completo do carro, em cujo tejadilho existiam 2 peças isoladas para a ligação da antena e do contrapeso elétrico (plano de terra), faziam ainda parte, entre outros, 2 telefones, um estojo com 3 papagaios sistema ‘Eddy’ e 2 carreteis com cabo de aço de 200 m para a antena.

Carro de Energia – vista anterior

Carro de Energia – vista posterior

Carro de Energia – vista lateral

Carro de Energia – Na parte posterior transporta o grupo electrogéneo, constituído por um motor a gasolina ‘Scheibler’ de 4 cv, e um alternador e um dínamo da ‘Siemens-Schuckert’, sendo a proteção contra tensões elevadas dada por um condensador formado por 2 grupos de 3 garrafas de Leyde. O carburador era do tipo ‘Longuemare’, a vela ‘Simms-Bosch’ e o arrefecimento a água e ventoinha. Na parte anterior situava-se um quadro de distribuição, fusíveis, tomadas de corrente, lâmpadas indicadoras, etc. Faziam ainda parte do completo, entre outros, uma caixa de ferramentas, sobressalentes e 2 carreteis com 200 m de cabo de aço cada, destinados a constituir a antena quando se empregava para tal um papagaio.

Carro de Utensílios

Carro de Utensílios – Além de 16 tubos de aço de 2 m (12 para o mastro e 4 de reserva), transporta 2 martelos, espias de aço e estacas de ferro e de madeira, uma base de antena em madeira com isoladores de porcelana e cordão alcatroado, 10 tubos de Branly, 2 caixas com 3 reveladores eletrolíticos cada, um estojo de ferramentas, um taquímetro, uma lanterna de acetileno, contactos de platina para o aparelho Morse, rolos de fita Morse, um telefone, uma caixa com garrafas de Leyde, baldes de lona, depósitos, medidas, componentes e aparelhagem de teste diversa.

Em 14 e 20 de Dezembro chegaram a Portugal um engº e um montador alemães da firma fabricante. Entre 15 e 19 foram efetuadas visitas com o engº aos locais fixos, carregados os carros de Utensílios e dada a primeira instrução para arvorar o mastro. Logo no dia da chegada, o montador deu inicio à montagem dos carros Estação e testou os de Energia. Encaixotado o material fixo, em 24 começou a montagem em Paço d’Arcos (que durou até 4JAN, quando tiveram inicio os respetivos testes), enquanto as 2 secções treinavam a instalação dos mastros e recebiam instrução sobre as Estações móveis. Seguiu-se a montagem da Trafaria, terminada a 12JAN, logo seguida de ensaios.

Com recurso ao “Mappa” que acompanha o relatório, podem seguir-se as 7 experiências que então tiveram lugar em diversos pontos do País com as estações móveis de telegrafia sem fios. De notar, a curiosidade de sobre os traçados das ligações terem sido inscritos os perfis do terreno (que também constam de vegetais mais pormenorizados constantes do relatório final). Mas também o esforço que implicou para todo o pessoal, obrigado a cumprir enormes distâncias em curtos períodos, por estradas que dificilmente o eram nesse tempo.

18 Jan 1910 – 1ª ligação – Cabeço do Cartaxo (Cheleiros, Mafra) / Seival (Tancos); as duas estações foram colocadas a uma distância de 101 Km, para verificação do alcance em terra.

20 Jan – 2ª ligação – Charneca dos Marrazes (Monte Real, Leiria) / Golegã

21 Jan – 3ª ligação – Charneca dos Marrazes (Monte Real, Leiria) / Seival (Tancos)

23 Jan – 4ª ligação – Campo aberto a 8 Km a N de Viseu / Boga (Covilhã leste)

29 Jan – 5ª ligação – Campo aberto entre Morlema e Adafacão (Pero-Pinheiro, Sintra) / Quinta da Cevedeira (Setubal sul)

31 Jan – 6ª ligação – Campo aberto a 500 m ao S de Ramada (Frielas, Odivelas) / Alto da Misericórdia (Vendas Novas SO)

2 Fev – 7ª ligação – Campo aberto junto a Oitavos (Guia, Cascais) / Torre d’Aspa (Vila do Bispo), a mais alta falésia do Algarve; as duas estações foram colocadas a uma distância de cerca de 185 Km, para verificação do alcance sobre o mar.

À exceção da 4ª experiência, onde a Covilhã recebeu de Viseu, mas esta não recebeu daquela, em virtude da localização desfavorável da estação da Covilhã, em todas se obtiveram boas comunicações por meio do telefone; nas 5ª, 6ª e 7ª, também se recebeu pelo aparelho de Morse; no final da 7ª fizeram-se experiências com o papagaio, mais para instrução de lançamento que para comunicação, tendo-se contudo trocado alguns sinais.

Como curiosidade, refere-se que a entrada em estação era uma operação morosa, que durava mais de 45 minutos com pessoal treinado. Só para arvorar o mastro, eram necessários 9 homens e procedia-se da seguinte forma: depois de ligados 4 tubos e de se adaptarem a um topo cada uma das extremidades dos fios de antena, arvora-se a parte do mastro assim constituída, que passa a ser amparada por 2 homens que, de pé sobre os tejadilhos dos carros de Estação e de Energia (dispostos com as traseiras em frente uma da outra e com um pequeno afastamento) a elevam depois o necessário para que um outro homem lhe possa adaptar pela parte inferior um outro tubo, posto o que os 2 homens elevam de novo o mastro, e assim sucessivamente até aos 12 tubos, sendo a elevação guiada por 6 espias, seguras por outros tantos homens e cuja tensão regulam pelas indicações dos 2 sargentos. Arvorado o mastro e depois de o assentar numa base isoladora, trata-se da fixação das espias e dos fios de antena, ligando-se as primeiras a estacas de ferro colocadas na altura, e os fios a estacas de madeira que no começo do trabalho foram já enterradas em pontos determinados. Finalmente, monta-se o sistema que constitui o compensador, ou contrapeso elétrico (nota: hoje chamado plano de terra), formado por 12 cabos de bronze irradiando do centro e enterrados a cerca de 30 cm.

Uma nota final para uma correção – na pág 65 do livro ‘As Transmissões Militares’ as legendas das 4 fotos aqui reproduzidas identificam erroneamente esta Estação como Marconi, quando na realidade se tratava da Telefunken.

Instalação e Operação da Estação móvel Telefunken FK3

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Um comentário a “As primeiras experiências de TSF móvel

  1. Como sabem, sou até agora, o único elemento da CHT que tem defendido – e paraticado – as virtudes do comentário como testemunho de apreço e agradecimento ao autor do post pelo seu esforço e pelo que me ensinou.
    Neste caso tenho mais razão para isso visto que o Canavilhas baseou o seu post no “Relatório de receção e conformidade” cujo original se encontra na Caixa 102 do Arquivo da CHT, de que teve conhecimento exatamente porque eu estava a consultar aquela caixa.
    Penso que o excelente post que elaborou permite acentuar o interesse do Arquivo da CHT como manancial inesgotável de documentos que permitem inspirar posts, a quem os desejam fazer.

    Antes de apresentar algumas notas que recolhi sobre os equipamentos Telefunken queria aconselhar, mais uma vez os elementos da CHT a consultar o Arquivo da CHT pois terão muitas surpresas.

    A primeira nota que apresento refere-se ao facto de que, para além dos equipamentos referidos no Relatório (duas estações fixas e duas móveis) havia também um equipamento de dimensões mais reduzidas, destinado a instrução. Este equipamemto em 1938 ainda existia no Batalhão de Telegrafistas segundo dizia Afonço do Paço, no seu livro, que estou a citar de cor.
    A segunda é retirada das “Notas” de Bastos Moreira (2º Volume, pág. 24) que nos indica que ” Em 1912 estas estçãoes serviram para a instrução da primeira grração de radiotelegrafistas” e que ” Em 1914 foi uma delas instalada em S: Julião da Barra para ligação do Exérecito com os navios da Marinha de Guerra. Também com essas estações se estabeleceu a ligação Paço de Arcos-Trafaria.”

    A terceira é uma nota extraída do livro de Fernanda Rollo “História das Telecomunicações em Portugal”, pág.105 que julgo ter interesse para o Canavilhas pois mostra que nos Açores estiveram ligados ao pioneirismo das telecomunicações radiotelegráficas em, Portugal: ” Fascinadas com a dispersão geográfica e a ampla faia costeira do terriório português, várias empresas internacionais pressionaram o Governo, procurando obter o exclusivo da instalação da TSF em Portugal. Na Câmara dos Deputados, as priopostas avolumavam-se , mas a débil situação do Tesouro obrigaria os governantes a adiar a instalação de um serviço público de radiotelegrafia. A era comercial da TSF só chegou a Portugal com, a assinatura, a 11 de Fevereiro de 1905, do contratao entre a Eastern Telegraph Company e o Governo.
    Circunscrito ao arquipélago dos Açores, o acordo previa o estabelecimento de estações radiotelegráficas (equipadas com sistemas de transmissão De Forest e de receção Amalgamated nRadio Telegraph Company ) em S: Miguel, Santa Maria, Faial, Flores e Corvo.”
    De referir que neeste contarto se realizou 4 anos antes do contrato para aquisição pelo Exército dos equipamentso Telefunken.

    Finalmente uma nota apenas para referir que na Caixa 102 se encontra .um trabalho do tenente de Engenharia Soares Branco intitulado ” A Telegrafia sem fios em Espanha” publicado na Revista de Emgenharia , correspondente aos meses de outubro, novembro e dezembro de 1912 e de que apenas refnos interessa referir aqui que os equipamentos base da rede militar espanhola eram. nessa altua, fundamentalmente Telefunken.

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