A MANOBRA e a UNIDADE DE COMANDO


Quando a CHT começou a planear o livro sobre a História das Transmissões, que depois foi publicado com o título As Transmissões Militares – Da Guerra Peninsular ao 25 de Abril, propus que se elaborassem alguns pequenos textos teóricos e de reflexão, a incluir, se fosse caso disso, nesse projecto. Eram ao todo mais de uma dezena e logo o General Pereira Pinto fez questão de se encarregar de alguns deles. Julgo que os textos foram depois distribuídos a todos os membros da CHT, mas, como não vieram a ser utilizados, ficaram esquecidos. Nessa altura disponibilizei-me para preparar os textos para publicação, o que agora posso cumprir, através do nosso blogue. Por isso, aqui fica o primeiro, da autoria do General Pereira Pinto, como homenagem à sua memória.

“A MANOBRA E A UNIDADE DE COMANDO COMO PRINCÍPIOS DA GUERRA. O CASO DAS TRANSMISSÕES

1. Princípios da guerra
Os princípios da Guerra são sempre as portas de entrada em qualquer estudo de estratégia militar.
Compreende-se que assim seja exactamente por se tratar de princípios; contudo, tal facto leva á tentação de se encontrar para eles definições mais ou menos estereotipadas, acabando por não se perceber que eles não carecem de definição exacta, já que, como princípios, devem ser antes interiorizados.
Assim, no planeamento de qualquer acção militar, e antes de tomar a decisão final, haverá que a aferir com cada um dos princípios da guerra (que devem estar sempre presentes no espírito do decisor), para aquilatar se, e quanto, cada um dos princípios está contidos na decisão. O melhor plano será o que melhor satisfizer a todos ou a mais princípios. E, se algum deles não for contemplado ou o for com grandes limitações, o plano não deve aceitar-se.
Vejamos os princípios da guerra, normalmente considerados:
Unidade de Comando ou Coordenação – sem unidade de comando é impossível conduzir uma guerra;
Objectivo – todas as acções tem de ter um objectivo;
Ofensiva ou Iniciativa – só a ofensiva conduz à vitória;
Manobra ou Flexibilidade – é necessário garantir mobilidade ao dispositivo para se poder atingir o Objectivo;
Massa ou concentração de esforços – é necessário fazer a concentração dos meios para se atingir o êxito da acção;
Economia de Forças ou Meios – é necessário ter forças no momento oportuno;
Surpresa – a surpresa diminui a capacidade de resposta do Inimigo;
Segurança – é necessário, em todos as circunstâncias, garantir a segurança das nossas forças e dos seus dispositivos, prevendo as manobras possíveis do inimigo;
Simplicidade – todas as acções devem ser facilmente compreendidas para poderem ser melhor executadas.
Tomando estes princípios como axiomas, a melhor forma de os verificar, na sua aplicação, é considerá-los num sistema de eixos de coordenadas, onde se colocam as possíveis ideias de manobra concebidas. E, para cada uma delas, avaliar qualitativamente, as posições obtidas. A melhor ideia é a que mais satisfizer a todos os princípios. Contudo, a opção a tomar depende, no fim, do saber do comandante.
Mas há perguntas que o comandante sabe que merecem ponderação e resposta clara. Vejamos algumas:
•A ideia de manobra explicita bem o objectivo final a atingir em quaisquer circunstâncias?
•A ideia de manobra é simples, na sua concepção, compreensão e razoavelmente simples na sua execução?
•Está prevista e estará sempre garantida uma boa coordenação entre os seus executantes?
•Estão previstas condições que permitam garantir sempre a iniciativa, mesmo quando já não for possível atingir o objectivo fixado?
•A acção tem condições de flexibilidade que permitam fazer reajustamentos na conduta e no dispositivo, para manter a iniciativa, atacando, defendendo ou recuando?
•O plano permite ou dispõe de meios para, se necessário, concentrar esforços num dado local da acção em tempo oportuno?
•No planeamento foi tido em conta, em todas as circunstâncias, o princípio da economia de meios, fazendo com que, para cada acção, haja um acertado equilíbrio entre as necessidades e o investimento de meios, sejam eles de combate ou logísticos?
•Está salvaguardado o segredo da operação e garantidas as acções de decepção possíveis para usar a surpresa?
•Foram tidos em conta todos os pontos fracos do dispositivo inicial e dos que se preveja que possam surgir ao longo da acção, assim como as melhores soluções, quando necessário, para se garantir a segurança?
•Foram formuladas outras perguntas, com base na verificação do cumprimento dos princípios, assim como da sua conjugação?

2. As Transmissões e os princípios da guerra
Em todas as circunstâncias, a todos os agentes que interferem numa ideia de manobra, se aplicam os princípios da guerra, sendo alguns de incidência particularmente relevante para cada um dos componentes. Assim, para as transmissões, deve realçar-se o seu contributo para a unidade de comando/coordenação e para a manobra.

Unidade de Comando
Este princípio, que corresponde a uma ideia fundamental de necessidade indiscutível, toma, na versão COORDENAÇÃO, uma especial relevância para as Transmissões. É que, Coordenação significa permanente intercâmbio de ideais e de informações, que permitam a criação e manutenção de uma verdadeira identidade de objectivos e de vontades, no sentido do sucesso final.
Mas, para que tal coordenação se realize, e porque será cada menos viável conduzir qualquer acção por contacto directo e imediato, que implicaria a presença dos intervenientes, é aqui que surge a necessidade de comunicações de relação, ou seja, de TRANSMISSÕES.
Muitos foram os meios de que as forças militares tiveram de lançar mão para obterem as informações necessárias à adequada avaliação de danos e à tomada de decisões, em especial durante a fase da conduta.
Começou-se por utilizar mensageiros, mensagens por pombos e até por cães, ao mesmo tempo que se procurava tirar partido dos sentidos do ouvido e vista às distâncias dos respectivos alcances; foi assim que surgiram os sinais sonoros, como cornetas e petardos, e as bandeiras, telas, semáforos, heliógrafos, fumos, para, a partir de meados do século XIX, se passar a utilizar electricidade de corrente contínua por fios, primeiro por sinais, depois pela transmissão da própria voz, para, a partir do início do século XX, se poder transmitir por ondas hertzianas.
E, neste campo, nunca mais pararam as evoluções técnicas que permitem hoje quase o comando e informações em tempo real.
Todos os meios de transmissão manterão sempre a sua aplicabilidade, desde que surjam necessidades de comunicar e se não disponha de meios mais evoluídos. O importante é fazer chegar ao destinatário a decisão do comando ou a informação obtida.
No exército dos EUA o lema das Transmissões (designadas por Signals) é: “THE MESSAGE GET THROUGH WHATEVER WE DO”. Que deve ser traduzido: “A MENSAGEM TEM DE SEGUIR, O QUE QUER QUE NÓS TENHAMOS DE FAZER”. A este lema deveria ser acrescentado: …DENTRO DAS CONDIÇÕES DE SEGURANÇA QUE TIVEREM SIDO FIXADAS PELO AUTOR.
E é justamente neste acrescento, que reside a necessidade de escolha do meio mais indicado, dentre os que existirem.
Em último caso, há sempre a hipótese do mais antigo, e porventura mais fiável dos meios, que é o mensageiro, devidamente escolhido, dotado com os desejáveis ou possíveis meios de transporte.

Manobra
O princípio da Manobra, que propomos como FLEXIBILIDADE, corresponde à necessidade em se prever a capacidade de adaptabilidade do dispositivo, por forma a tirar-se proveito do terreno, das condições atmosféricas, e também das fragilidades ou potencialidades do inimigo, as quais, no primeiro caso nos permitam atacá-lo no ponto e momento exactos para a nossa vitória, e no segundo, nos permitam colmatarmos atempadamente tais pontos fracos, impedindo o inimigo de deles se aproveitar.
A Flexibilidade toma uma importância excepcional para as Transmissões, especialmente nas que actualmente utilizam os mais sofisticados meios electro-electrónicos, pois exigem que se montem centros de transmissão de área, e neles, como nos sistemas instalados para servirem um dado dispositivo, sejam previstos portais adequados, disponíveis para a ligação de meios de campanha eventualmente a instalar, para possíveis adaptações de dispositivo.
Foi este princípio que levou as Transmissões a ter de evoluir em versatilidade, multiplicidade e diversificação. Por exemplo, quando surgiu a arma nuclear e se pensou em utilizá-la no campo táctico, logo surgiram concepções tácticas para, segundo elas, se poder combater em ambiente nuclear, conseguindo concentrar meios (Massa) reduzindo ao mínimo as possibilidades de constituir objectivos remuneradores à utilização de armas nucleares pelo inimigo.
Cerca de dois anos depois, começaram a surgir nos EUA conceitos novos para as divisões, tendo sido aprovados, então, os conceitos ROCID (Reorganization of Current Infantry Division), ROCAD (Reorganization of Current Armored Division) ROTAD (Reorganization of Typical Airborne Division).
Dessas, a ROCID veio a ser conhecida por Pentómica.
Pois bem, parece ter-se tido de esperar cerca de 10 anos, para que se concebessem e executassem, testassem, fossem aprovados e entrassem em fabrico, os terminais de feixes de 12 e 24 canais montados em viaturas, para permitirem a montagem de centros de transmissões de área, com a multiplicidade, versatilidade e flexibilidade de interligação, com grandes capacidades de ligação disponíveis, para a existência dos portais indispensáveis para que se pudessem montar, com aquelas Divisões, teatros de operações compatíveis com as exigências de flexibilidade e segurança.

3. O caso da Guerra Colonial – um pequeno apontamento
No que toca ao nosso problema da guerra colonial, de certo modo, embora de uma forma muito singela, o sistema de área acabou por se montar, através do STM. Era este que recebia e reencaminhava o tráfego, por via rádio – primeiro em morse, depois por teletipo e, nalguns casos, por feixes – ao longo do sistema até ao destinatário, ainda que tivesse de seguir, depois, por via de redes de campanha, que não eram atingíveis pelo equipamento ao serviço do autor da mensagem.
O que teve de se fazer em Angola, em Maio de 1961, ao colocar-se nos centros do STM o rádio AN/GRC-9 em escuta, em frequências e indicativos individualizados para receberem chamadas ocasionais por forças em deslocamento ou em montagem de novos dispositivos, corresponde, de facto, aos mesmos princípios”.

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Um comentário a “A MANOBRA e a UNIDADE DE COMANDO

  1. Este post é uma surpresa, pelo tema e por ser o primeiro trabalho publicado no Blogue da autoria do general Pereira Pinto, por feliz iniciativa do Aniceto Afonso.
    Trata-se de um tema académico. Em meu entender a sua aplicação tanto se refere à guerra como a qualquer outra atividade competit6iva. A utilidade que o autor lhe reconhece é permitirem avaliar a eficácia da manobra a adotar. No entanto a decisão sempre subordinada ao conhecimento e talento do chefe. Dentro do problema da guerra ser arte os ciência..

    Para mim o mais interessante deste post consiste na breve descrição da evolução das Transmissões ao longo dos tempos, feita a propósito do
    do princípio da unidadde de comando e, no que respeita ao princípio da flexibilidade, a referência à montagem de sistemas de transmissões de àrea que permitiam portais para as transmissões de campanha, o que foi praticado na guerra colonial.

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