Telégrafo de Chappe ou de Linguet?


‘Post’ do MGen Pedroso de Lima, recebido por msg:

Até agora não tinha dúvidas de que o inventor do telégrafo Chappe tinha sido Claude Chappe. Porém, fiquei com algumas dúvidas depois de ler um folheto, editado pela Arma de Engenharia, assinado pelo capitão de Engenharia Flávio dos Santos e que pertence à biblioteca da colecção visitável do RTm. Não indica a data, mas calculo que seja dos anos trinta ou quarenta do século passado.

O texto diz o seguinte:

“Numa memória, impressa em Lisboa em 1796, com a descrição do aparelho de Chappe, “máquina que tanta bulha fez na Europa” (sic) é contestada a invenção a Chappe atribuindo-a ao publicista francês Linguet que, estando preso na Bastilha, em 1792, tinha oferecido à Convenção Nacional em troca da sua liberdade ensinar um meio rápido e seguro de comunicar notícias. Tendo conquistado a liberdade por outro meio, o seu projecto foi esquecido; preso novamente e morto no cadafalso (1794), os seus papéis foram desviados e caíram nas mãos de Chappe.”

Segundo este texto a autoria do “telégrafo de Chappe” teria sido de Linguet.

A respeito disto apresento as seguintes observações:

• Linguet existiu realmente (Wikipédia). Chamava-se Simon-Nicholas Henri Linguet (14 Julho 1736 – 27 Junho 1794), foi jornalista e advogado e publicou vários livros entre os quais “Memoirs of the Bastille,” (Dublin, 1783; reprint with notes 2005). Era absolutista. No entanto nada diz sobre a sua invenção do telégrafo.
• Na sua conferência no Museu Militar sobre Ciera, o coronel Costa Dias referiu que “Em Lisboa, em Julho de 1796, foi impresso no Palladio Português um caderno intitulado “Memória sobre o Telégrafo”, tradução de uma carta escrita de Paris a Leypsic.”

Permito-me acrescentar ainda acrescentar que;
• Da leitura do Google a respeito de Lauret não encontrei nada sobre a sua invenção telegráfica.
• Sobre Claude Chappe verifiquei que ele, anos antes de 1794 (ano em que teria tomado conhecimento dos trabalhos de Lauret) já trabalhava em telégrafos, tinha feito experiências e até em 1972 tinha feito uma proposta à Convenção. Aparentemente as ideias de Lauret não vinham acrescentar grande coisa aos trabalhos que já desenvolvera.
• Por outro lado Claude Chappe suicidou-se. O suicídio teve a ver com as suspeitas do seu “plágio” de Lauret ou de outros? É coisa que não sabemos.

Uma das formas de esclarecer estas dúvidas é colocar o problema no Blogue na esperança de que haja quem já tenha encontrado resposta.

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3 comentários a “Telégrafo de Chappe ou de Linguet?

  1. No caderno referido “Memória sobre o Telégrafo” é atribuído a invenção e descoberta do telégrafo de Chappe ao jurisconsultor Linguet

  2. Agradeço ao Canavilhas ter sido o primeiro elemento da CHT a fazer um comentário a um post meu: Já era tempo, após 5 tentativas sem qualquer sucesso. Ainda por cima com a virtude de acrescentar novos elementos ao problema posto.

  3. O telégrafo “Chappe” foi de inicio, e durante muito tempo, conhecido por telégrafo dos irmãos Chappe. Na realidade, se é verdade que foi o abade Claude quem propôs o sistema à Assembleia Legislativa em 1792, também é verdade que o seu irmão Ignace (1760-1829), era, à altura, um membro muito influente quer da Assembléia, durante a Revolução francesa, quer do Comité de Instrução pública (responsável pelos novos inventos), o que muito contribuiu para a sua aprovação e financiamento. Aliás, os 5 irmãos Chappe (Ignace, Claude, Pierre, René e Abraham) estiveram todos envolvidos nas experiências e na construção, em 1794, da primeira linha de telégrafos, entre Paris e Lille, bem como na posterior operação e manutenção do sistema. Num livro publicado em 1824, Ignace afirma que os Chappe comunicavam entre si de forma rotineira numa distância de 5 léguas já em 1789, o que não parece muito credível e pode ter pretendido afirmar e salvaguardar o pioneirismo de Claude Chappe, face às muitas propostas da época para telégrafos, como a de De Courrejolles (em 1783), que mais tarde o acusou de plágio, ou as de Bréguet, Bétancourt e Linguet, entre outros. A contestação foi tal que, quando Claude adoeceu, convenceu-se que tinha sido envenenado pelos seus adversários e entrou numa depressão que o levou ao suicidio em Janeiro de 1805, aos 41 anos (atirou-se a um poço). Mas a polémica arrasta-se até aos dias de hoje. Curioso de referir aqui que, para a feitura das primeiras tábuas de códigos, os Chappe tiveram o apoio de Léon Delauney, um primo que tinha trabalhado na embaixada francesa em Lisboa e aqui ganho experiência em cifras e códigos diplomáticos. Também de referir que só em 1812 Abraham Chappe foi mandatado por Napoleão para desenvolver uma versão móvel, de campanha, do telégrafo de Chappe, pelo que dificilmente os franceses poderiam ter usado telégrafos durante as Invasões Francesas, como por vezes é aventado. Fonte principal: Harvard School of Engineering.

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